Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 4 de 10

Páginas do PDF

Cavalo de Tróia 2: Massada

10 de abril, segunda-feira

 

Embuçado no manto, não os vi. Escutei, porém, suas risadas e comentários.

Voltei-me e descobri junto a uma das paredes laterais da residência dos Marcos um

grupo de hebreus que gesticulava e apontava para a parede entre sonoras

gargalhadas. Ao aproximar-me, emudeceram e se afastaram com uma pressa

suspeita. Ao olhar para a parede indignei-me. Alguém, aproveitando a noite, havia

garatujado com cal umas enormes e insultantes letras, que, supus, eram dirigidas

aos seguidores do Mestre e aos que – como nesse caso – lhes davam abrigo.

“Ladrões.”

Assim dizia o grafite. Não era o primeiro que eu via nas paredes de Jerusalém.

Os judeus daquela época, como os cidadãos de Pompéia ou do Palatino, eram

amantes dessa gratuita e clandestina forma de protesto, que remontava a tempos

muitos antigos. (Como vemos, não há nada novo sob o Sol.)

Na base do palácio dos Asmoneus, me havia chamado a atenção uma daquelas

inscrições, por sinal assinada pelo autor: “Simão e sua casa arderão no inferno”. O

incorreto aramaico – obra talvez de algum pedreiro descontente – estava firmado

por um tal Pamras. Em outros lugares, em especial nas muralhas e nos arcos das

pontezinhas sobre o Tiropeon, liam-se sentenças mais atrevidas, quase sempre

contra o jugo dos odiados romanos. “Poncio cattivo” (Pôncio, o mau), parodiando o

insulto que os habitantes de Capri dirigiam ao maligno imperador então reinante:

Tibério.

“Pôncio, o escravo de Sejano”, “Saduc e Judas de Gamala não estão

mortos”,142 “Soldado (referindo-se sem dúvida aos legionários de Roma), tua vida

vale dez asses?”2

Esse, naturalmente, não era o único meio de expressão do povo. Além dos

arautos oficiais, as notícias “voavam” de boca em boca, graças aos vendedores

ambulantes, bufarinheiros e mendigos errantes. A fonte e o poço público, aos quais

acudiam as mulheres e os rebanhos regularmente, eram outros dos focos de

“informação” em toda a Palestina. Essa simples e rápida forma de difundir as boas

e más notícias era conhecida por uma muito plástica expressão: “A asa do

pássaro”. 143

Naturalmente, suspeitei desde o princípio que a autoria de semelhante

canalhice – direta ou indiretamente – podia ligar-se ao sumo sacerdote e aos seus

fanáticos saduceus. Entre os rumores que cruzavam Jerusalém de ponta a ponta

desde as primeiras horas da manhã de domingo, um havia que apresentava uma

especial afinidade com o grafite em questão: o que afirmava que os discípulos de

Jesus haviam roubado o seu corpo enquanto os “guardas dormiam”. Mas era

preciso ouvir os comentários dos cidadãos – judeus ou pagãos – para concluir que

tais “notícias” só eram acreditadas pelos de má-fé. Nem o mais ingênuo da cidade admitia que a legião romana pudesse ser burlada tão grotescamente...

Mas a campanha de intoxicação – como se diria no século XX – havia sido

meticulosamente planejada pelo Sinédrio. Ou, para ser mais exato, pelos leais a

Caifás e a seu sogro. Aquela nova medida de desprestígio público de Jesus e sua

gente nasceu, seguramente, da reunião celebrada na tarde anterior e da qual nos

informara José de Arimatéia. Não me enganava. À medida que eu avançava para a

cidade alta, outros grafites recentes, nas paredes da esplanada de Xisto, nos

baixos da grande parede ocidental do Templo e na rua do pórtico do mercado “de

cima”, viriam confirmar minha convicção. O povo, ao ver as inscrições, se

concentrava nos arredores, divertindo-se e engalfinhando-se em não poucas e

acres discussões. Também não é verdade que a totalidade do povo estivesse

contra o Galileu. Nas disputas havia opiniões de todos os matizes. Algumas mais

corajosas e sensatas. Ante o argumento da vigilância romana, em vergonhosa fuga

para a fortaleza, a maior parte guardava silêncio, reconhecendo que “tudo era

muito estranho”. Mas o medo, como em todas as épocas, era geral e a maioria não

tinha o menor desejo de perder sua vida ou seu patrimônio para defender uns

“esfarrapados galileus”. Esta era a expressão mais repetida nos grafites que

cheguei a ler.

“O naggar (designação em aramaico do carpinteiro de obras externas ou, mais

genericamente, do construtor de casa) da Galiléia” – dizia uma daquelas inscrições

– “não morreu...” E em uma mordaz e mal intencionada segunda frase se

esclarecia: “Convalesce no lago onde ‘aparecerá’ a rameiras e bastardos.”

Sem dúvida, as notícias sobre uma futura presença do Filho do Homem nas

terras do norte, precedendo aos seus, serviam também aos seus inimigos.

“Os esfarrapados galileus” – dizia outra – “roubaram seu rei. Roma saberá.”

“Ladrões! Impuros! A sombra da Lei perseguirá os andrajosos filhos do círculo

dos pagãos.” (Assim se conhecia também a Galiléia.)

Talvez me entretivesse excessivamente. Mas em minha opinião valeu a pena.

Dessas manifestações nas paredes da Cidade Santa também nada dizem os

evangelistas e, todavia, foram um fator mais – e de clara importância – na difusão

da maior notícia de todos os tempos. Os amigos e fiéis a Jesus de Nazaré

souberam desde o princípio dessa suja manobra dos sinedristas, e isso contribuiu

também para multiplicar seus temores e para que, no caso dos dez,

permanecessem no pavimento superior dos Marcos, sem atrever-se a sair às ruas.

Pouco antes da hora terça, uma das sentinelas do parapeito oeste da Antônia

escoltava-me até o túnel da fachada principal da fortaleza. Ali, junto ao posto da

guarda, voltou a repetir-se a cena que eu já havia vivido com o de Arimatéia em

minha primeira entrevista com o procurador. Um optio consultou a tabuinha

encerada na qual se registravam os nomes dos visitantes do dia, assim como as

audiências previstas, e, com um sorriso, adiantando-me às intenções do suboficial,

entreguei-lhe meu cajado e ergui os braços para a revista de rotina. Dessa vez não

foi necessária. Na boca do túnel distingui a corpulenta silhueta de Civílis, o comandante-em-chefe da guarnição.

Saudou-me com o braço no alto e o optio, condescendente, franqueou-me a

passagem indicando-me que tudo estava bem e que eu podia passar.

Civílis, sem capacete e sem a cota de malha, protegia-se do frio da manhã com

a longa capa granada. Jamais o vi sem armas: sua espada no flanco esquerdo (ao

contrário da tropa) e um pequeno punhal com a empunhadura em forma de um

antílope em pleno salto.

Observou os restos do meu hematoma, mas, discretamente, nada perguntou. E

foi em silêncio que cruzamos o pátio quadrangular de tão tristes lembranças. Tudo

respirava rotina. Os legionários fora de serviço, como em outras ocasiões,

revisavam seus equipamentos. Alguns, trazendo a simples e curta túnica vermelha

de lã ou abrigados com seus pesados capotes de campanha, jogavam os dados

sobre as lajes de duro calcário acizentado. Dessa vez não havia cavalos junto à

fonte da deusa Roma. Ao passar ao lado do marco de pedra ao qual fora Cristo

amarrado, as imagens dos açoites me voltaram, revolvendo meu estômago.

Ao pé da polida escada de mármore branco que conduzia ao vestíbulo e à sala

de despachos oval de Pôncio, o centurião cruzou com outro oficial. Civílis golpeou

amistosamente a couraça anatômica de couro com seu inseparável uitis ou vara de

videira, e o companheiro se deteve. Em latim, e com evidente satisfação, lembrou-

lhe que tudo devia estar pronto para a marcha do dia seguinte. Alegrei-me pela

oportunidade da minha entrevista. Pelo visto, concluída a festa judia da Páscoa, o

procurador e as forças que o acompanhavam regressariam para Cesaréia, sede da

representação de César naquela área da província da Síria, à qual pertencia a

Judéia.

Surpreendeu-me não ver os sentinelas junto à porta lavrada da sala de

despachos do governador. Até esse momento supunha eu que nossa reunião se

daria naquela sala.

Civílis, ao perceber minha surpresa, fez-me um gesto. E o segui para o fundo do

vestíbulo retangular. Ao chegarmos à parede de mármore cipriota que cerrava o

lado direito, colocou-se em frente a um singular adorno: um escorpião de bronze,

de uns 40 centímetros de comprimento, cravado na parede por uma grossa barra

cilíndrica de ferro que o mantinha ligeiramente separado da superfície da parede.

Representava o oitavo signo do zodíaco: o do Imperador Tibério.

O oficial agarrou a cauda do brilhante aracnídeo e puxou-a com força. O bloco

de mármore rangeu e, admirado, vi que uma parte da parede girava sob um eixo

oculto, deixando a descoberto uma portinhola de apenas 1 metro de altura.

O oficial dispôs-se a entrar. Olhou-me e, como esclarecimento, comentou:

– Coisas do velho Herodes.

E um negro túnel apresentou-se diante de nós.

 

Enquanto penetrávamos no escuro corredor, com o queixo quase colado às

coxas, pensei que as palavras de Civílis faziam referência a algumas das

extravagâncias de Herodes, o Grande, que foi quem remodelou a fortaleza sobre o velho castelo dos Asmoneus. Aquele “invento” de uma porta secreta só podia ser

coisa do “criado idumeu”. Às minhas costas, logo que penetrei no túnel, acreditei

escutar uma rápida sucessão de “cliques”. As trevas e a estreiteza do lugar não me

permitiram descobrir a origem do rítmico ruído metálico, mas só podia tratar-se do

próprio mecanismo de fechamento da parede. Talvez um velho sistema de polias e

pesos que, assim que se abre o alçapão, reage automaticamente, procedendo ao

fechamento de forma gradual e inexorável.

Quando havíamos percorrido uns 20 metros, meio asfixiados pela escassez de

oxigênio, um golpe seco ressoou no úmido corredor. A parede acabava de voltar à

sua posição original, sepultando-nos.

O fato de que o centurião não se detivesse nem fizesse comentário algum deu-

me uma tranqüilidade relativa. Aquele não era o lugar mais apropriado para eu

terminar meus dias...

Meus temores dissiparam-se em seguida. Civílis havia parado e eu,

estupidamente, fui chocar-me com ele. Mas ele nada disse. Abriu uma portinhola

de fraca e roída madeira e a luz me feriu os olhos.

Quando consegui localizar-me estava atrás de uns grossos cortinados de cor

púrpura. O oficial franqueou-me a passagem e então entramos em uma espécie de

sonho. Jamais pude imaginar um luxo semelhante. O túnel secreto nos havia

conduzido a uma peça quadrada – uma espécie de tetrastilum –, a céu aberto e

com umas duzentas colunas meio encravadas em umas paredes das mais variadas

e refulgentes tonalidades. O “teto” era formado por largas lonas púrpuras de uns

20 metros de comprimento, estendidas de uma coluna a outra. Com o Sol no alto,

filtrariam os raios, projetando um resplendor avermelhado sobre o pavimento de

mármore. No centro erguia-se um pequeno repuxo – agora seco – em forma de

uma grande concha e com seis taças de mármore que serviam para recolher a

água.

Na parede orientada para o sul – no extremo oposto ao que escondia a saída

do túnel – haviam sido abertas umas estreitas e altas janelas, fechadas com

vidraças, das quais se podia contemplar o Santuário do Templo e boa parte da

esplanada dos Gentios. Entre essas janelas e o repuxo, alinhavam-se três mesas de

marfim, muito baixas, repletas de manjares que, à primeira vista, não identifiquei.

