Cavalo de Tróia 2: Massada
O diário ⠀猀攀最甀渀搀愀 瀀愀爀琀攀)
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 9 partes.
O DIÁRIO
(SEGUNDA PARTE)
... 5 horas e 43 minutos.
Sessenta segundos após a decolagem, o computador central – nosso querido
Papai Noel – respondeu com sua habitual eficiência e minuciosidade, estabilizando
o “berço” na rota prevista (800 pés) para o imediato e delicado processo de
“inversão de massa” da nave que deveria transportar-nos de volta a nosso tempo:
ao século XX. Para sermos mais exatos, a 12 de fevereiro de 1973.
Eliseu e eu trocamos um olhar significativo. Absortos nos preparativos para a
decolagem, meu “irmão” naquela primeira “grande viagem” e eu quase não
tínhamos tido ocasião de comentar minhas últimas e dilacerantes experiências
ocorridas ao pé da cruz e ao longo das tensas horas que precederam o amanhecer
do domingo, 9 de abril do ano 30. Quando, finalmente, perto das 4 horas, abordei o
módulo, minha expressão devia estar tão eloqüente que Eliseu manteve um
respeitoso e prolongado silêncio. E mais uma vez senti-me aliviado e grato pela sua
extrema delicadeza.
Lembro que, enquanto procedia à retirada das já suadas e malcheirosas roupas
que me haviam ajudado no papel de mercador grego, meu companheiro, por
iniciativa própria, acionou a fita gravada que registrara a chamada “última ceia”.
(Como já observei em outro ponto deste diário, ainda não tinha tido ocasião de
escutá-la.) E, em silêncio, até as 5 horas, ambos deixamo-nos arrastar pela voz do
rabi da Galiléia: doce, firme e magnificente. Conhecendo como conhecíamos toda a
dimensão da tragédia que acabara de acontecer, os conselhos e recomendações de
Jesus aos seus íntimos chegaram a mim com uma força e luminosidade
indescritíveis. Como creio haver observado antes, excetuando João, o Evangelista,
os escritores sagrados não conseguiram transcrever com fidelidade nem os fatos
nem o sentido daquela memorável ceia de despedida. Devo, porém, dominar-me. É
necessário que eu saiba controlar minhas emoções e a torrente de acontecimentos
que fluem no meu cérebro e, para maior clareza, prosseguir meu relato sob a mais
estrita ordem cronológica. Espero que aqueles que chegarem a ler meu legado
saibam compreender e perdoar minhas contínuas debilidades e falhas...
A partir das 5 horas – faltando 42 minutos para o alvorecer – Eliseu e eu,
metidos em nossos regulamentares trajes espaciais, entregamo-nos de corpo e
alma à exaustiva revisão dos equipamentos, com especialíssima atenção à fase
crítica da decolagem. Embora, como já frisei antes, os técnicos do projeto
houvessem programado a decolagem, o posterior “estacionário” da nave e retorno
dos eixos do tempo dos swivels de forma automática, uma pungente e lógica
dúvida mantinha-nos tensos. E se acaso falhasse qualquer uma das delicadas
manobras já citadas? Que nos aconteceria?
Provavelmente foi esta passageira mas crescente excitação que me libertou da
profunda angústia que se havia aninhado em meu coração, produto dos onze
agitados dias que acabara de viver naquele Israel do ano 30. Uma angústia –
adianto-lhes desde já – que me marcaria para sempre...
5 horas e 41 minutos.
O computador central, de acordo com a programação; acionou eletronicamente
o dispositivo de incandescência da “membrana” exterior da nave, eliminando, com
isso, qualquer germe vivo que pudesse ter-se aderido à blindagem do “berço”. Esta
precaução – como já expliquei – era de vital importância para evitar que os germes
fossem invertidos tridimensionalmente com a nave, em um ou outro “tempo” ou
marco tridimensional. As conseqüências de um involuntário “ingresso” de tais
organismos em “outro mundo” poderiam ter sido nefastas.
5 horas... 41 minutos... 30 segundos.
Meu companheiro e eu – atentos ao Papai Noel – captamos a rápida aceleração
das nossas freqüências cardíacas. 120 pulsações!... 130! Estávamos a 15 segundos
da ignição.
5 horas... 42 minutos.
Oh! Meu Deus!
Nossas freqüências cardíacas alcançaram o limiar das 150 pulsações.
O motor principal não respondia...
5 horas... 42 minutos... 3 segundos...
Vamos! Vamos! Estamos prontos!
Eliseu e eu, com a voz entrecortada, começamos a animar o preguiçoso J85.
Foram os segundos mais longos e dramáticos daquela última fase da operação.
5 horas... 42 minutos... 6 segundos...
Uma vibração familiar sacudiu o módulo. Finalmente, a turbina a jato CF-200-
2V foi ativada, elevando a nave com um empuxo de 1.585 quilos. Só então
respiramos...
5 horas... 43 minutos...
Sessenta e seis segundos após a decolagem, uma vez alcançados os 800 pés
de altitude, os foguetes auxiliares, também de peróxido de hidrogênio e com 500
libras de empuxo máximo cada um, estabilizaram o módulo, controlando sua
posição.
Embora a primeira fase do retorno – excetuados os seis angustiantes segundos
de atraso na ignição do motor principal – fosse completada sem maiores
dificuldades, observamos, com certa preocupação, que os níveis dos tanques de
combustível fixavam o “tempo máximo de funcionamento”, a partir do início do
“estacionário”, em 910 segundos.
Era preciso agir com extrema diligência.
E Papai Noel, “consciente”, como nós, da perigosa escassez das nossas reservas
de peróxido de hidrogênio, não se demorou na execução da seguinte e não menos
delicada operação.
Às 5h45 daquele 9 de abril do ano 30, quando a orla superior do Sol começava
a aparecer acima do horizonte acinzentado do Moab, na costa oriental do mar
Morto, nosso fiel computador central – que continuava mantendo a incandescência
da “membrana” exterior – acionou o sistema de inversão axial das partículas
subatômicas do “berço”, fazendo retroceder os eixos do tempo dos swivels aos ângulos previamente estabelecidos pelos homens do Cavalo de Tróia,
correspondendo às 7 horas de 12 de fevereiro de 1973. No total, um “salto” de
709.612 dias, uma hora e quinze minutos. É de supor-se que, como acontecera na
noite daquele histórico 30 de janeiro de 1973, data do início da nossa primeira
“viagem” no tempo, uma fortíssima explosão se fizera sentir no cume do monte das
Oliveiras, simultaneamente com a inversão de massa. Entretanto, e obviamente,
nessa ocasião não houve forma de confirmar o fato.
Frações de segundos após a substituição do nosso primitivo sistema referencial
de três dimensões por nosso tempo – nosso verdadeiro tempo – uma súbita
claridade penetrou pelas escotilhas do módulo.
Tomados pelo medo, permanecíamos com o olhar fixo nos dois pares de
monitores dos cronômetros “moniônicos”, diretamente conectados – graças ao
Papai Noel – ao mecanismo de inversão axial dos swivels. A vertiginosa dança dos
dígitos havia desembocado numa seqüência que nos devolveu a calma e que, por
sua vez, explicava aquela substancial diferença de luminosidade entre o momento
de nossa partida do monte das Oliveiras e a que agora inundava a nave.
“07.12-02-1973.”
(O orto solar, naquele 9 de abril do ano 30 da nossa era, havia ocorrido, como
citei anteriormente, às 5h42. “Agora” – 1.943 anos depois – a aurora se dera às
6h24. Nossa súbita “aparição” na Jerusalém moderna ocorrera – estimamos – aos
36 minutos do orto.)
