Bufo & Spallanzani

Rubem Fonseca · Capítulo 3 de 4 · parte 2/3

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Bufo & Spallanzani

Capítulo III

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Eu não gosto de ópera, desculpe”, disse Eurídice, entrando na conversa.

“Você estava ótim a tam bém na ária de sedução do Des Grieux, padre”, eu disse, sem dar atenção a Eurídice.

“Manon é um a das personagens que eu m ais gosto”, disse ela, no m esm o tom quase cúm plice que eu im prim ira à conversa.

“Mas não a de Massenet, a de Puccini.”

“Nunca vi um a ópera”, disse Eurídice. Seria ignorante dem ais para perceber que estava sobrando? E dissera a frase em voz tão alta que cham ou a atenção de Orion, que logo se m eteu na conversa, com o sem pre, categórico.

“A m elhor coisa da Manon, a de Massenet, é a frase de Guillot de Morfontaine: ‘La fem m e est un m échant anim al’”, disse Orion. Ele devia ter estado, o tem po todo, a prestar atenção na m inha conversa com a sua m ulher. Aos poucos todos passaram a participar da conversação.

“Eu prefito Turandot”, disse Rom a.

“Por que ela corta a cabeça dos seus pretendentes?”, perguntou Orion.

“Por isso e por ser incom preensível para os hom ens.”

Ali estava eu, cercado de m ulheres, m ulheres cheias de força e m istério, esses atributos irresistíveis que elas têm , sem poder fazer nada, reprim ido e oprim ido.

“Vocês precisam ver o céu”, disse Trindade, entrando na varanda. Na m ão ele segurava um a lanterna.

Fom os todos até o centro do gram ado que ficava em frente ao Casarão. Trindade apagou a lanterna. Na noite escura não se via o rosto das pessoas próxim as. Vaga-lum es acendiam e apagavam em pleno vôo.

“O céu m uda a cada hora”, dizia Trindade. “São nove horas e vocês podem ver Sírio a oeste. Estam os a 24° de latitude. Aquela ali ao norte é Arcturo. Antares, a leste.”

“Onde está o Cruzeiro do Sul?”

“Ao sul”, disse Trindade, rindo satisfeito, “j unto de Rígel.”

Rígel ninguém descobriu, m as todos acharam o Cruzeiro do Sul entre exclam ações de alegria.

“E Aldebarã?”

“A gente não a vê este m ês. Aparece às cinco da m anhã, m ais ou m enos, em j ulho.”

“E Betelgeuse?”

“A m esm a coisa. Ficam am bas a leste. Betelgeuse perto da constelação que tem o nom e do nosso m aestro.”

“Então o senhor tem um a constelação com o seu nom e”, disse Eurídice.

“Prestígio, m inha filha”, disse Orion.

“Nem parece que ainda outro dia eu estava em São Paulo, que nem tem céu”, disse Eurídice.

“Céu igual a este não tem em lugar nenhum do m undo”, disse Trindade.

“Não sei”, disse o m aestro. “Essa coisa de Viva o Brasil! m e cansa.”

“Olha os vaga-lum es”, disse Eurídice.

“Que coisa linda”, disse Juliana.

“Os vaga-lum es?”

“Os vaga-lum es, as estrelas, as pessoas, a vida. Dá até vontade de cantar”, disse Juliana, tocando de leve na m inha m ão.

Teria sido involuntariam ente?

“Contenha os seus arroubos, m inha cara”, disse Orion.

“Canta para nós”, disse Eurídice. Liderados por Suzy todos repetiram em coro: “canta para nós”.

“Outro dia ela canta”, disse Orion.

“Vou cantar agora”, disse Juliana.

“Este frio não vai te fazer bem ”, disse Orion.

“Vou cantar”, disse Juliana, j á com o se estivesse no palco.

Suzy sentou-se no gram ado e Eurídice deitou-se com a cabeça no seu colo. Rom a e Vaslav fizeram o m esm o, Rom a com a cabeça sobre o peito do m arido. Ainda bem que estava m uito escuro, e eu m al podia vê-los, senão aquilo teria sobre m im o m esm o efeito que assistir a um film e de sexo explícito.

Juliana com eçou a cantar. Eu j á ouvira algum as vezes aquela ária de Bellini, m as confesso que achei a cena m agnífica: o céu estrelado e um a voz fem inina acrescentando ainda m ais beleza e harm onia ao universo. Quando Juliana term inou —

“Quella pace, che regnar, regnar tu fai, tu fai nel ciel, tu fai nel ciel” —, ficam os todos calados.

“Depois disso a lua devia aparecer, essa ingrata Casta Diva”, disse Rom a.

O prazer estético agravara a m inha satiríase. Eu não podia continuar ali nem m ais um segundo sob o risco de com eter algum a insanidade. Afastei-m e correndo, sum i na escuridão. Notei que alguém vinha atrás de m im .

“Quem é? Tem alguém aí?”, com o coração batendo de esperança.

“Sou eu.” A voz abafada de Carlos. Lem brei-m e de que o bangalô dele ficava na direção do m eu.

Apressei o passo, para que ele não se aproxim asse de m im .

Se há um a coisa que m e irrita é conversar com hom em . Quando cheguei no cam inho que levava ao m eu bangalô gritei para o escuro: “Boa noite”.

“Boa noite”, Carlos respondeu. Ele estava quase grudado em m im e eu não percebera sua presença tão próxim a.

Oh, vida desgraçada, pensei, tristem ente, enquanto tirava a roupa e vestia m eu pij am a de seda. Essas m ulheres ainda m e m atam , pensei, Guillot de Morfontaine tem toda razão. Mas pouco depois eu m urm urava, m e espreguiçando, com o é bom dorm ir. E

dorm i.

Acordei cedo, tom ei banho e corri para o Casarão. Eu devia passar a m anhã escrevendo, m as nem sequer olhei para as m inhas notas sobre B& S. Gostaria que Minolta estivesse ali para m e dar força.

