Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

João de Deus · Capítulo 15 de 27

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Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Decima quarta lição - q

DECIMA QUARTA LIÇÃO

 

Ao k segue-se a sua irmã na pronuncia e última das consoantes certas, o q: mas com esta já principiam as grandes inexactidões na escrita e os equivocos faceis na leitura.

Não se escreve q sem u; mas esse u, com e, i, quasi nunca se lê.

É a regra que podemos estabelecer. D'ella podemos tirar o seguinte dictame:

Visto qúé qúí valer quasi sempre qé qí, lendo-se d'este modo, quasi sempre se acerta.

Aconselhai o discipulo nesta conformidade; sem embargo de o deixardes ler uma ou outra palavra como está escrita, para ver que não faz differença essencial, e que embora leia ficuêi fícue, facilmente percebe o seu engano, e até se intende o que diz.

O alumno estranha com razão estas anomalias. Em satisfação á sua intelligencia bom é dizer-lhe (o que temos por certo) que antigamente lia-se sempre o u depois do q; com o tempo algumas palavras mudaram, continuando-se todavia a escrever do mesmo modo. Nem haja dúvida em accrescentar que, se a palavra mudou na pronuncia, devia mudar na escrita; e que uma vogal que se não lê não se devia escrever.

Se cada letra valesse um elemento da palavra fallada, nada mais facil que aprender a ler. A lingua portugueza reduz-se a trinta e seis elementos; para decifrar toda a nossa imprensa, bastaria fixar e distinguir trinta e seis caracteres. Quem não teria essa capacidade e paciencia?

Infelizmente, á parte os methodos, e a insufficiencia dos mestres que geralmente nas escolas são os mesmos discipulos, sobejam letras inuteis, letras dum valor commum, letras de valor múltiplo, combinações quasi fantasticas: e os proprios signaes, que haviam de marcar o tom da vogal, d'uns ha falta, d'outros sobra, e n'outros dúvida por desacôrdo nos autores, e quasi sempre no mesmo autor.

A este respeito diremos que em portuguez temos vogaes nasaes, agudas, fechadas, abertas e graves; ás quaes por sua ordem correspondem, e muitas vezes se applicam, os seguintes signaes:

 

nasal ou til (~) de ordinario supprido por m, n:

mão, mente, minto, monte, mundo;

agudo (´)

má, meu, mia, mó, amuo;

circumflexo (^)

amei, amei, ... amou, ...

aberto (`)

... mèta (baliza) ... ... ...

 

A este signal chamam os francezes grave; e á sua imitação muitos nossos, mas impropriamente, porque nunca se usou nas vogaes que nós chamamos graves similhante signal nem outro algum. Essas vogaes são, por exemplo, as últimas das seguintes palavras:

ama, ame, amei, amo,

tribu

E aqui chamamos grave o a, que chamámos fechado, a páginas 11. Veremos a razão disso.

 

q

 

que qui = ke ki

 

fique fiquei

 

toque toquei

 

ataquei pique

 

ataque piquei

 

duque loque

baque jaqueta

 

applique

 

appliquei

 

aquelle

 

aquella

 

aqui aquillo

 

quieta quieto

 

qual

qualidade