Dez coisas que eu amo em você
Créditos: SBD
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Exceto pelo fato de que, quando ficou de pé, não foi parar nos braços dele. Ela ficou de pé diante dele. Perto, mas não o suficiente.
Sebastian se sentiu desolado.
– Me beije – sussurrou ela, e ele não pôde evitar, assim como não pôde evitar que seu coração disparasse. Sebastian levou os dedos dela até os lábios, depois tocou sua face. Os olhos dela encontraram os dele, um olhar penetrante e repleto de desejo.
E então ele também estava cheio de desejo. O que quer que tivesse visto nos olhos dela, de alguma forma mexera com ele, de um jeito doce e meigo. Ávido, até.
Avidez. Ele não conseguia lembrar a última vez que sentira algo próximo da avidez.
Isso o fez desejar aquele beijo – desejá-la – com uma intensidade inédita.
Não se sentiu quente. Não estava com calor. Mas algo dentro dele – talvez sua consciência, talvez sua alma – pegava fogo.
Sebastian não sabia o nome dela, não sabia nada sobre ela exceto que sonhava conhecer Roma e tinha o perfume das violetas.
E tinha gosto de baunilha. Agora ele sabia. Agora ele sabia, pensou enquanto sua língua roçava com delicadeza os lábios dela, e jamais se esqueceria.
Quantas mulheres ele já tinha beijado? Um número incalculável. Começara a beijar garotas muito antes de entender que havia outras coisas a fazer com elas – e desde então nunca mais parou. Ainda rapaz em Hampshire, servindo como soldado na Espanha, como um libertino em Londres… as mulheres sempre o deixaram intrigado. E ele se lembrava de todas. De verdade.
Sebastian tinha o sexo frágil na mais alta conta, de modo que jamais permitiria que elas todas se fundissem em uma mancha nebulosa em sua cabeça.
Mas aquilo era diferente. Não era apenas a mulher que ele não iria esquecer, era o momento.
Era a sensação dela em seus braços, o cheiro de sua pele, o sabor, o toque e o som incrivelmente perfeito que ela emitiu quando sua respiração se transformou num leve gemido.
Ele se lembraria da temperatura, da direção do vento, da tonalidade prateada de luz que a lua lançava sobre o gramado lá fora.
Não se atreveu a beijá-la profundamente. Ela era inocente. Era esperta e prudente, mas era inocente, e ele poderia apostar que não havia sido beijada mais que duas vezes. Então deu a ela o típico primeiro beijo com o qual todas as jovens sonhavam. Suave. Delicado. Um leve toque de lábios, uma leve fricção, um rápido e malicioso toque de língua.
E precisava parar por ali. Havia coisas que um cavalheiro não podia fazer, por mais mágico que fosse o momento. Portanto, com enorme relutância, ele se afastou.
Mas só um pouco, de modo que seu nariz ainda roçasse no dela.
Sebastian sorriu.
Estava feliz.
De repente, ela perguntou:
– É só isso?
Ele ficou totalmente imóvel.
– Perdão?
– Eu estava esperando mais – comentou ela, sem ser rude. Na verdade, mais do que qualquer outra coisa, ela parecia perplexa.
Ele segurou o riso. Sabia que não deveria rir. Ela era tão espontânea; rir seria mais do que um insulto. Sebastian mordeu o lábio, tentando conter a gargalhada que se agitava dentro dele.
– Foi bom – concluiu ela, e por um segundo parecia que tentava tranquilizá-lo.
Ele teve que morder a língua. Não havia outro jeito.
– Está tudo bem – disse ela, abrindo o tipo de sorriso compadecido que se dá a uma criança que não é muito boa num jogo.
Sebastian abriu a boca para dizer o nome dela, depois lembrou que não sabia qual era.
Ele levantou a mão. O dedo, para ser mais exato. Uma diretiva simples e concisa. Alto lá, dizia claramente aquele gesto. Nem mais uma palavra.
Ela arregalou os olhos, confusa.
– Tem mais – avisou ele.
A mulher ia começar a falar alguma coisa.
Ele pressionou o dedo nos lábios dela.
– Pode apostar que tem.
E, dessa vez, ele a beijou de verdade. Apertou os lábios contra os dela, explorou, mordiscou, devorou. Abraçou-a com força, até conseguir sentir cada uma daquelas voluptuosas curvas contra si.
E ela era luxuriante. Não, ela era a luxúria em pessoa. Tinha um corpo de mulher feita, sinuoso e quente, com curvas suaves que imploravam para serem apalpadas e apertadas. Era o tipo de mulher em que um homem poderia se perder, renunciando de bom grado à razão e ao bom senso.
Era o tipo de mulher que um homem não abandonaria no meio da noite. Ela era quente e macia, voluptuosa, como um travesseiro e um cobertor embolados.
Ela era uma sereia. Uma tentação exótica e deslumbrante, mas de alguma forma absolutamente inocente. Ela não tinha nenhuma ideia do que estava fazendo. Diabo, provavelmente não tinha ideia do que ele estava fazendo. No entanto, bastava um mero sorriso, um leve suspiro, e ele estaria perdido.
Sebastian a desejava. Desejava conhecê-la. Cada centímetro dela. Seu sangue fervia, seu corpo cantava, e, se ele não tivesse ouvido um grito estridente vindo inesperadamente da casa, sabe lá Deus do que teria sido capaz.
A jovem também se empertigou e virou a cabeça levemente para a direita, na direção de onde viera a comoção. Foi o suficiente para Sebastian recuperar os sentidos, ou pelo menos uma parte deles. Ele a afastou, com menos delicadeza do que pretendia, e pôs a mão na cintura, respirando com dificuldade.
– Isso foi mais – disse ela, parecendo atordoada.
Ele a observou. Seu penteado não estava completamente desfeito, mas com certeza mais solto do que antes. E os lábios… Ele tinha achado que eram grossos e carnudos, mas agora pareciam inchados.
Qualquer um que já beijara alguma vez na vida saberia que ela havia acabado de ser beijada.
Beijada de verdade.
– Talvez seja melhor ajeitar seu penteado – aconselhou ele, e sabia que era o comentário pós-beijo menos apropriado que já fizera.
Mas ele não parecia apto a lançar mão de seu talento habitual. Aparentemente, estilo e graça exigiam presença de espírito.
Quem diria?
– Ah – murmurou ela, apalpando imediatamente o cabelo, tentando, sem sucesso, arrumá-lo.
– Sinto muito.
