Dez coisas que eu amo em você
Créditos: SBD
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Você vai me contar algo que eu não saiba? – perguntou Edward sem sarcasmo aparente.
Era mais uma questão de saber se deveria ou não prestar atenção.
Sebastian o ignorou.
– Alguém, presumidamente, é o herdeiro, a menos que, no meu caso, Newbury consiga se impor a uma pobre jovem de quadris largos e seios fartos.
Edward deu um suspiro sonhador.
– Pare com isso – disse Seb.
– Se você a tivesse visto, saberia do que estou falando.
O primo tinha um tom tão cheio de luxúria que Sebastian sentiu a necessidade de encará-lo.
– Você precisa de uma mulher.
Edward deu de ombros.
– Arranje uma para mim. Não me importo se ficar com as suas sobras.
Ele merecia mais do que isso, mas Sebastian não queria entrar naquela discussão, não de estômago vazio.
– Eu preciso muito de um chá.
– Acho que você precisa de algo mais que isso.
Seb ergueu uma sobrancelha.
– Você parece meio irritado com a instabilidade da sua situação – explicou Edward.
Sebastian refletiu sobre aquilo.
– Não, irritado, não. No máximo, ligeiramente incomodado.
Edward pegou o jornal e um silêncio amigável se instalou entre os dois. Sebastian olhou pela janela, do outro lado do aposento. Sua visão sempre fora excelente, e ele conseguia ver as belas damas que passeavam do outro lado da rua. Ficou observando-as por um tempo, pensando alegremente em nada de importante. O azul-celeste parecia ser a cor da moda naquela temporada.
Uma ótima escolha – caía bem na maioria das mulheres. Já sobre as saias, ele não podia dizer o mesmo; pareciam um pouco rígidas e cônicas demais. Atraentes, sim, mas muito mais desafiadoras para o homem desejoso de ver o que havia por baixo.
– Chá – anunciou Edward, interrompendo os pensamentos de Sebastian.
Uma criada pousou a bandeja na mesa, e por um instante eles apenas encararam o delicado bule, aqueles dois homens grandes com mãos grandes.
– Onde está nossa querida Olivia quando precisamos dela? – perguntou Seb.
Edward deu um sorriso irônico.
– Preciso me lembrar de contar a ela que você a valoriza por suas habilidades em servir.
– Esta é, provavelmente, a razão mais lógica para se arrumar uma esposa. – Sebastian se debruçou e examinou a bandeja, procurando o pequeno jarro de leite. – Você quer?
O primo balançou a cabeça.
Seb derramou um pouco de leite em sua xícara e concluiu que precisava demais beber alguma coisa para esperar que fosse servida adequadamente. Então acrescentou o chá, inalando o aroma que se espalhava pelo ar. Foi notável a eficácia daquilo em acalmar seu estômago.
Talvez ele devesse ir para a Índia. A terra prometida. A terra do chá.
Tomou um gole e sentiu o calor escorrer garganta abaixo em direção ao estômago. Era perfeito, simplesmente perfeito.
– Você já pensou em ir para a Índia? – perguntou ao primo.
Edward o olhou com as sobrancelhas levemente arqueadas. Era uma mudança brusca de assunto, mas ele já estava bastante habituado a Sebastian para se assustar.
– Não – respondeu ele. – Muito quente.
Seb refletiu.
– Talvez você esteja certo.
– Além da malária – acrescentou Edward. – Vi um homem com malária uma vez. – Ele teve um calafrio. – Não é uma visão agradável.
Sebastian tinha visto a malária de perto quando integrara o 18o Regimento de Hussardos que combatera em Portugal e na Espanha. Não é uma visão agradável era um eufemismo e tanto.
Além disso, seria difícil continuar sua carreira clandestina de escritor. Seu primeiro romance, A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso, fora um sucesso estrondoso. Tanto que Sebastian escrevera A Srta. Davenport e o marquês sombrio, A Srta. Truesdale e o cavalheiro mudo, além do best-seller A Srta. Butterworth e o barão louco.
Todos assinados por pseudônimos, é claro. Se viesse a público que ele escrevia romances góticos…
Seb ficou pensando naquilo por um momento. O que aconteceria se viesse a público? Os membros mais abastados da sociedade o rechaçariam, o que seria uma bênção. O restante das pessoas iria se deliciar. Ele seria reverenciado por semanas.
Mas haveria questionamentos. E pessoas pedindo que ele escrevesse a história delas. Seria enfadonho demais.
Ele gostava de ter um segredo. Nem mesmo sua família sabia. Se por acaso alguém tinha a curiosidade de saber de onde ele tirava sua renda, nunca havia perguntado. Harry devia presumir que ele recebia uma mesada da mãe. E que tomava café da manhã na casa dele todos os dias a fim de economizar.
Além disso, Harry não gostava dos livros que Seb escrevia. Ele os traduzia para o russo (e estava recebendo uma fortuna por isso, provavelmente mais do que Sebastian ganhava por escrever os originais), mas não gostava deles. Achava que eram bobos. Repetia isso com frequência. Sebastian nunca tivera coragem de lhe dizer que Sarah Gorely, a autora, era na verdade Sebastian Grey, seu primo.
Isso deixaria Harry muito constrangido.
Sebastian continuou tomando seu chá e observou Edward ler o jornal. Se ele se esticasse um pouco, conseguiria ler a parte virada para si. Sua visão sempre fora assustadoramente aguçada.
Bem, na verdade não aguçada o suficiente. O London Times usava letras muito pequenas.
Mesmo assim, ele tentou. As manchetes eram legíveis, pelo menos.
Edward pousou o jornal e olhou para ele.
– Você está mesmo tão entediado?
Seb bebeu o restante do chá.
– Extremamente. E você?
– Bastante, visto que não consigo ler o jornal com você me encarando.
– Estou incomodando tanto assim? – Seb deu um sorriso divertido. – Que maravilha.
Edward balançou a cabeça e lhe estendeu o periódico.
– Quer?
– Por Deus, não. Ontem à noite acabei ficando preso em uma conversa com lorde Worth sobre as novas tarifas alfandegárias. Ler um artigo inteiro sobre isso seria apenas um pouco mais agradável do que arrancar minhas unhas dos pés.
Edward olhou para o primo.
– Sua imaginação beira o macabro.
– Apenas beira? – murmurou Seb.
