Chauvinismo e extrema direita

Jefferson Rodrigues Barbosa · Capítulo 8 de 15 · parte 2/3

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Chauvinismo e extrema direita

Parte II – A atualidade e a particularidade do objeto

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

A realização do congresso de 2004, entretanto, representou um marco para a continuidade das organizações integralistas. E o evento foi realizado sob protestos e mobilizações de grupos antifascistas, como destacou o site Centro Mídia Independente:

Antifascistas nas ruas contra o integralismo! Felizmente alguns

companheiros resolveram perturbar a tal “paz nacionalista” que

eles tanto pregavam [...] Há poucas semanas, diversos cartazes

em que se via um enorme Sigma, símbolo adotado pelos

integralistas, tomaram a cidade , anunciando o 1° Congresso do

Movimento Integralista para o Século XXI, que ocorreu nos dias

4 e 5 de dezembro em São Paulo.

O Congresso se deu na sede da UND – União Nacionalista

Democrática, localizada na Rua Cajuru, 860, no bairro do

Belém, zona leste, cedido pelo advogado Antônio Ribas Paiva.

[...] Estavam presentes o deputado federal Elimar Máximo

Damasceno, do Prona, e também alguns skinheads que

puderam ser observados. O local do encontro amanheceu com

os dizeres “Fora Fascistas! Cuidado!” pichados na porta de

entrada, os quais Antônio Ribas tentou insistentemente encobrir

com tinta branca. Além dos panfletos, distribuídos às pessoas

que passavam a pé e de carro, @s manifestantes também

dialogaram e receberam apoio da população local, alertando

sobre a reagrupação do grupo de extrema direita, com ideais

xenófobos, intolerantes e discriminatórios.20

Devido às divergências entre os grupos, que ocorreram na ocasião do evento de 2004, que tinha o objetivo de unir as diversas correntes integralistas, os militantes separaram-se em agremiações autônomas, como será apontado à frente.

O fracasso da tentativa de fundação do MIB, entretanto, foi suplantado com a fundação, no mesmo ano, da Frente Integralista Brasileira (FIB) em continuidade com as ambições e objetivos de uma reorganização e expansão do integralismo.

Após o êxito da fundação da FIB, depois do congresso de 2004, a organização realizou até o presente momento mais três Congressos

Nacionais que ocorreram no Estado de São Paulo em 2006 21 e na

cidade do Rio de Janeiro em 2009.22 E, no ano de 2012, quando esta investigação foi finalizada, ocorreu o IV Congresso Nacional Integralista sendo este último evento novamente realizado na cidade de São Paulo.

Na ocasião do III Congresso Nacional foi lançado um novo documento de diretrizes integralistas intitulado Manifesto da Guanabara e o evento consolidou a FIB como a organização central de aglutinação de aparelhos integralistas mais bem estruturada e representativa entre os herdeiros do Sigma.

O IV Congresso da FIB ocorreu recentemente e os sites do movimento divulgaram a notícia:

Nos dias 4 e 5 de fevereiro de 2012, lideranças de grande parte

do Brasil estiveram reunidas na cidade de São Paulo para

participar do IV Congresso Nacional da Frente Integralista

Brasileira. O IV Congresso Nacional da Frente Integralista

Brasileira foi o evento de apreciação, formulação e definição

das linhas gerais das estratégias e políticas da organização

para o Brasil, sendo integrado por palestras e fóruns de

discussão propostos. O evento teve como objetivo formular e

estabelecer estratégias nacionais de curto, médio e longo

prazo, bem como dotar a Frente Integralista Brasileira de uma

agenda institucional e política que a possibilite de alcançar os

objetivos pretendidos.

Foi importantíssimo o envolvimento dos integralistas neste

evento, seja divulgando o evento e elaborando propostas a

serem apresentadas pelo representante local no IV Congresso

Nacional ou participando presencialmente na construção do

futuro do Brasil!23

As informações sobre o IV Congresso e seus resultados foram também noticiadas através dos jornais on-line para download disponibilizados para os militantes. Um exemplo desta estratégia de

propaganda foi constatado no novo jornal 24 Ação .

O site da FIB disponibiliza os links com as imagens das páginas iniciais de cada uma das seis edições do novo jornal Ação em que o usuário pode acessar e fazer o download das edições completas. Esta é, sem dúvida, uma grande inovação nas formas de socialização e mobilização política exercida pelos integralistas, sobretudo, porque foi identificada a constante busca por novas formas e estratégias para a continuidade de difusão dos militantes.

A edição número seis do jornal integralista Ação divulgou a realização do IV Congresso Integralista realizado em São Paulo. A publicação apontou as atividades ocorridas nos dois dias do evento que propiciou, segundo o jornal, “a troca de experiências e a elaboração de propostas que permitam uma maior coordenação tendo em foco o crescimento do movimento”. Participaram militantes do Distrito Federal, do Paraná, do Rio de Janeiro, de Santa Catarina

e de São Paulo. 25

No primeiro dia de evento, a participação foi restrita a membros e o artigo, referenciado abaixo, forneceu informações sobre os temas debatidos nas palestras e as referidas lideranças que participaram das mesas durante as atividades. Destacaram-se, nesta pesquisa, segundo as análises realizadas sobre o IV Congresso, as estratégias da FIB para articular um órgão em sua estrutura burocrática para os contatos internacionais da organização com

outros grupos nacionalistas. 26

A informação sobre o objetivo da FIB de estabelecer contatos com outras organizações chauvinistas no exterior foi confirmada através dos conteúdos analisados no site da organização.

