Bufo & Spallanzani
Capítulo III
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
“O que aconteceu com ela?” (Minha voz trem ia. Ah, com o m inha voz trem ia!)
“Fugiu. Esta parte é interessante. Certa ocasião eu li a m ão dela — foi quando m e apaixonei — e previ, em linhas gerais, o que iria acontecer. Fiquei sem vê-la algum tem po, e não podíam os ficar longe um a da outra, é o destino, e sabe onde a encontrei novam ente? Sabe onde?”
“Não.”
“Prepare-se para um a surpresa”, ela disse.
“Nada surpreende um escritor”, repeti, m as sem a ênfase da prim eira vez.
“Não sabe não. Am anhã, ou talvez logo à noite, eu lhe diga, e a todos aqui, quem ela é. Hoj e não direi m ais nada, apenas isto: o m arido dela não m orreu, não foi nem m esm o atingido.”
“Então ela não é o nosso assassino?”
“Não, não é o nosso assassino.”
“Você está elim inada da nossa brincadeira, sabia? Não seguiu o seu tem a”, eu disse.
“O m eu tem a era sapo. Alguém pode escrever, excluído você, é claro, um a história sobre sapos?”
“Vou lhe contar um segredo, m as não o diga para ninguém , nem para Eurídice. Dei o tem a sapo para todos os outros”, eu disse.
“Você é danado, hein? Porém , cuidado, eu li as cartas do Tarô. Sei o que aconteceu e tam bém tudo que vai acontecer. As cartas não m entem j am ais.”
Quando publico um livro de contos dizem que são inferiores aos m eus poem as; os m eus poem as, por sua vez são considerados inferiores aos m eus rom ances; m eus rom ances policiais são inferiores aos m eus rom ances de am or etc. Para não falar dos equívocos que j á foram escritos em relação às m inhas peças teatrais. O m undo da arte é o m undo da invej a e da picuinha.
Quando não podem dizer que um livro m eu é ruim , dizem que sou m ulato. Não estou interessado no que os outros dizem ou pensam de m im , nem m esm o no que as m ulheres pensam de m im , desde que continuem indo para a cam a com igo. Cham am -m e de m aníaco sexual, m as o que querem que eu faça com o m eu pau que vive duro? Pau duro foi feito para enfiar na boceta das m ulheres etc. Até índio sabe disso. Passei m uitos anos de abstinência, tenho um m etro e noventa de altura e peso m ais de cem quilos, acho que j á disse isso. Aliás, que conversa era aquela?
Tergiversava, sentia febre. Que tal contar um a piada: não faço nem nunca fiz ginástica, sou extrem am ente preguiçoso, a única ginástica que faço é segurar a alça do caixão dos am igos que fazem ginástica (ver Churchill).
Logo que cheguei ao m eu bangalô, prostrei-m e na cam a. Ela fizera com igo um j ogo de gato e rato, e o rato era eu. Sentia o m eu corpo arder de febre, a coceira piorara.
No espelho do banheiro vi o m eu rosto e o pescoço verm elhos e inchados, não apenas nos locais das picadas. O corpo ainda estava pior. Eu devia ser alérgico a picada de carrapatos. Fui ao Casarão e procurei Trindade, m as ele havia saído com os hóspedes, num a excursão a cavalo, só voltaria no fim da tarde.
Perguntei a dona Rizoleta se havia um rem édio que pudesse m e dar. Ela disse que havia um a inj eção, m as que ninguém sabia aplicá-la, som ente Trindade. Eu não ia esperar Trindade, acabaria m orrendo antes dele chegar da excursão. Mandei que ela trouxesse o rem édio, um a am pola de Fenergan e um a seringa com agulha, descartáveis. Eu m esm o apliquei a inj eção no m eu braço esquerdo.
Voltei m eio tonto ao bangalô. Eu era m uito sensível a m edicam entos entorpecedores. Se tom asse um Valium dorm iria três dias seguidos. A inj eção de Fenergan m e deu um sono tão grande que esqueci Suzy, esqueci tudo, esqueci até m esm o o alm oço. Caí na cam a e dorm i logo.
Fui acordado à noite, por Trindade. Diz ele que dem orei m uito a acordar. Eu sei que ainda estava m eio tonto quando abri a porta e ele irrom peu pelo bangalô exclam ando “m ataram dona Suzy !”. A princípio não entendi bem o que ele dizia. Trindade teve que repetir várias vezes a sua história.
Trindade, Carlos, Eurídice, Juliana, Orion, Vaslav e Rom a haviam saído logo depois do café para um piquenique na m ontanha. Chegaram ao Refúgio por volta de quatro horas da tarde e Eurídice não encontrara Suzy no bangalô. Ela não dera im portância a isso e, cansada da excursão, deitara-se para dorm ir um pouco, até a hora do j antar. Pouco antes do anoitecer um em pregado encontrara Suzy, m orta atrás de um a m oita, não m uito distante do seu bangalô. Trindade avisara pelo rádio o delegado de Pereiras, m as o policial só chegaria no dia seguinte, era im possível viaj ar à noite para o Refúgio.
“Delegado de polícia?”, perguntei. “O que tem a polícia com isso?”
“Dona Suzy foi assassinada”, disse Trindade. Acrescentou que os outros hóspedes estavam naquele m om ento reunidos no Casarão e pediam a m inha presença.
No salão de refeições do Casarão as m esas haviam sido unidas e os hóspedes sentavam -se em torno delas. Quando entrei com Trindade, pararam de conversar. Sentei-m e num a das cadeiras vazias. Orion pigarreou. Então ele ia ser o porta-voz!
Ainda dem orou um pouco a falar.
“Nós acham os que Suzy foi assassinada hoj e à tarde, quando estávam os no piquenique’’, fez um gesto indicando os outros hóspedes. Eurídice tinha o rosto entre as m ãos; Carlos estava m ais pálido do que o norm al; Juliana evitou olhar para m im ; Rom a e Vaslav, sérios, pensativos.
“Por acaso você a viu hoj e? A últim a vez que os em pregados a viram foi na hora do alm oço. Mas você não veio alm oçar, não é?”
Alguém sem pre faz o papel de polícia, não adianta m atar todos os Guedes.
