Com amor, a garota chamada Estrela
Parte 2
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Ela vê através dos olhos de uma criança. Ela é feliz e está sempre cantando. Mora com um casal de velhinhos na floresta perto do lago, e quando um cavaleiro chamado Hans aparece, ela pensa que ele é a criatura mais bonita que já viu. O que ela mais quer é ser esposa dele e viver feliz para sempre. Mas não é tão simples assim. Ela foi pescada para um mundo que não entende as sereias. No final, as pessoas a rejeitam e a banem para as águas de onde veio. Seu amado Hans morre na praia. Piedosamente, a memória que ela tem dele é apagada, e mais tarde, quando o vê da água, ela é mais uma vez arrebatada por sua beleza e grita: “Como eu o teria amado!”.
Por que ele estava lendo isso? Por que aquele livro entre todos os outros? Como poderia ler um livro que, agora que também o li, se tornou o meu favorito de todos os tempos?
9 de julho
Acordei com um telefonema frenético de Dootsie: “Depressa! Tem um chinelo vermelho na janela da Betty Lou!”.
Dez minutos depois, estávamos na sala de estar dela. A primeira coisa foi tirar a meia-chinelo vermelha da janela da frente.
“Desculpem”, disse ela, arriada no sofá. “Eu não queria incomodar vocês. Às vezes isso acaba acontecendo comigo.”
“Ei”, disse eu, “É para isso que servem os bons amigos, para os dias ruins.”
Betty Lou estava proibida de trabalhar, mas ela podia dar orientações, e foi assim que Dootsie e eu, mestres-cucas dos doces, conseguimos fazer uma fornada de cookies com gotas de chocolate. Nós demos comida a ela, escovamos seu cabelo, massageamos seus pés, lemos para ela, cantamos para ela, dançamos para ela, e na hora do jantar, ela estava dançando conosco.
11 de julho
Cheguei a te contar? Sou uma menina com emprego. Chamo a mim mesma de Arrumadora de Jardins. Coloquei uma placa na janela da Margie e um anúncio nos classificados do Lenape. O senhor Pringle fez alguns cartões de visita para mim no computador dele. Meu logotipo é uma minhoca com um boné de basebol e um grande sorriso. Não sou uma especialista em flores, então não faço nada extravagante. Apenas coisas simples: tirar ervas daninhas, regar, remover as partes murchas. E sou barata. Essa é provavelmente a principal razão de conseguir os trabalhos. Isso e meu superdescolado carrinho de mão. Comprei-o na loja de materiais. Pintei minha minhoca de um lado e um girassol do outro.
Hoje, estava na casa de uma família chamada Klecko. O senhor Klecko havia me chamado semana passada. A casa era bonita, de pedras cinza com uma varanda que dava a volta nela inteira e toldos amarelos, em uma rua sombreada por pés de sicômoro.
Fui direto para os fundos, que é parte pátio de tijolos e parte grama, e o jardim mais bonito em que já trabalhei. Só as flores já seriam o suficiente, mas havia mais: gramas elegantes mais altas do que eu, pequenas esculturas de pedra (uma criança lendo, um anjo de jardim), uma bétula branca e um par de azevinhos, um caminho de pedra cortando ele inteiro. Como já disse a você, lugares encantados não podem ser criados, só podem ser descobertos, mas o jardim dos Kleckos chegou bem perto.
A primeira coisa que fiz foi pegar os brinquedos de plástico e colocá-los na grama. Obviamente, uma criança pequena vivia ali – um garoto, a julgar pelo tanque de exército e pela pistola de água. Depois, comecei a podar as partes murchas. (Parece horrível, mas só significa arrancar as flores mortas, para que a planta possa direcionar toda sua energia à parte viva.) Estava arrancando margaridas roxas quando ouvi um grito agonizante vindo da casa. Depois, um segundo grito. Depois uma voz: “Eu vou matar você!”. E outra voz: “Vou contar pra mamãe!”.
Eu estava debatendo se entrava na casa ou não e pensando que aquela primeira voz soava familiar, quando um garotinho de cabelo castanho vestindo apenas uma cueca do Batman disparou pela porta dos fundos gritando e veio em linha reta até mim. Ele foi seguido um segundo depois por ninguém menos que... Alvina! O garoto se esborrachou em mim e se pendurou em mim, me abraçando, seu ouvido colado na minha bunda, seus braços em torno dos meus quadris. Alvina parou no meio do caminho ao me reconhecer.
“O que está fazendo aqui?”, ela resmungou.
“Estou cuidando do jardim”, disse eu. “Você mora aqui?” Percebi que nunca soube o sobrenome dela.
“Não”, ela zombou. “Eu sou a Cachinhos Dourados. Só me enfiei na cama do bebê urso.”
Ela foi na direção do garoto. Vi que a mão dela estava sangrando. Ele afundou os dedos no meu pulso. Ela o chutou. Ele berrou e chutou de volta. Ela berrou.
“Pare!”, gritei, surpreendendo a mim mesma. Aquela era uma vizinhança silenciosa.
Eu afastei o garoto e o obriguei a me olhar. Gritei para Alvina: “Se afaste”. Ela me encarou com raiva, mas recuou.
“Ele é seu irmão?”
“Ele é a pedra no meu sapato”, disse ela.
“Ela é a pedra no meu sapato!”, o garoto devolveu.
“Chega!”, disse eu. “Qual o seu nome?”
Ele respondeu como se cuspisse nela: “Thomas!”.
Para Alvina: “Cadê sua mãe?”.
“No dentista.”
“Então você devia estar tomando conta dele?”
“Tomando conta disso”, ela zombou.
A respiração de Alvina vinha em bufadas sibiladas. Ela exibia os dentes como um cachorro rosnando. Essa era uma Alvina clássica. O que me surpreendeu foi seu irmãozinho. Claro, ele estava encolhido, mas só porque não era uma luta justa. Ele estava tão sem medo dela quanto Dootsie na loja de Margie. Pensei: Alvina, quando ele crescer, você estará em apuros.
“Seu irmão é uma pessoa”, disse eu, “Não uma coisa.”
“Essa coisa estará morta assim que você sair daqui”, disse ela.
“Então não irei embora até sua mãe voltar.”
