Cavalo de Tróia 2: Massada
Nota de J. J. Benítez
Como talvez o leitor esteja lembrado, em minha obra anterior – Cavalo de
Tróia 1, página 603 – fazia menção ao tema a que acaba de referir-se o Major. Em
seus escritos, o oficial da USAF, após uma conversação de três horas e meia na
casa de Zebedeu em Jerusalém na manhã do sábado, 8 de abril, com Maria, a mãe
do Mestre, fazia interessantíssimas revelações em torno do nascimento e infância
de Jesus de Nazaré. Como disse em nota de pé de página, por motivos de ordem
técnica vi-me obrigado a postergar esse relato. Entendo que este é um bom
momento para incluí-lo.
E, antes de seguir adiante, uma advertência que não quero deixar de fazer:
como afirmo no princípio do Cavalo de Tróia 2, alguns dos pontos que expomos a
seguir são tão chocantes que recomendaria aos leitores de idéias e princípios
religiosos excessivamente conservadores que abandonassem a leitura.
Cumprida esta real advertência, passemos a essa parte dos documentos.
... A partir daquele instante – 8 da manhã, aproximadamente –, e depois que
João Zebedeu lhe explicou quem eu era e por que estava ali, Maria concordou com
satisfação em falar-me de Jesus, de seus primeiros anos em Nazaré, de suas
viagens pelo Mediterrâneo e da morte em acidente de trabalho de seu esposo, o
construtor e carpinteiro chamado José.
Na tentativa de pôr ordem nas minhas idéias e nos milhares de temas que se
agitavam em minha mente, comecei por interrogá-la sobre o nascimento do
Gigante...
Mas dentro em pouco compreendi que devia retroceder na História. O debatido
assunto da “concepção virginal” do Filho do Homem me intrigava especialmente.
Ou, para ser preciso, sentia curiosidade por conhecer a versão da própria Senhora.
Como é fácil de adivinhar, Maria não podia imaginar o que dela e de seu
Primogênito escreveriam os evangelistas muitos anos mais tarde. Considerando
que o falecimento da Senhora – assim a chamarei a partir de agora – se daria mais
ou menos no ano da morte de seu Filho, a versão do Evangelho aramaico de
Mateus (escrita talvez uns dez ou quinze anos depois de 30), poderia ser
perfeitamente um relato de ouvido. Em outras palavras, o Cavalo de Tróia nutria
sérias dúvidas sobre o que disseram Mateus e Lucas sobre tais questões. Seria real
a pretensa e antinatural concepção da Senhora? Ter-lhe-ia aparecido um anjo,
como rezam as Escrituras?
Para não ferir seus sentimentos com perguntas cruas e diretas – ao menos
nesse delicado terreno – fui conduzindo a conversa por linhas paralelas, de forma
que fosse ela mesma quem, espontânea ou simplesmente, abordasse a questão. O
plano deu resultado.
Assim, soube que Maria e José se conheceram quando este, como carpinteiro e
construtor, trabalhava na ampliação da casa dos pais da então quase menina
Míriam (verdadeiro nome de Maria). A adolescente, que estava com seus 11 anos,
levou água a José. Era a primeira vez que se viam. E nasceu uma mútua atração.
Ainda que já o mencionasse em páginas anteriores, os costumes dos judeus
naquele tempo eram muito diferentes dos de hoje. A partir dos 12 anos e meio,
coincidindo com a primeira menstruação, a menina alcançava a categoria de
mulher e podia passar – pelo casamento – da tutela do pai para a do esposo. (E às
vezes não se sabia o que era pior.)
Os esponsais – uma etapa que na atualidade poderíamos chamar
imperfeitamente de noivado – prolongaram-se durante dois anos.171 Quando José
completou 21 anos, festejou-se com todas as honras, e como mandava a tradição,
a segunda fase do ritual hebreu – o casamento propriamente dito –, na casa de
Maria. O “contrato” firmou-se na quarta-feira, já que Maria era donzela, e em
meados do mês de março do ano “menos 8” da nossa era. (A Lua cheia trazia boa
sorte.) Como dote ou mohar, Joaquim, o pai da noiva, recebeu o estipulado pela
Lei – 50 shekels de prata – e a totalidade dos móveis dos recém-casados. Ao
contrário do que sucede em nossos dias, não era o pai da prometida que arcava com o dote. Era ele quem recebia do noivo ou do pai deste.
Maria, portanto, tinha 13 anos quando “entrou em casa” de seu esposo, e este,
como eu já disse, 21.
A Senhora sentiu prazer ao recordar aqueles tempos. E falou-me com grande
carinho da “casa nova” de Nazaré, edificada por José e seus irmãos, ao sopé dos
cerros que dominavam a comarca de Tabor e de Nain.
Antes de prosseguir, quero chamar a atenção para esta data: março do ano
“menos 8”. Nesse mês tiveram lugar as “bodas” dos esposos.
A Senhora estendeu-se prazerosamente nos detalhes e pormenores da modesta
vivenda na qual iniciaram sua infortunada vida de casados. (A propósito do nosso
segundo “salto” no tempo, terei oportunidade de voltar a esse curioso e
interessante capítulo do mobiliário e dos costumes do casal.)
Suave e prudentemente, perguntei também por José. Como era? Que tipo de
caráter tinha? Qual era seu aspecto físico?
Maria, sorridente, somente teve elogios para seu falecido esposo. Esta foi sua
descrição:
– Um homem de suaves maneiras. Moreno. De olhos negros. Forte e incansável
trabalhador. Seus antepassados (pai, avô, bisavô etc.), foram carpinteiros,
contratistas, construtores e ferreiros. A princípio, dedicou-se à carpintaria de obra.
Depois, entrou nos negócios dos contratos temporários. Pensava muito e falava
pouco. Era extremamente fiel aos costumes e práticas religiosas de meu povo.
Demasiado para meu gosto. A dolorosa situação de Israel, sob o jugo estrangeiro,
o havia afligido. Sua família foi numerosa como a nossa: oito irmãos e irmãs.
Quando o conheci era alegre, mas conforme foi passando o tempo (sobretudo por
causa dos primeiros anos do matrimônio), tornou-se taciturno e foi possuído de
uma aguda crise espiritual. Pouco antes de sua morte, quando a nova ocupação
como contratista começava a melhorar nossa situação econômica, experimentou
um considerável alívio e seu espírito robusteceu-se de novo.
Foi inevitável. Ao abordarmos a morte de José não resisti à tentação e indaguei
sobre as circunstâncias em que se dera.
Ocorreu em uma terça-feira, 25 de setembro do ano 8 da nossa era. Jesus
contava 14 anos. Ao entardecer dessa fatídica data, um mensageiro levou a trágica
notícia à oficina onde Jesus trabalhava. Seu pai terreno havia caído do alto de uma
obra, na vizinha cidade de Séforis, encontrando-se gravemente ferido. O
Primogênito de Maria acompanhou o enviado até a casa da família para comunicar
a desgraça a sua mãe. Jesus queria correr para junto de seu pai, mas a Senhora
não permitiu. Foi seu irmão Tiago quem a acompanhou até a residência do
governador, onde, ao que parece, havia tido lugar o que hoje denominamos um
“acidente de trabalho”. Jesus, muito a seu pesar, teve de permanecer em Nazaré,
cuidando da casa e dos pequenos. Quando Maria entrou em Séforis, José havia
falecido. O cadáver foi conduzido até a aldeia de Nazaré e, no dia seguinte, dia 26,
foi sepultado na tumba da família. Por coincidência, havia vivido 36 anos; a mesma idade de seu Filho.
Devido a este acontecimento, Jesus teria ocasião de conhecer Herodes Antipas,
um dos filhos de Herodes, o Grande: a detestável e degenerada “raposa” que vinte
anos mais tarde o interrogaria... Mas esta é outra história que deverei contar mais
tarde.
Já que falávamos de José, atrevi-me a indagar sobre a sua pretensa
ascendência davídica. No Evangelho de Mateus (1-16), se traça a genealogia de
Jesus e, nela, como é notório, o pai terreno de Cristo aparece como descendente
direto do rei Davi.
Devo confessar que a Senhora muito se surpreendeu diante da minha insólita
pergunta.
– E como sabes tu isso?...
– Então é certo – tornei, esquivando-me à pergunta de Maria.
– Não, não é...
Sua explicação me deixou atônito. José, logicamente, lhe havia contado.
Mateus, uma vez mais, foi mal informado. Tudo começava em um antepassado de
José – por via de seu avô paterno – que fora adotado por um tal Zadoc que, esse
sim, era descendente direto de Davi.172 Esse ancestral de José, órfão, foi tomado
sob a tutela de Zadoc e daí o erro. A partir de então (sexta geração anterior a
José), os descendentes receberam o falso título de nascidos na “casa de Davi” ou a
ela pertencentes.
Mais adiante, quando passar a descrever o acontecido na segunda exploração,
darei conta dos erros cometidos nas genealogias que se atribuem a Jesus de
Nazaré. A maior parte destas listas de ascendentes – como muitas das profecias
messiânicas – é posterior à vida do Galileu e, conseqüentemente, “acomodada” aos
feitos protagonizados por Jesus.
Na realidade, a autêntica descendente direta do rei Davi era a Senhora. Sua
linhagem, segundo me explicou, perdia-se na mais remota nobreza, contando entre
seus longínquos antepassados com representantes dos hititas, sírios, egípcios,
fenícios e até gregos. Para os que pretendem ver em Maria uma “mãe
representativa da humanidade”, este, seguramente, constituiria um dos
fundamentos nos quais poderiam basear a pretensão. Poucas mulheres judias do
tempo levavam em seu sangue uma mescla tão nobre e destacada de raças...
De acordo com seu caráter, e ainda que a morte de seu marido a tenha
consumido de dor, Maria não exteriorizou jamais sua profunda tristeza e solidão.