Não que ela tivesse de que se desculpar, mas Sebastian estava muito ocupado colocando a cabeça no lugar para ser capaz de contra-argumentar.
– Isso não deveria ter acontecido – disse ele por fim.
Porque era verdade. Ele sabia muito bem disso. Não costumava brincar com damas inocentes, muito menos (quase) à vista de um salão de baile lotado.
Ele não perdeu o controle. Não era seu estilo. Estava furioso consigo mesmo. Furioso. Uma emoção desconhecida e totalmente desagradável. Ele sentia piedade, tinha um humor um bocado autodepreciativo e poderia escrever um livro sobre aborrecimento, mas fúria?
Não era algo com que quisesse se envolver. Não em relação a outras pessoas, muito menos em relação a si mesmo.
Se ela não tivesse pedido… se não tivesse olhado para ele com aqueles olhos enormes, aquele olhar profundo, e sussurrado “Me beije”, Sebastian jamais teria feito aquilo. Era uma desculpa esfarrapada, ele sabia disso, mas havia algum consolo em estar ciente de que não fora ele quem tinha começado tudo.
Algum, mas não muito. Sebastian podia até ter seus pecados, mas mentiroso não era.
– Me desculpe por ter lhe pedido – disse ela em um tom formal.
Ele se sentiu um pouco culpado.
– Eu tinha a obrigação de atendê-la – respondeu ele, mas não com a devida delicadeza.
– É evidente que sou irresistível – rebateu ela.
Sebastian lhe lançou um olhar afiado. Ela era irresistível mesmo. Tinha o corpo de uma deusa e o sorriso de uma sereia. Naquele momento, cada gota de sua força de vontade estava sendo gasta para conter o desejo de se jogar sobre ela. Deitá-la no chão. Beijá-la de novo… e de novo…
Ele sentiu um arrepio. Aquilo não era nada bom.
– O senhor deveria ir – disse ela.
Ele conseguiu mexer o braço em um movimento cavalheiresco.
– Primeiro as damas.
Ela arregalou os olhos.
– Eu não vou voltar para lá antes do senhor.
– Acha mesmo que vou voltar para lá e deixá-la sozinha aqui no bosque?
Ela pôs as mãos na cintura.
– O senhor me beijou sem sequer saber meu nome.
– A senhorita também – retrucou ele.
Ela abriu a boca simulando indignação, e Sebastian sentiu uma estranha satisfação por ter ganhado dela nessa. O que era um tanto perturbador. Ele adorava uma boa interação verbal, mas, por Deus, deveria ser uma dança, não uma maldita competição.
Por um minuto que pareceu uma eternidade, os dois se encararam, e Sebastian não sabia se esperava que ela deixasse escapar seu nome ou exigisse que ele revelasse o dele.
Na verdade, suspeitava que ela estivesse diante da mesma dúvida.
Mas ela não falou nada, apenas ficou olhando para ele.
– Apesar de minhas mais recentes atitudes – disse ele por fim, porque um deles tinha que agir com maturidade, e desconfiou que isso cabia a si –, eu sou um cavalheiro. Como tal, não posso em sã consciência abandoná-la na natureza selvagem.
Ela arqueou as sobrancelhas e olhou de um lado para outro.
– Chama isto de natureza selvagem?
Sebastian começou a se perguntar o que havia naquela garota que o deixara tão louco. Por Deus, ela sabia ser irritante quando queria.
– Aceite minhas desculpas – rebateu ele, com sofisticação urbana suficiente para se sentir um pouco mais no controle da situação. – Eu claramente errei. – Ele sorriu para ela com candura.
– E se aquele casal ainda estiver… – As palavras se desvaneceram quando ela apontou para o jardim lateral.
Sebastian soltou um suspiro de preocupação. Caso estivesse sozinho, o que deveria ter acontecido, teria passado pelo jardim com um alegre “Chegando! Se alguém aí estiver com uma pessoa a quem não deva uma obrigação legal, por favor, esconda-se!”.
Teria sido divertido. E seria justamente o que a sociedade esperava dele.
Mas seria impossível fazer aquilo com uma dama solteira a reboque.
– É muito provável que eles já tenham ido embora – disse ele enquanto se aproximava da passagem na cerca e espiava. Então se virou e acrescentou: – Caso não tenham, eles querem ser vistos tanto quanto você. Apenas baixe a cabeça e abra caminho.
– O senhor parece ter muita experiência nesse tipo de coisa.
– Bastante.
Bem, ele tinha mesmo.
– Entendo. – A mandíbula dela ficou rígida, e ele suspeitou que, se estivesse mais perto, seria capaz de ouvir os dentes dela rangendo. – Que privilégio o meu. Estou aprendendo com um mestre.
– Sorte sua.
– É sempre tão desprezível com as mulheres?
– Quase nunca – respondeu ele sem pestanejar.
A boca dela se abriu, e ele teve vontade de se dar uma surra. Ela conseguiu disfarçar, sem dúvida era uma jovem de reflexos emocionais rápidos, mas, antes que a surpresa dela se transformasse em indignação, Sebastian pôde ver um lampejo autêntico de mágoa.
– Quero dizer – começou ele, sem propriamente lutar contra a vontade de gritar –, é que quando eu… Não. Quando você…
Ela o encarou, ansiosa. Ele não tinha ideia do que dizer. E percebeu, enquanto estava ali fazendo papel de idiota, que havia pelo menos dez coisas que tornavam aquela situação completamente inaceitável.
Um: Ele não tinha ideia do que dizer. Pode parecer repetitivo, exceto pelo fato de que dois: ele sempre sabia o que dizer, três: principalmente às mulheres.
O que naturalmente levava a quatro: uma oportuna consequência daquele desembaraço era que cinco: ele nunca insultara uma mulher em toda a sua vida, a menos que ela realmente merecesse, e seis: aquela mulher não merecia. Isso significava que sete: ele precisava se desculpar, mas oito: não tinha a menor ideia de como fazê-lo.
Saber pedir desculpas de maneira adequada estava ligado à tendência a se comportar de modo a ter que pedi-las com frequência. Não era o seu caso. Aquela era uma das poucas coisas das quais podia se orgulhar.
No entanto, isso o levava a que nove: outra vez, ele não tinha ideia do que dizer, e dez: algo naquela garota o fazia agir como um completo idiota.
Idiota.
Como é que o resto da humanidade lidava com aquele silêncio constrangedor diante de uma mulher? Sebastian não conseguia tolerar aquilo.