“Os carrapatos m e m orderam , fiquei todo inchado e tom ei um a inj eção que m e derrubou”, eu disse.
Olhei para as m inhas m ãos e calei a boca. Levantei a m anga e olhei os braços. Minhas m ãos e os m eus braços estavam norm ais. Levantei-m e e, seguido pelos olhares de todos, fui até um espelho na parede do salão e olhei o m eu rosto. Não havia o m enor sinal das m ordidas dos carrapatos. Voltei, sentei-m e e disse: “Essa inj eção é um a m aravilha”.
Novo silêncio. Um olhar furtivo de Juliana. Eurídice continuava com a cabeça enfiada nas m ãos. Eurídice devia ser a m ulher que tentara m atar o m arido.
Tentei relem brar em detalhes a conversa que tivera com Suzy naquela m anhã. Só Eurídice poderia ser a Maria da história que Suzy contara; não podia ser Rom a, não podia ser Juliana.
Suzy, irritada com Eurídice, devido ao seu nam oro com Carlos, resolvera denunciar a am ante. Algum a coisa, porém , não funcionava nesse raciocínio. Seria tudo um a pura invenção de Suzy ? Novo pigarro de Orion cortou o raciocínio que eu fazia.
“Um a arrum adeira disse que lhe entregou um bilhete de Suzy, hoj e de m anhã.” A voz do m aestro estava solene, com o a de um m agistrado.
“Que é isso? Estão achando que m atei Suzy ? Estão m alucos?” Levantei-m e, j ogando a cadeira no chão.
“Calm a, seu Gustavo, calm a’’, disse Trindade. Só então percebi que ele tinha um revólver na cintura, cuj o cabo segurou e largou.
“Ninguém está dizendo isso. Apenas estam os preocupados”, disse Rom a. “Sabe de um a coisa? Já escrevi a história baseada no m ote que você m e deu.”
“O tal Erm itão foi visto vagando pelo Refúgio”, disse Vaslav.
“Isto tudo é um absurdo”, disse Carlos com tanta veem ência que sua voz ficou com o a de um a m ulher, “nem o Erm itão nem o Gustavo têm nada a ver com a m orte de Suzy ”.
“Alguém a m atou”, disse Orion.
“E aqui estam os nós, no alto de um a m ontanha, sem poder sair, cercados por um a floresta virgem , em com panhia de um assassino”, disse Rom a.
“Am anhã o delegado de Pereiras estará aqui”, disse Trindade.
“Onde está o corpo dela?”, perguntei.
“No bangalô. Eurídice vai passar a noite aqui no Casarão, arranj am os um quarto para ela, perto do nosso”, disse Trindade.
“Vou dorm ir. Boa noite”, eu disse. “E você, Eurídice? Não diz nada?”
Ela continuou com o rosto entre as m ãos.
Saí deixando os outros em volta da m esa.
Naquele dia eu deixara, num único e m esm o dia, de alm oçar e j antar, pela prim eira vez desde que Minolta fizera de m im um hom em novo.
E tam bém deixei de dorm ir, o que era raro. Passei a noite acordado, rolando na cam a. Lem brei-m e de Delfina Delam are, lem brei-m e do m ingau de m aisena com canela que m inha m ãe fazia quando eu era pequeno, lem brei-m e até do pobre coveiro do cem itério São João Batista.
O delegado de Pereiras chegou às onze horas. Da varanda do Casarão vi o trator com a carreta se aproxim ar lentam ente. O
delegado devia ser o hom em de grossos bigodes que vinha no banco da frente, com dois outros hom ens. No banco de trás havia um a m ulher que reconheci com enorm e surpresa e alegria. Era.
Minolta, a m inha Minolta querida.
Mas eu teria um a surpresa ainda m aior. No últim o banco da carreta, encoberto pelos outros, havia um hom em vestido com um blusão sebento, e ao vê-lo o m eu coração disparou de susto. Era Guedes. Guedes, o tira que eu havia pensado nunca m ais ver em m inha vida.
IV
A PROSTITUTA DAS PROVAS
1
A Igrej a que Guedes, o tira, freqüentava considerava a confissão um dos elem entos fundam entais do sacram ento da penitência — o arrependim ento do pecado, sem o qual não há salvação. A lei — o Código Penal ao qual ele se subm etia —considerava circunstância atenuante da pena a confissão espontânea de crim e de autoria im putada a outrem . Guedes, com o um velho tira e um velho católico, sabia, porém , que a confissão, do crim inoso ou pecador, só tinha algum valor se corroborada por outros elem entos de convicção.
Ainda garoto ele deixara de se confessar; achava hum ilhante e de certa form a absurdo aj oelhar-se perante outro hom em para relatar seus pecados, afirm ar seu arrependim ento e rem ir-se das suas culpas (ver Dec. Concilio de Trento, seção XIV, capítulos 1 a 9).
Tam bém na polícia a confissão o repugnava, pois era obtida através da violência, absoluta ou psíquica — o que era a m esm a coisa: para m uitos o m edo era a m elhor form a de tortura.
Ter aversão a todas as form as de confissão e ser m em bro de duas instituições que acreditavam na essencialidade do confiteor, talvez explicasse o raciocínio tortuoso do tira, que estou tentando, com equanim idade, elucidar.
Quando Agenor da Silva confessou, na Delegacia de Vigilância, que havia m atado Delfina Delam are, a prim eira preocupação de Guedes foi esclarecer se a confissão havia sido obtida sob tortura.
Com o o hom icídio, m ais grave que a tentativa de assalto, havia sido com etido na j urisdição da sua delegacia, Guedes conseguiu obter a transferência do preso. Ele m esm o, acom panhado por um detetive da 14ª, foi apanhar Agenor na Vigilância. O delegado de plantão, Wilfredo, quando Guedes chegou com a ordem de rem oção de Agenor, disse: “Fizem os o serviço para vocês. O cara contou tudo”.
Guedes conhecia Wilfredo. Sabia que ele não era violento.
Perguntou “Foi você que interrogou o hom em ?”.
“Não. Dá um a olhada na folha penal dele.”