No referido site, segundo o artigo “Integralismo: intercâmbio na Europa”, foi constatada a afirmação de que “nos últimos anos, a FIB desenvolveu diretrizes próprias para a realização de intercâmbios e estabelecimento formal de contato com grupos e organizações no exterior”. E, que, neste sentido, o militante Alexandre Villacián da FIB-PR estabeleceu encontros com membros da organização belga

denominada Nation, assim como com a Action Française. 27

Os dados obtidos através da análise das informações do IV Congresso também proporcionaram importantes constatações a respeito dos grupos participantes do referido evento. Segundo o artigo, ocorreu na ocasião a adesão do denominado Centro Cultural Gustavo Barroso à FIB e o texto também relatou a participação de militantes da Casa Plínio Salgado de São Paulo e da organização juvenil Ultra Defesa:

Estiveram presentes ainda representantes de outras

organizações que tiveram a oportunidade de realizar uma breve

exposição de seu trabalho. Destacamos a presença da Casa de

Plínio Salgado, que desenvolve importante trabalho em prol da

Doutrina do Sigma e da memória de Plínio Salgado; da Ultra

Defesa, organização nacionalista e patriótica que atua contra o

neoliberalismo; e da Juventude dos Pinheirais, organização não

governamental que atua em estreita cooperação com o Núcleo

de Curitiba.28

Na perspectiva de comparar e analisar a experiência integralista contemporânea, um aspecto que foi averiguado nesta pesquisa concerne à existência de grupos milicianos, como no contexto integralista da primeira metade do século XX.

Na análise das fontes foi constatado que integralistas vinculados à FIB organizaram um pequeno grupo de caráter paramilitar

denominado “Brigadas Integralistas”, segundo dados do seu site. 29 Sua proposta era ser um segmento de mobilização e ação da Frente Integralista Brasileira.

O lançamento de suas atividades ocorreu em 25 de agosto de 2008 (Dia do Soldado no Brasil) e surgiu do trabalho elaborado por militantes preocupados com a forma de ação da instituição, para que deixasse de ter apenas uma formação doutrinária. O grupo foi efêmero e no ano posterior se desvinculou dos integralistas da FIB por divergências.

As Brigadas Integralistas atuaram especialmente na cidade de São Paulo. Dentre as atividades destacadas, manifestações públicas,

divulgadas em vídeos30 na internet, através do YouTube, propagandeavam panfletagens realizadas e organizadas na busca de colocar em evidência o grupo que tinha por objetivo a difusão da ideologia integralista e ações de intervenção buscando cooptar novos militantes. Em 2009, por divergências internas, os participantes das Brigadas romperam com a FIB.

A Frente Integralista Brasileira – FIB, entre os novos grupos herdeiros de Plínio Salgado, defende a manutenção da ideologia do Sigma, formulada na década de 1930, porém as outras organizações integralistas como o Movimento Integralista Linearista – MIL-B e a Ação Integralista Revolucionária – AIRenfatizama necessidade de revisão das concepções ideológicas diante das novas conjunturas contemporâneas.

Na contemporaneidade, a militância rearticula-se, segundo as constatações realizadas nos meios de comunicação da organização, mesmo marcada pela descentralização partidária, e não se inibe na busca pela aproximação de antigos e novos camisas verdes, comprometidos com a difusão de sua ideologia.

A Frente Integralista Brasileira (FIB) está representada em núcleos em aproximadamente vinte cidades, concentradas em sua maioria no sudeste e sul do país. É a mais expressiva organização chauvinista contemporânea, defendendo a manutenção da ideologia formulada originalmente na década de 1930. Entretanto, outras novas organizações integralistas enfatizam a necessidade de expansão e revisão das concepções políticas diante das novas conjunturas. Como o Movimento Integralista Linearista (MIL-B), fundado oficialmente em 2006, com sua sede localizada em Campinas (SP) e com núcleos nas cidades do Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG). E, em menor medida, devido ao seu número de participantes, a denominada Ação Integralista Revolucionária – AIR, fundada em 2004, com sede na cidade do interior paulista de Rio Claro.

Estes aparelhos integralistas, segundo a acepção gramsciana de aparelhos privados de hegemonia, são resultado da mobilização de militantes de diversas regiões do país que colaboraram e continuam a colaborar para a continuidade da divulgação de valores chauvinistas na contemporaneidade.

 

5.3 O Movimento Integralista e Linearista

Brasileiro (MIL-B)

A organização integralista contemporânea denominada Movimento Integralista e Linearista Brasileiro (MIL-B) foi fundada oficialmente em 2006 pelo policial federal Cássio Guilherme Reis Silveira, que é o seu presidente. Este e os militantes Rafael Ferreira e Marcelo Franchi são as lideranças principais deste agrupamento chauvinista, sendo sua sede localizada na cidade de Campinas (SP), possuindo filiais com pequenos núcleos nas cidades do Rio de Janeiro e Juiz de Fora (MG), e com coordenadores em atividades nas cidades de Curitiba e São Paulo.

O líder do “Integralismo Linearista” foi entrevistado em 2007 por Márcia Carneiro para sua tese de doutorado, segundo as informações referenciadas pela pesquisadora. Aspectos biográficos do dirigente Cássio Guilherme possibilitam a reconstrução de suas influências políticas.

O mesmo teve sua formação política e profissional inicial já na adolescência, quando foi aluno da Escola Militar de Campinas, ocasião em que frequentou reuniões da Opus Dei. Aderiu posteriormente ao integralismo em 1992, contexto em que foi líder estudantil na Universidade Federal de Juiz de Fora, onde cursou engenharia. Lá foi líder da Juventude Nacionalista, organização atuante até os dias de hoje, e projetou-se como presidente do Diretório Acadêmico e do Diretório Central dos Estudantes, fundando naquela cidade um grupo de estudos nacionalistas que aderiu à ideologia do Sigma. Articulando gradualmente, a partir daquele contexto, a denominada proposta linearista, caracterizada por uma “hibridização” entre o integralismo, concepções fundamentalistas cristãs e concepções cientificistas, surgiu a ideia do integralismo linearista.