– A senhorita pediu que eu a beijasse – afirmou ele.
Não fora a primeira coisa que tinha vindo à sua mente, mas a segunda.
A julgar pelo suspiro que ela deu, tão profundo que ele achou que pudesse alterar o ciclo das marés, ele teve a sensação de que deveria ter esperado pela sétima coisa a vir à sua mente, no mínimo.
– O senhor está me acusando de… – Ela se conteve, mordendo o lábio, demonstrando irritação e frustração. – Bem, seja lá o que… esteja me acusando de ter… feito…
– Não a estou acusando de nada – interrompeu ele. – Apenas comentei que a senhorita queria um beijo e eu aquiesci e…
E o quê? O que ele estava querendo dizer? Onde estava com a cabeça? Não conseguia nem pensar em uma frase completa, que dirá proferir uma.
– Eu poderia ter me aproveitado da senhorita – continuou ele, formal.
Bom Deus, ele parecia um imbecil.
– Quer dizer que não aproveitou?
Seria possível que ela fosse tão inocente? Ele se inclinou, os olhos fixos nos dela.
– Não faz ideia de quantas maneiras eu não tirei proveito da senhorita – disse ele. – De quantas maneiras eu poderia ter tirado. Quantas…
– Quantas o quê? – retrucou ela. – Quantas o quê?
Ele segurou a língua; na verdade, a mordeu. Não havia a menor possibilidade de listar todas as maneiras pelas quais desejava tirar proveito dela.
Dela. A Srta. Sem Nome.
Era melhor assim, sem dúvida.
– Ah, pelo amor de Deus – ele se ouviu dizer. – Qual é o seu nome?
– Percebo que está ansioso para saber – provocou ela.
– Seu nome – devolveu ele.
– Antes de me revelar o seu?
Sebastian bufou, respirou fundo em sinal de frustração, depois passou a mão pelos cabelos.
– Foi imaginação minha ou estávamos tendo uma conversa perfeitamente civilizada menos de dez minutos atrás?
Ela abriu a boca para responder, mas ele não deixou que falasse.
– Não, não – continuou ele, talvez um pouco afetado demais –, foi muito mais que civilizada.
Ouso até mesmo classificá-la de agradável.
O olhar dela se abrandou, mas não a ponto de se tornar mais flexível. Bem, nem perto disso, mas com certeza havia se abrandado.
– Eu não deveria ter lhe pedido que me beijasse – disse ela.
Ele reparou que a garota não soou como se estivesse se desculpando. E reparou também que se sentia muito feliz por ela não ter feito isso.
– O senhor deve compreender – continuou ela calmamente – que é muito mais importante que eu saiba sua identidade do que o contrário.
Sebastian olhou para as mãos dela. Não estavam fechadas, nem cerradas, nem retorcidas como garras. As mãos sempre entregam as pessoas. Ficam tensas, tremem ou se agarram uma à outra como se pudessem – por meio de algum tipo de feitiço inimaginável – salvá-las de qualquer destino sombrio.
Só que ela segurava o tecido do vestido. Com força. Estava nervosa. Ainda assim, mantinha uma dignidade notável. E Sebastian sabia que ela falava a verdade. Não havia nada que pudesse arruinar a reputação dele, enquanto uma palavra impensada ou falsa poderia acabar com a dela para sempre. Não era a primeira vez que ele se sentia extraordinariamente feliz por não ter
nascido mulher, mas era a primeira vez que tinha diante de si uma prova tão clara de que os homens realmente levavam uma vida mais fácil.
– Meu nome é Sebastian Grey – apresentou-se, curvando-se em uma mesura de respeito. – É
um prazer enorme conhecê-la, Srta…
Ele não pôde continuar, porque ela engasgou, ficou pálida e parecia prestes a desmaiar.
– Posso lhe assegurar – comentou ele, sem ter certeza se o tom agudo em sua voz era de prazer ou de irritação – que minha reputação não é tão má quanto dizem.
– Eu não deveria estar aqui com o senhor – retrucou ela, apavorada.
– Isso nós já sabíamos.
– Sebastian Grey. Meu bom Deus, Sebastian Grey!
Ele a observava, intrigado. Um pouco incomodado também, mas era de esperar. Ele não era tão mau assim.
– Eu lhe garanto – disse ele, sentindo-se um pouco desconcertado pelo número de vezes que precisava começar suas frases daquela maneira. – Não tenho intenção de permitir que sua reputação seja destruída por sua associação a mim.
– Não, é claro que não – disse ela, mas depois estragou tudo com uma gargalhada de pânico.
– Não iria querer isso. Sebastian Grey. – Ela olhou para o céu, e ele de certo modo achou que fosse praguejar contra os deuses. – Sebastian Grey – repetiu ela. De novo.
– Devo tomar esta reação como um sinal de que a senhorita já havia sido alertada sobre mim?
– Sim, claro – respondeu ela um tanto rápido. Então voltou a si e, olhando-o diretamente nos olhos, falou: – Eu preciso ir. Imediatamente.
– Era isso que eu vinha lhe dizendo – murmurou ele.
Ela espiou o jardim lateral, fazendo uma careta ao pensar em atravessar o gramado dos amantes.
– Baixe a cabeça – disse ela para si mesma. – Abra caminho.
– Alguns vivem a vida inteira seguindo esse lema – comentou ele animadamente.
Ela lhe lançou um olhar furioso, visivelmente se perguntando se ele havia enlouquecido naqueles últimos dois segundos. Sebastian deu de ombros, esquivando-se de pedir desculpas.
Finalmente estava voltando ao seu normal. Tinha todo o direito de se sentir animado.
– O senhor vive assim? – perguntou ela.
– Não, de forma alguma. Prefiro uma vida com um pouco mais de estilo. Sutileza é fundamental, não acha?
Ela o encarou. Piscou algumas vezes. Então anunciou:
– Eu preciso ir.
E foi. Baixou a cabeça e abriu caminho.
Sem dizer seu nome.
Capítulo seis
Na tarde do dia seguinte
– Você está assustadoramente quieta hoje – disse Louisa.
Annabel deu um sorriso amarelo para a prima. Elas estavam passeando com o cachorro de Louisa no Hyde Park, acompanhadas – em tese – pela tia de Louisa. Mas lady Cosgrove havia esbarrado com um de seus muitos conhecidos e, ainda que estivesse à vista, estava distante demais para escutá-las.