Thomas comemorou: “Yeah!”. Ele deu um passo adiante e esticou uma perna nua na direção dela. Ela veio para cima dele. Enfiei meu dedo na cara dela. Tentei parecer rigorosa. “Fica aí!”
Ele riu. “Isso mesmo! Fica aí, cachorrinho!”
Antes que me desse conta do que estava acontecendo, ele se virou, se inclinou, arriou sua pequena cueca do Batman preto e amarelo e mostrou o traseiro para a irmã. Aquilo, claramente, não era nada novo para Alvina.
Ela não demonstrou nem surpresa nem desagrado. Simplesmente recuou e cuspiu na bunda dele. Ele gritou violentamente, puxou sua cueca do Batman e esfregou seu traseiro.
Alvina pareceu perceber a vantagem. Mais uma vez, ela avançou.
Estiquei minha mão como um guarda de trânsito. “Alvina, nem mais um passo.”
Ela parou, me deu um sorriso de deboche. “Ah é? E o que você vai fazer? Me bater?”
O que eu ia fazer? Não tinha a menor ideia. Fazer cócegas nela? Nós olhamos firme uma nos olhos da outra pelo maior tempo possível. Finalmente ela piscou. O rosto dela mudou. Ela esticou a mão para mim. “Olha o que ele fez!”
O dedo mindinho dela estava sangrando, aquele com a unha elegante, só que agora ela era um toco nada elegante.
“O que aconteceu?”, disse eu.
“Ele a cortou”, disse ela, choramingando agora, me contando a terrível história por completo. Ele tinha pegado o cortador de unhas de seu pai. Assim que sua mãe saiu, começou a cortar a si mesmo: unhas da mão, unhas do pé, sobrancelhas, cílios. Como estava fazendo isso na mesa do café da manhã, Alvina levou seu cereal para a oficina no porão. Que é onde ela estava, algum tempo depois, aninhada nos braços da superultrapoltrona de descanso de seu pai, assistindo TV, exceto pelo fato de não estar exatamente assistindo, porque a poltrona tem, por alguma razão, o mais estranho efeito sobre ela – sempre que ela sobe na poltrona, ela quer tirar um cochilo. E era isso que estava fazendo, não realmente dormindo, mas só tirando um cochilo na cadeira, meio que ouvindo os sons da TV, quando, de repente, ela ouviu um barulhinho rápido e sentiu um leve puxão em seu mindinho. Ela abriu os olhos e lá estava Thomas com um sorriso largo no rosto, segurando centímetros de unha cintilante e rosa que tinha acabado de cortar fora. O que já era ruim o suficiente, mas não era tudo. Ela ficou tão chocada com a visão de sua unha mutilada que esticou a mão e derrubou no chão o troféu de boliche de seu pai que ficava na mesa lateral, e ele se quebrou ao meio. O que já era ruim o suficiente, exceto por sua mão ter acertado a ponta afiada da base do troféu e ter voltado com um corte sangrento e desagradável. Que foi quando a gritaria começou.
Eu descobri a maior parte da história enquanto a arrastava para dentro de casa, perguntando onde ficava o banheiro, onde ficava o armário de remédios, e Batman tamborilava atrás da gente – “Ela vai sangrar até morrer?” – colocando a mão dela debaixo da água corrente, esfregando um antisséptico. Sentei na borda da banheira. O corte era tão grande que tive que encostar dois Band-Aids. “Mostre isso para sua mãe”, falei. “Talvez ela queria levar você para tomar uma antitetânica.”
Ela não me respondeu. Eu não vinha olhando para ela. Agora eu olhava. Seus lábios tremiam. Uma lágrima – uma lágrima real – descia por sua bochecha. Ela estava olhando para sua unha decepada. Me levantei e a abracei. Pensei que ela fosse resistir, mas não foi o caso. Batman ficou pasmo conosco. “Você amava sua unha, não é?”, disse baixinho. Ela assentiu com a cabeça apoiada em mim. Olhei para Thomas. “Batman”, falei, “vá vestir uma roupa”. Ele correu.
Quando caminhamos de volta pelo corredor, passamos por algo que eu havia estado ocupada demais para notar: um recorte de papelão do rosto de um pit bull rosnando com o dobro do tamanho real. Ele estava pregado na porta.
“É o seu quarto?”, disse eu.
“Sim”, disse ela.
Meu eu intrometido: “Vai me convidar para entrar?”.
Ela empurrou a porta para abri-la. Entrei. Tive que pisar em torno de um baralho de cartas espalhado, uma pilha de fichas de pôquer e um taco de hóquei no chão. Em um canto: um urso de pelúcia de uma perna só, sua cabeça perdida em um capacete de futebol americano. Presa na parede estava a página da frente de um jornal de humor com a chamada:
ALVINA KLECKO COROADA
A NOVA CAMPEÃ DA CATEGORIA PESO PESADO
Pendurado em um dos pés da cama: um par de nunchakus pretos. Nenhum babado. Nenhum rosa. Mas... em uma prateleira acima da cabeceira da cama: uma fileira de bonecas. Elas pareciam ir da mais nova em uma ponta para a mais velha na outra, de bebê a uma modelo glamorosa. Várias Barbies. Contei – havia onze. Uma para cada aniversário, imaginei.
Continuei olhando as bonecas, tentando conectá-las à garota que conhecia. Esperava que fossem Comandos em Ação, Hulks e Exterminadores do Futuro.
Eu olhei para ela. “Barbies?”, perguntei.
“Algum problema?”, disse ela, encerrando a discussão. Ela tirou os centímetros de unha rosa cortada de seu bolso. Ela o encostou no final do cotoco remanescente. “Dá pra consertar?”. A voz dela saiu piada.
“Veremos”, disse eu. “Faremos algo a respeito.”
Ela olhou para a unha mais algum tempo. Sua expressão endureceu. Ela jogou o pedaço cortado no chão e pisou em cima.
“Quem se importa? Não dou a mínima.”
Ela tirou outra coisa de seu bolso, um canivete. Ela o abriu e começou a esfregar no cotoco. Pós de purpurina voaram.
“Ei”, agarrei o pulso dela e tirei o canivete, “pare com isso”.