Guedes pegou a folha penal que Wilfredo tirara de um a gaveta.
“Posso levar?”
“Leva.”
“Quem interrogou o Agenor?”
Havia sido um tal de Ribas, recém -saído da Escola de Polícia. Guedes pediu licença para ir falar com Ribas.
A Delegacia Especializada de Vigilância ficava num sobrado velho na rua Marechal Floriano. Em baixo, na entrada, ficava a sala do delegado de plantão. Ao fundo, localizavam -se a sala do pessoal da carceragem e o xadrez. No andar de cim a estavam as salas de vários serviços que integravam a delegacia.
Guedes subiu por um a escada periclitante de m adeira, cuj o corrim ão estava com ido por cupins, até ao andar superior.
Encontrou Ribas num a pequena sala de basculantes de vidro quebrado. Era um hom em m agro e alto, de barbas; usava um casaco de couro, ainda m olhado da chuva que caía na rua e um gorro de lã verm elho e preto na cabeça.
“Sou da 14ª”, disse Guedes, “vim apanhar o Agenor da Silva.”
“A carceragem é lá em baixo”, disse Ribas.
“Eu sei. Queria falar com você. Tem um m inutinho?”
“O que que é?”
“Você deu algum aperto no Agenor para ele confessar que m atou aquela dona?”
“Não encostei a m ão nele. Sou contra isso.”
Ribas contou com o fora a prisão. Ele, com outro colega, fazia a ronda num cam burão, em Benfica, quando um a m ulher parou o carro e disse que um hom em estava assaltando um a padaria na rua Prefeito Olím pio de Mello. Eram sete horas da noite.
“Dem oram os um pouco a chegar, por burrice do nosso m otorista, m as por sorte nossa o hom em ainda estava lá, apontando o revólver para o portuga da caixa. Quando nos viu j ogou o revólver no chão e levantou as m ãos. Quando fom os colocá-lo no cam burão disse que não precisávam os bater que ele contava tudo. Mas na hora não quisem os papo e m etem os ele na caçam ba. Quando chegam os aqui ele disse que queria falar com igo um assunto reservado. Eu disse que não queria assunto reservado com ele, que falasse na frente dos outros. Quando ele disse que tinha m atado aquela m adam e eu trouxe ele aqui para dar o serviço inteirinho. Nem cara feia eu fiz para ele. Ele foi falando e eu ouvindo.”
Delfina, segundo a confissão de Agenor, estava parada no sinal de um a rua do Leblon no volante da Mercedes, à noite, quando ele decidiu assaltá-la. Não era a prim eira vez que ele com etia esse tipo de assalto. Entrou rapidam ente pela porta direita do veículo apontando o revólver para Delfina.
Algum as pessoas teriam visto o assalto, m as ninguém fez nada, m esm o porque o sinal abriu e Agenor m andou que Delfina arrancasse com o carro. Vagaram pela cidade, ele queria um lugar para estuprar a m ulher, m as os vários locais que escolheu acabaram não servindo: num , havia um a patrulhinha; noutro, notou que pessoas num carro o observavam e ficou com m edo que fossem avisar a polícia, até que decidiu ir para a Floresta da Tij uca. Mas nem ele nem a m ulher conheciam o cam inho e acabaram num a rua sem saída (rua Diam antina, onde o corpo foi achado). Ao chegarem nessa rua, Agenor ficou nervoso e m andou que a m ulher desse a volta e saísse logo dali. Mas ela estava assustada e o carro enguiçou. Ele deu um tapa não m uito forte na m ulher e ela com eçou a gritar. Com m edo que alguém aparecesse, Agenor atirou na m ulher. Depois abriu a bolsa dela, apanhou a cigarreira de ouro, e saiu do carro o m ais depressa que pôde.
“Por que ele não levou o relógio de ouro que ela tinha no pulso?”
“Por quê? Não sei. Não perguntei. Eu não sabia que ela tinha um relógio de ouro no pulso. Olha aqui, Guedes, esse cara não foi esprem ido. Ele estava doido para confessar tudo. Esse tipo existe, você sabe disso m elhor do que eu, que sou novo na casa, o cara está com a consciência pesada e tem que aliviar. Não apertei, para que vou m entir para você? Você não é o delegado corregedor.’’
Ribas não estava m esm o m entindo, pensou Guedes.
Desceram até a carceragem .
Num xadrez onde caberiam , caso se deitassem lado a lado, quinze presos, estavam trinta. Os m ais fracos tinham que dorm ir de pé. Alguns, entre os m ais fracos, eram periodicam ente m ortos para aliviar a pressão e, através da repercussão pública, forçar as autoridades a m elhorar as condições em que viviam os encarcerados. Se excluirm os o aspecto reivindicatório, isto era algo parecido com o que fazem os ratos.
Agenor estava deitado em m eio m etro de xadrez, e um suj eito abanava-o com um j ornal. Não era verão, m as naquele xadrez superlotado fazia m uito calor.
O carcereiro bateu com o m olho de chaves nas grades e gritou “Agenor da Silva, Agenor da Silva!”.
Agenor, que estava sendo abanado com folhas de j ornal pelo outro preso, com o um califa (pensam ento de Guedes), ao ouvir o seu nom e levantou-se pressuroso e disse “sou eu, sou eu”, e abriu cam inho, ou m elhor, os detentos se apertaram para abrir cam inho para ele.
“Venha”, disse o carcereiro, abrindo a porta de grades de ferro.
Agenor acom panhou o carcereiro até a sala de Ribas.
“Você está sendo transferido para o xadrez da 14ª”, disse Ribas. “O inspetor Guedes vai levar você.”
“Para a 14ª? Por quê?” Ele parecia preocupado.
“Você m atou a m ulher na nossa j urisdição”, disse Guedes.
Ribas segurou Agenor pelo braço para levá-lo para a sala do delegado Wilfredo.
“Ele é o xerife da cela?”, perguntou Guedes.
“Ele? Não, esse cara é cuzão, pé-de-chinelo”, respondeu Ribas, sem dar im portância ao preso que ouvia o diálogo entre os dois tiras.
Guedes, j á na sala de Wilfredo, olhou m elhor o preso: inquieto, roendo as unhas. “Posso dar um telefonem a, doutor?”