– Só estou cansada – disse Annabel. – Tive dificuldade para dormir depois de toda a emoção da festa.
Não era inteiramente verdade, mas também não era mentira. Ela ficara acordada durante horas a fio na noite anterior, fazendo uma análise elaborada do interior de suas pálpebras.
Porque se recusava a ficar olhando para o teto. Era uma questão de princípios. Sempre fizera isso. Na luta para dormir, manter os olhos abertos era uma clara admissão de derrota.
Ainda assim, não importava para onde olhasse, era impossível ignorar a dimensão do que havia feito.
Sebastian Grey.
Sebastian Grey.
O nome dele ecoava como um gemido de dor em sua cabeça. Na lista de homens que ela nunca deveria beijar, ele indiscutivelmente ocupava as primeiras posições, juntamente com o rei, lorde Liverpool e o limpador de chaminés.
Para ser sincera, ela suspeitava que ele estivesse mais próximo do topo da lista do que o limpador de chaminés.
Ela não sabia muita coisa sobre o Sr. Grey antes da festa de lady Trowbridge, apenas que ele era o herdeiro de lorde Newbury e que um não suportava o outro. No entanto, tão logo se espalhara a notícia de que lorde Newbury estava atrás dela, todos pareciam ter alguma coisa a dizer sobre o conde e seu sobrinho.
Bem, nem todo mundo, já que a maior parte da sociedade não tinha nenhum interesse nela, mas todo mundo que ela conhecia tinha uma opinião para dar.
Ele era lindo (o sobrinho, não o conde).
Ele era um pervertido (novamente, o sobrinho).
Provavelmente não tinha um tostão e passava bastante tempo com os primos do outro lado da família (o sobrinho, é claro, e era melhor que fosse mesmo, porque se Annabel se casasse com lorde Newbury e descobrisse que ele não tinha um tostão, ficaria lívida).
Annabel voltou para casa logo após o desastroso interlúdio no bosque, mas, aparentemente, o Sr. Grey não. Ele parecia ter causado uma ótima impressão em Louisa, porque, Deus do céu, ela não conseguia falar de outra coisa naquela manhã.
Sr. Grey isso, Sr. Grey aquilo, e como era possível que Annabel não o tivesse visto na festa?
Annabel deu de ombros e falou algo como Não faço ideia, mas não fez diferença, porque Louisa
continuou comentando sobre o sorriso e a cor dos olhos dele, e que, ah, sim!, todos notaram que ele deixara a festa com uma mulher casada!
A última informação não causou nenhuma surpresa. Ele contara claramente que estava de ti-ti-ti com uma mulher casada antes de Annabel tropeçar nele.
Só que ela teve a impressão de que aquela era outra mulher casada. A que passara pelo cobertor era zelosa de sua reputação, tendo deixado a cena do crime bem antes do Sr. Grey.
Ninguém que prezasse por tal discrição seria descarada a ponto de sair da festa de braço dado com ele. Portanto, devia ser outra pessoa, o que significava que ele havia estado com duas mulheres casadas. Meu Deus, ele era ainda pior do que diziam.
Annabel pressionou as têmporas. Não era à toa que sua cabeça doía. Estava pensando além da conta. Além da conta, e sobre frivolidades. Se era para desenvolver uma obsessão, não poderia ser por algo que valesse a pena? A nova lei contra maus-tratos aos animais cairia muito bem. Ou a questão da pobreza. Seu avô não havia parado de falar dos dois assuntos naquela semana, então Annabel não tinha por que não demonstrar interesse neles.
– Sua cabeça está incomodando? – perguntou Louisa.
Mas ela não estava prestando atenção de verdade. Frederick, seu basset imenso de gordo, tinha avistado um companheiro canino e estava puxando a coleira.
– Frederick! – gritou ela, tropeçando uma ou duas vezes antes de recuperar o equilíbrio.
Frederick parou, embora não fosse possível dizer se devido ao puxão que Louisa deu na coleira ou à completa exaustão. O cachorro deixou escapar um longo suspiro e Annabel ficou surpresa por ele não ter desabado.
– Creio que alguém voltou a contrabandear salsichas para ele – resmungou Louisa.
Annabel fingiu que não tinha escutado.
– Annabel!
– Ele parecia estar com tanta fome – insistiu Annabel.
Louisa apontou para o cachorro, cuja barriga se arrastava pela grama.
– Um bicho desse tamanho parecia estar com fome?
– O olhar dele parecia.
Louisa encarou a prima, cética.
– Seu cachorro sabe mentir muito bem – acrescentou Annabel.
Louisa balançou a cabeça. Provavelmente também revirou os olhos, mas Annabel estava prestando atenção em Frederick, que tinha deixado escapar um bocejo de tédio.
– Ele seria muito bom nas cartas – comentou Annabel, distraída. – Se fosse capaz de falar.
Ou se tivesse polegares.
A prima dirigiu-lhe outro daqueles olhares. Ela era muito boa nisso, pensou Annabel, ainda que os reservasse exclusivamente para a família.
– Ele ganharia de você – disse Annabel.
– Isso não me parece um elogio – respondeu Louisa.
Era verdade. Louisa era péssima no jogo. Annabel havia tentado de tudo: piquet, uíste, 21.
Para uma pessoa tão boa em disfarçar os próprios sentimentos quando estava em público, Louisa
era péssima nas cartas. Ainda assim, elas jogavam, principalmente porque Louisa era tão ruim que era divertido. E tinha espírito esportivo.
Annabel ficou observando Frederick, que, após trinta segundos parado, deixou o traseiro desabar na grama.
– Estou com saudade do meu cachorro – disse ela.
Sem virar o corpo, Louisa olhou para trás, para a tia, que ainda estava absorta na conversa.
– Qual é mesmo o nome dele?
– Rato.
– Foi muito rude da sua parte.
– Batizá-lo de Rato?
– Ele não é um galgo?
– Eu poderia tê-lo batizado de Tartaruga.
– Frederick! – gritou Louisa, correndo para tirar da boca dele alguma coisa que, com toda a sinceridade, Annabel preferia não saber o que era.
– É melhor do que Frederick – disse Annabel. – Por Deus, é o nome do meu irmão.
– Solte, Frederick – murmurou Louisa.
Então, ainda agarrando o que quer que estivesse na boca do cachorro, ela olhou para Annabel.
– Ele merece um nome decente.
– Porque ele é um cão muito decente.
Louisa ergueu uma sobrancelha, portando-se dos pés à cabeça como a filha de um duque.
