Canções

António Botto · Capítulo 4 de 17

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Canções

+Iii+

 

Andáva a lua nos céus

Com o seu bando de estrellas.

 

Na minha alcova,

Ardiam vellas,

Em candelabros de bronze.

 

Pelo chão, em desalinho,

Os velludos pareciam

Ondas de sangue e ondas de vinho.

 

Elle olhava-me scismado;

E eu,

Placidamente, fumava,

Vendo a lua branca e núa

Que pelos céus caminhava.

 

Aproximou-se; e em delirio

Procurou ávidamente,

E ávidamente beijou A minha boca de cravo

Que a beijar se recusou.

 

Arrastou-me para Elle,

E, encostado ao meu hombro,

Fallou-me d'um pagem loiro

Que morrêra de Saudade,

Á beira-mar, a cantar…

 

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,

Entre nuvens que tornavam

A linda noite sombría.

 

Déram-se as bocas n'um beijo,

—Um beijo nervoso e lento…

O homem cede ao desejo

Como a nuvem cede ao vento.

 

Vinha longe a madrugada.

 

Por fim,

Largando esse corpo

Que adormecêra cansado

E que eu beijára loucamente

Sem sentir,

Bebia vinho, perdidamente,

Bebia vinho… até cahir.