Cavalo de Tróia 2: Massada

J. J. Benítez · Capítulo 3 de 10 · parte 1/8

Páginas do PDF

Cavalo de Tróia 2: Massada

9 de abril, domingo ⠀愀渀漀 ㌀ )

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 8 partes.

9 de abril, domingo (ano 30)

 

– Tudo bem?

Eliseu respondeu com uma nova piscadela. E durante alguns segundos

procedemos à obrigatória e rotineira checagem dos instrumentos. Os altímetros

especiais – a que aludirei em breve – não haviam modificado suas leituras: 800 pés

sobre o terreno situado sob o “berço”. O passo seguinte foi conferir nossas

coordenadas. Meu companheiro, auxiliado por um sextante, anotou as novas

posições da Lua e de algumas das estrelas e forneceu os dados a Papai Noel. O

computador fez o cálculo e, segundos após, líamos no monitor o que já

supúnhamos: o módulo não havia alterado sua localização no espaço.

– Regulagem da plataforma de inércia sem variação...

Um pouco mais tranqüilos, demos uma olhadela no exterior. A Lua, às “três” de

nossa posição, quase cheia, brilhava fortemente sobre as imóveis águas do mar

Morto. Não havia rastro da nebulosidade que cobriria a região... 1943 anos

“depois”! A nossos pés, tremulamente iluminada, a meseta da Massada. O brilho da

Lua permitia vislumbrar os perfis dos edifícios herodianos, agora intactos. No setor

norte, atrás dos armazéns, e junto à torre ocidental despontavam diversas

fogueiras, únicos sinais de vida no alto do penedo. Possivelmente, obra dos turnos

de guarda da pequena guarnição.

– 1h65...

Após consultar o WX – vento calmo, visibilidade ilimitada, baixa umidade

relativa e 10 graus de temperatura, em ascensão –, Papai Noel, de acordo com o

programado, efetuou o giro do motor principal (o J85), cujo eixo Cardan havia sido

modificado nessa ocasião, para permitir uma propulsão horizontal do módulo.102

– Roger – exclamou Eliseu, surpreendido uma vez mais pela precisão do

computador central –, pegeons: 10 graus... distância estimada ao ponto Gedi? 9,7

milhas...103

– OK. Leitura de combustível?

– Estamos a 99%.

E o “berço” iniciou seu vôo para o nordeste, em busca do chamado oásis de Ein

Gedi. Uma vez ali, automaticamente, o computador retificaria o rumo, variando

para o noroeste.

– Oscilação nula... Mantendo o nível.

– OK, Eliseu. Tempo estimado para o ponto Gedi?

Meu companheiro consultou o “plano de vôo”.

– A partir deste instante, dois minutos e seis segundos.

1h2’5” – quer dizer, um minuto depois de haver rompido o estacionário –, a

nave alcançava a velocidade de cruzeiro prevista: 400 km/hora.

– Nível?

– 2 mil pés...

Nossos altímetros “gravitacionais”,104 do mesmo modo que os barométricos e os

radialtímetros, mostravam que o “berço” deslocava-se seguindo a margem

ocidental do Mar Morto.

– Ponto Gedi...

Eliseu continuou lendo o monitor.

– Retificação a radial 335... OK, Papai Noel é uma bênção!

A nave, com efeito, havia girado para o noroeste, rumo ao ponto “B”.

– Distância estimada: 39 quilômetros... Papai Noel calcula o tempo de vôo em

6 minutos e 5 segundos.

– Roger... parece que tudo vai saindo exatamente como pedimos...

A verdade é que não tardaria a arrepender-me daquele comentário.

– Mantendo 18 mil pés por minuto.

Três minutos depois de iniciado o novo rumo, os radares detectaram um núcleo

humano às “oito” de nossa posição (aproximadamente para o sudoeste). Embaixo,

a mais de 900 metros de altitude, a cambiante semi-obscuridade dos contrafortes

do deserto da Judéia era quebrada por um compacto campo de pontos de luz

tremeluzentes e amarelados. Eram os archotes e lâmpadas de azeite de Hebron.

– O perfil do terreno continua elevando-se... 1.092 pés... 1.263... 1.485.

Efetuamos correção ascensional?

Consultei os altímetros “gravitacionais”:

– Margem de segurança a 515 pés...

– Não, vamos proceder sobre o ponto “B” – respondi, indicando-lhe nossa

altitude: 2 mil pés. – De momento vamos bem... Dê-me o combustível.

– 98,7%...

– Entendido 98,7.

– Afirmativo.

O radar alertou de novo meu companheiro.

– Atenção!... Vejo o Herodium “5 x 5”... 72 segundos para a vertical do ponto

“B”.

– Roger.

O Herodium, com sua forma cônica, semelhante a um vulcão, estava à vista.

Isso significava que nos encontrávamos a uns 8 quilômetros ao sudeste do ponto

“B”. A especial configuração desse promontório, isolado entre dois áridos montes

da Judéia, nos havia levado a considerá-lo – nos primeiros momentos, quando

planejávamos esta segunda expedição – como um do lugares possíveis para o

assentamento da estação receptora de fotografias do Big Bird. Subindo-se ao

Herodium, descobre-se uma formidável cratera artificial e, no seu interior, um

suntuoso palácio fortificado, residências reais, piscinas e jardins em anfiteatro, tudo

isso comunicando-se com uma cidadela superior através de duzentos degraus de

mármore. Foi outra das ciclópicas obras do rei Herodes, o Grande. Ao que parece, o

sanguinário Herodes morreu em Jericó, mas deixou escrito que queria ser sepultado na fortaleza que tem o seu nome. Na atualidade, apesar das escavações

arqueológicas, a esplêndida urna funerária de ouro com incrustações de pedras

preciosas não foi achada. Nossa idéia, como fiz ver neste diário, não chegou a

prosperar. Os judeus elegeram Massada.

– Herodium na tela e a 15 segundos...

– Recebido.

– Herodium em nossa vertical! Retificação a radial 360 graus...

– Dê-me o nível.

– 1.500 pés e subindo... 1.600...

– Distância estimada para junção com ponto “B”? Vamos tê-lo a 7

quilômetros...

– OK, vigie Papai Noel.

Eliseu seguiu minhas ordens, constatando, com satisfação, que o computador

forçava em vários graus a direção do jato do motor principal, elevando a nave a um

novo nível de vôo.

– Roger... Alcançando os 3 mil pés... 35 graus... 20 graus... Módulo estabilizado.

– Atenção!... Ponto “B” à vista... O radar dá leitura clara: colinas pétreas...

Perfil: 2.400 pés.

– Repita nível de vôo.

– Estabilizado em 3 mil.

– Roger...

A verdade é que, se tivesse disposto de margem de tempo mais ampla, no

momento de planificar essa nova exploração e tivesse tido um conhecimento prévio

do lugar de assentamento da estação, o pessoal do Cavalo de Tróia haveria podido

simplificar o “plano de vôo” do “berço”, introduzindo no computador o sistema

SMAC de condução.105 Mas as coisas eram como eram...

– Contato com o ponto “B”!