Antes de proceder a uma comprovação visual – e de acordo com o plano de vôo
–, tornou-se necessária uma nova revisão dos sistemas que garantiam o
“estacionário” do “berço” e, muito em especial, do mecanismo de emissão de luz
infravermelha, vital para a camuflagem da nave. Tudo parecia funcionar com
perfeição. Durante o processo de inversão de massa, a bateria atômica SNAP 10 A
– sigla de Systems for Nuclear Auxiliary Powers – continuara alimentando o motor
principal; e tanto nossa altitude quanto nossa posição no espaço não apresentaram
variações. Curtiss e o resto da equipe do Cavalo de Tróia deviam encontrar-se a
800 pés, numa expectativa tão ansiosa como a nossa.
Eliseu chamou minha atenção para o nível do combustível – limitado a 600
segundos. Assenti com um gesto e um leve sorriso, na tentativa de tranqüilizar a
mim e a meu irmão. Ambos sabíamos que a descida sobre a Mesquita da Ascensão
não poderia sofrer atraso. O menor erro, a mínima dúvida ou qualquer variação do
estrito programa previsto para a aterrissagem poderia ser fatal.
Segundos antes de abrir a conexão com a base acessamos novamente o
computador central, em busca de informação sobre o grau de absorção das ondas
decimétricas pela “membrana” exterior. Se esta falhasse, os radares militares
israelenses não tardariam a detectar-nos.1
Papai Noel tranqüilizou-nos. No momento, supondo que alguma estação de
rastreamento – especialmente a do monte Hermon – houvesse captado algo de
anormal a 800 pés sobre o monte das Oliveiras, a ausência de retorno do “eco” teria levado a equipe do radar a identificá-lo com uma “zona de silêncio”,
relativamente comum nesse tipo de operação.
Não tínhamos tempo a perder. Assim, após uma rápida localização visual do
octógono e dos hangares erguidos no recinto interior da mesquita, iniciamos a
última fase do programa Apolo XI. Posto que aqueles últimos minutos da “grande
viagem” tornavam absolutamente necessária a comunicação pelo rádio entre o
módulo e o novo “ponto de contato”, os homens do Cavalo de Tróia haviam criado
um código idêntico ao utilizado por Armstrong e Aldrin com Houston no memorável
20 de julho de 1969, quando o homem pisou na Lua pela primeira vez. Dessa
forma, qualquer entrada estranha ao projeto na faixa de emissão2 só serviria para
confundir o hipotético intruso.
Uma vez ativada a “faixa integrada S”, Eliseu empunhou o microfone e, sem
conseguir disfarçar sua emoção, perguntou:
– Aqui Águia... Alguém aí?...
Segundos depois, a voz do CAPCOM – o suposto Houston – retumbou em
nossos ouvidos e em nossos corações – por que ocultá-lo? – como a mais doce das
melodias.
– Aqui Houston... Bem-vindos à casa... Foram recebidos “5x5”...
Eliseu, responsável pelas comunicações, inspirou profundamente e, após checar
de novo o nível de peróxido de hidrogênio, anunciou:
– Roger, na escuta... Estamos a 8% do combustível.
A advertência provavelmente soou como um trovão entre os homens de Curtiss.
– Aqui CAPCOM. Entendido, 8%...
– Afirmativo – respondeu Eliseu, adotando uma falsa tranqüilidade. – Estamos
prontos para aterrissar. Câmbio.
– Roger, entendido. Altitude: 800 pés... Podem conectar o pára-brisa
monitorizado.3
Papai Noel, que já considerávamos da família, respondeu à minha ordem
desenhando no monitor um “túnel” sintético quadrangular em cujo centro se
achava igualmente digitada a imagem da nave. Agora tudo era apenas questão de
dirigir a descida do módulo pelo interior do “túnel”. O fundo do túnel não era senão
o reduzido hangar onde devíamos pousar o “berço”.
– Roger – interveio Eliseu –, Águia pronta. “Túnel” na tela...
– Aqui CAPCOM. Agora vocês só têm de se deixar levar por “mamãe Curtiss”.
Câmbio.
– Aqui Águia... Lá vamos nós... 750 pés... Oscilação nula. Continuamos a
descida...
– Águia, muito bem... Altitude 700 pés... descendo a 23 pés por segundo.
Podem reduzir a 20? Câmbio.
– Roger, entendido... Reduzimos a 20... 680 pés e 20 abaixo... 610 pés... 580...
540 pés...
Subitamente, ouvimos a intervenção de CAPCOM, cortando Eliseu:
– Atenção, Águia!... Detectamos rajadas de vento a 500 pés 45 graus e 15
nós.4
– Repita, Houston.
Tanto Eliseu como eu sabíamos que, naquelas críticas circunstâncias, um dos
piores contratempos poderia ser justamente este. Uma rajada de vento de 30
quilômetros por hora, como as anunciadas pela estação em terra, era capaz de
deslocar o frágil módulo, tirando-nos do “túnel” sintético que nos servia de guia
eletrônico. Se isso chegasse a suceder e não fôssemos suficientemente hábeis para
fazer a nave voltar ao específico “túnel de descida”, a aterrissagem poderia
fracassar.
– Repita, Houston – insistiu meu companheiro.
– Aqui CAPCOM. Estamos lendo vento a 500. Direção: 45 graus e 15.
– Aqui Águia. Entendi 45 graus e 15 nós.
– Afirmativo, Águia... Afirmativo. Reduzir ao máximo. Reduzam a nave e
segurem-se firmes até que tenha passado...
– Roger, Houston – disse Eliseu, fazendo-me um sinal para que aumentasse a
potência dos retrofoguetes auxiliares. – 510 pés e descendo a nave... 500 pés...
480 pés e mantendo 9 pés por segundo...
Aconteceu exatamente o que temíamos: as rajadas do vento nordeste
sacudiram o “berço”. E, apesar dos meus esforços para controlar os oito pequenos
motores de posição, a imagem digitada do módulo acabou por atravessar as linhas
amarelas que configuravam o “túnel de descida”, fazendo disparar todos os
alarmes acústicos e luminosos.
– Aqui Houston... Perda de contato com MLS. Desvio a 225 graus. Tranqüilos,
rapazes...
– Aqui Águia – respondeu Eliseu, com os olhos fixos no pára-brisa monitorizado,
em que o módulo aparecia de fato desviado horizontalmente uns 90 pés. – Jasão
está lutando com essas malditas válvulas.5 Estamos estabilizados em 450 pés...
– Roger, Águia... Escutamos. Câmbio.
– Aqui Águia. Motores na máxima potência... Inclinação do módulo, 33 graus...
Repito: estabilizados horizontalmente a 450 pés e retrocedendo a MLS... 40 pés
atrás... Já quase estamos...
– Roger, Águia... – A voz de CAPCOM soou tranqüila, com o propósito de
infundir-nos ânimo. – Um pouco mais...
– CAPCOM, estamos tentando, mas este maldito vento... Inclinação 35 graus e
continuamos em 450 pés... Raios! Só faltava isso!...
– Aqui CAPCOM. Que é que há agora? Câmbio.
Submetidos a um empuxo máximo, até que os motores estavam dando conta
das cada vez mais reduzidas reservas de peróxido de hidrogênio. E nesse instante,
quando a nave havia retrocedido 80 pés no seu vôo horizontal, em busca do
interior do “túnel de descida”, o nível de combustível – reduzido a 5% – fez soar
um novo alarme.
– CAPCOM, aqui Águia... Temos luz quantitativa. Alarme 1.201... Leitura do
combustível: cinco por cento. Vamos ativar a última reserva. Câmbio.
– Roger, Águia. Autorizando a “tanques on”.6
– OK… “Tanques on”…
– Águia, me dê combustível. Câmbio.
– Com a reserva, tempo máximo de funcionamento, 180 segundos... Que Deus
nos ajude!
