Cavalo de Tróia 2: Massada
De 11 de abril, terça-feira, a 14 de abril, sexta
De 11 de abril, terça-feira, a 14 de abril,
sexta
Daqueles dias – de terça a sexta – guardo uma lembrança doce e serena. Em
nossas fatigantes aventuras, tanto nas que eu havia vivido até esse momento,
como nas que nos reservava o destino, a Eliseu e a mim, os dias transcorridos na
aldeia de Betânia foram os únicos de certo modo repousantes. E fizemos bem em
desfrutar deles e em repor as forças. O que nos esperava a partir de segunda-feira,
17 de abril, seria tão esgotante quanto imprevisto. Mas vamos por partes, segundo
meu costume.
Ajustando-nos ao estabelecido no plano do Cavalo de Tróia, assim que clareou
aquela manhã de terça-feira, 11 de abril, pus-me a caminho. As quatro ou cinco
horas de sono não haviam sido suficientes, mas dei-me por satisfeito com o
desjejum “à americana” que, solícito como uma mãe, meu irmão me preparou. O
café e as batatas – desconhecidos à época em Israel – foram uma bênção. Então,
com os panos mortuários prudentemente ocultos sob minha túnica, encaminhei-me
para a quebrada onde haviam sido atirados pelo servo do Sinédrio.
As condições meteorológicas não variaram naquelas horas. O vento de rajadas
do leste continuava soprando pertinaz, dobrando as colunas de fumaça dos animais
sacrificados no Templo, escurecendo a cidade e empestando-a com um
desagradável cheiro de carne queimada.
Nessa ocasião – em plena luz do dia – a descida pelo sopé ocidental do monte
das Oliveiras e o cruzamento do desfiladeiro do Cedron não se revestiram do perigo
de minha primeira incursão na madrugada de domingo. Contornei a cidade pela
muralha norte e, quando me encontrava relativamente próximo ao pequeno bosque
de alfarrobeiras – cujas flores de um vermelho vivo me serviram de guia e
referência –, experimentei uma típica sensação. Voltei-me, mas nada vi de
suspeito. Dei de ombros e retomei a marcha. Mas o estranho desassossego não
desapareceu. Era como se alguém me seguisse. Temeroso de que pudesse tratar-
se de algum esbirro do Sinédrio ou mesmo de um “agente” do procurador, cheguei
a ocultar-me entre as ramagens disposto a tirar as dúvidas. Não consegui: “talvez
me esteja tornando excessivamente receoso”, tranqüilizei-me. Dias depois,
comprovaríamos que a perseguição havia sido real, o que nos forçou a antecipar a
decolagem do “berço” rumo à alta Galiléia.
“Além do mais” – continuei com minhas racionalizações, enquanto deslizava
sigilosamente para o fundo da escarpa –, “que interesse poderia ter para Pôncio ou
para Caifás e sua gente seguir um ‘inocente e infeliz’ comerciante grego?”
O incidente desapareceu logo de minha memória. Coloquei os panos no lugar
onde os havia encontrado, com o cuidado de envolvê-los em forma de fardo, tal como haviam sido dispostos pelo servo do sumo sacerdote. Tudo devia guardar
uma aparência de normalidade, como se ninguém os houvesse tocado desde
aquela manhã de domingo. Assim o exigia nosso código.
Antes de retirar-me, e enquanto contemplava a mortalha, não pude evitar uns
tentadores pensamentos que, suponho, não haveriam agradado a Curtiss. Era uma
lástima que aquele “tesouro” – carregado da evidência física e constatável de “um
mais além” – pudesse perder-se ou destruir-se. Ergui os olhos para o límpido céu
azul, vendo com inquietude o vôo circular de algumas aves carniceiras. Talvez
corvídeos. Era provável que descobrissem a trouxa de panos, atraídos pelo nítido
odor de ácido sulfídrico, outro dos sinais da decomposição cadavérica do corpo do
Senhor. Nessa lamentável suposição, a valiosa relíquia poderia ficar seriamente
danificada.
“E se eu ignorasse as normas do Cavalo de Tróia? Que poderia ocorrer se, em
lugar de deixá-los ali, os entregasse aos íntimos do rabi?”
Acocorei-me diante da mortalha e por vários minutos, enquanto a acariciava,
lutei comigo mesmo. No fundo era muito simples. Bastava passar pela casa de
Marcos ou de José de Arimatéia e colocá-la em mãos de qualquer um dos dois. “E
mais” – continuei pensando, dominado por um crescente entusiasmo –, “este seria
um esplêndido presente para a família do Ressuscitado...”
Meu objetivo seguinte, como já disse, era Betânia. A fazenda de Lázaro. Por
que não aproveitar semelhante oportunidade para evitar o risco de que o sudário
se perdesse?
Tornei a apanhar os panos, mas, no último momento, meu senso de
responsabilidade impôs-se. Ainda ao risco de que chegassem a perder-se para
sempre, eu não tinha direito de interferir na flecha da História. E, com grande
pesar, recoloquei-os entre a ramagem, procurando, isso sim, que o forte vento não
os arrastasse. Dispus algumas grandes pedras ao seu redor, camuflando-os sob
uma planta de cheiro tão nauseabundo que eclipsou por completo o dos panos.