Senti um estremecimento. Ali embaixo, a apenas 600 pés, entre colinas e

escarpas salpicadas de enormes pedras brancas, achava-se outro dos objetivos de

nossa exploração: Belém!

A obscuridade não nos permitiu visualizar a posição exata da aldeia. De outra

parte, as irregularidades do terreno tornavam muito precária a leitura do radar.

Quase no cimo de um daqueles montes, orientado para o norte, desenhava-se o

perfil de um reduzido núcleo de pequenas casas, quase todas térreas. E aqui e ali,

dispersas pelos arredores, uma ou outra luz...

– Ativada correção automática de vôo. Virando a radial 15 graus. Distância em

vertical da “base-mãe” confirmada.

– OK.

– “Base-mãe” em 15 e 4,56 milhas.

– Roger, reduzindo a 9 mil por minuto...

– Diga-me o nível.

– Perfil descendo... 2 mil pés... Agora subindo! 2.200 pés.

– Roger!... Aí o temos!

– Graças a Deus!

A tela do radar começava a traçar-nos o perfil sul do monte das Oliveiras, nossa

“base-mãe”.

– Confirme redução de velocidade e combustível.

– Afirmativo. Continua descendo: 6 mil pés por minuto. Tanques a 98,2.

A tensão daqueles últimos minutos envolveu-nos por completo. O módulo havia

sido programado para voar até a vertical da altitude máxima do monte das

Oliveiras – situada ao norte e a 2.425 pés sobre o nível do mar – e, uma vez ali,

proceder à descida. O “ponto de contato” era praticamente o mesmo do nosso

anterior “salto”.

– Dê as coordenadas.

– OK: 31 graus, 45 minutos norte... 35 graus, 15 minutos leste... Afirmativo: o

radar apresenta o perfil de uma cidade às “nove” de nossa posição.

– Jerusalém!

– E o que você esperava?... Honolulu?

Eliseu não respondeu à piada. E, de pronto, o coração saltou no meu peito. Sob

a mortiça luz avermelhada da cabine, vi que sua fronte estava banhada de um

copioso suor.

– Você está bem?

Moveu a cabeça afirmativamente e continuou de olhos fixos no painel de

instrumentos.

A princípio não dei excessiva importância à transpiração de Eliseu. Ainda que a

temperatura ambiente do módulo não ultrapassasse os 15 graus Celsius,

tranqüilizei-me atribuindo o suor à forte excitação daqueles últimos instantes.

– Acionados retrofoguetes... A 60 segundos para o estacionário.

O computador central, pontual e seguro, reduziu a força do J85, fazendo-o girar

90 graus.

– Dê-me nível de vôo..

Eliseu não respondeu.

Trajetória do módulo. Decolagem da Massada.

 

Vôo para Ein Gedi, Belém e monte das Oliveiras.

 

– Repito: nível de vôo.

– 3 mil pés... e a 30 para estacionário.

– Tanques?

– A noven...

– Repita!

Deus meu! Meu companheiro não pôde concluir a leitura. Jazia sobre o braço do

assento, com o rosto pálido e coberto pelo suor.

– Eliseu! Responda! Eliseu!

Foi inútil. Chequei suas funções vitais. A freqüência cardíaca havia caído

bruscamente: de 120 a 90, provocando uma perda de consciência.

– Oh Deus!

 

Com meus nervos a ponto de explodir, os sinais acústicos e luminosos do painel

de alarme romperam o silêncio da cabina, devolvendo-me a noção da crítica

realidade. Era preciso aterrissar o módulo.

“1h11’41” .”

A nave havia coberto as 38,39 milhas de vôo (quase 70 quilômetros) e acabava

de fazer estacionário a 546 pés sobre o cimo norte do monte das Oliveiras. Não

havia tempo a perder. Se me deixasse arrastar pelo pânico, nossas vidas e nossa

missão poderiam terminar ali mesmo...

“Zero grau. Oscilação nula.”

– Vamos!... Para baixo, para baixo, princesa!...

– Assim!... Baixando a 23 pés por minuto.

Em voz alta, animando-me a mim mesmo, fui controlando a descida, atento ao

intenso fluxo de leituras do computador central.

Papai Noel, com precisão matemática, havia “colimado” a pequena clareira de

dura pedra calcária sobre a qual havia estacionado o “berço” na primeira missão e

que – se conseguíssemos sair sãos e salvos – constituiria a “base-mãe” na nova

expedição.

– Roger!... Tanques a um 98,1%... Nível: 320 pés e baixando para quatro...

Roger, princesa!...

Eliseu continuava inconsciente.

– Assim!... 200 pés e baixando. Quatro e meio e para baixo.

Conquanto houvesse sido previsto para o momento da tomada de terra, ativei o

dispositivo de segurança do módulo, projetando a 30 pés do “berço” uma “parede”

de ondas gravitacionais, em forma de cúpula, que nos protegeria diante de uma

eventual aproximação de pessoas ou animais.

Os registros eletrônicos continuavam despejando parâmetros.

– ... 75 pés para a tomada de contato... Redução da velocidade a 2,5 pés por

minuto... 50 pés... 45... Redução a dois...

– Deus meu! É quase nosso!

E, de súbito, uma seca freada. Os quatro pés extensíveis da nave chocaram-se

com o solo pedregoso, disparando as luzes de contato no painel de comando.

Respirei profundamente. Os cronômetros indicavam: 1h13’11” da madrugada.

“Enfim, de volta!” Mas não eram aquelas as circunstâncias que havia imaginado

para o ansiado retorno à Palestina de Cristo...

Papai Noel anunciou uma ligeira inclinação no módulo: 15 graus.

Imediatamente fiz que se equilibrassem as seções telescópicas do trem de

aterrissagem, nivelando a nave.

Desprezando o que fora planejado pelo Cavalo de Tróia, desativei o J85,

anulando a ordem do computador, que previa a manutenção da ignição do motor

principal durante minuto e meio, a partir da aterrissagem. Em caso de emergência,

teria bastado uma rápida digitação e Papai Noel – cumprindo o programa de

retorno – elevaria de novo o “berço”, efetuando o plano de vôo inverso ao que

acabávamos de realizar.

Segundos mais tarde, silenciada a quase totalidade dos circuitos, verifiquei a

camuflagem infravermelha e deixei no automático os sensores do segundo cordão

de segurança que rodeava o “berço”. A 150 pés do módulo – e a toda a sua volta –

qualquer ser vivo que cruzasse o perímetro podia ser visualizado nos monitores,

graças às radiações infravermelhas emitidas por seu corpo. Como já comentei, se o

intruso continuasse avançando, a “membrana” externa estava em condições de

emitir um fluxo de ondas gravitacionais que se comportavam – a 30 pés da nave –

como um vento do tipo furacão, impossibilitando o avanço de homens ou animais.

Então, com o ânimo arrasado, dediquei-me por inteiro a meu irmão...

– Responda!... Maldição!

De repente, ao tomá-lo pelos ombros, descobri que seu dispositivo de RMN

continuava funcionando. Mal-humorado, retirei-o, e também o escafandro.

