Coraline

Neil Gaiman · Capítulo 10 de 17

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Coraline

Capítulo Nove

Do lado de fora, o mundo havia se transformado em névoa, e a névoa remoinhava sem formas nem sombras, enquanto a casa parecia ter sido torcida e esticada. Coraline teve a impressão de que o lugar tinha se agachado para olhá-la de baixo, como se não fosse propriamente uma casa, mas apenas a ideia de uma casa . E concluiu que quem tivera essa ideia não era uma boa pessoa. Ainda restava um pouco da gosma do casulo pendurada em seu braço, que ela tentou limpar o máximo que pôde. As janelas acinzentadas da casa se inclinavam em ângulos curiosos.

A outra mãe estava esperando por ela, em pé no gramado, com os braços cruzados. Seus olhos negros ainda estavam inexpressivos, mas ela comprimia os lábios, furiosa.

uando avistou Coraline, estendeu a mão comprida e branca, e dobrou um dos dedos, chamando-a. Coraline foi até ela. A outra mãe não disse nada.

— Consegui duas almas — falou Coraline. — Ainda falta uma.

A outra mãe nada fez e nada falou. Talvez não tivesse ouvido Coraline.

— Achei que ia gostar de saber — continuou Coraline.

— Obrigada, Coraline — disse a outra mãe, com frieza, e sua voz não saía apenas da boca. Ela ressoava de dentro da névoa, da escuridão, da casa, do céu. — Você sabe que eu amo você, não sabe?

E, apesar de tudo, Coraline assentiu. Era verdade: a outra mãe a amava.

Mas a amava como um avarento ama o dinheiro, ou um dragão ama seu ouro.

Aos olhos da outra mãe, Coraline era uma posse, nada mais. Um bicho de estimação suportável, cujo comportamento já não era tão divertido.

— Eu não quero o seu amor — disse Coraline. — Eu não quero nada que venha de você.

— Nem ajuda? Você está indo muito bem. Imaginei que gostaria de uma dica que facilitasse o resto de sua caça ao tesouro.

— Eu me viro muito bem sozinha — a rmou Coraline.

— É verdade — disse a outra mãe. — Mas, se você quisesse vasculhar o apartamento da frente, o que está vazio, encontraria a porta trancada. E aí? O

que você faria?

— Ah! — Coraline ponderou um pouco e perguntou: — Existe uma chave?

A outra mãe estava em pé sob a neblina cinzenta daquele mundo torto.

Seus cabelos negros utuavam em torno da cabeça, como se tivessem um cérebro à parte e objetivos próprios. Ela tossiu com força e abriu a boca.

A outra mãe tirou uma pequena chave de latão da língua.

— Pegue — disse ela. — Você vai precisar disso para entrar.

Arremessou a chave para Coraline, que conseguiu pegar com uma mão só, antes mesmo de pensar se queria a chave ou não. O objeto ainda estava um pouco úmido.

Um vento frio soprou. Coraline se arrepiou e olhou para o outro lado.

uando se virou, estava sozinha.

Insegura, deu uma volta para chegar em frente à casa e cou em pé na entrada do apartamento vazio. Como todas as portas, essa também havia sido pintada de verde brilhante.

— Ela não quer o seu bem — sussurrou uma voz fantasmagórica em seu ouvido. — Não acreditamos que ela queira ajudar você. Deve ser uma armadilha.

— Sim, você tem razão — respondeu Coraline.

Ela girou a chave na fechadura. Silenciosamente, a porta se abriu e, silenciosamente, Coraline entrou.

As paredes do apartamento tinham uma cor de leite velho. Não havia carpete sobre as tábuas de madeira do assoalho de madeira, que estavam empoeiradas e com marcas dos carpetes anteriores.

Não havia móveis, só os lugares que os móveis haviam ocupado em algum momento. Nada nas paredes, apenas retângulos desbotados que sinalizavam os lugares onde pinturas e fotogra as haviam sido penduradas. Era tão silencioso que Coraline imaginou ouvir a poeira se movendo pelo ar.

Percebeu que estava com muito medo de que algo pulasse nela, então começou a assoviar. Achou que seria mais difícil alguma coisa pular nela se estivesse assoviando.

