Coraline

Neil Gaiman · Capítulo 6 de 17

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Coraline

Capítulo Cinco

Coraline trancou a porta da sala de visitas com a chave preta e fria. Foi até a cozinha e subiu numa das cadeiras para pendurar o molho de chaves de volta no batente da porta. Tentou quatro ou cinco vezes antes de aceitar que não era alta o bastante, deixando-as no balcão próximo à porta.

Sua mãe ainda não tinha voltado das compras.

Coraline pegou uma fatia de pão do congelador. Fez uma torrada e passou nela geleia e pasta de amendoim. Depois comeu a torrada e bebeu um copo de água.

Ela esperou os pais chegarem.

uando começou a escurecer, Coraline assou uma pizza congelada no micro-ondas.

Depois assistiu à televisão. Ela se perguntava por que os adultos se davam o direito de assistir aos melhores programas, aqueles cheios de gritos e correrias.

Então começou a bocejar. Colocou o pijama, escovou os dentes e foi se deitar.

Na manhã seguinte, foi ao quarto dos pais, mas a cama deles continuava intacta e eles não estavam em casa. Assim, Coraline comeu macarrão instantâneo no café da manhã.

No almoço, comeu uma barra gigante de chocolate meio amargo e uma maçã. A maçã estava amarelada e meio murcha, mas o gosto era doce e bom.

Na hora do chá, ela foi visitar as srtas. Spink e Forcible. Comeu três biscoitos, tomou um copo de limonada e uma xícara de chá aguado. A limonada estava muito peculiar. Não tinha gosto de limão. Tinha um gosto meio industrializado, e sua coloração era de um verde radiante. Coraline adorou. uem dera tivesse aquilo na despensa de casa.

— Como estão seus adoráveis pais? — perguntou a srta. Spink.

— Sumidos — respondeu Coraline. — Não aparecem em casa desde ontem. Estou sozinha. Acho que virei órfã.

— Fale para sua mãe que encontramos aqueles recortes de jornal sobre o Glasgow Empire

eatre que havíamos comentado com ela. Ela pareceu muito interessada quando a Miriam comentou com ela.

— Ela desapareceu sob circunstâncias misteriosas — disse Coraline. —

Acho que meu pai também.

— Caroline, meu bem, amanhã vamos passar o dia todo fora — avisou a srta. Forcible. — E vamos pernoitar na casa da sobrinha de April, em Royal Tunbridge Wells.

Elas mostraram para Coraline um álbum com fotos da sobrinha da srta.

Spink, e depois a menina voltou para casa.

Ela abriu seu cofrinho e foi ao supermercado. Comprou duas garrafonas de limonada, um bolo de chocolate, um quilo de maçã e comeu isso no jantar.

Então Coraline escovou os dentes e foi ao escritório do pai. Ligou o computador e escreveu uma história:

 

Ela imprimiu a história e desligou o computador. Depois desenhou uma garotinha dançando embaixo das letras impressas.

Preparou um banho de banheira com muita espuma, que transbordou da banheira e inundou o chão. Ela se secou, secou o chão o melhor que pôde e foi se deitar.

Coraline acordou no meio da noite. Foi para o quarto dos pais, mas a cama estava arrumada e vazia. O verde uorescente do relógio digital brilhava e anunciava: 3h12 da madrugada.

Completamente sozinha, no meio da noite, Coraline começou a chorar. E

nenhum outro som era ouvido no apartamento vazio. Ela subiu na cama dos pais e, depois de um tempo, voltou a dormir.

Coraline foi acordada por patas geladas em seu rosto. Ela abriu os olhos.

Olhões verdes a encaravam. Era o gato.

— Olá — disse Coraline. — Como entrou aqui?

O gato não disse nada, e Coraline se levantou da cama. Ela vestia uma camiseta longa e a calça do pijama.

— Você tem algo para me contar?

O gato bocejou, e isso fez seus olhos verdes se acenderem.

— Você sabe onde a mamãe e o papai estão?

O gato piscou.

— Isso é um sim?

O gato piscou de novo. Coraline entendeu que era um sim.

— Você vai me levar até eles?

O gato encarou Coraline e saiu do quarto. Ela o seguiu. O felino andou pelo corredor e parou no nal dele, onde havia um espelho de corpo inteiro pendurado. Durante muito tempo esse espelho cou na parte de dentro do guarda-roupa, mas já estava do lado de fora quando eles se mudaram. Embora

 

a mãe de Coraline tenha mencionado algumas vezes sobre trocá-lo por um mais novo, ela nunca o fez.