“Pode”, disse Guedes, fazendo um sinal para Wilfredo.
“Com o vai a turm a da 14ª?”, perguntou Wilfredo. “Ouvi dizer que o Ferreira foi transferido para Bangu. Ele não deve ter gostado.”
“Até agora não saiu nada no Boletim ”, disse Guedes.
Guedes conversava com Wilfredo m as estava interessado no que Agenor falava ao telefone: “Avisa que eu estou indo para a 14ª
no Leblon. Você sabe quem ... você é burra, hein?”.
“Existem lugares piores do que Bangu”, disse Wilfredo.
“É verdade”, disse Guedes.
“Não se esqueça. A 14ª”, disse Agenor, desligando o telefone.
“Obrigado, doutor.”
Guedes fingiu que não ouviu o agradecim ento de Agenor.
Conversou m ais um pouco com Wilfredo, pensando porém na conversa de Agenor ao telefone. A quem m andara a m ulher (“você é burra, hein?”) avisar que fora transferido para a 14?? Um advogado? Se ele tinha um advogado por que não ligara diretam ente para ele? Se não era o xerife por que tinha alguém o abanando dentro do xadrez? Dinheiro ele não tinha para com prar tanta segurança e conforto. Nem força bruta e coragem para conquistar seu espaço naquele cubículo.
“Vam os”, disse Guedes.
Pegaram um cam burão da 14? que esperava por eles.
Guedes colocou Agenor entre ele e o m otorista. “Tenho que fazer um a diligência”, disse Guedes. “Deixa a gente perto da Candelária.”
Guedes e Agenor saltaram na Candelária, esquina da rua da Quitanda. “Por aqui”, disse Guedes.
A rua da Quitanda era vedada ao trânsito de veículos. O tira e o seu prisioneiro foram andando pelo m eio da rua. Quem visse os dois pensaria que não estavam j untos. Guedes ia um pouco à frente, olhando os núm eros dos prédios, com o se estivesse procurando algum endereço. Agenor seguiu-o tenso e assustado.
Duas vezes parou na rua, atônito, olhando apressadam ente, ora as costas do tira que cam inhava, ora o outro extrem o da rua. Mas logo, nas duas ocasiões, apressou o passo e j untou-se a Guedes.
Da rua da Quitanda foram até a garagem Menezes Cortes, na rua São José, onde Guedes perguntou se ele não queria tom ar um cafezinho. Tom aram cafezinho em pé, num a das galerias da garagem . Um a m ultidão se m ovim entava pelos corredores da garagem com o térm itas num im enso cupinzeiro. Dali foram para a rua Erasm o Braga e houve um m om ento em que Agenor quase se perdeu de Guedes no m eio daquela m assa vibrante de gente.
Foram j untos num ônibus refrigerado Castelo—Leblon.
Quando entraram no aterro do Flam engo, Guedes disse: “Esqueci m inha m edalhinha de são Jorge e não gosto de andar sem ela”.
Um a declaração m entirosa com a qual Guedes tentava iniciar um a conversa com Agenor. Pelos cálculos do tira, Agenor devia ser devoto de são Jorge, m angueirense (tendo em vista o local de sua residência, que ele vira na ficha da Vigilância) e torcedor do Flam engo. Ele pretendia conversar sobre estes tem as com o preso durante a viagem . Acertou nos dois prim eiros palpites. Porém , em vez de rubro-negro, Agenor era vascaíno.
“Eu tam bém sou Vasco”, disse Guedes.
Durante a viagem falaram de futebol e carnaval.
“Acho que não é tão cedo que eu vou ver a m inha Mangueira na passarela”, disse Agenor, com os olhos m olhados de lágrim as.
“Nem o Vasco no Maraca.”
“A gente deve pensar duas vezes antes de fazer besteira”, disse Guedes.
“Mas eu —”, Agenor calou-se, enxugando os olhos.
Ao chegarem à 14ª, Guedes registrou a entrada do preso e m andou o carcereiro recolhê-lo ao xadrez. O xadrez da 14ª ainda estava m ais lotado do que o da Vigilância. O escrivão-chefe veio confirm ar com Guedes se ele havia trazido Agenor, pois pretendia tom ar o seu depoim ento ainda naquele dia.
“Hoj e não”, pediu Guedes, “deixa para am anhã. Eu quero ter antes um a conversa com ele.”
“O Ferreira está querendo correr com o inquérito”, disse o escrivão.
“Am anhã você ouve ele”, disse Guedes. “Dá um a enrolada no Ferreira. Ele nem sabe que o cara j á está aqui.” O escrivão, que tinha boas relações com o tira, não pôde deixar de concordar.
Guedes tinha outras coisas a fazer, coisas que nada tinham a ver com igo e com esta história e que não relatarei aqui.
À noite, ao chegar em seu apartam ento, Guedes pegou um a folha de papel onde anotou:
1) Preso por assalto (que não chegou a realizar), confessou hom icídio do qual nem sequer era suspeito. Folha penal não registra nenhum assalto anterior. Nem hom icídio.
2) Xerife de cela, sendo bundão.
3) Diz que zanzou com m ulher procurando lugar para praticar estupro. Folha penal não registra nenhum estupro.
4) É ladrão, m as deixa de roubar relógio de ouro alegando falta de tem po. (Teve tem po de abrir a carteira da m orta.) 5) Tem várias oportunidades de fugir e não foge.
Noutra folha de papel:
1) Investigar telefonem a dado na Vigilância. (Com quem Agenor falava?
A quem m andou avisar da sua transferência para a 14ª?) 2) Descobrir a origem do 22. Onde foi com prado?
3) Ladrão, vigarista, intruj ão, cafetão, proxeneta, falsário. Nenhum crim e de violência. Um salivante, apenas.
Depois Guedes exam inou a folha penal de Agenor. Os crim es que com etera eram contra o patrim ônio (artigos 155, 168, 171, 180) ou crim es contra os costum es (artigos 227 e 230) ou crim e contra a fam ília (238) e finalm ente um crim e contra a fé pública (artigo 297). Sua atividade crim inosa não incluía um único “crim e contra a pessoa”, conform e capitulado no Código Penal.*
(*) A quem interessar possa. Os crim es acim a são, pela ordem : furto, apropriação indébita, estelionato, receptação; m ediação para servir à lascívia de outrem , rufianism o; sim ulação de autoridade para celebração de casam ento e, finalm ente, falsificação de docum ento público.
