Cuidar, Controlar, Curar: Ensaios Históricos sobre Saúde e Doença na América Latina e Caribe
Anemia, bruxas e vampiros: figuras para governar a colônia
Detalhe do quadro El Velorio de Francisco Oller, 1893. Coleção do
Museu de História, Antropologia e Arte da Universidade de Porto
Rico.
Anemia, bruxas e vampiros: figuras
para governar a colônia *
Benigno Trigo
Para constituir-se na autoridade de governo da emergente nação de Porto Rico antes da invasão dos Estados Unidos em 1898, um grupo de ‘letrados’ construiu o fantasma de um ‘Eu’ (self) nacional coerente e integrado com a exclusão de um fantasmagórico ‘Outro’
(por exemplo, o enfermo jíbaroN.T. 1 1 porto-riquenho). O leitor deve lembrar-se de que Porto Rico continuou como colônia espanhola até a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, em 1898, quando passou à condição de território destes. Um exame atento da obra das elites educadas de Porto Rico revela a complexidade da dinâmica entre os discursos do ‘Eu’ e do ‘Outro’ que sustentaram
esse ato de apoderamento ( N.T. 2 empowerment ).
Aqui, examino a relação, não apenas entre o discurso do ‘Eu’ do letrado e seu fantasmagórico ‘Outro’, como também entre o discurso do ‘Eu’ do letrado e os discursos de um ‘Eu’ concorrente articulados de forma similar pelas duas autoridades metropolitanas (espanhola,
primeiro, e estadunidense depois). 2 Esses discursos metropolitanos de ‘Eu’ articulavam-se em oposição a um corpo ‘negro’, ‘visível’
mesmo dentro do corpo do ‘letrado’. 3 Por razões de expediente político, os membros da elite privilegiada viram-se tanto aceitando como refinando essa oposição. Essa solução negociada, contudo, levaria a uma estratégia de deslocamento (displacement) motivada por um medo interiorizado de seus próprios corpos, medo este que é simultaneamente ocultado e revelado em alguns dos artefatos culturais produzidos entre 1880 e 1904 para construir a nação porto-riquenha.
Em resumo, mostrarei como a busca de poder por um grupo de ‘letrados’ leva ao desenvolvimento de um conjunto de dispositivos que, paradoxalmente, alimenta o medo da miscigenação. Para se distanciarem da ameaça que seus próprios corpos representavam para as autoridades coloniais locais, os membros desse grupo elaboraram um deslocamento que levou à representação do corpo ‘negro’ como um parasita contaminador que precisava ser eliminado, e à representação do corpo ‘branco’ da camponesa como um corpo tomado por uma doença, mas uma doença curável.
O corpo anêmico da camponesa aparece mais proeminentemente nos trabalhos literários e científicos de Salvador Brau, um sociólogo, e Francisco del Valle Atiles, um higienista, dois escritores
associados com a classe profissional dos reformistas liberais.4 Em minha análise de suas obras, espero mostrar como a figura da camponesa anêmica foi resultado de um ajuste significativo da figura de um fantasma anterior: o vadio (andarilho errante). A vadiagem e a condição associada de promiscuidade eram qualidades econômicas e morais atribuídas à população indígena da colônia pelos administradores coloniais locais. A vadiagem e a promiscuidade seriam determinadas por fatores ambientais e hereditários. Eram construtos dispostos pela autoridade colonial para ordenar e controlar a população colonial. Tais construtos tornaram-se um problema para o ‘letrado’ porque também se aplicavam a ele.
Na perspectiva metropolitana, a abolição da escravatura em 1873 tornou menos defensáveis os métodos violentos usados pelas autoridades coloniais para manter a ordem política e social, o que as levou a buscar um método indireto de controle. Os ‘letrados’ apresentaram, então, a saúde pública e a educação sanitária como dispositivos menos violentos de controle. Na perspectiva dos ‘letrados’, o cambiante clima político permitia contestar a figura do camponês vadio, substituindo-a por uma nova rede figurativa: um estado de enfermidade normativa. Essa rede, articulada primeiro, talvez, por Salvador Brau em 1882, modernizou as construções paradigmáticas da metrópole e foi usada contra os administradores locais. Ela incluía o parasita e a anêmica camponesa ‘branca’, e deslocava a ameaça da diferença e do perigo que seus próprios corpos representavam para a administração metropolitana. Com a figura do parasita, eles transferiam essa diferença para o corpo ‘negro’, construído como forma distinta de vida biológica. Com a figura da anemia, eles deslocaram o local do conflito para o corpo da camponesa. Esse corpo era uma zona de amortecimento que mantinha o corpo ‘branco’, viril do ‘letrado’ acima da disputa.
A análise dos construtos dessa elite educada será útil para se entender o papel desempenhado pelos representantes da nova medicina de laboratório, alguns dos quais entraram na ilha junto
com as forças militares invasoras dos Estados Unidos, em 1898. 5 A comparação do trabalho desses cientistas com o trabalho dos ‘letrados’ sugerirá a importância dos construtos da camponesa anêmica, e do parasita, como pontos de partida para as práticas de governo da nova autoridade metropolitana.
Construindo a vadiagem
Em Porto Rico, a década de 1880 foi marcada por tumulto político e social. Em uma perspectiva econômica, a superprodução mundial de açúcar levou a mudanças na economia porto-riquenha, que ainda dependia deste produto, mesmo depois da abolição da escravatura em 1873. O sistema agrícola porto-riquenho passou da produção de açúcar, que dependia do trabalho escravo, para a produção de café, que dependia de mão-de-obra livre. Junto com essas mudanças econômicas veio um movimento demográfico das cidades e planícies para as montanhas de Porto Rico, e uma concomitante fragmentação das unidades familiares (Picó, 1986). Esses movimentos foram acompanhados por uma deterioração na saúde pública que levou a um aumento da taxa de mortalidade entre os camponeses. Mas tal piora não se restringiu aos camponeses: as epidemias de febre amarela multiplicaram-se durante essa década, verificando-se uma a cada dois anos, matando, inclusive, dois
governadores espanhóis.6
Esses acontecimentos econômicos, demográficos e de saúde levaram ao ponto de conflito uma série de questões políticas entre as forças liberais progressistas dos profissionais ‘letrados’ (com afiliações às classes dos proprietários de terra), e os conservadores, que controlavam o governo colonial local. Esses dois grupos sociais disputaram o poder durante todo o século XIX, chegando finalmente a uma confrontação violenta em 1868, quando um levante liberal foi sumariamente esmagado pelas forças conservadoras do Estado colonial. Significativamente, contudo, ao final dessa década o partido liberal pró-autonomia estava mais radicalizado e mais forte. O governador-geral espanhol Palacios foi forçado a renunciar depois de sua fracassada tentativa de controlar os liberais, mais bem
organizados, por meio de uma política de repressão. 7 De fato, é opinião geral que as mudanças ocorridas nessa década prepararam o panorama político para o Estado autônomo, de curta vida, que viria a ser instituído em 1898.
Um debate público sobre educação tornou-se um momento crucial de apoderamento e definição contra uma autoridade colonial mal informada e pouco razoável. Em 1880, o governador-geral espanhol Eulogio Despujol argumentava que o maior obstáculo ao progresso de Porto Rico era a falta de famílias moralmente constituídas no interior. Mais ainda, argumentava ele, devido à então corrente mobilidade do camponês porto-riquenho e, mais importante ainda, devido à natureza dissoluta da camponesa porto-riquenha (cujo corpo era dominado por uma instintiva ”falta de restrição moral”), a educação seria uma solução para o problema:
Estou totalmente de acordo, em tese geral, com a conveniência
de estabelecer escolas rurais para meninas. [Estando]
completamente disseminada a população rural em choças
isoladas, sem nenhuma instrução religiosa e freio moral, sem
que, nem a eficácia do Sacramento, nem a sanção da Lei
venham a legitimar muitas uniões mais ou menos duradouras,
criadas exclusivamente sobre a base instável e repulsiva do
apetite sexual, pode-se dizer, na verdade, que nos campos de
Porto Rico a família não está moralmente constituída, sendo
este, talvez, o principal obstáculo para seu futuro progresso. É
fácil, pois, compreender a importância que teria inculcar na
mulher os conhecimentos primários da leitura e da escrita (...)