Mas o módulo, obediente, havia vencido a força do vento, colocando-se de novo
no centro do “túnel”. E a voz de Houston soou “5x5”:
– Aqui CAPCOM. Adiante, Águia. Restabelecida a conexão MLS... Comece a
descer.
– Roger, graças aos céus. Lá vamos nós de novo... 400 pés e continuamos
descendo... 370 pés e descendo a 9 pés por segundo... Inclinação nula, embora o
cabeceio continue...
– Roger. Parece que as coisas agora estão indo bem... Dê-me combustível.
Câmbio.
– OK, CAPCOM. Leio 120 segundos e desço a 9...
– Aqui CAPCOM. Entendi, 120. Câmbio.
– Afirmativo... Altitude: 220 pés e reduzimos a 4,5... 160 pés e 4,5 pés por
segundo...
– OK, Águia... Vamos, mais um pouco... “Mamãe Curtiss” já está escutando seu
assobio... Câmbio.
O controle de terra referia-se ao ruído dos motores, amortecidos pelos potentes
silenciadores.
Aqueles últimos metros foram para mim – responsável pela aterrissagem – os
mais ingratos e penosos. As rajadas de vento – oscilando entre 15 e 20 nós –
pressionavam o “berço” contra as “paredes” do “túnel” eletrônico, obrigando-nos a
mim e ao computador central a uma contínua correção da trajetória.
Finalmente, Eliseu anunciou os últimos 90 pés. Minhas mãos e minha testa
estavam banhadas de suor...
– CAPCOM. Aqui Águia. Descendo, descendo... 90 pés de altitude. Já podemos
ver a plataforma no interior do hangar... Descemos a metade... 45 pés e mantendo
os 3 pés por segundo. Câmbio.
– Roger, Águia. Tudo em ordem. Qual é a leitura indicada do combustível?
– Aqui Águia. Tempo máximo de funcionamento 60 segundos... 40 pés...
Adiante, adiante... 30 pés e descendo a 3 por segundo... Parece que recolhemos
alguma poeira... Menos da metade... 30 segundos...
– Roger, Águia. Quase podemos pegá-los com a mão... Câmbio.
– Aqui Águia... 20 pés... 15... 9 pés... Luz do contato!... Graças a Deus!
Quando os ponteiros amortecedores de choque dos quatro pés do módulo
estabeleceram contato com a plataforma da “mamãe Curtiss”, o computador
central desconectou automaticamente os motores.
A leitura do tempo máximo de funcionamento deixou-nos sem fala: “10
segundos”!
Eliseu suspirou aliviado, enquanto aguardava pela ordem de desativação do
“escudo” protetor de infravermelho.
– Aqui CAPCOM. Bem-vindos... Registramos parada de máquina. Câmbio.
– OK, CAPCOM. Autorizados anular ordem de subida? Câmbio.
– Afirmativo, Águia. Proceder à desativação da camuflagem radiação
infravermelha e incandescência “membrana” exterior.7
– Eis aqui um grupo de rapazes à beira do desmaio. Respiramos de novo. Muito
obrigado. Câmbio.
– Aqui Águia. Gratos a vocês todos.
– CAPCOM. Estão bem? Câmbio.
– Perfeitamente. Estaremos ocupados durante uns minutos... E o silêncio reinou
no interior do nosso querido “berço”, apenas quebrado pelo crescente repicar dos
interruptores, na medida em que iam sendo desligados.
Assim, às 7h17 daquele 12 de fevereiro de 1973, ao abandonar o módulo,
Eliseu e eu chegávamos ao término da primeira e mais fascinante “viagem” jamais
feita antes por algum ser humano. Nem imaginávamos que em breve – bem antes
que alguém pudesse supor – meu irmão e eu nos veríamos às voltas com uma
segunda e não menos incrível aventura!
Ao descermos do módulo, uma salva de palmas devolveu-nos à realidade. Os
técnicos da Operação Cavalo de Tróia, com o general Curtiss à frente, jogaram-se
literalmente em cima de nós, abraçando-nos. Durante alguns minutos, tal qual
acontecera onze dias antes, por ocasião de nossa partida, todos estavam com um
nó na garganta. E os olhos do veterano Curtiss, apesar de seus esforços para
dominar-se, umedeceram-se. Mas aquela alegria duraria pouco.
Nessa mesma manhã, enquanto os engenheiros ocupavam-se da movimentada
tarefa de desmontagem do “berço”, Curtiss e os diretores do projeto, sentados
diante de fumegantes xícaras de café, estavam prestes a receber notícias que
mudariam o rumo da operação.
De acordo com o estabelecido, uma vez concluída a missão, o trabalho dos
homens de Curtiss deveria concentrar-se em dois objetivos fundamentais: a
desmontagem do módulo – permitindo a entrada dos técnicos israelenses na
estação receptora de fotografias procedentes do satélite artificial Big Bird – e,
juntamente com o “berço” e o instrumental utilizado na “grande viagem”, nosso
imediato regresso aos Estados Unidos. Especificamente, à base de Edwards, onde,
sempre em segredo, havia sido prevista a exaustiva análise das informações e do
material coletado pelos “exploradores”.
A primeira notícia – minha notificação ao chefe do projeto sobre a perda do
microfone, camuflado na noite da Quinta-Feira Santa na base do candeeiro que
iluminava a chamada “última ceia”, no piso superior da casa de Elias Marcos – caiu
como um jato de água fria. Uma das regras de ouro da operação estabelecia precisamente que nenhum dos exploradores que fosse ao “outro tempo” deveria
regressar com objetos, manuscritos ou materiais próprios da tal época. Isso era
sagrado. E, da mesma forma, os membros de cada expedição eram obrigados a
zelar por seus próprios instrumentos e equipamentos, não permitindo, sob
nenhuma circunstância, que caíssem em mãos alheias ou simplesmente se
perdessem. A rigidez de nosso código moral chegava a tais extremos que, em caso
de “extrema emergência”, qualquer um dos dispositivos tecnológicos manipulados
na missão que ficasse gravemente comprometido deveria ser destruído. Só aquelas
peças ou móveis associados ao momento histórico que motivou a exploração –
como o caso das esmeraldas que dei de presente a Pôncio Pilatos e ao comandante
da Fortaleza Antônia, Civílis, ou o ouro destinado à obtenção de moedas correntes
na Palestina do ano 30 – estavam autorizados e podiam ser incorporados ao fluxo
rotineiro da sociedade em questão.
Daí que o extravio involuntário do diminuto e sofisticado microfone –
desenhado e construído pelos especialistas da ATT (American Telephone and
Telegraph) para esta missão – perturbasse o ânimo de Curtiss e do resto da
equipe. E, embora compreendessem que as conseqüências do duplo sismo
registrado nas primeiras horas da tarde da sexta, 7 de abril do ano 30 em
Jerusalém, houvessem sido coisas totalmente imprevisíveis para mim e para
qualquer outro explorador, só a idéia de ter deixado uma peça tão típica do século
XX em um meio histórico-geográfico tão remoto e alheio a tal tecnologia começou
a obcecar o diretor da operação. (Sinceramente, dou agora graças aos céus por
meu involuntário erro e, sobretudo, pela idéia obsessiva que se implantou no
cérebro do General.)
