Centenario do Revolução de 1820
Notas finais
Aniversario da Nossa Restauração Politica,
determinaram que no dito dia houvessem repiques
de sinos, fogo artificial e iluminação na casa desta
Camara e as mais manifestações de alegria em
memoria de tão feliz acontecimento, fazendo-se esta
determinação publica por pregões nesta cidade, na
certeza de que todos os moradores com a maior
satisfação iluminarão suas fronteiras na noite do dito
dia».15
O ciclo das festas e com elas o periodo aureo da
Revolução fechou com o juramento da Coustituição
no dia 3 de Novembro de 1822. 16
No dia 4 de Novembro de 1821 encerraram as
côrtes as suas sessões; e, nelas não foram
inteiramente postos de parte os interesses de Aveiro,
tais como as obras da Barra, mas cujos resultados
se não fizeram sentir em virtude da mudança
operada no regimen politico do paiz em 1823.
Notas finais
Discurso proferido por Antonio Barreto Ferraz de
Vasconcelos em homenagem a Manuel Fernandes
Tomaz.17
Meus Senhores;
Pela segunda vez me arrojo a erguer a minha voz neste
recinto, e desta como da vez primeira, um penoso destino me
obriga a memorar objectos tristes; recordações dolorosas;
pouco mais de um mez tem decorrido depois que esta patriotica
sociedade destinou uma extraordinaria sessão para honrar a
memoria do tenente general Gomes Freire, e dos outros
primeiros e ilustres martires da liberdade nacional; quem diria
que tão depressa a mesma sociedade, fiel aos puros
sentimentos de patriotismo que a animam, seria forçado a
destinar outra sessão para lamentar a perda do primeiro
restaurador da mesma liberdade! quem diria que tão depressa
seriamos condenados a chorar a morte de outra ilustre vitima
do mais ardente, com o mais puro amor da Patria? quem diria
que tão depressa seria objeto do nosso pranto, como de nossa
eterna saudade, Manuel Fernandes Thomaz, o patriota por
excelencia, que como os primeiros meditou, mas com mais
felicidade desenvolveu, e com ainda mais sabedoria consumou
o projecto heroico da nossa regeneração politica? oh! fatal
condição da natureza humana! como rapidos se apinhôam os
motivos de dôr e de aflição! a troco de poucos fugitivos
instantes de prazer e de alegria, somos condenados a seculos
de pezar e de amargura, e do berço até ao sepulchro leves
sorrisos da fortuna mal podem matizar o luctuoso quadro de
desgraças, companheiras inseparaveis desta vida mortal e
transitoria.
Não suspeiteis, senhores, que eu me anime a interromper o
silencio da dôr que deviso em vossos semblantes com
estudadas expressões duma eloquencia affectada: penetrado
até ao intimo da mesma alma pelo doloroso sentimento da
perda fatal que hoje lamentamos, como poderia, ainda que os
talentos me ajudassem, escolher frases, corrigir periodos,
ordenar em fim um discurso correto e bem tecido? como
poderia conservar o espirito assás liberto quando por todos
poros verte sangue o coração? seja pois este o que hoje fale, e
não receio que os vossos o não compreendam.
