Coraline
Capítulo Dez
Coraline subiu a escada do lado de fora do prédio até o apartamento mais alto, que, no mundo dela, era onde o velho doido morava. Tinha estado lá uma vez com a mãe verdadeira, quando ela estava angariando doações para a caridade. Ficaram em pé à porta, esperando o velho doido com bigodão encontrar o envelope que a mãe de Coraline havia deixado lá. O apartamento cheirava a comidas estranhas, fumo de cachimbo e outras coisas bizarras, intensas e com odor de queijo, coisas que Coraline não sabia nomear. Ela não quis passar da porta.
— Sou uma exploradora — declarou Coraline, mas suas palavras saíram abafadas e amortecidas pela névoa.
Ela já tinha escapado do alçapão, não tinha? Sim, já. Mas se havia uma coisa da qual Coraline tinha certeza, era de que esse apartamento seria pior.
Chegou ao topo da casa. O apartamento mais alto um dia fora o sótão, mas há muito, muito tempo.
Ela bateu na porta pintada de verde, que se abriu. Dezenas de vozes ou mais sussurravam na escuridão do apartamento:
Temos olhos e temos nervos
Temos dentes e temos rabos
Todos serão meros servos
uando sairmos dos ralos.
O teto era tão baixo e tão inclinado que só de esticar o braço Coraline conseguia tocá-lo.
Olhos vermelhos a encaravam. Pequeninas patas rosadas se apressaram quando Coraline se aproximou. Sombras ainda mais intensas deslizavam nas sombras dos objetos.
O cheiro era ainda pior do que o do apartamento do velho doido real. Lá o cheiro era de comida (cheiro de comida desagradável, mas Coraline sabia que era questão de gosto. Ela não gostava de pimentas, ervas ou coisas exóticas). Ali o cheiro era semelhante ao de todas as comidas exóticas do mundo apodrecendo juntas.
— Menininha... Você está aí? — murmurou a voz em um cômodo distante.
— Sim — respondeu Coraline.
Não estou assustada , disse a si mesma e, assim que esse pensamento se formou em sua cabeça, ela soube que era verdade. Não havia nada que a assustasse. Essas coisas, mesmo a coisa no alçapão, eram ilusões criadas pela outra mãe numa reprodução medonha das pessoas e coisas reais que cavam do outro lado do corredor. De fato, ela não podia criar nada, concluiu Coraline. Só distorcer e copiar o que já existia.
Então Coraline se pegou pensando por que a outra mãe havia colocado um globo de neve na cornija da lareira. A nal, no mundo de Coraline esse espaço costumava car vazio.
Logo que se fez essa pergunta, percebeu que já tinha uma resposta para ela.
As vozes ressurgiram e interromperam seus pensamentos.
— Venha aqui, menininha. Eu sei o que você quer.
Era uma voz sussurrada, arranhada e seca. Coraline pensou em um inseto enorme e morto, mas ela sabia que aquilo não fazia sentido. Como uma coisa morta, especialmente um inseto morto, poderia ter uma voz?
Ela atravessou muitos cômodos de tetos baixos inclinados até chegar ao último. Era um quarto, e o velho doido estava sentado do outro lado do lugar, na penumbra, de chapéu e casaco.
uando Coraline entrou, ele começou a falar:
— Nada mudou, menininha — disse ele. Sua voz soava como o barulho seco de folhas se arrastando na calçada. — Sabe o que vai acontecer se você zer tudo que jurou que faria? Adivinha? Nada vai mudar. Você vai voltar para casa. Vai car entediada. Será ignorada. Ninguém vai prestar atenção em você, ninguém vai ouvir você. Você é esperta e silenciosa demais para ser compreendida por eles. Eles não sabem nem o seu nome direito. Fique conosco — falou a voz que emanava do espectro na outra extremidade do quarto. — Aqui você será ouvida e terá companhia para brincar. Nós vamos nos divertir juntos. Sua outra mãe vai criar mundos inteiros para você desbravar, depois vai desfazê-los quando se cansar. Cada dia será melhor e mais luminoso do que o anterior. Lembra-se da caixa de brinquedos? Não seria muito melhor um mundo daquele jeito, todinho para você?
— E não haverá dias nublados e chuvosos, quando eu não vou saber o que fazer e não vou ter nada para ler ou para assistir, e nenhum lugar para ir? —
perguntou Coraline.
Da penumbra, o homem respondeu:
— Nunca.
