Dez coisas que eu amo em você
Créditos: SBD
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
O Arqueiro
GERALDO JORDÃO PEREIRA (1938-2008) começou sua carreira aos 17 anos, quando foi trabalhar com seu pai, o célebre editor José Olympio, publicando obras marcantes como O menino do dedo verde, de Maurice Druon, e Minha vida, de Charles Chaplin.
Em 1976, fundou a Editora Salamandra com o propósito de formar uma nova geração de leitores e acabou criando um dos catálogos infantis mais premiados do Brasil. Em 1992, fugindo de sua linha editorial, lançou Muitas vidas, muitos mestres, de Brian Weiss, livro que deu origem à Editora Sextante.
Fã de histórias de suspense, Geraldo descobriu O Código Da Vinci antes mesmo de ele ser lançado nos Estados Unidos. A aposta em ficção, que não era o foco da Sextante, foi certeira: o título se transformou em um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos.
Mas não foi só aos livros que se dedicou. Com seu desejo de ajudar o próximo, Geraldo desenvolveu diversos projetos sociais que se tornaram sua grande paixão.
Com a missão de publicar histórias empolgantes, tornar os livros cada vez mais acessíveis e despertar o amor pela leitura, a Editora Arqueiro é uma homenagem a esta figura extraordinária, capaz de enxergar mais além, mirar nas coisas verdadeiramente importantes e não perder o idealismo e a esperança diante dos desafios e contratempos da vida.
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Título original: Ten Things I Love about You
Copyright © 2010 por Julie Cotler Pottinger
Copyright da tradução © 2020 por Editora Arqueiro Ltda.
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.
tradução: Roberta Clapp e Bruno Fiuza preparo de originais: Flávia Midori revisão: Sheila Louzada e Tereza da Rocha diagramação: Abreu’s System capa: Ceara Elliot / LBBG
adaptação de capa: Ana Paula Daudt Brandão imagens de capa: Yoco / Dutch Uncle foto da autora: Roberto Filho e-book: Marcelo Morais
CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
Q64d
Quinn, Julia, 1970—
Dez coisas que eu amo em você [recurso eletrônico] / Julia Quinn; tradução de Bruno Fiuza, Roberta Clapp. - 1. ed. - São Paulo: Arqueiro, 2020.
recurso digital (Bevelstoke; 3)
Tradução de: Ten things I love about you Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-306-0167-6 (recurso eletrônico) 1. Ficção americana. 2. Livros eletrônicos. I. Fiuza, Bruno.
II. Clapp, Roberta. III. Título. IV. Série.
CDD: 813
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Para minhas leitoras e meus leitores.
Sem vocês não seria possível ter o trabalho mais bacana do mundo.
E também para Paul,
pelo mesmo motivo.
Sumário
Prólogo
Capítulo um
Capítulo dois
Capítulo três
Capítulo quatro
Capítulo cinco
Capítulo seis
Capítulo sete
Capítulo oito
Capítulo nove
Capítulo dez
Capítulo onze
Capítulo doze
Capítulo treze
Capítulo catorze
Capítulo quinze
Capítulo dezesseis
Capítulo dezessete
Capítulo dezoito
Capítulo dezenove
Capítulo vinte
Capítulo vinte e um
Capítulo vinte e dois
Capítulo vinte e três
Capítulo vinte e quatro
Capítulo vinte e cinco
Capítulo vinte e seis
Capítulo vinte e sete
Epílogo
Sobre a autora
Informações sobre a Arqueiro
Famílias são complicadas.
Annabel Winslow tem um avô que se refere à mãe dela como “aquela idiota que se casou com aquele maldito idiota” e uma avó que prefere ver a decência como algo opcional.
Sebastian Grey tem primos que querem vê-lo casado e um tio que gostaria de vê-lo morto.
Com sorte, os dois desejos em breve serão realizados…
Prólogo
Alguns anos antes
Ele não conseguia dormir.
Não era novidade. Era de se esperar que àquela altura ele já teria se acostumado.
Mas não. Todas as noites Sebastian Grey fechava os olhos confiante em que logo pegaria no sono. Por que não seria assim? Era um sujeito perfeitamente saudável, perfeitamente feliz, perfeitamente são. Não havia nenhum motivo para não conseguir dormir.
Só que ele não conseguia.
Não era sempre assim. Vez por outra – ele não entendia por que – botava a cabeça no travesseiro e caía quase instantaneamente em um sono feliz. No mais das vezes, porém, ele se remexia, se revirava, se levantava para ler, tomava chá, se remexia, se revirava de novo, se sentava e ficava olhando pela janela, se remexia, se revirava, jogava dardos, se remexia, se revirava e, por fim, desistia e assistia ao nascer do sol.
Vira o amanhecer muitas vezes. Tantas que agora se considerava um especialista no nascer do sol das Ilhas Britânicas.
Inevitavelmente, a exaustão chegava e, pouco depois de clarear o dia, ele adormecia na cama, na cadeira ou, nos dias mais desagradáveis, com o rosto colado à janela. Isso não acontecia todos os dias, mas com uma frequência que o fizera ganhar fama de dorminhoco, o que ele achava bem engraçado. Não havia nada que apreciasse mais do que uma manhã fresca e animada, e, sem dúvida, nenhuma refeição era tão gratificante quanto o café da manhã inglês.
Por isso Sebastian se educou para conviver com esse transtorno da melhor forma possível.
Tinha adquirido o hábito de tomar o desjejum na casa de seu primo Harry, em parte porque a empregada preparava uma belíssima refeição, mas também porque agora Harry passara a esperá-lo sempre. O que significava que, a cada dez vezes, Sebastian tinha que aparecer em nove. O que significava que ele não podia mais desmaiar às sete e meia todas as manhãs. O que significava que, na noite seguinte, sempre estava mais cansado do que o normal. Então, quando se arrastava até a cama e fechava os olhos, conseguia pegar no sono.
Em tese.
Não, aquilo não era justo, ele pensou. Não havia necessidade de ser sarcástico consigo mesmo. Seu plano não era perfeito, mas estava funcionando. Ele vinha dormindo um pouco melhor. Só naquela noite é que não.