– Eliseu!... Deus do céu!

A palidez e o suor frio e abundante me haviam angustiado. A que se deveria

aquela súbita perda da consciência?

Naquele dramático momento não consegui associar o estado de prostração de

meu companheiro ao recente processo de inversão dos swivels e,

conseqüentemente, à rede neuronal. Se houvesse sequer cogitado, talvez minha

reação tivesse sido radicalmente diversa. O mais provável é que houvesse dado por

concluída a missão e retornado imediatamente à Massada e a “nosso tempo”.

Mas, como se verá, mais uma vez o destino tinha outros planos...

Busquei acomodá-lo no piso da nave, com as pernas elevadas sobre o assento

de pilotagem. Se aquele desfalecimento – pensava eu atropeladamente – se

devesse à deficiência de sono e ao agudo estresse das últimas jornadas, sem

desprezar a tensão do vôo até a “base-mãe”, era possível que estivéssemos ante

uma passageira e nada preocupante síncope, por insuficiência de irrigação cerebral.

Ao checar as funções vitais de Eliseu durante aquele período de inconsciência, o

computador ratificou meu diagnóstico inicial: brusca queda da freqüência cardíaca,

problemas respiratórios e de tensão arterial... Conclusão estimada: “lipotimia”.

Todavia, ainda que o controle do Papai Noel acusasse a “noxa” 106 como possível

responsável pelo desmaio, alguns dos parâmetros não se encaixavam no quadro

clínico dessa classe de síncopes. Chamaram-me a atenção, sobretudo, as inusitadas

alterações eletrocardiográficas e umas também pouco comuns mudanças

patológicas nas artérias carótidas: as que fornecem a irrigação sangüínea à cabeça.

Mas a confusão do momento fez-me esquecer o assunto por algum tempo pelo

menos.

Depois de aplicar-lhe algumas vigorosas bofetadas, na desesperada tentativa

de obter alguma reação, tomei-lhe o pulso. Continuava baixo. Cada vez mais

aturdido, recorri à reserva de fármacos e passei a lutar para fazê-lo beber uma

mistura de água com vinte gotas de um analéptico respiratório, especialmente

recomendado para esses casos de perda de consciência. O estimulante atuou sobre

sua circulação e em dez minutos voltava a si. Pouco a pouco sua freqüência

cardíaca, o ritmo arterial e a cor foram-se estabilizando.

– Jasão, o módulo!

Aquelas primeiras e titubeantes palavras devolveram-me em parte o sossego.

Quis levantar-se, mas eu o impedi. Insisti em que permanecesse por mais alguns

minutos na mesma posição.

– Calma! Tudo está sob controle – tranqüilizei-o –, o pior já passou... Estamos

em terra.

Eliseu cerrou os olhos e, depois de inspirar profundamente, indicou-me com a

cabeça que estava de acordo e que seguiria minha sugestão.

Obedecendo a um primeiro impulso, digitei o Papai Noel. Imediatamente, o

computador ofereceu-me completa informação sobre as plantas medicinais

existentes na nave e que podiam aplicar-se ao caso de meu irmão:

“Efedra. Contém alcalóides etc., etc., etc... Efeito: vasodilatador, aumenta a

tensão arterial, estimula a circulação, antialérgico...”

“Escila. Contém glicocídios cardíacos etc., etc., etc... Efeito: diurético, estimula

o músculo cardíaco, regula o ritmo cardíaco...”

“Ginkgo. Contém azeite flavonóide alcanforado etc., etc., etc... Efeito: aumenta

o fluxo sangüíneo por vasodilatação...”

A lista parecia interminável, e sem mais optei pelo ginkgo, uma planta extraída

da árvore do mesmo nome e originária da China e do Japão.

Em meia hora, Eliseu, com sua habitual docilidade, ingeria o extrato preparado

com o espécime que eu escolhera.

Eliseu não tardou a levantar-se e às 2h30, plenamente recuperado, retomou

seu posto, diante do painel de comandos. Minhas recomendações para que se

recostasse no beliche e descansasse foram rejeitadas. Nesse ponto Eliseu tinha

razão. Havia muito que fazer e o tempo perdido já preocupava. Minha presença no

horto de propriedade de José de Arimatéia havia sido marcada pelo Cavalo de

Tróia para as 3 horas aproximadamente.

De comum acordo, antes de pôr em marcha a primeira fase da exploração,

fizemos uma minuciosa revisão dos equipamentos básicos. A pilha atômica

continuava abastecendo com regularidade e os sistemas de infravermelho não

detectavam anormalidade alguma no exterior. As reservas de propelentes

achavam-se no nível previamente calculado para o momento da tomada de terra:

98% justos. A verdade é que, ainda que nossa confiança no Papai Noel fosse quase

absoluta e soubéssemos que haveria sido o primeiro a alertar-nos em caso de

possíveis falhas ou avaria nos instrumentos, tanto meu companheiro como eu

ficamos mais tranqüilos depois daquela última revisão geral.

A disposição de Eliseu voltava rapidamente e, de acordo com o planejado,

iniciamos os preparativos para minha imediata saída do módulo.

Eram 2h45.

 

Não foi muito o que tive de deixar no módulo. Como já tenho observado, a

operação não permitia, evidentemente, que os exploradores de “outro tempo”

carregassem objetos que pudessem ser anacrônicos para a população da época

histórica a estudar.

– Relógio de pulso, anel de ouro... e a placa de identidade. Eliseu guardou

meus pertences. Desnudei-me, tal como mandava o plano, e ele cooperou comigo

em uma meticulosa revisão de meu corpo. Qualquer descuido poderia ser

comprometedor.

Foi nessa operação, que precedia a implantação da chamada “pele de

serpente”, que meu irmão reparou em alguma coisa que eu havia esquecido.

– E isso?

Ao indicar as escamas que me cobriam parte das faces anteriores das pernas e

as regiões dorsais dos antebraços, só pude dar de ombros.

Eliseu fulminou-me com o olhar. E, diante de sua insistência, não tive

alternativa senão contar-lhe a verdade. Fazia dias, realmente, que aquelas zonas

do meu corpo apresentavam anormal ressecamento e aquelas escamas. Ao mesmo

tempo, revelei-lhe a não menos estranha floração de sardas ou manchas senis de

cor café que salpicavam os dorsos de minhas mãos, parte do pescoço, braços e

antebraços.

– Bem...

Meu companheiro, pouco amante de rodeios, foi diretamente ao que ambos

tínhamos em mente.

– ... Pode ter relação com o possível ataque aos tecidos neuronais?