Colocou os papéis sobre a m esinha de cabeceira. O m eu livro Os am antes estava ali, m as ele não o pegou para prosseguir na leitura que iniciara dias antes. Creio que concluíra que a vida do autor e o que ele escreve têm um a relação tão superficial e m entirosa que não valeria a pena ler quatrocentas páginas para nada descobrir. Deitou-se, m as não teve o sono tranqüilo dos pequenos funcionários que cum prem a sua obrigação. Acordou várias vezes durante a noite e releu suas anotações. Além de ir urinar no banheiro.
2
No dia seguinte chegou ainda m ais cedo à 14.ª. Foi ao xadrez. O xadrez era um a cela grande, superlotada de presos.
Agenor estava num a delas, deitado sobre um colchonete e um cobertor fino, cinzento, cobria o seu corpo. Dorm ia, ainda.
“Leva o Agenor à m inha sala”, disse Guedes ao carcereiro.
Agenor entrou na sala de Guedes bocej ando.
“Dorm iu bem ?”, perguntou Guedes.
“Dorm i. Eu estava m uito cansado”, disse Agenor.
“Deu pra dorm ir direito? A cela não está m uito cheia?”
“Está, m as o pessoal lá é legal, a gente se aj eita, ninguém briga, sabe com o é, onde todo m undo colabora a vida fica m elhor.”
“Gente boa, estou vendo, arranj aram até um colchonete para você. Vam os tom ar café?”
Os outros policiais viram Guedes sair com o preso, m as o tira sebento era respeitado dem ais para alguém im pedi-lo ou m esm o criticá-lo por isso.
Tom aram café na avenida Ataulfo de Paiva.
“Com o foi que você m atou a m ulher? Você não é disso, você é um salivante.”
“Foi loucura”, respondeu Agenor.
“Conta com o foi.”
“Não gosto de falar nisso, seu Guedes.”
“Pra m im você vai ter que falar.” Brando, m as irrefutável.
“Eu j á lhe contei com o foi.”
“Conta de novo.”
Agenor contou m ais um a vez a sua história.
“Com o foi que você atirou nela?”
“Com o foi que eu atirei nela?”
“É. Tem tem po para pensar.”
Agenor coçou a bochecha. Ele tinha o hábito de fazer isso quando ficava nervoso.
“Com o é que a gente atira num a pessoa? A gente vira o revólver para ela e atira.”
“Você estava dentro ou fora do carro?”
“Dentro. Estava sentado ao lado dela.”
“Você encostou o revólver no corpo dela ao atirar?”
“Não. Não m e lem bro. Eu estava nervoso, ela gritava m uito.”
“Você j á havia atirado em alguém antes?”
“Não.”
“Onde você arranj ou o 22?”
“Com prei num cara lá do m orro.”
“Quem ?”
“Não vou dedurar um cara que é m eu chapa.”
“Pode dizer o nom e. Não vou fazer nada com ele.”
“Gibi.”
“Tem m uito Gibi na Mangueira. Diz com o é que ele é.”
“Mulato claro. Toca tam borim na escola. Gente boa.”
“Bem . Você atirou na m ulher. E depois?”
“Aí eu m e m andei.”
“E a cigarreira?”
“Ah, é, a cigarreira. Eu abri a bolsa e apanhei a cigarreira.”
“E o relógio?”
“Que relógio?”
“Ela estava com um relógio de ouro.”
“Eu não vi,”
“Você andou um tem pão com a m ulher dirigindo o carro e não viu um relógio de ouro m aciço no pulso dela?”
“Não vi.”
“E você foi parar naquela rua por que m esm o?”
“Eu queria ir para a Floresta da Tij uca, pensei que aquela rua fosse bater lá.”
“Você queria ir para a Floresta da Tij uca para estuprar a m ulher?”
“É.”
“Já estuprou alguém antes? Tua folha penal não registra nenhum estupro.”
“Ia ser o prim eiro. Era um a dona m uito boa. Não era?”
“Vam os voltar ao m om ento em que você atirou na m ulher.
Conta novam ente com o é que foi.”
“Nós chegam os naquela rua e então eu vi que ela não tinha saída e m andei a m ulher dar m eia volta. O carro m orreu e eu fiquei nervoso e bati nela. Ela com eçou a gritar, aí eu perdi a cabeça e atirei nela.”
“Continua.”
“Depois que atirei eu só pensei em sair dali. O carro m orreu e tam bém não sei dirigir. Me m andei.”
“E a cigarreira? Você sem pre esquece a cigarreira.”
“Abri a bolsa e apanhei a cigarreira.”
“O relógio você não viu.”
“É, não vi o relógio.”
“Vam os voltar ao m om ento em que você atirou nela. Você quer outro café?”
“Quero sim . Obrigado.”
Guedes pediu m ais dois cafés. Estavam em pé no balcão de um botequim . Não havia m ais ninguém além deles. Era ainda m uito cedo, o botequim acabara de abrir. O tira e o preso pareciam dois am igos conversando em voz baixa um assunto reservado.
“Você atirou na m ulher. Ela gritava com o?”
“Gritando.”
“Ela tentava fugir do carro, procurou se defender atacando você? Cada pessoa grita de um j eito, uns se descabelam , outros se encolhem , cada pessoa age de um a m aneira. Com o é que era ela?
Ela devia ser daquelas que se descabelam , pra te deixar tão nervoso.’’
“E com o.”
“E com o? E com o o quê?”
“E com o se descabelava.”
“O revólver. O que você fez com o 22?”
“Larguei pra lá.”
“Largou para lá?”
“Ah, não, botei na m ão da m ulher pra fingir que era suicídio.”
“E não viu o relógio de ouro?”
“Botei o revólver na m ão direita. O relógio devia estar na esquerda.”
“Sabe por que eu vim falar com você sobre esse assunto aqui num botequim ?”