Mais do que mesas, pareciam pequenas arcas. E, a um lado, uma alta e belíssima

lâmpada de pé de alabastro translúcido, rematada por três flores de loto, nas quais

ardiam mechas de azeite. Pouco a pouco, à medida que fui observando, percebi

que o procurador – ou talvez sua mulher – sentia especial atração pelos móveis e

adornos egípcios. Na parede oeste, erguido sobre diferentes pedestais, exibiam-se

– no centro – um prodigioso barco faraônico de papiro, com incrustações de pedras

multicores e, a um e outro lado, duas cabeceiras funerárias, também de origem

egípcia. A da esquerda, dobrável e em marfim, adornada com duas cabeças do

gênio protetor Bes. A outra, uma valiosíssima peça de pasta vítrea azul opaco com

um friso de ouro decorado com os dois signos duplos da vida divina.

Entusiasmado com esses possíveis vestígios do reinado de Tutankamon – que

eu não conseguia entender como haviam chegado ao poder do governador – não

me dei conta da presença de Pôncio.

Civílis tocou-me com seu uitis e eu, ao voltar-me, descobri um Pilatos

rejuvenescido e jovial, que me saudava com o braço erguido. Correspondi ao

cumprimento com uma leve inclinação de cabeça e ele, abandonando todo

protocolo, veio a mim tomando-me pelos braços e zombando das “minhas correrias

matutinas pelos montes de Jerusalém”. Estava claro que o obeso Pôncio havia sido

informado por seu fiel comandante...

– ... Então vistes o sepulcro vazio...

Pilatos, que ostentava um formoso manto de cor jacinto enrolado à moda

romana e uma túnica de lã até os pés, não esperou minha possível resposta. Com

seus olhos azuis e saltados, fixos na cabeceira funerária que eu acabava de

admirar, murmurou como para si mesmo:

– Extraordinária!... Gostas, Jasão?

Ia dizer-lhe que sim e perguntar pela origem de tão magnífica peça quando,

deslizando para o centro da sala, levantou os braços e, girando sobre si mesmo

como um pião, bradou:

– Roma me invejará quando souber das minhas inovações.

Civílis e eu trocamos um olhar.

Depois, voltando até onde me encontrava, Pôncio me tomou pelo braço e fez-

me segui-lo. Apontou-me a colunata e, sem dissimular seu orgulho, foi enumerando

as excelências da construção:

– Vê! Quinze delas são de porfirita encarnada, de Cipollino e de Povanazzeto...

E os mármores?

Fez-me tocar as paredes enquanto indicava a procedência dos luxuosos

materiais:

– O negro, da ilha de Milo! Os pretensiosos de Roma chamam-no “mármore de

Lúculo”. Numídia! Eubéia! Tenaro!

Mas, com a mesma euforia com que havia arremetido ao falar de suas

inovações “arquitetônicas” – dominado por seu frágil e instável temperamento –,

assim se apagou também aquela explosão de orgulho pessoal. E, ajeitando

nervosamente a peruca loira, caminhou diretamente para as mesas. Deixou-se cair

pesadamente sobre os volumosos coxins e, uma vez acomodado, olhou-nos

perplexo.

Agitando as mãos, ordenou-nos que seguíssemos seu exemplo e,

imediatamente, o centurião e eu nos sentamos à sua frente.

Seu rosto, branco, inchado e redondo como um escudo, iluminou-se ao reparar

nos manjares. Seus lábios se abriram em um sorriso carregado de gula, fazendo

brilhar seus três dentes de ouro.

– Oh! miolos de pavão real!

E tomando uma das porções, engoliu-a sem mastigar. Nem Civílis nem eu nos atrevemos a imitá-lo. Mas Pôncio, enquanto remexia uma travessa de passarinhos

fritos, ordenou-nos que começássemos.

– Então o milagre do sepulcro – lançou-me Pôncio de súbito, repetindo quase

literalmente as palavras que eu mesmo havia pronunciado no pátio da fortaleza – é

só o princípio de uma série de fatos surpreendentes?...

Civílis, impassível, nem sequer me olhou. Aferrou-se a uma pata de cabrito e a

foi devorando com volúpia.

Eu tinha de agir com extrema cautela. Estava disposto a “informá-lo” de alguns

acontecimentos vindouros – baseados em minhas “prospecções” como áugure –

mas, naturalmente, em troca de algo...

Seguindo uma velha tática, fiz-me de rogado. Percorri a vista distraidamente

pelas iguarias e, apontando duas das travessas de prata, perguntei sobre a

natureza de seu conteúdo.

Pôncio, astuto e divertido, aceitou o jogo.

– Isto é fígado de cavala, isto é moréia... Tudo diretamente importado das

costas de Gades.

Desculpei-me, alegando que meu estômago não resistiria. E o procurador

continuou arrolando o desjejum:

– ... Também temos ouriços-do-mar, ostras de Tarento, algas marinhas

(brancas ou negras), tordos com aspargos da Sicília ou, se o preferires, rins de

cervo, pastel de peixe, pães de Piceno e, de sobremesa, figos de Malta, tâmaras ou

passas do Levante.

Ficou sério. Acreditei que estava disposto a interrogar-me de novo. Mas não.

Bateu palmas com força e, no mesmo instante, por uma estreita porta camuflada

junto aos cortinados, apareceu um dos criados. Não foi preciso que se aproximasse.

Aos gritos, entre insultos, censurou-o pelo lamentável esquecimento do vinho.

Minutos depois, o mesmo servo regressava com uma pequena ânfora de metal

dourado. Encheu as taças e, deixando o recipiente em um suporte de ferro, retirou-

se mudo e pálido.

– Saúde! Prova-o Jasão... Tu és comerciante de vinhos. Adivinha de onde é.

Senti-me atrapalhado. Embora houvesse sido treinado como provador dos mais

preciosos produtos da região mediterrânea, minha perícia ainda deixava a desejar.

– Mosela? – aventurei depois de sentir-lhe o aroma e provar um gole.

– Chipre –, retificou Pôncio com uma ponta de ironia. Com o meu prestígio

“profissional” arruinado, optei por ir direto ao assunto que me havia levado à

fortaleza.

– Sim, estimado governador – anunciei com gravidade. – O assunto da tumba

vazia é só o princípio.

– A tumba vazia! – explodiu Pilatos. – Esses fanáticos querem me tornar louco.

Sabes o que andam apregoando as ratazanas do Sinédrio?

Fingi ignorar.

– Que meus soldados dormiram! E isso não é o pior. Ainda por cima têm a desfaçatez de caluniar a legião, murmurando que os discípulos do tal Jesus

roubaram seu cadáver. Sabes qual é o castigo por dormir de guarda?

Naturalmente que eu sabia. Eu mesmo presenciara uma dessas brutais

execuções por apaleamento.

– ... Meus agentes me informaram do dinheiro que Caifás pagou a cada um de

seus covardes guardas para fecharem o bico: 200 asses! O soldo de vinte homens!

Disso não falam, claro!

Cuspiu os ossinhos do passarinho frito que tinha entre os dedos e, maldizendo

os sacerdotes, prosseguiu:

– Filhos de mil rameiras! Mentem, subornam e, para cúmulo, metem meus

homens nesse feio assunto!

– Tu sabes que teus legionários não fugiram – disse eu conciliatoriamente. – Eu

estava lá.

Pôncio mostrou-se muito interessado por aquela circunstância. Brincou um

momento com o falo que pendia do seu pescoço e, sem rodeios, advertiu-me que

não abusasse de sua amizade.

– Não minto, excelência. Podes confrontar minha versão com a de teus

infantes...

Quando concluí o relato dos fatos que havia presenciado no horto, meus

acompanhantes olharam-se com a surpresa estampada no rosto. E o comandante

assentiu categoricamente.

– Então – perguntou nervoso – crês que ressuscitou?

Encolhi os ombros e Civílis aprovou minha sensata resposta.

– O que se pode dizer, preclaro governador, é que tão misterioso

acontecimento é apenas o princípio de uma cadeia de sinais.

Pôncio abriu os olhos até o limite.

– Consultaste os astros?

Apressei-me a mostrar-lhe os “quadros astrológicos” dando-lhe a entender que

havia descoberto “enigmáticas e preocupantes coincidências”.

Atemorizado, Pôncio refugiou-se em outro copo de vinho.

Prevendo o indispensável auxílio do computador central, apertei

dissimuladamente minha orelha direita.

Eliseu respondeu no mesmo instante:

– OK. Tudo pronto. Papai Noel na espera. Fico acompanhando... Câmbio.

– Vejamos – anunciei-lhe com uma teatralidade que ainda me assombra –, em

primeiro lugar quero que te fixes nos seguintes e prodigiosos fatos. O número “9”

se repete... suspeitosamente.

“Guiado” por Papai Noel e pela Providência – não posso entendê-lo de outra

forma –, o que a princípio fora um inocente jogo acabou por desconcertar-nos: a

Pôncio, ao centurião, a Eliseu e, nem digamos, a mim...

– Observa. Ontem foi dia 9. E as aparições do Ressuscitado, ao longo do dia,

foram igualmente “9”...

– Nove visões?

Pilatos ignorava esse dado e olhou para seu comandante com preocupação no

olhar.

– Segundo minhas notícias – continuei sem saber exatamente onde iria parar –,

Jesus de Nazaré nasceu no “nono” mês do ano...

Ergui os olhos para as lonas, fingindo que consultava minha memória. Na

realidade, a “memória” que entrou em ação foi a do Papai Noel. Em segundos, meu

irmão, sem quase dar crédito ao que projetava o monitor, exclamou:

– Incrível, Jasão! Segundo o calendário romano e os dados do Papai Noel, Jesus

nasceu no ano de 747, que soma “9”!144

– ... Ao nono mês – repeti – de sua gestação, do ano de 747.

O procurador, contando nos dedos engordurados, fez o mesmo cálculo que nós.

– Sete e 4 somam 11... que somados a 7... dão 18...

A casualidade – ou não seria tal? – deslumbrou Pilatos.

– Por Zeus! Nove!

O oficial meneou a cabeça, como que desaprovando aquela comédia. Mas o

governador, que ainda tinha muito presente meu “vaticínio” sobre o estranho

fenômeno solar da manhã de sexta-feira, não lhe deu atenção. Virou-se para mim e

ordenou:

– Continua!

Eliseu veio em minha ajuda.

– Suponho que estamos loucos, Jasão, mas veja o que leio na tela. Seguindo o

calendário de Roma, o atual ano 30 corresponde ao 783 do mesmo calendário

imperial. (O ano “zero” não se conta.) E “7” mais “8” mais “3” somam outra vez

“9”. E por aí vai. Papai Noel está procurando possíveis “coincidências” entre o

número nove, o governo ou a vida de Pôncio e outros acontecimentos vindouros,

também em conexão com a vida de Cristo ou com suas profecias... Câmbio.

Transmiti esse último achado a meu cada vez mais desolado amigo e, por pura

intuição, somei a idade de Jesus naquele ano: 36. (Havia completado

“oficialmente” em agosto, ainda que já a tivesse, levando-se em conta o período de

gestação.)

– Outra vez o “9” – disse eu forçando a situação.

Pilatos resumiu o que já tinha sido relatado:

– Nascimento vinculado ao “9”. Sua vida soma “9”. E também o ano de sua

morte...

– E sua ressurreição foi no dia “9”! – rematei.

– Jasão, ouça! – a voz de Eliseu proporcionou-me outros dois dados também

encadeados ao “9”. – A suposta desaparição ou “ascensão” do Galileu ocorreu ou

ocorrerá em 8 de maio, quinta-feira. Também soma “9”! E eis aqui outra curiosa

casualidade: sabemos que o governo de Pôncio terminou (ou terminará) no ano

792 ou 36 da nossa era. Tudo soma “9”! Aí tem você um dado para “manejar” seu

amigo! Boa sorte! Continuo atento...