Sebastian se levantou, foi até a janela e apoiou a cabeça na treliça. Estava frio lá fora, e uma brisa gelada atravessou o vidro. Ele gostava daquela sensação. Era grande. Enorme. O tipo de momento vívido que o lembrava de sua humanidade. Ele sentia frio, logo estava vivo. Sentia frio, logo não era invencível. Sentia frio, logo…
Sebastian se afastou da janela e bufou, enfastiado.
Sentia frio, logo sentia frio. Não havia nada além disso.
Ficou surpreso por não estar chovendo. Quando chegara em casa naquela noite, parecia que
ia chover. Ele se tornara inusitadamente bom em prever o tempo durante sua estadia no continente.
Era provável que começasse a chover em breve.
Ele voltou para o meio do quarto e deu um bocejo. Talvez devesse ler um pouco. Isso às vezes o deixava com sono. Só que a questão não era estar com sono. Ele podia estar morto de sono e mesmo assim não dormir. Fechava os olhos, ajeitava o travesseiro e…
Nada.
Ficava ali esperando, esperando, esperando. Tentava esvaziar a mente, porque, sem dúvida, era o que precisava fazer. Uma tela em branco. Uma lousa limpa. Se conseguisse abraçar o nada absoluto, então dormiria. Tinha certeza disso.
Mas não deu certo. Porque, sempre que Sebastian Grey tentava abraçar o nada, a guerra voltava e cravava as garras nele.
Ele a via. Ele a sentia. Mais uma vez. Todas aquelas coisas pelas quais bastava ter passado uma única vez. Então abria os olhos. Porque assim tudo o que via era seu quarto um tanto comum, com sua cama um tanto comum. A colcha era verde, as cortinas eram douradas. A escrivaninha era de madeira.
Estava silencioso, também. Durante o dia havia ruídos típicos da cidade, mas à noite aquele trecho quase sempre mergulhava no silêncio. Era incrível, de verdade, apreciar o silêncio. Ouvir o som do vento e até o canto dos pássaros, sem ter que manter o ouvido atento aos passos ou aos tiros. Ou a coisas piores.
Talvez fosse de esperar que, em meio a um silêncio tão feliz, Sebastian conseguisse dormir.
Ele deu outro bocejo. Sim, talvez devesse ler um pouco. Tinha trazido alguns livros da coleção de Harry naquela tarde. Não havia muito que escolher – Harry gostava de ler em francês ou russo e, embora Sebastian conhecesse as duas línguas (a avó materna dos dois insistira nisso), elas não eram naturais para ele como eram para Harry. Ler em qualquer idioma que não fosse inglês era trabalhoso, e Seb só queria se distrair.
Era pedir demais de um livro?
Se ele fosse escrever um livro, haveria emoção. Vidas seriam perdidas, mas não muitas. E
jamais as dos personagens principais. Seria muito deprimente.
Também haveria romance. E perigo. Perigo era uma coisa boa.
Talvez um toque exótico, mas não muito. Sebastian desconfiava que a maioria dos autores não pesquisasse de forma adequada. Fazia pouco ele lera um livro que se passava em um harém nas Arábias. E, se por um lado Seb achava a ideia de um harém, sem dúvida, interessante – muito interessante, na verdade –, para ele o autor não tinha captado os detalhes corretamente. Mesmo para Seb, que gostava de aventuras mais do que qualquer um, era difícil acreditar que a destemida heroína inglesa tivesse conseguido escapar pendurando uma cobra na janela e descendo por ela.
Para piorar, o autor nem mesmo descrevera qual espécie de cobra ela havia usado.
Sério, ele, com certeza, podia fazer melhor que aquilo.
Se fosse escrever um livro, a história se passaria na Inglaterra. Não haveria cobras.
E o herói não seria um dândi nervosinho, que só se interessava pelas próprias roupas. Se
fosse escrever um livro, o herói seria heroico de verdade, oras.
Mas com um passado misterioso. Apenas para manter o suspense.
Deveria haver uma heroína também. Ele gostava de mulheres. Poderia escrever sobre uma.
Qual seria o nome dela? Um nome comum. Joana, quem sabe. Não, soava valente demais. Mary?
Anne?
Sim, Anne. Ele gostava de Anne. Tinha uma sonoridade marcante e adequada. Só que ninguém a chamaria de Anne. Se ele fosse escrever um livro, sua heroína seria solitária, sem família. Ninguém a chamaria pelo primeiro nome. E precisaria de um bom sobrenome. Algo fácil de lembrar. Algo agradável.
Sainsbury.
Sebastian fez uma pausa, para testá-lo mentalmente. Sainsbury. Parecia uma marca de queijo.
Isso era uma coisa boa. Ele gostava de queijo.
Anne Sainsbury. Um bom nome. Anne Sainsbury. Srta. Sainsbury. A Srta. Sainsbury e…
E o quê?
Já o herói… deveria ter uma carreira? Sebastian, sem dúvida, conhecia os modos da nobreza bem o suficiente para pintar um retrato acurado de um lorde indolente.
Mas aquilo seria sem graça. Se ele fosse escrever um livro, teria que ser uma história muito boa mesmo.
O herói poderia ser militar. Ele entendia disso, sem dúvida. Um major, talvez? A Srta.
Sainsbury e o major misterioso?
Meu Deus, não. Quanta aliteração. Até mesmo ele achava aquilo um pouco demais.
Um general? Não, generais eram muito ocupados. Além disso, não andavam dando sopa por aí. Se fosse para escrever sobre tipos raros assim, ele também poderia acrescentar um duque ou dois.
Quem sabe um coronel? Uma patente alta transmitiria autoridade e poder. Poderia ser de boa família, com dinheiro, mas não muito. O caçula. Filhos mais novos sempre têm que se esforçar mais para construir uma trajetória de respeito.
A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso. Isso mesmo: se ele fosse escrever um livro, daria esse título.
Mas Sebastian não ia escrever um livro. Ele bocejou. Onde arrumaria tempo? Olhou para sua pequena escrivaninha, completamente vazia exceto por uma xícara de chá que havia esfriado. E
papel?
O sol já estava começando a nascer. Ele deveria voltar para a cama e tentar dormir algumas horas antes de ir até a casa de Harry para o café da manhã.
Olhou para a janela, onde os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através do vidro.
Fez uma pausa. A frase tinha soado bem.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através do vidro.
