Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

João de Deus · Capítulo 25 de 27

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Cartilha Maternal; ou, Arte de Leitura

Vigesima quarta lição - y, h

VIGESIMA QUARTA LIÇÃO

 

O nosso plano é o seguinte:

 

I Vogaes

a, e, i, o, u.

II Consoantes certas

v, f, j, t, d, b, p, l, k, q.

Consoantes incertas

c, g, r, z, s, x, m, n.

Consoantes compostas certas

th, rh, nh, lh, ph,

brace (y).

Consoante composta incerta

ch,

III Alfabeto maiusculo.

Daqui se vê que ás consoantes incertas seguem-se as compostas. É pois tempo de fallarmos do h; tempo e opportunidade, porque as duas últimas incertas, m, n, são muitas vezes simples signaes prosodicos; e o h, igualmente debaixo de todas as apparencias de letra, não passa dum signal.

Os gregos tinham vogaes e consoantes aspiradas, isto é, proferidas com aquelle esfôrço, aquella sobejidão de fôlego com que os hespanhoes proferem a inicial de José. Em portuguez, ha mais ou menos fôrça em vozes e inflexões; tanto, que é nisso e por isso que muitas se destinguem e se transformam dumas noutras: mas propriamente a chamada aspiração, certa aspereza e violencia, como de voz ou inflexão tossida, só (que nos conste) nas gargalhadas do snr. Rivara.

Ora na Grecia, onde só havia sete sabios, ninguem era obrigado, para ler e escrever grego, senão a saber grego. Naquella mina inexhaurivel de etymologias, não havia etymologias. Escrevia-se com a maxima exacção, salpicando-se a escrita de signalinhos, e entre esses figuravam os de aspiração, que eram umas virgulasinhas sobrepostas á vogal ou consoante accidentalmente aspirada.

Os latinos, em logar dessas virgulasinhas, tinham h, caracter improprio e indevidamente mettido na cathegoria das letras; mas elles, importando-lhes pouco tirar aos derivados os ares de familia, íam seguindo a sua orthografia, empregando o h, tanto em palavras de origem patria como de origem grega.

E como o portuguez é filho do latim na opinião dos sabios, apezar de não termos aspiração, cá temos tambem o h em palavras do latim, do grego (que não tinha culpa nenhuma da orthografia latina), e até em palavras de origem ou orthografia nossa, como sahir, cahir, chegar, fechar; servindo-nos o h de accento.

De tudo isto resulta que os gregos tinham a sua orthografia, os latinos a sua, e nós temos a dos latinos, sem o seu criterio e a sua coherencia.

A dizer a verdade não ha differença essencial entre aspiração e accentuação: ambas envolvem fôrça: mas ha a differença sobeja para não confundir nem os nomes nem os signaes.

O h em portuguez não vale aspiração; umas vezes é accento, outras vezes é signal etymologico, outras vezes é ambas as cousas.

Applica-se a todas as vogaes e á terça parte das consoantes, ou tanto monta, a metade do abecedario. A sua indole é carregar, accentuar, apezar das muitas excepções. Vejamos com as vogaes.

Ahi, ah, huivo lê-se como se escrevessemos aí, á, úivo: aqui vale accento agudo.

Heroe, honesto, hostil lê-se como se escrevessemos êroe, ônesto ôstil: aqui indica etymologia, valendo ao mesmo tempo de accento circumflexo.

Em raras palavras começadas etymologicamente por h, deixa a primeira vogal de ser mais ou menos fortemente accentuada.

Com as consoantes observa-se a mesma regra.

Em th, rh a presença do h é inutil; mas haveis de notar que as inflexões t, rr... são extremas, isto é, admittem, sem transformação, a pronuncia mais vehemente.

Por outro lado, se os etymologistas fossem etymologicos não escreviam catarrho, que não é orthografia portugueza nem latina nem grega; escreviam catarho, para se lêr do mesmo modo; vindo o h a servir tambem de accentuar o r.