“Não dou a mínima”, ela repetiu. Ela pegou os nunchakus do pé da cama. Ela bateu um no outro, produzindo um estalido. Ela bateu o pé no chão em uma postura de caratê e começou a girar os nunchakus ao redor – “Rai-ia! Rai-ia!” Thomas reapareceu, mas ao ver os nunchakus girando, disparou pelo corredor e desceu a escada. Tive uma forte sensação de que ele já tinha sido alvo de nunchaku mais de uma vez em sua vida.
Enquanto assistia a Alvina girar, arremeter e gritar “Rai-ia!” com seus nunchakus barulhentos, o Ursinho Pooh sorridente pulando em seu cordão justo, senti uma ponta de tristeza por ela. Talvez estivesse pensando nos meus próprios dias ruins na Escola de Ensino Médio de Mica, quando dancei, mas dancei sozinha.
Quando terminou, ela girou os nunchakus sobre a cabeça como uma boleadeira e os arremessou na direção do pé da cama mais distante. Eles o acertaram, se enrolaram em volta dele e caíram até parar. “Impressionante”, falei. “Você pratica isso?”
“Não”, ela mentiu.
Ficou em silêncio. Chutou o taco de hóquei. Tiniu pelo chão e parou quando bateu contra a parede. Ela ficou lá quieta, olhando para ele, parecendo perdida, deslocada entre o passado e o futuro. Eu quis abraçá-la. Queria dizer, Seja paciente. Você está entre duas Alvinas. A próxima espera por você no final do calendário.
Eu disse, “Alvina, tem um homem que vejo perto das pilhas de pedra na velha fábrica de cimento. Ele sempre veste um gorro verde e sempre diz...”
“Está me procurando?”
“Exatamente.”
“É o Arnold Maluco.”
“Arnold?”
“Sim.”
“Você o conhece?”
“Todo mundo o conhece. Ele é maluco.” Ela deixou escapar uma rápida gargalhada. Nunca a tinha visto chegar tão perto de rir.
“Que foi?”, perguntei.
Ela deu de ombros, o sorriso indo embora tão rápido quanto tinha aparecido.
“Nada. As crianças andam atrás dele e ele nem percebe. Então, você o cutuca e diz ‘Te peguei!’ e se vira e você grita e corre. Só crianças.” De repente, ela saiu do quarto. “Vou explodir esse monte de lixo.”
Na saída, notei o lado de dentro da porta de seu quarto. Havia uma foto presa a ela, um retrato colorido daqueles que se tiram na escola primária. Era um garoto. Um garoto loiro. Onde o tinha visto... De repente, me lembrei – o Festival de Dogwood! Era uma foto do garoto em que ela tinha batido. Incrível, pensei, pancadas de amor?
Como eu queria interrogá-la! Mas segurei minha língua (o que não é fácil para mim, como você bem sabe). Terminei de jardinar, e quando a senhora Klecko chegou, passei a ela uma versão publicável do Grande Desastre da Unha e levei Alvina para o centro até o Salão da Lin, onde ela recebeu uma nova obra de arte rosa e cintilante.
Só quando voltei para minha casa é que me joguei no sofá e finalmente ri até não poder mais me lembrando do pequeno Thomas mostrando a bunda para sua irmã mais velha.
13 de julho
Arnold.
Tenho pensado nele. Imaginei-o como uma criança.
Ou deveria dizer, uma criança mais jovem. O Pequeno Arnold. É isso o que vejo: um garotinho gordinho vestindo um gorro verde-musgo com um cordão de pompom. Verão. Após o jantar. Brincando com as crianças da vizinhança perto da fábrica de cimento e das pilhas de pedras. Brincando de esconde-esconde. Quase todas as vezes que brincavam desse jogo, o Pequeno Arnold era o primeiro a ser pego. Dessa vez, está determinado a que isso não aconteça. Enquanto um garoto cobre os olhos e conta alto até cem, o Pequeno Arnold desaparece. Dessa vez, não vai aos lugares usuais: atrás do monte de pedras, atrás da grande roda de um caminhão de cimento. Dessa vez ele corre, corre, e continua correndo. Desce pelas linhas de trem e passa sobre a ponte do canal, depois desce a ponte do rio até não conseguir nem mais ouvir o garoto contando.
E continua correndo, ao longo da margem do rio, subindo em direção à rua, ao longo da rua – mas não, ele está em campo aberto, eles irão vê-lo, irão pegá-lo – “Te achei, Arnold!” – então, cruzando o campo da fazenda, ele segue e dá a volta nas árvores, correndo, correndo, subindo a colina, descendo a colina, seus passos marcando um ritmo. Não dessa vez, não dessa vez. E finalmente, em algum lugar perto do fim do mundo, ele chega a esse maravilhoso espaço para se esconder – talvez um túnel no meio invisível de um emaranhado de amoreiras, ou um pequeno recanto lenhoso entre duas pilhas altas de dormentes de trilhos – e se aperta e se abaixa, começa a ouvir o silêncio além de sua própria respiração, e espera. E pensa, já que não há muito mais o que possa fazer.
E aí um sorriso nasce em seu pequeno rosto redondo. Talvez até dê uma risada – não se aguenta – enquanto pensa em todos procurando por ele, procurando por ele, olhando uns para os outros e dizendo: “Onde o Arnold foi parar?”, e então – essa é a melhor parte – “Só falta o Arnold” – não, essa é a melhor parte: “O Arnold venceu!”. E espera, pensa, sorri, e às vezes pensa ouvir alguém chamando – “Arnold!... Arnold!” – e às vezes pensa que eles estão quase lá, além das amoreiras, e às vezes até se encolhe porque pode sentir uma mão logo acima do ombro pronta para agarrá-lo como eles sempre fazem quando gritam: “Te Achei, Arnold!”. Mas eles não aparecem... e não aparecem... e os insetos do verão estão zumbindo, e em algum lugar o apito de um trem chama Arnoollld... e quando é que ficou tão escuro? Ele coloca a mão diante de seus olhos. Não consegue encontrar a si mesmo.
Cedo ou tarde vai para casa – talvez naquela noite, talvez no dia seguinte – até pais frenéticos, talvez até à polícia. A vida prossegue. As brincadeiras continuam. Após jantares. Verões. Anos. Exceto aquela noite, aquela brincadeira, aquela que não pode esquecer, aquela que nunca termina.
E penso, Arnold sabe algo que Alvina não sabe, algo que nenhuma dessas criancinhas sabe: ele gosta quando cutucam ele por trás e dizem: “Te peguei!”.