Não, não estava claro. Escrito daquela forma, ele poderia estar se referindo a uma taça de conhaque.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça.
Assim estava melhor. Mas ainda precisava de algo mais.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça e a Srta. Anne Sainsbury estava encolhida debaixo de seu cobertor fino, imaginando, como era de costume, onde conseguiria dinheiro para sua próxima refeição.
Estava muito bom. Até ele queria saber o que tinha acontecido com a Srta. Sainsbury, e era ele quem estava inventando a história.
Sebastian mordeu o lábio inferior. Deveria escrever aquilo. E dar um cachorro a ela.
Ele se sentou à escrivaninha. Papel. Precisava de papel. E de tinta. Tinha que haver um pouco de tinta em alguma gaveta.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça e a Srta. Anne Sainsbury estava encolhida debaixo de seu cobertor fino, imaginando, como era de costume, onde conseguiria dinheiro para sua próxima refeição. Ela olhou para sua fiel collie, deitada em silêncio no tapete ao lado da cama, e soube que havia chegado a hora de tomar uma decisão crucial. A vida de seus irmãos dependia daquilo.
Veja só. Era um parágrafo inteiro. E ele não havia demorado quase nada para escrevê-lo.
Olhou de novo pela janela. Os raios oblíquos da luz da alvorada ainda ondulavam através da vidraça.
Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça e Sebastian Grey estava feliz.
Capítulo um
Mayfair, Londres
Primavera de 1822
– O segredo de um casamento bem-sucedido – pontuou lorde Vickers – é não se intrometer na vida da esposa.
Uma declaração como aquela normalmente teria pouca influência na vida e na sorte da Srta.
Annabel Winslow, mas dez fatores fizeram o pronunciamento de Vickers atingir dolorosamente o coração dela.
Um: ele era seu avô materno, ou seja, dois: a esposa em questão era sua avó, que três: pouco antes havia decidido arrancar Annabel de sua vida pacata e feliz em Gloucestershire para, em suas palavras, “dar um jeito nela e lhe arrumar um marido”.
Além disso, quatro: lorde Vickers falara aquilo para lorde Newbury, que cinco: havia se casado uma vez, aparentemente com sucesso, mas seis: sua esposa falecera e agora ele era viúvo, e ainda por cima sete: seu filho morrera no ano anterior, deixando-o sem herdeiros.
O que significava que sete: Newbury estava à procura de uma nova esposa e oito: acreditava que uma aliança com Vickers era uma boa saída, então nove: ele estava de olho em Annabel porque dez: ela tinha quadris largos.
Céus! Ela havia listado dois itens sete?
Annabel deu um suspiro, o mais próximo de afundar na cadeira que lhe era permitido. Na verdade, isso não significava propriamente que havia onze fatores em vez de dez: os quadris largos eram dela, mas naquele momento lorde Newbury estava ponderando se seu herdeiro passaria nove meses aconchegado ali.
– A mais velha de oito, foi o que você disse? – murmurou Newbury, encarando Annabel, pensativo.
Pensativo? Talvez não fosse a palavra certa. Ele parecia prestes a lamber os beiços. Annabel olhou para a prima, lady Louisa McCann, com cara de nojo. Louisa fora até lá para uma visita vespertina, e as duas estavam se divertindo bastante até lorde Newbury fazer sua inesperada aparição. Louisa tinha o semblante perfeitamente sereno, como era a regra em ocasiões sociais, mas Annabel percebeu que os olhos dela se arregalavam em cumplicidade.
Se a prima, cujos modos e atitudes eram sempre adequados em todo tipo de situação, não conseguia disfarçar seu horror, Annabel, sem dúvida, estava em apuros.
– E todos, sem exceção, nasceram saudáveis e fortes – acrescentou lorde Vickers, com
orgulho.
Ele ergueu o copo em um brinde silencioso à filha mais velha, a fecunda Frances Vickers Winslow, a quem, Annabel não pôde evitar lembrar, ele geralmente se referia como Aquela Idiota que se Casou com Aquele Maldito Idiota.
Lorde Vickers não ficou nada satisfeito quando a filha se casou com um cavalheiro do campo de recursos limitados. Até onde Annabel sabia, esse sentimento jamais mudara.
A mãe da prima Louisa, por outro lado, havia se casado com o caçula do duque de Fenniwick apenas três meses antes de o filho mais velho dar um salto estúpido com um garanhão mal-adestrado e quebrar seu nobre pescoço. Isso acontecera, nas palavras de lorde Vickers, “num momento mais do que oportuno”.
Para a mãe de Louisa, sem dúvida; para o herdeiro morto, não. Nem para o cavalo.
Não era de surpreender, portanto, que os caminhos de Annabel e Louisa só tivessem se cruzado raras vezes antes daquela primavera. Os Winslows, com sua numerosa prole espremida em uma casa simples, tinham pouco em comum com os McCanns, que, quando não estavam em sua mansão palaciana em Londres, moravam em um antigo castelo bem na fronteira com a Escócia.
– O pai de Annabel tinha nove irmãos – disse lorde Vickers.
Annabel virou-se para encará-lo com mais atenção. Era o mais próximo que seu avô havia chegado de um verdadeiro elogio a seu pai, que Deus o tivesse.
– É mesmo? – rebateu lorde Newbury, voltando-se para Annabel com os olhos mais reluzentes ainda.
Annabel passou a língua pelos lábios, juntou as mãos sobre o colo e se perguntou como poderia dar a entender que era infértil.
– E, é claro, nós temos sete – complementou Vickers, fazendo um gesto que indicava modéstia, mas que na verdade os homens fazem quando não estão sendo nada modestos.
– Parece que o senhor às vezes se intrometia na vida de lady Vickers – comentou lorde Newbury, dando uma risadinha.
Annabel engoliu em seco. Quando Newbury ria, ou melhor, quando fazia qualquer movimento, suas mandíbulas pareciam bater e chacoalhar. Era uma visão terrível, que lembrava a geleia de mocotó que a governanta lhe empurrava goela abaixo quando ela ficava doente. Sem dúvida, o suficiente para uma jovem perder o apetite.
Ela tentou estipular quanto tempo teria que ficar sem comer para reduzir o tamanho de seus quadris, de preferência até uma largura considerada inapta à maternidade.
– Pense nisso – retrucou lorde Vickers, dando um tapinha cordial nas costas do velho amigo.