Suponho que irá surgindo de forma natural. Mas, ainda assim, não desperdiçarei a
ocasião e comentarei algo que reputo importante em relação ao temperamento da
Senhora. Os cristãos de quase todos os tempos parecem haver ido forjando uma
imagem de “Maria” na linha de suas próprias crenças, interesses e conveniências.
Assim, ao longo desses 2 mil anos, não é difícil encontrar textos benditos pelo
Papado, pelos Santos Padres da Igreja católica, ou por “preclaros” teólogos, nos
quais se colam à mãe do Senhor “etiquetas” tão absurdas e tão pouco reais como as de “virgem permanente”, “mulher submissa”, “repositório de virtudes humanas e
divinas”, “co-redentora”, “mediadora entre Deus e o gênero humano”, “concebida
sem pecado original” e sei lá quantos mais elogiosos mas duvidosos atributos...
Os próprios fatos que irei narrando serão a melhor prova de que a Senhora era
uma hebréia inteligente, mas, como qualquer ser humano, com defeitos e
limitações. Alguns, como o relacionado com seu “profundo senso de nacionalismo”,
farão tremer os cristãos que parecem viver nas nuvens.
Passo a passo, pelo que fui captando e pelo que recolhi de quantos a rodearam,
cheguei à conclusão de que Maria era uma mulher alegre. Inacessível ao desalento.
Com uma invejável força vital e uma largueza mental que a faziam expressar seus
sentimentos e opiniões aberta e limpidamente. Sem rebuços e sem rodeios. Sem
hipocrisia. Em oposição a José, a Senhora levava em seus genes o que hoje
chamaríamos “senso liberal da vida”. Sua filosofia era esta: “Respeitar todas as
crenças e credos”. Mas também era teimosa e obstinada. Essa postura lhe valeria
mais de um desgosto. Em especial durante a juventude de Jesus.
Analisando o caráter do Filho, deduzia-se que boa parte de seus dons como
educador e condutor de massas e sua característica capacidade para a justa
indignação havia sido herdada da mãe. Do pai, em vez, tinha a doçura e uma
maravilhosa compreensão da debilidade da natureza humana. Havia ocasiões em
que Jesus permanecia pensativo e triste diante das pessoas que o rodeavam. Essa
forma de ser, sem dúvida, guardava íntima relação com o temperamento de José.
Mas, na maior parte das vezes, o Galileu se mostrava tão otimista e decidido
quanto sua mãe. Não creio que me equivoque se – à maneira de síntese – digo que
o caráter da Senhora imperava claramente no de seu Primogênito. De José herdou
também seu amor pelo estudo das Escrituras hebraicas. Maria soube infundir-lhe –
talvez até inconscientemente – um natural senso de responsabilidade e
liberalidade.
As duas famílias, a de José e a de Maria, além de desfrutarem de posição
econômica folgada, podiam ser consideradas como cultas, se levarmos em
consideração o baixo nível da população em geral. Depois do falecimento do
esposo, Maria se preocupara especialmente com que seus filhos recebessem
instrução. Ainda que eu deva voltar a falar sobre isso, também me surpreendeu a
extraordinária habilidade desta mulher para a arte da fiação. Foi uma tecelã
excepcional. Jesus sempre vestiu túnicas e mantos confeccionados por ela. Quanto
a seus dotes como dona de casa e mulher previdente – qualidades forjadas na
angustiosa situação econômica em que ficou a família com a morte de José –,
falarei disso a propósito de nossa visita à Galiléia.
– Então vossas núpcias ou bodas tiveram lugar em março do ano de 746...
(Obviamente citei o calendário romano.)
A Senhora concordou, ainda que sem saber onde eu queria chegar.
– Conversando com uns e com outros – acrescentei procurando dissimular –,
fiquei sabendo também de um acontecimento prodigioso, ocorrido antes do nascimento de Jesus...
– Referes-te ao do anjo?
– Perdoa minha incredulidade, mas...
– Entendo, Jasão – sussurrou resignada. – Não é a primeira vez que alguém
duvida de mim...
Devia ser extremamente cauteloso. Por isso, formulei as perguntas pondo nelas
meus cinco sentidos.
– Quando foi?
– Uma tarde, por meados do oitavo mês, em pleno marjesvan...173
(Isso queria dizer novembro.)
– Recordas o dia exato?
– Não...
Pareceu-me curioso que uma mulher não guardasse na memória uma data tão
notável.
– Encontrava-me na casa de Nazaré, ocupada nas tarefas domésticas. José não
tardaria a voltar. De súbito, ao lado de uma mesa baixa de pedra, o vi. Era um
jovem muito formoso. Todo circundado por uma luminosidade. Disse chamar-se
Gabriel...
– Tenho grande interesse em saber o que te disse com exatidão.
Isso sim havia ficado gravado em seu coração.
– Suas palavras foram: “Venho a mandado daquele que é meu Mestre e a quem
deverás amar e manter. A ti, Maria, trago boas notícias, já que te anuncio que tua
concepção foi ordenada pelo céu... Em pouco serás mãe de um filho, a quem
chamarás Yehosu’a (Jesus ou ‘Yavé salva’) e inaugurará o reino dos céus sobre a
Terra e entre os homens... Disto, fala tão-somente a José e a Isabel, sua parente,
a quem também eu apareci e que logo dará à luz um menino cujo nome será João.
Isabel prepara o caminho para a mensagem de libertação que teu filho proclamará
com força e profunda convicção aos homens. Não duvides de minha palavra, Maria,
já que esta casa foi escolhida como morada terrena deste Menino do Destino.
Recebe minha bênção. O poder do Mais Alto te sustentará... O Senhor de toda a
Terra estenderá sobre ti sua proteção”.
Minha perplexidade foi aumentando. Aquelas palavras não guardavam analogia
alguma com as escritas por Lucas (1, 26-39). Como se verá, Maria não era virgem,
no sentido que parece querer dar-lhe, a todo custo, o evangelista.174 Era impossível
porque as “bodas”, repito, se haviam celebrado em março: oito meses antes da
chamada “anunciação”! Em minha opinião, os supostamente “sagrados” relatos
sobre o acontecimento foram deformados e desnecessariamente circunscritos a
uma situação – a virgindade física da Senhora – que envolvia o nascimento do
Senhor em um halo de mistério e divindade, muito próprios dos orientais. “Algo”
que em nada afetava a transcendência da missão do Filho do Homem. Mas tentarei
ir por partes.
No Evangelho de Lucas (versículos 31 a 33) lê-se: “... vais conceber no seio” – disse o anjo a Maria – “e vais dar à luz um filho, a quem porás por nome Jesus”.
Em pura lógica, parece incongruente que as “forças do céu” – que dificilmente
infringem o natural decurso da natureza – programassem uma concepção em pleno
período de “esponsais”. Por que criar problemas desnecessários se o tema da
concepção misteriosa de Jesus ia constituir uma fonte de polêmicas, receios e
desgostos na própria família de Nazaré, por que atirar “mais lenha no fogo” com
uma concepção “extemporânea”?
A “informação” é errônea, até mesmo no detalhe da gravidez de Isabel, prima
distante de Maria. Segundo seus escritos, Gabriel apareceu à Senhora “no sexto
mês” da concepção não menos misteriosa de Isabel. Quando interroguei Maria
sobre a gravidez da prima, sobre a aparição de Gabriel a esta e sobre o nascimento
de João, chamado o Batista, as datas não coincidiram com as de Lucas. O anjo
apresentou-se a Isabel nos últimos dias de junho desse mesmo ano “menos 8”.
Quer dizer, quando o enviado celeste apareceu pela segunda vez – a Maria –,
Isabel estava de cinco meses e não de seis como diz o evangelista. (João nasceria
a 25 de março do ano seguinte: “menos sete”.)
Seja como for, com toda a delicadeza de que fui capaz, insisti no íntimo assunto
de sua virgindade, no momento da aparição do anjo. A resposta foi categórica:
– Naturalmente que estava casada com José e naturalmente que mantínhamos
relações conjugais normais.
A Senhora não podia compreender a razão daquelas perguntas. Ignorava,
obviamente o que dela se escreveria anos depois.
No que se manteve firme foi na “concepção não humana” de seu Primogênito.
Aceitei sua palavra. Quem melhor que ela para saber se Jesus havia sido ou não
fruto de sua união matrimonial com José? A essa altura da missão, não tenho
dificuldade para aceitar que Deus pode conceber um ato semelhante. No século XX
estamos começando a assistir a outros fenômenos que seriam “mágicos” para os
povos do tempo de Cristo ou da Idade Média: a inseminação artificial ou os bebês
de proveta, para citar dois exemplos.
– E qual foi a reação de José diante do anúncio do anjo?
A Senhora sorriu, revelando aquela esplêndida dentadura branca e equilibrada.
Fez um malicioso gesto com as sobrancelhas e comentou:
– Primeiro esperei...
Em minha lentidão não atinei com o sentido daquela afirmação.
– Esperou o quê? Perguntei estupidamente.
Maria enrubesceu.
– Que poderia ser?... Devia assegurar-me de que a visão do anjo não havia sido
um sonho mau ou algo parecido. Depois de algumas semanas, quando estava certa
de minha maternidade, falei com ele...
– E que disse ele?
– Meu esposo sempre teve uma grande confiança em mim.
Como era de esperar, porém, sentiu-se mal. Desassossegado. Não conciliou o sono durante dias. Apesar de jamais acusar-me de nada impuro. Duvidou, sim, da
história de Gabriel. Todavia, pouco a pouco, acreditou em minhas palavras.
Surgiram então outros problemas...
Animei-a para que me contasse.