E com o Sol em ascensão sobre os cerros de Moab, desfiz o caminho retomando
ao cume do monte das Oliveiras. Minha passagem ao sul da clareira onde se
assentava a nave foi aproveitada por meu companheiro de aventuras e
desventuras para recordar-me que dedicaria aquele e os dias seguintes a um maior
aproveitamento dos dados recolhidos nas investigações sobre o lençol. Pediu-me
ainda que não me esquecesse da data de minha volta ao módulo, prevista para
sexta, 14. Os preparativos para a última etapa da exploração eram sumamente
complexos.
Ao encerrar a conexão, Eliseu anunciou-me:
– Papai Noel e eu descobrimos outra assombrosa coincidência ou “casualidade”
(como você chama estes assuntos), em relação ao “9”...
Eliseu conhecia minha ardente curiosidade e, divertido, me deixou com água na
boca. Não consentiu em adiantar-me nada do que havia sido encontrado por ele e
pelo computador central. (Depois me confessaria que a descoberta havia sido coisa do Papai Noel, única e exclusivamente.) O agudo estado de expectativa em que
Eliseu me deixou despertou minhas lembranças sobre o curioso assunto do “9” e a
vida de Jesus de Nazaré, e tais pensamentos e lucubrações encurtaram minha
descida pela rampa oriental.
Não podia compreender o porquê daquela coincidência. Ou não era tal? Um “9”
marcava o nascimento do rabi. Outro “9”, sua própria existência e, no momento,
um terceiro “9”, sua morte, ressurreição e ascensão ou desaparição da Terra:
“999”. Lastimei não ser um expert em Cabala ou em numerologia para decifrar
aquele enigma!
Só o que então sabia era que o “999” era uma cifra oposta ou contrária ao
apocalíptico “666” de São João, que era múltiplo de “3” – outro esotérico símbolo
da Trindade – e que, segundo meus parcos conhecimentos, o “9” tem sido
considerado pelos iniciados como o número da Humanidade ou do Homem. Seria
certo o que reza o velho provérbio: “Que Deus goza do número ímpar e que todo
trino é perfeito”?
Mas a súbita aparição da alvíssima aldeia de Betânia devolveu-me à realidade.
E, do mesmo modo que meus passos, também meu coração viu-se alegremente
acelerado. Nem Marta nem Maria sabiam do meu regresso e isso tornava mais
excitante a fase seguinte da minha “observação”.
Minha volta foi acolhida com surpresa. Em minha despedida, havia tentado
explicar minha saída de cena informando a Marta, a “senhora”, que eu devia
empreender uma viagem inevitável. E assim ocorreria, de fato. Mas, ante a
impossibilidade de explicar a natureza de semelhante “viagem”, ao voltar a ver as
irmãs, tive de desculpar-me, alegando uma repentina mudança de planos. Minha
explicação foi perfeitamente compreendida e elogiada pela nova “chefe” da família
(Lázaro, como já referi, havia sido obrigado a fugir precipitadamente para o leste –
para Filadélfia –, por causa das ameaças de morte de Caifás). A desculpa foi a
prisão e execução do Mestre.
Marta e Maria – especialmente a primeira – passaram da surpresa a um vivo
contentamento. Seus corações, sobretudo devido aos fatos ocorridos na fazenda na
manhã de domingo, estavam transbordantes de esperança. Davi Zebedeu também
se congratulou pela minha chegada, interrogando-me sobre os últimos
acontecimentos. Certamente, todos ali achavam-se a par das aparições de Jesus
nas casas de José de Arimatéia, de Flávio e da família Marcos e ainda da registrada
no caminho entre Jerusalém e Emaús. A feliz circunstância de me encontrar
presente na última das manifestações do rabi foi de grande ajuda para mim. Ao
longo dos dias que se seguiram a meu retorno à fazenda de Lázaro – cumprindo o
plano do Cavalo de Tróia – deveria iniciar intensa investigação em torno da
juventude e dos não menos obscuros anos que precederam a “vida pública” do
Filho do Homem. O providencial fato de contar na casa com Maria, a mãe de Jesus,
e com vários dos irmãos carnais do rabi, era algo que não podia desperdiçar.
Aquelas pesquisas e indagações, por outro lado, teriam um decisivo resultado – como se verá – para a última fase do nosso trabalho na Galiléia. Meu tenaz
acompanhamento do Nazareno em suas últimas horas foi tomado pela família,
pelos amigos de Cristo, como uma “definitiva prova de meu amor e cuidado pelo
condenado”. E seus corações, agradecidos de certo modo, abriram-se de par em
par para as minhas muitas e, em certas ocasiões, “delicadas perguntas”. Tiago,
sobretudo, que idolatrava seu irmão maior, e com o qual havia partilhado penas e
alegrias, constituiu uma fonte de informação que jamais poderei avaliar. Mas
tentarei não perder o fio da cronologia...
Para dizer a verdade, quando pus os pés na casa de Lázaro, as opiniões sobre a
volta à vida do Galileu não eram de todo uniformes. Explico-me. Na casa, junto às
donas, alojavam-se Davi Zebedeu e Salomé, sua mãe, Maria e seu segundo filho,
Tiago, já citados, e outros quatro irmãos do rabi: José, Simão, Jude ou Judas, e a
mais nova, Rute.