– Cachorros merecem nomes apropriados.
– Gatos também?
Louisa deu um suspiro de desdém.
– Gatos são completamente diferentes. Eles caçam ratos.
Annabel abriu a boca para perguntar qual era a relação que aquilo tinha com nomes apropriados, mas, antes que emitisse qualquer som, a prima agarrou seu braço e sibilou seu nome entre dentes.
– Ei. – Annabel se abaixou e tentou soltar a mão de Louisa. – O que houve?
– Olhe lá – sussurrou Louisa, afobada.
Ela apontou a cabeça ligeiramente para a esquerda, tentando ser discreta. Só que não conseguiu. Nem um pouco.
– Sebastian Grey – soltou por fim.
Annabel já tinha escutado a expressão “Meu coração quase saiu pela boca” e até já a utilizara, mas aquela foi a primeira vez que realmente entendeu o sentido. Todo o seu corpo parecia desconjuntado, como se o coração estivesse na boca, os pulmões estivessem no lugar do ouvido e o cérebro estivesse em algum lugar para os lados da França.
– Vamos embora – pediu ela. – Por favor.
– Não quer conhecê-lo? – retrucou Louisa, surpresa.
– Não.
Annabel não se importava em parecer desesperada. Só queria ir embora dali quanto antes.
– Está brincando, não é? Você não está nem um pouco curiosa?
– Não estou. Posso lhe garantir. Quero dizer, sim, claro que estou, mas, se eu tiver que ser apresentada a esse cavalheiro, não quero que seja desta forma.
Louisa estranhou.
– De que forma?
– Estou só… Não estou preparada. Eu…
– Acho que você tem razão – comentou Louisa, espirituosa.
Graças a Deus.
– Ele provavelmente vai pensar que você deve lealdade ao tio, e vai julgá-la de antemão com base nisso.
– Exatamente – disse Annabel, agarrando-se à justificativa como a um colete salva-vidas.
– Ou ele tentará demovê-la da ideia.
Annabel lançou um olhar nervoso na direção em que a prima tinha avistado o Sr. Grey. Com sutileza, é claro, e sem se virar de fato. Se conseguisse escapar antes que ele a visse…
– É claro que eu acho que você deveria ser demovida da ideia – continuou Louisa. – Não importa quanto dinheiro lorde Newbury tenha, nenhuma jovem deveria ser forçada a…
– Eu ainda não concordei com nada – interrompeu Annabel, quase gritando. – Por favor, podemos ir embora?
– Temos que esperar minha tia – respondeu Louisa, franzindo a testa. – Você viu para onde ela foi?
– Louisa.
– O que está havendo com você?
Annabel olhou para baixo. Suas mãos estavam tremendo. Ela não ia conseguir. Ainda não.
Não ia conseguir encarar o homem que tinha beijado e que por acaso era o herdeiro do homem que ela não queria beijar mas com quem talvez fosse se casar. Ah, sim, e não pôde deixar de pensar que, caso se casasse com o homem que não queria beijar, provavelmente daria a ele um novo herdeiro, negando o título ao homem que de fato queria beijar.
Ah, ele ia mesmo gostar muito dela depois de saber tudo isso.
Annabel seria apresentada ao Sr. Grey em algum momento, era inevitável. Mas tinha que ser naquela hora? Ela sem dúvida merecia algum tempo para se preparar.
Nunca imaginou que fosse tão covarde. Não, ela não era covarde. Qualquer pessoa sensata fugiria numa situação daquelas… e talvez boa parte das insensatas também.
– Annabel – disse Louisa, soando exasperada. – Por que é tão urgente assim ir embora?
Annabel tentou pensar em algo. Tentou com empenho. Mas só conseguiu pensar na verdade, que não estava preparada para contar. Portanto, em vez disso, ficou ali, abobalhada, imaginando como diabo poderia sair daquela situação.
Infelizmente, aquele momento íntimo de pânico durou pouco. Acabou sendo substituído por um momento de pânico ainda mais terrível. Logo ficou claro que ela não conseguiria se livrar da situação. A mulher de braços dados com o Sr. Grey parecia ter reconhecido a prima, que já havia acenado em resposta.
– Louisa – falou Annabel entre dentes.
– Não posso ignorá-la – devolveu Louisa da mesma forma. – É lady Olivia Valentine. O pai dela é o conde de Rudland. O primo do Sr. Grey casou-se com ela no ano passado.
Annabel soltou um gemido.
– Achei que ela estivesse fora da cidade – disse Louisa com uma careta. – Deve ter acabado de voltar. – Então se virou para Annabel com um olhar sincero. – Não se deixe enganar pela aparência dela. Lady Valentine é muito gentil.
Annabel não sabia se deveria ficar horrorizada ou confusa. “Não se deixe enganar pela aparência dela”? O que Louisa queria dizer com aquilo?
– Ela é muito bonita – explicou a prima.
– O que isso…
– Não, quero dizer… – interrompeu-se Louisa, visivelmente insatisfeita por sua incapacidade de comunicar a extensão dos encantos de lady Valentine. – Ah, você verá por si mesma.
Por sorte, a incrivelmente bela lady Olivia não parecia ter muita pressa. Ainda assim, Annabel julgou que não tinha mais do que quinze segundos até que todos se encontrassem. Ela pegou o braço de Louisa com força.
– Não comente nada sobre lorde Newbury – advertiu ela entre dentes.
Os olhos da prima se arregalaram de espanto.
– Não acha que eles já sabem?
– Não sei. Talvez não. Talvez nem todo mundo saiba.
– Claro, mas se alguém já sabe, o Sr. Grey com certeza terá sido um dos primeiros a saber, não acha?
– Provavelmente não o meu nome. Todo mundo se refere a mim como “aquela garota dos Vickers”.
Era verdade. Annabel estava sendo apresentada por lorde e lady Vickers, e ninguém jamais ouvira falar da família de seu pai, o que, como seu avô fora rápido em afirmar, era bem conveniente. Na opinião dele, teria sido muito melhor que a filha nunca tivesse se tornado uma Winslow.
Louisa franziu o cenho, nervosa.
– Estou certa de que eles sabem que eu também sou neta dos Vickers.
Annabel agarrou a mão de Louisa, dominada pelo pânico.
– Então não diga a eles que eu sou sua prima.
– Eu não posso fazer isso!
– Por que não?
Louisa hesitou.
– Não sei, só não me parece adequado.