Na década de 1990, Cássio começou a se corresponder com maior frequência com intelectuais chauvinistas aproximando-se gradualmente das lideranças integralistas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. E, depois de formado, entrou para a Polícia Federal em 2002, atuando na cidade de Campinas, onde começou uma nova fase de sua militância articulando um núcleo integralista

na referida cidade. 31

A partir de 2004, o futuro líder do integralismo linearista aproximou-se mais diretamente dos irmãos Batista, dirigentes da Casa Plínio Salgado, frequentando as reuniões em São Paulo. Assim, a articulação entre a velha e a nova militância, desde meados da década de 1990, estimulou e propiciou a organização do I

Congresso Integralista para o século XXI, sendo Cássio e os militantes da Casa Plínio Salgado, e do Rio de Janeiro, entre outros, os principais organizadores do evento.

Naquele contexto, os participantes do referido “congresso”, buscando a centralização dos integralistas e dos poucos núcleos existentes, fundaram o Movimento Integralista Brasileiro (MIB). Porém, devido a divergências entre os líderes da Casa Plínio Salgado e Cássio Guilherme Reis Silveira a respeito da reinterpretação da ideologia integralista, este último optou por manter seu grupo independente em Campinas. Surgiram assim o MIL-B e a Sene (Sociedade de Estudos do Nacionalismo Espiritualista), com o objetivo de ser um órgão destinado a estudos e debates na sociedade civil sobre a interpretação linearista da realidade social.

O linearismo, segundo os dados do site da organização, tem como proposta articular os elementos nacionalistas e espiritualistas dos livros dos líderes da década de 1930, buscando reinterpretá-los e atualizá-los de acordo com as mudanças históricas da contemporaneidade, através da ideologia integralista e, segundo

“pressupostos científicos”. 32 O significado da denominada “doutrina linear” foi explicitado em artigo escrito pelo líder do MIL-B:

[...] O linearismo acredita na coexistência dos estados

teológicos, metafísicos, físicos e político-sociais em perfeita

consonância complementar. Por isso, o verdadeiro linearista

valoriza tanto o entendimento teológico da natureza quanto o

entendimento físico-matemático e mesmo o entendimento

metafísico, através da astrologia, numerologia, cartomancia,

parapsicologia e outros. Todos os aspectos da realidade

humana devem ser exaustivamente avaliados e entendidos. [...]

O linearismo valoriza sobremaneira a liberdade de pensar e

filosofar, em todas as áreas imagináveis do conhecimento

humano. Entretanto, não somos puramente humanistas, no

sentido em que o linearista deve saber que toda forma de

pensamento e ação humanos acabam por forçar o homem a

reconhecer uma autoridade suprema que deve descaracterizar

a tendência caótica dos sistemas naturais. [...] A única proposta

clássica filosófica que pode se aproximar do linearismo seria a

Escolástica de Santo Agostinho, entretanto a conciliação entre

fé e razão tem um esboço harmônico na doutrina linear e não

há traumas dogmáticos a serem suplantados por dogmas da

razão, preocupação inerente ao pensamento agostiniano. [...]33

Para a compreensão das divisões entre os grupos integralistas na atualidade e suas concepções, a análise comparativa das concepções defendidas pelo MIL-B, com os fundamentos ideológicos divulgados pelos demais grupos herdeiros do Sigma, foi fundamental para o entendimento das diferenças das perspectivas entre os aparelhos analisados.

 

5.4 “O exército de um homem só”: a Ação

Integralista Revolucionária (AIR)

O terceiro grupo herdeiro do Sigma investigado nesta pesquisa foi o aparelho integralista denominado de Ação Integralista Revolucionária (AIR), fundado na cidade de Rio Claro (SP), pelo militante Jenyberto Pizzotti.

A AIR foi fundada em 25 de dezembro de 2004 e teve como proposta articular uma modalidade diferenciada de estruturação através de um modelo de núcleos em organização sob “células”, em sua proposta sob a coordenação em nível nacional do auto proclamado presidente da AIR. Esta estratégia caracterizou-se em grande medida direcionada a instrumentalizar as novas tecnologias de comunicação advindas da internet, como o uso de comunidades virtuais como o Orkut, ferramentas principais do que podemos caracterizar como cibermilitância ou ciberativismo.

O líder da AIR é militante desde 1977, segundo seu depoimento, usado como fonte oral na tese de doutorado da historiadora Márcia Carneiro (2007), foi identificado como defensor de um nacionalismo exacerbado e de um Estado forte, sob uma lógica do ordenamento social fundamentado em pressupostos da defesa da moral cristã. O referido intelectual do Sigma na mencionada entrevista explicou o

percurso de sua adesão ao integralismo. 34

Jenyberto Pizzotti relatou que a segunda metade da década de 1980 foi fundamental para o contato entre antigos e novos integralistas. Segundo o dirigente da AIR, durante 1975 a 1985, foi o citado advogado Jader Araújo de Medeiros o grande aglutinador dos ideais e da militância integralista através de seu jornal. E ele destaca que após 1985 Anésio Campos Lara Junior, de São Paulo, era também uma liderança expressiva que buscou refundar a Ação Integralista Brasileira.

Naquela ocasião, em 1988, os integralistas buscando a reorganização fizeram o denominado Congresso da AIB em Niterói, no Sindicato dos Jornalistas Fluminenses, onde Anésio Lara e Sebastião Cavalcante candidataram-se à presidência da organização, sendo este último eleito e Anésio tornando-se vice-presidente da nova AIB. Com a renúncia do então presidente, Anésio torna-se a liderança nacional do que Márcia Carneiro conceituou como a gênese da terceira fase do integralismo (Carneiro, 2007, p.148). Anésio, porém, foi duramente criticado por registrar o nome das novas organizações integralistas e exercer um

monopólio sobre as mesmas.35

Outro fator que criou obstáculos para aceitabilidade de Anésio Lara como liderança nacional, além de ter registrado a AIB e o MIB em seu nome, também foi a ação que lhe proporcionou duras críticas por parte dos demais militantes; sua aproximação com grupos skinheads denominados “carecas”, como já apontado. Segundo o depoimento de Jenyberto, Anésio atrapalhou a imagem da nova AIB, devido a um fato ocorrido em 21 de abril de 1989, dia do nascimento de Hitler, quando se deixou fotografar com alguns carecas. A imagem repercutiu em jornais que se posicionaram criticamente em relação à nova organização integralista.