Primeiro entrou na cozinha vazia. Depois foi para o banheiro vazio, que só tinha uma banheira de ferro fundido e, dentro dela, uma aranha morta do tamanho de um lhote de gato. Supôs que o último cômodo que visitou já havia sido um quarto. Imaginou que o retângulo de poeira no assoalho um dia fora o lugar da cama. Então avistou uma coisa no chão e, soturna, sorriu. Era uma argola de metal. Coraline se ajoelhou, segurou a argola e a puxou com força.

Lentamente, e com muita di culdade, um pedaço pesado do chão se levantou: era um alçapão. Pela abertura, Coraline só via a escuridão. Estendeu a mão para dentro do buraco e, tateando, achou um interruptor. Deu um toque de leve, sem muita esperança de que desse certo, mas logo abaixo uma lâmpada se acendeu, e uma luz amarela fraca se projetou do buraco. Só conseguiu enxergar alguns degraus e nada mais.

Coraline pegou no bolso a pedra com um buraco no meio. Ela olhou o porão pelo buraco da pedra, mas não viu nada. Guardou a pedra.

Subiu um cheiro de terra úmida e de algo mais, um odor forte de vinagre azedo.

Coraline desceu pelo buraco do alçapão, nervosa, deixando-o aberto. A porta era tão pesada que, se fechasse, Coraline tinha certeza de que caria presa para sempre na escuridão. Estendeu a mão para tatear a porta, mas ela nem se moveu. Então se voltou para a escuridão e desceu a escada. Ao nal dela, na parede, havia outro interruptor de luz, de metal enferrujado. Ela o

pressionou até ouvir o clique, acendendo uma lâmpada pendurada por um arame no teto rebaixado. Não iluminava o su ciente para Coraline conseguir decifrar as pinturas nas paredes. As pinturas pareciam rudimentares, toscas.

Era possível identi car olhos e coisas que talvez tivessem sido uvas um dia. E

outras coisas logo abaixo. Coraline não sabia ao certo se havia pessoas no que fora pintado ali.

Havia um monte de lixo num dos cantos do lugar: caixas de papelão cheias de papéis mofados e, ao lado, cortinas em decomposição empilhadas.

Os chinelos de Coraline faziam barulho no chão de cimento, como se alguém estivesse mastigando. O pior de tudo era o cheiro terrível. Ela estava pronta para desistir e ir embora, quando avistou um pé embaixo da pilha de cortinas.

Ela respirou fundo (o cheiro de vinho azedo e de pão mofado se misturaram à sua volta) e empurrou o pano úmido, revelando algo mais ou menos do tamanho de uma pessoa.

Sob a luz fraca, demorou muitos segundos para reconhecer a coisa: pálida e inchada como uma larva, os braços e pés nos como uma vara. Seu rosto não tinha feição, e se in ou como massa fermentada de pão.

A coisa tinha dois grandes botões negros no lugar dos olhos.

Coraline fez um barulho, um ruído de repugnância e horror. Como se tivesse acordado ao ouvi-la, a coisa se sentou. Coraline cou paralisada. A criatura virou a cabeça até que seus olhos negros abotoados se voltaram para Coraline. Uma boca se abriu no rosto sem boca, as bras de uma substância pálida se colavam aos lábios, e uma voz que nem de longe lembrava vagamente a voz de seu pai sussurrou:

— Coraline.

— Bom — disse Coraline para a coisa que um dia fora seu outro pai —, pelo menos você não pulou em mim.

As mãos de galho da criatura se mexeram em direção ao rosto e caram remexendo a argila descolorida, moldando algo semelhante a um nariz. Ele não disse nada.

— Estou procurando meus pais — prosseguiu Coraline. — Ou a alma roubada de uma criança. Eles estão por aqui?

— Não há nada aqui — murmurou a coisa pálida. — Nada além de poeira, umidade e esquecimento.

A coisa era branca, enorme e inchada. Monstruosa , pensou Coraline, mas também miserável . Ela ergueu a pedra com um buraco e observou a criatura através dela. Nada. A coisa pálida estava lhe dizendo a verdade.

— Coitadinho. Aposto que ela mandou você para cá como punição por ter falado demais.

A coisa hesitou e então assentiu. Coraline se perguntou como algum dia pôde conceber que aquela larva se parecia com seu pai.