as noções de religião e de moral (...) mas, por efeito desse
mesmo relaxamento de costumes, o trânsito diário de crianças
muito precoces de ambos os sexos, de nove a doze anos, de
suas choças a uma escola distante, por caminhos extraviados,
seria hoje (...) ocasião de maior soma de males que destruiriam
ou, pelo menos, superariam os efeitos moralizadores do ensino
rural. (Despujol apud Brau, 1956:219-220)
O argumento de Despujol contra a educação pública pressupunha uma proximidade biológica entre o corpo ‘negro’ e o corpo do camponês porto-riquenho. Sugere essa proximidade, entre o corpo da camponesa e o corpo ‘negro’, em dois níveis distintos. Em um deles, a insinuação é de que, se pusesse os pés fora de casa, a camponesa iria ao encontro de um ‘mal’ não especificado. Os leitores do texto de Despujol saberiam como interpretar essa força maligna. O ‘isolamento’ dos camponeses, seus ‘cascos’ e seus ‘caminhos errantes’ juntavam-se para criar um estágio figurativo familiar e definiam o sentido do mal. O leitor imaginava a casa rodeada por um ambiente tropical denso e perigoso cuja vida vegetal, de acordo com o conhecimento científico contemporâneo, era equivalente à perigosa forma de vida do corpo ‘negro’ (Ferrer,
1881).8
Despujol sugere também que o corpo da camponesa porto-riquenha estaria biologicamente perto do corpo dos escravos recém-libertos. Para ele, a camponesa porto-riquenha era um estágio primitivo da Grande Cadeia do Ser. Referências a sua ‘falta de freio moral’, a sua ‘precocidade’ e a seu ‘apetite sexual’ tornavam-na mais próxima do animal predominantemente físico e irracional que do europeu pensante e moralmente constituído. De acordo com o discurso científico da época, isso a aproximava da ‘raça africana’, que também ocupava as faixas inferiores da escala evolucionária (Gilman, 1983). Como o dos escravos recém-libertos, o corpo da camponesa era visto como fisiologicamente condenado à promiscuidade, uma espécie de vadiagem sexual genética. Esse argumento biológico e ambiental, combinado com o precedente histórico estabelecido pela revolução de ex-escravos no Haiti, fez com que os governadores espanhóis, como Despujol, suspeitassem dos méritos da educação pública.
No argumento de Despujol encontra-se também implícita a repetição das antigas práticas repressivas e violentas para controle de uma população camponesa que, para ele, em última análise, estava fora da possibilidade de regeneração. Historicamente, uma versão distinta do argumento ambiental havia sido usada pelo Estado colonial militar para aumentar a produtividade por meio do controle do movimento. Refiro-me ao argumento ambiental brandido pelos administradores coloniais como Miguel de la Torre (1822-1837), Miguel López de Baños (1838-1841) e Juan de la Pezuela (1848-1851) para justificar um repressivo sistema de controle. Esses governadores-gerais usavam as alusões ao ambiente tropical excessivamente benigno da ilha encontradas nas histórias e relatos de viagem feitos no século XVIII para construir a imagem do camponês porto-riquenho vadio. Mais tarde, usariam essa figura para justificar a construção de um dispositivo (a ‘caderneta’), e de uma sacrossanta instituição (a ‘Junta de Vadiagem e Coabitação’), para supervisionar e disciplinar a conduta e o movimento do corpo
vadio. 9
Em 1873 esses métodos repressivos de disciplina e punição já eram considerados ineficazes pelo governo metropolitano. Após a abolição da escravatura em Porto Rico, as autoridades locais fizeram uma tentativa de restaurar a prática da ‘caderneta’, mas a idéia foi desaprovada pelo governo metropolitano. Bastante significativamente, o argumento usado pelo governo metropolitano espanhol contra o restabelecimento desse sistema foi que, como a escravidão, ele gerava um “estado social insustentável que levaria
ao amotinamento e sério conflito na ordem pública”.10 No mesmo documento, o governo metropolitano declarava que “[as] únicas coisas que podem ser permitidas na atual situação da ilha são medidas de policiamento e prevenção de incursões contra a ordem pública, ou práticas indiretas de governo e administração” (apud Brau, 1956:170).
A despeito dessa sugestão do governo metropolitano, as medidas repressivas ainda continuaram sendo uma ameaça durante o terceiro quarto do século XIX, brandidas ainda pelas autoridades locais e municipais (Picó, 1993). Na verdade, a negação categórica dos benefícios da educação pública feita por Despujol poderia ser entendida como exemplo disso. Sua descrição da camponesa porto-riquenha como promíscua e vadia sugeria aos ‘letrados’ um possível retorno a práticas repressivas do tipo implantado com o sistema da ‘caderneta’. Mais ainda, a proximidade entre o corpo ‘negro’ e o corpo da camponesa porto-riquenha pressuposta por Despujol há de ter sugerido aos ‘letrados’ que, aos olhos do governo colonial local, não havia qualquer distinção entre a promíscua ‘raça negra’, o camponês insubmisso e o criollo parvenu. Assim, devem ter receado que essas práticas violentas fossem usadas também contra eles. Finalmente, a posição irredutível da autoridade colonial sobre educação pública deu aos ‘letrados’ uma oportunidade de intervir no espírito das recomendações feitas pelo governo metropolitano.
A análise do ‘Letrado’
Em suas obras científicas, manuais de higiene, literatura naturalista e ensaios, ‘letrados’ como Atiles e Brau confrontaram o discurso da administração colonial com um discurso apenas ligeiramente modificado e com um conjunto de práticas disciplinares que fora revisado para adequar-se às conclusões das autoridades metropolitanas. Ao fazê-lo, autorizavam-se a si mesmos como um governo colonial mais legítimo e eficaz. A preocupação metropolitana com a produtividade, por exemplo, continuava a ocupar o centro do discurso emergente. O poderoso grupo dos ‘letrados’ pretendia aproveitar o excesso de energia desperdiçado em promiscuidade e jogatina. Agora, porém, os ‘letrados’ enfatizavam suas diferenças em relação à perigosa figura do corpo ‘negro’, e colocavam esta última no centro desses problemas correlatos.
O novo discurso modificava os atores centrais do drama colonial. Assim, o estado de vadiagem generalizada, verificada pela sacrolegal Junta de Vadiagem e Coabitação, foi substituído por um estado de enfermidade normativa, que eventualmente assumiria a forma de anemia tropical, ou uncinariose, e seria verificado pela médico-legal Junta de Saúde, chefiada por um higienista. Tal substituição dependia do novo conhecimento científico sobre o meio ambiente. O paradigma científico anterior, que via apenas um ambiente tropical benigno, foi substituído por uma versão científica mais nova dos trópicos como fonte de enfermidades. O novo discurso também alterava a prática de governo. Acompanhando a análise da administração metropolitana, a nova disciplina já não era ‘direta’. O conceito-chave passara a ser a mediação, e a educação sanitária tornara-se o novo dispositivo de controle.
Essa dupla agenda de acomodação ao decreto metropolitano e apoderamento dos ‘letrados’ levou Brau e Atiles a confrontar o perigo que representava sua diferença racial que percebia a si mesma com duas estratégias distintas. De um lado, eles se opuseram ao novo argumento ambiental apresentado por administradores locais como Despujol. Argumentaram que o clima tropical não levava inevitavelmente a uma raça de características
predominantemente ‘negras’. 11 Atiles argumentou que, na verdade, a ‘raça africana’ jamais havia dominado a ilha. Acompanhando a teoria de degeneração esboçada por Edward Long em seu History of Jamaica (1774), chegou a argumentar que a eventual esterilidade dos ex-escravos era coisa certa (Del Valle Atiles, 1887). Brau, um abolicionista, não previu abertamente o eventual desaparecimento dos ex-escravos, mas sugeriu que sua contribuição para a ‘raça crioula’ era ínfima, afirmando que os elementos orgânicos atribuídos à ‘raça européia’ eram os elementos predominantes na composição racial da nação porto-riquenha (Brau, 1956).