As m esas do salão haviam acabado de ser arrum adas para o café. Sobre um a m esa grande e com prida estavam os quitutes —queij os de várias qualidades, inclusive de cabra e de ovelha, bananas (ouro, prata e d’água), laranj as, m angas, am eixas, m am ões, j abuticabas, m el, bolinhos de m ilho, pãezinhos de queij o, torradas, iogurtes etc. Enchi dois pratos com queij os, bolinhos, pãezinhos e frutas, apanhei um pote de m anteiga, um a j arra de iogurte, um vidro com m el e fui para um a das m esas, com a boca cheia de saliva. Um a em pregada serviu café com leite e perguntou-m e se eu não queria ovos. Eu disse que não, m as Trindade, que estava perto, num a das m esas, tom ando café, disse:

“Eu se fosse o senhor provava os nossos ovos. Nossas galinhas são ciscadeiras, passam o dia em liberdade, com endo m inhocas, bichinhos, form igas, m exendo o dia inteiro com as perninhas, sem parar. Não têm um a gota de gordura, são diferentes dessas galinhas enxundiosas da cidade. O senhor com provará ao com er o frango ao m olho pardo que servirem os hoj e no alm oço. Os ovos...

olha, nem vou falar m ais nada. Lucim ar, traga dois ovos fritos para o cavalheiro”.

Ouvir falar em frango ao m olho pardo deixou-m e ainda m ais alegre. Nada m elhor do que pensar em com ida quando se está com endo. Trindade pediu licença e sentou-se à m inha m esa.

Queria assistir-m e degustar os ovos.

“Tudo o que o senhor com e aqui é produzido na fazenda, m enos o sal, o açúcar, o azeite e o bacalhau”, disse Trindade, com orgulho. Os ovos estrelados chegaram . As gem as eram verm elhas com o rubis, envoltas por um a parca clara, apenas um a pequena circunferência alva, sem o aspecto gosm ento dos ovos fritos que eu conhecia. A gem a era dura de cortar, sua consistência com pacta e densa e o seu sabor lascivo e repousante. Pedi m ais dois ovos.

“Eu não disse?”, Trindade sorriu satisfeito. “As gem as am arelas dos ovos de granj a não têm sabor nem valor alim entício, com paradas com as nossas. Além do m ais estão cheias de horm ônios. Tenho a im pressão”, ele baixou a voz, “que o aum ento do hom ossexualism o e outras form as de perversão sexual resultam disso, e tam bém das porcarias que dão aos bois. O

senhor não acha?”

Por m ais feliz que eu estivesse, deliciando-m e com aquelas iguarias, a ignorância sem pre m e exasperava.

“Hom ossexualism o

não

é

perversão”,

eu

disse.

“Hom ossexuais são pessoas norm ais com o o senhor.”

“Com o eu, não!”

“Com o eu, então.”

Trindade calou-se, sem saber o que dizer. Com um pedaço de pão raspei o resto da gem a que ficara no prato, que ficou lim po e brilhante.

“Eu estava pensando em levar b senhor para ver a horta”, disse ele, com o se houvesse desistido da idéia.

“Mas eu faço questão de ver a sua horta”, eu disse.

Nunca havia visto um a horta em toda a m inha vida. Que coisa linda são as couves, as alfaces, os repolhos, as couves-flores, as acelgas, as m ostardas, os brócolis brotando do chão com o um tapete colorido de histórias de fadas. Um repolho roxo é m ais bonito do que um a rosa, m ais luxuriante e luxurioso (viçoso, libidinoso). Olhar um a horta é m elhor do que ficar sentado escrevendo. Aliás, escrever estava se tornando um tripalium (ver dicionário latim ), um sofrim ento (de repente, im aginei-m e sofrendo da síndrom e de Virgínia Woolf e trem i de m edo); o diabo é que para um escritor com o eu, que precisava de dinheiro para sustentar o seu vício barregão, cada m aldita palavra, um oh entre cem m il vocábulos, valia algum dinheirinho. Escrever é cortar palavras, disse um escritor, que não devia ter am antes. Escrever é contar palavras, quanto m ais m elhor, disse outro que, com o eu, precisava escrever um Bufo & Spallanzani a cada dois anos. No entanto, em vez de estar trabalhando eu olhava em bevecido para um repolho.

“O senhor sabe cozinhar?”, perguntou Trindade, com certa cavilosidade.

Pensei em responder: sei cozinhar, bordar, fazer crochê, costurar, dar de m am ar, dançar balé, m as para que perder tem po com os preconceitos dos outros?

“Só sei com er.” Esta resposta pareceu tranqüilizar Trindade.

Perguntou se eu não queria ver o pom ar. O verdor das couves e acelgas m e dera vontade de ver Rom a, talvez ela j á tivesse chegado ao salão para tom ar café. Dei um a desculpa e voltei ao Casarão.

Rom a estava no salão, tom ando café, sem Vaslav. Usava outra roupa, um farfalhante traj e que a envolvia com o se ela fosse um a m ulher do outro m undo. Elucubrei: a lei Opiana havia sido prom ulgada contra ela, Catão pensara num a m ulher com o ela quando criticara a extravagância fem inina no Senado rom ano. Ela certam ente teria um traj e de púrpura, colorido com tinturas de Tiro, em sua m ala de couro m im oso.

“Posso sentar-m e?”, perguntei.

“Sim .” Ela m ordeu um a torrada, arreganhando os dentes e olhando para m im . Minha pele se ouriçou.

“Dorm iu bem ?”, perguntei, im aginando-a na cam a, de lado, de bruços, de barriga para cim a.

“Não, na verdade dorm i m uito m al.”

“Deve ser o oxigênio”, gaguej ei.

“Talvez. O problem a é que dorm ir m al m e causa m uita irritação. Preciso no m ínim o de oito horas diárias.” Todas as m ulheres que eu conhecera precisavam dorm ir oito horas diárias.

“E a sua vida dá um rom ance”, eu disse.

“Você está perguntando ou afirm ando?”

“Afirm ando.”

“Mais eletrizante do que você pensa”, disse ela. “O seu padre rezava m issa?”

“O m eu padre?”

“Spallanzani.”

“Sim . Ele continuava celebrando m issas, em latim , com sotaque úm brico e ouvindo confissões, o m undo estava cheio de pecadores pedindo perdão, o Concilio de Trento estabelecera que, pela lei divina, a confissão com pleta era necessária para todos aqueles que tivessem com etido pecado. Sua fé não entrava em choque com a sua ciência porque ele não tinha fé, os desígnios de Deus nem sem pre eram m uito claros para ele. Por que Deus fizera Bufo? Não fora evidentem ente para com er form igas, que por seu turno tam bém eram filhas de Deus. Um estágio na evolução do hom em ? Bem , naquela época o Sol ainda girava em torno da Terra e Darwin ainda não nascera. Por isso ele disse ‘inferno’, depois de ter subm etido o batráquio àquela tortura.”