Demônios! Aquilo era demais para ser uma série de coincidências. E ainda que

nunca tivesse dado excessiva importância à chamada “numerologia” ou “ciência

dos números”, tão ligada à Cabala hebraica, propus-me a pesquisar na simbologia

de tais cifras. Que é que eu podia perder? Tratava-se de simples e inocente

curiosidade. Deus do céu! O que fui descobrindo encheu-me de assombro.145

Escolhi a segunda informação: a do final da procuradoria de Pilatos. Mas como

utilizá-la sem chocá-lo e sem violar o código do Cavalo de Tróia? Mas o próprio e

pusilânime governador me deu o pretexto com sua pergunta seguinte:

– O “9”! Que tem que ver comigo?

Simulei uma certa resistência.

– Fala ou te mando prender!

Inclinei a cabeça em sinal de acatamento. Aquele louco era capaz de cumprir

sua ameaça.

– Os astros assinalam que teu destino a partir de agora estará

irremediavelmente vinculado à memória desse Homem... e ao número “9”.

– Explica-te claramente! – exigiu sem contemplação.

– Os prodigiosos sinais que começaram a produzir-se – argumentei,

preparando-lhe uma armadilha – se estenderão até as terras da Galiléia e por um

período de quarenta dias. Talvez então possamos conversar com mais calma e com

novos elementos de julgamento...

– Galiléia? – o governador dirigiu-se a Civílis. – Não são estas as notícias que

nossos espiões trouxeram?

O centurião concordou.

– Queres me fazer crer que o Galileu voltará a aparecer no norte?

– Isso é o que dizem os astros – menti descaradamente. – E abusando de tua

confiança ainda te direi mais; talvez tu mesmo ou Procla, tua mulher, possais vê-

Lo.

Ao ouvir o nome de Cláudia Prócula ou Procla empalideceu. Pôncio sabia das

inclinações da esposa pelos ensinamentos e pela figura do Mestre. E, temeroso dos

assuntos mágicos ou divinos, não a contrariava. O “sonho” da distinta romana

pouco antes da crucificação de Jesus continuava cravado no débil espírito daquele

homem. Dias mais tarde, durante nossa acidentada e intensa “campanha

exploratória”, no norte da Palestina, Eliseu e eu teríamos a sorte de conhecer

Procla, os detalhes do seu “sonho” e as sinceras inquietações que havia despertado

nela o Filho do Homem.

– Um momento. Não queiras confundir-me com teus ardis. Vamos por partes.

Que dizem os astros sobre o meu destino?

Cedi em parte.

– Em troca desejo solicitar de tua magnanimidade um pequeno favor.

Civílis franziu o cenho.

– Tu dirás – respondeu o governador, resignado.

– Tenho ouvido dizer que em Cesaréia vive um centurião cujo criado foi milagrosamente curado a distância pelo Ressuscitado. Quero viajar para lá e que

me dês uma autorização para interrogá-lo.

– Concedido!... Com uma condição.

O desejo do governador veio facilitar meus objetivos.

– Que a entrevista se dê em minha presença e na de Procla.

Acedi com uma exagerada reverência.

– E então?

– Deverás permanecer muito atento ao “9” – aconselhei-o na medida em que

me foi possível. – Se os astros e minhas observações não estão errados, teu

governo terminará em um ano que some “9”...

Aquilo o deixou perplexo. Eu sabia, e já o referi, que o ano da queda política de

Pôncio Pilatos seria o 36 da nossa era146 ou 789 (ab Urbe Condita UC) da cronologia

romana. Naturalmente, joguei com vantagem. O ano a que me referia deveria ser

computado pelo calendário cristão: algo inexistente e impensável naquele

momento. Pôncio deve ter recordado que nos achávamos em 783 – que soma “9” –

e, tremendo, foi beijar o falo de marfim, em uma tentativa de conjurar o

“malefício” que acabava de “cair” sobre seu espírito.

– Porém, há mais...

Papai Noel – genial! – havia “descoberto” outra “casualidade” que fez elevar

meu prestígio como adivinho e desmoronar meu interlocutor.

– Continuando com o “9” e com os prodigiosos acontecimentos que “vejo” nos

astros, chamo tua atenção sobre algo que também foi profetizado pelo rabi de

Nazaré e que, segundo todos os indícios, preocupará Roma. Em outro ano que

deverá somar “9” esta província se levantará contra o império.

(Ainda que tivesse tido o especial cuidado de não mencionar a data exata –

819 do ano romano ou 66 d.C. –, estava-me referindo, obviamente, à insurreição

da primavera do citado ano de 66, que marcaria o princípio do fim de Jerusalém.

Nessa data, como se sabe, o procurador Cássio Floro requisitou um alto tributo em

ouro do Templo judeu, o que provocou graves alterações. O cruel Floro lançou suas

tropas contra o povo matando 3.600 judeus. Os rebeldes judeus reagiram à

matança apoderando-se da zona do Templo e assaltando Massada. Com as armas

roubadas à guarnição romana dirigiram-se de novo a Jerusalém, sitiando e

aniquilando as forças da Antônia. Floro fugiu e a guerra estendeu-se por toda

Israel. Após a fracassada incursão de Céstio Galo, governador da Síria em terras da

Judéia, Nero ordenou ao prestigioso general Vespasiano que submetesse a

província. O resto é bem conhecido.)

Era incrível, mesmo para Eliseu e para mim. Desde o momento em que Jesus

vaticinou o cerco e a destruição da Cidade Santa – ano 30 – até que ocorresse a

primeira insurreição ano 66 –, transcorreriam outros 36 anos. Quer dizer, uma cifra

que voltaria a somar “9”...

– ... E não restará pedra sobre pedra. Suponho que estás falando da profecia

sobre a destruição de Jerusalém.

O governador voltou a surpreender-me. Seus agentes também lhe haviam dado

plena conta das públicas e incríveis manifestações do Mestre. Aquilo descarregou

minha consciência.

Todavia, mostrou-se cético com respeito à hipotética sublevação dos judeus.

– Fanfarronadas! – resumiu, enquanto voltava a bater palmas para chamar a

criadagem. – Nosso exército é o mais poderoso do mundo.

A pista que deixei “escapar” – um ano que devia somar “9” – continuou

flutuando no coração do procurador. O criado aproximou-se do seu senhor e este,

mandando que se abaixasse, sussurrou-lhe alguma coisa no ouvido. O servo

retirou-se e Pilatos, reatando o fio da conversação, perguntou-me:

– Em todas as guerras e calamidades (tu deves sabê-lo melhor do que eu) se

produzem “sinais” que as anunciam. Poderias adiantar-me algum?

Minha confusão foi tomada por uma natural resistência a não “tentar os deuses

ou o destino”. E com sua habitual presunção acrescentou que estava disposto a

recompensar-me esplendidamente. Isso não estava nas minhas intenções. Mas

disfarcei e não repudiei a oferta, apenas observando-lhe que a “melhor recompensa

era contar com seu apoio e beneplácito”. Sentiu-se tão lisonjeado por minha

adulação que chegou a prometer-me uma escolta permanente enquanto viajasse

para o norte.

Do módulo recebi informação de sobra em relação à questão de meu já

incondicional amigo.

– Abrirei uma exceção. Um dos primeiros e principais sinais que precederão e

se mostrarão antes da ruína e destruição desta cidade – proclamei seguindo os

textos de Flávio Josefo em sua obra Guerra dos Judeus – será uma estrela, como

uma espada flamejante, que luzirá dia e noite e por espaço de um ano à vista de

todos os habitantes de Jerusalém.

– Um cometa? – interveio maravilhado.

A verdade é que eu não tinha como responder a semelhante pergunta. Talvez

Josefo se estivesse referindo à passagem do Halley, registrada também pelos

astrônomos chineses. A máxima aproximação desse cometa naquela época teve

lugar em 25 de janeiro de 66. Todavia, sua observação não pôde prolongar-se

durante tanto tempo. Ou foram dois os cometas ou o historiador judeu romanizado

estava descrevendo outro fenômeno celeste.

– E nos astros – continuei, ante o ceticismo de Civílis e a progressiva

curiosidade do governador – se “lê” igualmente que, pouco antes da primeira

rebelião, uma forte luminosidade se mostrará ao povo no altar e em volta do

próprio Templo. 147 Mas estas rudes gentes não acreditarão no aviso do céu... E

haverá mais. Um boi parirá um cordeiro no meio do Templo.148

Ante semelhante e aparente tolice, o comandante, atacado por um súbito

acesso de riso, se engasgou.

– ... E a porta oriental – prossegui com a maior solenidade –, que, como sabes,

necessita de vinte homens para ser fechada, aparecerá misteriosamente aberta,

sem que mão humana a toque.149

– ... Por último, para não esgotar-te, pouco antes do fogo e da morte, toda

Jerusalém se maravilhará e comentará diante das muitas carroças que correrão

pelo ar.150

Eu teria podido acrescentar mais sinais – os textos de Josefo são excepcionais

nesse aspecto –, mas isso me pareceu desnecessário. Pôncio estava boquiaberto.

A presença no tetrastilum de dois criados tirou-o do transe. Enquanto um se

colocava junto à mesa, o que havia recebido o encargo depositou diante de Pôncio

uma bandeja de madeira. Nela havia uma caixinha de osso lavrado, um martelo de

reduzidas proporções e uma taça de prata de boca larga. Em seu interior distingui

um punhado de pérolas.

O procurador despediu-os com um grunhido. Fez o maior esforço para se

aproximar da bandeja, mas seu abdome, duro e cheio como um odre repleto de

piche, resistiu. As sucessivas tentativas agitaram seu estômago e ele eructou

cavernosamente. Por fim conseguiu seu propósito. Destampando a caixinha, sorriu

satisfeito. Depois tomou uma das pérolas, examinou-a entre seus curtos e roliços

dedos e, com um suspiro de resignação, colocou-a sobre a toalha. O centurião

encheu as taças e, com a maior naturalidade, como se se tratasse de um costume

rotineiro, agarrou o martelo e desferiu um terrível golpe na pérola. O nácar branco

acinzentado – de bom oriente, sem dúvida – estilhaçou-se. Com dois ou três

golpes, ficou pulverizada. E Civílis, serviçal, foi recolhendo o pó com a ponta do

punhal, misturando-o no vinho. Agitou a taça e a ofereceu a seu chefe.

– Saúde!... Lá se vão mil sestércios!

Pôncio tomou o vinho e eructou novamente.

Compreendi. Se não me falhava a memória, as pérolas – que, não são outra

coisa senão um aragonite – contêm uma alta porcentagem de carbonato de cálcio

(uns 84%), uma substância orgânica que proporciona a coloração (13%) e água

(2,85%). O carbonato de cálcio é um sal e se usa habitualmente como antiácido,

absorvente e antidiarréico. Supus que o efeito antiácido da pérola aliviaria sua

pesada digestão. E, lembrando que é insolúvel em água e álcool, atrevi-me a

recomendar-lhe que passasse a tomá-la a seco. O procurador desconhecia minha

faceta de “curandeiro” e, entre os vapores do vinho, propôs-me que me alistasse

em seu quadro de médicos. Prometi pensar na atrativa sugestão enquanto

ultimasse os negócios que me reclamavam na Galiléia.

A reunião chegava ao fim. Mas, antes de despedir-nos, Pilatos, em uma

demonstração de agradecimento, colocou em minhas mãos a misteriosa caixinha

de osso. Olhei-o sem compreender.

– Abre-a. É para ti, com o meu reconhecimento...

Repeti a reverência e obedeci intrigado. O estojo continha uma esmeralda com

uma anêmona talhada. Examinei-a entre vivas mostras de alegria e gratidão. E o

mareado governador encheu-se de orgulho e satisfação. O que procurei ocultar, é

claro, foi minha decepção. Ao erguê-la e submetê-la aos raios do Sol, me dei conta de que se tratava de uma hábil falsificação. Sem dúvida um crisópraso.