Em contrapartida, tanto Atiles como Brau faziam distinção entre o perigoso corpo ‘negro’ e uma inocente população camponesa ‘branca’, ou jíbaros. Essa distinção era sugerida comparando-se o corpo ‘negro’ do exescravo a uma doença tanto metafórica quanto distinta, enquanto o corpo branco dos camponeses era apresentado como uma inocente vítima da doença. A construção da doença como metáfora da ‘raça africana’ foi gradual. Brau deu o primeiro passo. Usou a doença como metáfora do precário estado da nação porto-riquenha.
A doença como metáfora 12
A contribuição de Brau para a reconfiguração da ameaça vital no corpo ‘branco’ do crioulo ou criollo foi a contestação direta da figura do camponês vadio. Apresentou essa contestação em sua memória The Working Classes (1882). Nesse texto seminal, Brau apresentou a questão das práticas repressivas das autoridades locais, questionando especificamente a prática da ‘caderneta’. Brau argumentou que a aparente vadiagem delinqüente do camponês porto-riquenho era, na verdade, conseqüência das estratégias disciplinares repressivas, ou excessos, da administração colonial.
Para Brau, o equivocado rótulo de vadiagem ocultava a realidade do abuso colonial. Referia-se a esse abuso como uma doença. Usando a metáfora do anatomista que diagnostica um problema social, Brau argumentava que o estado enfraquecido do jíbaro devia-se às condições de vida sob uma administração colonial repressora (Brau, 1956). Tais condições, argumentava ele, tornavam rebeldes os camponeses. Muito mais que as condições, porém, as práticas que visavam a eliminar a rebelião do camponês (prisão e exílio) agravavam o problema. Brau argumentava que essas práticas repressivas criavam espaços invisíveis, isolados e perigosos de confrontação, inacessíveis à administração colonial.
Além disso, a prisão e o exílio tinham o agravante de deixar as mulheres, as camponesas porto-riquenhas, sem supervisão (Brau, 1956, 1975). Junto com outros liberais reformistas, ele sugeria que essa falta de supervisão levava à mistura inter-racial (Brau, 1956). Assim, no centro do espaço invisível criado pelas políticas repressivas da administração colonial, Brau colocava o corpo abandonado da camponesa, cuja integridade estava ameaçada pela recém-adquirida mobilidade dos escravos libertos.
O centro desse espaço invisível foi, talvez, melhor descrito no conto naturalista de Brau, ‘¿Pecadora?’ (1887). Nesse conto, as naturezas miseráveis da classe dominante e das classes trabalhadoras combinam-se para determinar o destino de Cocola, uma camponesa que morre depois de ser estuprada por um jovem da classe superior. Ela é acusada de vadiagem pelas autoridades locais, e a estória conta a tentativa de um médico de recuperar sua memória apontando para o verdadeiro problema. Para tanto, o médico visita o interior desconhecido de Porto Rico, o espaço invisível, tanto para a
população urbana quanto para as autoridades coloniais 13. No centro desse espaço, o médico encontra a corrupção moral de figuras de autoridade, bem como um exemplo da causa fisiológica subjacente ao estado incivilizado do trabalhador porto-riquenho.
A cena central do conto é uma representação de vício e sexualidade desabrida em uma igreja onde estão sendo feitos os preparos para um enterro. A descrição da cena ressalta tanto a corrupção moral das figuras locais de autoridade municipal quanto a corrupção física dos camponeses. Enquanto a corrupção moral da autoridade municipal se revela no fato de tratar-se do funeral de uma concubina de uma autoridade do governo, a corrupção física dos camponeses é sugerida por referências à ubiqüidade dos corpos ‘negros’ na igreja. Todos os ‘negros’ da cena são representados como doentes, fracos e ignorantes. Seu movimento é representado como excessivo e inadequado, e isto os leva a ficarem perigosamente próximos dos membros ‘brancos’ da congregação. Os excessos em seus movimentos e os perigos de sua proximidade são sugeridos pela seleção e descrição de dois instrumentos que produzem a música estridente tocada durante o funeral. O primeiro é um bombardino, instrumento com forma de corneta, tradicionalmente associado aos
ritmos africanos e músicos ‘negros’.14 O segundo instrumento é um órgão, sendo que o organista fica à sombra de uma figura descrita como “alta, negra como tinta, quase descarnada e de fisionomia delinqüente” (Brau, 1975:207). Essas referências combinadas à irreverência, à delinqüência e, portanto, à ameaça do ubíquo corpo ‘negro’ são resumidas por Brau na imagem que encerra a passagem:
Ao contemplá-los, um observador pessimista teria podido
extremar o fel da sátira supondo que os vermes destruidores
desse bagaço humano que se chama cadáver não haviam
aguardado, desta vez, a decomposição da presa para dar pasto
a sua voracidade. (Brau, 1975:205)
A imagem compara os vadios corpos ‘negros’ da cena a vermes consumindo o cadáver. Com o uso que lhe é dado por Brau, a comparação amplia a metáfora da doença usada para representação de abuso da autoridade colonial, nela incluindo agora também o problema percebido da miscigenação. Um corpo camponês, primeiro enfraquecido e depois abandonado pela administração colonial, finalmente morre e se decompõe. Dado o contexto dessa passagem, fica razoavelmente claro que a decomposição é usada como metáfora para degeneração, ou para os efeitos da ‘raça africana’ sobre o camponês porto-riquenho abandonado. Assim, em sua obra, Brau sugere que os excessos da administração colonial criaram as condições que tornaram possível a degeneração da raça porto-riquenha. Ele sugere que essa degeneração foi resultado das práticas equivocadas de governo da administração local. A camponesa porto-riquenha caiu nas garras dos escravos recém-libertos apenas depois de estar permanentemente danificada por repetidos maus-tratos coloniais. Desse modo, Brau contesta a premissa de Despujol de que o corpo da camponesa porto-riquenha (e por extensão, o corpo do criollo) era geneticamente equivalente ao corpo do escravo.
A doença como metáfora para corpo ‘Negro’
Essa cena de degeneração inspirou Francisco Oller, um pintor portoriquenho e membro da classe dos ‘letrados’. Em seu quadro de 1893, El Velorio, Oller tomou a doença como metáfora para o corpo
‘negro’ (Fig. 1). A pintura divide-se em três espaços distintos, que discutiremos separadamente.
Fig. 1 - El Velorio, 1893, de Francisco Oller. Coleção do Museu de
História, Antropologia e Arte da Universidade de Porto Rico.
Fotografia de Jochi Melero em Francisco Oller: A Realist
Impressionist (Ponce, Museu de Arte de Ponce, 1983), p.144.
O primeiro espaço é dominado pela imagem de uma figura fraca, pobremente vestida e visualmente negra, e por uma criança morta. A pobreza da figura de pé é sugerida por roupas em frangalhos e por sua bengala, um objeto usado por Oller em seu retrato de um
mendigo em 1881 (Fig. 2). Em ambas as pinturas, Oller usou a bengala para significar pobreza e vadiagem.
Fig. 2 - Un Mendigo, 1881, de Francisco Oller. Coleção Privada do
Dr. Rafael V. M. Cestero. Fotografia de Jochi Melero em Francisco
Oller: A Realist Impressionist (Ponce, Museu de Arte de Ponce,
1983), p.171.
Duas coisas estabelecem um espaço comum entre a figura ‘negra’ vadia e a criança morta. A primeira delas é o fato de a figura ‘negra’ olhar diretamente para a criança; a segunda é o fato de, como a criança morta, ela estar totalmente alheia à movimentação que as cerca. Mais ainda, como a criança morta, ela parece congelada no tempo, ao contrário do restante das figuras, envolvidas em movimentação quase frenética. A imagem é poderosa. Ela liga a morte ao emaciado corpo ‘negro’, no que parece uma visita vinda diretamente do mundo subterrâneo. O sentimento de visita sacrílega é ainda mais enfatizado pelo escárnio de um crucifixo que fica ao alto, acima da figura ‘negra’, sugerindo uma nova e ímpia trindade.
O segundo espaço é definido por uma linha diagonal. É a linha de pessoas que vai da porta aberta, no centro, à direita, até a margem esquerda do quadro. As figuras nesse espaço são uma alegoria da degeneração. Essa alegoria, por seu lado, ordena terapeuticamente as figuras e controla sua energia.