– Para José, o mais difícil não era que eu tivesse visto e ouvido um mensageiro
do céu ou que o Altíssimo (Bendito seja seu nome) operasse em mim semelhante
milagre... O que o transtornou foi que um menino nascido de uma família humana
tivesse um destino divino. No entanto, depois de refletir, e sobretudo após o seu
sonho, mudou e aceitou os fatos.
Um sonho? – perguntei como se o ignorasse.
– Sim, uma noite despertou sobressaltado e contou-me que um brilhante
mensageiro lhe havia falado: “José, te apareço por ordem daquele que agora reina
no céu. Recebi a incumbência de dar-te instruções sobre o Filho que Maria vai ter e
que será uma grande luz neste mundo. Nele estará a vida, e sua vida será a Luz da
Humanidade. Por agora ficará entre seu próprio povo. Este, porém, o aceitará com
dificuldade. A todos aqueles que O acolham revelar-lhes-á que são filhos de Deus”.
Depois desta incrível experiência já não mais duvidou.
Guardei silêncio. Aquela versão tampouco se parecia com a do evangelista
Mateus. No capítulo 1, versículos 19-25, diz textualmente o escritor sagrado: “Seu
marido, José, como era justo e não queria expô-la, resolveu repudiá-la em segredo.
Assim o tinha planejado quando o anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e lhe
disse: ‘José, filho de Davi, não temas tomar para ti Maria, tua mulher, porque o
gerado nela é do Espírito Santo. Dará à luz um filho e tu lhe porás por nome Jesus,
porque Ele salvará seu povo de seus pecados’. Tudo isso aconteceu para que se
cumprisse a profecia do Senhor por meio do profeta: ‘Vede que a Virgem conceberá
e dará à luz um filho, e por-lhe-á o nome de Emanuel’, que traduzido significa ‘Deus
conosco’. Despertado José do sonho, fez como o anjo do Senhor lhe havia mandado
e tomou para si sua mulher. E não a conheceu até que ela desse à luz um filho, e
lhe pôs o nome de Jesus”.
A passagem em questão está cheia de possíveis “manipulações”, seja do
próprio Mateus, seja dos que copiaram sua versão original, a aramaica, que, como
eu já disse, se perdeu.
Se José era justo – poder-se-ia argumentar –, por que deveria repudiá-la em
segredo? A justiça, naquele tempo, era interpretada como “estrito e justo”
cumprimento da Lei. Isso teria significado o “divórcio” imediato e talvez até a
lapidação de Maria. Segundo problema: se Mateus houvesse consultado Maria,
dificilmente se teria atrevido a colocar nos lábios do anjo o qualificativo de “filho de
Davi” para José. Terceiro: aceitando que Maria e José se houvessem encontrado no
período dos “esponsais”, por que estranhar a gravidez se as relações sexuais na
primeira fase eram toleradas? Certamente, na versão original não se diz que “Ele
salvará seu povo de seus pecados”. O evangelista, como bom judeu, supondo que
houvesse tido acesso ao verdadeiro texto da mensagem, ignora a semi-acusação do anjo ao povo – o seu – “que O aceitará com dificuldade”.
Por último, com respeito às supostas profecias sobre o Messias e à “virgindade”
de sua mãe, tendo em consideração as lacunas, manipulações e contradições de
que havia sido testemunha, tudo era possível. Até mesmo, como manifestei, que
fossem interpolações muito posteriores à vida de Jesus, para “fazer encaixar” a
desnecessária virgindade. Não sou teólogo nem o desejo. Mas, no meu curto
entendimento, formulo-me uma simples pergunta: por que a Igreja Católica e os
cristãos se empenham em sustentar o secundário e intranscendente assunto da
virgindade de Maria? A única coisa vital em tudo isso – esse é o meu pensamento –
são os frutos ou o resultado final: a maravilhosa maternidade da Senhora. Em
outras palavras: Jesus. Dando por admitido que a concepção foi de caráter
misterioso ou divino, que importância encerra que fosse ou não virgem “antes,
durante e depois” da gestação?
Quando perguntei pelas reações das famílias de José e Maria com respeito ao
nascimento do “Menino do Destino” como o havia chamado Gabriel, a Senhora, em
sua resposta, pôs em evidência a grave confusão criada entre aquela gente quanto
ao verdadeiro papel que deveria ser desempenhado pelo Mestre:
– Meus dois irmãos, minhas duas irmãs e toda minha família – comentou
melancolicamente – receberam a notícia com ceticismo. Nenhum deles acreditou
que meu Filho fosse o Messias esperado...
Este, sem dúvida, foi um crasso erro. Em nenhuma das duas mensagens
celestes – na de Gabriel e na do sonho de José – se menciona que Jesus fosse o
Messias ou o Libertador ou que “Deus lhe daria o trono de Davi”, como assinala
Lucas. Os judeus, certamente, aguardavam o Messias. Mas não de origem divina! A
crença popular o associava a um “líder ou libertador político”, que faria da Palestina
uma nação forte e poderosa. A péssima interpretação das palavras dos anjos
constituiria uma interminável e ácida fonte de conflitos entre os que conheceram
Jesus, sem excluir sua mãe e irmãos. Mas não quero precipitar-me agora nesse
espinhoso e fascinante problema. Ao examinar o comportamento de Maria durante
a juventude de seu Filho, haverá tempo para comprovar quanto digo.
Os inimigos de Jesus tinham razão em uma coisa: o rabi da Galiléia não podia
ser o Messias. Se a origem do Mestre era divina – como ele mesmo afirmava
pública e categoricamente –, seu papel podia ser qualquer um, mas não o de
“Libertador do povo de Israel”. Hoje, todos os que conhecem a mensagem de
Cristo estão de acordo nessa premissa. Jesus de Nazaré foi um “Libertador”, mas
em outra ordem... Tal como anunciou Gabriel. Eis aqui uma prova mais de que seus
imediatos colaboradores não entenderam a grande e esperançosa missão do
Galileu: difundir a mensagem de irmandade entre todos os homens e a graça de
serem filhos do Pai. Se o houvessem captado, por que Lucas e Mateus insistiram no
banal e “político assento no trono de Davi?”
Mas continuemos com os fatos como se registraram cronologicamente.
Esse ano “menos 8” (746 do calendário de Roma), não provocou maiores sobressaltos ao casal de Nazaré. A vida seguiu sua rotina. E a Senhora, que
guardava no coração o anúncio de Gabriel sobre a gravidez de sua prima Isabel, foi
convencendo seu marido a deixá-la viajar para a região da Judéia, ao sul, para
visitar sua parenta.
– Não foi fácil – observou Maria – mas, finalmente, José concordou. E em
fevereiro do ano seguinte pude abraçar minha prima.
Ambas estavam impacientes por ver-se e trocar suas experiências.
Em realidade, a obra de Jesus na Terra foi iniciada por seu primo distante,
João, cuja história encheu-me de perplexidade. Vim a saber tudo a seu respeito,
pelos lábios da Senhora, pelos íntimos do Batista, mas, sobretudo, ao conhecê-lo
pessoalmente. Como sabemos pouco desse gigante de 2 metros de altura e
coração sensível! Zacarias, o pai de João, era sacerdote. Isabel, a mãe, estava
entroncada em um dos grupos mais prósperos do ramo de Maria. Ainda que
estivessem casados havia anos, “certos problemas” – aos quais aludirei
oportunamente – haviam frustrado as tentativas do casal de ter filhos.
A aparição de Gabriel a Isabel deu-se, como eu já disse, nos últimas dias do
mês de junho do ano 8 antes da Era Cristã. (Maria e José estavam casados fazia
mais de três meses.)
– Que disse o anjo a Isabel?
– A aparição foi ao meio-dia. Disse-lhe Gabriel: “Enquanto teu marido, Zacarias,
oficia diante do altar, enquanto o povo reunido reza pela vinda de um salvador, eu,
Gabriel, venho anunciar-te que logo terás um filho que será o precursor do Divino
Mestre. Chama-lo-ás João. Crescerá consagrado ao Senhor teu Deus e, quando for
maior, alegrará teu coração, pois que levará almas a Deus. Anunciará a vinda
daquele que cura a alma de teu povo e o Libertador espiritual de toda a
Humanidade. Maria será a mãe desse Menino e também aparecerei diante dela”.
– Mas – perguntei sem poder conter minha curiosidade, memorizando a
passagem de Lucas (1, 5-24) no qual se conta a história da mudez de Zacarias – o
anjo não se apresentou também ao esposo de tua prima?
A Senhora, que não conseguia acostumar-se às minhas curiosas perguntas,
olhou-me com estranheza.
– A Zacarias? Que eu saiba, não... Só foi visto por Isabel.
“Então” – disse-me a mim mesmo –, “todo esse intrincado assunto de Lucas?...”
– É certo que ele não ficou mudo?
Minha observação a respeito da suposta mudez de Zacarias despertou o bom
humor de Maria, que, se não estivesse consumida pela tristeza, talvez houvesse
dado uma solene gargalhada.
– Zacarias jamais padeceu deste mal.
Mudei de tema. Ou o evangelista se havia deixado levar pela imaginação ou
suas pesquisas haviam sido mal conduzidas. Se bem que coubesse ainda uma
terceira hipótese: que Zacarias houvesse “moldado” à sua vontade a aparição do
anjo, acrescentando e modificando o que lhe conviesse... É preciso não esquecer que aquele era o império dos homens e que as mulheres não contavam.
Maria completou a informação assegurando que sua prima só falou do anjo com
seu marido; mas que este, cético, só começou a crer quando Isabel apresentou os
primeiros sinais de gravidez.
– Considerando a avançada idade de minha prima – assinalou – era lógico que
Zacarias não podia entender o que se passava. Mas, do mesmo modo que José,
não colocou em dúvida a fidelidade de sua mulher. Tudo terminaria quando, seis
semanas antes do parto, meu primo teve um impressionante sonho. E só então se
convenceu de que aquele filho era também “obra divina” e seria em precursor do
meu Jesus.