“Vou lhe dizer um a coisa, que o m aestro não ouça: que coisa com plicada é escrever um livro”, disse Rom a.

“Quelle lourde m achine à construire qu’un livre, et com pliquée surtout”, eu disse.

“É verdade, et com pliquée surtout.”

“Escrever é um a questão de paciência e resistência, algo parecido com o disputar um a m aratona onde há que correr m as não se pode ter pressa.” (Não gostei do sím ile logo que o disse.

Odeio esportes.) “E por falar nisso, com o vai a sua história?”

“Você é horrível”, disse Rom a, “m e dar com o tem a —”

Fiz um gesto para que se calasse pois nesse instante Carlos se aproxim ava da nossa m esa. Pela prim eira vez Carlos tirara o paletó largo de veludo e agora usava um blusão tam bém m uito largo e com prido, que lhe dava um aspecto singular. Logo em seguida chegou Vaslav.

“Você ouviu um violino esta noite?”, perguntou Vaslav.

“Era o m aestro”, disse Rom a. “Nosso bangalô fica perto do dele.”

“Rom a m e acordou para ouvir o violino”, disse Vaslav.

“Nada disso. Eu estava acordada e com o não suporto estar acordada com alguém dorm indo ao m eu lado aproveitei o pretexto e acordei você.”

“Conta o que você viu”, disse Vaslav.

“Eu m e levantei e fui até à varandinha do bangalô, para ouvir m elhor. Então vi um a pessoa andando com um a lanterna no m ato.”

“Podia ser Trindade. Ou um em pregado qualquer”, eu disse.

“Talvez. Mas a pessoa andava furtivam ente. Posso ter sido influenciada por aquele violino tocando no m eio da noite. Sabe que é bonito, m as ao m esm o tem po m eio sinistro um violino tocando na escuridão? Fiquei com m edo, sabe?”

Da m esa dos m úsicos Juliana fez um gesto allegro em m inha direção; Orion tam bém , m a non troppo.

Trindade, de botas e chapéu de vaqueiro, entrou no salão e inform ou que os cavalos estavam prontos para quem quisesse dar um passeio pelo Refúgio.

Fom os todos até ao local em que estavam os cavalos, com exceção de Suzy e Eurídice. Am bas estavam tensas, com o se tivessem passado a noite brigando. Rom a disse que ia colocar um a roupa de m ontaria.

“Onde está o zaino?”, perguntou Carlos.

“Berzabum ? É um cavalo m uito bronco. Monta esse aqui, tem um a andadura m acia.” Trindade apontou um alazão de focinho estrelado.

Carlos olhou o alazão e disse: “Quero o Berzabum ”.

“Seu Carlos, só um a pessoa m onta o Berzabum , é o Erm itão, um hom em que vive lá no alto, no Pico, com as onças, cria frangos para os gaviões com erem . Um a vez por sem ana ele vem aqui e m onta o Berzabum , para que o bicho não fique selvagem de um a vez. Seu Carlos, se o senhor m ontar esse cavalo é certo que vai ser j ogado no chão e pode se m achucar.”

“O problem a é m eu”, disse Carlos secam ente.

Foram buscar Berzabum . O cavalo veio, sacudindo a cabeça, arregalando os olhos. Foram precisos três hom ens para colocar o freio e a sela em Berzabum . Carlos se aproxim ou e acariciou o focinho do cavalo. “Esta barbela está m uito apertada”, disse ele, aj ustando a cadeia de ferro do freio. Em seguida exam inou a barrigueira para ver se a sela estava firm e, verificou o com prim ento dos loros. “Pode largar”, disse.

“Eu avisei”, disse Trindade, olhando para nós.

Segurando as rédeas com a m ão esquerda, apoiada sobre o cepilho da sela inglesa, Carlos colocou o pé esquerdo no estribo e subiu lentam ente, sem esforço, passando a perna direita sobre as ancas de Berzabum (num relâm pago a im agem de Delfina Delam are nua na cam a, virando-se de costas para m im !) e aninhou-se na sela sem que se ouvisse o m enor rangido de couro.

Berzabum perm aneceu im óvel, com o se fosse de ferro. Carlos curvou-se e afagou o peito do cavalo, sua m ão branca e pequena contrastante com a solidez e o negror da m usculatura do anim al.

Sem que tivéssem os notado o com ando do cavaleiro, Carlos e Berzabum partiram num galope m acio pelo gram ado da várzea.

“Caram ba!”, disse Trindade. “Rizoleta devia ver isto.”

Olhei o cavalo que m e coubera e decidi não m e arriscar. Nós, os gordos, não som os bons cavaleiros. “Estou com dor nas costas”, m enti. Rom a tam bém ficava elegante cavalgando, m as não tanto quanto Carlos. Colocara botas de couro negro com debrum m arrom , um a calça de m ontaria que m odelava seu corpo, um a cam isa pólo e um bonezinho na cabeça. Não existe coisa m ais bonita do que um a m ulher bonita. Ela e Vaslav, enquanto aguardavam os outros, que afinal acabaram não indo, com andavam seus cavalos com grande donaire. Trindade explicou que os cavalos eram da raça Cam polina, com exceção de Berzabum , que era um quarter.

“Ninguém m ais vem ?”, perguntou Trindade. Os outros cavalos continuavam seguros pelos em pregados. Tanto quanto eu, Juliana e Orion não queriam fazer papel feio, depois que notaram a agilidade elegante de Rom a e Vaslav. Orion disse que não tinha roupas apropriadas; Juliana, candidam ente, disse que não sabia m ontar.

“Não entendo com o alguém não sabe m ontar”, disse Rom a,

“para m im é a m esm a coisa que não saber ler.”

Lá se foram eles, deixando-nos a nós, infantes, de pé no chão, com um sentim ento de fracasso. Vendo Rom a se afastar, pensei, não quero m ontar nenhum cavalo, quero m ontar você, é isso que eu sei fazer, m ontar éguas com o você. Essa idéia m e dom inou e excitou de tal m aneira que m al ouvi o que Orion dizia.

