Coraline

Neil Gaiman · Capítulo 12 de 17

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Coraline

Capítulo Onze

Ao entrar em seu apartamento, ou melhor, no apartamento dos outros, Coraline cou contente de ver que, ao contrário do restante do casarão, ele não tinha sido transformado em um desenho vazio. Tinha profundidade, sombras e alguém que, em meio às sombras, aguardava o seu retorno.

— Então você voltou — disse a outra mãe. Ela não parecia feliz. — E

trouxe uma peste com você.

— Não — rebateu Coraline. — Eu trouxe um amigo.

Ela sentiu o gato se enrijecer em suas mãos, como se o bichano não visse a hora de sair daquele lugar. Coraline queria segurá-lo como se fosse um ursinho de pelúcia, para que se sentisse protegido, mas sabia que gatos odiavam ser espremidos e suspeitava de que gatos assustados muito provavelmente mordiam e arranhavam quando provocados, mesmo que fossem seus amigos.

— Você sabe que eu amo você, não sabe? — perguntou a outra mãe, categórica.

— Você tem um jeito muito estranho de demonstrar o seu amor —

respondeu Coraline.

Ela foi para o corredor, entrou na sala de visitas, um passo rme de cada vez, ngindo não se sentir observada pelos olhos negros e sem vida da outra mãe. A mobília formal de sua avó ainda estava lá, assim como a pintura da

fruteira esquisita na parede (mas agora as frutas tinham sido comidas, e o que restava na tigela era só o esqueleto marrom de uma maçã, muitos caroços de ameixa e de pêssego, e a haste do que um dia fora um cacho de uvas).

A mesa com patas de leão arranhou o tapete com suas garras de madeira, como se estivesse impaciente. No outro extremo da sala estava a porta de madeira que um dia, em outro lugar, tinha se aberto para a parede de tijolos.

Coraline tentou não olhar para a porta. Na janela, nada além de névoa.

Era isso. A hora da verdade. O momento da revelação.

A outra mãe seguiu Coraline. Agora ela estava no meio da sala, entre a menina e a lareira, e a olhava do alto. Que esquisito , pensou Coraline. A outra mãe não se parecia em nada com sua mãe de verdade. Coraline se perguntou como se deixou ludibriar tanto, a ponto de ver alguma semelhança. A outra mãe era enorme — sua cabeça quase batia no teto — e muito pálida, da cor da barriga de uma aranha. Seus cabelos se contorciam e se retorciam na cabeça, e seus dentes eram a ados como facas…

— E aí? — disse a outra mãe. — Onde elas estão?

Coraline se encostou na poltrona, endireitou o gato na mão esquerda, en ou a mão direita no bolso e sacou as três bolinhas de gude. Eram de um cinza fosco e tilintaram na palma de sua mão. A outra mãe esticou seus dedos brancos para pegá-las, mas Coraline as jogou de volta no bolso. Então enxergou a verdade. A outra mãe não tinha a menor intenção de libertá-la e de manter sua palavra. Fora apenas uma brincadeira e nada mais.

— Espera aí — disse ela. — Ainda não acabou, acabou?

A outra mãe parecia hostil, mas sorriu com doçura.

— Não — respondeu. — Acho que não. A nal, você ainda precisa encontrar seus pais, não é?

— Preciso — disse Coraline.

Não posso olhar para a lareira , pensou. Não posso nem pensar nisso .

— E então? Cadê eles? — questionou a outra mãe. — Gostaria de olhar o porão novamente? Sabe, ainda tenho coisas interessantes escondidas lá embaixo.

— Não — falou Coraline. — Eu sei onde os meus pais estão.

O gato pesava em seus braços. Ela o posicionou na frente de seu corpo e desenganchou as garras dele de seu ombro.

— Onde?

— Num lugar óbvio — a rmou Coraline. — Olhei em todos os lugares onde poderiam estar escondidos. Eles não estão na casa.

A outra mãe cou quieta, para não deixar escapar nada, os lábios lacrados.

Ela poderia ser uma estátua de cera. Nem seus cabelos se mexiam.

— Então eu sei onde eles podem estar — continuou Coraline, as duas mãos ao redor do gato preto. — Você os escondeu na passagem entre as duas casas, não foi? Eles estão atrás da porta.