João nasceria em Judá em 25 de março desse ano 7 antes da nossa era. A
alegria de seus pais foi indescritível. E ao oitava dia, como prescrevia a Lei, foi
circuncidado. Um sobrinho de Zacarias partiria imediatamente para Nazaré com a
notícia do nascimento.
Aquela visita à aldeia de Judá, a uns 7 quilômetros de Jerusalém, nas colinas,
foi de grande importância para ambas. Tanto uma quanto a outra se fortaleceram
em suas crenças ao se escutarem mutuamente. Três semanas mais tarde, a futura
mãe de Jesus regressava a Nazaré feliz e definitivamente convencida.
Só que seus problemas, em realidade, começariam com o nascimento do
“Menino do Destino”.
Pouco faltou para que o nascimento de Jesus se desse em Nazaré. Fosse Maria
realmente uma mulher submissa, como apregoavam muitos cristãos, não teria
havido a viagem a Belém. Explico-me.
Quando perguntei pelas circunstâncias que cercaram o nascimento de Jesus, a
Senhora recordou com nostalgia suas discussões com José. Diante de minha
estranheza, esclareceu:
– Quando se recebeu na cidade a ordem para o recenseamento, meu marido
aprontou tudo para viajar para Belém. Mas, sozinho, sem mim. Eu sabia muito bem
que não havia necessidade de eu ir em pessoa para o censo. José estava
autorizado a inscrever toda a família. Essa era a sua intenção. Mas eu lhe disse que
não...
– Por quê?
– Tinha medo de ficar só e, sobretudo, que o menino nascesse em sua
ausência. Além do mais – disse com uma ponta de malícia –, Belém está muito
próxima de Judá, e essa era uma excelente oportunidade para voltar a visitar
Isabel...
Foi assim que o casal – como também ocorre em nossos dias – enredou-se em
uma grande discussão. José, mais prudente, tentou convencê-la a permanecer em
Nazaré. Não lhe faltavam razões. Sua gravidez já estava muito adiantada para que
ela se lançasse pelos caminhos da Palestina. A concepção de Jesus, segundo os
cálculos aproximados de sua mãe, teve lugar ao redor de 15 de novembro. E a
partida de ambos para a aldeia de Belém se deu ao amanhecer de 18 de agosto do ano “menos 7” de nossa era (747 do calendário de Roma). Quer dizer, haviam
decorrido nove meses...
Todavia, tenaz e decidida, conseguiu impor-se e seu esposo não teve
alternativa senão levá-la. De nada serviram as recomendações e as proibições.
– E alegres como crianças empacotamos provisões para três ou quatro dias e
partimos rumo a Belém.
Corria o alvorecer de 18 de agosto. O casal dispunha então de uma mula na
qual colocaram as bagagens. A jovem gestante, que estava em vésperas de
completar os 14 anos de idade, montou o animal e José, tomando as rédeas,
iniciou a pé uma caminhada que se prolongaria pelo espaço de dois dias e algumas
horas.
A aceitável memória da Senhora permitiu-me reconstruir o essencial dessa
viagem. O esposo, bom conhecedor dos perigos que ameaçavam os viajantes,
escolheu a rota mais curta, ainda que não a mais cômoda: a do Jordão.175
Em seu primeiro dia chegaram até o monte Gilboa. Ali, à margem do rio,
acamparam e passaram a noite.
– Lembro-me de que nossos pensamentos e o tema constante de conversação
– disse Maria – era o Filho que estava para nascer. José continuava censurando
minha loucura. Não lhe faltava razão. Não sei o que haveria sido de nós se o
pequeno chegasse precisamente ao pé daquela montanha...
No dia seguinte, de madrugada, retomaram a marcha. Maria passava bem.
Almoçaram junto ao monte Sartaba, que domina o vale do Jordão e, ao anoitecer,
entraram na cidade de Jericó. Não tiveram problema para encontrar uma pousada.
Depois da ceia, José, outros peregrinos e eu, falamos de muita coisa: da odiosa
ocupação romana, de Herodes, do recenseamento e suas nefastas conseqüências
para o povo e até da influência de Jerusalém e Alexandria como centros de estudos
e de cultura judaicos.
Em 20 de agosto, também ao amanhecer, encetaram a última etapa da
viagem. Avistaram Jerusalém cerca do meio-dia e, depois de visitarem o Templo,
prosseguiram o caminho para o sul, em direção a Belém.
– A que horas chegastes?
– Pouco antes do ocaso...
Aquela parte da narração foi igualmente esclarecedora.
– Não havia pousadas disponíveis – continuou Maria – e, como a noite já
chegasse, dirigimo-nos à casa dos parentes de meu marido. Inútil. Todos os
cômodos achavam-se igualmente tomados. Decepcionados e cansados, voltamos
para o albergue. Não sabíamos o que fazer. Ali informaram-nos que devido à
grande afluência de viajantes haviam decidido desocupar os estábulos situados no
flanco da rocha, justamente embaixo da pousada.
– Para que serviam esses estábulos?
Maria observou-me indecisa. Depois, compreendendo que eu era estrangeiro,
deu um desconto para tão absurda pergunta.
– Para que poderiam servir? Para os animais das caravanas e como armazéns
de grãos.
– E o que aconteceu?
A Senhora notou minha impaciência.
– Por que tanto interesse, Jasão?
Dessa vez respondi com a verdade.
– Interessa-me tudo, absolutamente tudo, que se relacione com o Mestre.
Agradeceu-me com um sorriso e prosseguiu:
– Pois bem, José amarrou a mula no pátio e, carregando a bagagem (roupas,
comida e tudo o mais), ajudou-me a descer a escada que conduzia à gruta.
Montamos as lonas que nos serviam de tenda diante dos pesebres e nos
dispusemos a descansar. Estávamos exaustos.
– Suponho que vos sentíeis mal instalados...
A Senhora abriu seus amendoados olhos verdes e, surpreendida, redarguiu:
– Por quê? Estás falando do estábulo? Não, filho... Ao contrário. Estávamos
felizes por haver achado um lugar tão silencioso e agradável. Depois de cearmos,
José disse que pensava recensear-se imediatamente. Mas, como já te disse, eu me
sentia muito cansada. Então, de repente, começaram umas fortes dores. Meu
marido, assustado, deixou o recenseamento para outro momento.
– Fortes dores? – perguntei, imaginando que podia tratar-se das primeiras
contrações.
– Sim, espantosas... Depois fizeram-se mais atenuadas, mas já não pudemos
dormir toda a noite.
– De quanto em quanto tempo te vinham essas dores?
– Não me recordo bem. Creio que a cada meia hora mais ou menos.
A descrição podia enquadrar-se perfeitamente no processo natural de dilatação
do canal cervical, fechado durante a gravidez. Cada uma daquelas contrações
pressionaria a parede superior do útero contra o colo uterino, preparando assim o
deslizamento do bebê. (Como se sabe, normalmente o útero encontra-se
firmemente apoiado no fundo da pélvis.)
– Aconteceu então a “ruptura da bolsa”?176
– Não me lembro, filho... Já se passaram quase 36 anos!
– Do que não me esqueço é que eu estava muito assustada. Algumas mulheres
cuidaram de mim e me confortaram. Uma delas até colou seu ouvido ao meu
enorme ventre (estava gordíssima!) e me disse que ouvia o bebê... Coisas de
mulheres!
– Em que momento chegou a “hora”?
– Ao alvorecer comecei a sofrer de verdade. As dores tornaram-se mais
intensas e freqüentes. Pouco antes da hora sexta (às 12 horas) pensei que
morria... As dores vinham uma atrás da outra...177 Ajudaram-me a encurvar as
costas, e uma das mulheres enfiou-me um lenço na boca mandando que eu o
mordesse fortemente. Outras duas me tomaram pelo pulso e me incitavam a empurrar. Deus bendito! Quanto medo passei! Arquejava, gritava e suava.
– Não te lembraste do anjo?
– Nem do anjo nem de nada... Nesse momento é difícil pensar.
– E José?
– A meu lado, branco como cal, lutava por animar-se. O pobre estava mais
aterrorizado que eu... Passou as horas empapando um pano em água fria e
colocando sobre minha fronte. Não permiti que se separasse de mim. Ao demônio
com as Leis!
A exclamação de Maria era justificável. Na época, entre os judeus, era muito
freqüente que o pai se negasse a presenciar o parto. Devia esperar fora ou em
outro lugar pelo anúncio do nascimento. Assim se fazia antigamente, cumprindo o
versículo de Jeremias: “Maldito aquele que felicitou meu pai dizendo: ‘Nasceu-te
um filho varão’ e o encheu de alegria!” (Jer. XX, 15). Já disse que a Senhora
desfrutava de um senso muito liberal da interpretação religiosa.
– ... Por fim, ali pelo meio-dia, apontou a cabeça. Eu estava no limite de
minhas escassas forças... E meu Filho veio ao mundo. As mulheres o lavaram e,
depois de friccioná-lo com sal, o envolveram nas fraldas e o entregaram a seu
pai.178
– Talvez não te recordes, mas, quando estiveste em condição de pensar, que
foi que te veio à mente?
– Primeira coisa que fiz foi examinar meu bekor. Era lindo, com uma abundante
cabeleira negra, enrugadinho como uma passa. Era perfeito. E me senti muito feliz.
(Com a palavra bekor designava-se o primogênito. Se varão, a alegria da
família chegava ao máximo. Se era menina, ao invés, era recebida com tristeza ou
indiferença.)
Não pude evitá-lo. Ao ouvir as explicações de Maria, experimentei uma grande
ternura. Jesus havia nascido como qualquer bebê. Quanto teria dado para assistir a
tão histórico parto!