– Esqueça o que é adequado. Faça isso por mim, por favor.
– Pois bem. Mas ainda estou achando que você está muito esquisita.
Annabel não tinha como negar. Tinha estado muitas coisas naquele dia e, com toda a honestidade, esquisita era a menos preocupante delas.
Capítulo sete
Cinco minutos antes
– É decepcionante que você tenha se casado com meu primo – murmurou Sebastian, desviando Olivia de um enorme monte de esterco de cavalo que alguém não tinha conseguido limpar. – Acho que você é a mulher perfeita.
Olivia olhou para ele com uma sobrancelha arqueada.
– Porque eu permito que você faça o desjejum na minha casa todos os dias?
– Ah, você não seria capaz de proibir isso – retrucou Seb, dando um ligeiro sorriso. – Esse hábito já estava muito enraizado antes mesmo de você entrar em cena.
– Porque eu não repreendi vocês pelas três dúzias de buracos de dardo atrás da porta do quarto de hóspedes?
– Tudo culpa do Edward. Minha pontaria é perfeita.
– Não importa, Sebastian, é uma casa alugada.
– Eu sei, eu sei. É estranho que você tenha renovado o contrato. Não gostaria de morar um pouco mais longe dos seus pais?
Quando se casou com o primo de Sebastian, Harry, Olivia se mudou para a casa dele, que era vizinha à da família dela em Londres. Metade do namoro havia acontecido através das janelas.
Sebastian achava essa história um tanto encantadora.
– Eu gosto dos meus pais – disse Olivia.
Sebastian balançou a cabeça.
– Isso é tão estranho que deve ser até antipatriótico.
Olivia virou-se para ele, surpresa.
– Eu sei que os pais de Harry eram… – Ela hesitou. – Esqueça. Mas nunca imaginei que os seus fossem tão terríveis assim.
– Eles não são. Eu é que não escolheria passar meu tempo com eles. – Sebastian pareceu refletir por um instante. – Principalmente com meu pai, considerando que ele está morto.
Olivia revirou os olhos.
– Deve haver algo nessa declaração que o faria ser excomungado.
– Tarde demais para isso – murmurou Seb.
– Acho que você precisa de uma esposa – concluiu Olivia, estreitando os olhos ao se virar para ele.
– Você correria o risco de perder sua posição de mulher perfeita – alertou Sebastian.
– Ainda não me contou o que eu fiz para merecê-la.
– Primeiro, e acima de tudo, você jamais havia me importunado dizendo que eu deveria me casar. Até hoje.
– Não me arrependo.
Ele assentiu em gratidão.
– Há também sua sublime predisposição a não ficar chocada com as coisas que eu digo.
– Ah, eu fico chocada. Apenas disfarço muito bem.
– É igualmente válido – disse Seb.
Eles caminharam por alguns minutos, então ela repetiu:
– Você deveria mesmo se casar.
– Por acaso dei qualquer indício de estar evitando isso?
– Bem – disse Olivia lentamente –, além de ainda não ter se casado…
– Simplesmente porque não encontrei a mulher perfeita. – Ele deu um sorriso amarelo. –
Infelizmente, Harry encontrou você primeiro.
– Sem mencionar o fato de que você deveria se casar antes de seu tio gerar um novo herdeiro.
Sebastian virou-se para ela com uma expressão dissimulada de choque.
– Olivia Valentine, isso é absurdamente mercenário da sua parte.
– É a verdade.
– Eu sou uma aposta – comentou Sebastian com um suspiro.
– Você é mesmo! – exclamou Olivia, com tanta empolgação que ele chegou a se assustar. – É
exatamente o que você é! Uma aposta. Um risco. Um…
– Você me deixa lisonjeado com tantos elogios.
Olivia o ignorou.
– Acredite quando digo que todas as jovens damas preferem você ao seu tio.
– Nossa, mais elogios.
– O problema é que, se ele conseguir um herdeiro, você ficará sem nada. Então elas se perguntam se devem correr esse risco. Quem é melhor: o pervertido bonitão que pode vir a ser conde ou o conde corpulento que já detém o título?
– Essa foi a descrição mais amável do meu tio que eu já ouvi.
– Muitas escolheriam ter um pássaro na mão, mas outras poderiam pensar: “Se eu esperar até o momento certo, posso ficar com o pervertido bonitão e com o título.”
– Você faz o gênero feminino parecer tão atraente…
Olivia deu de ombros.
– Nem todas nós nos casamos por amor.
Quando ela percebeu que aquilo o deixava um pouco deprimido, deu um tapinha no braço dele e falou: – Mas você deveria. Você é sensível demais para não se casar por amor.
– E, mais uma vez, estou convencido – murmurou Seb. – A mulher perfeita.
Olivia deu um sorriso de desgosto.
– Diga-me – comentou Sebastian, afastando-a de outro monte nojento, dessa vez da variedade canina –, onde está o marido perfeito da mulher perfeita? Em outras palavras, por que você solicitou meus serviços nesta bela manhã? Além de aprimorar suas habilidades de casamenteira, é claro.
– Harry está mergulhado no atual projeto dele. Não vê a luz do dia há pelo menos uma semana, e eu – ela deu um tapinha na barriga, roliça apenas o suficiente para se notar a gravidez
– precisava de ar.
– Ainda trabalhando nos romances de Sarah Gorely? – indagou ele casualmente.
Olivia abriu a boca para falar, mas, antes que fosse capaz de emitir qualquer palavra, o som de um tiro ecoou no ar.
– Que diabo foi isso? – perguntou Sebastian, quase gritando.
Bom Deus, eles estavam num maldito parque. Ele olhou em volta, ciente de que sua cabeça estava latejando. Seu coração batia rápido, e o maldito som do tiro ainda ecoava em sua mente, e…
– Sebastian – chamou Olivia delicadamente, e depois: – Sebastian.
– O que foi?
– Meu braço – disse ela.
Ele a viu engolir em seco, então olhou para baixo: estava apertando o braço dela com uma força descomunal. Soltou-a imediatamente.
– Desculpe – murmurou ele. – Não percebi que estava fazendo isso.
Olivia deu um leve sorriso e esfregou o local.
– Não foi nada.
Não era verdade, mas ele não queria se aprofundar naquele assunto.
– Quem está dando tiros no parque? – perguntou ele, irritado.
– Acredito que seja algum tipo de competição – disse Olivia. – Edward comentou sobre isso hoje de manhã.