– Eu estava tentando ser educado.
– Ah, jamais tente fazer isso por minha causa.
– Tem razão.
Seb ficou em silêncio por tempo suficiente para que Edward achasse que ele havia deixado a conversa de lado e então falou: – Você está ficando meio chato com o avanço da idade, filhote.
Edward franziu as sobrancelhas.
– O que faz de você…
– Um ancião, mas um ancião interessante – respondeu Sebastian com um sorrisinho.
Fosse pelo chá ou pelo prazer de implicar com seu jovem primo, ele estava começando a se sentir melhor. Sua cabeça ainda doía, mas pelo menos não achava mais que iria arruinar o tapete.
– Pretende comparecer à recepção na casa de lady Trowbridge hoje à noite?
– Em Hampstead? – perguntou Edward.
Seb assentiu, servindo-se de mais chá.
– Creio que sim – respondeu Edward. – Não tenho nada melhor para fazer. E você?
– Algo me diz que tenho um encontro marcado no bosque com a adorável lady Cellars.
– No bosque?
– Sempre gostei da natureza – retrucou Sebastian. – Preciso apenas descobrir uma forma de levar um cobertor para a festa sem que ninguém note.
– Então você não gosta da natureza em todo o seu esplendor.
– Apenas do ar fresco e da aventura. Mas poderia passar sem os galhos e sem a grama pinicando.
Edward se levantou.
– Bem, se existe alguém capaz de dar um jeito nisso, é você.
Seb ergueu os olhos, surpreso, talvez um pouco decepcionado.
– Aonde você vai?
– Tenho um compromisso com Hoby.
– Ah.
Ele não tinha como detê-lo. Ninguém decepcionava o Sr. Hoby e ninguém poderia se meter entre um cavalheiro e suas botas.
– Você vai estar aqui quando eu voltar? – perguntou Edward, já à porta. – Ou planeja ir para casa?
– Provavelmente ainda estarei aqui – respondeu Sebastian, tomando um último gole de chá antes de se deitar novamente no sofá.
Mal tinha dado meio-dia e ainda havia muitas horas até que ele precisasse voltar para casa a fim de se arrumar para lady Trowbridge e lady Cellars.
Edward assentiu e partiu. Sebastian fechou os olhos e tentou dormir, mas depois de dez minutos desistiu e pegou o jornal.
Era muito difícil dormir quando estava sozinho.
Capítulo três
Mais tarde naquela noite
Ela não podia se casar com ele. Pelo bom Deus, não podia.
Annabel disparou pelo corredor escuro, sem se dar ao trabalho de pensar aonde estava indo.
Tentara cumprir seu dever. Tentara ter o comportamento que esperavam dela. Mas agora estava enjoada, com o estômago revirado, e precisava de ar fresco mais do que de qualquer outra coisa.
A avó tinha insistido que comparecessem à recepção anual de lady Trowbridge e, depois que Louisa explicou que o evento aconteceria um pouco longe da cidade, mais precisamente em Hampstead, Annabel ficou empolgada. Lady Trowbridge mantinha um jardim esplêndido, que se abria para o famoso bosque de Hampstead, e, se fizesse tempo bom, provavelmente espalharia tochas e enfeites por ele, permitindo que a festa se estendesse para fora da casa.
No entanto, antes mesmo que Annabel pudesse explorar além do salão de baile, lorde Newbury a encontrou. Ela fez uma mesura e sorriu, agindo como se estivesse honrada pelas atenções que ele lhe dedicava. Dançou com ele – duas vezes – e não reclamou quando o conde pisou em seu pé.
Nem quando a mão dele deslizou até suas nádegas.
Bebeu limonada com ele no canto do salão, procurando entabular uma conversa, torcendo e rezando para que algo – qualquer coisa – interessasse a ele mais do que a visão de seus seios.
E então lorde Newbury investiu contra ela no corredor. Annabel não entendeu direito como ele conseguiu fazer isso. Algo sobre um amigo e uma mensagem que precisava ser transmitida e, antes que ela pudesse perceber, estava em um canto escuro, acuada contra a parede.
– Bom Deus – gemeu ele, agarrando um dos seios dela com a mão carnuda. – Nem cabe inteiro entre meus dedos.
– Lorde Newbury! – gritou Annabel, tentando se desvencilhar dele. – Pare, por favor…
– Passe suas pernas em volta de mim – ordenou ele, pressionando seus lábios contra os dela.
– O quê? – ela tentou dizer, na verdade gritar, mas mal conseguiu abrir a boca.
O conde grunhiu e avançou, o membro duro e raivoso contra o ventre dela. Agarrou-a pelas coxas, tentando colocar a perna dela na posição que queria.
– Levante a saia se precisar. Quero ver até onde suas pernas se abrem.
– Não – ofegou ela. – Por favor. Eu não posso.
– A moral de uma dama e o corpo de uma meretriz. – Ele deu uma risadinha e apertou o mamilo dela através do tecido fino de seu vestido. – A combinação perfeita.
O pânico crescia no peito de Annabel. Ela já havia lidado com investidas indesejadas antes, mas nunca de um nobre. E jamais do homem com quem se casaria.
Era por isso que ele esperava que ela lhe desse esse tipo de liberdade? Antes mesmo de pedir sua mão?
Não, não era possível. Ele podia ser um conde, acostumado a ter todas as suas ordens atendidas, mas isso não significava que pudesse comprometer a reputação de uma jovem e respeitável dama.
– Lorde Newbury – disse ela, em tom de reprovação. – Solte-me. Imediatamente.
Ele apenas sorriu e tentou beijá-la mais uma vez. O conde fedia a peixe, suas mãos eram grandes e flácidas, e ela não conseguia suportar aquilo. Não era para ser daquele jeito. Não que esperasse romantismo, amor verdadeiro ou… Meu Deus, ela não sabia o que estava esperando.
Mas não aquilo. Não aquele homem pavoroso encurralando-a contra a parede na casa de uma estranha.
Não queria aquilo para si. Simplesmente não queria.
Annabel não sabia de onde tirara forças; ele devia pesar mais de 100 quilos. Conseguiu colocar as mãos entre eles dois e o empurrou.
