Com amor, a garota chamada Estrela

Jerry Spinelli · Capítulo 2 de 3 · parte 3/3

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Com amor, a garota chamada Estrela

Parte 2

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

“Claro.”

“Sério.”

“Ela é uma criança.”

“É uma criança crescendo.”

“Ela é um moleque.”

“Ela é um moleque virando uma garota. Veja só”, contei nos meus dedos, “ela te dá donuts. Ela perseguiu você por metade da cidade. Jogou um balde de água em você. Isso, meu caro Perry”, desdobrei uma perna e o cutuquei no joelho com meu dedão, “é amor.” Recolhi o pé rapidamente, feliz e aliviada de ele não o ter afastado. “Alvina me contou sobre o campo de treinamento”, eu disse. Olhei para ele. “Tudo bem de eu saber?”

Ele deu de ombros. “Todo mundo sabe.”

Os olhos dele brilharam na luz da lua. Cheguei um pouco mais perto. Olhei para o céu estrelado. “Não sei mais o que perguntar.”

“Tente: Por que te mandaram para lá?”

“Por que te mandaram para lá?”

“Por roubar.”

Eu tive que rir. “Bem, eles realmente conseguiram tirar o hábito de você, não é?”

“Tentaram.”

“Foi tão difícil assim?”

“O quê?”

“O campo de treinamento. Foi muito duro para você?”

“Sim, eu acho. De pé às 4 horas da manhã. Correr oito quilômetros. Sim, senhor. Não, senhor. Meias no varal. Aulas. Marchar. Bater continência.”

“Por quanto tempo? Um ano?”

“Sim.”

“E você ainda rouba.”

Ele cuspiu do outro lado do telhado. “Sim.”

Provavelmente não devia tê-lo provocado, mas não consegui me controlar. “Então, qual o motivo, é como o que aconteceu na biblioteca? Se está em frente ao seu nariz você pega, certo? Livro? Donut? Maçã-do-amor? Limão? O que for?”

Ele fungou. “Ninguém te dá as coisas.”

“Você não tem medo de ser pego novamente? De ser enviado de volta?”

“Nem.”

“Talvez devesse arrumar um emprego. Ganhar algum dinheiro. Então você poderia – Deus me livre – pagar pelas coisas.”

“Eu tenho um monte de dinheiro. Prefiro roubar.”

Hora de mudar de assunto.

“Então, você vai ao Blobfest?”

“Já me perguntou isso.”

“Esqueci a resposta.”

“Talvez.”

“Sem talvez para mim. Dootsie irá me arrastar se ela tiver que fazer isso. Você vai se inscrever no concurso de fantasias assustadoras?”

“Acho que não.”

“Dootsie vai de senhora Blob.”

“Parece que temos uma vencedora.”

“Alguma ideia do que eu poderia ser?”

“Você mesma.”

“Não sou assustadora.”

“Não aposte nisso.”

Ele não deu um sorriso, mas ri o suficiente por nós dois.

Eu disse: “Eu medito”.

Ele disse: “Eu não”.

“Não achei que meditasse. Você não é exatamente do tipo autorreflexivo, né?”

“Não.”

“Tem medo de ficar sozinho consigo mesmo?”

“Pavor.”

“Você parece tão certo de tudo. Já tem tudo planejado, hum?”

“Uhum.”

“Cansado das minhas perguntas?”

“Não tô não.”

“Eu falo demais?”

“Não para mim.”

“Sério?”

“Gosto de pessoas que falam muito. Assim não preciso falar.”

“Bem, então...”, ergui os braços... “Eu sou sua garota ideal!”

Agora, por que eu disse aquilo?

Ele abriu os olhos. Estava me encarando. Senti como se ele me visse pela primeira vez. Senti que podia flutuar, como um balão que tem o fio cortado. Precisava descer de volta.

“Pergunte-me alguma coisa”, disse eu.

“Hein?”

“Eu que estou perguntando tudo. Agora é sua vez de me fazer uma pergunta.”

Ele fechou os olhos novamente. “Quem te largou?”

O-ou.

“Me largou?”

“Sim. Quem?”

“Onde ouviu isso?”

“Sua amiga Pootsie.”

“Dootsie.”

“Dootsie. Naquele dia.”

“Pensei que vocês dois estivessem falando sobre limonada. Não sabia que estavam fofocando a meu respeito.”

“Isso foi tudo que ela me disse. Que seu namorado te largou.”

Algo doce e triste me percorreu ao som da voz dele te chamando de meu “namorado”.

“Eu não colocaria dessa forma”, disse eu.

“E como você colocaria?”

Estava com medo de que ele dissesse isso. Pergunte-me alguma coisa. Eu e minha boca grande.

“Ninguém jamais disse: ‘Declaro esse relacionamento findo. Vá, retire-se deste aposento’. Ele estava sob muita pressão. Simplesmente não deu certo.”

“Triste?”

“Talvez. Às vezes. Não sei.”

“Qual era o nome dele?” Aquilo foi um sorriso sutil em seus lábios? Ele estava gostando daquilo. “Ele não era nada. Ele é.”

“É.”

“Leo.”

“De onde?”

“Arizona. Eu me mudei.”

“Você o amava.”

Eu não disse nada.

“E aí?”

“E aí o quê? Você só fez uma afirmação.”

“Você o amava? Ponto de interrogação.”

“É claro.”

Por favor, não pergunte...

“Você o ama? Presente do indicativo.”

Eu desviei o olhar. A borda do telhado parecia a borda da Terra. Estávamos em uma jangada entre as estrelas. Cutuquei-o com o dedão. “Disse me faça uma pergunta, não vinte. Além disso, você é muito intrometido...”

“E você não é?”

“...e eu não vou contar a você cada detalhe da minha vida...”

“Na nossa primeira noite.”

Eu não ia dizer isso. Eu não ia dizer isso.

“Além disso, você está se divertindo muito mais que eu. De agora em diante, eu conduzo a conversa.”

Ele deu um sorriso cacarejado de escárnio. “Uma típica garota.”

“Falando em garotas”, eu disse, “e aquela menina na piscina? Aquela com quem você estava deitado na toalha.”

“O que tem ela?”

“Qual o nome dela?”

“Stephanie.”

Stephanie.

“Certo... então... e quanto a Ike? O reparador de bicicletas e cortadores de grama. Ele é seu pai?”

“Sim. O que tem a Stephanie?”

“O que o Ike faz no inverno? Nenhum gramado para cortar.”

“Limpadores de neve. O que tem a Stephanie?”

“O que tem ela?”

“Não quer saber mais sobre ela?”

Dei de ombros. “Na verdade não.”

