Canções

António Botto · Capítulo 5 de 17

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Canções

+Iv+

 

Bemdito sejas,

Meu verdadeiro conforto

E meu verdadeiro amigo!

 

Quando a sombra, quando a noite

Dos altos céus vem descendo,

A minha dôr,

Estremecendo, acórda…

 

A minha dôr é um leão

Que lentamente mordendo

Me devora o coração.

 

Canto e chóro amargamente;

Mas a dôr, indiferente,

Continúa…

 

Então,

Febríl, quase louco,

Corro a ti, vinho louvado!

—E a minha dôr adormece,

E o leão é socegado.

 

Quanto mais bêbo mais dórme:

Vinho adorado,

O teu poder é enorme!

 

E eu vos digo, almas em chaga,

Ó almas tristes sangrando:

Andarei sempre

Em constante bebedeira!

 

Grande vida!

 

—Ter o vinho por amante

E a morte por companheira!