18 de julho
Outro dia calorento. Está muito quente aqui! E seco. Tivemos nove dias acima dos 32oC em julho e quase nenhuma chuva. A grama parece palha. Nem mesmo as ervas daninhas estão crescendo. Meu trabalho de arrumadora de jardins está me causando dor.
Hoje, me refresquei no clube de natação. Fui como convidada da Alvina e da mãe dela. Eles têm um plano familiar de associados. Nós três pulamos na piscina e espalhamos água ao redor por um tempo. Depois, a senhora Klecko e eu seguimos para a sombra do pavilhão. Foi lá que olhei para cima e vi alguém escalando a cerca de correntes que bordeava os fundos do clube. Ele estava distante e não dava para ver seu rosto, mas soube no mesmo instante que era um garoto. Perry. Rápido como um macaco, subiu e ultrapassou a cerca, pulando para o chão e se levantando depois de rolar para a frente, saltando dois banhistas e correndo direto para a piscina.
Ele pulou sobre a placa de PROIBIDO CORRER mais ao fundo. Ele não teve de mudar de roupa, pois já estava vestindo nada além de farrapos rasgados na altura dos joelhos. Podem ter se passado dez minutos antes que o visse escalando, e antes de perceber que não havia tirado os olhos da parte mais ao fundo por um segundo.
Agora ele estava subindo a escada para a prancha de mergulho, estava se achando na ponta da prancha, e lá ficou. Perry obviamente estava curtindo a si mesmo. Não de um jeito arrogante ou desdenhoso. Era algo mais próximo a conforto, uma sensação de estar em casa, de que era àquele lugar que realmente pertencia, equilibrado em sua bermuda esfarrapada na borda do espaço, os gritos, multidões se jogando na água lá embaixo, reluzindo no sol, o mundo inteiro abaixo dele – o rei da Pensilvânia.
E então ele pulou.
Quando subiu de novo da piscina, uma mão o alcançou, agarrou seu tornozelo e o puxou de volta. Houve gritos de meninas, risadas, barulho de água sendo espalhada, e a cabeça de uma garota, cabelo vermelho, pipocava perto da dele, e as duas cabeças continuaram aparecendo e desaparecendo na água que brilhava com o sol. Quando eles finalmente emergiram, foi na ponta mais funda. A garota vestia um biquíni. Eles desabaram em uma toalha de praia listrada de cores chamativas. A toalha era grande o suficiente para dois, contanto que deitassem bem perto um do outro.
Eles ficaram deitados por apenas alguns minutos quando de repente outra garota – Alvina – correu na direção deles vinda da piscina infantil e jogou um balde de água na cara de Perry. Ela fugiu gritando, arremessando o balde, enquanto Perry corria atrás dela. Eles pularam na piscina, onde os perdi de vista. Quando emergiu, estava sozinho. Ele não voltou para a garota na toalha. Não sei por quê, mas isso me deixou um pouco mais feliz. Pulou novamente da prancha de mergulho. Foi quando me peguei caminhando entre os banhistas e as crianças guinchando, e entrando lentamente na água. Andei devagar, sem rumo. Senti a pele dos corpos em que esbarrava, golpeei uma bola de vôlei. Nadei embaixo da água, mantendo meus olhos abertos por um vislumbre de um short esfiapado. E, de repente, lá estava ele, sua nuca emergindo na minha frente. “Oi”, disse eu. Ele se virou. Tive a impressão de que não me reconheceu de início, o cabelo molhado e tudo mais. E então sorriu. E afundou o queixo na água, encheu a boca e cuspiu na minha cara, ainda sorrindo. E depois foi embora. Fiquei lá, parada, piscando protetor solar. Alguns minutos depois o vi escalando a cerca de volta e indo embora.
Mais tarde, no pavilhão, disse para Alvina: “Vi você com aquele garoto. O Perry”.
Ela brincou com seu cordão de Ursinho Pooh. “Sim. Dei o troco por ele ter roubado os donuts da varanda da senhora Maluca.”
“Você o perseguiu por um longo caminho naquele dia.”
Ela estava estudando sua nova unha. “Persegui?”
“Estou surpresa de que tenha pensando que um garoto valia uma perseguição tão longa.”
“Eu socaria a cara dele se o pegasse.”
“Sério?”
“Sim.”
Eu mudei a abordagem. “Então, fiquei com a impressão de que você o conhece. O Perry.”
Ela deu de ombros. “Conheço um monte de gente.”
“De onde você o conhece?”
“Ele aparece de vez em quando.”
“Quer dizer, na Margie?”
“Sim.”
“Provavelmente roubando donuts, hum?”
“Sim.” Ela mordeu uma das suas nove unhas deselegantes. “Ele é um criminoso.”
“Eu não iria tão longe”, falei, querendo defendê-lo por alguma razão.
“Ele está”, disse ela. “Ele esteve na prisão.”
Calma aí!
“Prisão?”, falei. “Sério?”
“Campo de treinamento.”
“Campo de treinamento? Exército? Ele é muito novo.”
“É para crianças. É como o exército, mas não é. É para crianças delinquentes. Ele teve que limpar banheiros com uma escova de dente.”
“Ele foi sentenciado a um campo de treinamento?”
“Sim.”
“Qual o motivo? O que ele fez?”
“Por roubar.”
“Quanto tempo ficou no campo de treinamento?”
Ela deu de ombros. “Não sei. Um ano.”
Pensei nele escalando a cerca. Talvez fizesse esse tipo de coisa no curso de obstáculos do campo de treinamento todo dia.
“Ele tem namorada?” Por que puxei esse assunto?
Sua boca se torceu como se ela tivesse acabado de morder um inseto. “Como vou saber?”
19 de julho
Estou te contando isso, Leo, porque:
1. Você acabará nunca lendo a Maior Carta do Mundo de qualquer forma, então ela não fará nenhuma diferença.
Ou...
2. Você lerá a carta, o que significa que você e eu estaremos juntos, porque não vou enviá-la pelo correio de jeito nenhum – você só poderá recebê-la das minhas amáveis mãos. O que não pode acontecer, a menos que estejamos juntos no mesmo ambiente, e nunca mais estarei no mesmo ambiente que você, a menos que eu saiba que estaremos juntos para sempre.