Era difícil dizê-lo. E assim lhe expliquei. Só o que estava claro era que a

descamação – um fenômeno conhecido como xerose – obedecia inegavelmente a

uma alteração involutiva das estruturas epidérmicas e cutâneas. Um fenômeno

muito bem estudado pela geriatria, tanto em seus aspectos biológicos e

psicológicos como sociais. Havia, portanto, uma probabilidade de que tais

manifestações em minha pele tivessem uma origem muito mais profunda e grave:

a alteração dos pigmentos do envelhecimento no âmago dos neurônios. Todavia,

numa tentativa de desanuviar a cada vez mais sombria atmosfera que nos

envolvia, coloquei especial ênfase em outra possível causa daquelas sardas e

escamas:

– É provável que estejamos levando as coisas demasiadamente longe. Não

podemos descartar o possível efeito da “pele de serpente” sobre a epiderme e até

sobre a derme. Esse ressecamento, positivamente – acrescentei sem muito poder

de convencimento –, está em relação direta com uma menor produção cutânea de

gordura. E você deve saber que isso ocorre, às vezes, pelo uso de sabões não

graxos ou pelo atrito de vestes de lã e linho. Ao nosso regresso falaremos disso

com Curtiss.

Eliseu esboçou um meio e cético sorriso. A “pele de serpente” havia sido

provada de sobra e jamais originara problemas como aquele.107 Inteligentemente,

meu companheiro mudou de conversa e esqueceu o incidente. Isso, pelo menos, foi

o que eu pensei no momento...

Sem mais interrupções submeti-me à pulverização, “vestindo” a valiosa e

indispensável “armadura”. Como por ocasião da primeira exploração, escolhi uma

“pele de serpente” totalmente transparente que evitaria perguntas ou situações

embaraçosas. E, diversamente daquele primeiro “salto”, tendo em conta a maior

duração da presente missão e o virtual incremento dos riscos, a pulverização não

se limitou às zonas críticas: tronco, ventre, genitais e pescoço. Por expresso desejo

dos diretores do projeto, a “pele de serpente” cobriu também a totalidade das

extremidades superiores e inferiores, apenas excluindo os pés e a cabeça.

Por estritas razões de continuidade, minha aparência não foi alterada. Para as pessoas com as quais me havia relacionado desde a sexta-feira, 30 de março, à

madrugada de domingo, 9 de abril do ano 30, tudo – principalmente a

indumentária – devia continuar sendo igual. Aliás, para elas, de um ponto de vista

puramente cronológico, não se passara mais que umas poucas horas desde que me

haviam visto pela última vez.

Para minha alegria, quando eu vestia a tanga, meu irmão rompeu a rir. Meu

aspecto não devia ser muito ortodoxo e a insólita aparência serviu para suavizar os

amargos momentos que havíamos atravessado. Aquela espécie de saq, muito

semelhante à usada pela quase totalidade dos homens da Palestina do primeiro

século, havia sido confeccionada e “amaciada” na medida do possível, com

algodão, tomando por modelos os saq ou tangas que aparecem nos documentos

arqueológicos do Egito e da Mesopotâmia. O algodão, dado o caráter íntimo da

peça, era uma concessão dos experts. Na realidade, se se devesse seguir ao pé da

letra a informação oficial, minha tanga teria de ser fabricada com um tecido mais

grosseiro: pano de saco. Por outro lado, o fato de ser um “rico comerciante grego

da Tessalônica” – dedicado ao negócio de vinhos e madeiras – autorizava-me a

dispor de uma indumentária mais adequada ao meu status social...

Quando o saq foi atado ao redor de minha cintura, Eliseu ajudou-me a vestir a

fralda marrom-escuro e a túnica simples de cor marfim. Essa última, feita sem

costuras num tecido à base de linho de sequeiro por hábeis tecelões sírios –

herdeiros do antigo núcleo comercial de Palmira –, respeitando o costume grego,

era um pouco mais curta do que o chaluk ou túnica judia. Tratava-se, na realidade,

de uma réplica do chiton de meus “compatriotas”, os helenos. De acordo com as

medidas padronizadas dessas túnicas ou chiton, a minha prolongava-se uns poucos

centímetros abaixo dos joelhos.

Ainda que o cinto ou “cingidor” pudesse ter sido de melhor qualidade, de

acordo com minha hierarquia e posição econômica, o Cavalo de Tróia entendeu que

não conviria chamar a atenção nem tentar a cobiça alheia com uma peça de ouro

ou prata. Para o seu entrançado foram suficientes umas modestas cordas egípcias.

O manto ou chlamys – a que nunca cheguei a acostumar-me – era mais

chamativo do que o utilizado habitualmente pelos judeus: o talith. Tecido

igualmente a mão, com lã das montanhas da Judéia, era de um discreto, mas

aveludado azul-celeste obtido do fruto do glasto utilizado em tintura. Essa veste,

que no momento eu procurava enrolar em torno do pescoço e ombros, era de todo

imprescindível na vida cotidiana daquela sociedade. Além de constituir um símbolo

de dignidade (para os judeus era de mau tom apresentar-se sem ele no Templo ou

diante de um superior), servia para múltiplas situações: como cobertor ou manta

para abrigar-se ao dormir ao relento, como capa de cadeira e até para atirá-lo aos

pés de um herói ou personagem de relevo.108

Os dois pares de sandálias que me haviam sido dados, esses sim, foram

modificados, de acordo com o delineamento da última fase de nossa exploração e

que, como narrarei mais adiante, exigia de nós um especial esforço físico. Ainda que o material empregado fosse basicamente o mesmo – esparto trançado nas

montanhas turcas de Ancara –, os solados foram substituídos por um sólido

aglomerado de juncos e cortiça de palmeira, parcialmente oco. Em reduzidos

“nichos”, os especialistas haviam camuflado dois sofisticados sistemas. Dado que

uma das últimas etapas de nossa estada em Israel previa, como já disse, várias e

rudes caminhadas, as sandálias haviam sido providas de um microcontador de

passos, com o correspondente cronômetro digital e um interruptor de programa. O

sistema fora provado fazia algum tempo pelo astronauta Aldrin em uma de suas

caminhadas pela superfície da Lua. Os sensores colocados na sola permitiam saber

as distâncias percorridas, tempos gastos e até o dispêndio de calorias em cada

deslocação. Além disso, se o quiséssemos, poderíamos ativar uma minúscula célula

que elevava a temperatura do calçado, protegendo os pés em situações de

extrema inclemência.109 Aquelas sandálias eletrônicas – como as chamávamos

entre nós – iriam prestar-nos um notável serviço. Cada exemplar foi perfurado

manualmente e a toda volta da sola foram incrustadas diversas parelhas de finas

tiras de couro de vaca untadas de pez. Cada cordel – de 50 centímetros – permitia

firmar o calçado com folga suficiente para se poder enrolá-lo na perna com quatro

voltas.

O segundo dispositivo, também alojado na sola, tinha caráter puramente

logístico. Consistia em um radiotransmissor capaz de emitir impulsos

eletromagnéticos a um ritmo de 0,0001385 segundo. Esse sinal era registrado na

“vara de Moisés” e em seguida amplificado e “transportado” a longa distância por

um especialíssimo laser que procurarei descrever em seu momento. Graças a este

processo, de uma apreciável precisão, Eliseu podia seguir meus “passos” no radar

do “berço”. Essa “radioajuda” seria ativada unicamente quando – por necessidades

da exploração – me visse obrigado a distanciar-me do módulo além de 4,5

quilômetros. A partir desse limite, a faixa de recepção da “conexão auditiva”, que

também devia carregar no interior do meu ouvido direito, se fazia imprestável.