– Ah, estou pensando mesmo – disse lorde Newbury.
Ele se virou para Annabel, os olhos azul-claros reluzindo de desejo.
– Estou definitivamente pensando.
– As pessoas dão demasiada importância aos pensamentos – declarou lady Vickers, então ergueu uma taça de xerez em um brinde a ninguém em especial e bebeu.
– Esqueci que estava aí, Margaret – comentou Newbury.
– Eu não esqueço nunca – resmungou lorde Vickers.
– Estou me referindo aos cavalheiros, é claro – arrematou ela, estendendo a taça para que um dos homens lhe servisse outra dose. – Uma dama deve pensar o tempo todo.
– Neste ponto, discordamos – disse Newbury. – Minha Margaret guardava os pensamentos para si. Tivemos um casamento esplêndido.
– Ela não se intrometia na sua vida, não é? – perguntou lorde Vickers.
– Como eu falei, foi um casamento esplêndido.
Annabel olhou para Louisa, sentada graciosamente na cadeira ao lado. Sua prima era esguia, com ombros estreitos, cabelos castanho-claros e olhos de um verde bem claro. Annabel sempre se achara meio monstruosa comparada a ela. Seus cabelos eram escuros e ondulados, sua pele era do tipo que ficava bronzeada se ela se expusesse por muito tempo ao sol e sua aparência atraía uma atenção indesejada desde sua 12a primavera.
Mas nunca – jamais – a atenção havia sido mais indesejada do que naquele momento em que lorde Newbury a fitava como quem está prestes a devorar uma guloseima.
Annabel ficou sentada em silêncio, procurando agir como Louisa, sem deixar que seus pensamentos a traíssem. Sua avó sempre a repreendera por ser expressiva demais. “Pelo amor de Deus” era um chavão familiar. “Pare de sorrir como se soubesse das coisas. Cavalheiros não querem uma dama que sabe das coisas. Não como esposa, pelo menos.”
Então lady Vickers tomava um gole de sua bebida e acrescentava: “Depois que estiver casada, você pode saber de muitas coisas. De preferência, com um cavalheiro que não seja o seu marido.”
Se Annabel não sabia das coisas antes, sem dúvida ficou sabendo naquele momento. Por exemplo, o fato de que pelo menos três dos filhos dos Vickers provavelmente não eram Vickers.
Sua avó, Annabel percebia, tinha, além de um vocabulário notavelmente blasfemo, uma visão bem duvidosa de moralidade.
Gloucestershire começava a parecer um sonho. Tudo em Londres era tão… brilhante. Não literalmente, claro. Na verdade, Londres era bastante cinzenta, coberta por um verniz de fuligem e sujeira. Annabel não sabia ao certo por que “brilhante” era a palavra que lhe vinha à mente.
Talvez porque nada ali parecesse simples. Nem descomplicado. As coisas eram, ela diria, até um pouco instáveis.
Annabel se pegou desejando um copo de leite, como se algo fresco e saudável pudesse restaurar seu equilíbrio. Nunca se considerara particularmente distinta, e só Deus sabia que ela era a Winslow com maior probabilidade de cochilar durante a missa, mas cada dia na capital parecia trazer uma nova surpresa, um novo acontecimento que a deixava confusa e perplexa.
Já fazia um mês que estava em Londres. Um mês! E ainda agia como se pisasse em ovos, sem nunca ter certeza de estar fazendo ou falando a coisa certa.
Ela odiava isso.
Em casa, sentia-se segura. Nem sempre estava certa, mas quase sempre estava segura. Em Londres, as regras eram diferentes. E, pior, todo mundo conhecia todo mundo. Quando as pessoas não se conheciam pessoalmente, conheciam as histórias. Era como se a alta sociedade inteira soubesse de alguma fofoca da qual Annabel não estava a par. Cada conversa continha um significado subliminar, mais profundo e sutil. E Annabel – que, além de ser a Winslow com
maior probabilidade de cochilar durante a missa, era a Winslow com maior probabilidade de falar o que pensava – tinha a sensação de não poder dizer nada, temendo ofender alguém.
Ou constranger a si mesma.
Ou constranger outra pessoa.
Ela não suportava essa ideia. Simplesmente não conseguia nem pensar em comprovar ao avô que a mãe era mesmo uma idiota, que o pai era mesmo um maldito idiota e que ela era a mais maldita idiota de todos.
Havia mil maneiras de fazer papel de idiota, e novas oportunidades surgiam todos os dias.
Era exaustivo ter que se esquivar delas o tempo inteiro.
Annabel se levantou e fez uma mesura quando o conde de Newbury se despediu, fingindo não perceber que os olhos dele se demoraram em seu decote. O avô o acompanhou até a porta, deixando-a sozinha com Louisa, a avó e uma garrafa de xerez.
– Sua mãe ficará muito satisfeita – anunciou lady Vickers.
– Com o quê? – perguntou Annabel.
A avó lançou-lhe um olhar cansado, com um quê de incredulidade e enfado.
– Com o conde. Quando concordei em recebê-la aqui, não imaginava que conseguiria nada acima de um barão. Que sorte a sua ele estar desesperado.
Annabel sorriu com sarcasmo. Como era agradável ser o objeto do desespero de alguém.
– Xerez? – ofereceu a avó.
Annabel recusou.
– Louisa? – Lady Vickers se virou para a outra neta, que fez que não com a cabeça. – Ele não é muito atraente, é verdade – continuou –, mas era bonito quando jovem, portanto seus filhos não serão feios.
– Que ótimo – disse Annabel baixinho.
– Várias amigas minhas tentaram fisgá-lo, mas ele só tinha olhos para Margaret Kitson.
– Suas amigas – murmurou Annabel.
As contemporâneas da avó haviam desejado se casar com lorde Newbury. As contemporâneas da avó haviam desejado se casar com o homem que provavelmente se casaria com ela.
Meu Deus.
– E vai morrer logo – argumentou a avó. – Nada poderia ser melhor do que isso.
– Acho que vou aceitar o xerez – anunciou Annabel.
– Annabel… – disse Louisa com um suspiro, lançando à prima um olhar inquisidor.
Lady Vickers assentiu e lhe serviu uma taça.