“Não.”
“Pra te dar um a chance de dizer a verdade. Estou sendo legal com você.”
“Está sim , seu Guedes, m uito obrigado.”
“Enquanto isso você m ente descaradam ente para m im .”
“Não senhor.”
“Você diz que não sabe dirigir m as eu li na tua Pregressa que você j á foi m otorista de praça.”
“Mas eu —”
“Deixa eu falar. Forçou a polícia a te prender no falso assalto à padaria para ter um a chance de confessar que m atou a m ulher.
Um vigarista cagão de segunda sendo abanado deitado num colchonete dentro do xadrez. Você pensa que eu sou algum idiota?
Você sabe que eu não sou bobo, Agenor. Você não m atou aquela m ulher. Descabelada! Ela estava toda penteada, seu burro, com o se fosse para um baile. E quem deu o tiro nela abriu a blusa de seda e atirou na carne e depois fechou a blusa. Você é um bom filho da puta. Quer outro café?”
“Não.” Agenor se apoiou no balcão, com o se fosse cair.
“Vam os pra delegacia”, disse Guedes.
Enquanto cam inhavam : “Se quiser fugir pode”, disse Guedes. “Mas você não quer fugir, não é? Você depende das ordens dos outros. Você não sabe se eles querem que você fuj a ou não e na dúvida não faz nada.”
Agenor não respondeu.
“Eles pagaram a você para confessar que m atou a m ulher, ofereceram proteção, puseram os xerifes de cela pra te garantir vida m ansa no xadrez, m as só estão esperando que você deponha no inquérito, que o escrivão ponha tua confissão no papel e você assine a confissão, com duas testem unhas, que fique tudo direitinho nos autos. Só estão aguardando isso. Sabe pra quê?”
Agenor não respondeu. Suas m ãos trem iam e ele segurou Guedes pelo braço.
“Não sei com o você não pensou nisso”, continuou Guedes. “A essa altura j á até escolheram o pato que vai confessar que te m atou — ‘Ele quis m e enrabar, doutor’ —, um desses garotos que está lá no xadrez contigo. E eles vão usar um a teresa, feita de cam isas velhas ou dum lençol, m eter a faca em você suj aria o xadrez e o espaço j á é pouco. Não sei com o um velho vigarista com o você caiu num conto desses.”
Agenor suspirou.
“O escrivão-chefe quis tom ar o teu depoim ento ontem . Eu não deixei. Não sei se ele está envolvido nisso. Se você tivesse deposto ontem , j á era um hom em m orto. Mas você hoj e vai ter que depor de qualquer j eito. Não posso evitar isso.”
“Eu vou negar tudo. Dizer que não m atei a m ulher.”
“Está m orto do m esm o j eito. Com o foi que entrou nessa fria?”
Estavam na porta da delegacia, m as Guedes continuou, cam inhando na direção do Estádio do Rem o. A porta do estádio estava aberta e eles entraram e sentaram na arquibancada.
Ficaram olhando os barcos de regata treinando na lagoa.
“Eu estava na m erda e a vida para gente do m eu m étier está dura”, disse Agenor.
“Vigarista só os m uito grandes, eu sei.”
“Um conhecido m eu, chefão da Jacaré, disse que estavam procurando um cara com um bom papo pra confessar que havia m atado um a m adam e. Cinqüenta m ilhões na m ão agora e cinqüenta depois, e a garantia de que eu iria para a Ilha Grande e eles m e tirariam de lá. O pessoal da Jacaré tem um esquem a todo m ontado. Tirar gente da Ilha é um a sopa.”
“Eu sei. Só que tem que você não iria pra ilha nenhum a. Ia para o Caj u. Já recebeu a grana?”
“Já. Está guardada.”
“Não vai poder gastá-la.”
“Quer dizer que estou fodido?”
“Você está fodido. Foi o cara da Jacaré que te deu a grana?”
“Foi. Mas quem m e ensinou a lição foi um advogado.”
“Conta com o foi.”
“O cara da Jacaré disse para eu ir à churrascaria Plataform a encontrar com ele. Quando cheguei ele estava na m esa com um suj eito, que disse ser um advogado. Alm oçam os j untos e o advogado m e deu todas as instruções. Chegou a m e levar de carro até à rua onde a m ulher foi m orta.”
“Sabe o nom e dele?”
“Doutor Jorge.”
“Jorge de quê?”
“O resto do nom e eu não sei.”
“Pra quem que você ligou da Vigilância?”
“Pra m inha m ulher. Era pra avisar o advogado que eu estava sendo transferido. Nós com binam os que ele seria avisado caso isso acontecesse.”
“Qual é o núm ero do telefone dele?”
“Dois quatro m eia m eia dois um quatro.”
“Vou lhe dizer um a coisa: o trabalho de vocês foi m uito m al feito.”
“Ainda bem , senão eu j á era. E agora? Não tem j eito de m e livrar desta?”
“Eu devia dizer a você para depor dizendo a verdade, contando a história toda. Devia garantir que a gente ia te proteger, m as sei que cedo ou tarde vão te pegar. Não quero ficar com a sua m orte nas costas.”
“Mas vai ficar. Sabe que eu vou m orrer e não faz nada.”
Os barcos haviam ido em bora e a lagoa estava vazia. O sol fazia a superfície da água brilhar.
“Você tem um lugar para se esconder? Um lugar fora do Rio?”
“Tenho. Bem longe daqui. O senhor vai m e dar um a chance?
Jura?”
“Vigarista falando em j uram ento. A vida é engraçada.”
“Eu acredito no senhor. Nem vou com eter a burrice de lhe oferecer a grana. Vigarista só transa com vigarista, até o otário é vigarista, m as a gente sabe quando um cara é honesto.”
“Pode ir”, disse Guedes. “Mas não faz m ais besteira.”
“Com os m ocinhos e os bandidos atrás de m im o senhor acha que eu vou escorregar? Deus o abençoe.”
“Não põe Deus nisso.”
“Deus o abençoe, sim .”
“Vai em bora antes que eu m e arrependa.”
Um pequeno barco a vela saiu do Piraquê e navegou na direção do Corte de Cantagalo. O sol estava m ais forte e Guedes com eçou a sentir calor.