Se para celebrar a memoria de Manuel Fernandes Thomaz
fosse preciso enumerar todas as virtudes morais e civicas,
todas as brilhantes qualidades do coração e do espirito, de cujo
complexo era formado seu heroico carater, fôra por certo esta
uma empreza, senão impossivel, por extremo dificil, e que ainda
os maiores engenhos mal poderiam desempenhar; felizmente
porém cada uma delas é tão relevante, foi por ele possuida em
grau tão eminente, que por si só basta para formar seu elogio,
restando sómente dificuldade na escolha: entre elas eu
preferirei como fonte de todas as outras a inalteravel
constancia, a nobre coragem civil que formava a base do
caracter deste grande homem: esta rara virtude cuja salutar
afluencia nos excita, em qualquer circunstancia da vida social, a
sacrificar voluntariamente a segurança da propria existencia,
nessa reputação, nessas mesmas esperanças e em fim todas
as vantagens sociais: esta virtude, digo, é aquela sem a qual
todas as outras ou morrem ou são inuteis: e na verdade,
senhores, como ou de que proveito será conceber ideias,
formar planos uteis e generosos, se não houver constancia para
as meditar, para os desenvolver, para os ultimar? e como sem
os nobres esforços da coragem civil, desprezar os incomodos,
afrontar os perigos que por todos os lados ameaçam as
emprezas heroicas, quanto mais sublimes tanto mais arriscadas
para os seus autores? quem poderia lisongear-se de obter e de
conservar um partido que apoie e que auxilie os seus planos se,
em vez de ser firme e constante na sua opinião, seguir a todo o
momento a opinião de cada um? Todas as mais virtudes são
certamente muito apreciaveis, dignas da maior estimação e
respeito; mas nenhuma melhor do que esta póde por seus
saudaveis efeitos sêr mais util nem mais transcendente (e se
não me engano) a nobre constancia, e a esforçada coragem
civil e militar são as que melhor prestar e na realidade tem
prestado a todas as nações os mais assignalados serviços, e
tanto duma como doutra especie de coragem offerece a historia
exemplares tão admiraveis que hesito em conceder a qualquer
delas a preferencia: e com efeito, senhores, o guerreiro
intrepido que á frente de um valoroso exercito defende e salva a
Nação dos inimigos estranhos, merece grande louvor, alcança
gloria excelsa; mas não menos a alcança e com justa razão a
merece o cidadão virtuoso que no segredo do seu gabinete
medita, prepara, e desenvolve os meios de salvar a Patria dos
inimigos domesticos, tanto ou mais perigosos que os estranhos:
se o generoso Camillo, quando já se contava o preço vil dum
infame tratado, derrota e afugenta os Gallos, e resgata o
Capitolio pelo unico modo que convinha a um povo destinado a
dominar o mundo, Cicero por efeito da sua coragem salva a
republica e o estado das perfidas machinações de Catilina: se o
africano Scipião arrazando Carthago livra Roma de uma
fraudolusa e importuna rival, o ilustre Catão defende palmo a
palmo contra as usurpações de Cesar a liberdade da Patria: se
Henrique IV, á força de armas, e ainda mais á força de
beneficios, salva a França da ruina que lhe preparava a
anarchia das guerras civis, Sully, com nobre audacia, rasgando
á vista do seu Rei a promessa de um casamento impolitico e
desegual, poupa á Nação, poupa ao Monarcha o tardio
arrependimento de uma acção vergonhosa e indecente: e sem
mendigar exemplos estranhos, se João I conquista á ponta da
espada a independencia de Portugal na memoravel batalha de
14 de agosto de 1385, Manuel Fernandes Thomaz proclama e
consegue a liberdade da Patria no faustissimo dia 24 de de
agosto de 1820. Mas acaso foi só nesta gloriosa época, nesta
assombrosa crise que ele deu provas da mais rigoroza
constancia, da mais denodada coragem? São Senhores, a
natureza não obra regularmente prodigiosa, e um tão
maravilhoso resultado não podia sêr efeito das combinações
fortuitas de espirito vulgar e posilanime: se a vida inteira de
Manuel Fernandes Thomás não fosse um exemplar perfeito da
mais forte constancia, e da mais corajosa firmeza, talvez nós
ainda hoje seriamos escravos; tarde raiaria para nós a aurora
da liberdade.