Por antigas e complexas razões que explicarei no momento oportuno, parte da
família terrena de Jesus não compartilhava suas idéias e ensinamentos. Daí que,
ao ser desonrado publicamente, as velhas restrições às “ânsias de grandeza” do
Primogênito de Maria se houvessem exacerbado, ocasionando choques entre os
membros da família. Uma situação, afinal, tão habitual quanto humana entre os
homens.
A segunda das aparições do Ressuscitado em Betânia – à quase totalidade dos
ocupantes da casa naquele momento – havia retificado as posturas em não pouca
medida. Mas, ainda assim, as dúvidas continuavam pairando no espírito de vários
dos irmãos de Jesus. Não negavam a realidade da estranha “presença”, mas,
possuídos das ancestrais crenças judaicas sobre a morte, diziam que talvez o que
haviam visto fosse uma refa: uma espécie de “sombra” que, de acordo com essas
idéias, era só o que subsistia após o falecimento, e a qual até se podia invocar, tal
qual relata o Livro I de Samuel (XXVIII). (Este texto conta como, a pedido do rei
Saul, a bruxa Endor conseguiu fazer visível a sombra de Samuel.) Para os hebreus
daquele tempo, as refaim ou “sombras” dos mortos “viviam” no seol ou “região das
trevas e das sombras da morte”, como cita Jó.
No Antigo Testamento – como é o caso de Job XIV, 13 –, faz-se uma alusão
direta ao seol especificando que “está tão distante da terra dos homens que nem
sequer a cólera de Yavé pode alcançá-los”. 168 A morte – isso é importante para
entender a postura daqueles homens – era o fim. Com ela tudo se acabava. Isso se
repete mais de cem vezes nos livros sagrados do Antigo Testamento. Quando o
“anjo da morte” citado no Talmud “depositava a gota de bile amarga” – primeiro
sinal, sem dúvida, da putrefação – “entre os lábios do defunto, arrebatava-lhe a
alma, desaparecendo”. Era o último sinal: a ruach ou “alma” ou “sopro da vida”
ascendia – como cita o Eclesiastes (III) – para os céus. E a respiração cessava. A
partir da presença do “anjo da morte”, o corpo ou bachar começava a sua
decomposição, volvendo ao pó.
Ainda que possa parecer incrível, as crenças dos hebreus sobre a morte – tão ricas em outros aspectos materiais e espirituais – eram pobres. Quase asfixiantes
para um espírito medianamente sensível. Quanto à ressurreição, a Lei não se
pronunciava com clareza. Deixava livre escolha a cada seita. Cada qual podia crer
ou não nela. Assim, por exemplo, a casta dos saduceus negava-se categoricamente
a aceitar a ressurreição dos corpos. “Não está no Pentateuco”, esgrimiam-se em
suas acres e seguidas polêmicas com seus diretos refutadores: os fariseus. E os
samaritanos apoiavam esse argumento. Quanto ao povo simples, como sempre,
preferia consolar-se com a poética possibilidade de um “além” mais complacente
do que sua dura existência. Alguns mestres ou rabis se haviam preocupado em
pregar essa esperança. Gamaliel, entre outros, forjou sua crença na ressurreição e
no “prêmio” ou “castigo” divinos com base em citações isoladas dos profetas
(Isaías XXVI, 19, ou Ezequiel XXXVIII), do Deuteronômio (XXXI, 16) ou em
aforismos, como aquele que diz: “E, depois que minha pele se desprender de minha
carne, em minha carne contemplarei a Deus” (Job XIX, 26).
Esta confusão, em suma, não contribuiu precisamente para assentar as coisas.
O ceticismo de alguns membros da família de Nazaré – tal como havia acontecido
aos discípulos – era tão pétreo em relação à ressurreição de Jesus que até
chegaram, durante o sábado, a discutir a necessidade de “honrar a memória do
Crucificado com um mínimo de decência e dignidade”. Falou-se da celebração do
primeiro dia da semana (o domingo) do chamado “pão de luto”, 169 citado por
Oséias (IX, 4) e Ezequiel (XXIV, 17) e que vinha a ser uma comida fúnebre com
que a família do morto obsequiava parentes e amigos. Maria, mãe de Jesus,
manteve-se à margem. Não só porque em desacordo (ela acreditava na
ressurreição), mas também pelo fato de que, como mulher, não tomava parte em
semelhantes decisões.
A princípio, devido à heterodoxia e precipitação que cercaram o sepultamento
do Mestre, os mais rigorosos no cumprimento da Lei ficaram em dúvida sobre se
deviam deixar crescer a barba e os cabelos desordenadamente, rasgar as vestes e
atirar cinzas sobre suas cabeças, como prescreve o Talmud para assuntos de
morte. Finalmente levaram-no à prática. E as polêmicas foram tão ácidas quanto
intermináveis. Era lógico. Marta, sua irmã Maria, a mãe de Jesus, Salomé e seu
filho Davi acreditavam que o rabi havia regressado do mundo dos mortos. Por que
submeter-se, então, às formalidades do luto oficial? De um ângulo estritamente
exegético – admitindo por um momento a realidade de uma ressurreição –, os
judeus achavam-se perdidos. Deviam oficiar os rituais funerários para uma pessoa
ressuscitada?