Nenhum dos “milagrosos” acontecimentos registrados pelas tradições e pelos
Evangelhos “apócrifos” sobre a Natividade do Senhor parece correto. Repito: aquele
bebê tão especial veio ao mundo como todos nós.
Mas não devo esquecer outro dado interessante. A data desse parto. Segundo
essas notícias, Jesus “de Belém” nasceu pelas 12 horas do dia 21 de agosto do ano
“menos 7” ou 747 do calendário de Roma. Uma data “incompreensivelmente”
esquecida pelos evangelistas e que, com o passar dos séculos, seria fixada no mês
de dezembro do ano “1”. Tudo um duplo erro.179
Certamente, durante o parto não houve nenhum animal (os tradicionais bois e
asnos no estábulo) e sinto frustrar igualmente os que sempre acreditaram nas
“aparições” dos anjos e dos pastores das cercanias da aldeia de Belém. Pelas
informações de Maria, salvo seus amigos e parentes, nenhuma visita apareceu. O
evangelista Lucas, ao que parece, sacou da manga toda essa bela história dos
coros celestes e do “anúncio dos pastores”. A única “visita” que, naturalmente, deixou confuso o casal de Nazaré foi a dos sacerdotes de Ur, identificados como os
Magos. Mas isso se daria quando Jesus já contava três semanas de vida... E nem
foi como narra Mateus (2, 1-12). Antes disso ocorreriam outros fatos não menos
curiosos.
Ainda que ache que, como médico, deveria omiti-lo, farei uma concessão e
tratarei de passagem o também polêmico tema da virgindade de Maria depois do
parto. O ideal, naturalmente, teria sido fazer um reconhecimento. Mas isso não foi
possível nem eu me haveria prestado a ele. Entre outras razões, porque a
evidência saltava à vista. Adiantando-me aos acontecimentos direi que a Senhora
teve mais filhos, como se afirma nos próprios Evangelhos: Marcos (3, 20-21, 30-
35); Mateus (12, 46-50); e Lucas (8, 19-21). (De seus irmãos Tiago, José, Simão e
Judas, assim como de suas irmãs, falam também os vizinhos de Nazaré em Marcos
(6, 3) e Mateus (12, 55-56), para não citar João (2, 12 e 7, 3-5). O próprio
evangelista Mateus, em 1, 25, deixa o assunto liquidado quando afirma: “E não a
conhecia até que ela deu à luz um Filho e lhe pôs por nome Jesus”. (A expressão
“conhecer”, em termos bíblicos, significa relacionar-se sexualmente.)
E voltamos ao velho problema. Por que esse medo ou pudor ou escrúpulo de
numerosos setores da Igreja Católica a aceitar que a Senhora pudesse ter mais
descendência, como era costume nas famílias normais daquele tempo? Estes
moralistas e críticos não ignoram que em tempos de Jesus a esterilidade era pouco
menos que uma maldição divina. As famílias deviam ser numerosas. Isso era o
normal e bem visto. Se partirmos do pressuposto que o casal de Nazaré foi em tudo
um matrimônio comum e usual, por que esses cristãos se empenham em corrigir a
própria natureza, convertendo José e Maria em dois humanos “ilógicos” e quase à
beira da aberração? Parte dessa triste deformação mental de que ainda padecem
muitos cristãos em relação a esse assunto deve ser buscada em um papa de
nefasta recordação: São Sirício, elevado, além do mais, à santidade.
O tal Sirício (384-398) chegou a escrever a respeito, em carta dirigida a Anísio,
bispo de Tessalônica, no ano da graça de 392:
“Na verdade, não podemos negar haver sido com justiça repreendido aquele
que fala dos filhos de Maria, e com razão sentiu horror Vossa Santidade de que do
mesmo ventre virginal de que nasceu, segundo a carne, Cristo pudesse haver saído
outro parto. Porque não haveria escolhido o Senhor Jesus nascer de uma virgem se
houvesse julgado que esta havia de ser tão incontinênti que, com sêmen de união
humana, havia de manchar o ventre onde se firmou o corpo do Senhor, aquele
ventre, palácio do Rei eterno. Porque aquele que isso afirma, outra coisa não
afirma senão a perfídia judaica dos que dizem que não pôde nascer de uma virgem.
Porque aceitando a autoridade dos sacerdotes, mas sem deixar de opinar que
Maria teve muitos partos, com mais empenho pretendem combater a verdade da
fé”.180
É quase impossível introduzir em tão poucas linhas tanto absurdo e desatino,
fruto não se sabe se de um caráter enfermiço ou de um grau de demência altamente preocupante. O desprezo de Sirício – resisto a antepor a seu nome o
qualificativo de “santo” – pela maternidade e pela extraordinária manifestação de
amor que supõe o ato sexual se me afigura quase épico. Como tantas vezes, o
homem se congratula em corrigir a obra do Altíssimo...
O trágico é que a mesquinha visão daquele papa continuou imperando até
nossos dias. Por sorte, numerosos teólogos, exegetas e cristãos de mente mais
aberta e racional começaram a questionar o problema, chegando à importante
conclusão de que o vital não é se Maria foi ou não virgem, mas sim a grandiosa e
bela realidade de sua maternidade. Embora sabendo que alguns se rasgarão as
vestes, eis aqui um registro sobre os filhos que se seguiram ao Primogênito de
Maria e dos quais irei ocupando-me pouco a pouco:
Tiago, nascido na madrugada de 2 de abril do ano 3 antes de nossa Era.
Míriam ou Maria, nascida na noite de 11 de julho do ano “menos 2”.
José, nascido na manhã de quarta-feira, 16 de março do ano 1.
Simão, na noite de sexta-feira, 14 de abril do ano 2.
Marta, nascida em 15 de setembro do ano 3.
Jude ou Judas, na quarta-feira, 24 de junho do ano 5. (Por causa dessa
gravidez, Maria caiu enferma.)
Amos, nascido na noite de domingo, 9 de janeiro do ano 7.
Rute, na noite de quarta-feira, 17 de abril do ano 9 da nossa era. (Foi filha
póstuma. José, seu pai, havia falecido no ano anterior.)
Junto com seu irmão mais velho – Jesus – fazem um total de nove filhos. (De
novo o misterioso número “9”.)
Mas deixemos para outra ocasião a inevitável polêmica sobre os “irmãos” do
Filho do Homem...
Na aldeia de Belém estava para acontecer um fato que alteraria a “bússola” da
humanidade.
– No mundo também há gente boa.
Assim resumiu Maria o providencial fato da mudança de morada do casal e do
bebê.
No dia seguinte ao nascimento de Jesus, seu pai terreno cumpriu sua obrigação
recenseando a família.
– E sem nenhuma satisfação – advertiu Maria.
A razão era simples. Os recenseamentos encerravam uma secreta intenção por
parte de Roma: ter seus súditos controlados com o fim de aumentar os impostos na
medida do possível. Na província da Judéia, a resistência do povo e do próprio
Herodes havia retardado em mais de um ano a ordem de Augusto: o édito do César
foi promulgado em março do ano “menos 8” (justamente no mês em que se
casaram Maria e José). Até o “menos 7” o recenseamento não havia sido realizado
na Palestina.
O caso é que, por mediação de um homem a quem haviam conhecido em sua
estada em Jericó, José pôde fazer amizade com outro viajante que dispunha de um cômodo na pousada de Belém. E ele, compreensivo e compadecido, aceitou
permutar seu alojamento pelo que a família ocupava.
– Foi um bom homem – suspirou Maria.
Dessa forma – até que encontrassem acomodação na casa dos parentes de
José –, o casal e o Filho desfrutaram de um lugar mais aceitável que um estábulo.
Sua permanência no albergue duraria três semanas.
Desde o primeiro momento, a Senhora se encarregou de amamentar Jesus. E a
amamentação – por motivos que detalharei mais tarde – se prolongaria durante
mais de dois anos.
Como também era de supor-se, Maria apressou-se a avisar sua prima do feliz
acontecimento. No dia 23 desse mês de agosto enviou-lhe um mensageiro. A
resposta de Isabel foi imediata, com um convite a José para que se apresentasse
no Templo e informasse Zacarias. E o entusiasmado pai não tardou a ir a
Jerusalém.
Pelo que deduzi das explicações da minha informante, tanto o casal de Judá
quanto o de Nazaré estavam persuadidos – não só naquele momento como durante
muitos anos – de que “Jesus seria o Libertador político dos judeus e João, seu
braço direito e chefe de seus colaboradores”. Não me cansarei de insistir nessa
circunstância. E como nova amostra de quanto afirmo – abandonando até a ordem
cronológica dos acontecimentos – vou expor um fato acontecido no ano 11 de
nossa era, quando Jesus contava já 17 anos. Creio que vale a pena alterar
momentaneamente a cronologia se, com isso, alcançar uma visão mais exata dos
pensamentos e sentimentos da Senhora e de sua família quanto ao papel de Jesus.
Os cristãos, como poderei deduzir do que vou relatar em seguida, guardam uma
recordação equivocada e cândida de Maria. As coisas não foram como gostaríamos
que tivessem sido...
Naquela altura – ano 11 – crescia Jesus em Nazaré. Em todo Israel havia
começado a brotar um sério movimento contra Roma. A agitação em Jerusalém e
na Judéia contra os pagamentos dos tributos foi estendendo-se e chegou também
ao norte: à Galiléia. Nasceu no seio do povo um poderoso e clandestino partido
“nacionalista”, que com o tempo daria lugar a toda uma organização “guerrilheira”
que já havia praticado algumas ações bélicas ali pelo ano 6, com um líder chamado
Judas de Gamala, vulgo “o galileu”. Eram os zelotes, que sonhavam com a
independência de Israel do jugo de Roma e que não queriam esperar a vinda do
Libertador ou Messias. Sua filosofia podia resumir-se em duas palavras: “rebelião
política”.
