Coraline

Neil Gaiman · Capítulo 8 de 17

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Coraline

Capítulo Sete

Em algum lugar dentro de si, Coraline sentia brotar um imenso soluço. Mas ela segurou o choro e respirou fundo. Esticou as mãos para tatear o lugar onde estava presa. Era do tamanho de um armário de vassouras: alto o su ciente para car de pé e com a largura necessária para se sentar, mas não para se deitar. Uma das laterais era de vidro e fria.

Ela vasculhou o ambiente minúsculo pela segunda vez, passando a mão por todas as superfícies, apalpando maçanetas, interruptores e trancas ocultas.

Buscou algum jeito de escapar dali, mas não encontrou nada.

Uma aranha se atirou sobre a sua mão, e ela sufocou um grito. Mas, tirando a aranha, ela estava sozinha na escuridão do armário.

Então sua mão esbarrou em algo que se parecia com as bochechas e os lábios de alguém. Os lábios eram pequenos e gelados. E uma voz saiu desses lábios, sussurrando no ouvido de Coraline:

— Silêncio! Shhhh! Não diga nada, a velhaca pode estar ouvindo!

Coraline não disse nada. Em vez disso, sentiu uma mão gelada tocar seu rosto. Os dedos eram gentis e suaves como as asas de uma mariposa.

Outra voz, tão hesitante e balbuciante que Coraline achou que estivesse imaginando coisas, falou:

— És tu? Estás viva?

— Sim — sussurrou Coraline.

— Coitadinha — disse a primeira voz.

— uem é você? — perguntou Coraline.

— Nomes, nomes, nomes — disse a outra voz, ainda mais distante e desorientada. — Os nomes são as primeiras coisas a desaparecer depois que a respiração cessa e o coração para de bater. Nossa memória dura mais do que o nosso nome. Ainda consigo me lembrar de minha babá carregando meu bambolê em alguma manhã de maio. Ou do sol nascendo atrás dela, as tulipas balançando ao sabor da brisa. Mas já esqueci o nome da minha babá e o nome das tulipas também.

— Acho que tulipas não têm nome — disse Coraline. — Elas são só tulipas.

— Talvez — respondeu a voz, desapontada. — Mas sempre pensei que aquelas deveriam ter nomes. Eram vermelhas, alaranjadas e amareladas, como a brasa da lareira no quarto de brinquedos numa noite de inverno. Eu lembro bem.

A voz parecia tão triste que Coraline estendeu a mão na direção dela.

Acabou esbarrando numa mão fria. E a segurou com rmeza.

Seus olhos já estavam se acostumando com a escuridão. Então Coraline viu, ou imaginou ver, três formas, tão frágeis e pálidas como o luar durante o dia. Formas de crianças que eram quase do seu tamanho. A mão gelada apertou a de Coraline.

— Agradeço — disse a voz.

— Você é menina? — perguntou Coraline. — Ou menino?

Uma pausa.

—

uando eu era menor, usava saias e meu cabelo era comprido e encaracolado — respondeu a voz, incerta. — Mas, já que perguntou, teve um dia que eles tiraram as saias de mim e me deram calças e cortaram meu cabelo.

— Não precisamos nos importar com isso — a rmou a primeira voz.

— Um menino, então, talvez — continuou a voz da criança cuja mão Coraline segurava. — Acho que eu era um menino.

E brilhou com mais força em meio à escuridão do quartinho atrás do espelho.

— O que aconteceu com vocês? — perguntou Coraline. — Como vieram parar aqui?

— Ela jogou a gente aqui — respondeu uma das vozes. — Ela roubou nossos corações e nossas almas, acabou com nossas vidas e então nos jogou aqui. Ela nos esqueceu na escuridão.

— Coitadinhos — disse Coraline. — Há quanto tempo estão aqui?

— Há muito tempo — respondeu a voz.

— É. Um tempo sem conta — disse a outra voz.