Manuel Fernandes Tomás, havia desde os primeiros anos
abraçado a profissão das letras para a qual uma particular
affeição, e uma favoravel disposição de espirito efficazmente o
impelliam: habituado pela experiencia dos primeiros logares, e
ainda mais pelos seus talentos, e assiduos estudos para subir
aos mais elevados empregos da magistratura, era já antes
d'isso conhecido, e occupava um logar distincto entre os
literatos, e illustres portuguezes, pela produção de uma obra,
que só podem dignamente apreciar aquelles que, forçados pela
sua profissão ou emprego a investigar o confuso labyrinto da
nossa legislação, depois de trabalhos penosos e sempre
inuteis, tem de confessar por fim que ignoram a maior parte de
seus dispersos elementos: uma compilação perfeita d'esta
confusa legislação, que só poderia obter-se á custa de um
trabalho insano, de uma perseverança inaudita, era capaz de
assombrar o animo mais arrojado que até recearia
emprehendel-a: Fernandes Thomás não só a emprehende, mas
corajosamente a termina; dando já com este ensaio um não
pequeno indicio d'aquella firmeza e constancia de que
posteriormente deu provas tão decisivas: nomeado Membro da
Relação do Porto, occupando n'esta um logar importante e
distinto, repartia os poucos momentos que lhe sobravam das
laboriosas fadigas do seu emprego entre o estudo das
sciencias, e a conversação de poucos mas bem escolhidos
amigos: d'alli observava e lamentava em segredo os males que
então opprimiam a nossa Patria, victima dos caprichos de um
Governo tyrannico e absurdo: alentava-o comtudo a esperança
de que seus membros, reflectindo alguma vez seriamente sobre
a profunda miseria, que por toda a parte se descobria, e que
claramente mostrava mais que ligeiros symptomas d'uma
violenta crise, na qual os mesmos Governantes fossem
sacrificados, acordariam finalmente do estupido lethargo em
que parecia estavam submergidos, e quando não fosse pelo
bem e interesse geral, pelo seu particular interesse, adoptariam
medidas coherentes e adequadas á penosa situação dos
Povos: porem vãs esperanças, inuteis desejos de uma alma
benefica, d'um coração patriotico! Um espirito de vertigem se
havia apossado do inerte Governo; elle presidia ás suas
deliberações; e de precipicio em precipicio, de tyrannia em
tyrannia, o conduzia como pela mão até ás bordas do abysmo,
em que com elle se ia despenhar a Nação inteira: medidas
absurdas ou oppressivas e uma activa espionagem, vil
instrumento de uma insidiosa policia, e fraco apoio da
arbitrariedade e despotismo, eis aqui as cautelas, eis aqui os
remedios com que o tyranico Governo pretendia curar os males,
e reparar as desgraças dos Povos. Foi n'esta calamitosa época
que raiou o sempre infausto dia 18 de outubro de 1817, em que
esta cidade viu com terror e espanto consumar um dos mais
horrorosos mysterios da iniquidade, e de que a nossa historia
não fornecia exemplo: os gemidos das innocentes victimas
sacrificadas por mãos da mais atroz perfidia, e choradas por
todos os bons Portuguezes, penetraram o coração de Manuel
Fernandes Thomás; e este decisivo testemunho da barbaridade
de nossos oppressores lhe deu a conhecer que com elles não
podia haver esperanças do allivio a nossos males, e que a
Patria estava em perigo de cair por momentos no pelago de
desgraças que lhe preparava a anarchia: desde então concebe
o generoso projecto de salvar a Nação; a principio só; depois
com poucos e fieis amigos medita, consulta, e prepara os meios
de o conseguir; investiga os animos; interroga a opinião publica;
espreita attento a occasião; e logo que esta se lhe mostra
opportuna, proclama ousadamente a liberdade da Patria, e a
Patria é livre. Deixo, senhores, á vossa illustrada meditação
calcular os esforços de constancia e de coragem que seria
mister empregar para conceber, dirigir, e felizmente ultimar tão
importante como arriscada empreza: foram por certo muitos e
extraordinarios; mas nem por isso ficaram exhauridas as suas
forças; o valente campeão, armado de egual se não maior
constancia, se offerece impavido a novas luctas das quaes
colhe novos trophéos, e canta de novo a victoria. Toda a
mudança de um governo qualquer é sempre acompanhada de
comoções mais ou menos violentas; e a consolidação das
novas instituições politicas é obra summamente difficil e
complicada; se os autores d'ella acaso não possuem uma
destreza completa, e sobretudo uma vigorosa constancia e
firmeza de caracter, arriscam-se a ver baldados todos os seus
esforços, prostrado n'um momento por terra todo o fructo de
seus mallogrados trabalhos: a ambição e o interesse; o amor
proprio e a vaidade, o orgulho e a vingança; todas as paixões