Se for esse o caso, então, mais uma vez, não fará nenhuma diferença.
Então...
Deixei de prender o marcador dessa semana na Montanha do Calendário (é como a chamo agora). Não, meu despertador não está quebrado. Ele me acordou na hora hoje. Simplesmente não saí da cama. Eu havia sonhado. Sonhei que estava sentada no topo de uma das pilhas de pedra quando Arnold apareceu perambulando. Estava dizendo algo, só que baixo e murmurado, e eu não conseguia entendê-lo. Perguntei: “O que você disse?”. Nenhuma resposta. Ele só continuou andando. “Por favor!”, falei. Mas continuou andando, e quanto mais ele se afastava, mais alto eu gritava. “Por favor!” Por fim, veio até o canal e pulou. Corri atrás dele, parei na beira, espiando nas águas escuras. Podia ver uma sombra se movendo, e sabia que não era mais o Arnold, se é que era alguém, ou algo, alguma outra coisa, e quis pular dentro dele, mas estava com medo porque sabia que assim que entrasse na água, eu me afogaria e me tornaria uma sombra se movendo.
Foi quando o alarme tocou. Acordei rígida e suando. Senti-me aliviada e não aliviada, porque sabia que a sombra escura se movendo era Perry, e Perry era a Ondine e a Ondine era Perry, e para prolongar um momento de sonho que foi tão delicioso quanto terrível, mastiguei o tempo como um chumaço de chiclete e o estiquei pela escuridão até o amanhecer, quando a luz na ponta da minha janela me disse que era tarde demais para dar as boas-vindas ao nascer do sol.
23 de julho
Sem água de sonhos hoje, mas água real, do céu: chuva! Quebrando a onda de calor. A grama deu uma salva de palmas. As flores comemoraram.
Estávamos comendo barras de cereais de flocos de arroz na cozinha de Betty Lou – o Canela lambendo um marshmallow do seu próprio pedaço – quando Dootsie apontou e disse: “Noite!”.
Nós nos viramos para a janela. O céu estava quase preto. Estrondos estourando distantes. Relâmpagos reluziram prateados na cozinha. (Eu tive um pensamento idiota: Deus tinha acabado de tirar uma foto nossa?) Um trovão nos golpeou. O Canela voou para o meu colo. Dootsie correu para a porta dos fundos. Eu a peguei antes que saísse.
A violência passou em vinte minutos, mas a chuva continuou murmurando. Dootsie e eu tiramos nossos sapatos e dançamos no quintal. Nós tentamos fazer o Canela dançar conosco, mas ele não é fã de água. Fugiu para baixo de uma folha de hortênsia e nos observou de lá. Betty Lou nos assistiu da porta telada. Dootsie e eu estávamos de mãos dadas, girando até ficarmos tontas no fim do quintal quando Betty Lou gritou: “Tenham cuidado! Minha dama-da-noite!” Parei e olhei. A planta mais próxima crescia de um largo pote de argila com cor de tijolo: uma videira espinhosa, cinza e lenhosa se espiralando como a ponta de um cabo de vassoura.
Ela batia no meu ombro. Me lembrei que o tinha visto pela primeira vez de dentro da casa, pela janela da sala de estar. “Essa aqui?”, disse eu.
“Sim. É meu xodó. Não a derrubem.” Quando voltamos para dentro, ela nos fez tirar nossas roupas molhadas e vestir roupões. Por ficar dentro de casa 24 horas por dia, 7 dias por semana, Betty Lou tinha um monte de roupões no armário. Parecia que Dootsie tinha sido engolida por algum carnívoro peludo azul, exceto pela cabeça.
Betty Lou nos contou sobre a planta envasada: “Ela só floresce à noite. E só uma noite por ano. E é tudo. Então, ela se vai por mais um ano. Na verdade, a minha nem floresce todos os anos. Faz dois anos que ela não floresce. Ela é um cacto, veja só. Pertence ao deserto, não à Pensilvânia. Ela sente falta de sua casa. Vem para dentro de casa no inverno. Meu vizinho, o senhor Levanthal, a arrasta e a traz pra dentro para mim”.
Ela olhou longamente para fora, pela janela. “Minha dama-da-noite.” Ela suspirou. “Um aroma tão maravilhoso. Como o de baunilha. É quase intoxicante. Você precisa se segurar em algo para não desmaiar com a fragrância.”
“O que tudo isso significa?”, disse Dootsie.
“Significa que ela cheira bem, querida”, disse Betty Lou. Ela olhou para mim com tristeza. “Ela costumava ser o centro doce da minha vida. Agora é agridoce.”
Eu podia imaginar o motivo, mas perguntei mesmo assim. “Como assim?” Outro suspiro. “Eu costumava ser capaz de dizer quando ela iria florescer. Podia observar o botão de perto todos os dias.” Ela deu um risinho. “Eu me sentia como a mãe dela. Quando sabia que a flor estava vindo – é hoje à noite! – eu chamava os vizinhos e todos nós nos reuníamos no quintal ao pôr do sol com champanhe e esperávamos e observávamos ao longo da noite enquanto as pétalas se desdobravam e a fragrância preenchia o ar. Nós simplesmente ficávamos lá em silêncio como se fosse uma igreja, absorvendo e marcando aquela visão rara e fugaz em nossas memórias. Às vezes conseguíamos até ouvir as mariposas voando ao nosso redor.”
“Mariposas?”, disse eu.
“Sim. Muitas delas. Damas-da-noite são polinizadas por mariposas. Acredito que elas, assim como os humanos, também são atraídas pelo perfume. Ou talvez sejam as pétalas brancas da flor.”
“Somente uma noite”, disse eu.
Ela assentiu. “Somente uma noite. Muito antes do sol nascer as pétalas já estão caindo, a flor, morrendo.” Nós ficamos em silêncio por um tempo. O único som era o clique clique das unhas das patas traseiras do Canela na mesa enquanto Dootsie o segurava por suas mãos diminutas, tentando ensiná-lo como dançar.
“Irônico”, disse Betty Lou, finalmente. “O cereus insiste na luz do sol, é por isso que ele precisa ficar no final do quintal. E ainda assim salva sua flor para a lua. O sol nunca vê o que ele gera.”
“Ele pega do dia”, disse eu, “e oferece à noite.”