“... um a coisa extraordinária. Eu estava sem sono — na verdade devido à nossa brincadeira com ecei a escrever o m eu conto”... (ah, então ele com eçava a ver com o era fácil escrever)...

“estou na dúvida se... enfim , resolvi respirar um pouco de ar puro.

Do m eu bangalô eu vej o um m orro, um que fica para aquele lado lá, que tem um a porção de árvores com folhas prateadas, e eu estava olhando o céu quando vi um brilho de fogo, um a coisa interm itente, com o um vulcão soltando labaredas em intervalos descom passados. Não tenho dúvida de que era fogo, m as não havia fum aça, e quando cessaram aquelas fulgurâncias ouvi um som tão extraordinário que acho que m e enganei. A noite estava silenciosa, não havia barulho de grilos nem de sapos. Existem árvores que gem em , com o a casuarina. Mas isso!”

“Afinal que som era esse?”, perguntei.

“Um a gargalhada. Parecia um a gargalhada. Era um a gargalhada.”

“Um a gargalhada?”

“Não sei se era altíssim a ou se ficou altíssim a pelo silêncio.”

“Seu bangalô fica perto do de Rom a e Vaslav?”

“Fica na m esm a área.”

“Rom a disse que teve insônia e que viu alguém andando no m eio da floresta com um a lanterna. Você viu o fogo antes ou depois de tocar violino?”

“Você ouviu o m eu violino?”

“Rom a ouviu”.

“Foi depois. Eu parei de tocar — um dos Capricci de Paganini

— e fiquei m uito tem po olhando as estrelas e pensando no que eu queria escrever. Foi quando com eçou o fogo no alto do m orro.”

“Morri de m edo quando Orion m e contou essa coisa hoj e de m anhã”, disse Juliana.

Suzy e Eurídice estavam recostadas nas espreguiçadeiras de lona da varanda do Casarão. Sentam o-nos ao lado delas e em pouco tem po Juliana estava falando das gargalhadas que Orion ouvira no m eio da noite.

“Isso não m e surpreende”, disse Suzy, “eu vi nas cartas.”

“Nas cartas?”

Ficam os sabendo que Suzy era especialista em artes ocultas.

A butique era apenas um negócio, “passo dias e dias sem lá ir”.

Ela conhecia astrologia, cabala, talism ânica, num erologia, quirom ancia, cartom ancia, esoterism o. Havia colocado as cartas e visto coisas sobre as quais preferia não falar. Mas não eram som ente as cartas. Ela olhara no berilo e vira a m esm a coisa. O

berilo, ela explicou, era a pedra usada na cristalom ancia. Apesar de ter vindo para o Refúgio a fim de descansar apenas, ela trouxera, além de dois baralhos de Tarô e do berilo, um I Ching, um j ogo de búzios, um anel talism ânico de m ercúrio e chum bo fundidos, um pote com lilium de Paracelso e um a porção de discordium de Frascator, do puríssim o, com todos os elem entos, estoraque, torm entilha, galbano, bistorta e até m esm o o raríssim o Dictam ano de Creta (ver Sepharial).

“Além , é claro, da m inha coruj a. Não m e separo nunca da m inha coruj a.”

“Um a coruj a verdadeira?”

“Não. É de bronze. Um dia eu a m ostro pra você!”

“Acho aquela coruj a horrível”, disse Eurídice.

“A clarividência, a Visão Clara, a precognição — isso deve ser usado com m uito cuidado”, disse Suzy. “Carlos está andando a cavalo?”

Na hora não entendi o interesse de Suzy por Carlos. Mas ninguém pode decodificar os m ilhares de inform ações cifradas que recebe a cada segundo.

“Você então não vai nos dizer o que viu nas cartas?”, perguntou Juliana.

“Não posso dizer nada”, disse Suzy, levantando-se abruptam ente. “Vam os, Eurídice.”

O frango ao m olho pardo do alm oço estava um a delícia, regalante, apetitoso. Ele tinha um a coloração que pendia para o ruivo-fosco, o que significava que o sangue do frango havia sido usado de um a m aneira diferente. Nem m esm o a presença de Orion e suas perguntas irritantes (ele e Juliana sentaram -se à m inha m esa) im pediram que eu degustasse com prazer o frango com seu arroz sanguinolento. Orion queria saber por que eu não escrevia um rom ance histórico tendo o duque de Caxias com o personagem .

Eu tentei explicar a ele que não gostava de heróis, dos hom ens e m ulheres poderosos (m uito m enos dos hom ens do que das m ulheres) que faziam a história. Eu não gostava nem m esm o da grande história, com H m aiúsculo. Eu lia a história de um hom em fam oso com a m aior indiferença, quando não com desprezo. Mas era capaz de ficar em bevecido ante a fotografia de um “popular anônim o”, no m eio da rua ou trepado no estribo de um velho bonde, im aginando que tipo de pessoa ele teria sido. Jam ais m e interessei em conhecer um hom em ou um a m ulher fam osos. Mas queria m uito ter conhecido, por exem plo, aquela telefonista de olhos grandes e vestido com prido que aparecera na foto da inauguração da prim eira central telefônica do Rio de Janeiro, no século XIX. Orion retrucou que esta idiossincrasia devia ter um a explicação freudiana. Felizm ente Rom a passou por perto e eu lhe perguntei com o fora a cavalgada.

“Um a m aravilha”, disse ela, sentando-se à nossa m esa. E

contou que Trindade os levara a ver lugares lindos, córregos cristalinos, florestas etc. Carlos fora com eles até certo ponto.

“Depois encontram os o tal velho m isterioso que cria gaviões, e ele e Carlos conversaram sobre o cavalo que Carlos m ontava e os dois foram j untos na direção do pico da m ontanha. Pareciam dois cabritos.”

“O velho não cria gaviões, ele cria pintos para os gaviões com erem ”, eu disse. “E faz m uito bem . Entre gavião e pinto, prefi-ro o gavião.”

Não esperei as sobrem esas, que eram sem pre doces em calda e com potas feitas no Refúgio. Não gosto de doces, felizm ente, do contrário m eu peso seria ainda m aior. E tam bém não queria ficar m ais à m esa com Orion. Já disse que não gosto de hom em .