Ele cambaleou e praguejou ao bater em uma mesa e quase perder o equilíbrio. Annabel teve tempo suficiente para erguer a saia e correr. Não fazia ideia se lorde Newbury a estava seguindo; não parou para olhar para trás até atravessar um conjunto de portas francesas e chegar ao que parecia ser um jardim lateral. Apoiou-se no exterior de pedra da casa e tentou recuperar o fôlego.
Seu coração batia acelerado e uma fina camada de suor cobria sua pele, fazendo-a tremer no ar frio.
Annabel se sentia suja. Não por dentro. Lorde Newbury não era capaz de fazê-la duvidar de seus próprios valores e sua consciência estava limpa. Mas se sentia suja por fora, em sua pele, onde ele a havia tocado…
Queria tomar banho. Queria pegar uma toalha e uma grande barra de sabonete e apagar cada traço de lembrança dele. Mesmo naquele momento, tinha uma impressão estranha no seio direito, no ponto onde ele havia encostado. Não era dor. Apenas uma reação inadequada que se espalhava por todo o seu corpo. Nada doía. Era apenas uma sensação indescritível de inadequação.
Ao longe, ela podia ver a luz das tochas no jardim dos fundos, mas ali o breu era quase absoluto. Obviamente, aquela parte da propriedade não tinha sido destinada aos convidados. Ela não deveria estar ali, isso era evidente, mas também não conseguiria retornar à festa. Pelo menos ainda não.
Havia um banco de pedra no meio do gramado, então ela se aproximou e se sentou, deixando escapar um sonoro “Ufa!” ao fazê-lo. Era um ruído nada feminino, associado a um tipo nada elegante de comportamento que ela não se permitia ter quando estava em Londres.
O tipo de coisa que fazia o tempo todo quando brincava despreocupadamente com os irmãos em Gloucestershire.
Sentia saudades de casa. Sentia saudades de sua cama, de seu cachorro e das tortas de ameixa de Cook.
Sentia saudades da mãe, e mais ainda do pai, mas, acima de tudo, da terra sólida sob seus pés. Annabel sabia quem ela era em Gloucestershire. Sabia o que esperavam dela. Sabia o que esperar dos outros. Seria pedir demais querer sentir que sabia o que estava fazendo? Era um desejo bem razoável.
Annabel olhou para o alto, tentando identificar as constelações. Havia muitas luzes oriundas da festa, ofuscando o céu noturno, mas as estrelas ainda brilhavam aqui e ali.
Elas tinham que atravessar a poluição, Annabel pensou, para brilhar. Era uma poluição de
luz, de brilho.
Por algum motivo, não parecia certo.
– Cinco minutos – disse ela em voz alta.
Em cinco minutos retornaria à festa. Em cinco minutos teria recuperado a compostura. Em cinco minutos seria capaz de colocar um sorriso de volta no rosto e fazer mesuras ao homem que havia acabado de violá-la.
Em cinco minutos diria a si mesma que poderia se casar com ele.
E, com sorte, em dez minutos conseguiria acreditar nisso de verdade.
No entanto, até lá, ainda tinha quatro minutos para si mesma.
Quatro minutos.
Ou não.
Annabel aguçou os ouvidos ao notar um sussurro e, franzindo a testa, virou-se sem se levantar e olhou em direção à casa. Viu duas pessoas saindo pelas portas francesas, um homem e uma mulher, a julgar pelas silhuetas, e deu um grunhido baixo. Eles deviam estar se esgueirando para um encontro furtivo. Não havia outra explicação. Se tinham procurado o jardim lateral e escolhido sair por ali, só podiam estar tentando evitar serem vistos.
Annabel não queria ser a pessoa que arruinaria tudo.
Ficou de pé e tentou encontrar uma rota alternativa para voltar à festa, mas o casal avançava rápido e, se quisesse evitá-lo, não havia o que fazer senão se embrenhar nas sombras. Ela se moveu com agilidade, não exatamente correndo, mas fazendo algo que era mais rápido do que andar, até que chegou à cerca viva que marcava os limites da propriedade. Não apreciou a ideia de se meter entre os arbustos, portanto foi se esgueirando para a esquerda, onde podia enxergar na sebe uma abertura que supostamente levava ao bosque.
O bosque. O enorme, maravilhoso e glorioso espaço que simbolizava tudo o que Londres não era.
Ela não deveria estar ali. Definitivamente, não. Louisa ficaria horrorizada. Seu avô ficaria furioso. E sua avó…
Bem, sua avó provavelmente daria risada, mas havia muito Annabel percebera que não devia pautar seus julgamentos morais pelas atitudes da avó.
Será que haveria outro caminho que ligasse o bosque ao gramado de lady Trowbridge? Era uma propriedade imensa; sem dúvida, haveria diversas passagens na sebe. Mas enquanto isso…
Ela ficou observando aquela imensidão. Era incrível encontrar tanta natureza assim tão perto da cidade. Era selvagem e escuro, e o ar tinha um frescor do qual ela não se dera conta de que sentia falta. Não era apenas o fato de ser limpo e fresco – disso ela sabia que sentia saudades desde o primeiro dia que respirara a atmosfera ligeiramente opaca de Londres. Havia uma pungência no ar dali, algo meio frio, penetrante. Cada lufada fazia seus pulmões formigarem.
Era como o paraíso.
Annabel olhou para o céu, imaginando que as estrelas estariam mais nítidas lá fora. Não estavam, não mais que antes, mas ela manteve o rosto erguido, caminhando devagar para trás enquanto admirava o fino traço da lua pendendo tropegamente acima da copa das árvores.
Era o tipo de noite que deveria ter sido mágica. E teria sido, caso ela não tivesse sido
apalpada por um homem com idade suficiente para ser seu avô. Teria sido, caso pudesse usar vermelho, o que favorecia sua tez muito mais do que o rosa-claro.
A noite teria sido mágica se o vento tivesse soprado no ritmo de uma valsa. Se o farfalhar das folhas soasse como castanholas e se um príncipe encantador a aguardasse em meio à névoa.
Não havia névoa, é claro, mas também não havia príncipe. Havia apenas um velho horroroso que queria fazer coisas horrorosas com ela. E em algum momento ela teria que permitir essas coisas.