E foi ao longo daquele primeiro e superficial exame da nossa exploração que,
quase sem o querer, e como conseqüência do comentário a respeito do duplo abalo
sísmico, vários dos diretores do projeto mostraram-se especialmente interessados
na natureza de tais tremores. Logicamente, enquanto os sismogramas ou registros
permanentes instalados no “berço” não fossem enviados aos Estados Unidos e
decifrados por pessoal qualificado, nossas apreciações tinham o valor de simples
hipóteses. Entretanto, havia algo que estava claro naqueles primeiros momentos: o
terceiro estremecimento do módulo – quando os sismógrafos já não mais
assinalavam qualquer movimento – só poderia ter-se dado pela presença de uma
onda expansiva. Esta firme convicção de Eliseu, que sofrera os dramáticos 63
segundos – duração estimada de ambos os sismos – a bordo do módulo, viu-se
confirmada pela inconfundível presença, nos sismogramas, das ondas “P”,
características das explosões nucleares subterrâneas.8
A surpresa e o embaraço na equipe do Cavalo de Tróia, como disse, foram tais
que, nesse mesmo instante, Curtiss deixou o hangar onde havia sido montada a
estação receptora de imagens e que serviria de quartel-general improvisado e
regressou em poucos minutos com os registros analógicos e digitais. Estes últimos
só podiam decodificar-se por meio do computador. Ajudado pelos diretores e pelo próprio Eliseu, Curtiss examinou as oscilações registradas no papel térmico e
constatou que ali estava, efetivamente, a série de “coleios” provocada pelas ondas
“P”, ou primárias. No segundo tremor – avaliado depois pelos experts em uma
magnitude situada entre 6,0 e 6,9 –, este grupo de ondas aparecia em primeiro
lugar e com extraordinária clareza.
Curtiss, fechado em profundo mutismo, deixou-se cair em sua cadeira. Suponho
que seus pensamentos eram bem semelhantes aos do resto da equipe: uma
explosão nuclear subterrânea em pleno século I? E justamente no crítico instante
em que se registrava o falecimento do Filho do Homem? Como entender aquele
absurdo?
– Só se nos encontramos diante de outro tipo de fenômeno – murmurou o
General quase para si mesmo.
– De qualquer maneira – interveio acertadamente outro dos membros do
programa – é preciso aguardar os resultados definitivos.
Todos concordamos. Entretanto, o velho General, em cuja mente rondava, já,
uma nova e audaciosa idéia, sugeriu que tais análises fossem feitas sem demora.
Agora, com o passar do tempo, não me parece tão estranho ou casual que no
instante em que Curtiss aguardava os preciosos sismogramas – decididamente
disposto a enviá-los aos Estados Unidos nesse mesmo 12 de fevereiro de 1973 –
um de seus ajudantes irrompesse no hangar para entregar ao General um envelope
fechado, no qual todos pudemos distinguir, no verso, o emblema da embaixada do
nosso país em Israel.
Após alguns segundos de atenta leitura, o rosto de Curtiss ensombreou-se e
seus olhos de falcão, depois de se fixarem nos meus, buscaram os de Eliseu. Meu
irmão e eu nos entreolhamos sem compreender. Não houve tempo para mais.
Curtiss guardou o documento e, levantando-se, pediu-nos desculpas.
Que haveria acontecido? A que se deveria aquela mudança no semblante do
General? Por que nos olhava tão estranhamente?
Aquela correspondência, procedente da Embaixada dos Estados Unidos em
Israel, continha a segunda notícia a contribuir, como observei anteriormente – e de
que forma! –, para a mudança de planos na aparentemente concluída Operação
Cavalo de Tróia.
Aquela segunda-feira, 12 de fevereiro, foi especialmente tensa. Mas tentarei
ordenar minhas lembranças e sensações...
Ainda pela manhã, uma vez interrompida a reunião com o General, os diretores
do programa concluíram que nossa presença na Mesquita da Ascensão não era
mais necessária. Quando houvéssemos passado pelos obrigatórios e rotineiros
exames médicos poderíamos dispor do resto do dia ao nosso bel-prazer. E se tudo
corresse como até então, já na quinta-feira, 15, ou no máximo em 16 de fevereiro,
o módulo e os equipamentos auxiliares estariam totalmente embalados e prontos a
ser trasladados ao coração do deserto de Mojave. Nós e boa parte dos 61
integrantes do projeto viajaríamos com o material, supostamente empregado na instalação e funcionamento da estação receptora de fotografias. Os israelenses que
vigiavam o exterior do octógono não davam mostras de inquietação ou nervosismo.
Tudo, enfim, parecia estar transcorrendo na mais perfeita tranqüilidade.
O s check-ups médicos, não muito rigorosos dada a precariedade das
instalações, quase não chamaram a atenção dos médicos. Eu acusava um grau de
esgotamento ligeiramente superior ao de Eliseu, mas ainda dentro dos limites
previsíveis em uma operação daquela natureza. E, embora meu aspecto físico
deixasse muito a desejar – fruto, sem dúvida, da tensão e das vigílias –, os
especialistas despediram-se de mim com um largo sorriso. Na realidade, e segundo
o programa do Cavalo de Tróia, as provas médicas “em profundidade” só teriam
lugar na base Edwards, dias mais tarde. Agora, ao redigir este diário, estremeço ao
pensar no que haveria acontecido se essas análises médicas tivessem sido feitas na
data inicialmente prevista... Mas o destino, uma vez mais, tinha outros planos...
Foi então que, ao ficar sozinho em meu quarto do hotel Ramada Shalom, na
discreta zona de Beit Vegan, toda a angústia acumulada em meu coração começou
a aflorar, imergindo-me num confuso mar de sensações, lembranças e sentimentos.
Não podia enganar a mim mesmo. Apesar de meu ceticismo inicial e de todo o meu
treinamento, o contato com Jesus de Nazaré e, sobretudo, sua terrível morte
haviam-me marcado para sempre. Sabia que a partir daquele “encontro” com o
Mestre da Galiléia nada em minha vida seria o mesmo. Minha condição humana,
minhas debilidades e meus infinitos erros não iriam mudar. Entretanto, minha
forma de ver a vida e meus sentimentos mais íntimos já não eram os de antes.
Que se passava comigo? Por que minha alma se abatera tanto? Por que a figura, as
palavras e até os silêncios daquele Homem tanto me afetavam? Eu era somente
um explorador; um simples observador... Por que, então, minha inteligência e meu
pragmatismo pareciam fraquejar?
Durante horas, no silêncio do quarto, busquei soluções, tentei raciocinar. Inútil.
No meu âmago, e para toda a minha vida, se havia instalado um nome: Jesus de
Nazaré. E, ao descobri-lo, chorei desesperadamente. Chorei como nunca houvera
chorado antes: com temor, alegria, raiva e com a amargura daquele que sabe que
jamais poderia voltar a ter uma experiência tão singular. Uma vez mais me
enganava...
Nas primeiras horas da tarde – graças aos céus – um telefonema tirou-me de
tão sombrios e atormentados pensamentos. Era Curtiss. O tom da sua voz
tranqüilizou-me. Queria jantar conosco.
E às 19h30 um táxi parava defronte ao restaurante Shahrazad, na estrada que
leva a Belém, bem perto do famoso túmulo de Raquel. Curtiss apresentou-nos ao
proprietário, Michael Klair, um árabe tão discreto quanto excelente cozinheiro. O
General havia já degustado as delícias da casa e desejava compartilhar com Eliseu
e comigo algumas horas de sossegada e relaxante reunião. Pouco a pouco íamos
descobrindo que outras eram as intenções do chefe do projeto.
Enquanto saboreávamos o antepasto – à base de saladas árabe e turca –, a velha raposa mostrou-se interessada em nossa saúde, insistindo, suspeitosamente,
em aspectos e detalhes muito específicos. Mas nem Eliseu nem eu havíamos
notado em nosso organismo alterações como as insinuadas por Curtiss. Era a
segunda vez que o veterano oficial, com suas veladas interrogações, deixava
entrever que um “salto” no tempo, como aquele, talvez acarretasse sérios
transtornos psíquicos ou fisiológicos. Desta vez não pude ou não soube conter-me.
E, abertamente, roguei que falasse com clareza. Que estava ocultando? Que
espécies de repercussões poderia ter nossa “grande viagem?”.