De fato, a relação de Anésio com skinheads foi confirmada por uma fonte documental encontrada e utilizada nesta pesquisa. Esta fonte foi um dos vídeos mais interessantes entre os que foram encontrados e arquivados. “A cultura do ódio” está disponibilizado no site de compartilhamento de vídeos YouTube.

O vídeo refere-se ao antigo programa Documento Especial do SBT, que rendeu inclusive um processo de acusação de apologia ao nazismo para a equipe do programa devido ao espaço aberto para que militantes neonazistas da cidade de São Paulo explicitassem seus valores racistas, homofóbicos e xenófobos, especialmente contra os migrantes nordestinos. Neste vídeo, Anésio Lara é um dos protagonistas ao lado dos militantes skinheads “Carecas do ABC”.

As questões relativas ao preconceito, discriminação e racismo continuam presentes na sociedade contemporânea e o vídeo “A

cultura do ódio” 36 possibilitou a visualização e o entendimento da continuidade de formas retrogradas e violentas de concepção sobre os indivíduos e sobre suas concepções de ordenamento social baseados no referencial de extremismo político.

A reportagem disponível no portal de vídeos YouTube é divida em três partes e evidencia imagens de Anésio Lara ao lado de um grupo de “Carecas do ABC”. Interrogado pelo repórter por que estava com os skinheads, Anésio afirmou que “todas as correntes nacionalistas deveriam se unir”.

Em relação aos “carecas”, Jenyberto colocou sua posição no depoimento para a historiadora Márcia Carneiro, confirmando que

os integralistas tinham contato com os skinheds.37 Ainda segundo os dados fornecidos pelo trabalho de Carneiro (2007), como apontado, Anésio Lara continuou a militar pela reorganização do integralismo, mas criando obstáculos para seus pares devido a esse acontecimento que envolveu os denominados “carecas” na data de comemoração do aniversário de Hitler. Outro fato é que os registros das organizações integralistas que ele fundou na década de 1980 estavam em seu nome. Essas questões resultaram na abertura de um conselho de ética na Nova AIB para avaliar as atitudes de Anésio, que perdeu a presidência da organização e depois foi expulso. A partir destes acontecimentos e do falecimento de antigas lideranças, o movimento, para Jenyberto Pizzotti, um novo momento de nostalgia dos integralistas, “perdeu a força que ensaiou ter em fins dos anos 1980 com a recriação da AIB” (Carneiro, 2007, p.353).

Os herdeiros do Sigma continuaram, entretanto, a rearticular-se sob a influência descentralizada de seus aparelhos. Nos últimos vinte anos, depois das tentativas de criação da nova AIB esboçadas na década de 1980, os militantes retomaram a iniciativa de trabalhar na criação de condições para a reorganização centralizada. Porém, ainda com alguns obstáculos proporcionados por Anésio, segundo os dados extraídos do depoimento do líder da AIR Jenyberto Pizzotti (Carneiro, 2007, p.351).

Na análise destes depoimentos e também nos conteúdos disponibilizados em sites e jornais integralistas, a questão da internet como uma ferramenta importante foi destacada, como constatado nesta investigação. E a entrevista de Jenyberto Pizzotti fez menção a esta questão:

na década de 1990, como você mesmo está colocando, é que

realmente houve alguns movimentos, digamos assim, na

década de 1990 mais precisamente 1995 se inicia no Brasil a

internet, isso em 1995, mas só por volta do ano 2000 é que

partindo do Rio de Janeiro, com Marcelo, que é falecido, você

sabe, se cria o Cedi, é o Centro de Estudos e Debates

Integralistas, com dr. Arcy dando total apoio e orientando [...].

Tinha o Cedi e nós também atuando, é o que eu te falei, assim

fazendo algumas coisas, bom é o seguinte, o Fernando

(Batista) [...] um grande idealista também, uma moço fantástico,

ele com o Marcelo já haviam criado um site, o Fernando

também cria um site e então se começa a dar os primeiros

passos para a divulgação do integralismo através da internet

[...] aí nós chegamos então no ano 2000, aí nós tivemos aquele

encontro aqui em Rio Claro (foi o I Encontro dos Pesquisadores

sobre o Integralismo – um encontro de pesquisadores, do qual

os integralistas participaram apenas como convidados) [...] aí

nós vamos pular um pouquinho mais para o ano de 2004. Em

2004, no final do ano eu recebo um contato de Cássio, o Cássio

havia atuado um pouco em Minas, segundo ele me contou e

após isso ele estava em Campinas e fazia uma ponte aérea

com São Paulo, com Marcelo [Silveira], o Lucas [...]. (Carneiro,

2007, p.354)

Márcia Carneiro (2007, p.355-356) constatou em sua tese que no contexto da organização do Congresso Integralista de 2004, realizado em São Paulo, os contatos entre Jenyberto e Cássio Guilherme se estabeleceram, sendo o militante de Rio Claro convidado por este último a participar do evento integralista em São Paulo.

Jenyberto Pizzotti não participou do denominado Congresso Integralista para o século XXI e após discordar de questões elencadas no evento formou sua própria organização. Jenyberto fez oposição ao monopólio do registro do quase efêmero Movimento Integralista Brasileiro (MIB) nas mãos de Anésio Lara e colocou-se contra a postura dos participantes do evento em querer rever as antigas diretrizes integralistas criadas por Plínio Salgado na década de 1930. Outro fator somou-se a sua posição antagônica sobre os desdobramentos daquele encontro: a participação de militantes do Prona na ocasião, segundo ele, apoiando a sugestão de mudanças nos documentos integralistas com as Diretrizes da AIB da década de 1930 era inaceitável. Estes fatores levaram Jenyberto a afastar-se dos grupos integralistas, segundo seu depoimento.

O líder da AIR fundou a organização em 25 de dezembro, segundo ele, com os seguintes objetivos:

Devido ao fato de eu não aceitar a estratégia tomada após

1935, me prendo nas raízes do integralismo, enquanto o

integralismo foi uma ideia revolucionária não um partido político.