Ela apontou o lugar com a cabeça.

A outra mãe permaneceu imóvel, mas uma pitada de ironia se insinuava em seu rosto.

— Estão lá? É isso que você acha?

— Por que não abre a porta? — desa ou Coraline. — Tenho certeza de que eles estarão lá.

Coraline sabia que aquele era seu único caminho para casa e que tudo dependeria da vontade da outra mãe de se vangloriar — da vontade não só de ganhar, mas de exibir sua vitória. A outra mãe en ou a mão no bolso do avental e pegou a chave preta de ferro. O gato, desconfortável, se alvoroçou nos braços de Coraline.

Fique só mais um pouquinho , pensou, perguntando-se se ele podia escutá-la. Nós dois vamos oltar para casa. Eu disse que iríamos. Eu prometo.

Ela sentiu o gato relaxar em seus braços. A outra mãe foi até a porta e en ou a chave na fechadura. Girou a chave.

Coraline ouviu a estrutura fazer um clunc pesado. No mesmo instante começou a recuar, silenciosamente, pé ante pé, em direção à lareira.

A outra mãe girou a maçaneta e abriu a porta com um empurrão, revelando o corredor logo atrás, escuro e vazio.

— Viu? — disse ela, acenando com as mãos. A expressão de prazer em seu rosto foi uma visão desagradável. — Você errou! Não sabe onde seus pais estão, não é? Eles não estão lá. Agora… você vai car comigo para todo o sempre.

— Não — falou Coraline. — Não vou.

E, com toda a força que tinha, arremessou o gato na outra mãe. Agressivo e furioso, ele berrou e pousou na cabeça dela, com suas garras mordazes e seus dentes a ados. Com os pelos eriçados, parecia ter o dobro do tamanho. Sem esperar para ver o que ia acontecer, Coraline alcançou a lareira, pegou o globo de neve com as duas mãos e o en ou no fundo do bolso de seu roupão.

O gato sibilou de uma maneira assustadora e intensa, e en ou os dentes na bochecha da outra mãe. Ela tentava golpeá-lo. O sangue jorrava dos ferimentos em seu rosto pálido. Não era um sangue vermelho, mas uma coisa preta viscosa, como piche. Coraline correu em direção à porta.

Ela tirou a chave da fechadura.

— Largue-a! Venha! — gritou para o gato.

Ele ronronou e acertou o rosto da outra mãe com um único golpe selvagem de suas garras de bisturi, fazendo gotejar um líquido negro dos talhos do nariz dela. Então saltou para o chão e correu até Coraline.

— Rápido! — disse ela.

O gato e a menina entraram no corredor escuro.

Fazia muito frio no corredor. Foi como entrar num porão cheio de gelo.

O gato hesitou, mas, ao ver que a outra mãe estava vindo atrás deles, correu para perto de Coraline e parou entre as pernas dela.

Coraline começou a fechar a porta. Era mais pesada do que imaginava, e tentar fechá-la se assemelhava a tentar fechar uma porta num dia de ventania.

Coraline sentiu que algo do outro lado começava a puxá-la.

Feche! , pensou. Então pediu, bem alto:

— Vamos, por favor !

E sentiu que a porta começava a se mexer, a se fechar, a desa ar o vento fantasmagórico. De repente, sentiu a presença de outras pessoas no corredor.

Ela não podia se virar e olhar para elas, mas sabia que estavam ali.

— Me ajudem, por favor — implorou ela. — Todos vocês.

As outras pessoas no corredor — três crianças, dois adultos — eram, de alguma forma, incorpóreos demais para conseguir fechar uma porta. Mas suas mãos seguraram a de Coraline enquanto ela puxava a maçaneta de ferro. De repente, ela se sentiu forte.

— Não pare, senhorita! Aguente rme! Segure! — sussurrou uma voz em sua cabeça.

— Vai, menina, vai! — sussurrou outra voz.

Uma voz que parecia com a de sua mãe (a mãe real, maravilhosa, irritante, enfurecida, magní ca) disse:

— Muito bem, Coraline.

E isso foi o su ciente.

A porta começou a se fechar, deslizando com facilidade.

— Não! — gritou a voz atrás da porta, e o som não era nem minimamente humano.