Sebastian balançou a cabeça. Uma competição de tiro no Hyde Park. Justamente na hora mais movimentada do dia. A estupidez dos homens nunca cessava de surpreendê-lo.
– Você está bem? – indagou Olivia.
Ele se virou, tentando entender do que ela estava falando.
– O barulho – esclareceu ela.
– Não foi nada.
– Não foi…
– Não foi nada – cortou ele secamente. Sentindo-se um idiota por ter usado aquele tom de voz, acrescentou: – Fui pego de surpresa.
Era verdade. Ele podia ficar ouvindo tiros o dia inteiro, desde que soubesse que alguém ia atirar. Ora, poderia até dormir durante um tiroteio, desde que conseguisse pegar no sono, antes de qualquer coisa. Só não estava esperando. Odiava ser pego de surpresa.
Afinal, aquele tinha sido o trabalho dele, pensou, irritado. Señor Atirador. Matar de surpresa.
Señor Atirador. Hum. Talvez ele devesse retomar as aulas de espanhol.
– Sebastian?
Ele olhou para Olivia, que ainda o encarava com certa preocupação. Perguntou-se se Harry também tinha reações como a dele; se o coração do primo também disparava como um coelho diante de barulhos inesperados. Harry nunca tinha comentado nada, mas Seb também não.
Era um assunto idiota para se abordar numa conversa.
– Estou bem – garantiu ele, dessa vez em um tom bem mais próximo do normal. – Como eu falei, apenas fui pego de surpresa.
Outro tiro estalou ao longe, e Seb não mexeu um músculo.
– Viu? – disse ele. – Nada aconteceu. Sobre o que estávamos falando?
– Não faço ideia – admitiu Olivia.
Seb refletiu por um momento. Também não se lembrava.
– Ah, os livros da Gorely! – exclamou Olivia. – Você me perguntou sobre o trabalho de Harry com eles.
– Isso. – Era curioso que ele tivesse se esquecido daquilo. – Como está indo?
– Muito bem, eu suponho. – Olivia deu de ombros. – Ele reclama o tempo todo, mas acho que no fundo adora os livros dela.
Sebastian ficou animado.
– É mesmo?
– Quero dizer, talvez não adore. Ele continua achando horrorosos. Mas adora traduzi-los.
São muito mais divertidos do que os documentos do Departamento de Guerra.
Não era o melhor elogio do mundo, mas Seb também não ficava ofendido.
– Harry deveria traduzi-los para o francês, depois.
Olivia franziu a testa, pensativa.
– Talvez. Não sei se ele já traduziu um mesmo livro para dois idiomas. Imagino que fosse gostar do desafio.
– Ele tem um cérebro violentamente matemático – murmurou Sebastian.
– Eu sei. – Olivia balançou a cabeça. – É um milagre que eu e ele tenhamos algum assunto em comum. Eu… Ih! Não olhe agora, mas há alguém apontando para você.
– Alguém do sexo feminino, espero.
Olivia revirou os olhos.
– São sempre do sexo feminino, Sebastian. É… – Ela estreitou os olhos. – É lady Louisa McCann, eu acho.
– Quem?
– A filha do duque de Fenniwick. Ela é muito simpática.
Sebastian pensou por um momento.
– A magrinha que não fala muito?
– Você é tão jeitoso com as palavras.
Seb abriu lentamente um sorriso.
– Sou mesmo, não sou?
– Não a assuste, Sebastian – advertiu Olivia.
Ele se virou para ela com uma indignação apenas parcialmente fingida.
– Assustá-la? Eu?
– Seu charme pode ser aterrorizante.
– Suponho que devo tomar isso como um elogio.
Olivia deu um sorriso seco.
– Posso olhar agora? – indagou ele.
Era entediante ter que fingir que não sabia que alguém estava apontando para ele.
– Hã? Ah, sim, já até acenei. Não sei quem é a outra jovem, no entanto.
Ele estava de lado para as tais jovens damas, portanto precisava apenas virar a cabeça para vê-las. Ainda assim, ficou extremamente feliz por esse movimento tê-lo afastado de Olivia.
Quando viu quem estava caminhando na direção dele…
Sebastian se gabava de ser um mestre na arte de manter a expressão inalterada, mas até ele
tinha seus limites.
– Você a conhece? – perguntou Olivia.
Ele balançou a cabeça enquanto a observava, sua deusa de cabelos cacheados e a linda boca rosada.
– Nunca a vi – murmurou ele.
– Deve ser nova por aqui – disse Olivia, dando de ombros de leve.
Ela esperou pacientemente que as duas damas se aproximassem e então deu um sorriso.
– Ah, lady Louisa, que bom revê-la!
Lady Louisa retribuiu a saudação, mas Sebastian não estava prestando atenção. Estava muito mais interessado em observar a outra jovem, que se esforçava para não fazer contato visual.
Mas não tirou os olhos do rosto dela, tornando tudo mais difícil.
– Conhece meu estimado primo, o Sr. Grey? – indagou Olivia a lady Louisa.
– Hã… acredito que já fomos apresentados – respondeu lady Louisa.
– Que tolice da minha parte perguntar – disse Olivia, virando-se para Sebastian com uma pitada de malícia nos olhos. – Você já foi apresentado a todo mundo, não foi, Sebastian?
– Quase todo mundo – disse ele, secamente.
– Ah, queira me desculpar – replicou lady Louisa. – Permita-me apresentar minha, hã… –
Ela tossiu. – Perdoem-me. Sinto muito. Deve ter sido poeira na minha garganta. – Ela fez um gesto para a jovem ao seu lado. – Lady Olivia, Sr. Grey, esta é a Srta. Winslow.
– Srta. Winslow – repetiu Olivia. – Muito prazer em conhecê-la. Está há pouco tempo na cidade?
A Srta. Winslow fez uma mesura educada.
– Sim. Obrigada por perguntar.
Sebastian deu um sorriso e murmurou o nome dela. Então, sabendo que a deixaria atrapalhada, pegou a mão dela e a beijou. Era em ocasiões como aquela que ele ficava mais do que agradecido por sua reputação. Olivia não teria dúvida de que ele estava flertando.
A Srta. Winslow, por sua vez, ficou corada no mais encantador tom de rosa. Ela era ainda mais atraente à luz do dia, ele concluiu. Seus olhos eram de um belíssimo cinza-esverdeado.
Junto ao restante de sua coloração, sua aparência ganhava um quê de espanhola. E ele gostou ainda mais das sardas espalhadas no alto do nariz.