O mais provável é que, se não se houvessem produzido as aparições em
Betânia – a segunda especialmente –, os céticos (para chamá-los de uma forma
caritativa) teriam continuado com os preceitos marcados pela Lei para tais casos.
Quer dizer, um luto de trinta dias, dos quais os três primeiros eram defesos ao
trabalho, não devendo responder sequer às saudações. Tampouco podiam banhar-
se nem barbear-se nem trazer os filactérios para a oração. E, se fossem rigorosos no cumprimento de tais normas, vestiriam roupas velhas e sujas. (Havia casos de
viúvas fiéis que, no momento da morte do esposo, vestiam um saq ou tanga de
pêlo de camelo em sinal de penitência e com ele viviam o resto de seus dias.)
Graças a Deus, o Mestre ressuscitou... Mas, como vemos, ainda depois de
morto foi motivo de escândalo e controvérsia. E, o que era mais doloroso e
incompreensível: no seio de sua própria família. Ao receber uma completa
informação sobre esses fatos não pude evitar um sentimento de censura para com
os evangelistas, pelo muito que omitiram para fiéis e não fiéis... Meu coração,
todavia, recuperou o ânimo ao ouvir os relatos das aparições dos lábios das
mesmíssimas testemunhas.
Nessa manhã, a meu pedido, Tiago conduziu-me ao lugar onde assegurava
haver visto seu irmão ressuscitado. Dirigimo-nos à parte posterior da casa, ao
frondoso horto de uns 400 metros de fundo e, ao chegarmos diante do penhasco no
qual se encontrava o panteão familiar, o galileu indicou o ponto exato onde,
segundo ele, se havia “formado” a figura de Jesus...
Deixei-o falar à vontade:
– Seria a hora sexta (meio-dia). Todos estávamos muito nervosos ante as
notícias da possível ressurreição de meu irmão. Os rumores circulavam sem cessar.
Eu, na verdade, tinha minhas dúvidas. Fui testemunha de muitos de seus prodígios
e sinais e aceitava seus ensinamentos. Mas daí a considerá-lo o Messias e crer em
sua volta à vida...
Olhou-me buscando minha compreensão.
– Suponho que era lógico – prosseguiu, dirigindo seus olhos castanhos para a
lápide que cerrava o sepulcro. – Agora sei que estava equivocado.
– Que aconteceu? – perguntei-lhe ao notar que estava a ponto de cair no
mutismo.
– Sim, claro... A aparição – afirmou voltando a si. – Na verdade, quando os
ânimos começaram a exaltar-se, decidi sair da casa. E vim para cá. Nem sei por
quê... Nesse momento, enquanto meditava sobre essas coisas, aproximou-se Maria
Madalena. Eu o soube depois. E, com não menos excitação, começou a relatar a
Marta, a sua irmã e a toda minha família o que havia vivido e presenciado na
propriedade de José. Pelo visto, concluído o relato de Madalena, alguns de meus
irmãos saíram em minha busca. Judas chegou mesmo a ir até Betfagé... Mas a
ninguém ocorreu procurar nesta parte do jardim. E foi então que aconteceu...
Aquele homem maduro e reto – no dia 2 deste mesmo mês de abril havia
completado 32 anos – estremeceu. Não obstante a sua corpulência, quase tão
notável quanto a de Jesus, percebi que fazia esforços para conter o pranto.
– ... Foi como uma sensação – e tremeu cruzando os braços sobre o peito. – É
tão difícil de explicar! Tu me compreendes, não é verdade?
Respondi que sim. Tirei meu manto e o cobri com ele. O cadim, impiedoso,
aumentava de intensidade, agitando as árvores com suas rajadas sibilantes e frias.
Sugeri-lhe entrarmos, mas ele se negou.
– ... Foi como se alguém tocasse em meu ombro.
Voltou a ser acometido de intensos tremores. Mas eu não soube a que atribuí-
los. Seria o tempo desagradável? Ou as emocionantes recordações?
Voltei-me e o vi...
– Viste o quê?
– Recordo-me de uma nuvem. Ou talvez fumaça... não sei. Era uma “massa”
brumosa que, partindo da cabeça, foi modelando uma figura. Espantado, não tive
forças nem para fugir. E a nuvem, pouco a pouco, converteu-se em um homem.
O nervosismo começou a travar-lhe a língua. Tentei ajudá-lo.
– Estás certo de que se tratava de fumaça?
Os finos lábios de Tiago abriram-se. Mas não conseguiu responder. Apenas
concordou sem palavras e, depois de encher os pulmões com o vento leste,
tartamudeou.
– Fu-ma-ça... sim.
Imóveis, diante da lápide da gruta funerária, guardamos silêncio. Tiago tentou
ordenar seus negros, lisos e longos cabelos, nos quais já surgiam abundantes fios
grisalhos, e, dominando-se, continuou:
– A forma, então, me falou. E disse: “Tiago, chamo-te para o serviço do reino.
Une-te seriamente a teus irmãos e segue-me”.