Pois bem, este grupo surgiu na Galiléia captando adeptos. Entrou também em
Nazaré e, dada a liderança e o brilho do jovem Primogênito de Maria, os
“nacionalistas” fizeram dele um dos primeiros e principais objetivos. O futuro
Mestre ouviu-os, mas negou-se a ingressar em suas fileiras. Essa decisão influiu em
muitos dos jovens da vila, que – fiéis seguidores, já, da atraente personalidade de
Jesus – acabaram por afastar-se dos zelotes. E aqui surge o incrível: Maria, que compartilhava plenamente as idéias dos “nacionalistas”, opondo-se radicalmente
ao jugo de Roma, lutou e argumentou com todas as suas forças para que Jesus
aceitasse e entrasse para o partido. O Filho opôs-se; e a Senhora, inflexível,
chegou a recordar-lhe a promessa feita a José e a ela própria, a seu regresso de
Jerusalém, depois da famosa “escapada” do rapaz, quando contava 12 anos. (O
Primogênito, por causa daquele “incidente”, aceitaria a ordem de seus pais de
acatar em tudo suas disposições.)
Ao ouvir a palavra “insubordinação”, o Filho pôs a mão sobre o ombro de Maria,
olhou-a bem nos olhos e lhe disse: “Mãe, como podes pensar isso?”.
A Senhora retratou-se de suas palavras, fruto de sua tensão, mas continuou
insistindo – com a ajuda de Simão, um de seus irmãos, e de Tiago, seu outro filho
– na necessidade de que Jesus reconsiderasse sua negativa e se fizesse “zelote”,
abraçando assim a nobre causa nacionalista.
Esta crise, unida a outros acontecimentos posteriores, determinaria que o Filho
do Homem fixasse sua residência na vizinha povoação de Cafarnaum. Essas
divergências e polêmicas tornaram-se insuportáveis, e Jesus viu-se obrigado a
partir. Mas deixarei as coisas assim. Os capítulos da juventude e da idade adulta do
Mestre são tão sugestivos e importantes que merecem um tratamento à parte.
Como se vê, a idéia da Senhora com respeito à missão de seu Filho não era
muito clara.
A propósito da visita de José a Zacarias se forjaria uma curiosa e até divertida
história, que passarei a relatar. Mas antes, para contrapor ao que verdadeiramente
sucedeu na apresentação de Jesus no Templo, vejamos primeiro o que sobre esse
particular escreve Lucas:
“... Quando completaram os dias da purificação deles, segundo a Lei de Moisés,
levaram Jesus a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor, como está escrito na Lei
do Senhor: ‘Todo varão primogênito será consagrado ao Senhor’; e, para oferecer
em sacrifício, um par de ‘rolas ou dois pombos’.
“E eis aqui que havia em Jerusalém um homem chamado Simeão; este homem
era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel, e estava nele o Espírito
Santo.
“A ele havia sido revelado pelo Espírito Santo que não veria a morte antes de
haver visto o Cristo do Senhor. Movido pelo Espírito, veio ao Templo e, quando os
sacerdotes introduziram o Menino Jesus para cumprir o que a Lei prescrevia sobre
ele, tomou-o nos braços e deu graças a Deus dizendo:
‘Agora, Senhor, podes, segundo tua palavra, deixar que teu servo se vá em paz,
porque meus olhos viram tua salvação, que preparaste à vista de todos os povos,
luz para iluminar os gentios e para a glória de teu povo, Israel’.
“Seu pai e sua mãe estavam admirados com o que dele se dizia. Simeão
abençoou-os e disse a Maria, sua mãe: ‘Eis que está posto para a queda e para a
elevação de muitos em Israel, e para ser o sinal da contradição – e a ti mesmo
uma espada te atravessará a alma! – para que fiquem a descoberto as intenções de muitos corações’.
“Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser, de idade
avançada; depois de casar-se havia vivido sete anos com seu marido e permaneceu
viúva até os 84 anos; não se afastava do Templo, servindo a Deus noite e dia em
jejuns e orações. Como chegasse naquela mesma hora, louvava a Deus e falava do
Menino a todos que esperavam a redenção de Israel”. (2, 22-39.)
Agora relatarei os fatos, tal qual me foram narrados.
Moisés, com efeito, ensinou ao povo eleito que cada filho primogênito – por
ordem de Yavé – pertencia a Deus. Mas, em lugar de serem sacrificados como em
outras culturas pagãs, podiam ser “resgatados” pelos pais, mediante o pagamento
simbólico aos sacerdotes de 5 shekels. Outra das leis mosaicas estabelecia que as
mães, depois do parto, deviam apresentar-se no Templo para que cumprissem o
ritual da “purificação”. No tempo de Cristo, ambas as cerimônias costumavam
unificar-se em uma só.
Assim foi que Maria, José e o Menino foram a Jerusalém, dispostos a cumprir as
normas religiosas estabelecidas. (A verdade é que nunca consegui entender a que
“impureza” se poderia referir Yavé.) Dias antes – se não me esquecia –, os pais de
Jesus haviam cumprido igualmente o obrigatório requisito da circuncisão do
pequeno. E deram-lhe, oficialmente, o nome de Yehsu’a, que vem significar “Yavé
salva”. (Talvez não tenha importância, mas Jesus jamais foi chamado “Jesus”, mas
sim Yehsua, rabi e Mestre.)
O casal entrou no Templo, fez as compras e o sacrifício obrigatório e, quando
se dispunha a apresentar o bebê aos sacerdotes, aconteceu “algo” que os deixou
perplexos. Um homem e uma mulher levantaram os braços à passagem da
comitiva, apontando para o casal que levava Jesus. Então, o homem – um velho
cantor chamado Simeão e morador da Judéia – entoou um singular cântico. Dizia
assim: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Israel. Já que nos visitou e resgatou o
seu povo. Levantou seu cálice para cada um de nós na casa de seu servidor, Davi.
Livra-nos de nossos inimigos e das mãos dos que nos odeiam. Tem misericórdia
para com os nossos pais e recorda sua santa aliança: o juramento a Abraão, nosso
pai. Que permitirá, depois de livrar-nos das mãos de nossos inimigos, servi-lo sem
medo, com santidade e retidão diante dele todos os dias de nossa vida. Sim, e Tu,
Filho da Promessa, serás chamado o Profeta do Altíssimo, já que irás diante do
Senhor para estabelecer seu reino, para dar a conhecer a salvação de seu povo, na
remissão de seus pecados. Gozai da misericórdia de nosso Deus, pois que a luz do
alto nos chega para iluminar aqueles que se acham nas trevas e na sombra da
morte. Para conduzir nossos passos pelo caminho da paz. E agora deixa teu
servidor partir em paz, ó Senhor, segundo tua palavra! Meus olhos viram a tua
salvação, que colocaste diante de todos os povos. Uma luz para alumiar até os
gentios e a glória de teu povo, Israel”.
Tal situação, como é natural, perturbou Maria e desconcertou José. De regresso
a Belém, ambos concordaram que “aquilo” havia sido tão excessivo quanto prematuro. E perguntavam-se como fora possível que o velho cantor tivesse
adivinhado que seu Filho era o Messias. Algum tempo depois viriam a saber a
verdade. Isabel a contaria à prima, mostrando-lhe até o texto do cântico que seu
marido, o sacerdote, lhe havia guardado. Zacarias era um velho conhecido de
Simeão e da mulher que também erguera o braço à passagem de Jesus. A mulher
chamava-se Ana, era da Galiléia e gostava de poesia. E ambos, Ana e Simeão,
eram assíduos ao Templo. Faziam-se mútua companhia e, com o tempo, haviam
feito uma boa amizade com Zacarias. O caso é que este – que ardia em desejos de
revelar seu segredo sobre João e Jesus – acabou por contá-lo ao cantor e à
poetisa. O esposo de Isabel sabia, de antemão, que a qualquer momento
apareceriam no Templo José e a Senhora. E então combinou com Ana e Simeão
que, à passagem do Menino, levantassem os braços em sinal de saudação e
reconhecimento. A poetisa compôs um poema para a ocasião e Simeão
encarregou-se de declamá-lo.
Esta foi a simples história, da qual se poderia tirar saborosas conclusões. Em
especial, no que concerne ao evangelista Lucas, que talvez tenha ouvido uma
versão altamente deformada com a passagem dos anos, tomando-a por boa... Nem
Ana era profetisa nem Simeão falou de “espada alguma que atravessasse o
coração de Maria”, nem suas palavras eram de sua criação, nem foi movido pelo
Espírito para dirigir-se ao Templo naquela hora, nem tomou o Menino em seus
braços.
E eu de novo me pergunto: quantas passagens da vida de Jesus terão sofrido a
mesma sorte?
Se o Altíssimo continuar bendizendo-me com sua luz e sua força, talvez chegue
a contar nossas experiências e aventuras nas aldeias de Belém e Judá e nas quais,
graças à sua bondade, pudemos comprovar muitos dos fatos que agora estou
registrando de forma apressada.
Outro dos singulares acontecimentos de que fui informado pela Senhora referia-
se aos famosos “Magos”. Maria não saía de sua surpresa.
– Como sabes tu – perguntou-me – todas essas coisas?
Mas continuemos com o que importa.
Também com esse assunto teve algo a ver o bom e linguarudo Zacarias. Não
sei o que eu haveria dado para conhecê-lo. Mas, quando “chegamos” à Palestina
(ano 30), o velho sacerdote, que devia rondar pelos 70 ou 80 anos, havia falecido.
Tudo começou com a aparição na cidade caldéia de Ur 181 de um misterioso
“educador” religioso que, ao que parece, teria informado a uns sacerdotes-
astrólogos do lugar sobre um “sonho” que havia tido e no qual lhe fora anunciado
que “a Luz da Vida” estava prestes a aparecer no mundo, na forma de um “menino”
e entre os judeus.