Coraline acendeu a luz.

Conforme esperado, o espelho revelou o corredor atrás dela. E, na imagem re etida, estavam seus pais. Pareciam tristes e sozinhos, com di culdade até para car de pé. Abraçados, acenaram lentamente para a lha, as mãos desanimadas.

No espelho, olhavam xamente para Coraline. O pai abriu a boca e disse alguma coisa, mas a menina não conseguiu ouvir. A mãe baforou no vidro do espelho e, rapidamente, antes que o embaçado sumisse, ela escreveu com a ponta do dedo:

A palavra começou a desaparecer, assim como os pais dela. Agora, no espelho, só havia o corredor, Coraline e o gato.

— Onde eles estão? — perguntou a menina ao felino.

O gato não respondeu, mas Coraline imaginou sua voz, seca como um inseto morto no parapeito da janela, no inverno, dizendo: “Ora, onde você acha que eles estão?”

— Eles não vão voltar, né? — perguntou Coraline. — Não por seus próprios meios.

O gato piscou para ela. Coraline entendeu como um sim.

— Certo. Então acho que só há uma coisa a ser feita.

Ela foi até o escritório do pai, abriu a lista telefônica e ligou para a delegacia do bairro.

— Delegacia de Polícia — atendeu uma voz masculina rouca.

— Olá — disse ela. — Meu nome é Coraline Jones.

— Já passou da hora de estar na cama, não é, mocinha? — disse o policial.

— Talvez — respondeu Coraline, que não estava para brincadeira. —

Estou ligando para denunciar um crime.

— E que tipo de crime seria?

— Sequestro. Meus pais foram raptados para o outro lado do espelho do nosso corredor.

— E você sabe quem os raptou? — perguntou o policial.

Coraline conseguiu ouvir a risada na voz dele. Ela tentou ao máximo soar como uma adulta, para ser levada a sério:

— Acho que estão sob as garras de minha outra mãe. Ela talvez queira prendê-los para costurar seus olhos com botões pretos. Ou talvez queira usá-los para me atrair de volta para lá. Não tenho certeza.

— Ah, sim. Aqueles dedos demoníacos e suas abomináveis garras, não é?

— disse ele. — Hummm. Sabe qual é a minha sugestão, srta. Jones?

— Não — respondeu Coraline. — ual é?

— Peça para sua mãe fazer uma canecona de chocolate quente para você.

E depois te dar um abraço bem apertado. Não há nada melhor do que chocolate e abraço para espantar os pesadelos. E se ela reclamar por ter sido acordada no meio da noite, diga que foram ordens do policial.

Ele tinha uma voz grave e reconfortante.

Mas Coraline não se tranquilizou.

— uando eu encontrá-la, vou dizer isso a ela — a rmou Coraline.

E desligou o telefone.

O gato preto, que estava sentado no chão, lambendo o próprio pelo durante toda a conversa, levantou-se indicando o caminho para o corredor.

Coraline voltou para o quarto, vestiu seu roupão azul e calçou os chinelos.

Ela procurou uma lanterna embaixo da pia e encontrou uma, mas a pilha estava fraca havia muito tempo e mal reluzia, emitindo uma luz cor de palha.

Ela deixou a lanterna de lado e achou velas brancas em uma caixa de primeiros socorros. Colocou uma delas num castiçal. Depois uma maçã em cada bolso. Pegou o molho de chaves e de lá tirou a velha chave preta.

Então se encaminhou para a sala de visitas e olhou para a porta. Ela teve a sensação de que a porta a observava, e achou isso uma bobagem, mesmo sabendo, inconscientemente, que era verdade.

Voltou para o quarto e vasculhou o bolso da calça jeans. Lá encontrou a pedra com o buraco no meio e a guardou no bolso do roupão.

Depois, Coraline acendeu o pavio da vela com um fósforo e o observou crepitar e se acender. Pegou a chave preta. Estava fria. Colocou a chave na fechadura da porta, mas não a girou.

— uando eu era criança — disse para o gato —, quando morávamos na nossa antiga casa, há muito, muito tempo, meu pai me levou para passear num terreno baldio que cava entre a nossa casa e as lojas do bairro.

“Não era o melhor lugar para se fazer um passeio. Lá cavam todas as coisas que as pessoas jogavam fora: fogões velhos, louças quebradas, bonecas sem braço nem perna, latas vazias e garrafas despedaçadas. Papai e mamãe me zeram prometer que eu não voltaria lá para desbravar sozinha, porque havia muitas coisas cortantes, e tétano etc.