“Ela é minha namorada? Eu gosto dela? Eu a amo? Nós vamos nos casar? Quantos filhos nós teremos?”

Ele estava sorrindo debochado de novo.

“Engraçado”, disse eu. “Tenho uma ideia melhor. Vamos falar sobre o meu calendário. Aposto que você não sabia que estou fazendo um calendário.”

“Parabéns.”

“Não do tipo que você está pensando.”

“No que estou pensando?”

“No de papel. Pendurado em uma parede.”

“Você leu minha mente. Como ficou tão inteligente?”

“Estou ignorando seu sarcasmo. Meu calendário é de antes de existir algo como papel. Já ouviu falar de solstício?”

Ele deixou escapar uma longa respiração entediada. “Inverno ou verão?”

Surpresa, surpresa. “Inverno.”

“Quando o sol está sobre o Trópico de Capricórnio. O dia mais curto do ano.”

Acho que simplesmente pisquei e fiquei boquiaberta com ele por um tempo. Ele pareceu ter ido dormir.

“Estou entediando você?”

“Não.”

Não tenho certeza se acreditei nele, mas prossegui e contei sobre meu trabalho semanal na Montanha do Calendário. “Meu objetivo é chegar em 21 de dezembro, como você bem sabe, é claro, já que é especialista em solstício. Quero ter um tipo de, não sei, cerimônia? Comemoração? Quero dar um nome a ela. Alguma ideia?”

Uma pausa de cinco segundos e ele disse: “Solstrela.”

“Hein?”

“Solstrela. Es-trela. Sols-tício. Ao contrário.”

Fiquei impressionada. Bobo, eu sei, era uma coisa tão pequena. Mas ao ouvi-lo dizer meu nome pela primeira vez, um tipo de arrepio me percorreu. Ele não era tão indiferente a mim, nem tão entediado quanto parecia.

Pigarreei. “Gostei disso. Obrigada.”

“De nada.”

“Então”, prossegui, “armarei uma tenda, com um buraco nela, exatamente na linha da última espátula, apontando para o horizonte, pronta para afunilar os primeiros raios do sol na minha tenda. Uma espécie de barraca Stonehenge. Convidarei as pessoas.”

Esperei ele me perguntar por que eu estava fazendo tudo isso.

Não perguntou.

“Será um momento muito bacana”, falei. “Talvez eu escreva um poema. Ou uma canção. Eu podia tocar meu ukulele. Podia dançar.” Eu me levantei. Dancei. Dancei pelas bordas do telhado, onde podia ver o canal prateado pela luz da lua. Dancei em um círculo ao redor dele. Quando estava atrás dele, ele não se virou para me olhar, mas se endireitou. Quando me sentei de volta, ele não disse nada. Olhou para mim e assentiu.

“Então”, disse eu, “talvez você pudesse vir comigo alguma manhã quando eu for firmar um novo marcador.”

“Talvez.”

“Ou me encontrar lá. Vou às quintas-feiras.”

“Talvez.”

Tive a sensação de que depois do segundo “talvez” nós nos olhamos por horas, mas acho que podem ter sido apenas minutos, talvez menos. Horário de telhado é mais difícil de monitorar do que horário do nascer do sol. Cedo ou tarde eu disse: “Bem...”. Calcei minhas sandálias e me levantei. “Boa noite.”

“Boa noite”, disse ele.

Eu fui para a borda. Ele havia se deitado novamente. “E não sou uma típica garota”, disse eu, pisando na escada e voltando para o solo.

8 de agosto

Um tordo se mudou para nossa vizinhança. Ele se empoleira no alto do poste de telefone atrás do quintal. Toda manhã, é a primeira coisa que escuto. É impossível ficar infeliz quando se escuta um tordo. É tão cheio de canções, e não parece conseguir decidir qual delas cantar primeiro, então canta todas, uma dúzia de músicas diferentes de uma vez, em dezenas de vozes diferentes. Continuamente, canta sem uma pausa, tão vivaz, até mesmo frenético, como se sua voz sozinha pudesse manter o mundo acordado.

9 de agosto

Antes de caminhar até a Montanha do Calendário hoje, perguntei a minha mãe sobre nossos vizinhos ao lado, os Cantellos, e sua luz da varanda. Notei que ela está acesa toda vez que vou à montanha. A princípio pensei que a tivessem deixado ligada por engano, mas agora estava começando a me questionar. “Não é por engano”, disse minha mãe. Ela havia contado à senhora Cantello sobre meu ritual de começo das manhãs de quinta-feira, então a senhora Cantello ajuda a iluminar o caminho para mim. Não é legal?

10 de agosto

Contei à Betty Lou sobre a noite no telhado com o Perry.

“E quanto ao Leo?”, disse ela. (Eu havia lhe contado sobre você há bastante tempo.)

“Leo está lá”, disse eu. “O Perry está aqui.”

Também contei à Betty Lou sobre o tordo. “Você é tão sortuda”, disse ela. “Queria eu ter um tordo.”

11 de agosto

Caro Archie,

(Carta dentro de uma carta aqui, Leo, mas você tem permissão de espiar. Como disse antes, não tenho nada a esconder de você.)

Conheci um garoto. Perry. Nem sei o sobrenome dele. Mora atrás de uma loja de reparos de bicicletas e cortadores de grama. (Lembra-se do que são cortadores de grama, seu escavador de deserto?) O cabelo dele é preto, os olhos azuis. Às vezes, dorme no telhado. Parece ser pobre. Ele garimpa em contêineres de lixo e rouba. Já esteve encrencado com a justiça. Foi parar em um desses chamados campos de treinamento por um ano. Chupa limões e cospe as sementes em mim. Não fala muito (embora tenha gritado comigo uma vez), e está quase sempre amuado. Mas ele é legal com minha pequena amiga Dootsie. Talvez a melhor coisa que possa dizer sobre Perry é que Dootsie realmente parece gostar dele. Ele lê. Me apresentou à Ondine. É muito inteligente, mas demora um pouco para se descobrir isso. Às vezes, age como se fosse o dono do mundo. Anda cheio de marra. Quando sobe a ladeira para a prancha de salto na piscina, não pula na mesma hora, e sim fica lá por um tempo, analisando seu domínio. Ele se deita em uma toalha de praia com uma garota chamada Stephanie, mas depois que entra na água, não volta para ela. Minha amiga Alvina, a Pestinha, tem uma queda por ele.

“Você tem?”, posso te ouvir dizer.

Não sei, Archie. Sinto algo, mas não sei como chamar isso. Passei quase a noite inteira no telhado com ele (sem namorico). Nós conversamos... bem, só eu falei, praticamente (exceto quando ele gritou comigo). Dancei para ele. Me oferece tão pouco, que tudo que precisa fazer para me deixar feliz é manter os olhos abertos.