– Não diga nada a seu avô – pediu ela. – Ele não acha de bom-tom que mulheres com menos de 30 anos bebam.
Annabel tomou um longo gole. Desceu queimando pela garganta, mas ela conseguiu não engasgar. Nunca tinha bebido xerez em casa, pelo menos não antes do jantar. Só que ali, naquele momento, sentiu que precisava de algo revigorante.
– Lady Vickers – chamou o mordomo –, a senhora me pediu que a lembrasse quando fosse hora de partir para o encontro com a Sra. Marston.
– Ah, claro – disse lady Vickers, gemendo ao se levantar. – Ela é uma velha maçante e tagarela, mas sabe bem como servir uma bela mesa.
Annabel e Louisa ficaram de pé enquanto a avó deixava o aposento e, assim que ela saiu, afundaram de volta nas cadeiras.
– O que aconteceu enquanto eu estive fora? – indagou Louisa.
– Suponho que você esteja se referindo a lorde Newbury – retrucou Annabel com um leve suspiro.
– Passei apenas quatro dias em Brighton. – Louisa lançou um rápido olhar em direção à porta, para se certificar de que não havia ninguém por perto, depois sussurrou com impaciência:
– E agora ele quer se casar com você?
– Ele não falou muito a respeito – respondeu Annabel, tentando manter o pensamento positivo.
A julgar pela atenção que lorde Newbury tinha lhe dispensado naqueles quatro dias, ele partiria para a Cantuária a fim de obter uma licença especial de matrimônio antes mesmo de a semana acabar.
– Você conhece a história dele? – perguntou Louisa.
– Acho que sim – respondeu Annabel. – Em parte.
Certamente não tanto quanto Louisa. A prima já estava em sua segunda temporada em Londres e, o mais importante, tinha nascido naquele universo. O pedigree de Annabel podia até incluir um avô visconde, mas ela ainda era filha de um cavalheiro do campo. Louisa, por sua vez, passara todos os verões e primaveras de sua vida na capital. A mãe dela, Joan, tia de Annabel, falecera muitos anos antes, mas o duque de Fenniwick tinha várias irmãs, todas elas ocupando posições de destaque na sociedade. Louisa podia ser tímida, podia ser a última pessoa que alguém esperaria que fosse espalhar fofocas e boatos, mas sabia de tudo.
– Ele está desesperado por uma esposa – afirmou Louisa.
Annabel deu de ombros, num gesto supostamente autodepreciativo.
– Eu também estou desesperada por um marido.
– Não tão desesperada assim.
Annabel não a contradisse, mas a verdade era que, se ela não arrumasse logo um bom casamento, só Deus sabia o que seria de sua família. Nunca tinham sido ricos, mas haviam conseguido sobreviver com dignidade enquanto seu pai era vivo. Ela não sabia direito como arcaram com as mensalidades da escola dos quatro irmãos, mas todos eles estavam onde deveriam: em Eton, recebendo uma educação digna de cavalheiros. Annabel não seria responsável por terem que sair de lá.
– A esposa dele morreu… não sei quantos anos atrás – continuou Louisa. – Isso não importava, já que ele tinha um filho perfeitamente saudável. E o filho teve duas filhas, portanto a esposa dele não era infértil.
Annabel assentiu, se perguntando por que era sempre a mulher que era infértil. Um homem não poderia ser infértil também?
– Então o filho dele morreu. Foi uma febre, eu acho.
Annabel já havia tomado conhecimento dessa parte, mas com certeza Louisa sabia mais, por
isso Annabel perguntou:
– Ele não tem nenhum outro herdeiro? Deve haver um irmão ou um primo por aí.
– Um sobrinho – confirmou Louisa. – Sebastian Grey. O problema é que lorde Newbury o odeia.
– Por quê?
– Não sei – respondeu Louisa, dando de ombros. – Ninguém sabe. Inveja, talvez? O Sr. Grey é absurdamente bonito. Todas as damas se jogam aos seus pés.
Eu gostaria de ver isso, fantasiou Annabel, imaginando a cena: um Adônis louro, os músculos apertados contra o colete, atravessando um mar de mulheres que desmaiavam. Melhor ainda se algumas delas estivessem meio acordadas, talvez agarrando a perna dele, tentando derrubá-lo…
– Annabel!
Ela despertou de seu devaneio. A prima falava com uma impaciência atípica, e seria bom que ela prestasse atenção.
– Annabel, isso é importante.
Annabel assentiu, e uma sensação desconhecida tomou conta dela – talvez de gratidão, com certeza de amor. Praticamente acabara de conhecer a prima, mas já havia entre elas um profundo vínculo, e ela sabia que Louisa faria tudo que estivesse ao seu alcance para impedir que Annabel fizesse uma escolha lamentável.
Infelizmente, o conhecimento de Louisa naquele tema específico era limitado. E ela não entendia – ou melhor, era incapaz de entender – as pressões que sofria a filha mais velha de uma família pobre.
– Ouça – implorou Louisa. – O filho de lorde Newbury morreu deve fazer… hã… pouco mais de um ano. E o homem começou a procurar uma esposa antes mesmo de o corpo esfriar.
– A esta altura ele já não deveria ter encontrado uma?
Louisa balançou a cabeça.
– Ele quase se casou com Mariel Willingham.
– Quem? – Annabel tentou associar o nome à pessoa.
– Isso mesmo, você nunca ouviu falar dela. Ela morreu.
Annabel arregalou os olhos. Sem dúvida, era um jeito bastante insensível de dar uma notícia tão trágica.
– Dois dias antes do casamento, ela pegou um resfriado.
– E morreu em dois dias? – perguntou Annabel.
Era um pouco mórbido, mas, oras, ela precisava saber.
– Não. Lorde Newbury insistiu em adiar a cerimônia. Argumentou que era para o bem dela, que ela estava doente demais para suportar, mas todos sabiam que na verdade ele queria ter certeza de que ela era saudável o suficiente para lhe dar um filho.
– E então?
– Bem, então ela morreu. Resistiu por cerca de duas semanas. Foi muito triste, muito mesmo.
Mariel sempre foi muito gentil comigo. – Louisa balançou a cabeça de leve, depois continuou: –
Lorde Newbury escapou por pouco. Se tivesse se casado com ela, teria que ficar de luto. Já havia
sido um escândalo ele procurar uma esposa logo após a morte do filho. Se a Srta. Willingham não tivesse morrido antes do casamento, ele teria que guardar luto por mais um ano.