Depois de um último exame em meu “uniforme”, sentei-me e sinalizei a meu

irmão que estava pronto para receber a “cabeça de cera”. Assim havíamos batizado

as cápsulas acústicas miniaturizadas que eram excitadas por um equipamento de

ondas gravitacionais. Esta “conexão auditiva” – de inestimável valor, como ficou

demonstrado na missão passada – iria proporcionar-nos uma clara e permanente

comunicação enquanto eu estivesse no “exterior”.

A implantação da prótese, embora simples, requeria mãos hábeis. E em poucos

minutos ficava encaixada a poucos milímetros do orifício de entrada do conduto

auditivo externo, entre as paredes cartilaginosas.

Eliseu colocou-se, então, diante do receptor-transmissor e fez-me sinal para

realizarmos um teste. Pressionei com os dedos a área central da orelha, fundindo o

“trago” e o “antitrago”. Diversos alertas – um agudo assobio e um piloto laranja –

confirmaram a excelente “conexão auditiva”.

– OK!... E não se esqueça de que é surdo de nascença.110

Agradeci o bom humor de meu companheiro. Os ponteiros avançavam

inexoravelmente e eu começava a inquietar-me. A missão deveria ter-se iniciado às

2h30 e já eram 4 da madrugada.

Curtiss desprezou o terceiro dispositivo de ligação com a nave. Com a “cabeça

de cera” e o microtransmissor na sola da sandália direita tinha eu mais do que o

suficiente para garantir uma contínua e nítida conexão. A fivela de bronze que

havia prendido meu cinto, na investigação passada, e que ocultava um emissor

para mensagens de curta duração, foi, portanto, desprezada, mas ficou no “berço”,

pronta para ser utilizada em caso de emergência. Em seu lugar, a chlamys foi

dotada de uma fivela normal, de elos, também de bronze e muito parecida com

nossos alfinetes “imperdíveis”.

Finalmente, apanhei a bolsa de borracha impermeabilizada, introduzindo nela

os cem denários restantes da última exploração, meia libra romana em pepitas de

ouro, as incômodas mas necessárias lentes de contato “crótalos” e o salvo-conduto

que ainda conservava e que me fora concedido pelo procurador romano na manhã

de 5 de abril, quarta-feira.

A primeira fase da missão consistia em uma breve incursão, com a duração

máxima de oito horas. Quer dizer, supondo que eu houvesse descido em terra à

hora marcada – 2h30 da madrugada –, minha volta ao módulo deveria registrar-se

às 10h30. Nesse espaço de tempo eu teria desempenhado os dois primeiros e

importantes objetivos: tentar aproximar-me do suposto corpo “glorioso” do Mestre,

fazer sua análise e depois aviar-me com um “tesouro”. Um “tesouro” científico e

arqueológico, entenda-se. Um “tesouro” que deveria ser trasladado para a nave,

submetido a uma investigação exaustiva e, naturalmente, devolvido a seu lugar de

origem no menor prazo possível...

Por essa razão, e considerando que devia regressar naquela manhã de

domingo, as restantes peças do meu equipamento pessoal – a ser utilizado ao

longo da exploração – não seriam retiradas do módulo nessa primeira saída. Essa

circunstância aconselhava também que os “dinheiros” a manipular nesse momento

se limitassem às primeiras necessidades. O Cavalo de Tróia, por isso mesmo, fixou

os 100 denários e a meia libra – uns 163 gramas de ouro – como “suficientes”. 111

Primeiro que tudo era preciso trocá-los por moedas de curso legal na Palestina:

denários de prata e peças fracionárias, especialmente shekels, asses e óbolos ou

sestércios.

– 4h15...

Meu irmão preparou a “vara de Moisés” e, ao entregá-la, exclamou com a voz

entrecortada de emoção:

– Boa sorte!

Ainda que minha ausência não devesse ser longa, fi-lo jurar que ao menor

sintoma de desfalecimento ou mal-estar me avisaria imediatamente. Eliseu

compreendeu e apreciou minha sincera preocupação e, sorrindo-me, voltou ao seu

painel de comandos. Verificou os sensores de infravermelho e, após comprovar que os arredores continuavam desertos e silenciosos, indicou-me o monitor e a última

leitura meteorológica:

– Temperatura na superfície: 12,8 graus Celsius. Vento calmo. Umidade

relativa: abaixo dos 17%.

E com um golpe seco – sem desviar o olhar dos controles eletrônicos – acionou

o mecanismo de descida da escadinha.

Também eu não era amante das despedidas. Por isso, notando que meus olhos

se umedeciam, não fiz mais do que deixar cair minha mão esquerda sobre o ombro

de meu irmão; e, girando nos calcanhares, introduzi-me pela escotilha de saída e

desapareci.

Eram 4h28...

 

Precisei de um ou dois minutos para que minhas pupilas se acomodassem à

obscuridade e, pouco a pouco, a luz oblíqua da Lua arrancava milhares de

cintilações das cinzentas copas das oliveiras que rodeavam a clareira ao sul. Dei

quatro ou cinco passos e me detive. Um silêncio pastoso e anormal havia tomado o

local. Como na primeira descida sobre a Palestina de Cristo, as emissões de ondas

e a poeira levantada pelo J85 haviam feito emudecer os insetos e avezinhas que

faziam morada naquele segundo cimo do monte. Observei tudo ao meu redor,

perfurando a azulada obscuridade que se recortava entre os negros troncos das

oliveiras. Tudo parecia calmo. Mas aquele silêncio... Se ao menos tivesse ouvido o

gorjeio do zamir...

Após alguns segundos de vacilação, retomei a marcha e alcancei a pequena

elevação que dava para a parte oeste da plataforma da nave. Se meu sentido de

orientação não falhasse, em questão de minutos eu alcançaria a cabeceira da

rampa. Uma vez ali, com Jerusalém do outro lado do desfiladeiro, minha marcha

seria mais cômoda.

Ao contornar os maciços de murtas e acantos, à medida que me aproximava da

borda do cume, meu coração começou a disparar e uma incontrolável excitação fez

fraquejarem-me as pernas. Não tive remédio senão deter-me de novo.

– Deus meu!

Eliseu ouviu minha exclamação e, abrindo o contato, perguntou:

– Estou recebendo-o “5 x 5”... Que é que se passa?

Antes de responder inspirei várias vezes, buscando apaziguar meu pulso.

– Roger! Eu também recebo você alto e claro... Nada! Deve ser a emoção...

Estou quase entrando na velha cidade e isso me traz recordações... Câmbio.

– OK!... Ânimo!

Enxuguei o suor das mãos e, firmando com força a “vara”, repeti as inspirações,

recebendo então a intensa e agradável fragrância do matagal anunciando a

esplêndida primavera judaica. E meu espírito, agradecido e estimulado, foi

recobrando a tranqüilidade.

Quando me distanciei por uns 50 metros do “ponto de contato”, a voz do meu

solitário amigo voltou a soar em minha cabeça:

– Atenção, Jasão!... Você está na borda do segundo cinturão de segurança. O

radar o “vê” a 45 metros do “berço”... Câmbio.