(Carneiro, 2007, p.357)

[...] ela se organiza como os comunistas se organizavam

através de células, então nós achamos assim que a realidade

nossa hoje, dentro do movimento é que se verificou que não há

possibilidade, uma chance, pelo menos no momento de se

realizar uma centralização, então houve uma pulverização em

termos assim de núcleos e nós optamos pela formação de

células, então como são essas células? São de três a cinco

pessoas aproximadamente que se reúnem pelo menos uma vez

por semana e se discute e se conversa sobre o movimento,

sobre a situação do país e da doutrina. (Carneiro, 2007, p.361)

Interessante no depoimento em análise a descrição de que um dos motivos pelos quais Jenyberto afastou-se do grupo liderado por Cássio Silveira foi a questão denominada por ele de “doutrinária” devido ao antissionismo dos integralistas linearistas (Carneiro, 2007, p.361).

Uma das alegações também interessantes do líder da AIR é que ele organizou o referido aparelho integralista devido ao perigo de o “Brasil caminhar para uma espécie de chavismo” com o “avanço” da esquerda no Brasil naquele contexto, como forma de “estar mais ou menos preparado se houver uma resistência”:

[...] eu vi que naquele momento político que o Brasil estava

tendo, eu vi que o Brasil poderia caminhar para uma espécie de

chavismo em nosso país. Então eu pensei que a gente estava

mais do que na hora de nos aglutinarmos e pensar uma reação,

até revolucionária, até armada mesmo! Em caso de

necessidade. [...] por nós termos alguns elementos nas Forças

Armadas, inclusive como militares, tanto da reserva como o

pessoal mais jovem. [...] Mas digamos que houvesse uma

radicalização. Então é nossa ideia central desde 2004 estar

mais ou menos preparado se houver uma resistência.

(Carneiro, 2007, p.360)

Na ocasião do depoimento a Márcia Carneiro, o dirigente da AIR afirmou de forma espalhafatosa que já existiam sob sua direção mais de 360 células e que cada célula participaria de três a cinco pessoas, sendo aproximadamente uns novecentos participantes atuando através do ciberespaço ou presencialmente (Carneiro, 2007, p.361-362). Porém, observou-se nesta pesquisa que a iniciativa da AIR não obteve grande expressão e confirmou-se na verdade como pretensão inconclusa do “exército de um homem só”.

 

5.5 Skinheads integralistas, os “Carecas do

ABC” e o nacional socialismo brasileiro

Uma questão divide chauvinistas tradicionalistas e chauvinistas atípicos na contemporaneidade. É que os primeiros guardam total lealdade às experiências da primeira metade do século XX, como o fascismo, o nazismo e, no caso brasileiro, o integralismo. Os segundos opõem-se aos tradicionais, pois consideram prejudicial a identificação de suas propostas com os modelos ideológicos e organizacionais estigmatizados pelos desdobramentos da Segunda Guerra Mundial.

Para os membros desta segunda vertente chauvinista contemporânea, os indivíduos em sociedade são definidos pelo sentimento de pertencimento a comunidades culturais específicas, relativamente fechadas, que dão sentido e valor a sua existência. Daí se origina certas concepções hoje em voga, como o repúdio aos migrantes num discurso impregnado por um sentido específico de lógica territorial. Nacionalismo regional ou nacionalismo étnico é a forma como denominou Manuel Florentin (1994, p.73): “São os grupos que rejeitam o atual conceito jaconimo de Estado-Nação e atribuem essa categoria à comunidade orgânica de idêntica etnia, cultura ou língua.”

As organizações em questão são caracterizadas por um discurso fortemente moralizador que sempre focaliza o conteúdo de sua propaganda contra o caráter materialista da vida moderna, referenciando-se a princípios de ordem simbólica, como por exemplo, o pertencimento a uma comunidade étnico-cultural que precisa ser protegida.

Não só na Europa e nos Estados Unidos, mas também na América Latina, os herdeiros da insanidade parecem profundamente divididos entre organizações e militantes chauvinistas tradicionais e modernos.

Os primeiros, a quem a imprensa jornalística e alguns trabalhos acadêmicos aplicam o prefixo “neo” (fascista ou nazista), insistem na herança histórica de Hitler e Mussolini e em sua simbologia, como uniformes, símbolos e a defesa inalterável e irrefutável dos seus pressupostos ideológicos; enquanto os segundos interessam-se em adaptar suas concepções diante da conjuntura contemporânea, negando a simbologia usada outrora.

No emaranhado dos grupos chauvinistas contemporâneos, porém, existem aqueles que apregoam o “novo” sem dispersar certos símbolos na afirmação de sua identidade política. Nesse caso, alguns grupos específicos apresentam-se como nacional socialistas, como é o caso dos skinheads white power brasileiros. Estes encontraram em dois modelos de organização canais para sua militância, seja através de configurações partidárias ou de organizações tipificadas no modelo de gangs juvenis.

Em 1985, foi fundado o Partido Nacional Socialista Brasileiro

(PNSB) por Armando Zanine,38 antigo oficial da Marinha. A base deste nacionalismo é a construção do que seu fundador denominava de “raça brasileira”, para a qual seriam aceitas pessoas de todas as “raças e religiões”.

O PNSB tentou por várias vezes o seu registro junto ao Tribunal Superior Eleitoral, a fim de lançar seus candidatos em eleições, obtendo do TSE rejeição todas as vezes, devido às garantias constitucionais em repúdio a qualquer forma de apologia ao nazismo. Ainda que não tenha sido legalmente registrado, o PNSB contava com uma articulada rede de comunicação de âmbito nacional, militantes em vários Estados, principalmente no sul e sudeste, porém também em Estados do nordeste como Sergipe e

Bahia.39

A base do pensamento nacional-socialista, então, ganhou novos traços e significados históricos e locais; são nacionalistas ferrenhos no sentido político e pautam-se por princípios de caráter distributivista e igualitário, porém restritos nos seus benefícios exclusivamente aos membros de suas comunidades; aí o nacional-socialismo, apenas aos que compartilham uma espécie de sentimento de pertencimento às comunidades imaginárias que norteiam as concepções destes grupos.