— Cheguei pela porta da copa — contou a forma que imaginava ser um menino. — uando notei, estava de volta à sala de visitas. Mas ela esperava por mim. Disse que era minha outra mãe, e eu nunca mais vi minha mãe de verdade de novo.

— Fuja — alertou a primeira das vozes. Outra menina , supôs Coraline. —

Fuja enquanto ainda tem ar nos seus pulmões, sangue nas veias e vida no seu coração. Fuja enquanto ainda é dona de sua mente e de sua alma.

— Eu não vou fugir — disse Coraline. — Ela prendeu os meus pais. Eu voltei para buscá-los.

— Ah, mas ela vai manter você aqui enquanto os dias evaporam, as folhas caem e os anos se sucedem como o tique-taque de um relógio.

— Não — rebateu Coraline. — Ela não vai.

Silêncio no quartinho atrás do espelho.

— Se, porventura, você conseguir resgatar o seu pai e a sua mãe das garras da velhaca, poderia libertar nossas almas também? — perguntou uma das vozes.

— Ela roubou a alma de vocês? — quis saber Coraline.

— Sim. Roubou e escondeu.

— É por isso que não conseguimos sair daqui, mesmo depois de termos morrido. Ela nos prendeu e sugou de nós tudo que podia, até que não sobrou nada, só peles de cobra e cascas de aranha. Ache nossos corações ocultos, senhorita.

— E o que vai acontecer com vocês se eu conseguir fazer isso? —

perguntou Coraline.

As vozes se calaram.

— E o que ela vai fazer comigo? — continuou ela.

As formas pulsaram com fragilidade. Coraline imaginou que eram apenas rastros de memórias, como o intenso lampejo que cintila nos olhos quando uma luz se apaga.

— Nada que doa — sussurrou a voz fraca.

— Ela vai roubar sua vida e tudo de que é feita. Vai roubar tudo que é importante para você, para que só reste névoa e vapor. Ela vai levar sua alegria.

Um dia, você vai acordar sem alma e sem coração. Você será apenas casca, trapo, um sonho, a memória de algo que se perdeu.

— Vazia — sussurrou a terceira voz. — Vazia, vazia, vazia, vazia, vazia.

— Você precisa fugir — suspirou uma das vozes.

— Eu discordo — disse Coraline. — Eu tentei fugir, mas não consegui. Ela prendeu os meus pais. Vocês sabem como eu consigo sair desse quartinho?

— Se soubéssemos, diríamos a você.

Coitadinhos , pensou Coraline.

Ela se sentou. Tirou o suéter, enrolou e botou atrás da cabeça, como se fosse um travesseiro.

— Ela não vai me deixar na escuridão para sempre — disse Coraline. —

Ela me deixou aqui para brincar. “Jogos e desa os”, como o gato falou. Só que eu não sou tão desa adora no escuro.

Ela tentou achar uma posição confortável, se virando de um lado para outro para caber no espaço minúsculo atrás do espelho.

Seu estômago roncou. Ela comeu a última maçã, dando mordidinhas, fazendo-a durar o máximo possível. uando terminou de comer, ainda estava com fome.

Então uma ideia lhe ocorreu.

— uando ela vier me soltar, por que vocês três não saem comigo?

— Adoraríamos. — As três pequenas vozes sussurraram. — Mas nossos corações estão sob o comando dela. Agora pertencemos ao espaço vazio e à escuridão. Ficaríamos paralisados e seríamos dizimados pela luz.

— Nossa — disse Coraline.

E fechou os olhos. Isso tornou a escuridão ainda mais sombria. Ela recostou a cabeça sobre o suéter enrolado e tentou dormir. uando estava começando a pegar no sono, sentiu que um fantasma lhe beijava a bochecha, com ternura, e uma voz baixinha sussurrava em seu ouvido, uma voz tão fraca que mal se fazia presente, um resto de suspiro quase inexistente que Coraline pensou ser sua imaginação.

— Olhe através da pedra — pedia a voz.

Coraline adormeceu.