– Reconheceste-o?
Moveu a cabeça negativamente. E eu não quis acossá-lo com novas perguntas.
– Mentiria se dissesse que sim. Era impossível. “Aquilo” nada tinha que ver com
o Jesus que conheci em vida. Era outra coisa. Uma fumaça? Uma nuvem?... Só a
voz...
Pensei adivinhar o que estava a ponto de ouvir dele.
– Ao ouvir meu nome, “Tiago”, então soube que era Ele.
A “voz”. Era muito significativo que as presumidas testemunhas das aparições
coincidissem nisso. Quando se deu aquela terceira “presença”, Tiago não podia
conhecer o sutil detalhe. Madalena chegara à fazenda quando o irmão de Jesus
havia saído para o jardim. Todavia, coincidia com ela, com as demais mulheres,
com os pastores de Emaús, com Pedro, com os discípulos e comigo mesmo.
Demasiada coincidência para suspeitar de uma maquinação...
– Era sua voz, Jasão! A de sempre!
– E que fizeste?
– Aturdido e morto de medo só pensei em prostrar-me a seus pés.
E apontou-me o trecho de chão sobre o qual havia aparecido o Ser de névoa.
– Meu Pai e meu Irmão! Foi só o que consegui dizer. Mas, quando me dispunha
a atirar-me ao solo, Jesus pediu-me que ficasse em pé.
Dessa vez, as lágrimas – incontidas – bloquearam sua voz. Foi ocultar seu rosto
contra a pedra do sepulcro e soluçou e se desafogou como uma criança. A profunda
emoção daquele galileu – mescla talvez de alegria, perturbação e remorso por suas
antigas dúvidas – acabou por contagiar-me, enchendo-me a alma de uma terna compaixão.
– Então passeamos – acrescentou, uma vez recomposto.
– Para onde?
– Não me lembro com exatidão. Talvez para a casa.
Dentre as nove “presenças” que eu já havia contado na jornada do domingo,
três apresentavam aquela variante: o passeio junto com a testemunha. (Primeiro,
Tiago pelo jardim de Lázaro. Depois os pastores, durante mais de 5 quilômetros, e,
finalmente, Simão Pedro, no pátio dos Marcos.) Muito interessante... sob vários
aspectos.
– Falamos por alguns momentos das coisas que haviam ocorrido e das que...
Tiago interrompeu-se. Olhou-me de soslaio e, dando um salto no fio da
narração, continuou:
– ... têm de suceder.
Estava claro que acabava de ocultar “algo”. Pressionei-o, mas foi inútil. Só o
que consegui arrancar-lhe foi que o Mestre lhe havia falado sobre certos “fatos” que
deveriam ocorrer no futuro e dos quais não devia falar... no momento. Resignei-
me, em parte. A que acontecimentos podia estar-se referindo o “Ser de névoa”? À
própria morte de Tiago, acontecida catorze anos mais tarde (no ano 44 de nossa
Era)? Talvez à necessidade de que seu irmão de sangue escrevesse seu próprio
testemunho? (Anos mais tarde, apareceria um Evangelho que a Igreja Católica
classificaria entre os “Apócrifos” e que é conhecido como o Protoevangelho de
Tiago.170 Teria predito os acontecimentos que deveriam ocorrer na Galiléia? Ou
falado de seu ministério ativo como embaixador do reino e do qual quase não há
registro nos textos canônicos?
– ... Após um momento – retomou Tiago a narração – despediu-se, dizendo:
“Adeus, Tiago, até que vos saúde a todos juntos”. E já não o vi.
Havia dois pontos que me interessavam: quanto tempo teriam caminhado? E
como desapareceu?
À primeira pergunta, Tiago respondeu com precisão:
– O que se consome em um tranqüilo passeio de 1 estádio e meio
aproximadamente.
Os judeus lançavam mão dessas comparações. Deduzi que haviam caminhado
cerca de 280 metros, vale dizer, entre três e quatro minutos.
A outra questão foi mais complexa.
– De súbito deixei de vê-Lo.
Mais que isso não consegui obter dele.
– ... E corri para casa, gritando: “Acabo de ver Jesus! Falei com Ele!
Conversamos! Não morreu! Ressuscitou!”. Jude, meu outro irmão, que voltava de
Betfagé, acreditou em minhas palavras.
– E os demais?
Deu de ombros.
– A princípio duvidaram. Eu também o havia feito. Agora, como tu próprio o notaste, estão convencidos.
Abaixei-me e examinei a grama. Naquele ponto, segundo Tiago, havia pisado o
Ressuscitado. Dali lhe falara. Mas não encontrei sinal algum que revelasse que a
erva, por exemplo, de um palmo de altura, houvesse suportado um peso de 80
quilos. Estava ereta e brilhante.
Era preciso dar desconto. Não se estando diante de conceitos comuns e
correntes, tudo era possível. Até mesmo que o “Ser de névoa” não tivesse peso...
“Todavia” – pensei –, “deveria ter quebrado os talos tenros...”
– Estás certo de que foi aqui?
O homem escutou-me sem compreender. Desviou o olhar para a penha do
sepulcro e, como se buscasse referências, colocou-se no lugar onde se encontrava
naquele preciso instante. Por fim, afirmou categoricamente:
– Estou certo!