Dei meia-volta, olhei para a plataforma rochosa na qual se achava pousado o

“invisível” módulo, pressionei o ouvido e repliquei a meia voz:

– Entendido, câmbio.

– Creio que antes de prosseguir você deve testar as “crótalos”... E dê-me o

resultado.

Eliseu tinha razão. A tensão daqueles momentos me havia feito esquecer a

necessária verificação das lentes especiais de contato.112 Tirei-as da minha bolsa e,

depois de adaptá-las a meu olhos, levantei o rosto para o centro da clareira. A

radiação infravermelha que envolvia a nave apareceu-me como uma rubra e

infernal visão, radiante e gigantesca no meio de um negro e frio cenário. Sob

aquela massa vermelha resplandecia uma franja de um branco amarelado, produto

do calor acumulado pelo motor principal. Vejo você “5 x 5”... Impressionante!

Agora continuo a descer.

– OK!... E de novo boa sorte!

Como eu esperava, minutos mais tarde, já à borda da grande escarpa do

Cedron, a claridade lunar apresentou diante de meus olhos os perfis da nostálgica

Cidade Santa.

– Jerusalém!...

Um frêmito e uma torrente de sensações paralisaram-me. Ali estava:

majestosa, com suas altas muralhas refletindo um azul espectral e a cúpula do

Templo apontando – branca, quase nevada – para um céu translúcido e pontilhado

por uma Via Láctea feito espuma.

O último quarto da noite corria para seu fim e as sinuosas e apertadas ruas dos

bairros alto e baixo – pessimamente iluminadas pelos fachos e lâmpadas de azeite

– estavam desertas. Alheias ao extraordinário fato ocorrido uma hora antes e que

em breve, ao alvorecer, faria estremecer seus habitantes.

Fiz uma nova conexão com o módulo e Eliseu deu-me a hora exata:

– 4h50.

Não havia tempo a perder. A saída do Sol ocorreria às 5h42. E, de acordo com

nossos cálculos, a chegada das mulheres no jardim de José de Arimatéia, dispostas

a lavar e amortalhar o corpo do Galileu, dar-se-ia de um momento para outro... se

é que já não ocorrera.

Aquela extraordinária cadeia de imprevistos e contratempos nos havia atrasado

perigosamente. Não restava mais do que uma hora para o nascer do Sol. Se a

primeira das supostas aparições do Mestre já houvesse ocorrido, ver-me-ia

obrigado a tentar a sorte com a “segunda”, citada pelo evangelista Lucas.

Conforme seu texto, nesse mesmo dia – embora sem citar a hora – o Ressuscitado

havia acompanhado dois dos discípulos quando caminhavam para a povoação de

Emaús. Mas, como disse, o relato evangélico era confuso. Como e onde localizar

tais discípulos?

Consolei-me com o pensamento de que, no pior dos casos, se ambas as

tentativas fracassassem, sempre restava uma terceira oportunidade: a reunião dos

apóstolos “no entardecer daquele domingo, primeiro dia da semana”, segundo as

palavras de João...

A situação estava mais comprometida do que havíamos imaginado. Era mister

uma mudança de planos. O Cavalo de Tróia, de acordo com minhas sugestões,

havia previsto meu acesso ao sepulcro pelo caminho mais longo... e seguro. Uma

vez no “exterior” devia buscar o caminho que, procedente de Betânia, cruzava o

topo do monte das Oliveiras para descer até o extremo sul da cidade. Meu acesso

para ele seria pela Porta da Fonte. Depois, aproveitando várias ruas, atravessaria a

cidade sigilosamente e desembocaria no extremo norte, pela Porta dos Peixes. O

trecho entre a muralha setentrional e a propriedade de José poderia ser coberto

em questão de minutos.

Uma breve reflexão convenceu-me. Era preferível esquecer o itinerário inicial e,

para ganhar tempo, aventurar-me pelo caminho mais curto e perigoso. Não havia

alternativa, se eu quisesse estar presente à primeira aparição.

Para não inquietar Eliseu inutilmente, guardei silêncio sobre minha decisão. Era

a primeira violação do plano estabelecido por Curtiss e, por sorte ou por infortúnio,

não seria a última...

Assim, com muita disposição de ânimo, lancei-me ladeira abaixo, ao encontro

do fundo do vale que me separava da muralha oriental do Templo.

Aquele voluntarioso gesto me custaria caro...

 

A abrupta ladeira recebeu-me como seria de esperar. Guardando o equilíbrio

com dificuldade, aferrando-me aqui e ali aos lentiscos e giestas e evitando os

afilados penhascos, fui ganhando terreno. Em mais de uma ocasião maldisse minha

estupidez. A descomposta chlamys ficava enganchada na espinhosa e agreste

vegetação e, se não fosse a minha “pele de serpente”, meus braços e pernas

haveriam apresentado um sangrento e deplorável aspecto.

Uns quinze minutos depois eu vencia a escarpa e atingia o leito seco e

pedregoso.

Detive-me para respirar. Recompus meu amarrotado manto, lamentando os

rasgões, e, com o coração ainda acelerado, lancei o olhar à minha volta. Os 50 ou

60 metros de profundidade do Cedron, naquele ponto, e o já iminente

desaparecimento da Lua por detrás da penedia oeste haviam sepultado o

desfiladeiro em inquietantes trevas.

Após uns segundos de nervosa escuta e mais do que difícil observação, decidi

cruzar o fundo do vale, em direção ao muro informe que fechava o Templo e a

cidade e que se erguia como se fora parte da nova escarpa que tinha diante de

mim. Tudo naquele tétrico lugar era silêncio. Um plúmbeo e irritante silêncio.

Muito próximo de onde me encontrava, um pouco mais ao norte, corria outra

das pistas que, nascendo nas vizinhas aldeias de Betânia e Betfagé, galgava o

monte das Oliveiras, descia pela vertente oeste e ia morrer nas proximidades da Porta Dourada, na mesma muralha oriental do Templo. Mas logo, junto à esquina

nordeste do recinto sagrado, o caminho ramificava-se e, dobrando a muralha,

perdia-se paralelamente ao muro norte e à Fortaleza Antônia. Depois, diante da

Porta dos Peixes, de novo desdobrava-se em diferentes rotas: uma que levava à

costa, a Cesaréia, e outra diretamente ao norte, a Samaria e Galiléia. Minha

intenção era sair ao encontro da pista e, contornando Jerusalém, atingir

rapidamente o horto e o sepulcro. O caminho escolhido, sensivelmente mais curto,

era também muito solitário e por isso teoricamente pouco recomendável àquelas

horas da noite. Por um momento veio-me à memória o desagradável tropeço com

um ladrão, na noite da Quinta-Feira Santa. E tive de reunir todas as minhas

energias para prosseguir.

Procurando esquivar-me aos seixos rolados que salpicavam o leito do Cedron,

avancei alguns metros. Subitamente, uma “coisa” me paralisou. Eram grunhidos.

Imóvel como uma estátua, esforcei-me para devassar o negror do leito do Cedron.