“E quanto ao Leo?”

Você não é o primeiro a me perguntar isso. No momento, preciso admitir que não estou pensando muito no Leo. Na verdade, estou deixando de pensar nele de propósito. Cada dia quando acordo, a pergunta está lá esperando por mim: E quanto ao Leo? Mas eu me afasto dela. Finjo não ouvi-la. Você acha que é porque tenho medo de respondê-la? Gostaria que a Dootsie pudesse conhecer o Leo pessoalmente. Como está, ela o despreza porque ele me “largou”.

Se isso estivesse acontecendo em Mica, eu estaria sentada na sua varanda nesse instante, você e eu nas cadeiras de balanço brancas, você soprando seu cachimbo, o ar cheirando a cerejas. Você me ouviria e assentiria, depois sorriria e esperaria pacientemente até eu terminar de falar. Faria algumas perguntas. Então provavelmente diria: “Por que não consultamos o Señor Saguaro?”. E nós caminharíamos até o Señor Saguaro e você falaria com ele em espanhol, e ele responderia, e você traduziria para mim, e entre vocês dois – você e o Señor Saguaro – você tornaria as coisas um pouco mais claras para mim, me mostraria o caminho.

Sua querida pupila,

Estrela

14 de agosto

Hoje foi o aniversário do Charlie. É o que diz na lápide que ele compartilha com a Grace. 14 de agosto de 1933. Então o traço. Depois o espaço em branco, esperando pacientemente. Tenho pensado no dia de hoje faz algum tempo. Comprei um presente para o Charlie. Embrulhei-o. Papel branco, fita azul.

Decidi que seria hoje o dia em que caminharia diretamente até Charlie e diria algo. Estava prestes a ir ao cemitério quando Dootsie irrompeu pela porta: “Vamos a algum lugar!”.

Dilema.

Por um lado, no dia anterior, meu pai tinha feito um pequeno carro de puxar para a minha bicicleta, assim eu poderia puxar Dootsie pelo caminho quando saísse. Dootsie estava louca por uma corrida. Por outro lado, isso seria tudo que eu poderia fazer para lutar contra o meu medo e encarar Charlie – como eu conseguiria controlar Dootsie e sua imprevisibilidade ao mesmo tempo? Em um terceiro lado, como eu poderia dizer não para aquela carinha implorando sorrindo para mim?

“Tudo bem”, falei, e antes que ela parasse de gritar, o novo carrinho estava conectado e nós estávamos em movimento. Canela sentou no colo de Dootsie. Ao longo do caminho, tentei explicar a situação o melhor possível. Disse a ela que Charlie estava triste porque sentia falta de sua esposa, e que ia lá todo dia. Disse a ela que precisávamos respeitar seus sentimentos e não incomodá-lo. Simplesmente daria a ele o presente e diria algo breve, e depois nós partiríamos. Dootsie acompanhou meu raciocínio e não disse uma palavra. Geralmente, eu pedalava minha bicicleta dentro do cemitério. Dessa vez, estacionei na entrada. Coloquei o Canela no meu bolso. Enquanto Dootsie escalava para sair do carrinho, me ajoelhei em frente a ela, a segurei pelos ombros e a olhei nos olhos. “Entende tudo que eu falei agora?”

Ela assentiu vigorosamente. “Uhum”, disse ela. “E não direi uma palavra.” Para provar seu ponto, ela trancou os lábios e jogou a chave fora.

Nós seguimos para o lugar do túmulo. Dootsie apontou. Ela sussurrou: “Aquele é o Charlie?”.

“Sim”, sussurrei, “agora shhh.”

Nós o abordamos pelo lado. Se ele conseguia nos ver pelo canto do olho, não demonstrou. Meus joelhos eram pura gelatina. Se Dootsie não estivesse lá, acho que teria virado e corrido.

Continuei dizendo a mim mesma: Ele aceitou seus donuts. É só um homem. Não vai morder você. Também continuei ouvindo a voz de Perry: Quem você pensa que é?

Como sempre, ele se sentou na cadeira de alumínio com listras verdes e brancas. Vestia uma camisa branca de manga curta, calças pretas e sapatos com meias brancas. Suas canelas eram quase tão brancas quanto suas meias. A velha maleta de metal repousava na grama. O cachecol xadrez vermelho e amarelo estava em volta de sua coxa. Pela primeira vez me dei conta de que isso era tudo. Nenhuma revista, nenhum livro, nenhum rádio ou TV portátil, nenhum fone de ouvido, nada além para fazer, nada além para ajudá-lo a passar o tempo. Mesmo depois da morte, Grace era tudo que ele precisava. Do seu próprio jeito, estava ecoando a lenda da garota de Lenape. Já tinha pulado, só estava demorando mais para cair.

Nós paramos a alguns centímetros de distância. Ainda assim, ele não parecia saber que estávamos lá. A mão pequena de Dootsie segurou o meu dedo. Quando finalmente ousei olhar diretamente para seu rosto, descobri, para meu pavor, que ele estava sorrindo de leve.

Sem dúvida nenhuma, ele estava revivendo um momento feliz com Grace ou talvez conversando com ela. Fiquei mortificada. Sua idiota! Sua enxerida! Vá embora! Deixe o homem em paz! Corra!

E eu teria corrido, se ele, de repente, não tivesse virado a cabeça e olhado para nós. Pela primeira vez, eu via o rosto inteiro da pessoa com quem Grace havia vivido. Seu sorriso foi embora. Seus olhos, fora da sombra da aba do gorro, nos olhavam a partir de outro lugar. O sofrimento não o tinha derrubado. Ele era musculoso. Seus pulsos eram grossos como um pão francês, seus braços com pelos brancos, manchados e vermelhos do sol do verão. Havia um logotipo bordado sobre o bolso de sua camisa branca. Dizia MOTOR GOSHEN FUNCIONA.

“Desculpe”, gaguejei. “Eu...”, não fazia ideia do que dizer.

De repente, Dootsie arrancou o presente de mim, empurrou-o para ele e disse: “Feliz aniversário, Charlie!”.

Eu apenas fiquei lá em pé como uma estúpida enquanto Dootsie assumia o comando.

Quando Charlie não pegou o presente, Dootsie o deixou em seu colo. Não tirou os olhos dela. Dootsie não esperou muito tempo antes de dizer: “Você não vai abrir?”. Ela não esperou pela resposta. Ela o pegou, rasgou o papel e abriu a caixa. Tirou-o de dentro. “Veja!”