Fui para a varanda e sentei-m e na espreguiçadeira com os olhos fechados. Eu não estava bem . Não conseguia esquecer o m aldito tira Guedes, aquele pobre diabo. Não conseguia esquecer Delfina, ela era o m eu buraco negro, um a força gravitacional irresistível. Eu havia com provado m ilhares de vezes que “as coisas se separam ’ ‘ (ver Heráclito) e m ais cedo ou m ais tarde eu iria m e separar dela; eu, porém , tem ia constatar que a fleum a era m ais forte que a paixão, a longo prazo; m as a longo prazo estarem os todos etc. Ali estava eu, sofrendo aquelas rem iniscências que teoricam ente poderiam funcionar com o terapia se colocadas no papel, m as escrever não é nenhum a cura, ao contrário, distorce a nossa psique (ver Braine). Quando escrever faz bem , algum a coisa faz m al à nossa literatura. Escrever é um a experiência penosa, desgastante, é por isso que existem entre nós, escritores, tantos alcoólatras, drogados, suicidas, m isantropos, fugitivos, loucos, infelizes, m ortos-j ovens e velhos gagás.

Para sair da fossa pensei nos leitõezinhos que j á deviam estar sendo tem perados para o alm oço do dia seguinte, sem esquecer, porém , o bacalhau que seria servido no j antar daquela noite. Abri os olhos e notei que pelo gram ado da várzea Carlos e outro cavaleiro, lado a lado, os cavalos em passo travado, com o se estivessem num a exibição eqüestre, cavalgavam em direção ao Casarão. Quando se aproxim aram notei que o com panheiro de Carlos era um hom em de longos cabelos e barbas brancas, que usava um chapéu de vaqueiro. Provavelm ente era o velho conhecido com o Erm itão, que m orava no alto da m ontanha. Eles passaram em frente à varanda e o velho virou o rosto enrugado e queim ado de sol na m inha direção, m as não pude ver-lhe os olhos, que estavam cobertos pelo chapéu. Foram para as cocheiras, tratar dos cavalos.

No m eu bangalô, tentei continuar, sem conseguir, a escrever Bufo.

Eu só não estava com pletam ente infeliz devido à perspectiva do j antar.

Fui o prim eiro hóspede a chegar no salão, com o sem pre.

Senti o arom a do bacalhau com batatas, pim entões e azeitonas feito por dona Rizoleta. Na história da hum anidade m ilhões de pessoas m orreram e continuam m orrendo de fom e. Alguns, porém , m orreram e continuam m orrendo de tanto com er. (Eu talvez venha a ser um desses.) Para uns e para outros, despoj ados ou saciados, com er é a atividade m ais im portante que existe. Com er, com er!

com o é bom com er! Não sou daqueles que com em bacalhau em grossas postas assadas, isso é um a rudeza gastronôm ica só com parável ao steak tartar. A posta assada m antém a rispidez que o bacalhau adquire na salgadura, m esm o que tenha sido colocada de m olho vinte e quatro horas antes e venha a ser copiosam ente regada por fino azeite de oliveira no m om ento de ser servido e depois em purrada pela goela abaixo por talagadas roxas de alvaralhão verdasco. Mas com batatas, cortadas em rodelas dispostas na fôrm a em cam adas alternadas com o bacalhau em lascas, a aspereza do sal sublim a-se e am bos, bacalhau e batatas, transform am -se num a terceira coisa, forte m as ao m esm o tem po delicada e j ubilosa. É claro que há que saber fazê-lo, com o dona Rizoleta, por exem plo. Logo que a travessa fum egante foi colocada à m inha frente notei que ali estava um a obra-prim a, um a dem onstração extraordinária da sabedoria hum ana. Meu coração se encheu de paz e alegria.

(Este acepipe tanto pode ter a sua degustação vespertina, com o é m ais com um , com o noturna ou m esm o m atutina. Já com i bacalhau pela m anhã, ao acordar, voltando depois para cam a onde um a m ulher m e esperava, dorm indo. Lem bro-m e bem desse dia. Ela cham ava-se Regina e fingiu que dorm ia quando eu voltei para a cam a depois de com er o bacalhau; ela gostava de fingir que dorm ia e enquanto ela fingia que dorm ia eu fingia que acreditava que ela dorm ia e a possuía assim . Lem brando m elhor: eu sem pre a possuí “dorm indo”, ela m ovendo o corpo para facilitar as coisas, sem abrir os olhos, gem endo com o se estivesse sonhando; e depois nunca tocava no assunto, nem perm itia que eu falasse. Ela sem pre arranj ava um j eito de ir para a cam a antes de m im e quando eu chegava ela j á estava dorm indo etc.).

Eu j á havia acabado de com er e estava ainda à m esa esperando o cafezinho quando notei um a cena interessante.

Quando Carlos entrou no salão, Eurídice, que estava num a m esa próxim a à m inha, com Suzy, ficou olhando fixam ente para o hom em , com um olhar em bevecido e ao m esm o tem po expectante, com o quem aguarda a oportunidade de iniciar um a troca de olhares de nam oro. Eu j á havia notado antes um certo interesse de Eurídice pelo rapaz, e percebera tam bém que Suzy se irritava com isso. Ao ver Eurídice olhando para Carlos, Suzy falou asperam ente com a prim a. Ouvi-a dizer “cretina”, “idiota”, e um a frase inteira: “depois não adianta vir chorando pedir perdão”. Além disso Suzy deu um forte beliscão em Eurídice.

Carlos não percebia que estava causando todo aquele m elodram a. Ele, que norm alm ente vivia absorto em seus pensam entos, naquele m om ento parecia m ais distante do que nunca, com endo sem apetite. Só m esm o um suj eito m uito aloprado poderia m astigar com indiferença bacalhau tão divino.

Juliana e Orion, que não haviam presenciado a briga entre as prim as, aproxim aram -se da m esa de Suzy e conversaram sobre a prom essa que Suzy fizera de j ogar búzios naquela noite. Suzy tentou escapar, m as Rom a e Vaslav j untaram -se aos m úsicos cobrando o com prom isso. Afinal, Suzy concordou e disse que ia ao bangalô apanhar os búzios. Acabei m e envolvendo no assunto.

“Na verdade, não acredito em nenhum tipo de m acum ba”, disse Orion.

“Búzios não é m acum ba”, disse Juliana.

Ninguém soube explicar bem o que era o j ogo de búzios.