Mas, como disse, tomei cuidado para não contrariar o ufano anfitrião. Pôncio

prometeu receber-me em Cesaréia – de acordo com o combinado – e, depois de

solicitar sua permissão para interrogar a patrulha que havia montado guarda no

sepulcro do Nazareno, retirei-me acompanhado de Civílis.

Para dizer a verdade, minha entrevista com seis dos dez legionários – quatro

achavam-se de serviço nas torres – não me forneceu novos dados sobre o

acontecimento. Civílis, sempre presente, representou uma inestimável ajuda. Mas

os legionários não souberam explicar a ocorrência. Ninguém se aproximara do lugar

e ninguém movera as pedras. Isso ficou claro. Quanto ao desmaio coletivo, silêncio.

Como era de esperar, nenhum deles soube explicar-me o fato. Nenhum deles

também soube dizer-me a razão. “Nossas cabeças se encheram de um fortíssimo

zumbido e caímos por terra, como mortos.” Quando voltaram a si, alguns

vomitaram. Isso foi tudo que pude tirar deles.

Por volta da hora sexta – ao meio-dia –, despedi-me do centurião e rumei para

o norte, com destino ao monte das Oliveiras. Sentia-me satisfeito. Acelerei o passo,

desejoso de conhecer as descobertas de meu irmão a respeito do lençol mortuário.

 

De certo modo, o ululante vento leste nos beneficiou. As pessoas não se

arriscavam a sair da cidade. E minha segunda entrada no “berço” foi rápida e sem

tropeços. Lá pelas 12h30 – quase 24 horas após a minha última saída –, com a

ajuda das “crótalos”, distingui a estrutura do módulo, luminosa, firme e altiva sobre

a clareira pedregosa, como uma “bandeira” de paz de “outro tempo” e de “outros

homens”...

Meu irmão passou a informar-me prontamente. Era muito o que já havia

descoberto, e mais ainda o que iria surgindo com o passar dos dias...

Agora, por estritas razões de economia e eficiência, falarei apenas de alguns

desses achados. Tempo haverá para voltar ao assunto... espero.

Um dos dados que não quero passar por alto é o do peso, textura e dimensões

do sudário que serviu para envolver o corpo do Filho do Homem. Exatamente: 234

gramas por metro quadrado. Quer dizer, olhando seus 4,36 x 1,10 metros,

obtivemos um total de 1 quilo e 123 gramas. O tecido, opaco e espesso, mostrou-

se muito irregular, tanto na fiadura quanto na textura. Esta era do tipo “sarja” –

também conhecida na atualidade como “espinha de peixe” –, com uma média de

40 fios por centímetro quadrado na urdidura e 30 na trama. Eliseu contou 27

inserções por centímetro. Com a ajuda do microscópio – e em ampliações de até 5

mil aumentos –, confirmou a natureza da fibra: linho, com solitárias e

escassíssimas presenças de algodão do tipo herbaceum.151 Possível procedência: o

centro comercial de Palmira, a dez dias de Jerusalém.

Essas informações talvez possam parecer irrelevantes, mas não para nós.

Especialmente porque coincidem – eu diria que são as mesmas – com as das

análises verificadas sobre o já mencionado Sudário que se guarda na cidade de

Turim. Categoricamente... como dizia o Mestre, “aquele que tem olhos para ver que veja...”.

Graças ao microscópio Ultropack e às sofisticadas técnicas

espectrofotométricas152 de que dispúnhamos no “berço”, foi possível confirmar e

identificar no sudário resíduos de urina, suor, assim como outros compostos

orgânicos, fundamentalmente ungüentos.

Acabaria sendo esgotante e excessivo enumerar a constelação de dados

resultantes dessas prospecções. Vou limitar-me, por tal razão, já que estes escritos

somente têm uma finalidade descritiva, registrar aquelas descobertas que

chamaram a nossa atenção. Por exemplo, falando de urina – presente na trama do

lençol, e devida, sem dúvida, ao relaxamento dos esfíncteres –, sua concentração

era muito grande, com um considerável índice de potássio, um excesso de açúcar

e, também, resíduos de proteínas, derivadas, certamente, da mioglobina. Em

síntese, uma urina muito ácida,153 sinal de algo que já sabíamos: o tremendo

sofrimento daquele Homem durante sua Paixão e Morte.

O suor, mais abundante que as amostras de urina, era inequívoco. Os níveis de

cloro e potássio, sobretudo, mostraram-se igualmente altos. (Também detectamos

um pouco de colesterina, ácidos graxos e vestígios de albumina e uréia.)

Aquelas secreções das glândulas sudoríparas, sebáceas etc. eram outro sinal

inequívoco da rigidez cadavérica, que afeta em primeiro lugar os órgãos de

musculatura lisa. Por outro lado, não pudemos encontrar vestígios de esperma.

(Nos enforcados, como é sabido, costuma dar-se com freqüência.) Ainda que já o

houvéssemos constatado pessoalmente, as análises com espectrofotometria de

absorção e as realizadas com o sistema de cromatografia de gases,154 nos

proporcionaram as provas definitivas e científicas de que o sudário em questão

havia contido um cadáver, com evidentes manifestações de uma putrefação

primária. (Hoje em dia, ainda, numerosos cientistas e historiadores continuam

questionando-se se Jesus de Nazaré morreu realmente na cruz ou se a

“ressurreição” não foi outra coisa senão uma súbita reanimação de um corpo

gravemente ferido.)

Achamos igualmente alguns fios de cabelo – sobre os quais voltarei a falar em

breve – e, juntamente com os exames feitos com o suor e, obviamente, com os

coágulos de sangue, podemos crer que o tipo sangüíneo do rabi da Galiléia era AB.

Entre outros restos de origem natural – partículas de pó, mineralógicas e

fragmentos isolados de tecidos vegetais – conseguimos identificar um “elemento”

que, meses depois de nosso definitivo retorno a 1973, pôde ser “descoberto” sobre

a urdidura do Sudário de Turim, confirmando assim nossas fortes suspeitas, no

sentido de que ambos os sudários são a mesma peça. Estou-me referindo aos

grãos de pólen. Talvez por nossa inexperiência e pela lógica falta de tempo, o

“catálogo” levantado por Eliseu foi mais curto que o oferecido pelo grande

palinólogo e reconhecido criminalista, Max Frei, da Suíça.

Com a ajuda, do microscópio óptico – pena que não dispuséssemos de um

eletrônico –, foi possível identificar grãos de pólen de plantas desérticas, em especial das regiões do Neguev (íris e tulipas vermelhas), das que abundavam na

“selva” do Jordão e, também, das que forravam os estratos sedimentares das altas

terras do norte; sobretudo das rampas que confluem para o lago de Tiberíades.

Quando tive conhecimento das investigações de Frei, apressei-me a remeter-

lhe os nomes e características de alguns dos espécimes de pólen155 encontrados

por nós. A informação, por ser anônima, logicamente, talvez tivesse sido

interpretada como obra de um farsante. O caso é que nunca vim a saber se o

palinólogo teve ocasião de aprofundar suas interessantes descobertas, verificando

a presença do pólen que eu, pessoalmente, anunciei-lhe que poderia chegar a

detectar, da mesma forma que ele conseguira identificar outras 48 plantas.156 Estou

certo de que no futuro, quando a Igreja Católica der “sinal verde” para a

investigação direta do Sudário de Turim, tudo que aqui está dito poderá ser

ratificado. Bastaria efetuar uma varredura superficial sobre o linho para que a

palinologia referendasse minhas palavras. Naturalmente, o que nós não pudemos

encontrar foram grãos de pólen das regiões pelas quais, ao que parece, peregrinou

o Sudário: Turquia, França, Itália etc.

O capítulo dos cabelos encontrados no lençol, assim como a mecha que

consegui ocultar depois do selvagem apaleamento a que foi submetido o Mestre

durante os interrogatórios no Pequeno Sinédrio, merecem especial atenção. Depois

de submetê-los a um exame preliminar – com o microscópio Ultropack – e a outros

estudos complementares para estabelecer “índices”, estado das células e das

medulas, assim como dos componentes orgânicos e inorgânicos, confirmamos o

que já sabíamos... e nos surpreendemos com outras informações que ignorávamos.

Os cabelos presos ao linho – lisos e de diâmetro uniforme – eram, em sua

maioria, da cabeça. Também encontramos uns poucos ondulados e de diâmetros

variáveis (de 3 centímetros de comprimento e 60 micra em média), que

possivelmente eram do tronco ou de algum dos membros. Alguns apresentavam

um claro traumatismo – falta do bulbo da raiz, como o caso da mecha –, clara

evidência de que haviam sido arrancados.

E ainda que não necessitássemos confirmá-lo, o índice medular inferior a 0,30,

a rede aérea finamente granulada e as células medulares invisíveis sem

dissociação mostraram que se tratava de cabelo humano. (Nos animais, por

exemplo, o índice medular é superior a 0,50.) Depois de concluir um corte

transversal do pêlo e uma inclusão de celoidina surgiram dados suficientes para

resolver a questão da raça: branca. Por meio dos exames morfológicos, do estudo

da “cromatina de Barr” e da fluorescência do cromossomo Y, 157 “vimos” igualmente

algo que não necessitávamos demonstrar: os cabelos eram os de um homem e de

uma “fortíssima e marcada masculinidade”. (Em geral, como sabem os médicos

legistas, os pêlos femininos são mais grossos que os dos homens. Um cabelo de um

diâmetro superior a 80 micra, por exemplo, corresponde quase sempre a uma

fêmea. Por outro lado, não costumam ter medula e suas extremidades aparecem

geralmente desfiadas pelo pentear.)

Ao averiguar o estudo dos compostos orgânicos majoritários, fomos encontrar

os normais: queratina e melanina. Entre os minoritários estavam as vitaminas, o

colesterol e o ácido úrico. Quanto aos elementos inorgânicos, além dos habituais –

silício, fosfato, chumbo etc. –, descobrimos altos níveis de ferro e iodo. Na ocasião

não o soubemos interpretar. E, movidos pela curiosidade, recorremos também a

uma análise por ativação neutrônica.

Esta técnica se mostra muito eficaz, já que a composição mineral dos cabelos

de um indivíduo pode dever-se aos hábitos alimentares, à profissão, ao lugar em

que vive e à exposição a uma determinada contaminação ambiental. Não havia

dúvidas. As propriedades físicas daquelas amostras – densidade, índice de refração,

birrefração etc. – davam a entender que Jesus de Nazaré havia estado em contato,

e durante longos períodos de tempo, com o mar ou com algum lugar ou elemento

onde abundasse muito iodo. Em relação à alta contaminação de ferro, de onde

poderia proceder? Somente uma estreita e continuada vinculação a minas, forjas e

fornos poderia explicar tão estranha anomalia. Mas deste assunto, como de outros

tantos relacionados com a vida de Cristo, não tínhamos informações. Algum tempo

depois, aclararíamos ambas as incógnitas. Com efeito, os resíduos de ferro e iodo

nos cabelos do Galileu estavam plenamente justificados.

Também “descobrimos” claros sintomas de um progressivo embranquecimento

do pêlo (não podemos esquecer que Jesus morreu quando contava quase 36 anos

de idade e que, naquela época, podia considerar-se na fronteira da maturidade. A

média de vida oscilava ao redor dos 40 ou 45 anos).

Ao submeter o lençol a um “bombardeio” por “ativação neutrônica”158

apareceram “sinais” de algum tipo de afecção bucal (possivelmente cáries) e

resíduos de “algo” que nos intrigou demais: uma aguda enfermidade, muito

distante no tempo (talvez durante a infância), que indicava uma sintomatologia de

caráter virótico. (Durante uma de minhas longas entrevistas com os membros de

sua família, especialmente com Maria, sua mãe, tive conhecimento de que,

efetivamente, ainda muito criança, havia padecido de uma perturbação intestinal:

talvez alguma disenteria.)