Ele olhou para o presente, para ela, para mim.

“É um borrifador”, disse eu. “Você borrifa em si mesmo para se refrescar no clima quente.”

Dootsie balançou a garrafa plástica. “Viu? Nós já colocamos água nele. Quer que eu borrife você?” Ela assumiu seu silêncio como um sim. Borrifou um de seus braços. Gotas brilharam como orvalho no sardento prado branco de pelos. Ele continuou olhando seu braço. Pelo menos se esticou. Pegou o borrifador da mão dela. Borrifou seu outro braço. Dootsie arrancou a garrafa de volta. Borrifou seu próprio rosto. Depois o meu. Depois o dele. Ele piscou. Ela gritou “Uhul!” e pulou para cima e para baixo, girou, disparou duas vezes ao redor da lápide e entregou o borrifador de volta a ele. Apesar de ainda não ter aberto um sorriso, seus olhos estavam diferentes agora, eles estavam aqui.

Dootsie se colocou na frente dele. “Então, Charlie, qual a sua idade?”

Charlie respondeu com os dedos. Dootsie os contou. “11?”

“Tenho 74”, disse eu. Primeiro pensei que tinha sido fofo responder à pergunta de uma garotinha com os dedos, depois outra coisa me ocorreu.

“Tenho 5”, Dootsie dizia. “A Estrela tem 16. Ela foi largada.”

Ele parecia um pouco confuso. Eu parecia um pouco ofendida.

Parei na frente dele e esperei que olhasse para mim. Apontei para minha orelha e enunciei com toda clareza que consegui: “Consegue me ouvir?”.

Ele balançou a cabeça em negativa.

Coloquei minha mão no ombro de Dootsie. “Charlie não consegue te ouvir.”

Dootsie curvou as mãos ao redor da boca, e antes que eu pudesse impedi-la ela gritou bem na cara dele: “CONSEGUE? ME? OUVIR?”.

Ele me olhou. Estava sorrindo. Pensei: Estamos compartilhando algo! Dois adultos sorrindo diante das palhaçadas de uma criança. Então enfiou a mão no bolso, puxou uma coisinha rosada e a colocou em seu ouvido. Ele se inclinou na direção do rosto de Dootsie. “Agora posso te ouvir.”

A abelhuda aqui perguntou: “Por que não o estava usando?”.

“Eu nunca o uso aqui”, disse ele. “Assim consigo ouvir a Grace melhor.”

A voz dele era áspera, calosa como suas mãos carnudas.

Dootsie olhou para mim, para ele. “A Grace é a sua esposa que morreu?”

Ele assentiu.

“E você está triste porque ela morreu, não é?”

Ele assentiu.

Ela disse: “Vou ficar triste com você, Charlie”. Ela subiu no colo dele e o abraçou. Ele fechou os olhos e acariciou os cabelos dela. Olhei para a lápide.

Quando desceu do colo dele, ela apoiou os cotovelos nos joelhos dele e disse: “Você vai ao Festibal do Blob?”.

Ele balançou a cabeça. “Não.”

“Eu vou”, disse ela, vivaz. “Serei a senhora Blob. E vou vencer!”

Ele olhou para mim. “Senhora Blob?”

Dei de ombros. “Foi ideia dela.” Cutuquei Dootsie. “Muito bem, mocinha, hora de ir. Já incomodamos o Charlie o suficiente por um dia.” Eu a coloquei em pé.

Ela estendeu o braço. “Muito prazer, Charlie.” Antes que ele pudesse responder, ela gritou: “Espere! Eu me esqueci!”. Ela puxou o Canela do bolso. Ela o segurou em frente ao rosto de Charlie.

Ela levantou a patinha do Canela. “Você precisa conhecer o Panela.”

Charlie nem piscou. Pegou a patinha do Canela entre o dedão e o indicador e a sacudiu. Dootsie o puxou até ele se inclinar e colocou o Canela no ombro dele. Charlie se endireitou. Ele e Canela olharam um para o outro. Ele se virou para a lápide e – com orgulho, assim me pareceu – se exibiu para Grace.

“Bem...”, falei enfim, sem confiar em mim para dizer mais nada. Devolvi o Canela ao meu bolso. Dootsie pegou a mão de Charlie e a balançou. “Tchau, Charlie.” Ela acenou para a lápide. “Tchau, senhora Charlie.”

“Tchau...”, disse Charlie, e olhou para mim, cenho franzido. “O nome dela é Dootsie”, disse eu.

O franzido permaneceu.

Dootsie pronunciou dessa vez, puxando-o novamente na direção dela:

“Doot-sie”.

Ele assentiu.

“Agora repete”, disse ela.

Ele quase sorriu. “Dootsie.”

Eu a levei embora, então o ouvi chamar: “Ei”. Eu me virei. “E você?”

“Estrela.” Vi um olhar enigmático. “Sério”, disse eu.

Ele sorriu. “Nomes engraçados, os de vocês duas.”

Nós continuamos a caminhar e ele chamou de novo: “Ei”. Eu me virei. “Os donuts.” Ele apontou. “Foi você?”

Eu assenti. “Fui eu.”

Ele não chegou a dizer a palavra “obrigado” exatamente. Não precisou.

Enquanto subia na minha bicicleta, me perguntei por que razão no mundo eu havia hesitado em levar Dootsie comigo.

16 de agosto

Quinta-feira. O único dia da semana em que acordo mais cedo que o tordo. Hoje eu estava em pé mais cedo do que o habitual. Fingi que minha mãe não notou.

Eu vou às quintas-feiras.

Tinha dito isso a ele no telhado. Estava só informando?

Ou havia algo mais?

Praticamente corri para a Montanha do Calendário.

Ele não estava lá.

Por que estaria? Não o tinha convidado diretamente a vir (pateta).

Caminhei pelo campo. Juntei-me aos insetos cantando.

A lua estava cada vez mais alta. A lua também estava procurando por ele? Varri o horizonte procurando sombras. Caminhei ao redor com a lanterna acesa, para que ninguém por perto deixasse de me notar. Quando o sol chegou, firmei o novo marcador e fui para casa.

18 de agosto

Hoje fiz alguns serviços no centro da cidade para Betty Lou. Estava na loja de produtos e serviços pagando por lâmpadas e grampos de cabelo no caixa quando olhei pela janela e vi Perry do outro lado da rua. Com uma garota. Rabo de Cavalo. Não a ruiva Stephanie. Rabo de Cavalo estava segurando algo para ele. Ele deu uma mordida. Ela deu um chute na bunda dele, de brincadeira. Ele a chutou, de brincadeira. Eles riram e se acotovelaram subindo a rua.