O PNSB, em específico, nas décadas de 1980 e 1990, teve como principal núcleo de sustentação, segundo referências bibliográficas dos “carecas”, o movimento considerado como desdobramento dos skinheads europeus na busca pela construção de um movimento de “cabeças raspadas” genuinamente nacional.

No blog nacionalsocialismoemrede, 40 por exemplo, os internautas têm acesso a vários vídeos do YouTube sobre a atuação de organizações nacional-socialistas em diversos países. É também presente na internet o site intitulado Partido Nacional Socialista

Brasileiro. 41 Neste, a utilização da suástica e outros símbolos nazistas é articulada a propaganda que busca apresentar uma releitura do nacional-socialismo adaptado à realidade brasileira.

No link “ativismo” consta um texto intitulado 42 Leis do lobo solitário ,

e segundo dados do site o texto foi revisado pela “Diretoria do PNSB”, o que coloca em evidência a continuidade da ação deste grupo. Não se sabe, porém, se existe uma relação direta entre antigos e novos militantes do PNSB. No texto do site em questão são colocadas de forma explícita estratégias para que o “lobo solitário” haja com eficiência e discrição nas suas atividades de militante nacional-socialista. Fazemos referência aqui a parte do conteúdo presente no site intitulado PNSB, para que os leitores possam tirar reflexões diante do conteúdo velado de estímulo à

violência vinculado livremente na internet.43

É interessante, diante da diversidade dos grupos chauvinistas na contemporaneidade, a bricolagem formada pelos herdeiros das ideologias violentas; militantes do PNSB, skinheads nacional-socialistas e integralistas representam, na perspectiva desta investigação, aspecto do irracionalismo e de elementos do retorno à insanidade caracterizada pela prática violenta e excludente destes grupos.

Neste sentido, como desdobramento da cultura política de decadência ideológica e irracionalismo (Lukács, 1958), é possível a análise comparativa das atuais formas de organização de determinados segmentos skinheads como uma dimensão da generalização da cultura da violência que marca muitas organizações de formação miliciana e de valores segregadores. Porém, existem algumas diferenciações ideológicas entre aqueles que se apresentam como “cabeças raspadas” e diversas tendências devem ser consideradas quando focamos a cultura skinhead como objeto de análise de certas expressões do comportamento político juvenil.

As diferenças entre militantes e organizações que fazem a apologia às concepções ideológicas de Adolf Hitler devem ser destacadas, pois no Brasil e em outros países, nem todo nazista é skinhead, mas os white power apresentam-se como nazistas também, entretanto, muitos militantes das organizações contemporâneas nacional-socialistas não têm vínculo ou relação direta e explícita com grupos skins.

Nesta lógica, nem todo skinhead ou careca é necessariamente um apoiador do nazismo enquanto ideologia; porém, muitos compartilham de determinados valores difundidos pelos intelectuais da suástica, como evidenciou o estudo de Márcia Costa (1993) sobre os Carecas do Subúrbio. Sendo possível, porém, a interpretação de que características da cultura skinhead possuem aproximações de uma dimensão de caráter fascistizante em suas práticas e nos valores políticos.

É necessário pontuar as origens do movimento skinhead que surge na Inglaterra no final da década de 1960. A Inglaterra naquele período era o cenário de muitos grupos juvenis como os rudeboys ou rudies (conjuntos de imigrantes jamaicanos conhecidos por posturas violentas e machistas) e os mods (gangues violentas retratadas no filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick).

Os skinheads surgiram, inicialmente, como grupo juvenil não racista que frequentava círculos dos mods (sendo conhecidos como hard mods) e dos rudeboys nas festas de ska (gênero musical jamaicano). Eram em sua maioria filhos de operários, vangloriavam-se ao afirmar ser um movimento genuíno de trabalhadores nacionalistas na construção de suas fronteiras de identidade social e territorial. Além do sentimento exacerbado pelo futebol (defesa do território), os primeiros skins articularam a construção de sua identidade social – botas, suspensórios e calças jeans como elementos de identificação com a estética dos operários ingleses –, da mesma forma utilizaram como marca identitária as cabeças raspadas, em oposição aos hippies, identificados pelos skinheads como cabeludos, usuários de entorpecentes e alienados. Elementos estéticos legados à cultura skin contemporânea.

Fontes bibliográficas apontam que a estética das cabeças raspadas é oriunda também de estratégias para melhor desempenho nas brigas de rua (não poderiam ser agarrados pelos cabelos) e tem relação também com justificativas relacionadas à ideia de higienização. Neste sentido, as cabeças raspadas e o fisiculturismo estão articulados à ideia de saúde, força e virilidade, e a conduta moral rígida está articulada à concepção de força moral, sendo possível a interpretação da aproximação destes ideais da cultura skinhead com valores de concepções de eugenia.

A Inglaterra no contexto das primeiras manifestações skinheads recebeu um grande número de imigrantes, sobretudo jamaicanos e paquistaneses, que foram inseridos como mão de obra barata. Com a crise econômica da década de 1970, ocasionada pela alta mundial do preço do petróleo, as taxas de desemprego começaram a aumentar e, para muitos ingleses, a situação de desemprego era ocasionada pelos imigrantes que aumentavam a concorrência no mercado de trabalho. Começaram naquele contexto a ocorrer na Inglaterra as primeiras ações violentas de skinheads contra imigrantes que foram acusados e responsabilizados pelo desemprego, somam-se também aos reflexos da crise econômica os conflitos entre os skinheads e as culturas juvenis então em

voga. 44

Naquele contexto, concepções chauvinistas (nacionalismo radical) e xenófobas (aversão ao estrangeiro) começaram a fazer parte dos valores defendidos pelos skinheads, alterando a configuração ideológica dos primeiros skins. Apareceram assim os primeiros sinais da inclinação de determinados segmentos desta cultura urbana juvenil: as estratégias racistas e violentas para afirmação de sua identidade enquanto grupo social.