— Sinto muito — disse ela.

— Ela não está contente — informou a coisa. — Nada contente. Você a tirou do sério. uando ela perde as estribeiras, desconta em todo mundo. É o jeito dela.

Coraline afagou a cabeça sem cabelos da criatura. A pele era viscosa, como massa quente de pão.

— Coitadinho — repetiu ela. — Você é só mais uma coisa que ela fabricou e depois jogou fora.

A coisa assentiu com veemência. Enquanto assentia, o olho esquerdo abotoado caiu e retiniu no chão de concreto. A coisa deixou o olho que sobrara vagar pelo lugar, à procura de Coraline. Finalmente conseguiu avistá-la e disse, fazendo muito esforço, em um tom de voz úmido e urgente:

— Fuja, menina. Vá embora. Ela quer que eu machuque você, para que que presa aqui e nunca consiga terminar o jogo. Ela está me forçando a machucar você. Eu não consigo lutar contra ela.

— Consegue, sim — rebateu Coraline. — Seja corajoso.

Coraline olhou ao redor: a coisa que uma vez fora seu outro pai agora se encontrava entre ela e a escada que levava para fora do porão. Começou a escorregar pela parede, em direção aos degraus. Como não tinha ossos, a coisa se contorceu muito para que seu único olho encarasse Coraline novamente.

Agora parecia ainda maior e mais desperta.

— Não — insistiu a coisa —, não consigo.

A coisa disparou para cima de Coraline, a boca banguela escancarada.

Coraline teve o tempo de um batimento cardíaco para reagir. Ela só conseguia pensar em duas coisas: podia correr e tentar fugir da larva imensa, sendo cruelmente perseguida naquele buraco asqueroso até ser pega de vez.

Ou podia fazer algo diferente.

Então ela fez algo diferente.

uando a coisa a alcançou, Coraline agarrou o olho de botão da criatura, o que restara. Puxou-o com toda a força que tinha.

Por alguns instantes, nada aconteceu. Então o botão nalmente se desprendeu e escorregou de sua mão, batendo na parede antes de cair no chão.

A coisa cou paralisada. Sem enxergar, jogou a cabeça para trás e escancarou a boca, urrando de raiva e frustração. Então, foi direto até o lugar em que Coraline estava antes.

Mas Coraline não estava mais ali. Ela já estava subindo, na ponta do pé, do jeito mais silencioso possível, os degraus que a levariam para fora daquele buraco escuro com pinturas grotescas nas paredes. Não conseguia desgrudar os olhos do chão, onde a coisa pálida se debatia e se retorcia, procurando por ela. Então, como se estivesse sendo governada por outra pessoa, a criatura parou de se mexer, e sua cabeça cega caiu para o lado.

A coisa está ouvindo meus passos , pensou Coraline. Tenho que ser muito silenciosa . Ela subiu mais um degrau, mas seu pé escorregou. E a coisa ouviu.

A cabeça da coisa girou na direção de Coraline. Balançou de um lado para outro, como se tivesse ganhado força. Então, ágil como uma cobra, deslizou até a escadinha e começou a subir atrás dela. Coraline se virou e subiu depressa a meia dúzia de degraus que faltavam, então se lançou no chão do quarto empoeirado. Sem parar, puxou o alçapão pesado e o soltou. A tampa desabou com um estrondo, enquanto uma coisa grande o empurrava na direção contrária. O alçapão estremeceu e chacoalhou no chão, mas nada mais aconteceu.

Coraline respirou fundo. Se houvesse algum móvel naquele apartamento, mesmo uma mesa, ela teria arrastado para cima do alçapão, mas não havia nada lá.

Ela saiu do apartamento o mais rápido que pôde, mas sem chegar a correr, e trancou a porta da frente. Deixou a chave da porta debaixo do tapete. Então desceu para o outro apartamento.

Ela quase desejou que a outra mãe estivesse lá, esperando por ela, mas o mundo estava silencioso e vazio.

Coraline queria voltar para casa.

Ela se abraçou e disse a si mesma que tinha sido corajosa, e quase acreditou no que disse. Depois, foi até o outro lado da casa, sob a névoa cinzenta que não era névoa, em direção à escada.