De repente, eu tinha que conversar com Alvina. Agora. Corri para a Margie.

“Alvina está aí dentro?”, falei, sem fôlego.

Margie apontou por sobre o ombro. “Lá atrás.”

Quase comemorei. Passei pela porta vaivém. Alvina estava limpando bandejas de donuts.

Eu tinha minha primeira pergunta pronta – minha vida não poderia prosseguir sem a resposta – mas não queria ser muito óbvia. Comecei com conversa do dia a dia, esperando por uma abertura. Quando ela veio, tentei soar como se algo tivesse acabado de me ocorrer: “Ah sim... se lembra daquele garoto? O Perry? Qual é o sobrenome dele, afinal?”.

Ela limpou farelos de donuts de um pano. “Delloplane”, disse ela.

Ah, Perry Delloplane. “Você acha ele bonito?” De onde veio isso? Não tinha planejado dizer isso.

Alvina estava fazendo uma cara de sinto cheiro de gambá para mim e minha pergunta quando a voz de Margie soou da frente da loja: “Alvina!”.

Um cliente tinha derramado MargieMocha pelo chão inteiro, e Alvina tinha que passar o esfregão. Depois, precisava tomar conta do balcão enquanto Margie ia ao banheiro. Uma coisa depois da outra ocupou Alvina pela próxima hora, então finalmente desisti e fui embora.

Estou confusa. Como aquele MargieMocha, derramado pelo chão, mas sem ninguém para me esfregar. Tudo que consegui depois desse dia foi: Perry Delloplane. O som de um nome. Ele é uma uva na minha boca. Eu o rolei para lá e para cá na minha boca – perrydelloplaneperrydelloplaneperrydelloplaneperrydelloplane – mas quando tento esmagá-lo com meus dentes, ele escorrega.

19 de agosto

Hoje o tordo não soou feliz. Ele soou como se estivesse desmoronando. Como se seu coração – sua canção – estivesse se quebrando em pedaços e voando em centenas de direções.

21 de agosto

Eu trabalho. Arranco ervas daninhas dos jardins de outras pessoas. Tiro ervas daninhas e as coloco em sacolas plásticas, e as pessoas as jogam no lixo. Quando termino, não há nada além de flores e outras plantas não daninhas aprumadas e adequadas. Às vezes quase ouço as flores me dizerem: “Ah, obrigada por se livrar daquela ralé. Eles estavam sujando a vizinhança”. Fiquei muito boa em diferenciar plantas daninhas de não daninhas. Mas de vez em quando tenho minhas dúvidas. Deparei-me com uma raiz especialmente difícil. Puxo e ela não sai. Puxei de novo. Ela resiste. Enfio meus dedos enluvados no solo e a agarro com ambas as mãos e puxo novamente. Ela começa a sair, mas posso ver que levará mais um monte de puxões com força. E é quando a dúvida começa. Começo a me perguntar: Cometi um erro? Isso realmente é uma erva daninha? Se ela não deveria estar aqui, por que está resistindo tanto? Mas é tarde demais agora. Não há nada para fazer com uma planta puxada pela metade do que ir até o fim. E, assim, puxo um pouco mais e, finalmente, derramando pedaços de terra e minhocas, ela se liberta da terra – e tento não ouvir o sutil grito angustiado.

23 de agosto

Outra manhã de quinta-feira na Montanha do Calendário. Sozinha.

Uma equipe de TV veio à rua da Ponte hoje. Estão filmando a faixa do Blob e a frente do Cinema Colonial. Entrevistaram o prefeito, que disse: “Foi nosso dia de sorte quando o Blob rastejou para dentro da cidade”.

Minha mãe me fez desistir de vestir o Canela e levá-lo como Frankenrato. Ela argumentou que em uma multidão como aquela, alguém podia entrar em pânico ao ver um rato. Não seria seguro para o Canela.

Esse problema não existia com Dootsie. Minha mãe ficou tão feliz com a fantasia de senhora Blob que veio comigo entregá-la. No momento em que Dootsie a viu, ela vestiu a roupa – o que foi bem fácil, já que tudo que precisava fazer era descê-la sobre ela inteira. Nenhum braço, nenhuma perna para lidar. Minha mãe havia costurado um par de lençóis, tingindo-os de rosa, e grudado pedaços de espuma de almofada no espaço entre eles. O resultado foi uma dobra granulosa e sem forma – um Blob – que lembrava uma meia gigante amarrotada. Havia dois furos para os olhos e, para que ninguém confundisse a senhora com o senhor, um pequeno e bonito chapéu no formato de um dedal. A dobra tinha sido feita muito longa de propósito, para que a bainha cobrisse seus pés e deslizasse pelo chão. A senhora Blob parecia estar com asas brotando quando dois braços escondidos socaram para cima e ela declarou: “Sou uma vencedora!”. Então ela veio deslizando até nós, e nós corremos gritando pela casa.

24 de agosto

Seis da tarde. Blobs e outros malvados variados reuniam-se na rua da Ponte, já que qualquer tipo de monstro podia se inscrever no concurso. Demônios, bruxas, zumbis, esqueletos, aliens, fantasmas, ghouls, canibais – e Blobs – todos vinham caminhando pesadamente pelas calçadas em direção ao Cinema Colonial.

A entrada do cinema era a Grande Central da Monstruosidade. Avistei uma feiticeira ensanguentada com uma unha elegante. Ela estava acompanhada de um Frankenstein baixinho e um homem que assumi ser o senhor Klecko. Avistei a garota de rabo de cavalo com quem tinha visto o Perry. E a ruiva Stephanie da piscina. Mas nem sinal do Perry.

Todos queriam os Blobogobs de massa frita da Margie. Foi para lá que Dootsie correu com alguma dificuldade. Como minha mãe não tinha feito um buraco para a boca na fantasia (“O Blob não tem uma boca”, disse ela, “o Blob é uma boca”), tive que alimentar Dootsie com seu Blobogob por um olho.

Quando o último lugar do balcão foi ocupado, os monstros foram convidados aos bastidores. Um a um, eles saíram detrás da cortina e cruzaram o palco para os gritos e assovios da plateia. Dootsie começou bem – ela até teve alguns uivos de lobos. Mas então ela teve problemas. Tropeçou na sua bainha e caiu. Quando se levantou, procurou o chapéu e descobriu que ele não estava na sua cabeça, e que ainda estava no chão, mas ela não sabia exatamente onde, porque os furos dos olhos tinham ido agora para trás da sua cabeça e ela não conseguia ver. Ela estava se arrastando cegamente pelo chão, tateando em busca do chapéu – realmente parecendo com o Blob agora – e rastejou diretamente para a borda do palco. Pulei e gritei “Dootsie!”, mas um jurado estava lá, segurando-a. Ele a devolveu ao palco, colocou-a em pé, reposicionou seu chapéu e puxou os buracos para a altura dos olhos. Ela subiu o lençol até o pescoço, mostrando ao mundo que usava somente sua calcinha do Babar, o Elefante, e correu para fora do palco sob o riso e a mais alta ovação da noite.