Mas as trevas eram tão densas que meus olhos perderam-se entre as rochas e

ilhotas de moitas. De novo caiu o silêncio. Um negro silêncio...

Perscrutei inutilmente a zona sul do desfiladeiro. O coração, em alerta máximo,

bombeava forte. E uma inconfundível sensação de medo eriçou-me os cabelos.

Pela segunda vez – agora às minhas costas –, aquele grunhido me aterrorizou.

Virei-me rapidamente. Fosse o que fosse, achava-se para o norte e, a julgar pela

intensidade do som, bastante mais próximo.

Forcei de novo a vista, em um desesperado intento de localizar algum vulto ou,

quando menos, um movimento da ramagem. Inútil.

Começando a tremer, deslizei minha mão direita para o alto da “vara de

Moisés”, buscando um dos cravos de cabeça de cobre. Se os grunhidos fossem de

um animal selvagem, aquela era uma rara ocasião para provar o dispositivo de

defesa incorporado ao meu novo “equipamento”.

Pressionei o cravo...

“Maldição!”

Eu não usava as “crótalos”. E sem as lentes especiais de contato a eficiência do

sistema diminuía notavelmente...

Aturdido, agarrei a bolsa de borracha. Mas, quando me dispunha a abri-la,

várias moitas de arbustos situadas a 5 ou 6 metros à minha frente oscilaram

violentamente. Senti que o sangue me gelava nas veias...

“Algo” avançava para mim. Era uma sombra baixa e alongada. Um! Dois...

Retrocedi dois passos, mas com tanto azar que tropecei em um dos penhascos,

estatelando-me estrepitosamente... Liguei a conexão auditiva.

– Deus!

– Jasão!... Que foi?

Eliseu havia escutado minha exclamação e, alarmado, abrira a conexão

auditiva.

Não houve tempo para uma resposta. Os vultos se haviam detido e, quase simultaneamente, emitiram agudos e sinistros uivos.

– Jasão! – insistiu meu irmão. – Que foi? Responda!

Levantei-me de um salto. Um novo calafrio eriçou-me os cabelos como se

fossem cravos.

– Não... sei! – respondi quase sem respiração. – Parecem chacais!... Talvez

cães selvagens!

Eu havia tido ocasião de ver, em minha anterior exploração, algumas matilhas

de cães tornados selvagens – metade lobos, metade chacais comuns ou Canis

aureus, tão perigosos quanto seus congêneres, os africanos de dorso negro ou

listrado – perambulando pelos arredores da Cidade Santa e devorando carniça.

Aqueles famélicos, ariscos e perigosos cães-chacais, muito diferentes dos cães

domésticos que hoje conhecemos, eram um pesadelo para o infeliz peregrino que

viajasse só. E aquele desfiladeiro e o depósito de lixo localizado ao sul – a célebre

“Geena” – constituíam um território muito propício para suas correrias.

Os vultos foram avançando.

– Jasão!...

Quando os tive a pouco mais de 3 ou 4 metros, dois pares de olhos semi-

abertos e cor de mel relampaguearam na obscuridade. E, erguendo as cabeças,

intensificaram os seus uivos, que ecoavam nas paredes do desfiladeiro.

De repente os uivos cessaram e um dos animais, grunhindo surdamente,

ergueu suas longas e pontiagudas orelhas, mostrando-me uns afilados e brilhantes

caninos. Lutei por abrir a bolsa...

– Oh! Deus!...

Aquela besta retesou seus nervosos jarretes e arremeteu, saltando como um

raio em meu pescoço.

Em um movimento reflexo interpus meu braço esquerdo e inclinei-me para trás

instintivamente.

– Jasão!... Responda!...

As fauces do animal agarraram meu pulso e cerraram-se como uma armadilha

em minha pele. Melhor dizendo, na “pele de serpente”. E em poucos segundos,

com um estalido, alguns dos caninos saltaram pelos ares. O animal, cego em seu

selvagem ataque, continuou revolvendo-se no chão sem soltar sua presa.

– Maldição!... Jasão!

Aterrorizado, com os músculos retesados, esforcei-me por livrar-me de suas

mandíbulas. Mas a situação complicou-se quando o segundo chacal ou cão

selvagem, intuindo, quem sabe, que seu irmão havia conseguido imobilizar sua

vítima, precipitou-se no meu flanco direito desferindo-me seguidas dentadas na

coxa e baixo ventre.

Em alguns de seus furiosos embates o último chacal rasgou-me parte da túnica

e o manto.

Tratei de golpeá-lo com a base da “vara”, mas seus contínuos avanços e recuos

e fortes empuxões do outro animal tornavam imprecisos meus golpes e pontapés.

Tinha de arriscar-me. E, banhado em suor, quase sem ar, apontei a

extremidade do bastão para o crânio do que se empenhava, entre golfadas de

espumosa saliva e grunhidos, por quebrar meu pulso esquerdo. O dispositivo ultra-

sônico de defesa falhou nas primeiras tentativas. Então, inclinando-me até sentir o

nauseabundo odor da fera, aproximei a faixa negra da “vara” até um palmo da

base de sua cabeça. O segundo animal, em novo e frenético ataque, se havia

levantado sobre os quartos traseiros e fundido suas mandíbulas e suas afiadas

unhas em forma de foice em meu braço e flanco. Então seus caninos e garras

tiveram a mesma sorte que os do primeiro.

Desta vez, sim, tive sorte. O feixe de ondas penetrou por um dos olhos da

besta. Ao receber a “descarga” de 21 mil hertz, emitiu um lastimoso e curto

grunhido e soltou meu braço.

– Jasão!... Jasão!

Cheio de dor, o segundo chacal saltou para trás, fugindo precipitadamente e,

como o outro, grunhindo e com a longa cauda entre as patas.

Em menos de um segundo desapareceram na obscuridade. Seus ganidos foram

distanciando-se e, dentro em pouco, o silêncio voltava a dominar a quebrada.

– Jasão! Responda!

Eliseu, desesperado, insistia. Deixei-me cair sobre uma pedra, ainda tremendo

dos pés à cabeça, pus-me em conexão com Eliseu e narrei-lhe o ocorrido.

– Pelo amor de Deus!...

E meu companheiro, com razão, desafogou, tachando-me de inconsciente e

insensato. Mas o pior havia passado. A defesa ultra-sônica113 e a “pele de serpente”

haviam funcionado. Essa freqüência, que podia ser forçada até 1010 hertz,

chegando quase ao hipersônico, era fulminante para determinadas espécies

animais...

Disse eu que “o pior já havia passado”?... Sim, esse foi meu pensamento. Mas

as “surpresas” naquela madrugada não haviam feito senão começar.

Não havia tempo para contemporizações. Assim, esquecendo os rasgões que

arruinavam o manto e a túnica, pus-me a caminhar, ansioso por sair de uma vez

por todas daquele funesto vale.

Faltavam apenas doze minutos para a alvorada.

“Que haveria ocorrido no horto de José?”