Ela bateu na minha mão. “Muito bom. Você devia ser escritora.” Ela foi para a porta de tela. A chuva tinha parado.
“O sol está tentando sair”, disse ela, e respirou fundo.
“Ah... não sou tão louca a ponto de não poder apreciar uma lufada de ar fresco. Venha cá, Estrela.” Fui até ela. “Olhe para esse jardim, que enfadonho está. Costumava existir uma velha senhora em um comercial de hambúrguer que reclamava: ‘Onde está o bife?’. Bem, digo, ‘Onde estão as flores?’” Ela sacudiu a cabeça, com tristeza.
“Oh, meninas”, ela se virou e assentiu para o Canela, “perdoem-me, oh, meninas e menino, se vocês pudessem ter visto meu jardim antes de eu entrar para ficar! Ele era um exemplo, se posso dizer isso por mim mesma. Eu costumava flagrar as pessoas em pé na cerca dos fundos, olhando pra dentro. Mas o que é um jardim”, ela virou o rosto e fechou a porta, “sem um jardineiro?”
25 de julho
Vi Arnold na minha frente na calçada hoje. Dois garotinhos estavam se escondendo atrás dele. Um deles estendeu a mão e puxou a bainha de sua jaqueta, e os dois gritaram, “Te peguei!” e correram. Tive a sensação de estar assistindo a uma peça no palco, que poderia voltar ali dia após dia e ver a mesma coisa. Enquanto os garotos corriam na minha direção, seus olhos se esbugalharam de pavor – eles me viam como uma adulta que ia dar uma bronca neles. Pouco antes de chegarem a mim, eles desviaram para o outro lado da rua, rindo e apontando um para o outro: “Foi ele! Foi ele!”
Queria gritar para eles: “Está tudo bem. Vocês estão sendo apenas crianças! Ele está sendo apenas o Arnold! Tudo faz parte da peça!”.
27 de julho
Tem uma faixa cruzando a rua da Ponte. Vermelho sangue com letras pretas tremidas:
O BLOB ESTA CHEGANDO!
O Blob é um filme de ficção científica da década de 1950. Dizem que é um clássico cult. Parte dele foi filmada aqui no Cinema Colonial. Então, agora, todo ano eles têm o Blobfest. Nenhuma rainha ou bandas de cordas para esse festival. Durante o dia, existe um tipo de quarteirão de festa no centro da cidade – a Cometa Azul grelha Blobburguers na calçada – mas, na maior parte, é um evento noturno. Os moradores da cidade vão ao Colonial e veem o filme original. Não há doces ou pipoca para vender na recepção. Em vez disso, Margie arma uma loja e oferece Blobbogobs, que são torrões de massa frita que ela faz em um vermelho assustador com corante de comida. O cinema fica tão cheio que as pessoas se sentam nos corredores, o que deixa o bombeiro-chefe nervoso, então as portas são mantidas abertas e caminhões de bombeiro estacionam em frente à marquise.
Então, eles exibem o filme. O Blob é esse alien, uma gosma vermelha escura que pousa na terra e aterroriza uma pequena cidade. Ele me parece – lembre-se, ainda não assisti – algo como o Estômago que Veio do Espaço. Ele só desliza seu visco de um lugar para outro e encobre as pessoas até que elas estejam dentro dele e ele as esteja digerindo. Disseram-me que é mais divertido que desagradável, na verdade, porque os efeitos especiais de 1958 não eram muito convincentes. Mas não diga isso às crianças no público, que gritam como loucas. E por conta do que está por vir, os adultos se convenceram a ficar assustados também. Todo mundo quer estar no humor correto, porque o que o Blobfest é, mais do que qualquer coisa, é uma reencenação.
A cena do clímax foi filmada no próprio Cinema Colonial, exatamente onde as pessoas estão sentadas. O Blob desliza pela sala de projeção e digere o projetista. Então começa a transbordar pelas janelas da sala de projeção. Alguém nas poltronas olha para cima e o vê, e antes que você perceba, o público inteiro está correndo, gritando enquanto sai do cinema e vai para a rua. É esse momento que aparece nos cartazes do Blob por toda a cidade, as pessoas gritando e correndo do cinema, e essa é a cena que o público irá reencenar daqui a um mês.
Dootsie me disse há muito tempo que irei levá-la. Ela já está praticando os gritos.
28 de julho
De onde você o conhece?
Ele vem aqui de vez em quando.
Quer dizer, na Margie?
Sim.
Geralmente não vou à loja da Margie em um sábado. Hoje fiz isso.
Ele não estava lá.
Ouvi a sinfonia de verão do lado de fora da minha janela. Para ser honesta, não era uma sinfonia de jeito nenhum. Não havia tom, melodia, somente as mesmas notas repetidas vezes. Silvos e chilreios, trinados e zunidos. É como se a orquestra dos insetos estivesse afinando eternamente seus instrumentos, sempre esperando o maestro bater sua batuta e organizá-los. Eu, pelo menos, espero que o maestro nunca chegue. Adoro a bagunça musical disso.
Todo dia agora paro no quintal da Betty Lou e verifico o cereus dama-da-noite. O botão é muito comprido. Ele me lembra uma vagem de feijão gigante. Parece mais gorda e mais inchada a cada dia que passa. E os dias estão quentes e secos novamente, como se o Arizona estivesse nos visitando. Penso na flor dentro do botão: amontoada, apertada, escura. Embora, de algum modo, ela sinta a noite, conhece a diferença entre a lua e o sol. Ela espera... espera.
Nós nunca ouvimos os grilos juntos, Leo. Nunca vi a lua em seus olhos. Se você me beijar de novo alguma vez à noite, darei uma espiada.
Me sinto solitária.
29 de julho
Cor agora no final do botão. Branco tingido de rosa. Pétalas adormecidas, em camadas, emplumadas. Um cisne miniatura pronto para nascer.
Jardinei dois jardins hoje. Nunca vi um cereus dama-da-noite em lugar algum além da casa de Betty Lou.
31 de julho
Não pretendia adormecer. Simplesmente desabei na minha cama após o jantar, e quando me dei conta era noite. A casa estava escura. Pulei da cama e corri para a bicicleta. Tinha dito aos meus pais sobre a flor e que uma dessas noites...