Alguém sugeriu: “um m étodo de desvendar os m istérios do futuro”, m as o term o m étodo foi considerado inadequado naquele contexto. “Que tal em brom ação divinatória?”, propôs alguém .

Suzy voltou do bangalô sobraçando um a caixa preta de m adeira, acom panhada de Eurídice. As duas pareciam ter superado a briga ocorrida m om entos antes, vinham de m ãos dadas, sorridentes.

Reunim o-nos em torno de um a das m esas da sala de j ogos.

Surgiram logo vários grupos: Juliana e Eurídice, crentes; Rom a e Vaslav, neutros; Carlos, indiferente, desinteressado; eu, cético; Orion, não sei.

Suzy tirou as conchas da caixa, sacudiu-as entre as m ãos e atirou-as sobre o pano da m esa. “Façam suas perguntas”, ela disse, num tom de voz intim idante.

Ninguém se atreveu a perguntar. Os crentes com m edo da resposta; o cético, eu, para não ser encarado com o crente pelos outros; os indiferentes porque não queriam participar ativam ente do evento.

Suzy j ogou novam ente os búzios, que se espalharam sobre a m esa. Notei que o seu rosto pareceu contrair-se, seu olhar m odificou-se, com o se visse um rato sobre a m esa, entre as conchas: um olhar de m edo e repugnância. Lá vem a em pulhação, pensei.

“Estou vendo m orte violenta”, disse Suzy.

“Morte de avião?”, perguntou Juliana. Quando acabassem suas férias Juliana iria fazer um a longa turnê, usando principalm ente o avião com o transporte.

“Não”, disse Suzy, “não vej o avião.”

“A pessoa m orta é hom em ou m ulher?”, perguntou Orion.

“Mulher”, disse Suzy.

Silêncio.

“Mas é um a m orte que j á aconteceu... não sei... não vej o o rosto dela... vej o quem está ao lado dela... vej o com nitidez quem está ao lado dela... nesse m om ento terrível... ao lado dela... esta pessoa...”

No silêncio que se m anteve, ouviu-se um a pequena gargalhada de Orion, não m uito convicta, que não teve seguidores.

Suzy recolheu os búzios e sacudiu-os entre as m ãos. Que sorriso era aquele no rosto dela?

“Chega!”, disse Suzy.

“Chega? Agora que estava ficando interessante?”, disse Orion. “Por favor, continue.”

“O que fazia um a pessoa ao lado da m ulher m orta? Onde é que eles estavam ? Quem eram eles?”, perguntou Juliana.

“Chega”, repetiu Suzy. “Vam os, Eurídice.”

Com a caixa preta de búzios debaixo do braço, Suzy e Eurídice (que olhou ansiosam ente para Carlos ao passar por ele), as duas, andando agora de m aneira tensa, retiraram -se do salão.

“Um a artista”, eu disse. “Devia fazer esse espetáculo num circo.”

“Circo coisa nenhum a, estou m orrendo de m edo”, disse Juliana.

“Não exagerem os”, disse Orion.

Sem a presença de Suzy não havia razão para continuarm os ali, a não ser o m eu tesão por Rom a (por Rom a, belo cacófato).

Todos foram se retirando para os seus bangalôs. Fiquei só durante algum tem po. Depois fui cam inhando pela m ata. Sentia um a espécie de frisson, um a expectativa de perigo, m as não m uito, o suficiente para m e deixar excitado. Segui por um cam inho que nunca usara antes e pensava em Bocage, “quero fartar m eu coração de horrores”. Devia ser bom , o tem po em que havia m ulas-sem -cabeça e lobisom ens em lugares com o aquele. Apenas acendia a lanterna quando tinha m edo de cair num precipício.

Num a dessas horas vi um tronco grande onde m e sentei, apaguei a lanterna e fiquei ouvindo sons que pareciam gem idos, bater de asas, passos, sussurros de feiticeiras.

Fiquei ali, sentindo m edo com o um velho m acaco, gozando aquele m edo, quando de repente surgiu no céu um a luz difusa am arela, com o se a floresta houvesse irrom pido subitam ente em cham as. Mas a lum inosidade durou pouco e logo se apagou, deixando a noite que m e cercava ainda m ais negra. Devia ter sido aquilo o que o m aestro vira, pois logo o céu passou a fulgurar de m aneira interm itente, a intervalos irregulares. Não havia dúvidas de que aqueles lam pej os eram causados por fogo. Mas fogo naquela escala não apagava e acendia com o se fosse um gigantesco holofote.

Disposto a descobrir que fenôm eno era aquele, cam inhei pelo m eio da floresta na direção das reverberações. Não foi um a cam inhada fácil. Caí várias vezes, rasguei m inha roupa, feri m inhas m ãos. Ferir as m ãos m e deixou em pânico, eu tinha pavor de tétano, desde que um a am iga m inha m orrera de tétano quando eu ainda era adolescente. Com ecei a lam ber, com o um cão, as feridas da m inha m ão, para lim pá-las dos bacilos infecciosos.

Estava m e lam bendo quando cheguei ao sopé do m orro e vi um dragão, um dragão com corpo de m acaco, soltando labaredas que uivavam , com o os ventos do inferno, ao se espoj arem no solo. Eu estava vendo coisas, devia ser o efeito do tétano, um calafrio passou pelo m eu corpo, os m úsculos do m eu pescoço e do m axilar com eçaram a ficar duros. Eu sabia que não existe infecção que ataque o organism o com essa rapidez, m as tam bém não existia um m acaco-dragão.

“Morram m alditas, desgraçadas, m orram !”, gritou o m acaco.

Felizm ente m inha obtusidade durou pouco. Nem eu estava com tétano (ainda), nem o anim al assustador era um dragão ou um sim ples m acaco falante. Era um hom em , que segurava nas m ãos um lança-cham as, desses que se vêem no cinem a. Esse hom em , percebi aliviado, era o Trindade.

“Seu Trindade”, gritei.

“Estou m atando form igas”, disse ele, no escuro, “Mas j á acabei, j á acabei. O senhor não devia andar por estes lugares à noite.”

“Por quê?”, perguntei.

“O senhor pode cair num desses grotões, os anim ais que são anim ais caem , quanto m ais um a pessoa.”

Ele m entia. No escuro a voz de um m entiroso se revela.

“Vou levá-lo até ao seu bangalô.”

“Não precisa.”

Eu não queria, m as term inei seguindo-o até m eu bangalô.