Ele também aprovou seu traje verde-esmeralda. Combinava muito mais com ela do que o tom pastel de seu vestido na noite anterior.
Mas ele não podia permitir que seu exame durasse muito tempo. Ela poderia pensar muitas coisas. Além disso, ele não deveria ignorar a amiga dela. Sebastian desviou o olhar sem nem mesmo fingir relutância.
– Lady Louisa – disse ele, curvando educadamente a cabeça. – É um prazer revê-la. Estou consternado por nossos caminhos não terem se cruzado mais cedo nesta temporada.
– Parece que há uma multidão por aqui este ano – comentou Olivia. – Será que todo mundo decidiu vir ao mesmo tempo? – Ela se virou para lady Louisa. – Estive fora por algumas semanas, por isso estou irremediavelmente desatualizada.
– A senhora estava no campo? – perguntou lady Louisa polidamente.
– Sim, em Hampshire. Meu marido tinha um trabalho importante para fazer, e ele acha difícil se concentrar na cidade.
– Culpa minha – disse Sebastian, se metendo na conversa.
– Percebam que eu não o desmenti – brincou Olivia, apontando para ele com a cabeça. – Ele tem uma capacidade terrível de distrair as pessoas.
Sebastian não podia deixar o comentário escapar.
– É um de meus melhores atributos.
– Não considerem nada do que ele fala – avisou Olivia, balançando a cabeça.
Ela se voltou para as duas jovens e começou a conversar sobre amenidades, e Sebastian sentiu uma estranha irritação. Já tinha perdido a conta da quantidade de vezes que Olivia tinha dito algo do tipo Não considerem nada do que ele fala.
No entanto, era a primeira vez que isso o incomodava.
– Está aproveitando seu tempo em Londres, Srta. Winslow? – indagou Olivia.
Sebastian se virou para a Srta. Winslow e a olhou com um sorriso terno. Tinha muito interesse na resposta dela.
– Bem, sim – gaguejou a moça. – Há muita distração.
– Distração – murmurou Sebastian. – Que palavra interessante.
Ela olhou para ele, assustada. Ele apenas sorriu.
– A senhora vai permanecer na cidade até o fim da temporada, lady Olivia? – perguntou lady Louisa.
– Acho que sim. Depende da capacidade do meu marido de se concentrar em meio a tantas distrações.
– Em que sir Harry está trabalhando? – questionou Sebastian, já que Olivia não mencionara antes qual romance Harry estava traduzindo. – Tentei incomodá-lo esta manhã, mas ele me dispensou. – Ele olhou para a Srta. Winslow e lady Louisa e então disse: – Um desconhecido poderia pensar que ele não gosta de mim.
Lady Louisa deu uma risada. A Srta. Winslow manteve sua expressão impassível.
– Meu marido é tradutor – explicou Olivia, revirando os olhos para Sebastian. – No momento, está traduzindo um romance para o russo.
– É mesmo? – disse a Srta. Winslow, e Sebastian teve que admitir que ela parecia genuinamente interessada. – Qual é o romance?
– A Srta. Truesdale e o cavalheiro mudo. O nome da autora é Sarah Gorely. Por acaso já leu?
A Srta. Winslow balançou a cabeça, mas lady Louisa praticamente deu um salto para a frente, exclamando: – Não!
Olivia piscou.
– Perdão?
– Não, eu quis dizer que ainda não li – explicou lady Louisa. – Li todos os outros livros dela, é claro. Como pude deixar passar esse?
– É fã dela, então? – perguntou Sebastian; adorava quando isso acontecia.
– Claro – respondeu ela. – Achei que já tivesse lido todos. Não tenho palavras para dizer quanto estou animada por saber que tem mais um!
– Devo confessar que ando tendo dificuldade na leitura desse – retrucou Olivia.
– Jura? – comentou Sebastian.
Os lábios de Olivia se curvaram em um sorriso indulgente.
– Sebastian também é um grande fã dela – disse ela às jovens.
– Da Sra. Gorely? – indagou Louisa. – Ela escreve as tramas mais fascinantes.
– Caso não se dê importância às eventuais situações implausíveis – acrescentou Olivia.
– Mas é isso que torna os romances tão divertidos – argumentou Louisa.
– Por que você está tendo dificuldade com A Srta. Truesdale? – indagou Sebastian a Olivia.
Ele sabia que não deveria insistir, mas não conseguiu se conter. Vinha tentando fazê-la gostar dos livros dele desde que ela dissera que a palavra escopo fora empregada de maneira incorreta.
Não que ela soubesse que ele era a Sra. Gorely.
Além disso, escopo era uma palavra ridícula. Ele já estava planejando bani-la de seu vocabulário.
Olivia deu de ombros, algo que fazia de forma incomumente elegante.
– É lento demais – disse ela. – Me parece que há muitas descrições.
Sebastian assentiu, pensativo.
– Não acho que seja o melhor da Sra. Gorely.
Ele não tinha ficado inteiramente satisfeito com a versão final, embora discordasse das críticas de Olivia.
Dificuldade na leitura. Pois sim.
Olivia não saberia reconhecer um bom livro nem se ele caísse na cabeça dela.
Capítulo oito
Annabel levou menos de um segundo para perceber que Louisa não estava brincando sobre lady Olivia Valentine e sua referida beleza estonteante. Quando ela se virou e sorriu, Annabel teve até mesmo que piscar, por conta do brilho que Olivia irradiava. A jovem matrona era de tirar o fôlego, louríssima e de pele clara, com maçãs do rosto salientes e olhos incrivelmente azuis.
Era tudo o que Annabel podia fazer para não a odiar logo de início.
E, como se o encontro não pudesse piorar (o simples fato de ela e o Sr. Grey terem se esbarrado já era ruim o suficiente), ele teve que beijar a mão dela.
Que desastre.
Annabel ficou completamente constrangida e gaguejou algo que só poderia ser entendido como saudação em uma sociedade pré-verbal. Ergueu os olhos por um instante, pois não poderia passar uma apresentação inteira olhando para o chão. Mas foi um erro. Um erro imenso. O Sr.
Grey, que já era bem bonito sob o luar, era ainda mais belo à luz do dia.
Meu Deus, ele não deveria andar por aí ao lado de lady Olivia. Os dois provavelmente cegariam a população de Londres com tanta beleza reunida.
Ou então fariam com que o restante da humanidade saísse correndo à beira das lágrimas, porque, de fato, quem poderia competir com aquilo?