Arrependido, o General adotou um tom falsamente jovial e pediu-nos que
desculpássemos aquele “solene desmancha-prazeres”. A operação – segundo suas
palavras – havia sido um êxito, e o próprio Kissinger, então conselheiro do
presidente Nixon, lhe havia telefonado, naquela mesma manhã, mostrando
interesse pelo projeto e dando-nos os parabéns pelos resultados. Aquele foi um
novo erro do nosso bom amigo...
– Kissinger – encurralou-o Eliseu com seu proverbial descaramento – pelo que
sei no dia 10 voou para Hanói...
Curtiss hesitou.
– Diga-nos, General – pressionou meu companheiro –, o que está acontecendo?
Que relação existe entre esse telefonema e a correspondência que o senhor
recebeu esta manhã?
Antes que o chefe do programa, apanhado de surpresa, pudesse reagir, apoiei
as perguntas de Eliseu com um comentário que surpreendeu a mim mesmo:
– Escute, General. Além de contar com nossa absoluta discrição, deve saber
que, tanto meu companheiro quanto eu, estamos dispostos a “regressar”...
Eliseu olhou-me atentamente, adivinhando minhas intenções.
– ... Não me pergunte como, mas, desde a reunião desta manhã no hangar, sei
que o senhor acalenta uma idéia. Uma idéia – ressaltei com toda a convicção de
que fui capaz – que aplaudimos e fazemos nossa. É preciso “voltar” e recuperar
esse microfone...
Curtiss, gratamente surpreendido, limitou-se a desenhar um amplo sorriso e a
concordar com um movimento de cabeça.
– E agora, por favor, responda às perguntas de meu companheiro. Que é que
está acontecendo?
– Está bem – suspirou o General –, quem sabe sua intuição facilite as coisas.
Vou explicar-lhes. Durante o desenvolvimento da operação aconteceram certos
fatos... digamos... preocupantes. Nos primeiros dias de janeiro, como se recordam,
vi-me obrigado a viajar a Washington em busca de uma solução para a difícil
situação criada pela DIA9 e pelo então diretor da CIA, Helms. Os serviços de
inteligência haviam detectado a existência do nosso projeto e exigiam, a todo
custo, que os mantivéssemos informados. Por sugestão expressa de Kissinger, o
próprio Nixon “aconselhou” a demissão de Helms, que foi substituído por James
Schlesinger, homem de confiança de Nixon e que tomou posse da direção da CIA no dia 6 passado. Justamente quando vocês se encontravam do “outro lado”. Pois
bem, Schlesinger, que vinha do Escritório de Orçamentos do presidente Nixon,
propôs-se a agilizar a maldita Agência Central de Inteligência, multiplicando seus
homens e meios no Oriente Médio.10
– Não vemos que relação...
O General pediu-nos que ficássemos tranqüilos.
– Desgraçadamente, existe – prosseguiu em tom grave. – Schlesinger é um
homem frio e astuto. No momento pediu calma a esse “ninho de serpentes” e a
CIA, aparentemente, parece ter-se esquecido de nós. Mas a realidade é outra. Faz
apenas algumas horas que o número de agentes a serviço dessa ratazana, tanto
em Israel e Amã como também em Teerã, tem dobrado. Estão em toda parte e
bisbilhotam tudo. Mas isso não é o pior. Esta manhã, como vocês sabem, recebi,
através de nosso embaixador, um comunicado urgente. Deveria apresentar-me de
imediato na sede da embaixada. Lá, para minha surpresa, puseram-me em contato
com Kissinger. Justamente para hoje, 12 de fevereiro, como medida complementar
diversionista que contribuísse para um confortável e seguro retorno do módulo,
Kissinger havia orquestrado a tão esperada primeira troca de prisioneiros da Guerra
do Vietnã. E assim foi.
“Durante horas, a atenção mundial esteve concentrada a milhas e milhas daqui.
A troca foi efetuada em três pontos diferentes, e 115 norte-americanos foram
libertados. Kissinger sai nesta mesma noite da base Clark, nas Filipinas, rumo a
Washington. Antes, porém, amanhã mesmo, para ser mais exato, fará escala em
Atenas. E ali manterei com ele uma entrevista que não vou ocultar-lhes, pois pode
ser decisiva.”
Enquanto Curtiss bebia sua segunda taça de vinho do Hebron, aproveitei para
interrogá-lo sobre algo que não conseguia compreender.
– Por que o senhor diz, meu General, que o cerco da CIA não é o pior?
– Minha conversa telefônica foi breve. Quando voltar de Atenas talvez possa
responder a essa pergunta com precisão. Entretanto, a julgar pelo que insinuou o
conselheiro presidencial, estou de fato autorizado a comunicar-lhes que a estação
receptora de fotografias do monte das Oliveiras encontra-se gravemente
ameaçada.
O General adiantou-se aos nossos pensamentos e acrescentou:
– ... Ameaçada por que e por quem? Somente lhes direi uma coisa: o tema é
suficientemente sério e urgente para que Kissinger, que deveria permanecer quatro
dias em Hanói, antecipasse sua volta aos Estados Unidos.
– O governo de Golda Meir sabe disso?
– Ignoro-o – respondeu Curtiss com um gesto de impotência. – Essa será outra
das questões a tratar em Atenas.
Longe de tranqüilizar-nos, as revelações do diretor do projeto acrescentaram
novas dúvidas aos nossos corações. Que tipo de ameaça pairava sobre a estação
receptora de imagens do Big Bird? Mas, acima de tudo, como conjugar aquela grande maré de intrigas com a idéia, implicitamente aceita pelo General, de
“regressar” ao tempo de Cristo?
Naquela madrugada, enquanto acompanhávamos Curtiss ao Aeroporto
Internacional Ben Gurion, em Lod, uma sensação muito familiar percorreu-me a
espinha. Era o prelúdio – quase me atrevi a afirmar que era um aviso – de uma
iminente cadeia de acontecimentos.
Com sua proverbial prudência, Curtiss escolheu um vôo regular da companhia
judaica El Al para voar à Grécia. E antes de partir, levado quem sabe por uma força
oculta ou misteriosa, deixou no ar um pedido que a mim, pessoalmente, fez
alimentar certas esperanças...
– Não sei se devo – sussurrou detendo-se diante da pequena escultura
levantada em memória do piloto Dan Heymann –, mas, mesmo que seja por uma
única vez na vida, quero seguir minha intuição...
A delicada estatueta simbolizava um ser humano alado, ligeiramente inclinado
para trás, como se fosse alçar vôo. Curtiss acariciou-a, comovido, sem dúvida,
diante do curioso “encontro” com uma imagem tão próxima de nossos mais íntimos
desejos.
– ... Se não acontecer um milagre – acrescentou –, nosso retorno a Edwards
pode demorar indefinidamente. Aceitando em princípio tal circunstância e contando
com sua absoluta discrição, posso recomendar-lhes algo?...
Aquela inegável mostra de confiança encheu-nos de satisfação. E, como um só
homem, o incentivamos a prosseguir.
– Quero que executem um plano de trabalho... – o General parecia já
arrependido daquela decisão impulsiva, mas, após alguns segundos de ansioso
silêncio, concluiu – destinado à recuperação do microfone. Lógico, tudo isso é tão
aleatório quanto confidencial... Ah! e esqueçam-se da fase de lançamento. Quero
unicamente – falou com ênfase – as linhas mestras de uma possível segunda
“exploração”... Boa sorte! Tornaremos a ver-nos quando eu voltar.
Mudos e imóveis como estátuas, vimos desaparecer aquele homem
imprevisível. Já não havia tempo de fazer-lhe qualquer das muitas perguntas que
começavam a formar-se em nossas desconcertadas mentes.
A viagem de retorno a Jerusalém foi muito significativa. Nenhum de nós
pronunciou uma só palavra. Entretanto, nossos pensamentos – Eliseu o confirmaria
nessa mesma manhã de 13 de fevereiro – giraram em torno da mesma ansiosa
perspectiva: a incrível possibilidade de uma segunda “grande viagem”...