– Quanto tempo ele esperou antes de recomeçar a busca? – indagou Annabel, temendo a resposta.
– Não mais que duas semanas. Acho que não teria esperado nem isso se houvesse alguma chance de passar despercebido. – Louisa espiou ao redor, e seus olhos pararam no xerez de Annabel. – Preciso de um chá.
Annabel se levantou e tocou a sineta, para evitar que Louisa interrompesse a história.
– Depois que retornou a Londres – prosseguiu a prima –, ele começou a cortejar lady Frances Sefton.
– Sefton – murmurou Annabel.
Ela conhecia aquele nome, mas não sabia de onde.
– Sim – confirmou Louisa animadamente. – Isso mesmo. O pai dela é o conde de Brompton.
– Ela inclinou o corpo para mais perto de Annabel. – Lady Frances é a terceira de nove filhos.
– Meu Deus.
– A Srta. Willingham era a mais velha de quatro, mas ela… – Louisa se conteve, visivelmente sem saber como falar aquilo de forma polida.
– Ela se parecia comigo? – arriscou Annabel.
Louisa assentiu, com a expressão sombria.
– Suponho que ele nunca tenha olhado duas vezes para você – comentou Annabel com uma careta irônica.
Louisa analisou a si mesma, com seus meros 50 quilos.
– Nunca. – E, em uma rara manifestação de blasfêmia, acrescentou: – Graças a Deus.
– O que aconteceu com lady Frances? – perguntou Annabel.
– Fugiu. Com um lacaio.
– Deus do céu. Ela devia ter uma relação antiga com ele, não? Ninguém fugiria com um lacaio apenas para evitar se casar com um conde.
– Você acha que não?
– Bem, acho – respondeu Annabel. – Não seria nada prático.
– Não creio que ela estivesse preocupada em ser prática. Deve ter pensado apenas em como poderia não se casar com aquele… aquele…
– Por favor, não termine a frase.
Louisa assentiu.
– Se o objetivo era evitar o casamento com lorde Newbury – continuou Annabel –, é provável que existissem maneiras mais apropriadas do que fugir com um lacaio. A menos, é claro, que ela estivesse apaixonada por ele. Isso muda tudo.
– Não foi nem uma coisa nem outra. Ela debandou para a Escócia e nunca mais ninguém ouviu falar dela. Àquela altura, a temporada social havia acabado. Tenho certeza de que lorde Newbury vem procurando uma noiva desde então, mas acredito que seja muito mais fácil durante a temporada, quando estão todos reunidos. Além disso – acrescentou Louisa, como se a ideia só
tivesse lhe ocorrido naquele instante –, se ele estivesse atrás de outra dama, dificilmente eu teria ficado sabendo. Ele mora no sul, em Hampshire.
Louisa certamente havia passado o inverno na Escócia, tremendo de frio em seu castelo.
– E agora ele está de volta – afirmou Annabel.
– Sim, e agora que perdeu um ano inteiro, quer encontrar alguém o mais rápido possível. –
Louisa olhou para a prima com uma expressão terrível, metade pena, metade resignação. – Se ele estiver interessado em você, não perderá tempo com cortejos.
Annabel sabia disso, e também sabia que, se lorde Newbury a pedisse em casamento, seria muito difícil recusar. Seus avós já haviam insinuado que apoiavam a união. A mãe permitiria que Annabel declinasse, mas ela se encontrava a mais de 100 quilômetros de distância. E Annabel sabia exatamente qual seria a reação da mãe ao assegurar que a filha não precisava se casar com o conde.
Haveria amor, mas também preocupação. Nos últimos tempos, sempre havia preocupação no olhar de sua mãe. No primeiro ano depois da morte do pai, ela ficara de luto, mas agora restava apenas preocupação. Annabel acreditava que a mãe estava tão preocupada em sustentar a família que não havia sobrado tempo para o luto.
Se lorde Newbury de fato desejasse se casar com ela, proveria apoio financeiro suficiente para aliviar o peso nas costas de sua mãe. Ele poderia pagar pela educação dos irmãos dela. E
providenciar os dotes para as irmãs.
Annabel não aceitaria se casar a menos que ele concordasse em arcar com essas obrigações.
Por escrito.
Mas ela estava se precipitando. Ele não tinha pedido sua mão em casamento. E ela não tinha decidido aceitar. Ou tinha?
Capítulo dois
Na manhã seguinte
– Newbury está de olho em uma nova pretendente.
Sebastian Grey deu uma espiada em seu primo, Edward, que estava sentado na frente dele, comendo algo que parecia uma torta e cujo cheiro repulsivo chegava ao outro lado do aposento.
Sua cabeça latejava (champanhe em excesso na noite anterior) e ele chegou à conclusão de que gostava mais do cômodo no escuro.
Fechou os olhos.
– Acho que desta vez é sério – acrescentou Edward.
– Era sério nas últimas três vezes – retrucou Sebastian.
– Hum, sim – ressoou a voz do primo. – Que azar o dele. Morte, fuga, e o que aconteceu com a terceira?
– Apareceu grávida no altar.
Edward riu.
– Ele deveria ter ficado com essa. Pelo menos já sabia que era fértil.
– Desconfio – começou Sebastian, mudando de posição para acomodar melhor suas pernas compridas no sofá – que até eu seja uma opção melhor do que o filho de outro homem. – Ele desistiu de tentar encontrar uma posição confortável e pôs as duas pernas no braço do sofá, deixando os pés balançando para fora. – Embora seja difícil acreditar.
Sebastian pensou no tio por um instante, depois tentou afastá-lo da mente. O conde de Newbury sempre o deixava de mau humor, e sua cabeça já o incomodava o suficiente. Eles sempre tiveram suas diferenças, tio e sobrinho, mas isso não havia tido muita importância até um ano e meio antes, quando o primo de Sebastian, Geoffrey, morreu. Assim que ficou claro que a barriga da viúva de Geoffrey não estava crescendo e que Sebastian era o herdeiro presuntivo do condado, Newbury partiu depressa para Londres em busca de uma nova esposa, afirmando que preferiria morrer a permitir que Sebastian herdasse suas posses.