— Nem refeições horríveis que levem alho, estragão e favas? — perguntou Coraline.
— Cada refeição será um deleite — sussurrou a voz debaixo do chapéu do velho. — Nada que não seja delicioso tocará os seus lábios.
— E eu poderia ter luvas verdes uorescentes e galochas amarelas em formato de sapo? — quis saber Coraline.
— Sapos, patos, rinocerontes e polvos. O que desejar. O mundo será novo a cada manhã. Se você car, vai ter tudo que quiser.
Coraline suspirou.
— Você não entende, não é? — disse ela. — Eu não quero ter tudo.
Ninguém quer. Não necessariamente. ue graça existiria em ter tudo que eu sempre quis? Assim, do nada, não teria o menor sentido . E depois?
— Não entendi — respondeu a voz sussurrada.
— É claro que você não entendeu — disse ela, levantando a pedra com um buraco no meio na altura do olho. — Você é só uma cópia malfeita do velho doido do andar de cima.
— Nem isso eu sou mais — disse a voz sussurrada e morta.
Um brilho, na altura do peito, emanava do casaco do homem. Pelo buraco da pedra, a luz cintilava como o azul e o branco de uma estrela.
Coraline desejou ter uma vara para cutucá-lo. Não queria nem chegar perto do homem sombrio do outro lado do quarto.
Coraline deu um passo na direção do homem, que então se desfez. Ratos pretos saltaram de dentro das mangas do casaco e de dentro do chapéu, uns vinte ou mais, olhos vermelhos brilhando no escuro. Grunhiram e sumiram.
O casaco utuou e caiu pesado no chão. O chapéu rolou para outro canto do quarto.
Coraline abriu e inspecionou o casaco do homem. Vazio, embora estivesse meio gorduroso. Não havia sinal da última bola de gude dentro dele. Ela examinou o quarto através do buraco da pedra e avistou algo que cintilava e se incendiava como uma estrela, perto do chão, no vão da porta. Estava sendo carregado nas patas dianteiras do ratão preto. Assim que Coraline olhou, o ratão se pôs a fugir.
Os outros ratos a observavam dos cantos do cômodo, enquanto ela corria atrás dele.
Os ratos podem ser mais velozes do que as pessoas, especialmente em distâncias menores. Mas um ratão preto segurando uma bola de gude com as patas dianteiras não é páreo para uma menina determinada (mesmo que ela seja pequena para sua idade). Os ratos pretos menores corriam por todos os lados, cruzando o caminho de Coraline, tentando distraí-la, mas ela os ignorava e se concentrava no rato com a bola de gude, se encaminhando para fora do apartamento pela porta de entrada.
Chegaram à escada do lado de fora da casa.
Coraline notou que a casa continuava a mudar, transformando-se em uma forma menos clara e mais achatada, mesmo quando ela avançava escada abaixo. Agora a casa se assemelhava à foto de uma casa, não à construção em si. Coraline desembestou pela escada atrás do rato, certa de que estava em vantagem. Ela corria muito rápido, tão rápido que, ao chegar ao último lance
da escada, percebeu que tinha torcido o pé, o que a fez escorregar e se estatelar no chão.
Seu joelho esquerdo estava arranhado e esfolado, e a palma de sua mão, a que usou para se apoiar na queda, tinha virado uma mistura de machucados e pedrinhas. Doía um pouco, e ainda doeria muito mais. Ela tirou as pedrinhas encravadas da palma da mão e se levantou rapidamente, sabendo que tinha perdido e que já era tarde demais, então desceu o último andar para chegar ao térreo.
Ela procurou pelo rato, mas ele já tinha sumido e levado com ele a bola de gude.
Sentia a mão arranhada latejar. O sangue que saía do joelho pingava pelo rasgo da perna de seu pijama. Foi tão grave quanto no verão em que sua mãe tirara as rodinhas de sua bicicleta. No entanto, naquela época de arranhões e cortes (seus joelhos amontoavam cicatrizes em cima de cicatrizes), sentiu como se tivesse conquistado algo. Estava aprendendo alguma coisa, fazendo algo que nunca soube como fazer. Agora o sentimento era de fracasso. Falhou com as crianças fantasmas. Falhou com seus pais. Falhou consigo mesma e com tudo o mais.
Ela fechou os olhos e desejou que a terra a engolisse.
Ouviu uma tosse.