Tentando acalmar nosso ânimo, concedemo-nos um tempo de repouso. Às 13
horas voltaríamos a reunir-nos e trocaríamos impressões. Inútil pretensão. Meia
hora depois de haver-me deitado, ergui-me, muito excitado, voltei a vestir-me e fui
bater à porta do quarto de meu irmão. Tão alterado quanto eu, Eliseu nem sequer
havia tentado dormir. Era difícil entender como meu organismo – após mais de 48
horas de vigília – não acusava cansaço algum.
O caso é que, com um entusiasmo febril, pusemo-nos logo a elaborar uma série de possíveis planos de trabalho. Todavia, após duas horas de intenso trabalho,
acabamos por claudicar. Uma infinidade de parâmetros foram manipulados, mas os
esquemas e rascunhos chocavam-se sempre com duas incógnitas fundamentais.
Por um lado, de quanto tempo real iríamos dispor, na suposição de que a segunda
exploração fosse, de fato, executada? Por último, quais deveriam ser os pontos de
lançamento e contato?
Sem essas informações prévias, nossas idéias e nossa boa vontade resultavam
estéreis.
– Além do mais – lembrou Eliseu com razão –, por que forjarmos esperanças
quando não há nada de seguro? Melhor seria esquecer o assunto...
Durante algum tempo permaneci em silêncio, analisando a esmagadora lógica
de meu companheiro. Mas, graças aos céus, acabei por rebelar-me contra o bom
senso e animei Eliseu a prosseguir naquele aparente absurdo.
– Se nós – observei-lhe com todo o meu entusiasmo –, que vivemos tão
extraordinária experiência, não formos capazes de avivar a vontade de Curtiss,
quem crê você que esteja em condições de fazê-lo?
E, após uma pausa estudada, colocando minhas mãos sobre seus ombros e
olhando-o fixamente, acrescentei:
– Temos de consegui-lo. Eu desejo, preciso voltar...
Ao perceber que, inconscientemente, havia adotado um dos típicos gestos de
Jesus de Nazaré ao falar ou ao dirigir-se a alguém que apreciava, um calafrio
percorreu-me o corpo. Eliseu com certeza o notou e, pela primeira vez, abriu seu
coração, confessando-me algo em que eu não havia reparado durante nossa
permanência na Palestina do ano 30...
– Sim, essa é também minha obsessão. E não se esqueça de que eu não tive
ocasião de vê-lo...
Fiquei paralisado e, ao mesmo tempo, humilhado pelo meu deslavado egoísmo.
Durante os onze dias de exploração, meu fiel e querido companheiro não havia, de
fato, abandonado o módulo um só instante.
A partir daquela inesperada confissão, uma louca idéia começou a amadurecer
em meu coração. Mas disso falarei no devido tempo.
A ilusão, finalmente, tomou conta de Eliseu; então, deixando de lado as
dificuldades, concentramo-nos no único plano aparentemente viável.
Posto que o objetivo básico desta segunda exploração era a recuperação da
peça perdida – esse foi, pelo menos, nosso argumento inicial –, o novo “salto” no
tempo deveria acontecer, necessariamente, nas horas próximas a 6 de abril,
Quinta-Feira Santa. Entretanto, ao fixar o instante preciso para a inversão de
massa, ambos concordamos que seria muito mais prático e interessante retomar a
exploração nas primeiras horas do amanhecer de domingo, 9 de abril do ano 30.
Além disso, nem ele nem eu nos sentíamos com forças para “reviver” as amargas
etapas da Paixão e Morte do Filho do Homem...
Após um detalhado estudo, concordamos, pois que o “salto” deveria acontecer por volta das 3 horas do Domingo da Ressurreição e que, se possível, a localização
do “ponto de contato” da nave recairia nas coordenadas utilizadas na missão
anterior. Quer dizer, na cota máxima do monte das Oliveiras. Isso facilitaria um
rápido acesso ao lugar onde supúnhamos estar o farol: um dos bairros de artesãos
– talvez na cidade alta – de Jerusalém. Depois, de acordo com o tempo estipulado
para a missão, haveria a possibilidade de investigar outro fascinante e obscuro
capítulo da “vida” de Cristo: suas aparições após a ressurreição.
Aquele dia de trabalho e o seguinte foram decisivos. Muito mais do que
poderíamos imaginar então...
Absortos nos detalhes da preparação do audacioso projeto, do equipamento e
de uma infinidade de detalhes técnicos, quase nem sentimos passarem as horas.
E finalmente chegou o 15 de fevereiro.
Naquela manhã de quinta-feira, uma chamada do recepcionista do Ramada
Shalom precipitaria os acontecimentos. Minutos mais tarde, às 10 horas, um veículo
oficial da Embaixada dos Estados Unidos deixava-nos defronte ao número 53 da rua
Rabiah A’dawieh, a trinta passos da capela da Ascensão.
Ao descermos do carro chamou-nos a atenção uma ostensiva segurança
montada pelo Exército israelense, responsável pela vigilância do exterior da praça
que circundava o octógono e os improvisados hangares. Aquele súbito reforço do
dispositivo de cerco do nosso quartel-general alarmou-nos. Alguma coisa grave
devia estar acontecendo para que em questão de horas – havíamos abandonado o
recinto na manhã de segunda – o número de soldados fosse triplicado. Por um
instante, enquanto atravessávamos os controles, cheguei a pensar no pior: teriam
os judeus descoberto a existência do “berço?”
Tranqüilizamo-nos quando, ao galgar os oito degraus de pedra que conduzem à
“ante-sala” da capela, divisamos Curtiss junto à pequena porta de acesso.
Mostrava-se abatido como se não tivesse dormido desde nosso último encontro em
Lod. E assim era. Enquanto percorríamos os doze metros que separavam a
portinhola do centro da praça, confessou-nos que – “dada a gravidade da situação”
– havia voltado de Atenas na mesma noite de segunda-feira, 12 de fevereiro.
Eliseu e eu trocamos um olhar de incompreensão. Mas o General, com voz
cansada, pediu-nos que o acompanhássemos até o hangar onde havia acontecido a
primeira e não concluída reunião. Ali, entre os sofisticados equipamentos Thomson
– CSF, destinados à recepção de imagens do Big Bird, aguardavam os diretores do
programa, silenciosos e prontos para entrar em ação.
Sentamo-nos todos ao redor da pequena mesa central e ninguém fez qualquer
comentário. Todos os olhares concentravam-se em Curtiss.
– Bem, senhores – disse ele, após tirar uma pequena pasta de couro negro de
uma maleta à sua frente (se não me falhava a memória, era a única bagagem que
levara em seu vôo à Grécia) –, imagino que se estarão fazendo algumas
perguntas... Tentarei prosseguir por partes.
Sem pressa, Curtiss repassou uma série de notas manuscritas. Ao levantar os olhos da leitura, o chefe captou de imediato a crescente inquietude geral. E,
forçando um sorriso, exclamou:
– Não se alarmem. O que viram lá fora – seu dedo indicador esquerdo apontou
para o exterior do octógono – nada tem a ver com os reais objetivos do programa.
Ao menos, acho que assim seja...
E, voltando aos seus documentos, fez uma nova e desesperadora pausa.
– Não importa como – prosseguiu finalmente –, mas o caso é que à Agência
Central de Inteligência e à Segurança de Israel, o Mossad, chegou uma
informação... alarmante: o movimento guerrilheiro palestino tem conhecimento da
operação conjunta que estamos desenvolvendo com o governo de Golda Meir.
Refiro-me à instalação da estação receptora de fotografias via satélite.
