Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

João de Deus · Capítulo 13 de 27

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Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Duodecima lição - ei

DUODECIMA LIÇÃO

 

Já na lição passada nos referimos ao ditongo ou, usado nas provincias do norte, e que bem se póde ter por vicioso. Agora diremos que nas provincias do sul cerceiam o delicado ditongo ei, dizendo em logar de lêi lêito dêi dêitêi, simples e desengraçadamente lê lêto dê dêtê. Tambem é vulgar nestas provincias mé pai, té primo; e não menos, jantí andí cantí, em vez de meu pai, teu primo, jantêi andêi cantêi.

Não imaginamos circumstancias que recommendem ao mestre contemplação alguma com essas crassas deturpações da lingua. Os mais rudes acceitam a emenda sem escandalo, e sem surpreza, lembrados duma ou outra pessoa culta que tem ouvido.

Mas voltando ao êi, objecto especial desta lição, bom é notar que esse ditongo nem sempre é expresso, mormente na orthografia antiga. Os antigos escreviam regularmente têa fêo cêa recêo: os modernos escrevem geralmente mais conforme a pronuncia. Seja como fôr, o estylo da lingua não admitte o ditongo êo êa; e em taes casos, esteja o i expresso ou não, ha de se ouvir o ditongo êi antes da voz final.

A razão popular, ainda mais que as academias, tende sempre a racionalisar a orthografia ajustando-a com a falla; e por isso, como já indicámos, hoje o mais ordinario é escrever-se feio receio teia aldeia. E ainda bem. Mas o que parece equívoco da parte dalguns autores é escreverem, por exemplo grangeiar receiar, porque em certas vozes (do presente do indicativo, imperativo e conjuntivo) de similhantes verbos soa êi. Sempre ouvimos dizer cêio e recêio; mas ainda não ouvimos dizer cêiêi e recêiêi. O i, que o estylo da lingua insinua naquellas vozes, é um accidente do verbo e não o mesmo verbo na sua forma primitiva. Se as alterações que soffrem as vogaes durante a conjugação dos verbos devessem figurar no infinito, não havia modo de os escrever. Escrever, por exemplo; segundo e, grave; escrevo, segundo e, agudo: velar, e, grave; velo, e, aberto; vele, e, agudo (o mesmo da primeira syllaba).

E sem fallarmos nos casos em que até as consoantes variam, como nos verbos acabados em gar e car, aqui se mostra que a lingua portugueza não guarda nos derivados a prosodia radical, por outra, que não é uma lingua etymologica, como era a latina: assim como não é uma lingua metrica, com syllabas longas e breves, como o latim; e assim como não é uma lingua declinavel, com sete, oito, nove, dez e mais formas do mesmo nome, pronome ou adjectivo, como havia no latim. Ora não sabemos que traços mais profundos de divergencia pode separar uma lingua de outra. Em que se fundam pois os argumentos de analogia com que o pedantismo nos tem sempre querido impor a orthografia latina? Bem fez a Hispanha que importando-lhe mais os seus grandes interesses, do que os embaraços do filologo em descobrir a origem e significação de Cristo escrito sem h, tem hoje a mais perfeita orthografia do mundo. E nisso se podem fundar boas esperanças da enorme civilisação que espera aquelle generoso povo, tantos seculos á espessa sombra da monarchia.

 

ei = êi

 

dê lê

 

dei lei atei

 

papei lavei

 

abalei feita

 

feito feitio

deito deitou

 

deitei babei

 

beija beijo

 

beijou beijei

 

dei-a dei-o

 

veia veio

 

feia feio

 

leia leio

 

peia teia