A análise do sangue que manchava o lençol reservou-nos também várias

surpresas. Para começar, a nitidez dos decalques quase perfeitos deixou Eliseu

atônito. Eu já havia tido a oportunidade de observar tão singular fenômeno no

interior do sepulcro e tampouco conseguia explicá-lo para mim mesmo. Se o corpo

havia sido separado do sudário – isso era evidente – por que os coágulos e os

filetes de sangue não haviam ficado borrados? Ao se despregar um pano de uma

ferida sempre se provoca a borradura da marca impressa.

Mas isso não era tudo. O sangue, em lugar de penetrar e empapar as fibras do

sudário, havia corrido entre a trama, transpassando o tecido. A princípio, o

atribuímos a um processo de fibrinólise. (A permanência do Nazareno na cruz fez

ressecar boa parte de suas feridas, convertendo os pontos e os jorros de sangue

em coágulos. As malhas da fibrina atuaram como uma espécie de “parede” que reteve as cargas de glóbulos vermelhos. Depois, sempre como uma probabilidade,

essa fibrina pôde ser amolecida devido à desidratação do corpo e aos álcalis

derivados da umidade amoniacal.)

O dr. Barbet já havia escrito sobre esse fenômeno, afirmando que “no ambiente

úmido da gruta o sangue seco talvez experimentasse um amolecimento, dando

lugar a uma pasta mais ou menos branda, que terminou por impregnar o linho,

originando uns decalques de grande nitidez”. Mas esta hipótese apresentava

inconvenientes. Por exemplo: a profusa hemorragia ocasionada pela descida do

madeiro e pelo transporte do corpo até a tumba. Nessa inevitável manipulação do

corpo, o sangue contido em uma das cavas havia aflorado pela ferida da lança,

correndo – por gravidade – a toda largura ao longo da zona dorsal, à altura dos

rins. Esse grosso fio de sangue não teve tempo material de secar-se ao ar e,

todavia, também não havia empapado as fibras da mortalha em um processo

normal de capilaridade. Todas as manchas de sangue examinadas por meu

companheiro eram superficiais. A explicação da fibrinólise não era, portanto,

convincente.159 Em síntese, não pudemos ou não soubemos esclarecer o fenômeno.

A não ser, é claro, que guardasse alguma relação com o também obscuro e

complexo assunto das “manchas douradas”. Mas deixarei esse apaixonante capítulo

para o final.

Foi a crua realidade que tínhamos diante de nós – a misteriosa desaparição do

corpo de Jesus – que nos obrigou a revisar tudo e com extrema cautela. Incluindo o

sangue. Estávamos conscientes de que aqueles coágulos haviam pertencido ao

Homem da Cruz, mas, no afã de deslindar o enigma, os submetemos também às

mais variadas provas de laboratório.

Quase 72 horas depois do falecimento, o sangue daquele lençol apresentava

uma típica coloração vermelho-escuro. Em algumas zonas havia começado a

enegrecer-se. Eliseu tirou várias amostras, raspando os coágulos com uma paleta

de alumínio – devo recordar que não podíamos danificar a mortalha nem submetê-

la a qualquer maceração nem sequer em água, como houvera sido aconselhado em

uma prova de “cristais de Teichman” – e procedeu aos ensaios preliminares e

conclusivos de sangue, às provas de identificação como amostra humana, de

individualidade, grupo sangüíneo, sexo etc.

Tanto a prova de benzidina quanto a microscopia em busca de hemácias foram

positivas.160 A espectroscopia foi igualmente de grande ajuda. Ao Ultropack, as

hemácias apareceram como pilhas de moedas. Achavam-se, no entanto,

relativamente bem conservadas, sendo possível a constatação de suas formas e

seus núcleos que as definiram como claramente humanas. Às vezes, as pequenas

hemácias de cordeiro podem ser confundidas com eritrócito de homem. Os

camelos, por exemplo, têm as hemácias ovais, ou elípticas não nucleadas, e os

pássaros, peixes, répteis e anfíbios possuem eritrócitos similares, porém,

nucleados.)

A detecção última de proteína humana foi verificada seguindo a prova da precipitina.

Na sondagem da hemoglobina – mediante a técnica de “diferenças

espectrográficas” –, pudemos estabelecer, entre outros, detalhes como a idade

(incluindo o período fetal): 441 meses (de novo aparecia o misterioso “9”): a

especificidade da espécie e algumas características patológicas, por exemplo, uma

anemia hemorrágica e secundária, à qual não demos maior importância já que,

provavelmente, se devia à considerável perda de sangue durante as torturas e a

execução.

Para não perder-me em intrincadas e prolixas explicações técnico-científicas,

que não são o objetivo básico deste diário, concluirei o capítulo do sangue com

outro dos achados: o grupo sangüíneo de Jesus de Nazaré, que foi estabelecido

como AB.

Entre os muitos procedimentos existentes para tal trabalho, escolheu-se o

chamado “teste de Nickolls-Pereira”, que permite uma segura e excelente

identificação em manchas secas, seguindo o princípio de aglutinação mista.161

Este grupo sangüíneo – AB – é proporcionalmente escasso entre os brancos,

ainda que não por isso estranho ou anormal. (Sirva de comparação a estatística

feita pouco antes da operação, em 1972, entre grupos humanos da raça branca em

países como França e Inglaterra: 47% pertenciam ao grupo O; 42% ao A, 8% ao B

e, por último, 3% pertenciam ao grupo AB.)

Como é fácil adivinhar, ao descobrir o grupo sangüíneo do Mestre, invadiu-nos

uma grande excitação. De acordo com os princípios mendelianos sobre a

hereditariedade – elaborados por Bernstein –, “um gene de um grupo sangüíneo

não pode aparecer em uma criança, a menos que esteja presente em um dos pais

(ou em ambos)”. Que significa isso? Algo que, repito, encheu-nos de emoção. Entre

os planos do Cavalo de Tróia, uma vez identificado o grupo do Filho do Homem,

figurava também a intenção de investigar o de sua mãe. (O falecimento de José

anos atrás tornava impossível a apuração do grupo sangüíneo do pai terreno de

Jesus.) No entanto, se lográssemos obter uma pequena amostra do sangue de

Maria, um exaustivo estudo genético-biológico poderia aproximar-nos do que teve

José.

E ainda que possa soar como uma blasfêmia, a partir de um ponto de vista

puramente científico, o hipotético feito de encontrar genes comuns aos do

Nazareno em seus progenitores (tanto do tipo A como do B) poderia talvez lançar

muita luz sobre o controvertido dilema da concepção virginal de Maria. Sei que para

muitos cristãos a só menção desse projeto significará uma aberração. Sua fé lhes

diz que Jesus foi concebido “por obra e graça do Altíssimo”. Mas, ainda que eu

compartilhe um pouco essa natural refutação, também é certo que a Ciência –

quando se coloca ao serviço da busca da Verdade – transforma-se em um

maravilhoso instrumento, que somente pode ratificar o que, segundo as Escrituras,

“é a palavra de Deus”.

Entendo que o medo à Verdade pode ser uma das piores debilidades do homem. Por isso aceitamos tão delicada e apaixonante missão. Naturalmente,

como cientistas, partimos da única base da qual poderíamos decolar: não

considerar a teórica origem divina do Mestre. E nos centrarmos no estudo como se

se tratasse de um humano, mas sujeito em princípio às já referidas leis da

hereditariedade.162 Eu, convencido da divindade de meu “amigo” Jesus, fui talvez

quem mais sofreu com esta experiência. Mas o resultado valeu a pena... e falarei

disso – longamente – a seu momento.

Por último, os exames sobre as amostras de sangue confirmaram o que já

havíamos descoberto nas análises dos cabelos de Cristo... mas corrigido e

aumentado. A questão do sexo, como já disse, foi espetacular. Eliseu pôs em

prática a metodologia de Zech, demonstrando que as manchas com fluorescência Y

positiva – encontradas no sangue do Nazareno – correspondiam a um indivíduo do

sexo masculino, com “uma acentuada masculinidade”. Algo que, como já disse, não

precisava ser demonstrado em laboratório.163

E para terminar esse apressado repasse por algumas das descobertas

realizadas em torno do lençol mortuário – seguramente me verei obrigado a voltar

a elas quando escrever sobre as sensacionais aventuras que nos coube viver nas

fases seguintes da missão –, vou referir-me ao que, do meu ponto de vista, foi a

mais incrível e transcendental. Lutarei por economizar as explicações técnico-

científicas, procurando ir ao âmago do assunto. Já veremos se o conseguirei.

Como venho repetindo, além das marcas de sangue, o lençol nos surpreendeu

com umas “manchas” de cor dourada e de natureza desconhecida, que constituíam

uma réplica ou cópia – voltam a faltar-me as palavras – do corpo que ele havia

coberto. As sucessivas investigações – à base de chapas fotográficas em diferentes

freqüências do espectro, processos de digitalização de imagem e toda sorte de

explorações com o microdensitômetro, microscópio de “efeito túnel” etc. –

lançaram três grandes realidades científicas: as “manchas” em questão constituíam

um autêntico “negativo” fotográfico, tal qual hoje o entendemos.164

Além disso, a intensidade da “figura” ali “gravada” variava em relação inversa à

distância linho-cadáver. E se tudo isso não fora suficiente, o estudo das nuvens

superficiais de elétrons das faces internas do sudário (as que apresentavam as

“manchas” em questão) veio a demonstrar que o misterioso “desaparecimento do

corpo do Filho do Homem” tinha muito que ver com a “manipulação” do conceito de

“tempo”...

Não foram necessárias demasiadas comprovações ao microscópio para observar

que a “imagem” tinha um caráter muito superficial: somente as partes mais

externas do linho se haviam visto afetadas... por uma espécie de “chamuscamento”

generalizado. Aquilo nos confundiu ainda mais. Que havia sucedido no interior da

tumba? Como explicar racional e cientificamente que um cadáver houvesse podido

“queimar” a mortalha que o cobria?

E continuamos aprofundando, cada vez mais confusos e admirados. A incrível

réplica em negativo do corpo de Jesus era absolutamente estável. Com sumo cuidado a submetemos a altas e baixas temperaturas, assim como à ação da água,

mas foi inútil. Não houve mudanças nem alterações. Além do mais, de acordo com

as técnicas de análise de Fourier, descobrimos que não existia um só sinal de

direcionalidade. Sabíamos já, pela lógica e pela exploração microscópica, que as

“manchas” não continham restos de pigmentos de pintura de nenhum tipo: nem

mineral em vegetal, nem muito menos sintéticos. As placas com radiações

infravermelhas acabaram por confirmá-lo. Deus meu! “Aquilo” não tinha nada em

comum com uma pintura... E começamos a intuir a possível origem da imagem.

Mas não queremos precipitar-nos.

A digitação das duas grandes “manchas” – a frontal e a dorsal – converteu a

imagem em milhões de dígitos. Só o rosto projetou um total de 160 mil “sinais”

luminosos...

O estudo dessa “conversão” demonstrou que a imagem continha uma

“informação”... oculta. Uma “informação” que – confessamo-lo humildemente –

quase não foi decifrada. De momento ficamos presos ao fato indiscutível de que se

tratava de uma imagem tridimensional.165

 

A pergunta-chave e definitiva de todo aquele labirinto era uma. E,

inconscientemente, nós a fomos formulando desde os primeiros passos da

investigação: que ou quem havia sido capaz de modificar a textura da superfície

das faces internas do sudário, até formar uma imagem tão singular? Sei que parece

loucura, mas, em parte, a resposta apareceu ao explorarmos as superfícies das

“manchas douradas” por meio do providencial microscópio de “efeito túnel”. Em

nosso caso, ao contrário do que afirmava o físico Wolfrang Pauli – “a superfície foi

inventada pelo diabo” –, a “superfície foi a porta que nos abriu o caminho da

Divindade”...