Havia duas divisões: crianças pequenas e grandes. A vencedora entre as crianças pequenas foi... “Dootsie Pringle!” Entre as grandes, Alvina ganhou uma menção honrosa. Queria que Betty Lou estivesse lá para ver tudo aquilo.

Quando os monstros voltaram aos seus lugares, as luzes se apagaram e o filme começou. O que eu havia escutado sobre o filme era verdade – ele era mais engraçado do que assustador, pelo menos para as crianças mais velhas e para os adultos na plateia. Mas isso não impediu as criancinhas de gritarem cada vez que o Blob deslizava pela tela. A grande cena surgiu com uma hora de filme: Blob deslizando para fora da cabine de projeção, o público gritando, debandando sob a marquise e para a rua... O filme parou de repente, congelando as silhuetas fugindo no meio do grito, saias no meio das pernas e penteados pompadour voando. As luzes do cinema se acenderam. Uma voz baixa veio pelo alto-falante: “Muito bem, Blobbonianos, esse é o momento pelo qual vocês esperavam. O momento mais famoso da história dos filmes de terror – e ele aconteceu beeeem aqui, no seeeu Cinema Colonial. Agora é sua chance de reviver essa história. Terminem seu Blobogobs, umedeçam suas cordas vocais e preparem-se para gritar, Blobbonianos. E pais, lembrem-se de segurar seus filhos. Ninguém é pisoteado. Ninguém se machuca. Essa é uma bagunça civilizada. Uma fileira por vez. Começando pela de trás. Última fileira primeiro. Sigam devagar e tranquilamente para a recepção, e depois saiam pela porta e... lá vamos nós! As câmeras estão rodando. Fileira de trás, comecem... AGORA!”.

Nós não devíamos atuar como se estivéssemos apavorados até chegarmos à calçada, mas assim que o anunciante disse “AGORA!”, todas as criancinhas gritaram. As fileiras se afunilaram pelos corredores. Estávamos em uma das fileiras da frente, então quando chegamos à recepção, o tumulto do lado de fora voltava sobre nós, e pela primeira vez na minha vida senti a força de uma multidão em pânico. Com medo por Dootsie, comecei a erguê-la, mas ela se soltou de mim e mergulhou na multidão, sacudindo seus braços dentro do lençol rosa, empurrando outras crianças de lado em seu pânico de escapar da gosma rastejante, tropeçando sobre o lençol, caindo sobre seu rosto, levantando-se, a multidão atropelando seu chapéu de dedal. Eu a perdi de vista, depois a vi enquanto éramos varridos pelas portas e pela luminosidade escandalosa da marquise e das luzes da TV. Agarrei-a pelo alto e um momento depois não tinha nada além de um lençol rosa na mão, enquanto ela corria gritando no meio da rua da Ponte, nua, exceto por seus tênis e pela calcinha de Babar, o Elefante.

Eu a alcancei em um sinal de trânsito. Ela estava rindo e gritando: “Estou apabobada!”. Eu a envolvi com o lençol até ela parecer uma pequena romana com uma toga descuidada. Nós nos juntamos à multidão pós-pânico fazendo hora fora do cinema. Muitos voltariam para assistir o restante do filme. Nós estávamos prestes a nos juntar a eles quando Dootsie gritou: “Perry!”. Ela se livrou de mim e correu para a Pizza Delícia, diretamente do outro lado da rua do Colonial. Perry estava sentado em uma mesa na janela da frente, vendo as festividades. A ruiva Stephanie sentava-se em frente a ele.

Eu assisti Dootsie correr para dentro do restaurante e anunciar, “Eu venci!” e saltar no colo do Perry. Stephanie riu. Um longo garfo de dois dentes de ciúme se fincou fundo dentro de mim.

Dootsie tagarelava na cara do Perry quando entrei. Perry olhou além dela, sorriu para mim e se virou para Stephanie. “É ela”, disse ele.

É ela.

Stephanie olhou para mim. O cabelo vermelho dela estava especialmente brilhante na luz fluorescente. Ela esticou um fiapo de queijo do seu queixo e o enfiou na boca. Limpou os dedos em um guardanapo e esticou a mão para mim. O sorriso dela parecia natural. “É realmente Estrela? O seu nome?”

Apertei a mão dela. “É sim”, disse eu.

“Ensino domiciliar, hum?”

“Sim.”

Ela sacudiu a cabeça. “Que pena.”

“Por quê?”, disse eu.

“Poderíamos usá-la na escola de ensino médio. Precisamos de algumas pessoas fascinantes por lá.” Ela lançou a palavra “fascinante” pela mesa na direção de Perry, seus olhos flamejando por um instante. Ela se virou novamente para mim, sorriu. “Nós já temos pessoas entediantes demais.”

Perry disse: “Eu não falei ‘fascinante’”.

Ela apontou para ele, os dedos como uma pistola. “É verdade. Ele disse que você era esquisita.” Ela deu um risinho, pegou um disco de pepperoni do pedaço dela e o lançou pela mesa. Perry o pegou com sua boca. Aquilo não poderia ter sido feito tão bem sem muita prática. “Eu o socaria se fosse você.”

“Eu disse a ela que você era interessante”, Perry falou para mim.

Dootsie queria atenção. Levantou-se do colo de Perry. Ela o agarrou pelas orelhas e virou o rosto dele para o dela. “Estou dizendo que venci.”

A palavra “interessante” tremulou sobre a minha cabeça.

“Senta aí”, disse Stephanie.

Eu me sentei. Senti-me como se estivesse numa audição.

Uma feiticeira ensanguentada apareceu na mesa. “Oi, Alvina”, disse eu, mas ela estava concentrada somente em Perry. Ele tinha acabado de pegar um pedaço de pizza e estava a ponto de mordê-lo quando Alvina o arrancou da mão dele. “Ei”, disse ele, “pega aquele ali.” Ele apontou para o último pedaço no prato. “Eu quero esse”, disse ela, e o mordeu.

“Ela bate em garotos”, Dootsie contou a Perry.

Alvina sentou na última cadeira vazia.

“Parabéns pela sua menção honrosa”, disse eu.

“Eu sou uma droga”, disse ela.

“Eu venci!”, disse Dootsie.