“Mas continuei dizendo que queria desbravar o lugar. Então, um dia, meu pai colocou suas botas marrons e suas luvas. Eu calcei minhas botas, vesti minha calça jeans e botei meu suéter, e fomos dar uma volta.

“Acho que caminhamos durante uns vinte minutos. Descemos a colina até o pé de um barranco onde havia um córrego. De repente, meu pai disse: ‘Fuja, Coraline. Para o topo da colina. Agora!’ Ele disse com rmeza, com urgência, e foi o que z. Subi a colina correndo. Alguma coisa me feriu no braço enquanto eu corria, mas continuei correndo.

“ uando estava chegando ao topo da colina, ouvi alguém subindo correndo atrás de mim. Era o meu pai, disparando como um rinoceronte.

uando me alcançou, me pegou pelo braço e me ergueu lá em cima.

“Ofegantes e com o coração palpitando, nós zemos uma parada e olhamos para o barranco lá embaixo.

“O ar se encheu de vida com vespas amarelas. Acho que, no caminho, pisamos num vespeiro de um tronco apodrecido. Enquanto eu corria colina acima, meu pai parou para ser picado, para me dar tempo de fugir. Seus óculos caíram quando ele começou a correr.

“Eu só levei aquela picadinha no braço. Meu pai levou trinta e nove picadas, no corpo todo. Nós contamos depois, no banho.”

O gato preto começou a lamber o próprio rosto e o bigode de um jeito que expressava crescente impaciência. Coraline se abaixou e deu um tapinha de leve na cabeça dele. O gato se levantou, afastou-se de Coraline, então se sentou e olhou para ela novamente.

— Aí — continuou Coraline —, no m daquela tarde, meu pai voltou ao terreno baldio para pegar os óculos. Disse que se deixasse para o dia seguinte não ia conseguir se lembrar do lugar onde eles tinham caído. Logo voltou para

casa, de óculos. Contou que só não sentiu medo quando estava lá e as vespas começaram a picá-lo e a feri-lo porque estava me vendo fugir. Ele sabia que precisava me dar tempo su ciente para correr, ou as vespas voariam atrás de nós dois.

Coraline girou a chave na fechadura da porta. Ela destrancou num sonoro clunc .

A porta se abriu.

Não havia parede de tijolos: só escuridão. Um vento frio soprou no corredor. Coraline não se moveu.

— E ele disse que não tinha sido corajoso ao fazer aquilo, de car lá e ser picado — acrescentou Coraline para o gato. — Não foi corajoso porque ele não estava com medo. Era a única coisa que podia fazer naquele momento.

Mas, ao voltar para buscar os óculos, sabendo que as vespas estavam lá, ele sentiu medo. Isso, sim , foi corajoso.

Ela deu o primeiro passo para o corredor escuro.

Sentiu o cheiro de poeira, umidade e mofo.

O gato caminhava ao seu lado.

— E por que ele fez isso? — perguntou o gato, embora não parecesse muito interessado.

— Porque coragem é quando você sente medo de fazer algo, mas faz mesmo assim, é quando você enfrenta o medo — respondeu ela.

A vela projetava enormes, estranhas e oscilantes sombras pelo corredor.

Ela ouviu algo se mover na escuridão. Se a coisa se movia do seu lado ou perto dali, não saberia dizer. Fosse o que fosse, parecia que acompanhava seus passos.

— Então é por isso que está voltando para o mundo dela ? — perguntou o gato. — Porque uma vez seu pai salvou você das vespas?

— Não seja bobo — disse Coraline. — Estou voltando por eles, porque eles são meus pais. Se eu sumisse, tenho certeza de que fariam o mesmo por mim. Você percebeu que voltou a falar?

— Eu sou muito sortudo de ter uma companheira de aventuras tão sábia e inteligente.

O tom continuava sarcástico, mas seu pelo estava eriçado, e a cauda viçosa se erguia no ar.

Coraline ia dizer alguma coisa, algo como “desculpa” ou “será que a caminhada não foi mais curta da última vez?”, quando a chama da vela sumiu de repente, como se tivesse sido apagada pela mão de alguém.

Som de arranhões e de patas. O coração de Coraline disparou. Ela estendeu a mão… e sentiu um o no como uma teia de aranha tocar suas mãos e seu rosto.

No nal do corredor, uma lâmpada se acendeu, cegando-a por um instante.

Coraline identi cou a silhueta de uma mulher em pé contra a luz.