Nh, lh é accentuação de n, l. Proferi alternativamente n, nh, e l, lh, sentireis a lingua, na pronuncia da forma dupla, adherir mais extensamente ao ceo da bôca, e despegar-se com mais custo.

A respeito de ph, todos apagam uma luz fazendo ou proferindo naturalmente pf... Esta dupla inflexão consiste em despegar os labios com um sôpro; o que corresponde a accentuar, carregar, tornar sensivel ou aspirar a inflexão negativa p'. É verdade que para nós ph não vale rigorosamente pf...; mas a differença é insignificante, e pouco desdiz a forma.

Em ch temos dois valores, um frequentissimo, x... e outro raro, k'. Reforçai a inflexão ç... e vereis, como facilmente se vos torna x... Quando ch vale k', pode-se dizer que o h indica o valor aspero, forte, guttural da consoante c.

Assim, ou similhantemente, convem desculpar as formas duplas, justificar, explicar o valor simples ou homogeneo dessas dualidades graficas. Porque certamente que todos os caracteres da escrita tem um valor convencional e arbitrario; mas, posto um valor, até a intelligencia infantil é impellida a inquirir se se é coherente.

E pois fallámos do h, do ph, do ch, fallemos do y, essa especie de companheiro de viagem que tantas vezes vem na caravana.

Os sabios chamam áquillo i grego. Se é grego, excellente razão para o excluir da nossa escrita.

Em grego havia uma vogal (que por signal não se sabe ao certo se valia i ou se valia u) que na forma maiuscula um tanto se assimilhava ao y: na forma minuscula, como quasi exclusivamente nos apparece o y, o caracter similhante era o gamma, o g'. De modo que se um grego resuscitasse, e aprendesse a ler portuguez, havia de se rir muito do nosso i grego. Não obstante ensinai a ler o vosso discipulo y, ph, mas recommendando-lhe que nunca escreva tão affectadamente.

Os hespanhoes, em logar do nosso nh, lh, teem ñ, ll. É melhor orthografia, mas ainda incoherente. Tanta razão ha de carregar ou dobrar num caso como no outro. Os polacos carregam o l.

Para nós o til não tinha applicação ao n. Interpretando os latinos e imitando os gregos o melhor seria carregar, accentuar simplesmente, com algum signal particular ou o mesmo agudo, n, l e até r, t, p, c. Vamos á practica.

Deveis ter tido occasião de ensinar ao discipulo o que é, e de que serve o accento agudo e circumflexo; senão, explicai-lhe, apresentando-lhe, como um novo accento embora de diversa forma, o h.

—Que é isto?—O accento agá.

—De que serve?—De carregar vogal ou consoante.

—Que vale n, l, p carregado?—N', nh'; l', lh'; p', pf...

—Mas lê-se pf...?—Lê-se só f...

—E que vale o c carregado?—x... e algumas vezes, q'.

y = i

 

cypreste

 

mysterio

 

symetria

 

pyrilampo

 

asylo abysmo

 

cysne crystal

 

lyceu tyranno

estylo syllaba

 

h =

 

harpa homem

 

hoje hombro

 

hostias haver

 

th rh

 

sympathia

 

rheumatismo

 

catarrhal

nh

 

unha punham

 

tinha nenhum

 

ninho manhã

 

vinha grunhir

 

linha tenham

 

fronha pinhão

 

junho azenha

lenha inhabil

 

lh

 

ôlho espelhos

 

dá-lhe joelhos

 

bulha ovelhas

 

azelha grelha

 

filhos ralham

 

gralha trilhar

alho palhinha

 

ilha orelhinha

 

ph = f

 

aphta pharol

 

typho grypho

 

phoca phrase

 

esphera

 

triumpharam

typographia

 

pharmacia

 

phosphoros

 

= ~~~~z ch

 

chá cachorro

 

chão chafariz

 

chapa chegar

 

cheio colchão

= k Christo

 

chrisma

 

machinista

 

eucharistia