Canções

António Botto · Capítulo 13 de 17

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Canções

+Xii+

 

Tu mandaste-me dizer

Que tornavas novamente

Quando viesse a tardinha;

E eu, para mais te prender,

—N'esse dia…

 

Pintei de negro os meus olhos

E de rôxo a minha boca.

As rosas eram aos mólhos

Para a noite rubra e louca!

 

Entornei sobre o meu corpo,

—Que fôra delgado e bello!

O perfume mais extranho e mais subtil;

E um brocado rôxo e verde

Envolveu a minha carne

Macerada e varonil.

Os meus hombros florentinos,

Cobértos de pedraria,

Eram chagas luminosas

Alumiando o meu corpo Todo em fébre e nostalgia.

Nas minhas mãos de cambraia,

As esmeraldas scintillavam;

E as pérolas nos meus braços,

Murmuravam…

Desmanchado, o meu cabello,

Em ondas largas, cahia,

Na minha fronte

Ligeiramente sombría.

 

Estava pallido e dir-se-hia

Que a pallidez aumentava

A minha grande belleza!

 

Na minha boca ondulava

Um sorriso de tristeza.

 

A noite vinha tombando.

 

E, como tardasses,

Fiquei-me, sentádo, olhando

O meu vulto reflectido

No espelho de crystal;

 

E afinal,

Nem frescura, nem belleza,

No meu rôsto descobri!

 

—Ó morte, não me procures!

E tu, meu amôr, não venhas!…

—Eu já morri.