
Cadastro Único: tecnologia de reclassificação social
Em 2001 o governo federal criou o CadÚnico para juntar num só registro os beneficiários de três programas que rodavam separados: o PETI, de 1996, o Bolsa Escola, sob o Ministério da Educação, e o Bolsa Alimentação, com cadastro na base do DATASUS. Torres reconstitui o que veio depois: o Número de Identificação Social atribuído pela Caixa Econômica Federal, as auditorias do TCU, a distância entre as metas de cadastramento e a capacidade dos municípios, a centralidade que o cadastro ganhou com o Bolsa Família, de 2003. Em 2010 a base tinha mais de 20 milhões de famílias. Com Bourdieu, o autor lê o cadastramento como classificação: ao definir quem são os pobres do Brasil, o Estado fixa também a posição deles. O primeiro capítulo abre numa peça lusitana de 1858, A pobreza envergonhada, de Leal Junior, em que a família Guerreiro, arruinada em Lisboa, encena o status que perdeu.