O que de início parece uma mistura caótica de raças, gêneros e idades revela ao olhar mais atento uma ordem específica. Ela representa uma festiva procissão que inclui três grupos, cada um representando um diferente nível de vício e energia descontrolada. O grupo imediatamente à esquerda da figura de pé é composto por cantores, músicos e camponeses que bebem, pintados tanto de preto como de branco. Sua violência é sugerida pelo gesto do camponês ‘branco’ segurando sua machete. A esse grupo segue-se outro, com três figuras em um violento abraço, cuja força sexual é sugerida pelo álcool despejado sobre as cabeças de duas das figuras. No chão encontramos o último grupo, representando uma cena de destruição. Ele é composto por três crianças, duas pintadas como brancas e uma negra. A criança ‘negra’ é quase oculta pelo lixo que a cerca e por sua posição fetal invertida. Uma vez que é vista, porém, ela representa claramente a conseqüência final da linha serpentina de vício e miscigenação circunscrita pelo segundo espaço.
O terceiro espaço fica contido entre a porta aberta e a margem direita do quadro. Nele há um pequeno grupo de personagens, todas visualmente brancas, entre as quais duas figuras representam a autoridade colonial: um padre e um amedrontado e velho representante do Estado. Juntamente com três outras figuras ‘brancas’, eles cercam a camponesa ‘branca’, tentando inutilmente protegê-la da baderna. A sensação de violência iminente entre o segundo e terceiro espaços é sugerida por uma segunda figura que estende a mão para uma machete. O olhar dos homens no terceiro grupo enfatiza a violência que perpassa esses dois espaços. Eles olham por sobre a cena central do quadro, focalizando a cena do lado oposto. A posição das duas figuras da autoridade colonial é de especial importância aqui. Enquanto a mão do padre passa sem pegar o copo de vinho oferecido pela camponesa, o acovardado representante do Estado afasta-se dela. O movimento dessas três figuras sugere o abandono do corpo da camponesa por um Estado distraído e amedrontado e pela Igreja. Como a camponesa discutida na obra de Brau, essa figura está só e abandonada. Como a figura ‘negra’ no centro do quadro, ela está invisível, distanciada do grupo que a cerca, de pé numa espécie de vácuo, desligada, alheada e, mais importante, ignorada pelo que a cerca.
Em contrapartida, a direção do olhar dos homens do grupo enfatiza a direção do olhar da camponesa. Ela também está distraída. Fica claro que o copo que ela está a ponto de entregar ao padre logo irá estilhaçar-se no chão. Mas a sua distração é diferente da dos homens à sua volta. O que a distrai não é a natureza sacrílega ou violenta da cena que têm diante de si. Ao invés, ela sorri inocentemente, e dirige o olhar placidamente para um observador invisível, como se o convidasse – ele ou ela – a entrar. Na verdade, voltado, assim, para fora, o olhar da camponesa estabelece uma estrutura triangular invisível em que o observador desempenha um papel distinto. Seu olhar de boas-vindas desvia a atenção do observador da figura central ‘negra’ que ocupa o espaço ameaçador e inescapável onde, não fosse isto, o olhar do observador repousaria. Com o desvio do olhar do observador para o lado, um espaço paradoxal é criado entre as duas figuras. De um lado, surge um espaço comum, unindo-as e sugerindo a miscigenação como a causa oculta da morte da criança. De outro, porém, faz surgir também um espaço de diferenças entre a figura ‘negra’ vadia e a figura da camponesa.
Assim, o quadro toma a doença como metáfora para o corpo ‘negro’. Nele, a doença aparece na forma de degeneração racial, degeneração esta representada como uma criança ‘negra’, em posição fetal à margem do quadro e que resulta de uma linha de corpos em degeneração. Ela aparece, também, como uma voraz figura ‘negra’, vadia, de pé sobre a criança morta, que no quadro lhe é oferecida como vítima sacrifical a ser devorada. Nessa pintura, Oller desloca a ameaça da doença do corpo da camponesa, e do corpo do ‘letrado’ que observa e diagnostica a pintura. Ao invés, coloca a doença na figura ‘negra’.
A rede figurativa da Anemia
Enquanto Brau e Oller tomavam a doença como metáfora para desviar a perigosa diferença para longe do corpo ‘branco’ do ‘letrado’, e para investir poder em sua classe privilegiada, Francisco del Valle Atiles usava o construto da anemia para atingir os mesmos fins. Em sua memória científica de 1887, Atiles concorda com a representação do camponês porto-riquenha feita por Brau. Como Brau, Atiles argumenta que as autoridades coloniais cometeram um erro ao descrever o camponês como vadio e promíscuo. Como o sociólogo, Atiles oferece uma interpretação diferente da condição da população campesina de Porto Rico, apresentando-a, ao invés, como vítima de uma administração colonial que dela abusara, abandonando-a depois. Também como Brau, Atiles argumenta que a força excessiva usada pela administração colonial levou os camponeses para longe dos olhos, para as florestas de Porto Rico, onde ficaram invisíveis e doentes.
Ao contrário de Brau, contudo, Atiles falava dentro de um discurso clínico. Com esse discurso, ele transformou a nação figurativamente doente de Brau na visível e distinta doença da anemia tropical. A anemia foi um conveniente construto de doença para uma classe de ‘letrados’ preocupada com a questão da miscigenação. Em sua origem grega, ‘anemia’ significa, literalmente, ‘falta de sangue’, sendo, assim, uma figura útil para o interesse dos ‘letrados’ na perda de sangue ‘bom’ ou ‘puro’ (vermelho e ‘branco’) da camponesa.
Segundo o discurso higiênico sobre a anemia tropical, o sangue perdia-se principalmente por meio da contaminação ou extração por parasitas. Atiles invocava duas teorias distintas para construir a figura da camponesa anêmica. De um lado, fez referências à teoria da infecção parasítica, que afirma que a doença pode ser causada pela penetração de um agente vivo em um organismo saudável. Seguindo essa teoria, o médico cubano Juan Finlay sugeriu em 1882 que o mosquito Aedes aegypti era transmissor do parasita que causava a febre amarela. Manipulando a descoberta de Finlay em seu artigo de 1883 ‘Against miasma’, Atiles fez do parasita e do mosquito causas equivalentes da anemia:
Vivemos em um país cujo principal flagelo é o clima. Mas, em
parte, os climas podem ser modificados e em Porto Rico se
suportaria melhor o enervante calor tropical e suas alternâncias
com chuvas torrenciais, se não houvessem pântanos cujos
miasmas, especialmente à noite, voam como vampiros e
roubam traiçoeiramente o sangue e a vida dos habitantes de
nossos campos. Eliminemos os pântanos e o ar deixará de
infectar-se também com as emanações de tantos cadáveres
que sucumbem, dia após dia, vítimas do impaludismo;
eliminemos os pântanos e veremos desaparecer essa anemia
profunda que converte tantos camponeses, literalmente, em
inermes descarnados, inúteis à terra que os sustenta. (Del Valle
Atiles, 1883:8)
A fantástica e bem conhecida figura do vampiro serve a Atiles para reconciliar a teoria parasítica com a conflitante teoria miasmática, segundo a qual doenças, como a anemia, seriam causadas por vaporosas exalações de matéria orgânica em decomposição. A figura do vampiro era similar tanto ao parasita (não morto) como ao miasma (não vivo). Comparando o mosquito ao vampiro, Atiles sugere uma forma de vida peculiar. O mosquito nasce nos charcos e se alimenta nas águas e odores contaminados, saindo à noite. O mosquito satura-se com os vírus do pântano e injeta-o no sangue de organismos saudáveis, transformando-os, por meio da contaminação, em algo parecido com ele próprio. Mais ainda, Atiles sublinha a invisibilidade do mosquito que, como os vampiros, move-se invisível de lugar a lugar, fazendo sua troca de sangue e substituindo vida por seu próprio sangue ruim.
A descrição de Atiles de uma forma de vida invisível que troca vida por seu próprio sangue ruim sugere a ameaça de contaminação racial que informa seu discurso científico. Mas foi apenas com El Campesino Puertorriqueño (1887) que a associação dessa fantástica figura de corpo ‘negro’ tornou-se mais explícita. Nesse trabalho posterior, Atiles repetiu que a causa da condição anêmica do camponês porto-riquenho ocultavase nos pântanos do interior. Agora, porém, referiu-se especificamente a “uma população [que vive] vegetando (...) entre charcos e pântanos, sustentada com alimentos vegetais e bebendo água lamacenta” (Del Valle Atiles, 1887:46-47). Essa descrição de uma população diferente que sobrevive no ambiente contaminado do pântano era uma sutil referência à suposta resistência da ‘raça africana’ à anemia, e uma interpretação desta resistência para um propósito específico.