Annabel fora beijada três vezes na vida. A primeira por Johnny Metham, que agora insistia em ser chamado de John, mas ele tinha apenas 8 anos quando seus lábios tocaram os dela –
definitivamente, ainda um Johnny. A segunda por Lawrence Fenstone, que lhe roubara um beijo na Festa da Primavera, três anos antes. Estava escuro, e alguém havia colocado rum nas duas tigelas de ponche. O vilarejo todo perdeu os sentidos. Annabel ficou surpresa, mas não com raiva
– inclusive soltou uma gargalhada quando ele tentou enfiar a língua em sua boca.
Parecia apenas a coisa mais engraçada do mundo.
Lawrence não achou aquilo nada engraçado e se deteve, seu orgulho viril aparentemente abalado demais para insistir. Ele não lhe dirigiu a palavra por um ano inteiro, até que voltou de Bristol com uma noivinha buliçosa – loura, franzina e burra. Tudo o que Annabel não era e, como ficou aliviada ao perceber, tampouco queria ser.
O terceiro beijo acontecera naquela noite, quando lorde Newbury apertou seu corpo contra o dela e depois fez o mesmo com a boca.
De repente, todo aquele episódio com a língua de Lawrence Fenstone não parecia mais tão divertido. Lorde Newbury fizera a mesma coisa, tentando forçar a língua por entre os lábios dela, mas Annabel cerrou os dentes com tanta força que achou que sua mandíbula fosse quebrar. E
depois fugiu. Sempre associara fuga a covardia, mas naquele momento, depois de ela própria ter precisado fugir, percebeu que às vezes era a única atitude prudente, ainda que agora se encontrasse sozinha num bosque, com um casal de amantes bloqueando seu caminho de volta ao salão de baile. Era quase cômico.
Quase.
Ela inspirou fundo, depois expirou, ainda caminhando lentamente de costas. Que noite. Não havia sido nada mágica. Não havia sido…
– Ops!
O calcanhar dela bateu em alguma coisa – meu Deus, era uma perna? – e ela caiu para trás.
Tudo em que conseguia pensar (por mais macabra que fosse aquela perspectiva) era que tinha tropeçado em um cadáver.
Ou, pelo menos, torcia para que fosse isso. Um cadáver certamente provocaria menos danos à sua reputação do que alguém vivo.
Sebastian era um homem paciente e não se importava em ter que esperar vinte minutos para que ele e Elizabeth pudessem retornar separadamente ao salão de baile, de modo a manter as
aparências. Ainda que ele não tivesse uma reputação a zelar, a adorável lady Cellars tinha. Não que a ligação dos dois fosse segredo. Elizabeth era jovem e bonita, já dera dois filhos ao marido e, se Sebastian havia entendido bem, lorde Cellars estava muito mais interessado em seu secretário particular do que na esposa.
Ninguém esperava que lady Cellars fosse fiel. Ninguém.
Mas as aparências precisavam ser mantidas, e Sebastian ficou esperando sobre o cobertor (diligentemente contrabandeado por um lacaio) enquanto apreciava o céu noturno.
Era bastante sossegado ali no bosque, ainda que pudesse ouvir o zum-zum-zum da festa trazido pelo vento. Ele não tinha ido muito além dos limites da propriedade de lady Trowbridge; Elizabeth não era tão aventureira assim. De todo modo, sentia-se incrivelmente solitário.
O mais estranho era que gostava daquela sensação.
Sebastian não apreciava muito a solidão. Na verdade, quase nunca. Só que havia algo de encantador em estar no bosque, ao ar livre. Aquilo lhe lembrava a guerra, todas as noites sem nada acima de sua cabeça além do dossel formado pelas copas das árvores.
Ele odiava aquelas noites.
Não fazia muito sentido que essas lembranças da guerra lhe dessem agora tanto contentamento, mas quase nada do que acontecia dentro da cabeça dele fazia sentido. Não parecia haver muito propósito, portanto, em se questionar.
Seb fechou os olhos. O interior de suas pálpebras era de um preto-acastanhado que em nada se assemelhava ao arroxeado denso da noite. A escuridão podia ter tantas cores. Era meio esquisito e talvez até um pouco perturbador, mas…
– Ops!
Um pé bateu em sua panturrilha esquerda e ele abriu os olhos bem a tempo de ver uma mulher caindo.
Diretamente em seu cobertor.
Ele sorriu. Os deuses ainda o amavam.
– Boa noite – disse ele, apoiando-se nos cotovelos.
A mulher não respondeu – o que não era de surpreender, pois ainda estava querendo entender como havia caído de repente. Ele ficou observando enquanto ela tentava se levantar. Não estava sendo muito fácil. O chão sob o cobertor era irregular, e ela havia ficado desorientada, a julgar por sua respiração acelerada.
Talvez ela também tivesse um encontro marcado. Talvez houvesse outro cavalheiro ali no bosque escuro, espreitando a distância, esperando para dar o bote.
Sebastian inclinou a cabeça de lado, observando a dama bater a sujeira do vestido, então concluiu: era bem provável que não. Ela não tinha aquele típico olhar furtivo. Além disso, usava branco, rosa-claro ou algum outro tom virginal. Debutantes podiam ser seduzidas – não que Sebastian já tivesse feito aquilo; ele obedecia a certo código moral, ainda que ninguém lhe desse crédito por isso –, mas, até onde ele sabia, as virgens precisavam ser cortejadas in situ. Era improvável que alguém conseguisse convencer uma delas a atravessar um jardim e um bosque em direção à própria ruína. Até a mais estúpida das garotas voltaria a si antes de chegar ao seu destino.
A menos que…
Isso, sim, poderia ser interessante. Talvez aquela desajeitada dama já tivesse sido deflorada.
Talvez ela tivesse ido encontrar seu amante. O prestimoso cavalheiro devia ter feito um trabalho muito bom na primeira vez para ter obtido a chance de repetir o encontro. Sebastian sabia melhor do que ninguém que era raro uma garota apreciar a primeira vez.
Por outro lado, sua estatística podia não ser das mais precisas. Todas as mulheres com quem dormira nos últimos tempos tinham tido sua primeira vez com o marido. Que eram, quase por definição, ruins de cama. Do contrário, por que suas esposas iriam procurar a atenção de Sebastian?
De um jeito ou de outro, por mais delicioso que fosse ficar ali conjecturando, era extremamente improvável que aquela dama estivesse a caminho de se encontrar com um amante.
A virgindade era a única commodity de que dispunham mulheres jovens e solteiras, e elas não costumavam desperdiçá-la.