Tentarei explicar-me, ainda que não seja fácil. Para Pauli, sua frustração

advinha de um fato que à sua época quase constituía um princípio físico inalterável:

a superfície de um sólido era a “fronteira” entre ele e o mundo exterior. Em parte

tinha razão. Enquanto um átomo situado no interior de um corpo sólido está

rodeado por outros átomos, um da superfície – como explicaram perfeitamente os

ilustres especialistas Ged Binning e H. Rohrer – pode interagir com outros átomos

da mesma superfície ou com os que estejam imediatamente abaixo desta. Por

conseguinte, as propriedades da superfície de um sólido diferem drasticamente das

do interior. Assim, os átomos da superfície se colocam freqüentemente em uma

ordem geométrica distinta da dos outros átomos do sólido, minimizando a energia

total do sistema. Em virtude desse tipo de processo, as estruturas superficiais

possuem tal complexidade que têm resistido até a uma descrição teórico-

experimental precisa. Mas, graças ao excelente microscópio de “efeito túnel”166 é

possível “explorar” essas “diabólicas” superfícies dos sólidos, “vendo” até os

átomos de um a um...

E isso, para empregar termos infantis, foi o que fez meu irmão no módulo. A ele

se deve o que, em princípio, poderia ser o “primeiro passo” na carreira da investigação científica em torno da ressurreição do Mestre. Investigação que, aliás,

já não pode sofrer interrupção. Talvez as futuras gerações de cientistas lhe façam

justiça.

Com uma “ponta” de tungstênio no microscópio de “efeito túnel” ele foi

percorrendo a amostra. (Neste caso, naturalmente, o linho. Mais exatamente, as

superfícies nas quais se “desenhava” a fantástica imagem de um corpo

martirizado.167

Enquanto a “ponta” varria o sudário, um mecanismo eletrônico de

realimentação foi medindo a corrente de túnel, mantendo o “esporão” a uma

distância constante sobre as nuvens atômicas da superfície. Papai Noel leu e

armazenou os dados colhidos pela “ponta”, ao mesmo tempo que esses dados

apareciam em uma das telas conectadas ao computador central. Assim se obteve

uma imagem tridimensional da “nuvem” na superfície. Para que possamos fazer

uma idéia dessa “maravilha”, um comprimento de 10 centímetros das “manchas”

ou imagem vinha a representar uma distância de 10 angströns na superfície,

conseguindo-se aumentos de até 100 milhões.

Pois bem, assim que se delineou a topografia atômica da imagem, Papai Noel

quase enlouqueceu. A composição das “nuvens” que “flutuavam” sobre aquelas

áreas do lençol era basicamente distinta da do resto do sudário que não continha

esse tipo de “manchas douradas”. Mas o dado revelador – e o que nos perturbou –

foi dado pela posição dos eixos ortogonais dos swivels da “colônia” quântica.

Achavam-se alterados! Alguma coisa ou alguém os havia manipulado, situando-os

em um “agora” que não correspondia ao dos restantes swivels do pano. Estes,

como era lógico e natural, estavam orientados para o momento presente. Aqueles,

ao invés, conservavam uma inversão axial bem conhecida por nós.

Não estou autorizado a desvelar a tecnologia para “reconhecer” esse tipo de

mudanças nas anteriormente definidas e familiares “unidades quânticas

elementares” a que chamamos swivels. No fundo era o de menos. O certo e

transcendente era que estávamos diante de um acontecimento único. A partir daí,

com a ajuda do computador central, fomos reunindo dados e chegamos a uma

conclusão tão teórica quanto provisória, naturalmente, mas que explicaria com

certa “lógica” a misteriosa “desaparição” do cadáver de Jesus. Os swivels de todas

as “nuvens” atômicas situadas sobre a superfície da imagem estavam

“estacionados” – e continuo empregando palavras excessivamente pueris – em um

“agora” que, naquele momento (abril do ano 30), poderia ser definido como o

“futuro”. Mais exatamente um hipotético “abril do ano 35”.

Que significaria este achado? Apenas encontramos uma explicação satisfatória:

que o corpo do Mestre havia sido submetido a um intenso e infinitesimal processo

de “aceleração” de sua natural decomposição. Se esta, de acordo com as

características do lugar do sepultamento, da constituição fisiológica do cadáver e

de outros parâmetros bem conhecidos dos legistas, houvesse seguido um curso

normal e “humano”, a transformação dos restos mortais em pó haveria levado um tempo cronológico variável. Dependendo desses fatores teria necessitado cerca de

cinco anos (!) para ficar reduzido a cinzas. Cinco anos! Exata e “casualmente” a

inclinação que apresentavam os eixos dos swivels... Muito suspeito. E, por motivos

fáceis de intuir, o “mecanismo” promotor dessa “aceleração” da putrefação havia

afetado levemente as superfícies do lençol que se achavam em contato direto com

o corpo. O resto, ao contrário, como ficou dito, não sofreu alteração alguma.

Constatado esse incrível fato, a pergunta imediata não podia ser outra:

“Quem ou quê havia alterado tão drasticamente o curso evolutivo da

decomposição do cadáver do Senhor?”.

Certamente, estando a cripta perfeitamente fechada, a possível “origem” tinha

de ser buscada no interior. De outra parte, ninguém naquela época podia sonhar

com uma tecnologia capaz de movimentar os ângulos dos swivels.

Necessitamos de algum tempo para obter uma resposta a tão decisiva

pergunta. E ainda que a solução não chegasse pelos caminhos que houvéramos

desejado – os da ciência –, a “origem” nos merece todo crédito.

Venho hesitando. Deveria relatar essa parte da missão? Deveria deixá-la para

mais adiante? Finalmente acreditei que ainda que chegue o momento próprio para

contá-la em extensão e profundidade, sinto-me obrigado a oferecer um sucinto

adiantamento. Dias mais tarde, nas altas terras da Galiléia, no transcurso de uma

das inesquecíveis conversações com o Ressuscitado – disse bem: “conversações” –,

recebemos uma explicação para o fenômeno que nos intrigava. Pelo que pude

deduzir, não há no mundo tecnologia capaz de “medir” ou “detectar” as forças

espirituais que foram diretamente responsáveis pela liquidação do corpo do rabi.

Talvez eu haja empregado as palavras incorretamente. Talvez devesse ter escrito

“entidades espirituais” em vez de “forças”. Quem tiver ouvidos para ouvir que

ouça...

Isso foi o que nos disse e assim me limito a transcrevê-lo: a aceleração quase

instantânea do processo de decomposição do suporte corporal do Mestre foi

assunto alheio ao Filho do Homem. Foi iniciativa dos seres celestes que

“presenciaram” o ato da ressurreição. Foram eles quem – uma vez consumada a

ressurreição – “removeram” as pedras que fechavam a cripta. Mas ninguém os viu.

Até aqui o que, de momento, posso dizer.

Isso, por sua vez, alterou nosso conceito da Ressurreição propriamente dita.

Adiantei-o timidamente em páginas anteriores. Mas como resumi-lo com clareza?

Os cristãos que crêem na ressurreição a identificam e associam com a tumba

vazia e a ausência do cadáver de Jesus. Têm meias razões. Por simples dedução,

após nossa descoberta no módulo, era difícil crer que tão singular fenômeno

pudesse ficar circunscrito à simples – ainda que quase “mágica” – dissolução, no

tempo, de uma matéria orgânica. Mesmo para nós, pobres ignorantes, parecia

demasiado grosseiro e prosaico. Devia haver algo mais. Algo sublime, de ordem

sobrenatural, acorde com o poder e a personalidade do ali enterrado. Logicamente,

tampouco pudemos “medi-lo” com nosso instrumental. Como disse, não há ainda ciência humana que se atreva a isso. Foi o próprio Cristo quem nos insinuou o

ocorrido. E uma vez mais comprovamos como a intuição raramente se equivoca.

Tomara nos deixássemos guiar por ela com mais freqüência...

A RESSURREIÇÃO – assim, com maiúsculas – do Filho do Homem havia sido

“algo” anterior e independente do fato físico da aceleração do tempo cronológico.

Em outras palavras: quando essas “entidades” adimensionais – encarregadas da

ressurreição de todos os mortais – executaram seu “trabalho” de dissolver em

décimos ou centésimos de segundo os sagrados restos mortais do Galileu, este, por

um poder que escapa à mente, já havia tornado à “Vida”. À verdadeira “Vida”: a de

ordem espiritual. Mas faltam-me os conceitos, e as palavras empobrecem. Será

mais prudente deixar as coisas como estão.

A Ressurreição, em definitivo, deve ser contemplada em duas “fases”. Primeira

e mais importante: a “auto-ressurreição” de Jesus de Nazaré, ou seja, uma

categoria mais complexa do que a da densa matéria corporal. Uma “categoria” à

qual – segundo suas palavras – todos somos chamados depois do trânsito da

morte. Segunda: aceleração física da putrefação do cadáver. Este último passo não

teve praticamente nada a ver com o primeiro, como já mencionei. Foi uma

“delicadeza” ou um respeitoso sentimento dos “súditos celestes” do Criador, que

não desejavam ver o corpo que havia servido para a encarnação de seu “chefe”

degradando-se sob os efeitos da decomposição natural. E, pensando detidamente,

suponho que foi o mais acertado. Não quero nem pensar o que haveria acontecido

com os ossos do Mestre se chegassem a cair em mãos de seus fiéis seguidores...

E para encerrar esses assuntos de caráter mais ou menos científico, desejo

deixar registro de algo que pode ser esclarecedor e comprobatório de quanto

afirmei, muito especialmente da nossa descoberta sobre a superfície das “manchas

douradas”. Sei que no dia que a Ciência submeter a um microscópio de “efeito

túnel” o Sudário de Turim, as diferenças nas estruturas e na distribuição das

“nuvens” atômicas que “flutuam” diretamente sobre a imagem, em relação com o

resto do linho, abrirão um novo caminho nas investigações e, ao mesmo tempo,

terão demonstrado que não somos um “sonho”...

Ao conhecer essas coisas, meu espírito fortaleceu-se. E ainda que minha mente

cartesiana – como a de qualquer cientista – continue resistindo a aceitar o que não

seja provado previamente em laboratório, a intuição, de novo, veio sustentar

minha cambaleante e anêmica fé.

E naquele anoitecer de segunda-feira, 10 de abril do ano 30, concluídos os

trabalhos, Eliseu e eu, emocionados, caímos de joelhos ante a majestosa imagem

do lençol de linho: sem dúvida, secundando Einstein, a “sombra de Deus”. E, em

silêncio, pedimos luz e força para prosseguir na dura mas fascinante missão que

nos havia sido encomendada. Nosso rogo deve ter sido ouvido, a julgar pelo que

nos coube viver...

Depois de beijar o Sudário, dispusemo-nos a descansar. Naquele momento,

meu irmão percebeu também o familiar odor que eu havia captado no interior da cripta ao inclinar-me sobre a mortalha. E imediatamente o identifiquei. Era o

mesmo que se registrava na nave a cada vez que se produzia uma inversão de

massa, com a conseqüente manipulação dos eixos dos swivels. Um odor de difícil

definição que talvez guarde uma remota semelhança com o de incenso queimado...

O dia seguinte, recuperado o microfone e analisados os panos mortuários, daria

começo a uma nova etapa na operação. Na realidade, um antigo e até então

fracassado projeto: investigar o fugidio “corpo glorioso” do Galileu.

 

142 Em uma de minhas conexões com a nave, Papai Noel confirmaria que “um fariseu de nome Saduc e um tal Judas de

Gamala apelidado Galileu, ambos simpatizantes ou membros do grupo de extrema esquerda dos zelotes, os “zelosos”,

estimularam uma revolta contra os romanos no ano 6 da nossa era, por motivo – segundo a Guerra dos Judeus (11, 118) – de

um recenseamento. O motim foi abafado, mas os zelotes, que contavam com a simpatia popular, continuaram praticando o

terrorismo individual e a guerra de guerrilhas. Feriam e matavam os infiéis e traidores, providos de um punhal que os latinos

chamavam sica. Daí derivou o qualificativo de “sicários”. São Paulo escapou deles por pouco. (Atos, XXIII, 14.) (N. do M.)