Atiles reconhecia que o jíbaro branco se reproduzia em ritmo acelerado, mas sugeria também que, caso a anemia seguisse seu curso desimpedida, a ‘raça branca’ corria o risco de ser dizimada. Pelo mesmo motivo, se a anemia não fosse controlada, a ‘raça africana’ floresceria (Del Valle Atiles, 1887). As conseqüências dessa oposição binária e racialmente determinada entre resistência e predisposição para anemia sugerem um paralelo entre a ‘raça africana’ e a figura do vampiro parasítico. A sugestão era que, como o agente parasítico, a ‘raça africana’ tinha algo a ganhar mantendo na colônia um ambiente insalubre, e poluindo o sangue ‘predominantemente branco’ do camponês porto-riquenho com seu ‘sangue inferior’.
Atiles elaborou essa teoria racista da doença descrevendo a predisposição da camponesa a hemorragias durante a menstruação e o parto. Ele representou um corpo feminino cujo sangue se esvaía com facilidade (Del Valle Atiles, 1887). A combinação de um corpo de camponesa, cujo sangue estava fora de controle, com um parasita invisível cuja sede de sangue privava de vida o corpo invadido era um perigo suficientemente iminente em 1887 para recomendar a destruição da ‘população de parasitas’ invasores. Atiles modificaria um pouco essa violenta recomendação mais tarde, mas não alteraria o espírito racista em que era vazada. Em seus inúmeros artigos sobre eugenia, Atiles enfatizaria a esterilização voluntária, a indução ao aborto e o aconselhamento matrimonial como formas de controle de uma população que continuava racialmente problemática em 1914 (Del Valle Atiles, 1914a, 1914b,
1917).15
Hoje, não pensamos na anemia como uma doença em si, ou por si, mas como uma condição variável causada por várias doenças. Na perspectiva da moderna historiografia médica, Atiles estava claramente errado em seu entendimento da anemia. Os médicos ingleses incorreram em ‘equívoco’ similar no caso da, hoje inexistente, clorose, uma doença comparável, em forma, à
anemia. 16 A convincente análise de Karl Figlio (1978) desse diagnóstico, contudo, ajuda-nos a repensar a interpretação de tais eventos como equívocos.
Figlio (1978) argumenta que a clorose não foi um equívoco, mas um bem-sucedido construto ideológico que serviu muito bem a dois propósitos historicamente circunscritos: ajudou a investir poder em um grupo emergente de profissionais médicos e a estabilizar a classe média, para onde ascendia esse grupo. Para o autor, esse construto da doença preservava uma ordem social burguesa desviando para um fantasma a atenção social das duras condições de trabalho que causavam inquietação. Como outras análises recentes do discurso médico, a de Figlio aponta a carga ideológica e a distinção histórica de construtos de doenças como a clorose.
A anemia funcionava de forma similar no discurso dos ‘letrados’. Também ela investia poder em uma classe de profissionais emergentes que se tornavam administradores eficazes de um corpo enfermo. Distintamente da clorose, porém, a anemia era explicitamente relacionada às más condições de trabalho de uma classe ‘branca’ inferior. Tal diferença pode ser explicada pelo fato de que, ao contrário dos médicos europeus, os ‘letrados’ não poderiam criticar diretamente a poderosa classe a que aspiravam substituir. Ao invés, desafiavam indiretamente as autoridades espanholas locais apresentando-se como representantes de uma classe social vitimizada. Somente um desafio indireto a essas autoridades locais justificaria que as autoridades metropolitanas transferissem poder aos ‘letrados’.
Mas há outra diferença importante entre o discurso do ‘letrado’ sobre anemia e o discurso europeu sobre clorose. A distinção está no componente racial já descrito. Para um higienista profissional, como Atiles, a anemia funcionava como um dispositivo que deslocava ainda mais o problema que a administração colonial originalmente percebia como residente no corpo criollo. A anemia deslocava a diferença representada pelo corpo ‘negro’ do escravo recém-liberto para longe daqueles da mesma raça que os ‘letrados’, para uma doença distinta, e para um corpo agora definido como uma forma de vida totalmente diferente. O deslocamento permitia uma transferência segura de poder para as recém-higienizadas mãos das elites educadas locais, cujo propósito era continuar a manter a diferença em xeque, longe de seus próprios corpos.
Apropriações dos ‘Letrados’
Poder-se-ia defender a tese de que os ‘letrados’ usavam duas estratégias correlatas para investirem-se de poder. Artigos médicos como ‘Against miasma’ eram espaços onde figuras do discurso popular eram, primeiro ensaiadas e, depois, apropriadas como conceitos ‘médicos’. Nessas obras, Atiles apropriou-se de imagens populares assustadoras, como o vampiro, para levar a população a respeitar, por medo, uma disciplina e uma educação higiênicas. As figuras análogas do parasita e do miasma eram resultados dessas apropriações. Uma segunda estratégia usada pela classe profissional dos ‘letrados’ para investir-se de poder foi o deslocamento da diferença para dois outros corpos: um corpo ‘negro’ e o corpo da camponesa. Tenho argumentado que, nas mãos dos ‘letrados’, o itinerário da doença, da forma metafórica para a forma mais distinta da anemia, foi uma indicação desse deslocamento da diferença para longe de seus próprios corpos, para o corpo dos elementos da ‘raça africana’. Sua construção de um corpo anêmico para a camponesa era parte da mesma estratégia, pela qual o espaço contestado deixava de ser o corpo masculino ‘branco’ do assim chamado criollo, desviando-se para o corpo da camponesa.
Como as figuras da camponesa anêmica e do vampiro parasítico, a figura da parteira também servia para investir de poder a classe pro-fissional dos ‘letrados’. Como no caso daquelas figuras, gênero e raça eram sinais da diferença deslocados para outro corpo distante do corpo do criollo.
A parteira era a versão feminina urbana do corpo ‘negro’ do escravo recém-liberto. Ela aparece proeminentemente na distopia ‘La comadre que medra’ uma estória publicada anonimamente, mas cujo tom irônico e conteúdo social revelam claramente que é obra
de Atiles.17 A cena é um barraco da capital de Porto Rico. No centro da estória Atiles coloca a parteira, uma ex-escrava ‘negra’ que vive às custas de sua antiga dona, dependendo dos bordados da mulher ‘branca’ para seu sustento. Quando descobre que a mulher ‘branca’ está grávida, a parteira imagina um esquema para abortar sub-
repticiamente o feto, a quem vê como parasita concorrente. 18 Seu esquema é semelhante ao comportamento do vampiro parasítico. Na estória, a parteira ‘negra’ faz a mulher ‘branca’ beber uma variedade de poções virulentas que lhe provocam uma hemorragia no momento do parto. Assim, a parteira realiza uma troca de fluidos vitais similar à troca feita pelos parasitas: ela substitui vida (associada por Atiles ao nascituro e a seu ‘bom’ sangue branco) por sua mistura venenosa e provoca a morte da mulher ‘branca’. Como o vampiro, a parteira floresce às custas da vida, representada pelo recém-nascido.