Pedalei furiosamente até Betty Lou. A lua estava alta e brilhante, iluminando meu caminho. Meus pneus espalhavam pedras enquanto eu me inclinava na rua. Já conseguia sentir seu cheiro: baunilha! Pulei da bicicleta, empurrei o portão. Lá estava ela – tão linda que eu quis gritar. Como se uma pedra tivesse caído numa piscina de luz da lua: era esse o splash. Seu tamanho me atordoou – ela era tão larga quanto minhas mãos uma do lado da outra. Desmaiei com o aroma. Caí de joelhos, então agora ela era mais alta do que eu. Tomei consciência dos voos tênues – mariposas estavam rodopiando, saindo da flor, voando para fora. Pensei: dama-da-noite. Ajoelhada lá por não sei quanto tempo, comecei a ter uma sensação das mais estranhas, como se uma comunicação, uma conversa, se passasse entre a bela flor e a lua. Fechei os olhos e me permiti mergulhar no encanto daquilo. E ainda assim, maravilhosa do jeito que era, havia algo faltando. Ela precisava ser compartilhada. Queria você aqui, Leo. Ou Archie.
Peguei um punhado de pedrinhas na passagem. Joguei-as na janela do quarto de Betty Lou. Finalmente o rosto dela apareceu. Apontei. Sussurrei tão alto quanto consegui: “Está abrindo!”. O rosto dela sumiu da janela. Um minuto depois, a porta dos fundos se abriu. Ela permaneceu lá em seu roupão atrás da porta telada. Estiquei minha mão. “Venha.” Acho que me esqueci do problema dela por um momento. Mas ela não.
“Não posso”, disse ela.
“É linda”, disse eu.
O rosto triste estava iluminado pela lua. “Eu sei.”
Estiquei ambas as mãos. “Estou aqui”, disse eu. “Só por um minuto. Vai ficar tudo bem. Você está segura.”
“Posso sentir o cheiro daqui”, disse ela.
“Eu sei. Sim! Agora venha vê-la. Quero que você a veja.”
Não houve palavras por um longo tempo. Então, ouvi um rangido fraco da porta telada se abrindo. Ela esticou o braço, uma palidez fantasmagórica. Segurei a mão dela. Ela não viria comigo. “Não posso”, disse ela. “Me desculpe.” Ela estava chorando.
Falei para ela esperar. Voltei para a flor. Levou um longo tempo, e realmente não sei como consegui, mas de alguma forma dei um jeito de levar o enorme vaso plantado pelo jardim até a porta dos fundos. E foi assim que passamos a noite, Betty Lou e eu, e cereus de floração noturna. Betty Lou abriu uma garrafa de champanhe para ela, como sempre fazia nessa ocasião, e um suco de oxicoco para mim. Com a tela escura entre nós, brindamos à Dama-da-Noite. Brindamos à lua e às mariposas e a todas as coisas breves. Nós nos demos as mãos através da porta aberta e cantamos canções suaves nos revezando. Compartilhamos nossos sonhos. Ficamos silenciosas como a flor. Caímos no sono, ela contra a porta telada, eu no degrau. Quando acordamos, o sol estava nascendo e a flor estava morta.
2 de agosto
Minha carroça feliz diminuiu para cinco seixos.
A temperatura hoje chegou a 38ºC. Tinha um trabalho de jardinagem hoje. Derrotei o calor, começando cedo de manhã.
3 de agosto
Acordei suada apesar do ventilador de piso zumbindo no pé da minha cama. Tinha sonhado, mas o sonho já havia me escapado.
Eu me vesti e desci na ponta dos pés. Pedalei pela noite e sob a lua alta, desci pelo meio das ruas vazias, sob a faixa do Blob, até o canal. Atravessei a ponte e encostei em um ponto de ônibus na poeira em frente à Oficina de Reparo de Bicicletas e Cortadores de Grama do Ike. Um carro estava estacionado em frente. Deitei a bicicleta com cuidado e fiquei lá, ouvindo os insetos. Caminhei pela parte dos fundos. Quando vi a escada, engasguei. O telhado só tinha um andar de altura, mas parecia arranhar a lua e ser tão proibido quanto Babel. Respirei fundo e comecei a escalar.
Ele estava no meio do telhado, com os braços e pernas abertas em um lençol, nu exceto pelos shorts esfiapados que vestia na piscina, coberto pela luz da lua. Pensei em você, Leo, mantendo a cortina de sua janela do quarto para cima para que a luz da lua pudesse cair sobre você. Sentei na borda erguida do telhado, observando, ouvindo sua respiração. Acho que poderia ter ficado confortavelmente daquele jeito à noite toda – observando, em silêncio – mas aquela era uma pessoa, não uma flor do quintal. Finalmente, chamei da borda: “Oi, Perry”.
Ele não se moveu.
Tentei de novo, um pouco mais alto. “Oi, Perry.”
Seus olhos se abriram para o céu acima dele. Então eles começaram a se mover, apesar do restante dele continuar parado. Eles finalmente pousaram em mim. Sua cabeça se ergueu vários centímetros do lençol. Sua voz saiu rouca: “Quem está aí?”.
Percebi que a lua estava atrás de mim agora, e meu rosto na sombra. Sua simples pergunta me desconcertou. Até onde me lembrava, ele nem sabia meu nome. Então, como eu iria me identificar? Pensei em várias possibilidades e finalmente falei: “A garota em quem cuspiu”.
Ele riu, ou pelo menos algo que lembrava uma risada saiu de sua boca. Sua cabeça desceu para trás. Seus olhos se fecharam. Eu estava com medo de que aquilo fosse tudo, mas ele falou novamente a tempo: “O que você quer?”.
Essas perguntas não estavam ficando mais fáceis. “Dootsie disse que você dormia no telhado nas noites quentes.”
“Não respondeu à pergunta.” Ele tinha razão. Sua voz estava se esforçando, seu tom dizendo: Deixe-me sozinho para que eu possa voltar a dormir.
“Acho que não sei o que quero”, disse eu. “Acordei. Estava quente. Não conseguia dormir. Me lembrei do que a Dootsie falou, e aqui estou.”
“Você não tem seu próprio telhado?”
“Bem, claro que sim, mas não é plano como esse. Além disso, você não está no meu telhado. Está neste aqui.”
“Você quer dormir aqui?”