emfim, todos os vicios são outros tantos inimigos que
disfarçados com a mascara da vil hypocrisia fazem surda mas
incessante guerra, e todos procuram (cada um a seu modo)
derribar o edificio mal construido: a mesma Religião santa, este
presente celeste que deve ligar os homens com os vinculos do
mais puro e do mais fraternal amor, serve de pretexto ás vezes
para acender entre elles o facho da discordia; e homens vis,
fanaticos, impostores, que ou a desconhecem ou a profanam,
ousam invocar o nome de um Deus de paz para excitar os
furores d'uma encarniçada guerra: tambem que gloria, que
louvor não me tecem os sabios pilotos que dirigindo habilmente
o leme, levam a não do Estado a salvamento, e combatida por
tão medonhas borrascas, conseguem abrigal-a em seguro
porto? que gloria por tanto, que louvor não merece Manuel
Fernandes Thomás? se a admiravel obra da nossa
Regeneração politica tem avançado tão tranquilamente, e com
assombro de nacionaes e estrangeiros, tem chegado sem
desastre ao ponto em que hoje com prazer a contemplamos, a
quem se deve tão extraordinario prodigio? muito por certo ao
brioso caracter da magnanima Nação Portugueza; muito sem
duvida ás paternas intenções do nosso bom Rei; mas muito
tambem aos talentos, á constancia e á firmeza de Manuel
Fernandes Thomás: Membro do Governo, ministro de Estado,
representante da Nação, elle se nos apresenta sempre como
um rochedo immovel, aonde o furor das paixões, a intriga dos
partidos vem inutilmente bater: calumniado e detrahido pelo
orgão de um escriptor venal e sem pudor, castiga a calunia com
o desprezo que ella só merece, e fitos sempre os olhos no bem
do Povo, na salvação da Patria, alenta e conforta os amigos,
confunde e aterra os inimigos pelo poderoso ascendente d'um
superior, e mais ainda pela sua extraordinaria constancia e
força de caracter: se a torpe ambição, o sordido interesse e
outras vis paixões cautelosamente disfarçados procuram a furto
introduzir-se no santuario das Leis, e surprehender as decisões
do soberano Congresso, alli mesmo combatidas pela imperiosa
voz da razão e da justiça, de que Fernandes Thomás era o
digno órgão, eram forçadas a desamparar o campo, a precipitar
a fuga: nós todos o ouvimos, e oh magoa! não mais o
ouviremos! Nas occasiões mais importantes, quando se
discutiam objectos que por sua transcendencia envolviam a
fortuna e a salvação da Patria, era então que a sua voz, seus
gestos offereciam uma apparencia solemne e mais que
humana: seu estilo conciso, energico e fulminante, admirava e
confundia; e arrebatado pelos impulsos de um zelo ardente, de
um verdadeiro patriotismo, cada palavra era uma sentença,
cada periodo um discurso. Mas não é dado á fraca natureza
humana resistir muito tempo a tão excessivas fadigas, que o
temperamento mais forte e a saude mais robusta poderiam
apenas supportar: infelizmente a de Fernandes Thomás era
debil e arruinada, e só o extraordinario vigor do seu espirito é
que o sustinha no meio de tantos e tão complicados trabalhos:
uma molestia chronica e rebelde de que Fernandes Thomás
pouco e mal cuidava, pois só cuidava bem dos interesses da
Patria atacou com violencia um corpo já exhausto e por extremo
enfraquecido; e os funestos symptomas que desde os seus
principios mostrou fizeram conceber aos que o cercavam tristes
receios de que a sua familia, os seus amigos, e a liberdade
nacional teriam de chorar em breve a perda do seu protector, do
seu guia e do seu esforçado campeão: desde logo todos os
Portuguezes... sim; todos os Portuguezes (porque alguns
poucos homens vis e degenerados não são Portuguezes), toda
a Nação em fim e com ella o seu digno Chefe, com interesse e
inquietação se informam do estado e dos progressos do mal,
com ancia e terror espreitam o successo d'esta temivel lucta; só
Fernandes Thomás, que melhor do que os outros conhecia a
malignidade da molestia e previa o seu fatal resultado,
conservava no meio da geral desolação a mesma tranquilidade,
o mesmo socego de espirito, a mesma firmeza que o
caracterizavam, e bem que em outras mui difficeis
circunstancias elle tivesse já dado repetidas provas da mais
inimitavel constancia, nunca melhor do que então mostrou o
subido ponto em que possuia esta sublime virtude: firme nos
seus principios, forte pelo testemunho d'uma consciencia pura,
encara impavido os horrores da morte; soffre resignado os
tormentos, as dôres d'um mal violento e insoffrivel; e se por
poucos momentos este lhe deixa algum pequeno e mal seguro
repouso, todos emprega em consolar sua desamparada familia,
em confortar seus amigos, e sobre tudo em lhe dirigir conselhos
a bem dos interesses da Patria: oh nobre firmeza de caracter!