Era surpreendente. Os pontos por onde havíamos caminhado apresentavam a
grama logicamente calcada. A espessa cobertura vegetal do horto – pisada ou
ereta – mostrava, manifestamente, nossos trajetos. No círculo “ocupado” pelo
Mestre, ao invés, não descobri uma só folha amassada.
De súbito, ao ver a espada de ferro, sem bainha, que Tiago trazia sob o cinto,
lembrei-me do estranho acontecimento na casa dos Marcos. Minha pergunta
deixou-o embaraçado. Olhar perdido, como se reconstruísse a cena, e acariciando a
grisalha barba, facultou-me um dado importante:
– Agora que o dizes... de fato senti algo estranho no ventre. Era como se me
puxassem para Ele.
Era suficiente. O singular fenômeno de atração dos objetos de ferro parecia
repetir-se. E o tive muito presente, sobretudo na hora do manejo da “vara de
Moisés”.
No trajeto para casa, Tiago fez um comentário que depois, ao conversar com
Davi Zebedeu, seria plenamente ratificado.
– Até esse momento – disse com satisfação – Jesus havia sido visto por
mulheres nervosas e pouco confiáveis. Mas, como sentenciou Davi, agora era
diferente: “Também foi visto por um homem valente”.
Compreendi o orgulho do irmão do Nazareno. Realmente era certo: Tiago era
um indivíduo valente. Estava justificada sua depreciativa atitude para com as
mulheres. Mesmo porque essa era a triste realidade judia de então, como observei
em páginas anteriores: elas não contavam para quase nada...
Enquanto nos reuníamos com o resto da família, dispus-me a ouvir a segunda
das aparições, censurando-me por não haver dado maior credibilidade aos escritos
de Paulo. O Cavalo de Tróia, ao estudar o conjunto das aparições de Cristo, fixou-
se também na citações do apóstolo de Tarso (I Coríntios, XV, 5-9). Ali está dito que
Jesus mostrou-se a Tiago. Mas a ordem em que apresenta as aparições – primeiro
a Cefás, depois aos doze e a mais de quinhentos irmãos e, por último, a Tiago –
não nos pareceu correta, desprezando aquelas “pistas”.
Enfim, já não havia arranjo. De qualquer forma, agora que o menciono, os
cristãos parecem não haver dado conta de outro curioso detalhe. Paulo cita a
aparição a Tiago – supõe-se que seja o irmão de Jesus –, mas não os evangelistas
“oficiais”. Por quê? Será que não a consideraram importante? Ou será que haveria
algo oculto e uma censura ao irmão do rabi, talvez por não haver revelado a
misteriosa mensagem do Ressuscitado?
É claro que, depois do que eu havia visto e ouvido, já não podia estranhar esse
novo “silêncio” nos Evangelhos Canônicos. Coisas mais importantes me reservava o
destino e que também não foram registradas...
Na hora do almoço, em companhia de Tiago, acomodei-me em torno da
espaçosa mesa que ocupava o centro da grande sala retangular em que eu já
estivera em outras oportunidades. Em um dos cantos, como sempre, queimavam
alguns troncos. As mulheres foram servindo o primeiro prato: uma espécie de
sêmola ou purê quente, à base de grossos grãos de trigo moído. (Lembrou-me, de
certo modo, não pelo sabor, a polenta dos italianos.) E quando todas as vinte e
tantas pessoas já tínhamos diante de nós o primeiro prato, Tiago, o mais velho
entre os homens, pôs-se em pé. Todos o imitamos, e com palavras simples ele
agradeceu os alimentos que nos dispúnhamos a comer:
– Senhor, provei-nos do necessário.
Sentamo-nos em alvoroço, e o tumultuado sorver da “sopa” e as piadas foram
uníssonos. Notei a falta de Marta. Mas em poucos minutos ela se apresentou com
uma cesta de vime cuidadosamente coberta por um pano. Olhamo-nos enquanto
ela se sentava e a “senhora” baixou os olhos, ruborizando-se. Naquele momento –
estúpido! – não percebi nem a razão de sua perturbação nem da mudança em suas
vestes e penteado. A tosca túnica marrom que vestia quando me recebeu de
manhã havia desaparecido. Em seu lugar vestia um belo chaluk ou túnica de seda
bordada, de um verde-oliva deliciosamente brilhante. Naquele tempo a seda era
muito pouco utilizada. Chegava com as remotas caravanas do oriente e a alto
preço. Seus ombros estavam cobertos com uma espécie de xale de lã branca,
atado com cordéis da mesma cor.
Também seus cabelos haviam mudado. O lenço escuro que tinha na cabeça no
momento da minha chegada foi suspeitamente desprezado. E a “senhora”
apresentou-se com um novo penteado: divididos ao meio, seus negros cabelos
caíam sobre o peito, dobrando-se nas pontas para fora, com dois bem cuidados
cachos. Seu largo rosto ficava assim bem marcado e “estilizado”. Uma quase
imperceptível sombra de malaquita nas pálpebras completava sua maquilagem e
dava maior profundidade a seus olhos de azeviche. Estava realmente formosa.