143 Esse grafite procedia talvez de uma época anterior. Possivelmente do reinado de Augusto, no qual a paga

diária de um legionário romano era idêntica à fixada por César: 225 denários anuais ou o equivalente: 10 asses

por dia. Tácito (Anais, I 17, 6) explica que a revolta dos soldados no ano 14 foi motivada por essa baixa paga. (N. do M.)

144 Sabíamos que a morte do rei Herodes, o Grande, se dera em 750, segundo o cômputo romano. Jesus nasceu três anos

antes (no “menos 7” da Era Cristã). (N. do M.)

145 O Major, em seus escritos, não revela quais foram essas “descobertas”. Mas, como eu mesmo, o leitor não terá

demasiadas dificuldades para – por meio da numerologia e da Cabala – encontrá-las por si próprio. Como meu amigo, o

Major, eu também fiquei atônito. (N. de J. J. Benítez.)

146 Pôncio foi destituído de seu posto como governador por Caio, o chamado Calígula, em conseqüência de um grave erro

político. Poucos anos depois da morte de Jesus, muitos samaritanos se congregaram em torno de um suposto Messias, que

lhes prometera descobrir os vasos sagrados enterrados por Moisés em um dos montes da Samaria. Pilatos soube dessa

enorme concentração no monte Garizim e lançou-se contra os samaritanos, promovendo uma carnificina. Diante das

acusações de judeus e samaritanos, Vitélio, supremo governador da Síria, o enviou a Roma, mas, no curso dessa viagem,

Tibério viria a falecer. O novo imperador, Calígula, desterraria Pôncio para as Gálias. (N. do M.)

147 Flávio Josefo escreve textualmente: “... aos oito dias do mês de abril, às nove da noite, houve tanta luz ao redor do altar e

do Templo, que certamente parecia ser um dia muito claro, e isso durou uma longa meia hora”. (N. do M.)

148 Em sua mesma obra – A Guerra dos Judeus (XII) – assegura no mesmo sentido: “Neste mesmo dia, na mesma festa, um

boi que traziam ao sacrifício pariu um cordeiro no meio do Templo”. (N. do M.)

149 “A porta oriental do templo interior” – continua no mesmo parágrafo –, “sendo de cobre, muito grande e muito pesada, que

só podia ser fechada a cada noite por vinte homens, e tinha os ferrolhos todos de ferro e as aldrabas muito elevadas, as quais

davam no fundo de uma pedra muito grande que estava no umbral da porta, apareceu aberta uma noite, às 6 horas, sem que

ninguém chegasse a ela.” (N. do M.)

150 Josefo refere-se assim a este surpreendente fato: “Poucos dias depois dos dias das festas, aos 21 dias do mês de maio, um

outro incrível sinal fez-se visível a todos muito claramente. Poderia ser que o que digo fosse tido por fábula, não estivessem

vivos, ainda, alguns que o presenciaram, e não sucedessem os fins e mortes tão grandes quanto eram os sinais: porque, antes

do Sol posto, se mostraram nas regiões do ar muitas carroças que corriam por todas as partes e esquadrões armados, que

passavam pelas nuvens espalhadas por toda a cidade: era o dia da festa a que chamam Pentecostes, e havendo os sacerdotes

entrado à noite na parte mais recôndita do Templo para fazer, segundo seus costumes, sacrifícios, a princípio sentiram um

certo movimento e certo ruído; e, estando atentos ao que seria, ouviram uma súbita voz que dizia: ‘Vamo-nos daqui...’”. (N.

do M.)

151 Como já assinalou o grande especialista T. Walsh, a sarja não era tecida na Europa senão até já bem avançado o século

XIV. No Egito e em Palmira, ao contrário, esse tipo de sarja – tanto de lã (Antinoe, no Egito) como de linho (Palmira, ao

noroeste da Palestina) – era trabalhada há muito tempo. Quanto às “inserções” de algodão encontrados no lenço – como diz

Raes –, também era conhecido no Oriente Médio nos tempos de Jesus. Nas ampliações pôde-se avaliar a perfeição do tipo de

sarja: de “4” em espiga. Por um fio de urdidura se contaram três de trama por cima e por baixo. (N. do M.)

152 Na toxicologia forense, as técnicas espectrofotométricas são de grande utilidade. Sua base é o estudo dos espectros de

absorção. A diferença em relação aos de emissão, que são produzidos por corpos incandescentes, é que aqueles são devidos

à “absorção” de determinadas radiações. O espectroscópio consiste em um prisma em que incide – por uma abertura – um

foco de luz. Esta, ao atravessar o prisma, se decompõe em uma série de raios que constituem o espectro de emissão do foco.

Mas as vibrações luminosas, ao atravessar determinados corpos, são absorvidas em parte, diferenciando-se a luz transmitida

da luz primitiva. Esta absorção é variável segundo a substância e, em muitos casos, totalmente característica. Mediante um

espectrofotômetro e um espectrocolorímetro pudemos realizar uma exata e fácil determinação quantitativa das substâncias

impregnadas no linho: suor, urina, sangue etc.

O Cavalo de Tróia escolheu para esta fase da missão o espectrofotômetro de Beekman (modelo DB), de face dupla. O raio

procedente da fonte luminosa se desdobra em duas faces: a de referência e a de amostra. O primeiro atravessa a célula de

referência. O segundo, sobre a célula que contém a amostra (nesse caso, já que não podíamos danificar o lençol, sem

dissolver). Depois, ambas as faces se recombinam e alcançam o detector. Uma vez colocada a amostra, o detector mede o

grau de desequilíbrio entre os dois raios. Basicamente, nosso aparelho se compunha dos seguintes elementos: uma fonte (para

o intervalo de comprimentos de onda de luz visível – 4.000 a 7.500 AO – utilizou-se uma lâmpada de tungstênio). Para as

regiões de ultravioleta e infravermelho, a fonte de radiação foi uma lâmpada de hidrogênio e um Uerst, respectivamente. As

moléculas de hidrogênio, eletricamente excitadas, emitem radiação ultravioleta. A de Nerst era uma barra de óxido de

zircônio, óxido de cério e óxido de tório, que se aquece eletricamente a 1.000-1.800 graus, emitindo radiação infravermelha.

Um monocromador que consiste em um filtro de luz que permite a passagem do comprimento de onda desejada e absorve a

radiação restante, que perturbaria a análise. Uma célula de amostra (as células são produzidas in vitro para o espectro

visível): em cloreto de sódio para o infravermelho e em quartzo para a região do ultravioleta. E um detector: uma fotocélula

que transforma a energia radiante em elétrica. Esta fornece a leitura direta sobre um quadrante indicador ou sobre um

gráfico. Tudo isso, naturalmente, conectado ao computador central. (N. do M.)

153 Na urina secretada diariamente por um adulto são, em condições normais (em uma quantidade que oscila entre os 1.300 a

1.600 cm3), de 1.000 partes se obtêm 960 de água e 40 de princípios sólidos: uréia, 23 partes; cloreto de sódio, 11 partes; ácido

fosfórico, 2,3; ácido sulfúrico, 1,3; ácido úrico, 0,5, e o resto: ácido hipúrico, leucomaínas, urobilina e sais orgânicos. Pois bem,

do nosso ponto de vista, a extrema acidez da urina de Jesus, muito acima da média normal, podia ser conseqüência do

seguinte processo: na atividade muscular realizada em presença do oxigênio, ou sem ele, o glicogênio se desagrega na cadeia

metabólica até formar ácido pirúvico. Este, captando um próton (H+), forma ATP (adenosina trifosfato) e ácido lático. O

ATP, como se sabe, fornece energia para a atividade. Melhor dizendo, é a única fonte de energia. Para cada duas unidades

de ácido lático se formam três de ATP, que são a fonte energética na ausência de oxigênio (metabolismo anaeróbico). Mas o

ácido lático não pode permanecer como ácido no sangue e, por isso, se une aos bicarbonatos: ácido lático mais CO3HNa =

lactato sódico mais CO3H-(bicarbonato). O íon bicarbonato (CO3H-) se une a um próton, produzindo anidrido carbônico e

água. Surgindo assim no sangue uma grande acidose que obriga – para ser compensada – à eliminação de hidrônios pela

urina, acidificando-a.

Contudo, em presença de oxigênio (metabolismo aeróbio), o ácido lático entra no ciclo de Krebs, onde, na presença de O2,

produz CO2 e H2O, que são facilmente eliminados pelos pulmões e urina, respectivamente. Em presença de oxigênio, uma

molécula de glicogênio produz 38 de ATP. (N. do M.)

154 A cromatografia, também em toxicologia médico-legal, é um método de grande eficácia. Graças a ela é possível separar

substâncias orgânicas e inorgânicas, tanto em grandes quantidades quanto em proporções microscópicas. Em nosso caso, a

análise foi qualitativa. A cromatografia pode ser definida como um método de análise, no qual um solvente ou um gás

favorece a separação de substâncias por migração diferencial, a partir de uma estreita zona inicial em um meio poroso ou

absorvente. As substâncias assim separadas podem identificar-se posteriormente por meios analíticos.

Entre as técnicas utilizadas em cromatografia, o Cavalo de Tróia escolheu a denominada “de gases”. Para executá-la, foi

preciso um aparelho especial que consta de quatro elementos básicos: uma fonte de fornecimento da fase móvel gasosa, um

bloco de injeção, uma coluna e um detector.

A fonte de fornecimento do gás portador consistiu em um cilindro de aço que o contém sob pressão. O gás utilizado foi o

hidrogênio. O bloco de injeção foi um dispositivo para a vaporização das substâncias voláteis, assim como a introdução da

amostra no aparelho. Quanto à coluna, era formada por um tubo de aço inoxidável preenchido com um sólido poroso e inerte,

impregnado de um líquido de alto ponto de ebulição. O suporte sólido consistiu em terra diatomácia. Por último, o detector era

um dispositivo automático que registrava a presença de componentes distintos. O nosso era do tipo de “densidade gasosa”,

que mede a diferença entre a densidade do efluente gasoso e o de uma coluna de comparação, através da qual só passa

nitrogênio. O detector se achava conectado a um registrador potenciômetro, que inscrevia automaticamente um

cromatograma no qual, sobre uma linha de base, se elevam picos correspondentes aos componentes da amostra analisada. A

altura do pico e sua área correspondem quantitativamente à concentração daqueles componentes. Nesse caso, como amostra,

foram utilizados vários fios, o que em nada danificou a integridade geral do linho. (N. do M.)

155 Entre os tipos de pólen encontrados pelo Cavalo de Tróia, recordo-me dos seguintes: Iris haynei, que é encontrado no

monte Gilboa, a oeste das hoje chamadas colinas de Golan, e no leste da região da Samaria; Orchis sanctus, de tardia floração

e que, justamente, crescia naquela altura de abril; Centaurea eryngioides, da qual já fala o Genesis (3, 18) e que era muito

abundante na Judéia e Samaria; Iris bismarckiana, muito freqüente nas montanhas que rodeiam Nazaré; Amygdalus

communis, que anunciava a primavera e que também é citado na Bíblia (Genesis, 43, 11, e Jeremias, 1, 11); Anthemis

melanolepis e Acacia tortilis, também das zonas desérticas do sul e do leste (naturalmente estes nomes científicos são

relativamente modernos). (N. do M.)

