Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura
Terceira lição - f
TERCEIRA LIÇÃO
Cada um tem as suas traças de facilitar o ensino, e ajudar o principiante nas difficuldades. Nós temos achado util cobrir e descobrir alternativamente o v nas palavras vai, via, etc, fazendo ler ora ai, ora vai e assim o mais, a fim de certificar o principiante do papel que o v representa na escrita.
Deste ou doutro modo estamos que vos não enfastiou a lição passada, onde pela primeira vez combinámos vogaes e consoantes. Mas que differença haverá entre vogal e consoante, e porque iriamos nós ao fim do abecedario buscar o v para esse primeiro exercicio?
Quando dizemos á, soltamos essa voz da garganta; mas se dissermos má, soltamos essa voz, despegando os labios; e se dissermos mal, despegamos os labios ao soltal-a e no fim damos com a lingua no ceu da bôca.
Donde se vê que as palavras se compõem de vozes e tambem duns modos de começar ou acabar a voz.
As vozes pertencem á garganta, e representam-se nas vogaes; os modos pertencem aos orgãos mudos, como labios, dentes, lingua etc., e representam-se nas outras letras.
Vai uma grande differença da voz, ao modo de começar ou acabar a voz; vai portanto uma grande differença de vogal a consoante.
Mas esses modos, uns consistem num toque ou despego rapido, num simples movimento, numa funcção instantanea que se póde repetir, mas que se não póde prolongar, como succede nas seguintes palavras:
bocado golilha maninho preto
(bqd, gl lh, mn nh, pr t). Outros consistem numa disposição em que a gente póde insistir o tempo que quizer, como nas seguintes palavras:
favo siso chá jarro
f...v... ç...z... x...j...rr...
Ora quando a voz é modificada com aquelles modos instantaneos, de sua natureza improlongaveis, a voz e o modo constituem para o principiante uma somma difficil de reduzir aos seus elementos, e portanto confusa: pelo contrario quando o modo é prolongavel, o principiante demora-se na voz ou no modo o tempo que lhe apraz sem falsear a syllaba, sem desfigurar a palavra; e o papel que a consoante representa na escrita é evidente e distincto. por exemplo, contando os pontos por momentos, podemos levar cinco momentos a pronunciar, v.....á, ouvindo-se afinal perfeitamente vá. O mesmo não acontece em dá, cá, pá, lá, etc.
Logo, por onde haviamos nós de começar, pelas consoantes contínuas ou pelas consoantes instantaneas? É claro que pelas consoantes contínuas, prolongaveis, que deixam ao principiante apreciar melhor os elementos da syllaba.
Ora, dessas consoantes a menos equivoca, ou antes, a inequivoca, a unica que não tem equivalentes, a mais perfeita em summa, é o v: começámos pelo v.
Mas em que consiste o v, como se pronuncia o v?
Nós, mesmo com a bôca fechada, podemos fazer uma especie de gemido, respirando pelo nariz; mas se, em logar de respirar pelo nariz, fazendo esse gemido, respiramos por entre o labio inferior unido aos dentes de cima, pronunciamos v...
Este som depende do folego emittido com certa força; sem essa força, emittindo o simples folego e conservando a mesma posição de labio e dentes, em logar de v... pronunciamos f...
Ora havendo tanta analogia entre estes dois elementos, sendo o f um v abafado, soprado, silencioso, passemos do v ao f.
f
fé
fui
fia fiava
afia afiava
fava