Entrei. Tirei as roupas rasgadas. Olhei para m inha m ão e vi que sofrera apenas pequenos arranhões. Fui até a varandinha do bangalô e fiquei ouvindo os ruídos que vinham do escuro. Sapos, grilos, o pio de um a coruj a. Eu estava à cata de ruídos hum anos.

Agora eu não queria sentir m edo. Acendi a lanterna e entrei na m ata. A distância a percorrer parecia m aior, m as afinal cheguei ao local onde vira Trindade com o lança-cham as. Com a lanterna exam inei o solo. Espalhados pelo chão havia uns bichos carbonizados que pareciam feitos de aram e derretido, exalando um odor nauseabundo. Com um pedaço de pau m exi num dos anim ais, que não estava totalm ente destruído pelo fogo. Era um a aranha gigantesca, do tam anho de um a abóbora. Por isso Trindade usara o lança-cham as, aquele bicho não m orreria de pauladas, nem enxadas. E se existissem ainda alguns vivos? E se as aranhas m e agarrassem pela perna, m e j ogassem ao chão?

Im aginei-as devorando-m e. Com eçariam prim eiro pelo nariz, depois pelos lábios, lábios são carninhas tenras; depois um a aranha m ais astuta e m enor entraria pela m inha calça, cam inharia pela m inha perna até chegar à m inha virilha e devoraria, pela ordem , os m eus culhões, culhões são cam inhas tenras, para aranhas, pelo m enos, e depois o m eu pênis... Chega!

pensei, com pênis e culhões não se brinca. Voltei correndo para o m eu bangalô. Com o é bela a natureza!? Meu corpo com eçou a coçar. Estava coberto de carrapatos.

Acordei todo inchado. Havia arrancado os carrapatos m as deixara os seus ferrões. Meu corpo estava cheio de calom bos verm elhos. Ínguas haviam surgido na virilha e nas axilas. Agora é que não ia conseguir escrever. Sem o TRS-80, e todo inchado!

Prom etera o m eu novo livro para o princípio do ano, j á recebera o advance, o m eu editor estava m e cobrando etc. — acho que j á falei sobre isso. Meu editor queria um livro grosso, o livreiro queria um livro grosso, o leitor queria um livro grosso (um bom pretexto para com prar e não ler), as coisas grandes im pressionam , a torre Eiffel é um horror m as é grande, as pirâm ides não passam de um m onte de pedra que a estupidez faraônica conseguiu em pilhar, m as são grandes; se alguém conseguisse construir um a estrutura de m erda, de preferência hum ana, da altura do World Trade Center, esse edifício fecal seria considerado o m aior m onum ento artístico de todos os tem pos, ou então um grande ícone religioso. Talvez fosse m esm o visto com o o próprio Deus. O veneno dos carrapatos estava m e afetando.

Ao chegar ao Casarão encontrei Trindade, que não m encionou o que se passara na noite anterior. Chegou a perguntar onde eu fora m ordido por tantos carrapatos. Não queria que soubessem que havia aranhas im ensas venenosas (e sei lá m ais o quê) no seu paraíso.

Na sala do café, um a surpresa. Eurídice e Carlos tom avam café na m esm a m esa. Não pensei que Eurídice tivesse coragem de nam orar o rapaz tão acintosam ente depois da cena de ciúm e feita por Suzy. Eurídice olhava para Carlos de m aneira apaixonada, apesar de não ser correspondida por ele, que parecia, com o sem pre, distraído, introvertido e um pouco m elancólico. Tem i que ocorresse um dram alhão com lágrim as e vociferações caso Suzy aparecesse, m as Suzy pedira o café no quarto. Apesar de m e sentir m al, com i todos os pitéus do café da m anhã, queij os, bolinhos, torradas, ovos, bacon frito. A em pregada, ao colocar café com leite na m inha xícara, deixou dissim uladam ente sobre a m esa um papel dobrado que eu, tam bém disfarçadam ente, em palm ei e coloquei no bolso. Meu coração bateu descontroladam ente, pois eu não tinha dúvidas de que se tratava de um bilhete de Rom a, que não se encontrava no salão.

Logo que saí do salão, ainda na varanda, li o bilhete: “A em pregada que trouxe o café vai lhe entregar este bilhete. Eurídice vai passear a cavalo e ficarei a m anhã inteira no bangalô. Venha até aqui. Preciso falar com você, Suzy ”. No bilhete havia um croqui m ostrando com o chegar ao bangalô de Suzy.

Suzy ! Que diabo quereria ela? Suas preferências sexuais m e pareciam definidas, todavia... Eu j á havia ido para a cam a com algum as

m ulheres

hom ossexuais

e

não

via

diferenças

fundam entais entre um a hom o e um a hetero. Que azar eu estar todo inchado com as m ordidas dos carrapatos. De qualquer form a não seriam uns m íseros carrapatos que iriam m e im pedir de desfrutar as guloseim as de um corpo de m ulher.

Segui as direções do desenho e não dem orei a achar o bangalô de Suzy. Bati apenas um a vez e logo ela abriu a porta.

“Bem , aqui estou eu.”

Sobre a m esa da saleta vi a coruj a que ela m encionara, um a escultura de uns trinta centím etros de altura.

“O que foi que aconteceu com você? Desculpe”, ela riu, “você talvez estej a sofrendo, m as está tão engraçado com essas m anchas verm elhas no pescoço e no rosto. O resto do corpo tam bém está assim ?”

“Mais ou m enos”, respondi, sentindo um certo m au hum or tom ar conta de m im . “Mas eu não vim aqui para falar de carrapatos.’’

“Você tem razão.”

Suzy contou que sem pre fora com pulsiva leitora de j ornais e revistas, principalm ente aquelas dedicadas às fofocas. Ela gostava de escândalos, com o todo m undo aliás, e confessou-se atraída por crim es, falcatruas, prevaricação, traficâncias, safadezas. Com o dona de butique e ocultista tinha um a oportunidade m uito grande de satisfazer sua curiosidade de m exeriqueira. “Você se debruça sobre a palm a da m ão de um a pessoa e em poucos segundos, com um pequeno incentivo, ela conta os piores segredos de sua vida.”

Depois deste intróito, fez um a pequena pausa e ficou m e olhando, com um cigarro preso entre os dedos. Até então nunca a vira fum ando.