“Cadê seus pais?”, perguntei a Alvina.

“Eles foram para casa.”

“Saindo sozinha de noite”, disse Stephanie. “Uma menina crescida.”

Dootsie piou, “Ela é uma garota crescida. Olha só.” Ela agarrou o dedo mindinho da Alvina e mostrou a unha caprichada.

Stephanie assoviou. “Impressionante.”

Dootsie se esticou por sobre a mesa e arrancou o último disco de pepperoni da fatia da Stephanie. “Abra”, ela ordenou a Perry, e de uma distância de dois ou três centímetros, ela o atirou em sua boca. Alvina pegou um pepperoni da sua própria fatia e o arremessou. Ela errou. Dootsie o pegou do colo de Perry e o entregou de volta à Alvina. Dessa vez, Alvina levou o pedaço aos lábios de Perry. Ele o pegou entre os dentes.

Ela puxou com força. Ela o segurou por um segundo, depois o soltou. E me perguntei se ele ainda acreditava que ela não tinha uma quedinha por ele.

“Parece que sou a única garota na mesa que não alimentou o Perry essa noite”, disse eu.

Então uma voz surgiu atrás de mim: “Oi”.

Era a Rabo de Cavalo. Com uma zumbi.

“Ooh, gostoso”, disse Rabo de Cavalo. Ela pegou a última fatia e deu uma mordidona. “Como vocês sabiam que eu queria pepperoni?”

A Zumbi arrancou a fatia da Rabo de Cavalo, dobrou-a e a enfiou inteira na boca. Ela disse algo que saiu assim: “Yuh yuh yuh yuh”.

Todas as garotas começaram a rir e a golpear umas às outras de brincadeira. Não parecia haver qualquer animosidade entre elas. De repente, Zumbi se inclinou na direção de Perry e lhe tascou um beijo demorado nos lábios. Dootsie cruzou os braços e olhou para os dois se beijando. Alvina olhou para o outro lado, como se a cadeira ao lado dela estivesse vazia. Ela fingiu estar procurando alguém no restaurante. Finalmente, enquanto o beijo ainda rolava, ela se levantou e saiu. Quem dera eu pudesse fazer o mesmo. Zumbi, de algum modo, conseguiu se sentar no lugar vago da Alvina enquanto ainda beijava Perry. Finalmente Dootsie reclamou: “Já chega”, e empurrou a cara da Zumbi para longe.

Mais risadas.

“Quem é a criancinha?”, disse Rabo de Cavalo.

“Senhorita Dootsie Pringle”, disse eu.

“Não sou uma criancinha”, disse Dootsie. “Sou a senhora Blob.”

Perry apontou para mim. “E essa é a Estrela.”

“Imaginei”, disse Rabo de Cavalo. “Nome legal.”

“Obrigada”, disse eu.

“Seus pais que te deram esse nome?”

“Eu dei.”

“E tudo bem para eles?”

“Claro.”

“Pais legais. Sua mãe te ensina em casa, não é?”

Havia alguém com quem Perry não tivesse tagarelado?

“Sim”, disse eu.

“Legal. Você já foi a uma escola real?”

“Ensino domiciliar é uma escola real”, disse Perry.

Ela esticou a língua para Perry, depois virou seu rosto amigável para mim. “Sabe o que eu quis dizer.”

Assenti. “Eu sei. Sim. Cheguei a ir a uma escola regular de ensino médio no ano passado.”

“Sério? Onde?”

“No Arizona.”

As meninas se espantaram. “Sério?”, disse Stephanie. “E como foi?”

“Quente.”

Zumbi riu em silêncio. “Está falando dos garotos?”

Pensei: Um garoto.

Eu disse: “Tô falando do clima”.

“Não gostou?”, disse Rabo de Cavalo. “É por isso que voltou ao ensino domiciliar?”

“As coisas não saíram tão bem quanto eu tinha imaginado”, disse eu.

Zumbi disse: “Mas você não sente falta, tipo, das pessoas?”.

“Convivo bastante com pessoas”, disse eu.

“Eu sou uma pessoa”, disse Dootsie. “Um cereal humano.” Ela prendeu o nariz de Perry entre os dedos e torceu com força.

Perry gritou: “Oww!”.

Dootsie sacudiu o dedo no rosto dele. “Não quero vê-lo beijando mais garotas.”

Zumbi sorriu. “Quem sabe um dia.”

“Parece que você tem uma nova namorada”, disse Stephanie.

Então ela se virou para mim, mas não falou. Apenas olhou para mim. Ela parecia estar se divertindo. Finalmente ela disse, “Então. Estrela. O que você acha?”

Todo mundo olhou para mim.

“Acho de quê?”, disse eu.

“De se juntar ao harém do Perry?”

Não sei quanto tempo fiquei sentada lá parecendo uma estúpida antes de Dootsie finalmente me salvar. “O que é um harém?”, disse ela.

Rabo de Cavalo, a única ainda em pé, esticou a mão e pressionou o nariz de Dootsie como um botão. “Um harém é quando um monte de garotas gostam do mesmo garoto.”

Zumbi enfiou seu dedo na orelha do Perry. “Mesmo se o garoto é um desorientado.”

Rabo de Cavalo colocou a mão no meu ombro. “O Pequeno Perry ali não quer se comprometer com ninguém...”

“...Então ele fica semicomprometido com várias de nós”, disse Stephanie.

“Perry é um espírito livre”, disse Zumbi. “Ele não pertence a ninguém. Certo, Per?”

Perry manteve sua cara inexpressiva usual, mas eu podia dizer que ele estava gostando daquilo tudo. As piscadelas que eu recebia das garotas me fizeram imaginar se ele tinha contado a elas sobre nossa noite no telhado. Eu esperava que não.

Zumbi o cutucou. “Conte a ela seu apelido, Per.”

Perry fungou. “Conta você.”

Ela sorriu. “Dândi.”

Eu olhei para Perry. “Dândi?”

“Como em dandelião”, disse Zumbi.

“Como em flor”, disse Rabo de Cavalo. “Como em uma flor que atrai um monte de abelhas.” Ela olhou para as outras, sorrindo. “E nós somos... ta-dá!” Cada uma das três meninas içou uma perna sobre a mesa para mostrar tatuagens pretas e amarelas do tamanho de uma moeda de abelhas em seus tornozelos. Elas pareciam falsas, do tipo lavável. Esperava que fossem.

“E Dândi”, Zumbi beliscou sua bochecha, “é a flor.”

Rabo de Cavalo estalou os dedos. “Ei...”, ela apontou para mim. “Estrela...”, ela apontou para si e para as outras. “Nós poderíamos ser as... Estrelas do Perry!”