O que ela estava fazendo ali então? Completamente sozinha? Ele sorriu. Adorava um bom mistério. Quase tanto quanto um bom melodrama.
– Posso ajudá-la de alguma forma? – perguntou ele, já que ela não havia respondido à sua saudação anterior.
– Não – disse ela, balançando a cabeça rapidamente. – Sinto muito. Vou seguir meu rumo.
Não posso de jeito nenhum… – Ela olhou para ele e engoliu em seco.
Ela o conhecia? Sem dúvida, dera a impressão de tê-lo reconhecido. Ou talvez apenas o tivesse visto como ele era, um tipo libertino, alguém com quem ela não deveria estar a sós.
Sebastian não a culpava por aquela reação.
Ele não a conhecia, disso tinha certeza. Raramente esquecia um rosto, e com certeza não teria esquecido o dela. A mulher era encantadora de um jeito selvagem, quase como se pertencesse ao bosque. Seu cabelo era escuro e provavelmente encaracolado; os poucos cachos que escapavam do penteado formavam pequenas molas que roçavam seu pescoço. Ela parecia ser bem-humorada, um pouco desbocada – mesmo naquele estado, visivelmente desconcertada e envergonhada.
Acima de tudo, ela parecia… quente.
Ele ficou intrigado por escolher aqueles adjetivos. Não lembrava se os tinha usado antes, pelo menos para se referir a uma completa estranha. Mas ela parecia quente, como se sua personalidade fosse quente, e sua risada devia ser quente, bem como sua amizade.
E na cama… Ela seria quente lá também.
Não que ele estivesse pensando nisso. Apesar de todo aquele calor, ela irradiava virgindade.
O que significava que estava além do proibido.
Não havia nenhum interesse por parte dele. Nenhum. Sebastian não podia nem ser amigo das virgens, porque alguém interpretaria mal, então viriam as censuras ou, pior, as expectativas, e ele teria que se recolher em alguma cabana no meio da Escócia só para ficar longe daquilo tudo.
Sebastian sabia o que deveria fazer. Sempre sabia. A parte difícil – para ele, pelo menos – era propriamente fazer.
Ele poderia se levantar, como o cavalheiro que era, e encaminhá-la de volta para a casa.
Poderia, mas qual seria a graça disso?
Capítulo quatro
Quando o cadáver deu boa-noite, Annabel teve que encarar a sombria realidade de que ele não estava tão morto quanto ela esperava.
Ficou feliz por ele, é claro, não estar morto e tudo o mais, mas quanto a si mesma, bem, a não morte dele era muito inconveniente.
Meu bom Deus – ela teve vontade de grunhir –, o que mais falta acontecer esta noite?
Annabel recusou educadamente a oferta de ajuda e de alguma forma conseguiu ficar de pé sem causar mais constrangimentos.
– O que a traz ao bosque? – perguntou o sujeito nada morto em tom casual, como se estivessem conversando dentro de uma igreja, da forma mais recatada possível.
Ela baixou os olhos. Ele ainda estava deitado no cobertor… O cobertor! Ele tinha um cobertor?
Aquilo não era nada bom.
– Por que o senhor quer saber? – Annabel se ouviu perguntar.
O que lhe pareceu uma prova de que havia perdido de vista a sanidade. Ela indiscutivelmente deveria ter dado a volta nele e corrido para a casa. Ou passado por cima dele. Ou em cima. De todo modo, não deveria estar ali falando com ele. Ainda que esbarrasse com os amantes no jardim, isso certamente seria menos perigoso para sua reputação do que ser vista a sós com um estranho no bosque.
No entanto, se ele planejava pular em cima dela e violentá-la, não estava com nenhuma pressa. Apenas deu de ombros e respondeu: – Curiosidade.
Annabel o encarou por um instante. O homem não lhe era familiar, mas estava muito escuro.
E falava com ela como se já tivessem sido apresentados.
– Eu conheço o senhor? – indagou ela.
– Acho que não – retrucou ele, com um sorriso misterioso.
– Eu deveria?
Ao ouvir aquilo, ele riu e disse, com convicção:
– Com certeza, não. Mas isso não significa que não possamos ter uma conversa perfeitamente agradável.
Diante daquela resposta, Annabel deduziu que ele era um pervertido e que sabia muito bem disso, uma companhia inadequada para uma dama solteira, sem sombra de dúvida. Ela olhou na direção da casa. Precisava ir. Precisava mesmo ir.
– Eu não mordo – assegurou ele. – Nem faço nada com que deva se preocupar. – O homem se sentou e deu um tapinha no cobertor ao lado dele. – Sente-se.
– Prefiro ficar de pé – respondeu Annabel.
Porque ainda não tinha perdido completamente o juízo. Pelo menos esperava que não.
– Tem certeza? – Ele abriu um sorriso sedutor. – É muito mais confortável aqui embaixo.
Disse a aranha para a mosca. Annabel conseguiu segurar uma risadinha de nervosismo.
– A senhorita está evitando alguém? – questionou ele.
Ela tinha voltado a olhar na direção da casa, mas aquela pergunta a fez se virar.
– Pode acontecer com qualquer um – continuou ele, quase em tom de desculpas.
– O senhor está evitando alguém então?
– Não exatamente – admitiu ele, inclinando a cabeça de um jeito que era quase como dar de ombros. – O mais correto seria dizer que estou esperando a minha hora.
Annabel queria muito parecer impassível, mas sentiu que seus olhos se arregalavam.
Ele a encarou, os lábios curvados num ligeiro sorriso. Não havia nenhuma perversão no semblante dele, mas isso não mudou o modo como ela se sentia, um arrepio de ansiedade, uma pitada de excitação atravessando seu corpo.
– Eu poderia lhe dar mais detalhes – murmurou ele –, mas desconfio que não seja adequado.
Nada naquela noite tinha sido adequado. Dificilmente ficaria pior.
– Não tenho a intenção de presumir nada – continuou ele, numa voz suave –, mas, com base na cor do seu vestido, só posso deduzir que a senhorita não seja casada.
Ela assentiu rapidamente.
– O que significa que em circunstância alguma eu deveria lhe contar que estava aqui com uma mulher que não é minha esposa.