Uma análise mais atenta da ação da parteira revela que ela não se limita à troca mortal de fluidos diferentes. A história pode também ser interpretada como representação da apropriação mortal de conhecimento médico ultrapassado por uma curandeira astuta,
como se sugere na cena final da história. 19
A parteira, com umas tesouras manchadas penduradas a um
cinto que cingia sua esquálida figura, cortou o cordão umbilical,
digo, la vinse, do qual deixou escorrer ‘bastante’ sangue ‘negro’
e ‘ruim’ e em seguida o ‘amarrou’ com a seda encarnada, cor
imprescindível, que havia sacado de seu próprio peito; mas...
tomou um toco de vela aceso, aproximou-o da extremidade do
cordão atado e – que barbárie! – queimou-o... (Del Valle Atiles,
1883:121)
A passagem representa a simulação pela parteira de um discurso e uma prática médicos anteriores. De um lado, Atiles ridiculariza o uso pela parteira de um termo ‘técnico’ para referir-se ao cordão umbilical. O uso, pela parteira, do termo ‘vinse’ imita um jargão excessivamente técnico que era marca registrada dos praticantes
locais da medicina a quem Atiles havia criticado anteriormente. 20 De outro, Atiles critica a sangria antihigiênica da parteira, que finalmente leva à morte da criança. Assim, a parteira representa não apenas a diferença racial, como também um conhecimento médico questionável que diverge da escola dos higienistas que Atiles
representava.21
Mas, se critica indiretamente uma medicina ultrapassada por lhe faltar bom senso, Atiles deixa claro que isto não era tão perigoso quanto a total insensatez da medicina da parteira. Junta-se a outros ‘letrados’, como Brau, acusando de bruxaria a prática médica local. Atiles e Brau descontextualizaram e ridicularizaram conceitos usados pelos médicos práticos locais para descrever doenças. Eles destacam com aspas termos como ‘ar’ para caracterizar a prática
médica indígena como mal informada e, em última análise, fatal.22 Ironicamente, ao acusar a prática médica local de bruxaria, tanto Atiles como Brau ensaiaram uma antiga estratégia de ordem e rejeição já contida no conceito de ‘ar’. Mary Douglas descreve essa prática quando argumenta que, dentro de uma comunidade, acusações de bruxaria podem servir para preservar uma ordem social. Durante um período de instabilidade social, aponta ela, uma acusação de ameaça oculta e difusa pode resolver dilemas sociais, deslocando a legitimidade para novos padrões (Douglas, 1990:85). O ‘ar’ é um dos exemplos de ameaça tradicionalmente usada para disciplinar e manter determinada ordem social. Ele é usado em toda a América espanhola para significar uma doença causada por bruxaria. A forma que toma na Meso-América é particularmente interessante no contexto de sua apropriação por ‘letrados’ como
Atiles. 23 Em uma comunidade zapoteca do México, o termo tem conotação de uma forma de vida que não é totalmente diferente da do vampiro.
Enquanto aigre puesto é imposto por humanos através de
técnicas de magia negra, aigre de hora é uma especialidade de
vários seres sobrenaturais que são perigosos à noite, durante
certas horas de dias especiais do ano. Os seres que mais
infligem aigre de hora são conhecidos como brujos de lumbre,
ou ‘bruxos do fogo’. Assim são chamados porque costumam
voar através do céu como bolas de fogo... De acordo com
alguns informantes, eles são a contraparte espiritual de
pessoas vivas, reais da cidade que têm o poder de transformar-
se assumindo este outro estado de ser... Coletivamente, eles
são chamados ‘a guarda’, que é uma referência à crença de
que à noite, quando a autoridade civil não está funcionando...
os bruxos de fogo entram em serviço para guardar a aldeia.
(Kearney, 1972:49)
Ao acusar a parteira de bruxaria, Atiles simula as funções de policiamento e disciplina do ‘aigre’ zapoteca.
E no entanto, Atiles queria, claramente, se distanciar de tais analogias. A razão de seu escárnio da imitação de conhecimento médico pela parteira era sugerir aos leitores que o conhecimento higienista era distinto das práticas simuladas pela parteira – e mais verdadeiros. Ao mesmo tempo, higienistas como Atiles usavam o registro educado da literatura para se distanciar dos engodos de uma medicina ultrapassada e cada vez mais rara, e da medicina popular. Ao fazê-lo, procuravam criar, e tomar, um campo intermediário culto, a partir do qual pretendiam levar o conhecimento higienista para o próprio núcleo da família porto-riquenha.
No entanto, estórias naturalistas como ‘La comadre que medra’ e artigos médicos como ‘Contra los miasmas’ foram também espaços onde figuras do discurso popular eram primeiro ensaiadas e depois apropriadas em conceitos médicos. Nessas obras, Atiles apropriou-se de imagens populares ameaçadoras como o vampiro, ou a bruxa, e de dispositivos tradicionais de ordem e rejeição como o conceito de ‘ar’ para amedrontar a população, levando-a a cumprir regras higiênicas de disciplina e educação. As figuras análogas, mas clínicas, do parasita e do miasma eram resultados dessa apropriação. Ironicamente, tais estratégias de apropriação levaram o higienista a um ponto incomodamente próximo da figura da parteira dissimulada ridicularizada por Atiles. As implicações dessa coincidência não passariam despercebidas pela próxima classe de médicos a lutar por poder na ilha.
Vampiros ao microscópio
Em 1898, mal se completara um ano da invasão de Porto Rico, o doutor Bailey K. Ashford, um tenente do Exército dos Estados Unidos e representante de uma nova medicina de laboratório (um discurso já adotado em alguns círculos médicos de Porto Rico), descreveu o trabalho dos higienistas, como Atiles, como “um retrato fantástico de sangue”. Ele afirmava haver descoberto a verdadeira causa da anemia: “não o clima, nem a comida, nem falta de higiene, nem malária, nada desse tipo, mas um verme – um verme
intestinal!” (Ashford, 1934:5).24 O olhar de Ashford havia se afastado do ‘fantástico retrato de sangue’ e se fixado, ao invés, nas fezes dos camponeses porto-riquenhos, onde descobrira o Necator americanus, ou seja, a versão americana da lombriga do Velho
Mundo ( 25 Ancylostoma duodenale ), a causa da ancilostomíase.
O novo discurso do laboratório, contudo, apropriou-se da rede de imagens em torno do vampiro parasítico de Atiles, continuando a usá-la como dispositivo controlador e instilador de medo. Essa dupla apropriação explica por que, apesar do fato de o Necator americanus ser uma versão ‘desdentada’ de uma lombriga do Velho Mundo, ele era ‘visto’ pelos novos médicos de laboratório como um parasita que chupava o sangue com sua ‘boca cheia de dentes e ganchos’ (Quevedo Báez, 1904). Mesmo depois que esse ‘equívoco’ foi corrigido, a figura do verme era bem representada dentro da rede de associações já construída pelos higienistas para amedrontar a população, fazendo-a disciplinar-se.
Diariamente, mostra-se ao grupo de solicitantes que vêm ao
Dispensário um número de vermes dizendo-lhes que provêm de
outros indivíduos enfermos como eles, convidando-os a
confirmar nossa afirmativa procurando vermes quando o
remédio que lhe demos fizer efeito. Depois de uma curta
explicação sobre o que é a doença, dizemos como esses
parasitas produzem uns ovinhos dos quais saem outros
vermes. Que esses ovinhos se desenvolvem à sombra dos
cafezais e dos bananais; nas águas paradas e no lodo, onde
logo pululam esses pequeníssimos vermes. Que eles atacam o
pé descalço do camponês, produzindo ulcerações, e que
repetidos ataques de ulcerações causam anemia. Advertimos
que a propagação da enfermidade se deve à contaminação do
solo pelas fezes e aconselhamos que nunca as depositem em
campo aberto. (Ashford, 1905:123)26
Seguindo as lições dos ‘letrados’, os novos médicos atemorizavam os camponeses mostrando-lhes os agentes, de outra forma invisíveis, que causavam seu estado crítico. Estranhamente, fazendo-nos lembrar da retórica do discurso colonial com que se engajou Brau, o novo discurso metropolitano da medicina de laboratório reinvestiu na figura do camponês a responsabilidade por seu estado enfermo. Mais importante, talvez, ele reinvestiu na figura do camponês os sinais da diferença racial que os ‘letrados’ tanto haviam se esforçado para deslocar. A vadiagem foi medicalizada em uma série de sintomas, como fraqueza constitucional, ou indolência. Mais ainda, tornou-se intrínseca aos camponeses, embora dessa vez viesse na forma de enxames de parasitas dentro de seus corpos. Se os parasitas foram uma metáfora para o corpo ‘negro’ dos membros da ‘raça africana’, o microscópio ajudou a levar o corpo ‘branco’ do camponês mais perto que nunca dessa perigosa ‘raça’. Contudo, em um significativo distanciamento das práticas disciplinadoras do antigo regime colonial, os administradores da nova metrópole norte-americana ensinavam os camponeses a se disciplinarem. O autotratamento tornava possíveis as alternativas de autonomia política parcial e auto-administração, mas dependia tanto da incorporação da doença quanto de intermitente intervenção
externa. 27
Conclusão
Está claro que, para poder oferecer uma alternativa à explicação fatalista da metrópole para a situação colonial, ‘letrados’ como Atiles e Brau engajaram-se em uma estratégia contestadora melhor descrita por Stepan e Gilman (1991) como canibalização. Os ‘letrados’ responderam com sucesso ao discurso determinista europeu que, por definição, colocava suas próprias questões em um registro moral e intelectualmente inferior ao dos cientistas europeus. Mais ainda, não apenas conseguiram com suas tentativas minar as conclusões fatalistas desse discurso, como fizeram-no sem questionar diretamente sua validade. Essa estratégia indireta tornou possível o apoderamento desse grupo. A estratégia pode ser decomposta em várias partes. Primeiro, eles incorporaram uma versão da teoria de degeneração racialmente determinada que aquietava os medos dos administradores espanhóis. Segundo, deslocaram a ameaça da diferença representada por seus próprios corpos para um corpo ‘negro’. Esse deslocamento exigiu um conjunto diferente de estratégias que os ‘letrados’ articularam e praticaram, cuidando da mulher camponesa e disciplinando violentamente os membros da ‘raça africana’.