Na década de 1980 ocorre um segundo momento na construção da identidade skinhead, a construção de uma identidade mais politizada e muitos grupos começaram a rearticular-se e identificar-se com propostas de partidos chauvinistas como o National Front (Frente Nacional), partido político inglês defensor de ideais nazistas; ocorre então, entre os skins ingleses, a inserção de valores relacionados à pureza racial ea necessidade de um espaço vital de uma sociedade sem imigrantes para a construção de uma Inglaterra somente para os ingleses.

A partir daquele contexto, a constante pressão da mídia acerca da infiltração do preconceito racial dentro de grupos skinheads resultou no surgimento de um maior engajamento político entre os “cabeças raspadas” (tanto à esquerda quanto à direita) derivando na fragmentação em vários submovimentos rivais. Desde então, existem conflitos entre as diversas tendências sobre o legado da cultura skinhead.

Naquele momento, década de 1980, muitas organizações skins passaram a se identificar de forma explícita com ideias nazistas, ganhando então visibilidade a vertente skinhead white power (ou boneheads, como são chamados pejorativamente dentro da cultura skinhead). Começavam também a aparecer em outros países jovens que assumiram os valores e a estética skinhead, sendo que, nos Estados Unidos, muitas organizações skins estabeleceram vínculos com a Ku Klux Klan (KKK) organização racista atuante desde o final do século XIX, conhecida pelo extermínio de negros no sul daquele país.

No Brasil, as primeiras organizações skinheads datam também do início da década de 1980, sem vínculo direto com ideais nazistas, oriundos de facções divergentes existentes dentro do movimento punk brasileiro, e logo se organizaram de forma independente, tornando-se inimigos dos punks devido à incompatibilidade ideológica entre ideias nacionalistas e conservadoras em oposição aos valores anarquistas (especificamente dos anarcopunks) e às posturas libertárias.

Os primeiros skinheads brasileiros atuavam inicialmente na zona leste da cidade de São Paulo, por ser uma região periférica, esta facção foi denominada Carecas do Subúrbio, organização composta por jovens trabalhadores das indústrias e comércio de São Paulo, segundo os pesquisadores sobre o movimento skinhead brasileiro

Alexandre Almeida e Márcia Costa (2011, p.250). 45

A influência de partidos e organizações chauvinistas buscando atrair os jovens foi marcante surtindo o efeito de dividir determinados agrupamentos de Carecas do Subúrbio que se identificaram com ideias integralistas e fracionando skinheads que começaram a se identificar com o nacional-socialismo e com concepções políticas.

Diante da crise econômica da década de 1980, afetando o mercado de trabalho na área onde surgiu este grupo, os Carecas do Subúrbio propagaram-se com a afirmação de sua identidade baseada nos pressupostos ideológicos de um “nacionalismo proletário” em repúdio às transformações oriundas da introdução das políticas neoliberais do período. Para os Carecas do Subúrbio, que posteriormente se organizaram no Rio de Janeiro e em outras regiões do país também sob a denominação de Carecas do Brasil, o movimento não era “nem racista nem fascista”. A internet, como é cada vez mais noticiado pela imprensa, é hoje o novo território de atuação de vários grupos chauvinistas de diferentes vertentes, como os denominados Carecas do Brasil, Carecas do ABC e skinheads nazistas white power.

A articulação entre grupos juvenis nacionalistas foi potencializada através dos recursos de comunicação com armazenamento e compartilhamento de informações e recursos imagéticos, como vídeos, fanzines virtuais, além dos textos de formação política e de informações sobre encontros, show, e sites de interesse de skinheads e nacionalistas em geral. No YouTube alguns vídeos também colocaram em evidência as relações entre carecas integralistas e nacionalistas.

No vídeo denominado “Carecas e nacionalistas unidos Ativismo 7 de setembro, anti-comunismo, anti-Dilma, PT, Foro de SP” foram disponibilizadas imagens de ações de carecas de diferentes tendências no desfile de 7 de setembro na cidade do Rio de Janeiro. Abaixo do vídeo constam as seguintes informações “Ativismo Patriota conservador no Rio de Janeiro” e, entre as siglas das organizações que participaram do ato, foi constatada a referência ao Movimento Integralista Linearista Brasileiro (MIL-B).

Entre as fontes analisadas nesta investigação, um vídeo esclarecedor da relação entre skinheads e carecas integralistas comprovando suas estratégias e ações para a propaganda de concepções chauvinistas foi o intitulado “Carecas Força Nacionalista”, que abordou imagens de grupos de carecas ostentando cartazes com frases nacionalistas em um desfile militar, sob a música “Manifesto Nacionalista” da banda careca denominada Anti Narcose. A música tem como letra a homenagem ao antissemita Gustavo Barroso e ao final do vídeo há a seguinte mensagem final “Agradecimento ao NIERJ, Brigadas Integralistas,

Carecas do Subúrbio SP e todas as forças nacionalistas.” 46

As vítimas das agressões de skinheads são em sua maioria militantes de esquerda, homossexuais, consumidores de entorpecentes, grupos juvenis como roqueiros e punks. Estes são os inimigos mais comuns dos skins. A violência ganha, sobretudo, justificativas homofóbicas (aversão aos homossexuais), e ações de perseguição e espancamentos de homossexuais tornaram-se uma das marcas mais distintivas dos segmentos homofóbicos entre skinheads de muitos países, porém é importante ressaltar que também a homofobia não é um elemento compartilhado pelo universo ideológico que orienta todas as tendências de “cabeças raspadas”.

A diferença mais notória entre os diversos grupos skinheads47 ocorre entre aqueles que defendem a supremacia branca – os white power. Para estes, o combate nas ruas tem como principais alvos os negros, pessoas portadoras de necessidades especiais, judeus, imigrantes em geral, anarquistas e marxistas. E, no caso brasileiro, em especial, a vítima muitas vezes é o migrante nordestino.

