Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura
Decima quarta lição - q
DECIMA QUARTA LIÇÃO
Ao k segue-se a sua irmã na pronuncia e última das consoantes certas, o q: mas com esta já principiam as grandes inexactidões na escrita e os equivocos faceis na leitura.
Não se escreve q sem u; mas esse u, com e, i, quasi nunca se lê.
É a regra que podemos estabelecer. D'ella podemos tirar o seguinte dictame:
Visto qúé qúí valer quasi sempre qé qí, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta.
Aconselhai o discipulo nesta conformidade; sem embargo de o deixardes ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que não faz differença essencial, e que embora leia ficuêi fícue, facilmente percebe o seu engano, e até se intende o que diz.
O alumno estranha com razão estas anomalias. Em satisfação á sua intelligencia bom é dizer-lhe (o que temos por certo) que antigamente lia-se sempre o u depois do q; com o tempo algumas palavras mudaram, continuando-se todavia a escrever do mesmo modo. Nem haja dúvida em accrescentar que, se a palavra mudou na pronuncia, devia mudar na escrita; e que uma vogal que se não lê não se devia escrever.
Se cada letra valesse um elemento da palavra fallada, nada mais facil que aprender a ler. A lingua portugueza reduz-se a trinta e seis elementos; para decifrar toda a nossa imprensa, bastaria fixar e distinguir trinta e seis caracteres. Quem não teria essa capacidade e paciencia?
Infelizmente, á parte os methodos, e a insufficiencia dos mestres que geralmente nas escolas são os mesmos discipulos, sobejam letras inuteis, letras dum valor commum, letras de valor múltiplo, combinações quasi fantasticas: e os proprios signaes, que haviam de marcar o tom da vogal, d'uns ha falta, d'outros sobra, e n'outros dúvida por desacôrdo nos autores, e quasi sempre no mesmo autor.
A este respeito diremos que em portuguez temos vogaes nasaes, agudas, fechadas, abertas e graves; ás quaes por sua ordem correspondem, e muitas vezes se applicam, os seguintes signaes:
nasal ou til (~) de ordinario supprido por m, n:
mão, mente, minto, monte, mundo;
agudo (´)
má, meu, mia, mó, amuo;
circumflexo (^)
amei, amei, ... amou, ...
aberto (`)
... mèta (baliza) ... ... ...
A este signal chamam os francezes grave; e á sua imitação muitos nossos, mas impropriamente, porque nunca se usou nas vogaes que nós chamamos graves similhante signal nem outro algum. Essas vogaes são, por exemplo, as últimas das seguintes palavras:
ama, ame, amei, amo,
tribu
E aqui chamamos grave o a, que chamámos fechado, a páginas 11. Veremos a razão disso.
q
que qui = ke ki
fique fiquei
toque toquei
ataquei pique
ataque piquei
duque loque
baque jaqueta
applique
appliquei
aquelle
aquella
aqui aquillo
quieta quieto
qual
qualidade