Certamente, a súbita e aparentemente inexplicável “transfiguração” de Marta
não passou inadvertida às mulheres, que não cessaram seus cochichos e pícaras
insinuações. Eu, insisto, fui o último a inteirar-me.
Por uns momentos, enquanto me explicavam os pormenores da segunda
aparição, o almoço transcorreu em respeitoso silêncio.
Embora se apresentassem vários candidatos, eu, intencionalmente, pedi que
Davi Zebedeu coordenasse o fio da narração. O irmão dos “filhos do trovão” acedeu
com satisfação. E com a sinceridade muito sua resumiu assim o acontecido:
– Ocorreu logo que chegamos aqui. Como recordarás, depois de despedir os
mensageiros com a notícia da ressurreição do Mestre, passei pela mansão de José
para apanhar minha mãe e com ela vim para Betânia. Não passaria muito da hora
nona (3 da tarde), quando aqui mesmo, como agora, nos encontrávamos
rememorando os acontecimentos que todos conheceis. De repente, alguém
gritou...
Os comensais, apesar de já terem ouvido a narração mais de uma vez,
detiveram no ar as colheres de madeira. Fez-se um silêncio espesso e eloqüente.
– ... A porta, essa que aí vês, estava aberta, como neste momento, e, diante
dos gritos, os olhares se dirigiram para onde apontavam os dedos. Era um homem.
Olhava-nos de fora da sala. Talvez a um passo do lintel. Sua figura alta e atlética
recortava-se contra a claridade do pátio...
– Um momento – cortei –, estás certo de que se encontrava fora da sala?
O Zebedeu moveu a cabeça afirmativamente.
– Nem dentro nem embaixo do marco da porta. Fora! E todos pudemos ouvi-lo.
Ergueu o braço esquerdo e saudou-nos: “A paz seja convosco”. Ficamos mudos. E
ele continuou: “Saudações para aqueles que estiveram junto a mim na carne e na
comunhão de meus irmãos e irmãs no reino dos céus. Como pudestes duvidar? Por
que haveis esperado tanto para seguir de todo coração a Luz da Verdade? Entrai na
comunhão do Espírito da Verdade no reino do Pai”.
Davi guardou silêncio.
– Isso foi tudo?
Minha pergunta não agradou. Mas o Zebedeu, compreensivo, concluiu:
– Quando nos refazíamos do susto, alguns se levantaram e correram para
abraçá-lo. Mas ele esfumou-se.
Serviram o segundo prato: ovos cozidos com uma apetitosa guarnição de favas
cruas, muito tenras, e uns bulbos de raízes do gênero das estáquidas.
O almoço animou-se de novo e, entre um e outro bocado, fui discutindo com
Davi e os demais dezenove presentes vários dos detalhes que me interessavam.
– Então se dizeis que alguns dos presentes levantaram-se e tentaram abraçá-
Lo é porque era de carne e osso... O Zebedeu, sagaz, me recordou que ele não
havia dito semelhante coisa. E acrescentou:
– ... Era um homem. Suas roupas eram como as nossas. Mas quem pode
sustentar, com segurança, que tinha sangue e ossos como nós?
Tiago devia ter lido meu pensamento. E, intervindo na discussão, esclareceu:
– Como sabes eu também estava presente e posso garantir que aquele corpo
não era como a fumaça ou a nuvem que te descrevi...
– Distinguia-se o pátio através do corpo?
Os comensais entreolharam-se. E todos concordaram que não.
– Alguém O viu formar-se a pouco e pouco como sucedeu a Tiago?
As respostas foram de novo negativas. Quando a viram, a figura já se achava
completa “como a de um ser humano”, enfatizaram.
– Naturalmente – observei com segunda intenção – vós também não O
reconhecestes...
A princípio, Davi e os outros me olharam atônitos. Em seguida romperam a rir.
Interroguei o Zebedeu com o olhar. Que havia de engraçado nisso?
– Querido Jasão – explicou-me Davi em tom benevolente –, crês que somos
cegos?
– Como? – repliquei admirado. – Então...
– Certamente que O reconhecemos. Era Ele.
Não insisti. Davi Zebedeu era excelente observador e pouco dado a visões ou
fantasias. Além do mais, havia outras dezenove testemunhas.
Continuei comendo em silêncio, um pouco envergonhado de minhas perguntas
aparentemente infantis. Tudo aquilo era confuso para mim. Por que nas primeiras
aparições, às mulheres e a Tiago, e nas últimas daquele domingo, incluída a que
eu vi, o “corpo” do Ressuscitado não havia apresentado o aspecto e a morfologia
de um humano normal? Parecia estéril continuar na busca de uma explicação
racional. Na melhor das hipóteses, talvez encontrássemos as respostas nas
próximas e promissoras aparições... Mas isso ainda estava distante.
De pronto recordei as palavras de José de Arimatéia: tanto Madalena quanto as
demais testemunhas não deviam falar publicamente daquelas aparições na casa de
Lázaro.
E, armando-me de coragem, interroguei Tiago sobre esse particular. Suponho
que muitos dos presentes agradeceram minha pergunta. Também eles queriam um
esclarecimento sobre essa recomendação. Tiago não transigiu.