oh constancia sem par! a liberdade da Patria, objecto continuo
de seus incessantes desvelos, ainda nos ultimos instantes da
vida, nos ultimos paroxysmos da morte, lhe occupa inteiramente
o pensamento, e o derradeiro suspiro exhalado nos braços da
Religião e da amizade, é pela Patria, pela gloria, e pela
liberdade da Nação. Vinde, fanaticos imbecis, que para denegrir
a obra magestosa da nossa Regeneração procuraes denegrir
os seus autores, vinde e aproximae-vos do leito de dôr em que
repousa o homem justo; vinde e a vosso pezar reconhecereis
que no tremendo instante em que, cerradas as esperanças da
vida, vão para sempre abrir-se as portas da eternidade, mal
póde o perverso e o criminoso affectar a tranquillidade da
inocencia; vinde... mas não: apartae-vos para longe d'este logar
sagrado; não empesteis com vosso halito envenenado o alcaçar
do patriotismo; um muro de bronze vos separe para sempre
d'elle; Fernandes Thomás, ainda que agonisante, reconhecendo
em vós seus inimigos, reconheceria n'estes os inimigos da
Patria e a funesta lembrança de que só existis para lhe preparar
ferros e ruinas, tornaria por extremo doloroso os seus ultimos
instantes. E tu, oh alma heroica e generosa, lá n'essa habitação
dos justos, n'esse logar sublime a que tuas esclarecidas
virtudes te elevaram, digna-te acolher benigna os sinceros
votos de admiração e de respeito que hoje te offerta uma
escolhida porção de teus compatriotas; digna-te abençoar
propicia a frondosa arvore da liberdade que entre nós plantas-
te; digna-te derramar sobre os Portuguezes do velho e do novo
mundo o espirito de concordia, de união e de amor, de que
tanto carecem para consolidar o feliz systema constitucional
que nos legaste; digna-te inspirar e avivar sempre a lembrança
dos exemplos que deixaste a todos nós e particularmente aos
teus amigos e a teus socios regeneradores: possam estes,
possam todos os que presidem aos destinos do reino-unido
nunca perder da memoria os dictames dos teus saudaveis
conselhos: possam elles marchar sempre constantes pelo
caminho da razão e da justiça; pelo caminho que lhe indica uma
Constituição sábia; pelo caminho em fim que lhe deixaste
traçado: possam elles, cerrando os ouvidos ás perfidas
suggestões de infames calumniadores, refrear as intrigas dos
partidos, debellar os odios das parcialidades, e reunindo em um
só corpo os dispersos membros da familia portugueza pelos
suaves vinculos de reciproco amar, de reciprocos interesses,
formar de toda ella uma impenetravel barreira contra a força ou
contra as machinações do estrangeiro: possam finalmente
todos os Portuguezes até á mais remota posteridade
verdadeiramente dizer e a todo o momento exclamar: somos
livres: os trabalhos de Fernandes Thomaz não foram baldados:
abençoemos a sua memoria.
Discursos e poesias funebres recitadas a 27 de Novembro de
1822 na sessão extraordinaria da Sociedade literaria patriotica
celebrada para prantear a dôr, e orfandade dos Portuguezes na
morte de Manuel Fernandes Tomaz, primeiro dos
Regeneradores da Patria. Lisboa. Typographia Rollandiana.
Ano de 1822.