“Não, não quis dizer isso.”
“O que você quer dizer?”
Eu me sentia bastante desconfortável. O que quer que tivesse me feito vir tinha se acabado. “Não sei”, disse eu. “Eu faço coisas sem pensar.” Fiquei em pé. “Irei embora. Sinto por ter te acordado.”
Suas mãos sacudiram no ar. “Tudo bem. Agora já acordei.” Me sentei novamente. “Você tem um nome?”
“Estrela”, falei. Pela primeira vez, me senti autoconsciente pronunciando-o em voz alta.
Ele abriu os olhos. “O quê?”
“Estrela.”
“O quê?”
Eu disse pela terceira vez: “Estrela”.
Pensei que iria fazer um estardalhaço com isso, mas ele apenas disse: “Ah sim”, e fechou os olhos novamente.
Esse era um roteiro completamente novo para mim. Não tinha ideia de quais eram as minhas falas.
Eu disse: “Como você consegue chupar limões?”.
“Suco é suco”, disse ele.
“Você vai ao Blobfest?”
“Não sei.”
“Eu vou com a Dootsie.”
“Bom pra você.”
“Você entra muito na piscina escondido?”
“Quando dá vontade.”
“Você é mais corajoso do que eu. Nunca fui para um mergulho na prancha.”
“Não é nada de mais.”
“É se você tiver medo de fazê-lo.”
“Então você é uma covarde.”
Não sei como esperava que as coisas seguissem, mas não era desse jeito. O que tinha me feito pensar que eu seria bem-vinda? Fiquei em pé novamente. “Perry, realmente sinto muito. Eu...” De repente, se sentou e disparou: “Você veio até minha casa, escalou até aqui em cima e me acordou. E agora estou totalmente acordado. Era isso que você queria, me acordar?”.
“Não”, falei.
“Bem, então o que você quer? Só queria me ver dormindo?”
“Não.”
“Você quer conversar?”
Eu estava tremendo. “Acho que sim.”
“Então converse. Você falou pra caramba antes. Me seguiu até em casa e me chamou de ladrão. Me passou sermão na biblioteca. Quem você pensa que é, alguma madre superiora ou algo parecido?”
“Não.”
“Então abra sua bocona e converse.”
Não sei quanto tempo fiquei lá parada, tentando me recompor. Nunca me senti tão frágil, tão indefesa. Me contive para não explodir em berros. Até então, não tinha percebido o estado de fragilidade em que me encontrava. Quando pensei que estava sob controle, fiz a coisa mais difícil de todas: dei um passo adiante. Depois outro. Quanto mais perto dele eu chegava, mais claro ficava que os ângulos estavam todos errados. Eu estava me avultando sobre ele. Então me sentei, cruzei as pernas na superfície quente e fina como papel do telhado, a cerca de um metro e meio dele. Nós olhamos um para o outro por um longo tempo. Apesar do que ele tinha acabado de dizer, ambos parecíamos entender que esse não era o momento de conversar. Ainda olhando para ele, me estiquei, tirei minhas sandálias e joguei-as de lado. Acho que estava fazendo uma declaração, mas não tenho ideia de qual ela era. Eventualmente, respirei fundo... “Sonhei com você uma noite.”
“Foi?”
“Bem, mais ou menos com você. Você estava nadando no canal. A Dootsie disse que faz isso...”
“Fiz uma vez.”
“...e eu assistia você debaixo da água. Era uma figura sombria e escura, mas sabia que era você. E então não era mais você, era a Ondine, e depois você novamente, e aí a Ondine, num vaivém...”
“Ondine”, disse ele.
“O livro que você estava lendo na biblioteca aquele dia.”
Ele não me respondeu, apenas me encarou.
“Peguei um exemplar e li numa sentada. Amei.” Ele continuou me encarando. “Gostou dele?”
“Não.”
“Sério? Por que não?”
“Ela é estúpida.”
“Como assim?”
“Ela pensa que tudo é uma maravilha. Que todo mundo é bonito.”
“E você não?”
A resposta dele foi uma bufada. “Ela está sempre cantando. Ela é feliz demais.”
“Feliz demais?”, disse eu. “Isso é possível? Feliz é feliz, não é? Como se pode ser feliz demais?”
“Quando vive em um conto de fadas. Quando o mundo onde vive é falso.”
“Mas nem tudo eram flores para a Ondine”, comentei. “Ela fica triste.”
“Não triste o suficiente. Ela é estúpida. Ela não é real.”
Algo me ocorreu de repente. “Perry”, falei, me puxando um pouco mais para perto, “você chegou a terminar a leitura, não chegou?”
“Ela era horrível.”
“Chegou?”
“Não.”
“Bem, tenho novidades para você”, disse eu. “No final, o cavaleiro amado pela Ondine, o Hans, se lembra? – ele morre.”
“Ótimo.”
“E a Ondine se esquece de tudo sobre o tempo dela com as pessoas sobre a Terra e volta para a água.”
“Ótimo.”
“Para sempre.”
“Ótimo.”
A palavra se pendurou na noite – ótimo – como uma segunda lua mais amarga.
“Então por que leu uma parte dele, afinal?”, disse eu.
Ele deu de ombros. “Estava em frente ao meu nariz.”
Perry se deitou de novo, suas mãos cruzadas num travesseiro sob sua cabeça. Estava me sentindo um pouco mais confiante agora, menos desconfortável, mas ele ainda não era exatamente uma fogueira de calor humano.
“Sabe”, disse eu, “essa é a segunda vez essa semana que fico acordada a noite inteira conversando com alguém.”
“Verdade?”
“Verdade. E você está morrendo de curiosidade para eu contar sobre a outra vez, não está?”
“Mal posso esperar.”
Contei a ele sobre o cereus e a noite no quintal da Betty Lou. “Betty Lou é a pessoa de quem você roubou os donuts na varanda naquele dia. Quando Alvina veio correndo atrás de você.”
“Quem?”
“Alvina Klecko. A garota que te perseguiu. Que jogou o balde de água em você na piscina.”
“A garota com a unha.”
“Ela mesma. Ela diz que você vai na Margie.”
“De vez em quando.”
“Para roubar donuts?” Meu atrevimento me surpreendeu.
“Ela que me dá os donuts.”
“Acho que ela tem uma quedinha por você.”