— Coraline? uerida?

— Mãe! — exclamou Coraline. E correu para abraçá-la, nervosa e aliviada.

— uerida — disse a mulher —, por que fugiu de mim?

Coraline já estava muito perto para parar, e sentiu o abraço gélido da outra mãe. Ficou ali, presa e trêmula, enquanto a mulher a apertava com força.

— Onde estão os meus pais? — perguntou Coraline.

— Estamos aqui — respondeu a outra mãe, com uma voz tão parecida com a de sua mãe real que Coraline mal saberia distingui-las. — Estamos aqui.

Prontos para amar você, brincar com você, alimentar você e fazer com que sua vida seja mais interessante.

Coraline deu um passo para trás, e a outra mãe assentiu, com relutância.

O outro pai, que estava sentado em uma poltrona no corredor, se levantou e sorriu.

— Venha para a cozinha — chamou ele. — Vou fazer um lanchinho noturno para a gente. Você vai querer beber alguma coisa? Um chocolate quente, talvez?

Coraline caminhou pelo corredor até chegar ao nal dele, onde cava o espelho. Não havia nada re etido além de uma garotinha de roupão e chinelos, com cara de que havia acabado de chorar. Mas seus olhos eram olhos reais, não botões pretos, e segurava com força o castiçal com a vela apagada.

Coraline olhou para a garota no espelho, e a garota no espelho a olhou de volta.

Vou ser corajosa , pensou Coraline. Não, eu sou corajosa.

Ela colocou o castiçal no chão e se virou. A outra mãe e o outro pai a encaravam com um olhar faminto.

— Não quero lanchar — disse ela. — Eu tenho uma maçã. Estão vendo?

Ela tirou a maçã do bolso do roupão e deu uma mordida com uma satisfação e um entusiasmo que na verdade não estava sentindo.

O outro pai parecia decepcionado. A outra mãe sorriu, mostrando os dentes, muito compridos. As luzes do corredor zeram seus olhos negros abotoados brilharem e reluzirem.

— Vocês não me assustam — desa ou Coraline, embora eles a assustassem muito. — uero os meus pais de volta.

O mundo ali parecia tremeluzir devagar nos cantos.

— O que eu poderia ter feito com os seus outros pais? Se eles a abandonaram, Coraline, deve ser porque caram entediados ou se cansaram de você. Mas eu nunca vou me entediar e nunca vou abandonar você. Você sempre estará segura perto de mim.

Os cabelos negros da outra mãe pareciam estar molhados. Flutuavam ao redor de sua cabeça como os de uma criatura do fundo do oceano.

— Eles não se cansaram de mim — retrucou Coraline. — Você está mentindo. Você os sequestrou.

— Pobre, pobre Coraline. Onde quer que estejam, eles devem estar bem.

Coraline fez uma cara feia para a outra mãe.

— Eu posso provar — disse a mulher.

E então esfregou a superfície do espelho com seus dedos longos e brancos.

O espelho se anuviou, como se um dragão tivesse dado uma baforada nele, e em seguida clareou.

Dentro do espelho já era dia. Coraline conseguia ver todo o corredor até a porta da frente de sua casa. A porta se abriu, e por ela entraram o pai e a mãe de Coraline. Eles carregavam malas.

— ue férias maravilhosas! — disse o pai de Coraline.

— Como é bom não ter mais a Coraline conosco — a rmou a mãe, com um sorriso alegre. — Agora podemos fazer todas as coisas que sempre quisemos fazer mas que nunca conseguimos, porque tínhamos uma lha pequena. Por exemplo, viajar!

— E tem mais — continuou o pai. — Eu co sossegado em saber que a outra mãe vai cuidar dela bem melhor do que a gente.

O espelho se anuviou, a imagem sumiu aos poucos, dando lugar novamente à escuridão.

— Viu só? — perguntou a outra mãe.

— Não — respondeu Coraline. — Não vi nada. Eu não acredito nisso.

Ela esperava que o que havia acabado de ver não fosse real, mas não tinha tanta certeza. Restava uma dúvida miúda, como um bicho dentro da maçã.

Coraline olhou para cima e viu a expressão da outra mãe: um lampejo de raiva genuína, que cruzava seu rosto como um raio de verão. Com isso, Coraline sentiu em seu coração que o que vira no espelho era só uma ilusão.

Coraline se sentou no sofá e comeu a maçã.

— Por favor — prosseguiu a outra mãe. — Não seja cabeça-dura. — Ela foi até a sala de visitas e bateu palmas duas vezes. Ouviu-se um rumor, e então o ratão preto apareceu. Ele a encarou. — Traga a chave pra mim — ordenou ela.