O conde, aparentemente, não percebera a incongruência daquela afirmação em termos lógicos.
Sebastian, desse modo, encontrava-se em uma posição inusitada e precária. Se o conde conseguisse se casar e gerar outro filho – e, Deus era testemunha, ele estava tentando bastante –, o sobrinho seria apenas mais um cavalheiro respeitado sem título algum. Se, por outro lado,
Newbury não conseguisse procriar, ou pior, se viesse a ter apenas filhas, Sebastian herdaria quatro casas, uma montanha de dinheiro e o oitavo condado mais antigo daquelas terras.
Tudo isso significava que ninguém sabia direito o que fazer com ele. Seria Sebastian o solteiro mais disputado do mercado casamenteiro ou apenas mais um caçador de fortunas? Não havia como saber.
Isso era muito divertido. Pelo menos para Sebastian.
Ninguém podia se dar ao luxo de agir como se ele não fosse se tornar conde, por isso era convidado para todos os eventos sociais, o que era sempre bastante oportuno para um homem que gostava de boa comida, boa música e boa conversa. As debutantes estavam sempre à sua volta, proporcionando diversão infinita. E quanto às mulheres mais maduras… essas eram livres para encontrar prazer com quem bem entendessem…
Bem, na maioria das vezes, era ele quem elas escolhiam. O fato de ser bonito era uma bênção. O fato de ser um excelente amante era um deleite. O fato de que um dia poderia se tornar o conde de Newbury…
Isso fazia dele um homem irresistível.
Naquele momento, porém, com a cabeça doendo e o estômago revirado, Sebastian estava se sentindo muito resistível. Ou, no mínimo, resistente. A própria Afrodite poderia descer dos céus flutuando em uma concha, nua a não ser por algumas flores estrategicamente posicionadas, que ele vomitaria aos pés dela.
Não, não, ela teria que estar nua em pelo. Se era para testemunhar a presença de uma deusa bem ali naquele aposento, ela deveria estar completamente nua.
Ainda assim, vomitaria aos pés dela.
Ele bocejou, deslocando o peso do corpo um pouco mais para a esquerda. Desejou conseguir dormir. Não tinha pregado o olho na noite anterior (champanhe), nem na anterior à anterior (por nenhum motivo específico), e o sofá de seu primo não era pior do que qualquer outro lugar. O
aposento não estava claro demais, desde que ele mantivesse os olhos fechados, e o único som que ouvia era a mastigação de Edward.
A mastigação.
Era impressionante quão alto lhe parecia o som, agora que ele tinha parado para observar.
Sem mencionar o fedor. Torta de carne. Quem é que comia torta de carne na frente de alguém naquele estado?
Sebastian deixou escapar um gemido.
– O que foi? – indagou Edward.
– Sua comida – resmungou Seb.
– Quer um pedaço?
– Por Deus, não.
Sebastian ficou de olhos fechados, mas praticamente ouviu o primo dar de ombros. Não seria nem um pouco misericordioso com ele naquela manhã.
Então Newbury estava desesperado por uma mulher para parir um filho macho. Sebastian não via motivo para surpresa. Diabo, não estava surpreso. Era só que…
Era só que…
Ora, que inferno. Ele não sabia. Mas havia algo.
– Quem é desta vez? – perguntou, porque não estava completamente desinteressado.
Houve uma pausa enquanto Edward engolia.
– A neta de Vickers.
Sebastian considerou a informação. Lorde Vickers tinha um monte de netas. O que fazia sentido, afinal ele e a esposa tiveram algo em torno de quinze filhos.
– Bem, bom para ela – resmungou.
– Você a viu? – indagou Edward.
– Você já? – devolveu Seb.
Ele chegara à cidade quase no fim da temporada. Se a garota estivesse fazendo sua estreia, não havia como conhecê-la.
– Garota do campo, ouvi dizer, e tão fértil que os pássaros cantam quando ela se aproxima.
Aquilo merecia um olho aberto. Os dois olhos, na verdade.
– Pássaros – repetiu Sebastian em tom de desdém. – Pelo amor de…
– Acho que é um bom modo de dizer – retrucou Edward, um pouco na defensiva.
Com um gemido, Sebastian se empertigou.
– Se a jovem dama é mesmo imaculada como a neve, como Newbury certamente afirma, como alguém poderia garantir que é fértil?
Edward deu de ombros.
– É evidente. Os quadris dela… – As mãos dele fizeram um movimento estranho no ar e os olhos começaram a parecer vidrados. – E os seios…
Edward praticamente se tremeu todo, e Sebastian não ficaria surpreso se o pobre garoto começasse a babar.
– Controle-se, Edward – ordenou Sebastian. – Você está recostado no sofá recém-estofado de Olivia, caso não se lembre.
Edward lançou um olhar contrariado para Sebastian e voltou a se concentrar na comida em seu prato. Eles estavam na sala de estar de sir Harry e lady Olivia Valentine, onde podiam ser encontrados com frequência. Edward era irmão de Harry, portanto morava ali. Sebastian tinha aparecido para tomar o café da manhã. A cozinheira mudara sua receita de ovo poché, com um resultado delicioso (Sebastian desconfiava que o segredo era pôr mais manteiga; tudo ficava melhor com mais manteiga). Ele não perdia um único café da manhã em La Casa de Valentine havia uma semana.
Além disso, apreciava a companhia.
Harry e Olivia – que, aliás, não eram espanhóis; Sebastian simplesmente gostava de dizer
“La Casa de Valentine” – tinham ido passar duas semanas no campo, provavelmente tentando escapar de Sebastian e Edward. Os rapazes logo começaram a se comportar como típicos solteiros, indo dormir depois da meia-noite, almoçando na sala de estar e pendurando um alvo de dardos na porta do segundo quarto de hóspedes.
Sebastian estava liderando naquele momento, por 14 a 3.
Por 16 a 1, na verdade. Tinha ficado com pena de Edward no meio da disputa. E isso tornara tudo mais interessante. Era mais difícil perder de forma convincente do que ganhar. Mas ele
havia conseguido. Edward não suspeitara de nada. A 18ª partida seria realizada naquela noite.
Sebastian estaria presente, é claro. Praticamente havia se mudado para lá. Dizia a si mesmo que era porque alguém tinha que ficar de olho no jovem Edward, mas a verdade era que…
Seb balançou a cabeça mentalmente. Aquela verdade bastava.