A Senhora continuou seu relato nos seguintes termos:
“... Aqueles sacerdotes puseram-se a caminho e, depois de várias semanas de
inúteis pesquisas por toda a cidade de Jerusalém, já estavam a ponto de renunciar e regressar à pátria quando encontraram no Templo meu primo Zacarias. Este,
então, disse-lhes que, com efeito, o Messias havia nascido em Belém. Indicou-lhes
o lugar onde nos encontrávamos naquele momento e foi assim que eles acudiram
prontamente com seus presentes. Depois se foram e não voltamos a vê-los...”.
A visita dos caldeus não passou inadvertida para o rei Herodes. Seus espiões e
confidentes estavam por todas as partes. E os fez chamar. Os sacerdotes de Ur já
se haviam entrevistado com José e Maria e informaram o idumeu do nascimento do
“Rei dos Judeus”. A notícia abalou o medroso e decrépito Herodes, o Grande. Mas
os “Magos”, possivelmente porque o ignorassem, não souberam dar-lhe muitas
referências. Apenas que o Menino havia nascido de uma família que acabava de
chegar a Belém para o recenseamento. O astuto rei despediu-os com uma bolsa de
dinheiro, dizendo-lhes que o buscassem para que ele pudesse conhecê-lo e adorá-
lo, já que, afirmou, “ele também estava convencido de que seu reino era espiritual
e não temporal ou transitório.” Mas os três sacerdotes não voltaram.
E Herodes, desconfiado, continuou pensando no incômodo assunto do “outro
rei”. Ele sabia que era um usurpador e que havia arrebatado o trono a seu legítimo
rei: Antígono.182 Enquanto refletia sobre essas coisas chegaram novas notícias.
Seus agentes lhe informaram do acontecido no Templo durante a apresentação do
Menino. Até citaram parte do cântico entoado por Simeão. Herodes explodiu,
chamando seus espiões de inúteis por não haverem localizado os pais do recém-
nascido, e destacou novos agentes com a específica missão de localizar a família
de Nazaré.
Desta vez Zacarias agiu providencialmente. Ao ter conhecimento das manobras
do rei, avisou José e, ele mesmo, também temendo por seu filho João, saiu de
Jerusalém permanecendo junto de Isabel e longe de Belém. Maria e José, por sua
vez, diante da grave ameaça de Herodes, ocultaram o bebê na casa dos parentes
que tinham em Belém.
– A situação foi angustiosa – comentou a Senhora, estremecendo, ao recordar
aqueles momentos. – Nossos recursos esgotavam-se rapidamente e, à vista do
perigo, José hesitava se devia ou não procurar trabalho e permanecermos no lugar.
Um ano mais tarde, desesperado diante da infrutífera busca de seus esbirros, e
suspeitando que o Menino continuava oculto em Belém, Herodes ordenou o registro
imediato e sistemático de todas as casas e a execução a espada de quantos
meninos menores de 2 anos pudessem ser achados.
Felizmente, entre os que rodeavam Herodes havia alguns que acreditavam na
chegada do verdadeiro “Libertador” de Israel. E um deles fez de tudo para dar um
aviso a Zacarias. Este comunicou o fato a José e, na mesma noite dos assassínios,
o casal abandonou Belém precipitadamente.
Em total solidão, e com recursos proporcionados por Zacarias, a família foi para
o Egito. Mais precisamente, para a populosa cidade de Alexandria, onde José tinha
parentes. A matança alcançou dezesseis meninos.183 Era o mês de outubro do ano
6 antes da Era Cristã. Jesus contava então 14 meses.
Mas, antes de entrarmos nessa outra ignorada etapa da vida de Jesus – a
estada no Egito –, quis desfazer umas dúvidas que continuavam em minha mente.
– Não foi um anjo quem advertiu José em sonho que devia fugir de Belém?
Maria respondeu de pronto:
– Sim... um “anjo” chamado Zacarias, meu primo.
Mateus havia tornado a falhar. E eu tive de aceitar a reprimenda da Senhora
que qualificou minha imaginação de “calorosa e possuída por loucos demônios”.
Sorri para mim mesmo. No fundo, a admoestação devia ser dirigida ao
confiante e singular evangelista.
A segunda questão foi recebida com idêntica perplexidade.
– Uma estrela?
– De fato – insisti – contam que aqueles sacerdotes de Ur teriam sido guiados
por uma estrela de grande brilho.
– Ouvimos algo, sim, mas não vimos nada tão extraordinário. É possível que
José, se vivesse, poderia dar-te mais detalhes. Sinto.
Tive de resignar-me com a história da não menos célebre Estrela de Belém.
Mais tarde, como observei, em nossa exploração pelas colinas ao sul da Cidade
Santa, essa e outras incógnitas ficariam decifradas. Por exemplo, a sangrenta
matança dos infantes. Como ocorreu? Salvaram-se mais meninos além de Jesus?
Como reagiu a aldeia diante do brutal extermínio?
Mas ainda restavam tantos temas por tratar...
O que ocorreu em Alexandria? Quanto tempo permaneceram na cidade egípcia?
O que aconteceu nas viagens de ida e volta? Como foram aqueles primeiros anos
da vida de Jesus?
O tempo urgia e concentrei minhas perguntas na fuga para o Egito...
171 No direito judaico, o matrimônio constava de dois grandes “momentos” ou fases bem diferenciadas e estreitamente ligadas:
os esponsais e o casamento ou “bodas”. Quando dois jovens decidiam unir-se para toda a vida entravam no primeiro estágio.
Na realidade já eram considerados como esposos; todavia a união definitiva, tal como determina o Deuteronômio, só se dava
quando o noivo “tomava a esposa de sua casa” (Deut., XX, 7). Apesar disso, os esponsais não podem ser julgados como um
simples “noivado”. Levavam em si mesmo o selo de um “autêntico contrato matrimonial”. Ao ponto de quando uma mulher
fosse surpreendida em adultério – estando no período de “esponsais” – poderia ser repudiada e executada. Parece que era
um costume tolerado, ainda que malvisto, que os “esposos” mantivessem relações sexuais, como marido e mulher, antes das
núpcias propriamente ditas. Estas tinham lugar quando a noiva ou esposa era levada à casa do marido. A comemoração
durava sete dias, às vezes mais. (N. do M.)
172 Efetivamente, seis gerações antes de José – segundo o texto de Mateus –, aparece um tal Sadoq ou Zadoc, que gerou a
Aquim. Este gerou a Eliud e este, por sua vez, a Eleazar. Este gerou a Mattan e Mattan a Jacó. Este foi o nome do pai de
José, esposo de Maria. (N. do M.)
173 Entre os judeus de então, o ano começava na primavera. Concretamente, no mês de nisan, que correspondia ora a nosso
março ora a abril. Este ciclo de culto era inspirado no calendário babilônico. A partir do desterro, o povo de Israel adotou
também os nomes dos meses babilônicos: Lyyar era o segundo mês (abril-maio), Sivan o terceiro (maio-junho), Tammuz o
quarto (junho-julho), Ab o quinto (julho-agosto), Elul o sexto (agosto-setembro), Tisri o sétimo (setembro-outubro), Marjesván
o oitavo (outubro-novembro), Kisleu o nono (novembro-dezembro), Tebet o décimo (dezembro-janeiro), Sabat o décimo-
primeiro (janeiro-fevereiro) e Adar o duodécimo e último (fevereiro-março). O ano era lunisolar, com 12 meses de 29 ou 30
dias e um mês suplementar, a cada dois ou três anos, para compensar o atraso do ciclo lunar sobre o ano solar. (N. do M.)
174 Lucas em seu Evangelho repisa, de quando em vez, a palavra “virgem”... “Ao sexto mês foi enviado por Deus o anjo
Gabriel a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com um homem de nome José, da casa de Davi;
o nome da virgem era Maria...” Em tão poucas linhas se contam dois erros: “uma virgem desposada com um homem de nome
José” e “da casa de Davi”. Quanto ao resto da passagem em questão, também aparece repleto de “modificações ou de
erros”. Por exemplo, referindo-se a Jesus, Lucas põe na boca do “anjo”: “... e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi”.
Jamais houve alusão a tal trono. Para quê? A missão do Mestre era outra e Ele se encarregaria de repeti-lo em vida mais de
uma vez. Lucas, que escreveu seu Evangelho muitos anos depois da morte de Maria, não foi bem informado ou talvez se
deixasse arrastar pelas correntes que pretendiam exaltar tudo que fora relacionado com Jesus, incluindo uma mãe
permanentemente virgem. Algo que ia contra todos os costumes e normas da sociedade judia de então. (N. do M.)
175 Na Palestina, nessa época, os caminhos que a cortavam de norte a sul, tal qual os que corriam de leste a oeste, não eram
fáceis. Entre os primeiros havia três grandes rotas: a de Sefela, que ia dar na cadeia montanhosa do Carmelo; a do Jordão,
que era muito árdua durante os meses de calor, e a mais usada, Samaria, muito escarpada e que os judeus de estrita
observância religiosa procuravam evitar a todo custo. (O contato com os samaritanos era motivo de “impureza”.) Se não
fosse pelo estado delicado de Maria, José talvez tivesse decidido por esta última. (N. do M.)
176 O líquido fetal, logicamente, não é comprimível e, ao derramar-se, contribui para dilatar as membranas até o ponto de
menor resistência. Geralmente, depois do aparecimento das membranas, empurrando o canal cervical, a cabeça fetal chega
por trás, dilatando ainda mais o conduto. É muito possível que esse “rompimento da bolsa”, como se denomina popularmente a
perda do líquido fetal, se produzira em Maria no transcurso dessa noite de 20 de agosto. (N. do M.)