Enredado nessas reflexões, depois de caminhar outros cem ou 150 passos

Cedron acima, compreendi que continuava perdendo tempo. E, num impulso,

renunciei à busca do caminho. Entrei pelo lado esquerdo, iniciando a suave e curta

ladeira que conduzia ao muro oriental do Templo.

Ao assomar à estreita esplanada que corria paralelamente à imponente

muralha, uma claridade malva ascendia, já, por trás do monte das Oliveiras,

apagando o brilho das estrelas e arrancando longínquos cantos entre os galos

madrugadores. As trombetas dos levitas não tardariam a soar, anunciando o novo

dia. Era preciso acelerar a marcha. Em questão de minutos, os agora solitários trechos fora dos muros da cidade ver-se-iam paulatinamente animados por homens

e animais. E os milhares de peregrinos que haviam celebrado a Páscoa, assim

como os habitantes de Jerusalém, empreenderiam suas tarefas cotidianas. Aquilo

podia complicar muito nossos planos.

E, sem pensar duas vezes, lancei-me a uma frenética corrida. A poeira

levantada por minhas sandálias e a espalhafatosa agitação do roupão assustaram

as pombas que dormitavam entre as pedras do muro. E um branco matraqueado

elevou-se sobre as construções.

Dobrei a esquina nordeste e, animado diante da solidão do lugar, forcei a

marcha, procurando ao mesmo tempo dosar a respiração. Deixei à direita o escuro

promontório de Beza’tha e os imprecisos perfis da “piscina das cinco galerias”,

abordando o último trecho: o que me separava do bastião norte da Antônia.

“A Fortaleza Antônia!”

Um súbito sentimento de perigo fez-me reduzir o passo. Com o coração

golpeando forte as paredes do tórax, distingui a distância os fogos de dois dos

quatro stationes ou postos de guarda localizados na mais alta das torres que se

erguiam airosas em cada um dos ângulos do formidável “castelo”.114

E, subitamente, quando me restavam uns poucos metros para situar-me à

altura do parapeito de pedra que circundava o fosso do quartel-general de Pôncio,

ouvi gritos. Sem deter-me, levantei a vista. Na torre mais próxima, entre as ameias

cinzentas, alguns legionários gesticulavam, trocando palavras com a uigiliae ou

patrulha noturna postada na torre noroeste. O vozerio não durou muito. Com a

forte suspeita de que aqueles gritos de alerta tinham muito a ver comigo, forcei as

pernas. Faltavam apenas 100 metros para a bifurcação do caminho...

Vão empenho. Num abrir e fechar de olhos, antes que eu tivesse percorrido

uma décima parte desse trajeto, três infantes romanos (soldados de Infantaria)

irromperam no meio do caminho, cortando-me a passagem.

Era evidente que eu havia cometido dois novos e lamentáveis erros. Primeiro,

lançar-me a tão suspeitosa corrida; segundo, esquecer a vigilância noturna da

Antônia e a abertura ou “porta” existente no parapeito, permanentemente

custodiada.

Parei, ofegante, e esperei que se aproximassem. Fugir teria sido um terceiro

erro...

Enquanto enchia meus pulmões no fatigante empenho por acalmar-me, um

familiar ruído chegou até meus ouvidos. Era a moagem diária do grão. Jerusalém

despertava. E, como uma fatal confirmação, a repentina claridade do dia caiu sobre

a cidade, fazendo reverberar os polidos capacetes de bronze dos legionários.

Batalhei com meu cérebro. Tinha de encontrar alguma boa desculpa. Mas qual?

Os infantes detiveram-se e, cautelosamente, sem dizer palavra, percorreram-

me com a vista. Ao reconhecer suas indumentárias de campanha estremeci. Não

pude evitar uma profunda emoção. Eram os primeiros seres humanos com que me

deparava naquele novo e acidentado “salto”.

E o primeiro toque das trombetas do Templo, anunciando o amanhecer,

retumbou entre as muralhas, agitando o céu azul com dezenas de remoinhos de

pombas e o negro planar das andorinhas.

Os levitas, do alto do santuário, seguindo um costume ancestral, advertiam os

habitantes da Cidade Santa que o Sol estava a ponto de romper no azulado

horizonte dos montes de Moab.

Eram 5h42.

Minhas sujas e esfrangalhadas vestes e o suor que escorria de minhas

têmporas até as barbas não deviam inspirar excessiva confiança aos soldados.

Abrindo para os lados, eles prosseguiram seu avanço. Apontavam-me suas longas

lanças ou pilum.

Os três vestiam cotas trançadas à base de malhas de ferro em forma de túnica

curta (até o meio da coxa). Estas couraças, muito flexíveis e sólidas, descansavam

sobre um gibão de couro de idênticas dimensões. Por último, a pesada

indumentária entrava em contato com uma túnica vermelha, de mangas curtas (até

o cotovelo), que excedia a armadura em 10 ou 15 centímetros, caindo sobre os

joelhos.

Quando se achavam a 3 metros, os legionários dos flancos detiveram-se pela

segunda vez. E as brilhantes pontas de flecha de suas pilum ficaram a 1 metro de

meu ventre.

Ao observar seus rostos fatigados e sonolentos deduzi que se tratava de uma

das patrulhas de serviço durante a quarta e última vigília da noite.115 Para minha

desgraça, havia chegado no pior momento: justamente quando aqueles legionários

iam ser rendidos. Seu desgosto e contrariedade estavam estampados na forte

contração de suas mandíbulas e nos olhos avermelhados e acusadores.

Ergui meu braço esquerdo, com a palma da mão estendida, em sinal de paz e

submissão. No mesmo instante o que estava no centro da formação levou sua mão

esquerda ao flanco direito e desembainhou a espada: uma hispanicus de 50

centímetros e gume duplo.

Uma corrente de fogo parecia devorar minhas entranhas. Que tencionava fazer

aquele infante?

O segundo toque das sete trombetas, anunciando a abertura da célebre Porta

de Nicanor, no Templo, fez o legionário hesitar. Seu gladius, a um palmo do meu

esterno, cintilou por um instante, aumentando minha já copiosa transpiração.

Com voz rouca, e erguendo a espada até minha garganta, o soldado pronunciou

umas palavras que não compreendi. Devia tratar-se de legionário da tropa auxiliar,

integrada por trácios, sírios, germanos ou espanhóis.

Com um leve gesto de cabeça fiz-lhe ver que não entendia sua língua. Mas,

visivelmente alterado, repetiu a pergunta em tom imperativo, cravando a ponta da

hispanicus sob meu queixo.

– Jasão!...

Eliseu estava na minha escuta. Mas que podia ele fazer em tão crítica situação? Senti o afiado metal afundar ligeiramente em minha pele e fui obrigado a erguer a

cabeça. Era evidente que ao menor movimento suspeito podia dar-me por morto.

Esforçando-me por manter a cabeça naquela violenta posição, respondi em grego,

com a esperança de que algum dos legionários me compreendesse.

– Sou da Tessalônica...

O soldado colocado à minha esquerda pareceu entender; e, no mesmo jargão

utilizado pelo que mantinha a espada debaixo do meu queixo, comentou algo com

Continuar: parte 2 de 8