A expressão de cada um refletia a extrema gravidade da situação. A
Inteligência Militar israelense, em especial a partir da guerra dos Seis Dias, em
1967, era considerada como a mais eficiente do mundo, sobretudo em assuntos
vinculados ao Oriente Médio. Nenhum dos assistentes duvidava de tal revelação.
– É mais do que certo – continuou Curtiss – que, a essa altura, tanto a OLP
como os serviços secretos egípcios, sírios e, naturalmente, soviéticos também
estejam a par e já devam ter adotado medidas oportunas.
Durante aqueles dramáticos momentos ninguém percebeu uma sutil e,
suponho, involuntária revelação do General. Por que, ao referir-se aos serviços
secretos, havia mencionado apenas Egito, Síria e União Soviética? Dias mais tarde
teríamos ocasião de conhecer a razão desta tríplice alusão.
– ... Na última terça-feira, e no mais estrito sigilo, tive a oportunidade de
reunir-me com Kissinger...
Os diretores do projeto entreolharam-se atônitos, associando, sem dúvida,
aquela reunião à súbita partida do General daquele mesmo hangar. Mas ninguém
comentou o fato, deixando que Curtiss prosseguisse.
– ... O conselheiro presidencial dispunha de informações de primeira mão. Suas
ordens foram taxativas: por nada do mundo devemos arriscar a vida dos nossos
homens nem o instrumental que nos foi confiado.
Não havia necessidade de mais explicações. Ao referir-se à palavra
“instrumental”, todos sabíamos de que se tratava realmente.
– ... Pois bem, por expresso desejo de Kissinger, e contando sempre com o
beneplácito do governo de Israel, a estação receptora de fotografias deve ser
desmontada imediatamente.
Curtiss recolheu os documentos, colocou-os em sua pasta e, dirigindo-nos um
olhar de cumplicidade, esclareceu:
– Isto implica substancial mudança em nossos planos originais. De momento, a
não ser que os chefões de Washington disponham diferentemente, o retorno à base
Edwards fica adiado. Ontem mesmo, quando do meu regresso de Atenas, reuni-me
sem perda de tempo com o “gabinete de cozinha” de Golda.11 O único assunto da
pauta, como terão intuído, foi este: que fazer com a estação receptora? Estiveram presentes a primeira-ministra, Golda, o vice-primeiro-ministro, Alon, o ministro da
Defesa, nosso sempre angustiado Moshe Dayan, o chefe do Estado-Maior, tenente-
general David Eleazar, o chefe do Departamento de Investigação do Serviço de
Inteligência, general-de-brigada Arié Shalev, e o chefe do Serviço de Inteligência,
general Zeíra. Após hora e meia de intenso debate, e por motivos que de momento
não estou autorizado a revelar-lhes, o governo de Israel mostrou-se de acordo com
a imediata desmontagem das instalações, concordando também com sua remoção
para outro lugar secreto.
(Como já relatei antes, em um minucioso estudo elaborado em Washington
pelo CIRVIS,12 com a estreita colaboração do Departamento Cartográfico do
Ministério da Guerra de Israel, ficara estabelecido que a instalação da rede
receptora de imagens do satélite artificial Big Bird deveria efetuar-se em um prazo
máximo de seis meses, a partir da data da chegada do instrumental à cidade de
Tel Aviv. Isso aconteceu em janeiro de 1973. Os especialistas, em uma primeira
fase, procurariam fazer essa instalação de forma adequada e definitiva. Para isso,
os militares israelenses designaram três possíveis pontos: o cume do monte das
Oliveiras, as colinas de Golan – em mãos israelitas desde a contenda de 1967 – e
os maciços graníticos do Sinai.)
Os diretores do projeto quebraram seu mutismo lançando sobre o General uma
torrente de perguntas: “Quando se dará a desmontagem? Quais os pontos
alternativos – colinas de Golan ou Sinai – escolhidos? Que acontecerá com o ‘berço’
e com todos nós?”
Curtiss, recobrando seu sorriso, pediu ordem e calma.
– Eis o que posso adiantar-lhes... Por enquanto, as previsões e avaliações da
Inteligência israelense estimam que a situação geral no Oriente Médio tende
perigosamente ao agravamento. E rogo-lhes que não me perguntem o porquê. O
importante, o que a nós importa diretamente, é que, por decisão do governo de
Golda, a estação receptora é agora mais vital do que nunca e os militares judeus já
estão procurando outro local para sua instalação... Nenhum daqueles previstos
inicialmente. Tanto eles como nós dispomos de um prazo máximo de três dias para
localizar esse lugar e fazer a remoção. Kissinger considera nossa presença nessa
nova etapa do projeto absolutamente necessária. Não podemos nem devemos
despertar suspeitas. Para os judeus somos os proprietários dos equipamentos e
responsáveis por eles, e assim continuará sendo... Mas há algo mais – anunciou
Curtiss adotando um tom solene. – Algo com que não havíamos contado e que,
pensando bem, poderíamos qualificar como um novo e apaixonante desafio.
Apreensivo, instintivamente busquei o olhar de Eliseu. Não sei como, mas o
fato é que eu sabia o que o General estava prestes a comunicar-nos. Pela primeira
vez, em todos os anos em que convivemos, percebi um ligeiro tremor nas mãos de
Curtiss. E sua voz ficou embargada pela emoção. Jamais esquecerei aquela solene
afirmação:
– Senhores, “regressaremos”.
Obviamente, os diretores do projeto não compreenderam o significado
daquelas duas palavras. E um deles, interrompendo-o, lembrou-lhe que, se não
havia entendido mal, a volta para casa fora adiada.
Os olhos de Curtiss faiscaram maliciosamente.
– Senhores – insistiu, enfatizando cada sílaba –, “regressaremos”.
Em segundos, os membros da equipe apreenderam o que o General dissera e o
aplaudiram de pé, calorosamente.
Todos sabiam do extravio do microfone e todos, no fundo do coração,
esperavam e desejavam uma segunda oportunidade.
Passados, porém, os primeiros minutos de previsível entusiasmo, os frios e
racionais diretores do programa despertaram para a crua realidade, expondo a
Curtiss uma interminável série de dúvidas. Alguns daqueles obstáculos técnicos já
haviam sido analisados por nós nas horas de profunda reflexão e enclausuramento
no hotel.
Curtiss escutou pacientemente. Por último, olhando-nos fixamente, fez uma
pergunta concisa:
– Têm algo a dizer?
– Há uma possibilidade...
Antes, porém, que continuássemos com o plano traçado no Ramada Shalom, o
General deu por finalizada a reunião.
– Disso – atalhou ele diante da curiosidade geral – falaremos no seu devido
tempo. Agora faz-se necessário desmontar logo o módulo e embalar os
equipamentos. Senhores, mãos à obra!
A partir dessa decisiva reunião, os homens do Cavalo de Tróia empenharam-se
no estafante trabalho de desmontagem geral. A maioria dos técnicos, alheia aos
fatos que acabamos de conhecer, perguntou-se o porquê daquela estranha pressa
e do reforço das medidas de vigilância e segurança externas. Foi o próprio General
– em mangas de camisa e trabalhando freneticamente como os outros – que
insinuou, discretamente, que existia o risco de um atentado terrorista contra a
estação e por isso devíamos estar prontos para sua imediata transferência.