– Devo ser fiel à promessa feita a meu Irmão e Senhor...
A sentença encerrou a questão.
Marta, oportuna, amenizou a momentânea tensão. Tomou a cesta de vime e,
cantarolando algo que não entendi muito bem, mas que provocou o bom humor e a
descontração, foi repartindo umas bolinhas de cor de chocolate. Ao chegar a meu
lado, com o rosto afogueado como uma papoula, colocou seis no meu prato. Duas
a mais que os outros. Agradeci-lhe a gentileza e, curioso e preocupado diante do
que me dispunha a ingerir, perguntei quais os seus ingredientes.
– Amido recoberto de mel e perfumado com essência de rosas e pistácias.
Provei intrigado. Seu sabor era de bombom! Recordou-me os bombons que os
orientais chamam lukum. Foi um remate delicioso.
Mas meu trabalho na fazenda de Betânia não havia feito senão começar. E
meus olhos e meu coração fixaram-se naquela recatada e silenciosa hebréia de
olhar atento, cabelos lisos e negros cobertos com um grande lenço negro. Era
Maria, a mãe de Jesus. A Senhora.
Eram tantas as perguntas e questões que eu devia formular-lhe, tantas as minhas dúvidas, que não soube bem por onde começar!... E no transcurso daqueles
dias – felizes e sossegados –, sempre com o apoio de seus filhos, tive a
maravilhosa oportunidade de ir colecionando uma infinidade de anotações
relacionadas com sua vida em Nazaré e com seu Primogênito, que enriqueceram o
que eu já sabia e o que já contei.
O que havia acontecido ao longo da juventude de Jesus de Nazaré? Por que os
evangelistas ignoraram esses quase 32 anos anteriores à sua vida de pregação?
Será que o Filho do Homem nada fez durante esse dilatado período? Como foi sua
educação? Quem foram seus amigos? Quais seus problemas e angústias? Viveu
sempre na pequena aldeia de Nazaré? Quando e como teve consciência de quem
era na realidade? Por que se lançou às estradas?
Estas e mil perguntas mais ficaram completamente satisfeitas durante minha
estada em Betânia, depois com a nossa expedição à Galiléia e com a “terceira”
aventura que – adianto-o já – foi livre e voluntariamente assumida por Eliseu e por
mim. E, se adio a narração de quanto nos foi dado conhecer sobre a idade adulta
do Mestre, é simplesmente porque entendo que tão fascinante e longo capítulo se
encaixa melhor e mais oportunamente entre as aventuras e correrias destes
“exploradores” pelas altas terras do norte...
Dito isso, prosseguirei com os acontecimentos que me couberam viver a partir
da sexta-feira, 14 de abril desse ano 30 de nossa era.
De acordo com o traçado pelo Cavalo de Tróia, eu devia incorporar-me ao
“berço” antes da décima aparição prevista para oito dias depois do domingo 9 de
abril. Mas...
168 Como cita Rops em seus estudos, “certas lendas rabínicas pretendem que esse abismo metafísico – o seol – poderia ser
também uma realidade física e tangível, à qual se teria acesso removendo um grande penhasco que se acha no centro do
Sanctasantorum, no Templo”.
Para outros, ao invés, as refaim do seol não significam nada, não fazem nada, nada sabem e nada podem. O conceito “nada”
seria o contrário da existência. No livro de Isaías (XXXVIII, 18), o próprio profeta chega a gritá-lo para Yavé: “O seol não te
pode louvar”. É preciso considerar que, para um judeu medianamente piedoso, deixar de louvar o Senhor era pouco menos
que estar reduzido a nada. Por conseguinte, o próprio seol não podia considerar-se como um lugar de prêmio ou de castigo. O
Eclesiastes (XLI, 18) o diz com clareza: “No seol não recriminarão tua vida”. Naturalmente, nem todos compartilhavam esta
crença no seol. Outros rabis falaram do “lugar destinado a cada justo”, mencionado também no Salmo XVI. Se a vida do
defunto havia sido de acordo com a Lei, o anjo da morte gritava: “Preparai um lugar para este justo”. (N. do M.)
169 Após oito horas do óbito, uma vez lavado e ungido com perfumes, o cadáver costumava ser levado do lugar onde se dera a
morte – em geral em padiola com o acompanhamento do féretro – para a sepultura. Concluída a cerimônia, o costume
obrigava os parentes a reunir-se no “pão de luto”. Podiam beber, porém com moderação. Os que não haviam podido assistir
às exéquias, viam-se obrigados às visitas de condolências. O tratado Baba bathra (Talmud) dizia que, nesse caso, deveriam
levantar-se sete vezes de seus assentos, saudando a família outras tantas vezes. (N. do M.)
170 O Protoevangelho de Tiago, atribuído a Tiago Menor – que assim era chamado para distingui-lo do outro Tiago, o Zebedeu
– é um dos apócrifos mais antigos. O texto atual foi estabelecido por Tishendorf, utilizando para isso mais ou menos vinte
textos diferentes. Conta, basicamente, a vida de Maria até o nascimento de Cristo, as maravilhas que O acompanharam e a
matança dos “inocentes”. Possivelmente data dos séculos III ou IV e, francamente, não parece muito crível. (N. do M.)