177 Essa descrição poderia encaixar-se na última fase das dores. Talvez tivessem uma intermitência de cinco minutos. Em
cada contração, as fibras musculares da parede uterina comprimem mais a cavidade, preparando assim a saída do bebê, que
cada vez dispõe de menos espaço. Entre uma contração e outra o normal é que se registre uma pausa. Nesse momento entra
sangue fresco na placenta e os batimentos cardíacos do bebê recuperam sua freqüência e intensidade. (N. do M.)
178 O costume de friccionar o recém-nascido com sal baseava-se na crença de que, assim, a pele adquiria maior firmeza.
Quanto ao fato de entregá-lo primeiramente ao pai, constituiu todo um rito de reconhecimento e legitimidade. O normal era
que, ao receber o bebê, o pai o colocasse sobre os joelhos. Se um avô se encontrasse presente, o privilégio lhe era cedido, tal
como rezava o Genesis (L. 13). (N. do M.)
179 Com toda a probabilidade, a adoção pela Igreja do dia 25 de dezembro como festividade do Natal (refiro-me à Igreja
Ocidental) remonta ao século IV ou V de nossa Era. Uma das opiniões mais difundidas e aceitas relaciona este fato à
“institucionalização” do Cristianismo pelo Imperador Constantino, que impulsionou a definitiva expansão e consolidação
pública da religião dos cristãos. Parece muito provável que a florescente Igreja decidira “transformar” uma das celebrações
pagãs de então na “Natividade” do Senhor. Ainda que haja diversidade de opiniões a esse respeito, pode-se pensar que essa
celebração pagã que serviu para a “mudança”, fora a do “invencível Sol” ou as Angeronalias ou Diualias, todas elas
romanas. Estas últimas tinham lugar no dia 21 de dezembro. Segundo Varron (L, L, 6, 23), oferecia-se um sacrifício à deusa
na cúria Acculeia. Ao que parece, tal qual Dea Dia, eram festas realizadas nos dias mais curtos do ano (solstício) e que
anunciavam a renovação do ano ou a “vitória do Sol”. (Com efeito, os dias começavam a ser mais longos.)
A Igreja do Ocidente (a do Oriente jamais celebrou a Natividade; só a Epifania), segundo os experts, pôde transmudar a festa
que comemorava o “nascimento ou a chegada e vitória do triunfante Sol” pelo “nascimento do verdadeiro Sol: Jesus de
Nazaré”. Nas célebres homilias do papa São Leão Magno (ano 450) já se fala dessa “moderna” festa cristã de 25 de
dezembro. Como mencionei em alguns de meus livros, os costumes pastoris daquela época (como a própria meteorologia da
Palestina) não permitiam que os “pastores guardassem seu gado ao relento” nos meses de dezembro, janeiro e fevereiro.
Quanto ao segundo erro, ao qual faz alusão o Diário do Major – o de marcar o nascimento de Cristo no ano “1” –, também
estou de acordo. Não pode ser assim. O padre jesuíta Igartua, em sua excelente obra Los Evangelios ante la Historia (pág.
73), dá um pormenorizado informe sobre esta “falha”, reconhecida por todos os historiadores e que nos faz arrastar um
grande “atraso” no calendário oficial. Eis aqui o estudo de J. M. Igartua:
“1. Jesus nasceu nos tempos de Herodes, o Grande, segundo os próprios Evangelhos (Mt., 2, 1, e Lc., 1, 5). Mas Herodes
morreu antes do ano 1, logo é necessário antecipar a data do nascimento de Cristo.
“2. Em que ano morreu Herodes? Chegou-se à precisão através do historiador judeu Flávio Josefo. Eis aqui seus dados. O ano
em que Herodes começou a reinar é fixado por ele conforme a contagem grega existente na 184a Olimpíada – sendo que o
intervalo entre as Olimpíadas era de 4 anos – o que dava um total de 736 anos. Determina o ano pelo consulado romano
contemporâneo de Calvino e Assínio Polion (Ant. Jud., XIV, 14, 5). Mas ainda não se pode estabelecer a Era Cristã, pois não
temos ainda dados de correlação entre ambos os cálculos cronológicos.
“3. A duração do reinado de Herodes é dada pelo historiador Josefo como sendo de ‘34 anos depois que matou (seu opositor)
Antígono e desde que recebeu o reinado dos romanos, 37 anos’. (Ant. Jud., XVII, 8, 1, e Bell., Jud., 1, 33, 8.) A morte
ocorreu cinco dias depois de ordenar a execução de seu próprio filho, Antípatro. Continuamos, porém, na mesma incerteza
sobre a correlação com a Era Cristã de Dionísio, o Pequeno (a atual). Os 736 anos gregos das Olimpíadas (na 184a
Olimpíada, segundo Josefo) se correlacionam com os anos romanos, restando 23, pois, segundo Varron, a fundação de Roma
se deu no ano 23 das Olimpíadas, e equivalem assim a 736-23 = 713 ab UC. Como Josefo acrescenta que Herodes reinou 37
anos, somando estes aos 713 temos 750 ab UC para o ano romano de sua morte. Como emparelhar agora com a Era Cristã
este ano 750 ab UC da morte de Herodes?
“4. Providencialmente, um dado quase perdido no conjunto permitiu que se estabelecesse a correlação. Pois Josefo (Ant. Jud.,
XVII) narra a ocorrência de um ataque dos extremistas religiosos ao Templo contra as insígnias romanas, dirigido pelos
doutores da Lei e executado por audazes jovens, a não mais de um mês da morte de Herodes. Este, que mesmo doente, ainda
tinha rasgos cruéis, mandou queimar vivos os dois doutores e alguns dos jovens atacantes, e nesse mesmo dia de sua
execução – conta Josefo – houve um eclipse da Lua, que foi interpretado como sinal celeste contra Herodes, acrescendo que
sua morte ocorreu na Páscoa. Pois bem, os astrônomos modernos identificaram tal eclipse da Lua, visível na Judéia, no ano 4
antes de Cristo, em 13 de março. Temos assim um dado já certo de correlação: o ano da morte de Herodes, o Grande, foi o
ano ‘menos 4’ antes de Cristo, e o nascimento de Jesus deu-se, conforme o que se recorda dos Evangelhos sobre sua vida,
logo depois do ‘menos 4’. Se acrescentarmos o cálculo de dois anos que fez o próprio Herodes em Mateus, quando mandou
matar os meninos menores de 2 anos, estamos em ‘menos 6’. E assim se calcula, com bastante precisão, como o ano do
nascimento de Jesus o ano ‘menos 6’ ou ‘menos 7’ da Era Cristã”. (N. de J. J. Benítez.)
180 De la virgindad de la B. V. M. (Cst., 681 B.s; Jf., 261; PL., 13, 1177B; Msi., 111, 675A; Hrd., I, 859(s.), na que se refuta
o erro de Bonoso. (N. do M.)
181 Ainda que existam dúvidas a respeito, a cidade de Ur tem sido identificada com a pátria de Abraão. O Gênesis (11, 31) diz
que o pai do famoso patriarca, Teraj, emigrou de Ur da Caldéia para Jaran, uma grande cidade sumeriana situada junto ao
golfo Pérsico. (N. do M.)
182 No ano de 39 a.C., Herodes, o Grande, procedente da Itália, entrou em Israel com um exército de mercenários. Durante
dois anos enfrentou Antígono, o legítimo monarca, que tinha a seu lado os judeus. Jerusalém cairia em suas mãos depois de
dois meses e meio de assédio. Milhares de hebreus foram abatidos e Antígono, preso, foi enviado a Antióquia. Ali seria
decapitado pelo célebre Marco Antônio. Sua morte pôs ponto final aos 103 anos da legítima dinastia dos Asmoneus. (N. do
M.)
183 Alguns exegetas modernos têm posto em dúvida a realidade histórica desse infanticídio. Examinando a trajetória de
Herodes, o Grande, chega-se à triste conclusão de que a crueldade do impostor era tal que esta ação encaixa-se
perfeitamente em sua “linha de conduta”. Vejamos alguns exemplos que, na minha opinião, justificam o que digo: a partir do
ano 37 a.C., o governo de Herodes se converteria em um pesadelo. Foram justiçados 45 partidários de Antígono pertencentes
às mais nobres famílias. Sua vingança não se deteve nem diante do Conselho Supremo. Numerosos anciãos e escribas foram
também executados ou desterrados. Sua desconfiança atingiu até sua própria família. Em Jericó, por ordem sua, foi
assassinado, durante o banho, seu cunhado Aristóbulo III, que contava somente 17 anos na ocasião. Ordenou depois o
assassinato de sua esposa, Mariamme, e sua mãe, Alexandra. Por último, tirou a vida de dois de seus filhos.
Formou um autêntico exército de espiões e confidentes que espalhavam o terror, provocando um contínuo banho de sangue. Em
seu testamento chegou a incluir uma cláusula secreta pela qual – assim que viesse a falecer – milhares de dignitários de Israel
deveriam ser reunidos no hipódromo e transpassados a espada. “Dessa forma” – explicava o próprio Herodes –, “o pranto e o
luto por minha morte será muito maior.”
E, como já vimos, pouco antes de sua morte, o odiado “criado idumeu”, como era chamado popularmente, mandou queimar
vivos vários doutores da Lei e os “guerrilheiros” (possivelmente zelotes) que assaltaram o Templo jogando por terra águias e
brasões de Roma.
Ante semelhante mar de sangue e destruição, como duvidar da historicidade da chamada “matança dos inocentes” de Belém?
Se alguma coisa lhe havia custado muito na vida era precisamente o trono que usurpara. De maneira alguma podia deixar que
algum “rei” o arrebatasse dele. E muito menos o prometido “Libertador”. (N. do M.)