Stephanie e Zumbi batucaram na mesa.

“Sim!”

Stephanie estava me encarando. “Ela acha que estamos brincando.”

Rabo de Cavalo me estudou. “Pensa que estamos mentindo.”

Zumbi cutucou o Perry. “Estamos mentindo, Dândi?”

Perry olhou para mim. Ele assentiu. “Elas estão mentindo.”

“Eu minto”, disse Dootsie, mas sua confissão se perdeu na risada e nas pancadas brincalhonas que Perry recebeu das três garotas.

“Só tem uma coisa sobre Perry Dollaplane que é uma mentira”, disse Stephanie.

Eu mordi a isca. “É? O quê?”

“Ele realmente não foi para um campo de treinamento. Ele foi para...” Ela olhou para as outras e balançou os braços como uma regente de orquestra, e na descida que inicia o compasso todas elas cantaram CAMPO DE ABUNDAMENTO e riram e bateram as mãos.

Dootsie estava cansada de ser ignorada, e agora ela via uma abertura. Ela escalou a mesa e ficou em pé na bandeja vazia de alumínio da pizza. “Eu tenho um bumbum!”, proclamou para todos, ergueu sua toga e começou a remexer uma dezena de pequenos Babars cinza vibrantes na nossa cara. Assobios e mais assobios vieram de todo o restaurante.

Eu me levantei. “Certo. Por hoje chega.” Eu a ergui da mesa. Ela protestou. As meninas também. “Já passou da sua hora de ir para cama”, eu disse a ela. “Seus pais vão me matar.”

Os clientes aplaudiram enquanto eu a carregava para fora. Enquanto passávamos pela porta, ela gritou por cima do meu ombro: “Eu venci!”.

No nosso caminho para a rua da Ponte, passamos pela lavanderia Laundromat. Havia uma senhora sentada do lado de dentro, lendo uma revista. Na frente dela, duas secadoras funcionavam. Por trás das janelas das portas, as roupas giravam, giravam...

Que nem eu.

25 de agosto

O tordo não me larga. O tordo não tem um harém. O tordo não leva nada, não exige nada. O tordo não faz nada além de oferecer sua canção. Após ouvir o tordo o dia inteiro, sinto como se tordês fosse agora minha segunda língua. Ofereço aqui a primeira tradução do mundo de tordês para inglês, conforme registrado:

“Ha ha ho ho hi hi! Espere até ouvir essa aqui. Beep! Beep! Sinto-me cantarolando. Bah bah bah bah bu! Elton John, sou melhor que você. Ei, a gangue está toda aqui! Ha ha ho ho hi hi! Você não me ama? Hey Hey, a gangue, hey, onde está a gangue? Quem precisa deles, afinal. Bababababaaaaa bababababooooo. Hey, ouvi um pássaro-gato outro dia mesmo. Olha só: miau miau. Acertei, não foi? Carnegie Hall, sou melhor que você. Hiihiihahahoho. E agora, meninas e micróbios, minha imitação de um pássaro-vaca: Miaumu! Miaumu! Obrigado, obrigado. Não precisa se levantar para aplaudir. Você não me ama? Utcha, utcha, utcha!”

29 de agosto

Primeiro dia de escola. Agora sou uma jardineira aposentada. E Dootsie começa o primeiro ano. Espero que a professora dela tenha descansado bastante no verão.

As crianças da escola pública terão aula meio período. Não essa aluna de ensino domiciliar. Minha mãe não acredita em meios períodos. “Ou você tem um dia inteiro ou não tem nada”, diz ela. “O ensino é tão assustador que eles sentem como se tivessem que fugir dele? Ninguém se incomoda de cortar o tempo pela metade?”

Acho que tudo isso a levou à minha primeira tarefa do novo ano escolar...

EXCURSÃO:

O RELÓGIO DO PRÉDIO DA FOLHA DE LENAPE Os relógios precisam ser círculos?

O tempo não é um círculo.

Suponha que a Mãe de Todos os Minutos começou bem aqui, na calçada

em frente ao Prédio da Folha de Lenape, e a parada de minutos que a seguiu – cada um deles, suponha, um centímetro mais longo – seguiu por aquele caminho, descendo a rua da Ponte. Onde estaria o Agora? Esse minuto? Lá depois da lua?

Depois de Júpiter?

Da estrela mais próxima?

Quem falou em minutos, de qualquer maneira?

Quem precisa deles?

Diga uma coisa boa que um minuto já fez.

Eles encurtam a diversão e medem a miséria.

Livre-se deles, eu digo.

Abaixo os minutos.

E enquanto faz isso, leve as horas

com você também. Nem gosto de

pensar nelas.

Relógios – esse é o problema.

Cada relógio é um ninho de minutos e horas.

Relógios nos limitam à forma deles.

Em vez de seguirmos para a estrela mais próxima, tudo que fazemos é nos movermos em espiral.

Relógios nos prendem aos minutos, fazem rodas-gigantes guiarem todos nós, nos manejam de novo e de novo

de número a número,

cortam o tempo de nossas vidas em pequenos pedaços até que os pedaços sejam tudo que conhecemos e a única pergunta importante de se responder seja: “Que horas são?”

Como se os minutos pudessem dizer.

Como se o Arnold pudesse olhar para esse relógio no Prédio do Lenape e ler:

15 minutos até me encontrarem.

Como se o tempo do Charlie não estivesse para sempre preso em meia hora depois de Grace.

Como se um enxame de minutos ferroantes fosse esperar Betty Lou pisar do lado de fora.

Como se o amor não conte o tempo inteiro o que os Huffelmeyers precisam saber.

Minha mãe ficou surpresa com isso. Ela o colocou na geladeira. “Espere”, disse ela, e saiu. Ela voltou com seu relógio de pulso e um martelo. Nós saímos para os fundos. “Quer fazer isso?”, disse ela.

“Quero”, disse eu.

Coloquei o relógio no degrau de baixo. Acertei-o com o martelo. O cristal quebrou, e foi isso.

“Aqui”, disse ela, pegando o martelo de mim. Ela atacou como um lenhador e desceu o martelo, e o relógio ficou em pedaços. Minutos voaram como moscas.

Fiz o mesmo com o meu relógio. Pegamos uma espátula de jardinar e enterramos os pedaços. Descemos todos os relógios da casa e os jogamos no lixo.

“Eu não tenho que desmontar a Montanha do Calendário, tenho?”, disse eu.

“Não”, disse ela. “Aquele é o tempo real.”

30 de agosto

Mais duas luzes de varanda se juntaram à dos Cantellos no caminho para a Montanha do Calendário. Curioso.