Ah, ela deveria ficar escandalizada. Deveria mesmo. Mas não conseguiu. Ele era tão charmoso. Transbordava charme. Estava sorrindo para ela agora, como se tivesse contado uma piada que só eles entendiam, e Annabel não conseguiu evitar – queria fazer parte daquilo. Queria fazer parte do clube, do grupo, de qualquer coisa em que ele também estivesse. Havia algo naquele homem – um carisma, um magnetismo –, e ela sabia, tinha certeza, que se pudesse viajar no tempo e no espaço, digamos, para Eton ou onde quer que ele tivesse estudado, ele seria o garoto de quem todo mundo queria estar perto.
Algumas pessoas simplesmente nasciam assim.
– Quem a senhorita está evitando? – perguntou ele. – O candidato mais provável é um pretendente muito ansioso, mas isso não explicaria uma fuga até aqui. É muito mais fácil se perder em meio à multidão, além de ser muito menos perigoso para a reputação.
– Não posso dizer – murmurou ela.
– Não, é claro que não – concordou ele. – Seria indiscreto. Só que vai ser muito mais divertido se o fizer.
Annabel mordeu o lábio, tentando conter um sorriso.
– Alguém vai dar pela sua falta? – indagou ele.
– Em algum momento, sim.
Ele assentiu.
– A pessoa que a senhorita está evitando?
Annabel pensou em lorde Newbury e em seu orgulho ferido.
– Julgo que ainda tenho algum tempo antes que ele comece a procurar por mim.
– Ele? – disse o cavalheiro. – Esse enredo está ficando cada vez melhor.
– Enredo? – repetiu ela, com uma careta. – Não é uma boa palavra. Ninguém gostaria de ler esse livro. Pode acreditar.
O homem riu e, em seguida, deu outro tapinha no cobertor.
– Sente-se. Ofende absolutamente todos os meus princípios cavalheirescos que a senhorita esteja aí em pé enquanto estou aqui quase deitado.
Ela fez sua melhor encenação de autoconfiança.
– Talvez o senhor devesse se levantar.
– Ah, não, eu não poderia. Isso tornaria tudo formal demais, não acha?
– Levando em conta que não fomos apresentados, formalidade pode ser o correto.
– Ah, não – objetou ele. – A senhorita entendeu errado.
– Então eu é que deveria ter me apresentado?
– Não faça isso – retrucou ele, com um toque sutil de drama. – Aconteça o que acontecer, não me diga seu nome. É provável que isso desperte minha consciência, e essa é a última coisa que queremos.
– O senhor tem uma consciência?
– Infelizmente, sim.
Aquilo era um alívio. Ele não iria arrastá-la para o meio da escuridão e não iria violentá-la como lorde Newbury. Mas, independentemente disso, ela precisava retornar à festa. Com consciência ou não, ele não era o tipo de cavalheiro com quem uma jovem solteira deveria ficar a sós. Disso ela estava absolutamente certa.
Voltou à sua mente a lembrança de lorde Newbury, que era o tipo de homem com quem ela deveria estar.
Annabel se sentou ao lado do cavalheiro.
– Excelente decisão – comemorou ele.
– Apenas por um instante – murmurou ela.
– Naturalmente.
– Não é por sua causa – disse ela, sentindo-se um pouco atrevida. Não queria que ele pensasse que decidira ficar ali por causa dele.
– Não é?
– Lá. – Ela apontou para o jardim lateral, abanando ligeiramente a mão. – Há um homem e uma mulher… bem…
– Desfrutando da companhia um do outro?
– Exato.
– Ou seja, a senhorita não pode voltar para a festa.
– Eu preferiria não ter que interrompê-los.
– Seria constrangedor. – O cavalheiro assentiu, consternado.
– Indiscutivelmente.
Ele franziu o cenho, pensativo.
– Se fossem dois homens, seria ainda mais constrangedor, acredito.
Annabel bufou, apesar de não ter sentido a indignação que achava que deveria. Era inebriante demais estar perto dele, compartilhar de seus chistes.
– Ou duas mulheres. Isso eu não me incomodaria de testemunhar.
Annabel se virou, tentando instintivamente esconder o rubor, depois se sentiu boba porque era provável que ele não conseguisse ver, de tão escuro que estava.
Ou talvez conseguisse. Ele parecia ser o tipo de homem que sabia quando uma mulher corava com base no aroma do vento ou no alinhamento estelar.
Era um homem que conhecia as mulheres.
– Não acredito que a senhorita não tenha dado uma boa olhada neles – disse ele, e então acrescentou: – Em nossos amigos enamorados.
Annabel balançou a cabeça.
– Eu estava mais preocupada em fugir.
– Claro. Muito sensato de sua parte. Muito triste, também. Se eu soubesse quem são, poderia ter uma noção melhor de quanto tempo vão levar.
– Sério?
– Nem todos os homens vêm iguais ao mundo, sabe? – disse ele, modestamente.
– Desconfio que eu não deva tentar averiguar essa afirmação – retrucou ela, ousada.
– Não, se a senhorita for mesmo sensata.
Ele voltou a sorrir para ela, e, Deus do céu, era de tirar o fôlego.
Quem quer que fosse aquele homem, devia ser amigo dos deuses da odontologia. Seus dentes eram brancos e uniformes e seu sorriso era largo e contagiante.
O que não era nada justo. Os dentes inferiores dela estavam todos desordenados, assim como o de todos os seus irmãos. Um cirurgião dissera uma vez que poderia consertá-los, mas, quando ele foi atrás dela com um boticão, Annabel saiu correndo.
Mas aquele homem – ele tinha um sorriso que chegava até os olhos, iluminava o rosto, iluminava todo o aposento. O que era algo ridículo de se dizer, porque estavam ao ar livre. E
estava escuro. Ainda assim, Annabel seria capaz de jurar que o ar ao redor deles tinha começado a brilhar e reluzir.
Ou ela havia bebido ponche da tigela errada. Havia uma para as jovens damas e outra para os demais, e Annabel tinha certeza de que… ou talvez quase certeza. Fora a tigela da direita. Louisa dissera que era a da direita, não?
Bem, tinha cinquenta por cento de chance, na pior das hipóteses.
– O senhor conhece todo mundo? – perguntou ela, porque, honestamente, foi impossível evitar. E fora ele que havia puxado o assunto.
Ele arregalou os olhos, confuso.
– Perdão, não entendi.
– O senhor pediu uma descrição do casal – explicou Annabel. – Conhece todo mundo ou apenas aqueles que se comportam de forma inapropriada?