Para diferenciar o conjunto de skinheads brasileiros é necessário pontuar que existem facções com diferentes graus de exclusão no espectro político e cultural; como os Carecas do ABC, que são em parte integralistas. Assim, com o mesmo lema dos seguidores de Plínio Salgado na década de 1930, os Carecas do ABC acreditam na tríade – Deus, Pátria e Família – entrando em evidência a questão do arcabouço moral embasado em elementos do catolicismo, sendo característica ideológica singular desta facção skinhead.

Segundo Costa e Almeida (2011), como reação à associação da imagem skinhead ao racismo e como manifestação de uma ideologia “genuinamente nacional” segmentos dos Carecas do ABC a partir da década de 1980 começaram a se identificar com o integralismo (Almdeida, 2012, p.7).

A relação entre skinheads que se apresentam como seguidores da

ideologia do Sigma e os integralistas organizados é polêmica,48 pois, para os militantes integralistas os skinheads, em sua maioria, são estigmatizados como desordeiros e violentos. E, para os skins, os integralistas são vistos como muito “intelectualizados e pouco propensos à ação direta”:

A relação entre os skins “verdes” e outros militantes do

integralismo é marcada por momentos de aproximação e

tensão, pois muitos militantes das organizações integralistas

viam e veem com certa apreensão, a inclusão de skinheads em

seus grupos. Essa apreensão é motivada pela imagem

estigmatizada do grupo e pela consequente repercussão

negativa na imprensa; pela conduta violenta de alguns

membros e pelos possíveis conflitos com grupos rivais, como

punks e “antifascistas”; pelas discordâncias doutrinárias (como

a questão do antissemitismo e a negação do Holocausto); pela

ameaça de deturpação da doutrina; pela falta de disciplina e

recusa de muitos skins de abandonar seu estilo, especialmente

no que diz respeito à estética visual belicosa. Os skins

criticavam e ainda criticam os militantes integralistas

“tradicionais” por considerá-los manipuladores e indivíduos

demasiadamente “intelectualizados” e não realizarem atividades

do tipo “ação direta” nas ruas. (Almeida, 2011, p.6)

As ações dos “cabeças raspadas” (tradução literal do termo skinhead) evidenciam seus reais valores; como, por exemplo, o caso dos dois adolescentes atacados por “carecas” em um trem na região metropolitana de São Paulo em 7 de dezembro de 2003. O adolescente Flávio Augusto do Nascimento Cordeiro, de 16 anos, perdeu o braço direito e Cleiton da Silva Leite, de 20 anos, morreu após traumatismo craniano, ambos trajavam camisetas de bandas de rock e tinham cabelos compridos e por isso foram intimados a pular do trem em movimento para não serem assassinados dentro

do vagão pelos skins. 49

Existem várias facções, nem todos aderem aos mesmos componentes ideológicos, sendo entretanto o chauvinismo a marca identitária maior entre estas três vertentes: os autodenominados “antirracistas”, porém conservadores, homofóbicos e violentos (Carecas do Subúrbio), valores estes, também compartilhados pelo conservadorismo dos “carecas integralistas” (Carecas do ABC), e somam-se a este mosaico da insanidade os “neonazistas e nacional-socialistas” (skinheads white power), marcados pelas características ideológicas do racismo, homofobia e xenofobia.

Ambas as vertentes são relativamente organizadas nas grandes cidades em grupos autônomos, sendo os white power o segmento mais singular, fato que exacerba os antagonismos destes com as demais vertentes. Mas, em cidades do interior onde existem poucos skinheads, em eventos musicais ou em manifestações públicas, é comum a presença de militantes de grupos diferentes, ocasionando, muitas vezes, conflitos ou até mesmo tolerância momentânea devido ao respeito pela cultura skin e a causa nacionalista. Como apontaram Costa e Almeida (2011, p.420), independentemente das divergências ideológicas entre facções skinheads e grupos nacionalistas existem elementos que comprovam a articulação destes agrupamentos. Destacam-se, neste sentido, as referências que os autores em questão têm sobre a participação de Anésio Lara Campos, importante militante integralista que buscou a aproximação dos skinheads com a ideologia integralista.

Os antagonismos entre as facções skins são ainda mais complexos, levando em consideração o surgimento dos “cabeças raspadas” antifascistas (antifas), potencializando as divergências entre esquerdistas e direitistas, racistas e não racistas, politizados e apolíticos. Assim, surgiram os Sharp (skinheads against racial prejudice – skinheads contra o preconceito racial), cujo princípio é ser contra toda forma de discriminação racial e fascismo; apresentam-se como apolíticos. E, os Rash, (red and anarchists skinheads – skinheads vermelhos e anarquistas), que promovem ideologias esquerdistas em princípio como mais uma forma de combate aos white powers. Assim, estes grupos em específico não se ajustam à conceituação genérica de movimentos de extrema direita, sendo a argumentação sobre estas vertentes.

O terceiro momento na construção da identidade skinhead é no final da década de 1980 e início de 1990, com a organização de grupos internacionais como “Blood and Honour” e a Hammerskin Nation (organização de neonazista originária dos EUA atualmente com

filiais em vários países). 50

No ano de 2005, por exemplo, em Portugal, ocorreram grandes manifestações promovidas pela Frente Nacional portuguesa – organização composta também por militantes skinheads que integram a Hammerskin – seus discursos subordinaram-se a temas contra a criminalidade, a imigração e a entrada da Turquia na União Europeia.

O movimento skinhead no início do século XXI é segmentado. Isso deve ser ressaltado para evitarmos generalizações deficitárias. A cultura skinhead é caracterizada por tendências ideológicas distintas segundo as quais nem todos são racistas, porém a utilização da violência é elemento comum entre determinados segmentos skinheads, quando, por exemplo, ocorrem embates entre skins neonazistas e skins antinazistas.

É até possível ponderar que nem todo skinhead pode ser colocado neste bojo, porém devemos estar atentos para a acepção que exceções não fogem ao preceito.

Continuar: parte 3 de 3