A canibalização dos ‘letrados’, contudo, não se deteve em sua apropriação e adaptação do discurso científico europeu. Usando estratégias e figuras do discurso popular e da prática médica local, os ‘letrados’ construíram uma história de horror sobre vampiros e vítimas inocentes que justificavam suas estratégias de ‘cuidado’ e castigo. Essa ficção foi essencial para que a classe dos ‘letrados’ se investisse de poder e se autodefinisse diante dos três principais agentes poderosos que enfrentavam: um modelo científico europeu que não explicava sua realidade tal como era por ela percebida, uma administração espanhola que não lhe permitia progredir social e politicamente, e uma prática médica local que oferecia uma alternativa obviamente inteligente e atraente à sua própria prática.
Mas essa ficção foi crítica também porque definiu um estado de crise normativa, ou ruptura iminente, que justificava sua constante administração ou vigilância, sem exigir nem medidas repressivas contra o jíbaro ‘branco’, nem uma transformação radical da realidade colonial da qual os ‘letrados’ eram também parte. Essa história de horror resultou na legitimação de um administrador moderno, um médico, colocado no antípoda temporal de um país incivilizado, povoado de corpos inocentes e vampiros. Resultou também na popularização das lições de autoridade. A vigilância tornou-se o dogma central de um processo autotélico de autogoverno e reforma liberal, melhor articulado pelo novo discurso metropolitano, paradoxalmente, às custas da recém-adquirida
autonomia dos ‘letrados’. 28
No incessante vai-e-vem dessas configurações, há momentos em que essas imagens parecem revelar com particular clareza as construções e exclusões que procuram ocultar. Uma dessas imagens é a pintura de Oller, outra é uma fotografia de Ashford, que chegara a Porto Rico como tenente do Exército dos Estados Unidos durante a guerra hispanoamericana. A fotografia foi tirada em 1904, ano em que foi fundada a Comissão da Anemia. Ela aparece na autobiografia de Ashford (1934), onde ele a usa para ilustrar a cuidadosa intervenção da medicina de laboratório no corpo do jíbaro
porto-riquenho (Fig. 3). A foto mostra Ashford em seu laboratório, rodeado pelos instrumentos de seu ofício (um microscópio, um disco Petri e um frasco cheio de líquido), examinando a orelha de um rapaz de aspecto desamparado.
Fig. 3 - "Dr. Ashford Taking Blood Specimen from an Anemic Puerto
Rican Boy, 1904" Em Bailey K. Ashford, A Soldier in Science: the
autobiography of Bailey K Ashford (Nova Iorque, Williams Morrow,
1934), p.100
Na legenda sob a fotografia lê-se: “Dr. Ashford tirando uma amostra de sangue de um anêmico rapaz porto-riquenho”, o que sugere que a expressão de sofrimento no rosto do rapaz é, na verdade, um sinal de sua doença. Conquanto Ashford ocupe um lugar central na fotografia, seu efêmero uniforme branco e seu rosto fora de foco sugerem que o microscópio, o disco Petri, e o rosto do rapaz são os elementos centrais da composição. A figura do médico parece fundir-se com o fundo, sugerindo a natureza não intervencionista de seu gesto médico.
E, no entanto, o relato do próprio Ashford sobre sua prática entre os camponeses sugere uma qualidade muito diferente para sua intervenção. Se lermos esta fotografia tendo em mente o relatório médico de Ashford (1934) de suas interações com os camponeses anêmicos, surge uma interpretação diferente daquela sugerida na autobiografia. O relatório médico de Ashford torna razoavelmente evidente que o rapaz acaba de ser submetido a uma intervenção desfiguradora.
A presença do disco Petri sugere que o médico está cultivando uma amostra de parasitas em um caldo de cultura. A proximidade do microscópio em relação ao disco Petri sugere que o médico e seu paciente examinaram a cultura e que o médio explicou ao rapaz que ele é portador dos vermes que acaba de ver ao microscópio. A expressão atemorizada do rapaz sugere uma reação provável à ficção do médico e explica sua submissão voluntária à intervenção de Ashford. Sugere também a dor sentida pelo rapaz submetido à prática invasiva do médico.
A fotografia aparece, então, como um registro irônico da prática médica vampírica. Não apenas mostra o médico extraindo dolorosamente sangue do rapaz para novos exames, como também substitui o conhecimento do rapaz sobre si mesmo, e a interpretação do observador sobre a expressão do rapaz, por uma história de horror sobre a invasão de ladrões de corpos.
A fotografia é, ainda, uma tentativa de apoderamento do médico (seu conhecimento e sua prática), ao mesmo tempo que o faz desaparecer. É uma declaração em que enganosamente se auto-apaga e que visa a investir de poder, não tanto a Ashford, mas ao discurso do ‘cuidado’ que ele representa. Na atualidade, esse discurso continua intensamente invasivo, e seu poder é obtido ao preço de fazer o rapaz ter medo de si mesmo, tornando-o um Outro para si mesmo.
Notas
1 Tomo de empréstimo a Angel Rama (1984) o termo ‘letrado’. Ele o usa para descrever não apenas uma classe de intelectuais cultos, mas também um tipo particular de consciência colonizada que aceita a arbitrariedade da ligação e, portanto, a ruptura implícita entre signos e referenciais.
2 O pensamento crítico recente sobre a nação porto-riquenha enfatizou a interdependência entre o discurso do Eu e a construção do Outro. Mas essas críticas culturais não concordam quanto ao tipo de representação mental que foi construída para investir de poder a classe governante emergente. José Luis González (1979) afirma que sua classe intelectual construiu a distopia de um organismo social enfermo que necessitava de regeneração, e Angel G. Quintero Rivera (1988) defende a tese da utopia de um organismo social intrinsecamente harmônico e saudável que necessita apenas de alguma orientação. Essas aparentes diferenças, contudo, podem ser reconciliadas. Tanto Quintero Rivera como González fazem alusões a um campo figurativo comum a partir do qual a nação pode ser representada como acometida de um mal ‘negro’ emergem desse campo comum figurativo como versões de um Outro, conjurado para autorizar a figura de um Eu nacional. Ainda que essas análises expliquem parcialmente a construção de uma nação pelos ‘letrados’, isto não é o suficiente porque não conseguem interpretar a força desfiguradora internalizada no discurso do ‘letrado’ sobre o Eu. Neste ensaio tento fazer precisamente isso, indo além da descrição da inter-relação entre a figura utópica de um Eu porto-riquenho harmonioso e a figura distópica de um Outro porto-riquenho enfermo. Coloquei essas figuras, ao invés, contra as figuras concorrentes de Eu e Outro que foram construídas pelas forças metropolitanas, retornando, assim, sua complexidade para a autoconfiguração do ‘letrado’ como parte de uma nação em perpétua crise.
3 Aqui, referências à cor de pele aparecem entre aspas porque as utilizo como marcas discursivas de uma diferença racial, e não como uma característica física. A cor não é diferente dos dentes do parasita ‘vistos’ pelos ‘letrados’ locais, como se descreve ao final deste ensaio. As aspas pretendem chamar a atenção para (e colocar em discussão) essa forma distinta, mas generalizada, de ordenar e governar corpos. Devo minha compreensão de cor e raça a Melbourne Tapper, que argumenta convincentemente que “raça e etnia são sempre práticas discursivas”. Minha análise da anemia também deve muito à afirmativa de Tapper de que as doenças como a anemia são práticas discursivas da antropologia e da ciência médica, e são usadas com o fim de fazer a distinção entre duas raças (Tapper, 1995:178).