Ele riu alto.
– Não, não conheço todo mundo, mas, infelizmente, mais infeliz até do que o fato de eu ter uma consciência, eu conheço quase todo mundo.
Annabel refletiu sobre algumas das pessoas que conhecera nas semanas anteriores e deu um sorriso espirituoso.
– Compreendo quanto isso pode ser desanimador.
– Uma dama com inteligência e bom julgamento – disse ele. – Meu tipo preferido.
Ele estava flertando com ela. Annabel lutou contra o prazer que pareceu reverberar em suas veias. O cavalheiro era realmente muito bonito. Seus cabelos eram escuros, entre o castanho e o chocolate, eriçados e rebeldes de um jeito que todos os jovens gastariam horas tentando alcançar.
Seu rosto era… Bem, Annabel não era artista e nunca havia aprendido a descrever um rosto, mas o dele era de alguma forma assimétrico e perfeito ao mesmo tempo.
– Estou muito feliz que o senhor tenha consciência de seus atos – sussurrou para si mesma.
Ele olhou para ela e até se inclinou de leve para a frente, os olhos brilhando em divertimento.
– O que disse?
Ela se sentiu corar, e dessa vez sabia que ele podia ver. O que deveria falar agora? Estou muito feliz que o senhor tenha consciência de seus atos porque, se tentasse me beijar, tenho certeza absoluta de que eu permitiria – isso?
O homem era tudo o que lorde Newbury não era. Jovem, bonito, espirituoso. Um pouco atrevido, tanto quanto perigoso. Era o tipo de cavalheiro que jovens damas juravam querer evitar, mas com o qual sonhavam em segredo. E, por mais alguns minutos, ela o teria só para si.
Apenas mais alguns minutos. Ela se permitiria por mais alguns minutos. Somente isso.
Ele devia ter percebido que ela não iria repetir o que dissera. Então perguntou (mais uma vez, como se fosse uma conversa casual): – Esta é sua primeira temporada?
– É, sim.
– Está se divertindo?
– Depende do ponto de vista.
Ele deu um sorriso sarcástico.
– Uma verdade incontestável. Está se divertindo agora?
O coração de Annabel pulava dentro do peito.
– Deveras – disse ela, incrédula diante da placidez em sua voz.
Ela estava cada vez melhor nas encenações que faziam parte da conversa na cidade.
– Fico feliz em ouvir isso. – Ele inclinou-se ligeiramente na direção dela, sua cabeça caindo de lado em um gesto quase autodepreciativo. – Tenho muito orgulho de ser um excelente anfitrião.
Annabel observou o cobertor, depois o encarou outra vez, hesitante.
Ele a admirava calorosamente.
– De fato, é preciso ser um bom anfitrião, por mais humildes que sejam as dependências.
– Certamente o senhor não está tentando me convencer de que mora aqui neste bosque.
– Por Deus, não. Prezo muito minhas regalias para isso. Mas seria divertido, não acha, por um dia ou dois?
– Por algum motivo, desconfio que toda a graça dessa novidade desapareceria ao primeiro raio de sol.
– Não – ponderou ele.
Seus olhos assumiram uma expressão distante.
– Talvez um pouco depois – disse ele, após um instante –, mas não logo ao primeiro raio de sol.
Ela desejou perguntar o que ele queria dizer com aquilo, mas não sabia como. O homem parecia tão perdido em pensamentos que seria quase rude interrompê-lo. Portanto, Annabel aguardou, observando-o com curiosidade. Sabia que, se ele se virasse, conseguiria ler a pergunta nos olhos dela.
Ele não se voltou para ela, mas, depois de um minuto mais ou menos, explicou: – De manhã é diferente. A luz é mais uniforme. Mais avermelhada. A luz se mistura à névoa, quase como se viesse das profundezas. Tudo fica diferente – disse ele suavemente. – Tudo.
Annabel perdeu o fôlego. Ele parecia tão melancólico… Isso a fez desejar ficar ali, exatamente onde estava, no cobertor, ao lado dele, até que o sol começasse a despontar no horizonte. Ele a fizera desejar ver como era o bosque sob a luz da alvorada. Ele a fizera desejar ver como ele era sob a luz da alvorada.
– Eu gostaria de me banhar nela – murmurou ele. – Na luz da alvorada, e nada mais.
Aquilo deveria ter soado ultrajante, mas Annabel percebeu que ele não estava se referindo a ela. Durante toda a conversa ele a cutucara e a provocara, testando até onde conseguiria ir antes de ela se encher de brio e sair correndo. Mas aquilo… aquilo talvez tivesse sido a coisa mais sugestiva que ele havia dito, e ela sabia que…
Não tinha sido para ela.
– Acho que o senhor é um poeta – disse ela com um sorriso, porque, por algum motivo, tudo aquilo lhe proporcionava uma enorme alegria.
Ele deixou escapar uma risadinha.
– Seria incrível se fosse verdade.
O homem a encarou novamente, e Annabel soube que o momento havia se perdido.
Quaisquer que fossem os recônditos de seu ser nos quais tinha mergulhado, ele os havia guardado de volta numa caixa bem fechada e retornado ao papel de audacioso conquistador, o homem que todas as garotas desejavam.
O homem que todos os homens desejavam ser. E ela nem mesmo sabia o nome dele.
Melhor assim, no entanto. Um dia acabaria descobrindo quem ele era, e vice-versa, e então ele sentiria pena dela, a pobre garota forçada a se casar com lorde Newbury. Ou talvez a desprezasse, julgando que o casamento era por interesse, o que obviamente era.
Ela se sentou sobre as pernas dobradas, não propriamente ajoelhada, mas jogando o peso no lado direito do corpo. Era seu jeito preferido de se sentar, absolutamente inapropriado em Londres, mas indiscutivelmente a forma como seu corpo gostava de ficar. Olhou para a frente e notou que estava olhando na direção oposta à casa. Havia algo de bom naquilo. Não tinha certeza da direção para a qual uma bússola apontaria; estaria ela virada para oeste, na direção de Gloucestershire? Ou para leste, na direção do continente, aonde ela nunca fora e provavelmente jamais iria? Lorde Newbury não parecia o tipo de pessoa que gostava de viajar, e, como o interesse dele por ela se limitava aos seus talentos para engravidar, Annabel duvidava muito que ele permitiria que ela se aventurasse sem ele.