Abriu os olhos e viu o rato. Ele estava deitado no caminhozinho de tijolos no pé da escada e parecia surpreso. Sua cabeça, por sinal, encontrava-se caída a uma distância considerável do restante do corpo. O bigode estava retesado, os olhos esbugalhados, e os dentes amarelados e a ados à mostra. Um colar de sangue fresco cintilava em seu pescoço.
Ao lado do rato decapitado, estava o gato preto. Com uma expressão arrogante, descansava uma das patas sobre a bolinha de gude cinza.
— Acho que eu cheguei a mencionar — começou o gato — que não gosto de ratos. Mas parece que você estava atrás desse aqui. Espero que não se importe com a minha intromissão.
— Eu acho… — disse Coraline, tentando recuperar o fôlego — . . que você falou… algo assim mesmo.
O gato tirou a pata de cima da bola de gude, que rolou em direção a Coraline. Ela pegou a bola. Uma última voz, urgente, sussurrou em sua cabeça.
— Ela mentiu para você. Ela nunca vai desistir de você, agora que está aqui. É tão improvável que desista de nós quanto que mude a própria natureza.
Os cabelos da nuca de Coraline caram arrepiados. Ela sabia que a voz da menina dizia a verdade. Guardou a bola de gude junto com as outras no bolso do roupão.
Agora ela tinha as três.
Tudo que precisava fazer era encontrar seus pais.
Percebeu que essa era a parte mais fácil. Sabia exatamente onde eles estavam. Se tivesse parado para pensar, saberia desde o começo. A outra mãe não era capaz de criar nada. Só invertia e transformava as coisas. A cornija da lareira da sala de visitas de sua casa cava vazia. Mas, sabendo disso, Coraline descobriu algo mais.
— A outra mãe não vai cumprir a promessa. Ela não vai nos libertar —
disse Coraline.
— É a cara dela fazer isso — admitiu o gato. — Como eu disse, não há garantias de que ela jogue limpo. — E então levantou a cabeça. — Ei… você viu aquilo?
— O quê?
— Olhe para trás — falou o gato.
A casa estava ainda mais achatada. Não se parecia mais com uma fotogra a. Agora parecia um desenho, um rabisco de uma casa tosca feita em carvão sobre papelão.
— Aconteça o que acontecer — disse Coraline —, obrigada por me ajudar com o rato. Acho que estou quase no nal, não estou? Você vai sumir na neblina, ou vai sei lá para onde, mas eu espero encontrar você de novo, em casa. Se ela me deixar sair daqui.
O pelo do gato estava todo arrepiado, e seu rabo tão armado quando um espanador.
— O que foi? — perguntou Coraline.
— Eles sumiram — respondeu o gato. — Não estão mais lá. As entradas e saídas desse lugar. Elas caram achatadas também.
— Isso é ruim?
O gato abaixou o rabo, sacolejando-o de um lado para outro, com raiva.
Soltou um chiado que saiu das profundezas da garganta. Caminhou em círculos até dar as costas para Coraline, então começou a andar para trás, com severidade, uma pata de cada vez, até empurrar a perna de Coraline. Ela abaixou a mão para afagá-lo e sentiu que o coração do bichano estava acelerado. Ele estava tremendo mais que vara verde.
— Vai car tudo bem — garantiu Coraline. — Vai dar tudo certo. Eu vou levar você comigo.
O gato não disse nada.
— Venha, gato — disse Coraline.
E deu um passo para trás para subir a escada. Mas o gato cou onde estava, parecia triste e, estranhamente, menor.
— Se o único caminho para sair daqui passa por ela — falou Coraline —, então vamos ter que passar por ela de qualquer maneira.
A menina caminhou em direção ao gato e o pegou no colo. O gato não se opôs. Ele só tremia. Ela apoiou uma das mãos no bumbum dele e deixou que ele repousasse as patas em seus ombros. O gato era pesado, mas não impossível de carregar. Ele lambeu a palma da mão de Coraline, de onde saía sangue do arranhão.
Coraline subiu a escada, um degrau de cada vez, em direção ao seu apartamento. Tinha consciência das bolas de gude tilintando em seu bolso, da pedra com um buraco no meio, do gato se aninhando em seu corpo.
Chegou à porta de entrada — agora só um rabisco de criança imitando uma porta — e a empurrou, na esperança de que sua mão atravessasse a porta e não tivesse nada atrás dela além de escuridão e estrelas dispersas.
Mas a porta se abriu e Coraline entrou.