A fuga de Agenor não causou m uitos problem as ao tira. O
delegado Ferreira m andou cham ar Guedes e disse que o secretário de Segurança estava furioso e que, provavelm ente, ele seria suspenso. Porém , os dias se passaram e nenhum a suspensão foi publicada no Boletim . Nenhum inquérito foi instaurado sobre a fuga.
Guedes continuava em suas atividades de cão perdigueiro.
Não foi difícil descobrir o nom e inteiro do doutor Jorge, o advogado que arm ara a im postura da qual Agenor da Silva fora o protagonista. O nom e dele era Jorge Delfim . Fazia parte de um grande escritório que tratava de causas cíveis — direito com ercial e fiscal, principalm ente. Nenhum dos m em bros do escritório era crim inalista. Isso explica a cagada que fizeram , pensou Guedes.
Ele não ligou para o doutor Jorge. Pegou o telefone e ligou para a casa de Eugênio Delam are. Isso foi na tarde do dia em que ele deixara Agenor da Silva escapar.
“O doutor Eugênio Delam are está?”
Guedes contava com a sorte. Além do Princípio da Singeleza, ele acreditava em um outro, o Princípio da Prem iação do Risco, de Hohenstaufens — o valor do prêm io é sem pre proporcional ao valor do risco, ou sej a, em bom português, quem não arrisca não petisca.
“Quem quer falar com ele?”
“É o doutor Jorge Delfim .”
Eugênio Delam are não dem orou.
“Doutor Delfim ?” (Não eram íntim os, Jorge e Eugênio. Talvez não notasse que a voz era diferente.)
“O hom em escapou”, disse Guedes.
“Eu j á sei. O secretário m e telefonou. Nós devíam os ter previsto isso. Essa nossa polícia é um a m erda. Eu liguei para o seu escritório m as m e disseram que você estava em São Paulo.”
Guedes teve a im pressão de que Delam are estava em briagado. Os ricos ociosos com eçam a beber no alm oço.
“Acabei de chegar”, disse Guedes.
“E agora?”
“Vam os ver se fazem os o suj eito ser j ulgado à revelia, com o o assassino de sua senhora. Não é isso que o senhor queria? Que a culpa fosse estabelecida?”
“E o caso encerrado”, retrucou Delam are. “Não quero que ele apareça am anhã dizendo que não m atou, entendeu?”
“Pode deixar.”
“Aqueles seus am igos tom am conta de tudo?”
“Pode deixar.”
“Se for preciso m ais dinheiro m e fala. Boa tarde.”
As investigações de Guedes levaram -no a um a outra descoberta im portante. Ultim am ente, ele fazia todas as noites os dois traj etos possíveis do assassino de Delfina ao fugir da rua Diam antina. Prim eiro pela rua Faro, descendo até à rua Jardim Botânico; depois um traj eto m ais com plicado — rua Itaipava, rua Benj am im Batista e depois, alternadam ente, as três ruas perpendiculares à Jardim Botânico: Abade Ram os, Nina Rodrigues e Nascim ento Bittencourt. E tam bém a escadaria que ia dar na praça Pio XI.
Foi m ais um golpe de sorte encontrar a testem unha que tanto procurava (m ais suor que sorte). Era um a velha, passeando com um cachorro. Cham ava-se Bernarda.
Quando Denise Albuquerque chegou da França não esperava encontrar em casa um convite para ir à 14ª Delegacia de Polícia.
Não foi, evidentem ente. Mandou um advogado em seu lugar. Mas o tira queria ver a m ulher e não desistiu facilm ente dos seus propósitos. Não sei se o que ocorreu foi resultado de um entendim ento feito com o advogado ou com a própria Denise. O
fato é que Denise m arcou um a entrevista com o tira em sua casa.
Ela acabara de se separar do m arido e era fato notório que fizera o m elhor acordo financeiro da história dos casos de separação conj ugal no Brasil. Conform e os boatos que circularam , o m arido, com o quase todos os grandes financistas, com etia os seus deslizes, e Denise am eaçara contar tudo durante o processo na Vara de Fam ília.
Denise sim patizou com o tira, ela sentia um a certa ternura pelas pessoas pobres e m al vestidas. Guedes tam bém gostou dela, talvez devido a m aneira franca com que ela respondia às suas perguntas.
“Eu li a carta que a senhora escreveu à dona Delfina.”
“Isso não é crim e, violar a correspondência alheia? Ou a polícia pode fazer isso?”
“Não pode. Mas para m im foi im portante saber que dona Delfina tinha um am ante.”
“Nunca pensei que o dia em que Delfina arranj asse um affair fosse com um suj eito com o aquele, um m ulato pernóstico. Sem pre pensei que se ela fosse ter um caso com alguém seria com o Tony Borges. Tony era louco por Delfina.”
“A senhora acha que esse indivíduo pode ter m atado Delfina?”
“Quem ? O escritor? Não. Você desconfia dele?”
“Eu não desconfio de ninguém e desconfio de todo m undo.
Até do m arido.”
“Vou lhe dizer um a coisa, o Eugênio Delam are é de um a fam ília antiga e m uito rica, em m atéria de tradição e dinheiro só podem ser com parados aos Guinle. Eles, tanto os hom ens quanto as m ulheres, sem pre se casaram com pessoas ricas, a única exceção foi o casam ento de Eugênio com Delfina, m as Delfina com o ser hum ano era um m ilhão de vezes m elhor do que o m arido. Eugênio é um calhorda. Quando um suj eito de boa fam ília é um patife ele ganha de qualquer um em m atéria de canalhice.
Não m e surpreenderia se ele tivesse m andado m atá-la. Vou lhe contar o que aconteceu com igo, quando fui passar um a sem ana na fazenda que os Delam are tinham em Mato Grosso. Nunca contei isso para ninguém , você é a prim eira pessoa que vai ouvir esta história. Eu ainda estava casada com o Albuquerque e ele foi tam bém . Não sei o que nós m ulheres fom os fazer no Pantanal. Os hom ens gastavam o tem po caçando e pescando. Aliás, eu os acom panhei certa ocasião e fiquei horrorizada vendo-os com os seus rifles de lunetas m atando uns bichinhos inofensivos. Um dia Delfina foi passear de barco com Albuquerque, eu não fui porque enj ôo andando de barco e Delam are disse que ficaria m e fazendo com panhia, pois o passeio duraria quase o dia inteiro. Quando ficam os a sós, na prim eira oportunidade, Eugênio m e passou um a cantada. Eu fingi não entender o que ele queria, afinal ele era am igo do m eu m arido, era um a situação m uito constrangedora.