Ela sempre quisera conhecer Roma. Era bem provável que isso jamais acontecesse, mesmo que lorde Newbury não estivesse cobiçando seus quadris largos, mas a possibilidade sempre existiria.
Annabel fechou os olhos por um momento, quase como de luto. Já tinha começado a encarar o casamento como um fato consumado. Vinha dizendo a si mesma que ainda poderia recusar a proposta, mas isso era apenas um cantinho desesperado de seu cérebro tentando se impor. O
restante dele já havia se resignado.
Então era isso. Ela ia mesmo se casar com lorde Newbury, se ele pedisse sua mão. Por mais repulsiva e aterrorizante que fosse a perspectiva daquilo, ela o faria.
Annabel deu um suspiro, sentindo-se completamente derrotada. Nada de Roma, nem romantismo, nem centenas de outras coisas das quais ela nem conseguia mais se lembrar. Por outro lado, sua família seria sustentada e, como sua avó dissera, talvez Newbury morresse em breve. Era perverso, imoral, torcer por isso, mas ela achava que não seria capaz de embarcar naquele casamento sem se apegar a esse pensamento como uma tábua de salvação.
– A senhorita parece meio distraída – disse a voz cálida bem junto dela.
Annabel assentiu lentamente.
– Uma moeda por seus pensamentos.
– Estava só pensando – disse ela, com um sorriso melancólico.
– Em todas as coisas que deve fazer – ele tentou adivinhar.
– Não. – Ela ficou em silêncio por um momento, e então disse: – Em todas as coisas que eu nunca vou fazer.
– Entendo. – Ele ficou em silêncio por um momento, depois disse: – Sinto muito.
Ela se virou de repente, esfregando os olhos e encarando-o com uma expressão de curiosidade.
– Já esteve em Roma? É uma pergunta sem sentido, eu sei, porque nem mesmo sei o seu nome e não quero saber, pelo menos não esta noite, mas… Já esteve lá?
Ele fez que não com a cabeça.
– E a senhorita?
– Não.
– Estive em Paris – disse ele. – E Madri.
– O senhor era um soldado – afirmou ela.
O que mais ele poderia ter sido para visitar essas cidades naqueles tempos?
Ele deu de ombros.
– Não é a maneira mais agradável de conhecer o mundo, mas já é alguma coisa.
– Este lugar aqui é o mais longe de casa que já estive – comentou Annabel.
– Aqui? – Ele olhou para ela, piscou, depois apontou para baixo. – Neste bosque?
– Neste bosque – confirmou ela. – Acho que Hampstead fica mais longe de onde moro do que Londres. Ou talvez não.
– Que diferença faz?
– Toda – disse ela, surpreendendo-se com sua resposta, porque obviamente não fazia diferença nenhuma.
Ainda assim, tinha a sensação de que fazia.
– Não há o que contra-argumentar diante de tamanha certeza – concluiu ele em um murmúrio sorridente.
Ela sentiu um sorriso se abrir no próprio rosto.
– Gosto muito de ter certeza.
– Quem não gosta?
– As pessoas espertas, com certeza – disse ela maliciosamente, entrando na brincadeira.
– Há quem diga que é uma estupidez estar certo o tempo todo.
– É mesmo? Quem?
– Ah, não eu – assegurou ele.
Ela riu, uma risada verdadeira, que vinha lá do fundo. Uma risada alta e deselegante, mas a sensação foi maravilhosa.
Ele riu também, e então perguntou:
– Roma, imagino, está na lista de coisas que nunca vai fazer?
– Sim – respondeu ela, os pulmões ainda formigando de tanta alegria.
Não parecia mais tão triste o fato de que jamais veria Roma. Não enquanto estivesse rindo em alto e bom som.
– Ouvi dizer que pode estar um pouco empoeirada.
Os dois estavam olhando para a frente, então Annabel virou a cabeça, alinhando o queixo com o ombro.
– Verdade?
Ele se virou também, de modo a encará-la.
– Quando não está chovendo.
– Foi o que lhe disseram – afirmou ela.
Ele deu um leve sorriso, quase sem mexer a boca.
– Foi o que me disseram.
Os olhos dele… Ah, que olhos! Os olhos dele encontraram os dela com a mais surpreendente franqueza. E o que ela viu neles… não era paixão. Afinal, por que seria? Mesmo assim era algo incrível, com um quê de sedução, de cumplicidade e de…
De decepção. Era uma decepção. Porque, enquanto estava ali olhando para ele, para aquele homem lindo que podia muito bem ser apenas fruto de sua imaginação, tudo o que ela via era o rosto de lorde Newbury, vermelho e flácido, e a voz do conde começou a ecoar em seus ouvidos, risonha, zombeteira, fazendo Annabel ser subitamente tomada por uma tristeza avassaladora.
Aquele momento… qualquer momento como aquele…
Annabel não merecia.
– Preciso voltar – disse ela em voz baixa.
– Estou certo de que precisa – concordou ele, igualmente solene.
Ela não se mexeu. Simplesmente não conseguiu.
E então ele se levantou, porque era, como ela suspeitava, um cavalheiro. Ele lhe estendeu a mão, e ela a pegou, e então, como se estivesse flutuando, ficou de pé, ergueu o queixo, levantou os olhos em direção aos dele, e foi quando ela viu… sua vida, bem diante de si.
Todas as coisas que jamais teria.
Ela sussurrou:
– O senhor me daria um beijo?
Capítulo cinco
Havia mil razões pelas quais Sebastian não deveria fazer o que a jovem dama pedia, e apenas uma – desejo – pela qual deveria.
Ele se deixou levar pelo desejo.
Nem havia percebido que a desejava. Notou, claro, que ela era adorável, sensual até, de uma forma deliciosamente espontânea. Mas ele sempre percebia esse tipo de coisa nas mulheres. Era tão natural quanto saber se ia chover. O lábio inferior de Lydia Smithstone é surpreendentemente atraente não era muito diferente de Aquela nuvem ali parece um pouco carregada.
Pelo menos não na cabeça dele.
No entanto, quando ela pegou a mão dele, e a pele dele tocou a dela, algo se acendeu. Seu coração deu um pulo, o ar pareceu lhe faltar e, quando a jovem se levantou, era como se fosse uma criatura mágica e serena, trazida pelo vento até os braços dele.