O rato chiou e, em seguida, correu para a porta que dava para o apartamento de Coraline.

Ele voltou arrastando a chave.

— Por que você não tem a própria chave do lado de cá? — perguntou Coraline.

— Só existe uma chave. Uma única porta — respondeu o outro pai.

— Shhh — sibilou a outra mãe. — Não encha a cabeça de nossa querida Coraline com essas bobagens.

Ela colocou a chave no buraco da fechadura e girou. Emperrou um pouco, mas, com um estampido, a porta se fechou.

A mulher jogou a chave no bolso de seu avental.

O céu começou a se abrir do lado de fora, exibindo um cinza radiante.

— Se não vamos fazer um lanchinho noturno — disse a outra mãe —, ainda precisamos do sono da beleza. Vou voltar para a cama, Coraline. E

sugiro veementemente que faça o mesmo.

A menina apoiou seus longos dedos brancos nos ombros do outro pai, e os dois saíram da sala.

Coraline foi até a porta, no canto da sala de visitas. Tentou abri-la, mas estava trancada. A porta do quarto de seus outros pais já estava fechada.

Ela estava muito cansada, mas não queria dormir no seu outro quarto.

Não queria dormir sob o mesmo teto que a outra mãe. A porta da frente não estava trancada. Coraline saiu madrugada afora e desceu a escada de pedras.

Ela se sentou no degrau mais baixo. Estava frio.

Uma coisa peluda se aproximou dela num movimento suave e insinuante.

Coraline deu um pulo, mas respirou aliviada quando viu do que se tratava.

— Ah, é você — falou ao gato preto.

— Viu? — falou o gato. — Não foi difícil me reconhecer, foi? Mesmo sem nome.

— Mas e se eu quisesse chamar você?

O gato enrugou o focinho, tentando parecer indiferente.

— Chamar os gatos é uma atividade superestimada — con denciou ele.

— É o mesmo que chamar um furacão pelo nome.

— E se fosse a hora do jantar? — perguntou Coraline. — Você gostaria de ser chamado?

— Mas é claro — respondeu o gato. — Mas gritar um simples “hora do jantar!” já seria perfeito. Viu? Os nomes não servem para nada.

— Por que ela me quer aqui? — quis saber Coraline. — Por que ela me quer presa aqui com ela?

— Acho que ela quer algo para amar — opinou o gato. — Algo que não seja ela mesma. Talvez também queira algo para comer. Com uma criatura daquelas nunca dá pra saber ao certo.

— Você tem algum conselho para me dar? — perguntou Coraline.

O gato a olhou como se estivesse prestes a falar alguma coisa sarcástica.

Então sacolejou o bigode e disse:

— Você precisa desa á-la. Não é garantido que ela vai jogar limpo com você, mas aquele tipinho de criatura ama jogos e desa os.

— E que tipinho de criatura é ela? — perguntou Coraline.

Mas o gato não respondeu. Apenas se espreguiçou exuberante e saiu andando. Mas parou, virou-se e disse:

— Se eu fosse você, entraria agora. Tente dormir um pouco. Você tem um longo dia pela frente.

Depois disso, ele sumiu. Coraline reconheceu que o gato tinha razão.

Assim, ela se arrastou de volta para a casa silenciosa, passou pela porta fechada

do quarto onde sua outra mãe e seu outro pai estavam… Estavam o quê? , pensou. Dormindo? Esperando?

Então lhe passou pela cabeça que, se abrisse a porta, o quarto estaria vazio.

Ou, mais precisamente, que era um quarto vazio e que permaneceria assim até que Coraline abrisse a porta.

De algum jeito, isso facilitava as coisas para ela. Coraline entrou naquela versão verde e rosa de seu quarto. Ela fechou a porta e a escorou com a caixa de brinquedos. Bem, isso não evitaria a entrada de ninguém, mas o ruído ocasionado por uma tentativa de abertura da porta a acordaria. Ou, pelo menos, assim esperava.

Os brinquedos na caixa ainda estavam dormindo. Eles se remexeram e murmuraram quando Coraline arrastou a caixa, e então voltaram a dormir.

Coraline olhou embaixo da cama, procurando pelos ratos, mas não havia nada lá. Ela tirou o roupão e os chinelos, deitou-se na cama e dormiu antes mesmo de conseguir re etir sobre as palavras do gato, quando disse que a criatura teria que ser desa ada .