Ele deu um bocejo. Deus do céu, estava muito cansado. Não sabia por que tinha bebido tanto na noite anterior. Havia séculos que não fazia isso. Fora se deitar cedo, mas não conseguiu dormir, então se levantou, mas não conseguiu escrever porque…
Porque não. Era irritante. Simplesmente não conseguia escrever. As palavras não vinham, mesmo tendo deixado sua pobre heroína escondida debaixo de uma cama. Com o herói em cima da cama. Seria a cena mais inapropriada de todas. Era de esperar que fosse fácil escrevê-la, justamente por seu caráter inusitado.
Só que não. A Srta. Spencer ainda estava debaixo da cama, seu escocês ainda estava em cima e Sebastian continuava tão distante do fim do capítulo quanto na semana anterior.
Depois de duas horas sentado à escrivaninha olhando para a folha de papel em branco, ele finalmente desistira. Não conseguia dormir e não conseguia escrever, então, mais por pirraça do que por qualquer outra razão, ele se levantou, se vestiu e foi para o clube.
Lá havia champanhe. Alguém estava comemorando alguma coisa, e teria sido rude não participar da festa. Havia também umas mulheres muito bonitas, embora Sebastian não entendesse muito bem o que faziam lá.
Ou talvez elas não estivessem lá. Será que ele tinha ido para outro lugar depois?
Meu bom Deus, estava ficando velho para tudo aquilo.
– Talvez ela diga não – falou Edward, de repente.
– O quê?
– A garota dos Vickers. Talvez ela diga não a Newbury.
Sebastian voltou a se recostar e pressionou as têmporas com os dedos.
– Ela não vai dizer não.
– Pensei que você não a conhecesse.
– Não conheço. Mas os Vickers vão apoiar a união com Newbury. Eles são amigos e Newbury tem dinheiro. A menos que a garota tenha um pai extremamente indulgente, terá que fazer o que o avô mandar. Isto é… – Ele arqueou as sobrancelhas, como se o gesto o ajudasse a raciocinar melhor. – Se for a garota dos Fenniwicks, vai dizer não.
– Como você sabe de tudo isso?
Seb deu de ombros.
– Eu sei das coisas.
Na maioria das vezes, quase acrescentou. Era notável a quantidade de coisas que se podia descobrir sobre outro ser humano simplesmente observando. E ouvindo. E agindo com tamanho encanto que as pessoas esqueciam que ele tinha cérebro.
Sebastian raramente era levado a sério, e gostava que fosse assim.
– Não – continuou, visualizando em sua mente uma coisinha tão magra que desaparecia quando se virava de lado. – Não pode ser a garota dos Fenniwicks. Ela não tem seios.
Edward comeu a última garfada de sua torta de carne. Infelizmente, o cheiro não se dissipou.
– Estou certo de que você não sabe disso em primeira mão – concluiu ele.
– Sou um ótimo analista das formas femininas, mesmo a distância – afirmou Sebastian.
Ele olhou ao redor, procurando alguma bebida não alcoólica. Chá. Chá poderia ajudar. Sua avó sempre dizia que era a melhor coisa para se tomar, depois de vodca.
– Enfim – disse Edward, observando Sebastian se levantar e atravessar a sala para chamar o mordomo –, se ela aceitar, você perderá o condado.
Seb se jogou de volta no sofá.
– O condado nunca foi meu.
– Poderia ser – retrucou Edward, inclinando-se para a frente. – Poderia ser seu.
Provavelmente eu sou o 39o na linha de sucessão para qualquer coisa importante, mas você…
você pode se tornar o conde de Newbury.
Sebastian engoliu de volta o bolo amargo que subia por sua garganta. O conde de Newbury era seu tio, aquele homem enorme e barulhento, com mau hálito e um temperamento ainda pior.
Era difícil se imaginar ostentando aquele mesmo título.
– Honestamente, Edward – disse ele, lançando ao primo o olhar mais franco possível –, eu não dou a mínima, aconteça o que acontecer.
– Você não está falando sério.
– Estou, sim – murmurou Seb.
Edward encarou-o como se ele tivesse enlouquecido. Sebastian preferiu reagir retomando sua posição horizontal no sofá. Fechou os olhos, determinado a mantê-los assim até que o mordomo trouxesse o chá.
– Não estou dizendo que não apreciaria as conveniências que acompanham o título –
argumentou ele –, mas vivi 30 anos sem isso, e 29 sem ter nem mesmo a possibilidade de herdá-lo.
– Conveniências – repetiu Edward, aparentemente apegado à palavra. – Conveniências?
Seb deu de ombros.
– Eu acharia a parte financeira extremamente conveniente.
– Conveniente – disse Edward, abismado. – Só você chamaria isso de conveniente.
Sebastian ficou calado e tentou tirar um cochilo. Parecia conseguir pegar no sono assim, em pequenos intervalos aqui e ali, em sofás, cadeiras ou qualquer outro lugar, com exceção de sua própria cama. Mas sua mente se mostrou teimosa, recusando-se a esquecer das fofocas mais recentes sobre seu tio.
De fato não lhe importava se herdaria ou não o condado. As pessoas tinham dificuldade em acreditar naquilo, mas era verdade. Se o tio se casasse com a garota dos Vickers e tivesse um filho com ela… bem, que bom para o tio. E Sebastian não herdaria o título. Não fazia sentido se importar com a perda de algo que na verdade nunca tivera.
– A maioria das pessoas – disse Sebastian, aproveitando que apenas Edward estava na sala e ele podia parecer um palhaço falastrão – já sabe se vai herdar um condado. Uma delas é o herdeiro aparente. A menos que alguém consiga matá-lo antes, é ele quem vai receber a herança.
– Hã?
– Alguém podia mudar o termo para “herdeiro óbvio” – murmurou Seb, pensativo.
– Você sempre dá aulas de semântica depois que bebe demais?
– Filhote. – É o apelido que Seb dera a Edward, e, desde que ficasse restrito ao âmbito familiar, o jovem primo parecia não se importar.
Edward riu.
– Está bem, não falo mais nada – disse Sebastian, mas continuou: – Quando se fala em herdeiro presuntivo, tudo parece mera presunção.