Continuou: “Você sabe que existe um assassino entre nós?”.

“É m esm o?”, eu disse.

“Não está surpreso?”

“Nada surpreende um escritor.”

“Sem essa.”

“Está bem . Estou m uito surpreso.”

“Esse ar blasé não está m uito convincente”, disse Suzy.

“Posso lhe contar a história que eu ia escrever, na nossa brincadeira do m ote?”

“Se fizer isso estará elim inada da brincadeira.”

“Não faz m al. Você vai gostar de ouvir. É um a história de am or.”

“Gosto m uito de histórias de am or”, eu disse, aproxim ando-m e de Suzy. “Você tem isso m uito bonito.” Muito de leve deslizei a m ão sobre o busto de Suzy coberto por um a blusa de seda. Ela não usava sutiã e senti o bico durinho do seu seio. Minha boca se encheu d’água.

“Obrigado”,

disse

Suzy,

com

deliberada

indiferença,

afastando o corpo, fazendo-m e sentir a grosseria do m eu gesto. “O

rapaz da nossa história tem vinte e quatro anos e a m oça vinte e um . Eles são ricos, bonitos, altos e se am am . Mas se am am de um a m aneira possessiva, com a paixão escura dos dem entes.”

“Toda paixão é dem ente’’, eu disse, pensando em Delfina Delam are. “Mas um hom em e um a m ulher loucam ente apaixonados não são nenhum a novidade.”

“Eu sei. A diferença é que estes fizeram um pacto de am or: aquele que traísse o parceiro seria m orto por este.”

“A paixão com o com parsaria torva, conivência turva, cum plicidade sem lim ites. É a tragédia grega, o dram alhão latino”, eu disse. “O ônus da abundância é o tédio. A beleza em bota-se, o gozo se esgota, a inteligência cansa. O pacto de m orte passa a ser um a fonte de vida. Gosto desses pactários.” Meu coração doía ao dizer isso.

“Me interrom pendo a todo instante você não m e deixa contar a história”, disse Suzy.

“Histórias orais fundam entam -se na intriga. Até agora você só fez sociopsicologia.”

“Eu? E a sua filosofia de alm anaque?”

“Não vam os brigar”, eu disse. “Com o se cham avam os dois personagens? O nom e é m uito im portante. On ne peut plus changer un personage de nom que de peau.” Eu sabia que estava falando dem ais.

“Maria e José. Maria passava as m anhãs na hípica m ontando os seus cavalos, o que fazia com extrem a habilidade.”

Eu estava m uito nervoso, com o que sentindo o que ia sair daquela conversa toda. Quando estou nervoso falo m uito. “Montar de pernas abertas sobre o dorso dos cavalos foi, durante séculos, proibido às m ulheres, com o algo obsceno e nefando. Elas agora com pensam essa, essa —”

“Eu lhe dei um a pista im portante”, Suzy m e cortou, “anote.”

“Anotei”, eu disse.

“José, por sua parte, cum pria os rituais m asculinos. Os ricos são ritualistas, você sabe.”

“Não sei. A preocupação com os ricos é típica dos periféricos da alta burguesia, com o coiffeurs, donos de restaurante, putas, j oalheiros, cartom antes et cetera.” (Lem brei-m e de Minolta, falando com igo na véspera da m inha viagem para o Refúgio, quando eu com entava a m inha dificuldade em escrever Bufo & Spallanzani: “O seu m al”, dissera Minolta, “o seu m al foi não querer ser negro e pobre, por isso você deixou de ser um grande escritor verdadeiram ente; você escolheu errado, preferiu ser branco e rico e a partir do m om ento em que fez essa escolha m atou o que de m elhor existia em você”. Minolta disse isso, a m inha Minolta! Só podia ter sido um a recidiva de riponguice. “E o Machado de Assis? Ele teve direito, não é, de ser branco”, eu disse. “Mas era pobre”, Minolta respondeu.)

“Não adianta m e provocar”, disse Suzy. “Não vou entrar no seu j ogo”.

“Então continue.”

“O corpo m ais lindo perde sua sedução com a exposição.

Com o escritor você sabe disso m elhor do que ninguém . O am or nos consom e com o um a cham a. Posso ler um a coisa para você?”

Tirou um papel do bolso e leu. “Eu estava naquela avenida quando ela passou por m im em sentido oposto. Isso durou apenas alguns segundos. Ela usava um vestido preto leve, m uito fluido, com o se fosse de seda acetinada. O seu corpo era atlético, alto e m agro. Os cabelos negros e lisos estavam cortados à la garçonne.

O vestido e o corpo eram indissociáveis, um só obj eto confundido, levado por um andar de elegância perturbadora. O vestido, m uito decotado, não tinha m angas, e a m ulher, de saltos altos, não ostentava j óia algum a. Sua beleza era inesquecível. Tive a sensação de ter m e queim ado com a sua passagem .”

Suzy acendeu outro cigarro. “Carrego isso com igo, com o se fosse um a oração. Sabe quem escreveu isso?”

“Baudelaire tem um belo poem a sobre a m ulher que passa”, eu disse.

“Nenhum hom em escreveria assim , só um a m ulher seria capaz de escrever assim sobre outra m ulher”, disse Suzy. (Depois descobri que era o trecho de um a entrevista de M. Duras.) “E eu li isto para você porque foi exatam ente o que senti quando vi...

Maria, pela prim eira vez. Na hora não entendi o que sentia, m as foi isso, foi com o se eu tivesse m e incendiado.”

Suzy fechou os olhos e pareceu rem em orar sua paixão.

“Com o sem pre acontece — agora retom o m inha historieta —quem traiu foi o hom em . Oh, sim , talvez ele a am asse, não duvido, os hom ens conseguem am ar e trair ao m esm o tem po. A m ulher não queria m atá-lo, m as o pacto tinha que ser cum prido. Ela se colocou à frente dele, com um revólver na m ão, a visão do hom em que am ava, aj oelhado à sua frente, toldada pelas lágrim as, e disse, não quero te m atar, eu te am o. Mas m esm o assim apertou o gatilho. Sabe o que a fez apertar o gatilho? A piedade. Se ela o traísse não seria m ais capaz de viver; ela acreditava que ele era tão digno quanto ela e quisesse m orrer para expiar o horror que com etera.”

Continuar: parte 3 de 3