Sabe o que ele fez? Me agarrou à força, dentro do m eu quarto, m e possuiu, m e estuprou, o cretino. Não tive coragem de contar nada para o Albuquerque e para Delfina. Disse ao Albuquerque que estava m e sentindo m uito m al — e estava m esm o — e que queria voltar para o Rio. No dia seguinte pegam os o nosso Lear Jet, que estava no cam po de pouso da fazenda, e voltam os para o Rio. O
crápula do Eugênio continuou nos procurando, convidando para j antares, com o se nada houvesse acontecido.”
“A senhora acha que ele pode ter m andado m atar dona Delfina?”
“Não sei se ele chegaria a esse ponto, m as não m e surpreenderia. Ele sabia que Delfina tinha um caso com aquele escritor e não era um hom em de aceitar isso tranqüilam ente.”
O encontro com dona Bernarda:
“A senhora não tem m edo de andar na rua tão tarde da noite?”, perguntou Guedes ao encontrá-la. Era um a hora da m adrugada e a rua Abade Ram os estava deserta.
Dona Bernarda olhou para ele através dos seus óculos de aros grossos.
“Estou m uito velha para ter m edo. Além do m ais o Adolfo está doente e tem que passear a esta hora e não tem ninguém para sair com ele.”
Guedes curvou-se e fez um afago na cabeça do cão. “O que que ele tem ?”
“Não sei. Quando chega esta hora ele com eça a uivar, e se não sair tem um as convulsões em que se baba todo e faz coisas piores, coitado. O veterinário tam bém não sabe o que ele tem . E o senhor? Não tem m edo de andar a esta hora na rua?”
“Eu sou da polícia”, disse Guedes. “Estou trabalhando.”
Dona Bernarda era boa observadora. Sim , havia visto um hom em com o aquele que o tira descrevera, ele tropeçara no Adolfo, duas casas adiante; sim , seria capaz de reconhecê-lo, é claro; o dia era m uito fácil de lem brar, era o dia do aniversário de Adolfo e ela dera doce de ovo para ele, Adolfo era louco por doce de ovo, ela sabia que Adolfo não podia com er doce de ovo, m as um a vez no ano não ia fazer tão m al assim . Mas fez m al. Ela não ia esquecer um dia daqueles.
3
Enquanto isso acontecia, Minolta, em Iguaba, acordou no m eio da noite e viu um vulto em pé ao lado de sua cam a. Com o estava m uito escuro ela percebia apenas o contorno da roupa branca da figura que tinha um brilho fluorescente.
“Quem é você?”, ela perguntou apavorada.
“Um am igo”, disse o vulto com voz rouca.
“O que você quer?”
“O tem po está passando”, disse o fantasm a. E desapareceu.
Minolta levantou-se, colocou roupas num a pequena m ala-saco e sentou-se num a cadeira para esperar o dia raiar. De m anhã pegou um ônibus para o Rio de Janeiro.
Chegando ao Rio ela foi à agência de turism o onde havia feito a m inha reserva para o Refúgio do Pico do Gavião. Não havia, disseram , condução para o Pico, senão dali a três dias. “Para chegar ao Pico é preciso pegar um a condução especial que sai de Pereiras um a vez por sem ana.”
Um rapaz que ouvia a conversa entre Minolta e o funcionário da agência interveio para dizer que falara naquela m anhã com o contato deles em Pereiras, o dono do arm azém , e este lhe dissera que no dia seguinte ia sair um a condução especial para levar o delegado de polícia ao Pico. Constava que teria havido um crim e de m orte no Pico.
“Foi isso que o vulto quis m e dizer”, disse Minolta. “Com o é que se vai até Pereiras?”
“Você tem um carro?”
“Não.”
“Ih...” O rapaz coçou a cabeça. “Olha, é assim , anota aí senão você vai se perder.”
Vendo que não havia tem po a perder, Minolta, tão logo term inou de escrever as explicações que o rapaz lhe dera, saiu correndo da agência. Na saída tropeçou num hom em que estava entrando e teve que se agarrar nele para não cair ao chão.
“Desculpe”, disse Minolta.
“O culpado fui eu”, disse o hom em de blusão sebento e olhos am arelos.
Minolta pegou na rodoviária Novo Rio um ônibus para Resende; ali, um ônibus para Queluz. Em Queluz apanhou um ônibus para Areias, tudo seguindo as instruções do rapaz da agência. Em Areias, um ônibus para Pereiras. Apesar de im ersa em pensam entos profundos, Minolta notou que o hom em de blusão sebento estava no m esm o ônibus.
Chegou em Pereiras às nove horas da noite, desem barcou, e não viu para onde foi o hom em . Ela estava viaj ando, ou esperando em estações rodoviárias, desde que o dia raiara, m as não estava cansada. Não foi difícil encontrar a pracinha descrita pelo rapaz da agência, era a única do vilarej o.
Passou a noite sentada num banco da praça. Já no fim da noite, quando os passarinhos com eçaram a cantar nas árvores, o hom em de blusão sebento apareceu. O sol brilhava quando chegou um j ipe e dele saltaram três hom ens.
“A senhora está aqui desde cedo?”, perguntou um deles.
“A senhora vai para o Refúgio?”, perguntou outro.
Eles estavam atrasados e a resposta de Minolta os tranqüilizou. O ônibus para o Refúgio ainda não chegara. Os retardatários eram o delegado, o escrivão e o perito da Delegacia de Polícia de Pereiras. O delegado sem pre se atrasava quando tinha que chegar m uito cedo em algum lugar. Naquele dia, para acordá-lo, a m ulher, aj udada pelo escrivão, tivera que j ogar um copo com água fria na cara dele.