156 Na noite de 23 de novembro de 1973, Max Frei, com ajuda do professor Guio, teve acesso ao Sudário de Turim,

conseguindo 12 amostras do pó, sobre uma superfície de 240 mm2. Valeu-se, para isso, de umas tiras suspensas especiais,

sem tocar as áreas da imagem. Em sucessivos estudos conseguiu identificar quase meia centena de plantas, representadas

por outros tantos tipos de pólen. Entre estes, destacavam-se 16, quase exclusivos das regiões desérticas e de alta

concentração de salinidade do mar Morto (halófilos). Havia, certamente, outros espécimes das estepes da Anatólia, França e

Itália. (N. do M.)

157 A denominada “cromatina de Barr”, ou cromatina sexual, é o cromossomo X inativo que aparece em forma condensada

nos núcleos interfásicos. Esta cromatina sexual do cabelo já foi investigada por Schmid em 1967, Culberton em 1969 e

Egozcué, em 1971. (N. de J. J. Benítez.)

158 O Cavalo de Tróia utilizou também em suas indagações o chamado AAN (Análise por Ativação Neutrônica). Com o

AAN consegue-se determinar com grande precisão quantidades que oscilam entre 10-6 e 10-9 g, na análise minuciosa dos

elementos. Com uma só radiação neutrônica é possível também efetuar a “identidade” de 15 a 18 elementos presentes na

amostra e aos níveis de 10-6 e 10-9. (Em nosso caso, foi suficiente a utilização de uns poucos milímetros quadrados da

superfície sanguinolenta do lençol.) Nossa metodologia foi a seguinte: os elementos submetidos ao bombardeio neutrônico

tornaram-se radiativos, de acordo com suas características nucleares, pela pressão de um nêutron, emitindo, em

conseqüência, radiações α, β e γ. Por último, utilizamos as radiações gama, que possuem energia característica para cada

elemento. A presença de um elemento, portanto, é detectada mediante as radiações gama. Quanto à quantidade, é fácil fixá-

la através da medição da intensidade da radiação gama, comparada com a de um padrão. Nossa análise procurou

especialmente os conteúdos de natureza mineral do sangue (macros e oligoelementos), de acordo com as tabelas científicas

de Geigy. Conseguimos localizar: iodo, cloro, bromo, potássio, sódio, zinco, ferro, fósforo, cálcio, cobre, enxofre, estanho, flúor,

silício, magnésio e chumbo. (A ordem foi especificada obedecendo o volume encontrado nas amostras.) As amostras foram

submetidas a radiações neutrônicas com um microejetor alimentado por nossa pilha nuclear SNAP. O primeiro “bombardeio”

foi de dois minutos com um fluxo equivalente a 4,5 x 1012 nêutrons por cm2 que permitiu a determinação de núcleos com

semiperíodos de transformação compreendidos entre dezenas de segundos e centenas de minutos. Um segundo “bombardeio”

de quase 120 minutos e um fluxo de 1 x 103 nêutrons por cm2, localizou e transformou os núcleos de mais longo semiperíodo

de transformação. Para a experiência de espectrometria gama utilizou-se um cristal semicondutor do tipo Ge/Li de 35 cc

unido a um analisador-elaborador Laben 701. (N. do M.)

159 Outro dos inconvenientes que nos fez duvidar do processo de fibrinólise foi a dificuldade de considerar a liquefação da

fibrina de uma forma geral e simultânea na totalidade das manchas do sudário. Os doutores Vignon e Barbet são partidários

da formação desses decalques, única e exclusivamente, quando a fibrina está em meia dissolução. Nem antes nem depois.

Tudo depende, portanto, do momento exato e, no caso que nos ocupa, duvidamos muito que se registrasse de forma

generalizada e idêntica para cada filete por onde corre o líquido, coágulo etc., em ambas as faces do linho. Por demais

forçado e improvável. (N. do M.)

160 Meu companheiro realizou dois tipos de provas preliminares: a já referida da benzidina e a mais confiável, à base de

fenolftaleína. Com a primeira, a presença do pigmento sangüíneo apresentou num instante o clássico colorido azul intenso.

Mas conhecendo a potencial natureza carcinogenética da benzidina, foi feita a prova da fenolftaleína, colocando o extrato da

prova em um vidro com uma gota de fenolftaleína (130 mg), de hidróxido de potássio (1,3 g) e água destilada (100 ml). Depois

de fervida até o seu branqueamento, acrescentou-se 20 g de pó de zinco, ainda durante a ebulição, e algumas gotas de

peróxido de hidrogênio (20 volumes). A cor rosa resultante indicou-nos, uma vez mais, a presença de sangue. É certo que

poderíamos ter continuado com outras provas mais concludentes, mas para o Cavalo de Tróia era o suficiente. (N. do M.)

161 Uma das fibras extraídas do lençol foi mergulhada nos soros anti-A e anti-B. Depois de lavada a amostra, foi tratada com

células de prova A, B e O, detectando assim, as aglutininas absorvidas. Uma vez secas as hemácias – processo que destrói a

aglutinabilidade, ainda que não seu antígeno –, pudemos conseguir o mesmo fim, demonstrando a capacidade para absorver as

aglutininas dos soros sotck e diminuir assim sua força anti-A e anti-B, da mesma maneira que com outros tipos de genes. (N.

do M.)

162 No instante da investigação, e de acordo com as tabelas universalmente aceitas sobre a hereditariedade, só podíamos

contemplar as seguintes possibilidades, sempre com base no grupo sangüíneo descoberto (AB): progenitores A x B = filhos A,

B ou AB. Progenitores B x AB = filhos A, B ou AB. Por último, progenitores AB x AB = filhos A, B ou AB. Cabia, portanto,

a probabilidade teórica de que Maria e José pudessem ter sido A, B ou AB, entre os cálculos normais. (N. do M.)

163 Em 1969, Zech demonstrou que a porção distal do cromossomo Y tem uma notável fluorescência depois de uma tintura

com quinacrina. Mais tarde se observaria que há homens normais que não têm fluorescência. Repief encontraria uma

incidência negativa em 1/458 dos recém-nascidos masculinos. Phillips comprovou 86% de leucócitos com corpos Y

fluorescentes para o homem e 0,5% para a mulher. (N. do M.)

164 Eis aqui outro dado que coincide com o que foi averiguado até o momento na mortalha de Turim. Secondo Pia o

descobriria em 1898. Nossas chapas apresentavam – nos filmes negativos – o “positivo” da imagem que tínhamos diante dos

olhos, no linho. Ante nosso assombro, aquele “negativo” fotográfico – impensável no século I – reunia todas as características

que hoje atribuímos a tais imagens: tanto a luz como a obscuridade e a posição “direita-esquerda” estavam invertidas. Além

do mais, as “manchas” reagiram à radiação ultravioleta, em uma clara resposta fluorescente. O que podia ser tudo aquilo?

Como em um pano de linho podiam ocorrer circunstâncias tão extraordinárias? A verdade é que só essa descoberta teria

merecido toda nossa atenção... (N. do M.)

165 Como já havia apontado o dr. Vignon, no princípio do século XX, em relação ao Sudário de Turim, a intensidade da

imagem ali plasmada varia inversamente com a distância pano-corpo. Em outras palavras, quanto mais perto estava o linho do

corpo, mais escura era a “mancha”. Nossos instrumentos referendaram a afirmativa matematicamente. Isso significava que

na imagem havia sido “escondida” uma informação sobre a distância em níveis de intensidade variáveis da imagem ao linho.

Mas em pleno século I?

Ao converter as forças de intensidade das “manchas” a graus de relevo vertical, obtivemos, atônitos, a reconstrução

matemática de uma figura em relevo. Que pudemos deduzir? Que, em primeiro lugar, a formação daquela “imagem” era

uniforme e independente das qualidades superficiais do cadáver. Segundo, o lençol tinha de estar relativamente plano no

instante da formação da imagem. Terceiro, que os processos dos quais resultou a mudança da intensidade das “manchas”

atuaram uniformemente ou não atuaram. A tridimensionalidade tem de ser característica distintiva, já que não existe distorção

quando a imagem é transformada em relevo vertical. E talvez uma das conclusões não menos importantes: essa imagem

maravilhosa não pode ser fruto do contato, ou seja, da ação dos vapores amoniacais, ungüentos etc. Não fosse assim, a

descoloração do lençol somente se haveria registrado nas áreas onde o sudário houvesse tocado o corpo. O contato direto

haveria feito a imagem parecer plana na parte superior, com uma elevação vertical idêntica para todas as zonas de contato.

Mas nada disso ocorria com o enigmático linho.

Mas havia muito mais. Como explicar que as impressões dorsal e frontal apresentassem o mesmo grau de intensidade? Por

lógica, um cadáver com 80 decímetros cúbicos descansando sobre o linho subjacente deveria ter produzido uma “marca” ou

“sinal” muito diferente da registrada no pano superior. No entanto, as imagens são idênticas em intensidade. Só cabia uma

explicação: que o corpo, no momento da formação da imagem, estivesse no ar, em plena levitação. Mas nos chocávamos

novamente com uma “impossibilidade” científica: nenhum corpo – e muito menos o de uma pessoa morta – pode “elevar-se”

por si mesmo... A não ser que... Mas não: era demasiado fantástico. Do que estamos convencidos, sim, é que, com o tempo,

quando essa “informação” codificada na imagem possa ser estudada em profundidade, a Humanidade se surpreenderá ante

novos e arrepiantes dados sobre o que hoje se entende – ou não se entende – como “ressurreição”. Será somente questão de

esperar, ainda que eu saiba que não viverei para isso... (N. do M.)

166 Este aparelho preparado pela IBM pode cuidar de estruturas que têm apenas uma centésima parte do tamanho do átomo.

Como é sabido, o microscópio óptico não está capacitado para a leitura de estruturas atômicas. (A média do comprimento de

onda da luz visível é umas 2 mil vezes maior que o diâmetro típico de um átomo que é da ordem de 3 angströns. Uma dessas

unidades de comprimento equivale a 1 décimo milésimo milionésimo de metro.) Quer dizer, tentar visualizar um átomo ou uma

estrutura atômica com luz visível seria como pretender descobrir rachaduras da grossura de um cabelo humano em uma

quadra de tênis, lançando bolas sobre sua superfície e observando sua deflexão. Não quero entrar em detalhes técnicos da

estrutura de um microscópio de “efeito túnel”, mas falarei sobre algumas de suas importantes características, que tornaram

possível nossa “descoberta”.

A principal diferença entre esse e os demais microscópios está em que ele não utiliza partículas livres. Portanto, não necessita

lentes nem fontes especiais de elétrons ou fótons. Sua única fonte de radiação são os elétrons ligados que já existem na

amostra submetida à investigação. Para compreender melhor este princípio, imaginemos que os elétrons ligados à superfície

da amostra sejam semelhantes à água de um lago. Tal como parte da água se infiltra no terreno, formando correntes

subterrâneas, alguns elétrons da superfície da amostra “fogem” desta, originando uma nuvem de elétrons ao redor da

amostra.

De acordo com a física clássica – e continuo baseando-me nos escritos de Binning e Rohrer –, esta “nuvem” não poderia

existir porque a reflexão nos limites das superfícies confina as partículas dentro delas. Todavia, não se passa assim na

mecânica quântica, onde cada elétron se comporta como uma onda: sua posição não é bem definida. Parece como se “se

esfumasse”. Isso explica a existência de elétrons mais além da superfície da matéria. A probabilidade de encontrar um

elétron cai rapidamente – de forma exponencial – com a distância da superfície. Este efeito é conhecido como “efeito túnel”,

já que os elétrons parecem estar “cavando” túneis além de sua clássica fronteira. (N. do M.)

167 “Nosso” microscópio de “efeito túnel”, em lugar dos dois eletrodos que habitualmente possuem esses aparelhos, fora

retificado da seguinte forma: O Cavalo de Tróia substituiu um dos eletrodos pela amostra a ser investigada (o sudário) e o

segundo, por uma ponta afilada como uma agulha. Por último, trocou-se o revestimento isolante rígido por outro, não rígido.

Neste caso, o vácuo. Desse modo foi possível circular a ponta sobre os contornos da superfície da amostra. (N. do M.)