Em um dos breves períodos de descanso, Curtiss adiantou-nos outros
acontecimentos intimamente ligados – sempre segundo o Mossad – com a grave
ameaça que pairava sobre a estação receptora de fotografias. Os agentes israelitas
infiltrados em Beirute, Amã e Roma haviam descoberto um plano para assassinar o
rei Hussein da Jordânia, que naquela altura – primeiros dias de fevereiro –
realizava uma visita semi-oficial aos Estados Unidos.13 O grupo guerrilheiro
palestino Setembro Negro planejava apoderar-se de diversos edifícios
governamentais de Amã, fazendo prisioneiros vários dos ministros jordanianos. Ao
que parecia, as intenções de Hussein de negociar a paz com Israel não era do
agrado dos palestinos que, aproveitando-se da ausência do monarca, haviam
conseguido infiltrar-se em território jordaniano fazendo-se passar por turistas dos
Estados do Golfo Pérsico. Alertado pelo Mossad, o serviço de contra-espionagem da Jordânia deteve um bom número de ativistas, apreendendo um total de vinte
automóveis. Entre os guerrilheiros que entraram por via aérea, procedentes da
Europa, achavam-se dois indivíduos recentemente libertados pelas autoridades
italianas: Ahmed Zaid, estudante iraquiano, e Adnah Hasem, jordaniano, acusados
de tentar derrubar um avião da companhia israelenses El Al.14 Nos interrogatórios
que se seguiram às detenções, os jordanianos obtiveram informações sobre alguns
dos projetos imediatos das diferentes facções guerrilheiras palestinas. Entre os
mais importantes destacavam-se “a tomada de uma embaixada árabe num
determinado país do continente africano”,15 “a criação de um arsenal e infra-
estrutura para o ataque às aeronaves comerciais judaicas na Europa”16 e o “assalto
de um comando suicida à Mesquita de Ascensão”. Era óbvio que este último projeto
terrorista só poderia ter sido inspirado em uma informação precisa de que os
Estados Unidos e Israel estavam trabalhando no programa Big Bird. Tão graves
acontecimentos – totalmente alheios à nossa verdadeira missão – só fizeram
perturbar os corações da equipe, que se entregou até o limite da sua capacidade à
delicada operação de “limpeza” dos barracões.
Dois dias depois – no sábado, 17 de fevereiro –, com pouco mais de 24 horas
aquém do previsto, o “berço” havia sido desmontado e colocado em três
contêineres blindados.
Como coincidia com o dia sagrado dos judeus, Curtiss, astutamente, apressou-
se a dizer-lhes que podiam liberar o recinto da mesquita. Contudo, como era de
esperar, não aceitaram e continuaram a participar das últimas etapas da
evacuação, até o pôr-do-sol. Aquela providencial coincidência proporcionou-nos
uma preciosa margem de quase seis horas, durante as quais quase todos os
consoles e equipamentos eletrônicos da estação propriamente dita foram
desmontados, misturados e confundidos com os caixotes metálicos que continham
o módulo e instrumentos auxiliares.
Minutos após o ocaso – perto das 17h45 –, os técnicos e oficiais israelenses
entravam na praça, iluminada, já, por potentes refletores, e passaram a colaborar
com nossos homens no desmantelamento final.
Ao amanhecer, a operação estava concluída. Tudo estava disposto para o
traslado. Mas para onde? Qual o ponto escolhido?
Por prudência, evidentemente – e segundo as ordens do General de Brigada
Arié Shalev, chefe do Departamento de Investigação do Serviço de Inteligência
israelense –, os arqueólogos (ou supostos “arqueólogos”) deveriam permanecer no
interior da capela da Ascensão até 48 horas após a saída definitiva do material. Os
árabes, proprietários e mantenedores do santuário, atentos a todos os nossos
movimentos, poderiam ter suspeitado de algo se os experts da Universidade de
Jerusalém, da Escola Bíblica e Arqueológica Francesa da Cidade Santa e do Museu
de Antiguidades de Amã – integrantes da “divisão especial” encarregada pelo
governo de Golda Meir das escavações e reparação das fundações da face leste da
inesquecível mesquita, supostamente danificadas pelo atentado simulado pelos agentes de Dayan – houvessem evacuado a zona ao mesmo tempo que retiravam
a carga. Essa carga, segundo as parcas informações que chegaram até nós na
época, desapareceria do local durante a noite, aos poucos, para levantar o mínimo
de suspeitas. A grande pergunta que nos fazíamos durante essas tensas horas de
trabalho, e que Curtiss ainda não pudera ou não soubera esclarecer, era de
importância decisiva para o planejamento da primeira fase da aventura que nos
aguardava: “Qual o local escolhido para a implantação da estação receptora do Big
Bird?”17 Essa nova e tão esperada decolagem do módulo, e talvez boa parte da
segunda exploração, dependiam do minucioso conhecimento do ponto onde seria
levantada a estação receptora. Logicamente, ao abandonar o monte das Oliveiras,
esse misterioso local tinha de estar longe do que, em princípio, já constituía para
nós o “ponto do contato” da nave: o cume do monte que agora estávamos prestes
a deixar. Para superar este inconveniente, os diretores do projeto – reunidos com
Eliseu e comigo durante todo o domingo para planejar todos os pormenores do
segundo “grande salto” – estabeleceram duas únicas soluções. Se a distância entre
o novo assentamento e o monte das Oliveiras fosse considerável, o “berço”, uma
vez efetuada a decolagem e a imediata inversão de massa, deveria superar essas
milhas em um vôo horizontal. Isso complicava ainda mais as coisas. Entre outras
razões, pelo óbvio consumo extra de combustível. Um carregamento de peróxido
de hidrogênio, por certo, deveria chegar, secretamente, dos Estados Unidos...
Se, ao contrário, não fossem muitos os quilômetros a separar-nos do “ponto de
contato”, talvez o mais prudente fora mudar a zona de descida, cobrindo a pé o
caminho até Jerusalém. Nesse caso, dado o indubitável risco que representaria
uma caminhada dessas, a estratégia deveria ser radicalmente mudada.
Por expresso desejo de Curtiss, a quem praticamente não vimos até terça-feira,
20 de fevereiro, a reduzida equipe que dirigia o Cavalo de Tróia viveu aqueles dias
única e exclusivamente para a segunda aventura.
Em nosso afã para acertar os últimos detalhes de tão apaixonante e – por que
negá-lo? – perigosa missão, analisamos, nos primeiros momentos, até a
possibilidade de que as colinas do Golan ou os maciços do Sinai pudessem ser
reconsiderados pelo governo israelense como uma das plataformas para a
instalação definitiva da estação. O General havia-nos advertido de que, dada a
situação no Oriente Médio, os dois locais alternativos haviam sido descartados pelo
Estado-Maior judeu. E não tivemos outro remédio senão nos render à evidência
quando, nesses dias, a imprensa de Jerusalém ventilou os acontecimentos
registrados na última quinta-feira, e justamente nas áreas de litígio. No golfo de
Suez, muito próximo ao Sinai, um avião do Egito e um de Israel haviam sido
atingidos em um duelo entre as forças aéreas de ambos os países, enquanto nas
colinas do Golan tropas sírias destruíam dois carros blindados e uma escavadeira
israelenses que cruzaram a linha de fogo intenso com a finalidade de construir uma
estrada na zona desmilitarizada.
A tensão entre Israel e seus vizinhos árabes continuava aumentando de forma alarmante, ameaçando também nossos objetivos. Mas as horas mais amargas
ainda estavam por vir...
Na manhã de segunda, 19 de fevereiro, aproveitando uma forçada interrupção
em nossas sessões de trabalho, e quase sem o querer, meus passos levaram-me a
um lugar que eu havia evitado até então: a Cidade Velha de Jerusalém. Eliseu e os
diretores ocupavam-se na sede da embaixada norte-americana com a tramitação
da mala diplomática que levaria os sismogramas obtidos na primeira exploração e
que deveriam ser estudados com prioridade absoluta, em meu país, pelo Centro
Geológico do Colorado e pela Administração Nacional do Oceano e da Atmosfera
(NOSA). Enquanto isso, deixei-me arrastar por uma necessidade quase imperiosa:
caminhar lenta e pausadamente pelos mesmos (?) lugares da Cidade Santa onde –
“séculos antes” – havia vivido tão incríveis e traumatizantes experiências.