Algo se agarrou a Coraline e começou a puxá-la pelo vão entre a porta e o batente. A menina se debateu para tentar se livrar, mas a porta começou a se abrir de novo.

— Nós vamos voltar para casa — disse Coraline. — Nós vamos. Me ajudem.

Ela desviou dos dedos que tentavam prendê-la.

Algo começou a se mover atrás dela: mãos fantasmas lhe emprestaram uma força que já não tinha mais. Houve ainda um último impedimento, como se alguma coisa estivesse presa na porta, e então, com uma batida, a porta se fechou num estrondo. Da altura da cabeça de Coraline, algo se materializou em direção ao chão. A coisa aterrissou emitindo um barulho de passos ocos em fuga.

— Vamos! — disse o gato. — Não é bom car aqui. Rápido!

Coraline deu as costas para a porta e disparou pelo corredor escuro, passando a mão pelas paredes para se certi car de que não ia esbarrar em nada nem mudar de direção.

Foi uma corrida penosa, e ela teve a sensação de que aquilo não acabaria nunca. A parede que ela tocava agora parecia quente e macia, coberta de pelúcia. E se mexia como se estivesse respirando. Ela tirou a mão na mesma hora.

Os ventos uivavam na escuridão.

A ideia de esbarrar em alguma coisa aterrorizava Coraline, que acabou colocando as mãos na parede de novo, para se equilibrar. Sentiu que tocava numa coisa quente e molhada, como se tivesse colocado a mão na boca de alguém. Dando um gritinho, tirou a mão mais uma vez.

Seus olhos se acostumaram com a escuridão. Ela conseguiu identi car manchas levemente reluzentes à sua frente, dois adultos e três crianças. Ela ouvia o gato também, caminhando na frente dela no escuro.

E tinha mais uma coisa, que passou correndo de repente entre seus pés e quase a fez voar pelos ares. Ela se segurou para não cair e se impulsionou para continuar correndo. Se Coraline caísse naquele corredor, poderia não conseguir se levantar novamente. O que quer que fosse aquele lugar, era mais antigo que a outra mãe. Era profundo, lento e sabia que ela estava ali… Então veio a luz do dia. E Coraline, ofegante, correu até ela.

— uase lá — disse, cheia de coragem.

No entanto, com a luz, Coraline descobriu que as assombrações tinham desaparecido e que estava sozinha. Não teve tempo de pensar no que tinha acontecido com eles. Cambaleou pela porta e, ao sair, a fechou com o barulho mais alto e mais prazeroso que poderia imaginar. Trancou a porta com a chave e a jogou no bolso.

O gato preto estava aninhado no canto mais isolado da sala, a ponta rosada de sua língua para fora, os olhos bem abertos. Coraline se aproximou e se abaixou ao seu lado.

— Desculpa — falou ela. — Desculpa por ter jogado você em cima dela.

Mas era o único jeito de distraí-la para conseguirmos escapar. Ela nunca manteria sua palavra, não é?

O gato a olhou, e então recostou a cabeça em sua mão, lambendo os dedos dela com sua língua de lixa, ronronando.

— Então somos amigos? — quis saber Coraline.

A menina se sentou em uma das poltronas desconfortáveis de sua avó, e o gato pulou em seu colo para se aconchegar. A luz que entrava pela janela parecia a luz do dia, o dourado do m de tarde, não a luz pálida da neblina.

No céu era possível ver um azul-esverdeado.

Coraline conseguia ver as árvores e, atrás delas, as colinas verdes que se desbotavam no horizonte em tons de roxo e cinza. O céu nunca foi tão céu e o mundo nunca foi tão mundo .

Ela olhou para as folhas das árvores e para o estampado que a luz e a sombra deixavam na casca trincada do tronco da faia do outro lado da janela.

Então olhou para o seu colo, para o jeito como a abundante luz do sol iluminava cada pelo da cabeça do gato, transformando o branco dos bigodes em dourado.

Nada , pensou, nada nunca foi tão interessante.

E, tomada por esse interesse pelo mundo, Coraline nem se deu conta de que tinha, assim como o gato, se aconchegado e se aninhado na poltrona desconfortável de sua avó, nem que caía num sono profundo, sem sonhos.