4 Ambos publicaram em periódicos liberais (El Asimilista, La Revista Puertorriqueña) e fizeram parte do grupo liberal de intelectuais que não apenas se reunia na biblioteca de José González Font, como também publicou numerosas obras em sua gráfica. Ver a introdução de Fernández Méndez às Disquisiciones Sociológicas (Brau, 1956:79-80; Quintero Rivera, 1988:98). Quatro trabalhos têm maior importância aqui. Dois são memórias científicas sobre o camponês porto-riquenho que receberam prêmios dados pelo Ateneo Puertorriqueño: Francisco del Valle Atiles, El Campesino Puertorriqueño (1887), e Salvador Brau, ‘Las clases jornaleras’, originalmente publicado em 1882 e depois incluído nas Disquisiciones Sociológicas (1956). Os dois outros, ‘La comadre que medra’ (1883), de Atiles, e ‘¿Pecadora?’ (1887), de Brau, são obras literárias. Ambos são considerados como precursores da mais importante obra naturalista de Porto Rico, La Charca, publicada em 1896 pelo médico-escritor Manuel Zeno Gandía.
5 Tomo o termo ‘medicina de laboratório’ de empréstimo a Warwick Anderson (1992), que o usa para significar o tipo de medicina que era praticada principalmente em laboratório, em oposição à prática médica que se centrava no consultório. A ênfase foucaultiana de Anderson na ‘medicina de laboratório’, em vez de nas mudanças no objeto da análise científica (como no termo ‘medicina tropical’), coloca apropriadamente em primeiro plano a importância da prática médica.
6 A febre amarela matou os governadores-gerais Vega Inclán e José Gamir, em 1884 e 1898, respectivamente.
7 Ver a introdução de Fernández Méndez a Disquisiciones Sociológicas (Brau, 1956).
8 Gabriel Ferrer (1847-1900) foi um influente médico-escritor reformista liberal cujas idéias refletiam claramente os lugares-comuns científicos da época e cuja obra sobre a mulher porto-riquenha influenciou os trabalhos tanto de Atiles como de Brau.
9 O trabalhador era forçado a levar consigo uma caderneta, inspirada no modelo do livret napoleônico, que tinha de ser regularmente apresentada à inspeção das autoridades (Picó, 1993). As obras citadas repetidas vezes para construir a figura do camponês porto-riquenho como vadio eram, principalmente, a Historia de Puerto Rico, de Fray Iñigo Abad, e a Memória apresentada por Alejandro O’Reylly, em 1765, ao governo espanhol.
10 Boletín oficial del Ministerio de Ultramar, 1874, citado por Brau, ‘Las clases jornaleras’ (Brau, 1956).
11 Este argumento se baseava nos escritos científicos norte-americanos sobre degeneração após a Guerra Civil. Ver Gilman, 1983.
12 Tomo este título de empréstimo à sugestiva obra de Susan Sontag.
13 De forma bastante previsível, essa invisibilidade é explicada no romance como resultado da irresponsabilidade das autoridades locais, que abandonaram todas as tentativas de modernizar a rede de comunicações que ligava as pequenas comunidades da ilha.
14 Ver a análise de Quintero Rivera (1988) sobre o estudo de música popular de Brau.
15 Em sua declaração mais reveladora sobre a questão racial, Atiles ‘concede’ que mesmo a inferior ‘raça negra’ tem algo a oferecer para o futuro da nação porto-riquenha, e argumenta que “os povos compostos por raças inferiores, ineptas, decadentes (...) são incompatíveis com a atividade física e mental que a lei do progresso impõe e, por conseguinte, são incompatíveis com o próprio progresso” (Del Valle Atiles, 1914c: 73).
16 A clorose deu forma médica à preocupação com a supressão da irregularidade da menstruação devida ao super-refinamento, e era demonstrada por uma perda da cor natural (daí sua etimologia grega, literalmente, ‘tornar verde’).
17 Atiles escreveu e publicou diversos contos em revistas e jornais literários como La Ilustración Puertorriqueña, Revista Puertorriqueña e Puerto Rico Ilustrado. Alguns desses contos foram mais tarde reunidos em várias antologias de contos publicados em Porto Rico.
18 Atiles não entendia o feto branco apenas como uma criança que ainda iria nascer, mas imaginou-o também como representação das origens da nação porto-riquenha. Isso tornava esse aborto duplamente criminoso, e fazia também criminoso o comportamento ‘parasítico’ da parteira.
19 A ‘perigosa’ apropriação pela parteira de uma linguagem técnica e incompreensível é ridicularizada em ‘La médica’, outro conto de Atiles sobre a mesma figura, publicado em 1892 em Ilustración Puertorriqueña.
20 Pelo menos, essa era a intenção de Atiles ao descrevê-lo como um discurso desnecessariamente ‘duro’ na primeira página do primeiro volume de sua publicação de 1883, La Salud, que tinha o sugestivo subtítulo Semanario de higiene al alcance de todos.
21 Manuel Alonso era um dos membros desse grupo de higienistas. Foi, também, um dos líderes da geração de ‘letrados’ que introduziu a figura do camponês enfermo em sua coletânea de contos intitulada El Jíbaro, publicada em 1849. Uma descrição sucinta desse grupo emergente de médicos e suas diferenças em relação à prática médica popular e local pode ser vista em Biografía de Francisco J. Hernández, doctor en medicina y cirugía, de Atiles (1885).
22 Tanto em ‘¿Pecadora?’ como em ‘La comadre que medra’, o narrador ridiculariza a descrição que a parteira faz da doença como ‘ar com sangue’. Ver Brau, 1975; e Atiles, 1883.
23 Para uma descrição detalhada dos significados de ‘aire’ (ar) na literatura antropológica, ver Kearney (1972) e Adams & Rubel (1964).
24 Como exemplo do mesmo laboratório médico antecipando-se à invasão dos Estados Unidos, ver Coll Y Toste, 1895.
25 A ancilostomíase é uma doença causada pela perda de sangue no intestino pequeno. Causa anemia, constipação e diarréia.
26 Ver também Stahl, 1905.
27 Uma importante conseqüência dessa virada qualitativa nas estratégias disciplinadoras seria o surgimento de uma divisão dentro do grupo estabelecido de ‘letrados’. O grupo dividiu-se entre médicos que acreditavam em um tratamento baseado em intervenção estratégica (os quais começaram uma campanha para construção em todo o interior de locais de microgerenciamento e autocontrole chamados acampamentos de anemia), e outros que continuavam a suspeitar de tais práticas. Estes preferiram, ao invés, continuar seus esforços pela construção de uma forma menos difusa de controle e disciplina. Por restrições de espaço, contudo, não me será possível aqui desenvolver as implicações dessa divisão, o que terei de deixar para uma data posterior.
28 A crise representada pelo estado anêmico da camponesa porto-riquenha é apenas uma versão da ordenação paradoxal de um mundo, que o constrói como heterogêneo. De fato, a percepção de uma crise é a ficção na qual se baseia a autoridade. A construção de uma crise investe poder: ela cria a necessidade de um mediador, ou moderador, que possa posicionar-se no espaço aberto pela ruptura. Mas uma crise também desinveste poder. Ela superdetermina a figura de um cidadão naturalizado. Para uma discussão sobre cidadania nessa direção, ver Anderson (1992), Quintero Rivera (1988) e Ramos (1996).
Referências bibliográficas
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* Publicado originalmente como capítulo 3 de TRIGO, B. Subjects of Crisis: race and gender as disease in Latin America. Hanover: Wesleyan University Press, 2000. Tradução de Paulo M. Garchet.
N.T.1 Jíbaro, figura tradicional do camponês pobre de Porto Rico. Termo cheio de conotações de ingenuidade, simplicidade e integridade. Assemelha-se, no Brasil, ao Jeca-Tatu.
N.T.2 Na tradução para o português de empowerment optei por ‘apoderamento’, considerada a mais correta tradução, e não ‘empoderamento’, que tem sido a palavra mais utilizada.