Dez coisas que eu amo em você
Capítulo dezesseis
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Acredito que falo por todos os homens do mundo quando digo que me sinto aliviado por isso não ser uma hipótese plausível.
Edward fez uma careta diante do insulto, mas não se ofendeu.
– Newbury pode fazer dela uma condessa – lembrou o primo.
– Talvez eu também possa – murmurou Seb.
– Pensei que você não se importasse com o título.
– Não me importo mesmo. – E era verdade. Embora ele talvez se importasse agora. – Não por mim, pelo menos.
Edward deu de ombros, inclinando a cabeça levemente para o lado. Havia algo familiar naquele movimento, algo que Sebastian não conseguia identificar.
Até que ele percebeu que era um pouco como se olhar no espelho.
– Ela odeia Newbury – deixou escapar Sebastian.
Edward bocejou.
– Ela não seria a primeira mulher a se casar com um homem que odeia.
– Ele tem o triplo da idade dela.
– Mais uma vez, não seria a primeira.
Seb abanou a mão em sinal de frustração.
– Por que está falando tudo isso?
Edward assumiu um semblante sério.
– Apenas acredito que é importante estar preparado – respondeu.
– Então você acha que ela não vai aceitar.
– Honestamente, eu não faço ideia. Nunca sequer vi vocês dois juntos. Mas prefiro que você fique surpreso a ter o coração partido.
– Meu coração não será partido – resmungou Seb.
Porque ela não ia dizer não. Ela comentara que não conseguiria pensar claramente na presença dele. Se alguma vez uma mulher quis aceitar uma proposta de casamento, essa mulher era Annabel.
Mas querer aceitar era o suficiente? Os avós dela não ficariam contentes se Sebastian fosse o escolhido em vez de Newbury. E ele sabia que Annabel se preocupava com a falta de dinheiro da família. Certamente ela não abriria mão da própria felicidade em troca de algumas moedas. Não era como se estivessem à beira da miséria. Não era possível, não se os irmãos dela ainda estavam frequentando a escola. E Sebastian tinha dinheiro. Não tanto quanto Newbury – ah, está bem, nem perto disso –, mas tinha o suficiente para pagar pela educação dos irmãos dela.
Annabel não sabia disso. A maior parte da sociedade o considerava um parasita divertido.
Até mesmo Harry pensava que ele tomava o desjejum todos os dias com os Valentines porque não podia comprar a própria comida.
Sebastian devia seu lugar na sociedade ao seu charme e à sua boa aparência. E ao fato de sempre haver a possibilidade de seu tio morrer antes de gerar um novo herdeiro. O que ninguém imaginava era que Sebastian tinha uma fonte de renda. Ninguém suspeitava que ele ganhara uma bela quantia escrevendo romances góticos sob um pseudônimo feminino.
Depois que a carruagem se livrou do tráfego de Londres, Edward adormeceu. E permaneceu assim até eles pararem diante de Stonecross, a mansão dos Tudors que servia como uma das imensas casas de campo dos Challis. Ao saltar, Seb se viu analisando o ambiente com um olhar cuidadoso.
Parecia quase como se ele estivesse de volta à guerra, vigiando locais, observando os soldados. Era o que ele costumava fazer. Ele observava. Nunca estivera na linha de frente. Nunca havia se envolvido em combates corpo a corpo, nunca olhara o inimigo nos olhos. Ele fora excluído da ação, sempre observando, atirando de longe.
E ele nunca errava.
Sebastian tinha as duas qualidades encontradas em todos os grandes franco-atiradores: mira excelente e paciência. Não dava nenhum tiro a menos que fosse certeiro e nunca perdia o controle. Mesmo na ocasião em que Harry quase foi morto, quando um capitão francês se aproximou dele por trás, Sebastian se manteve absolutamente imóvel. Ele observou e aguardou, e só disparou no momento certo. Harry nunca soube quão perto esteve da morte.
Depois do tiro, Sebastian vomitou no meio dos arbustos.
Era estranho que ele se sentisse novamente como um soldado. Ou talvez não fosse assim tão estranho. Ele vinha travando uma guerra contra o tio durante sua vida inteira.
No desjejum daquela manhã, lady Challis informou a Annabel e Louisa que a maioria dos convidados, inclusive lorde Newbury, só chegaria no fim da tarde. Como não mencionou Sebastian, Annabel não questionou. Perguntas como essa seriam imediatamente relatadas à avó, e ela não queria repetir o tipo de conversa da noite anterior.
Era uma adorável manhã de verão, então Annabel e Louisa decidiram caminhar até o lago, mais pelo fato de que ninguém mais parecia querer ir. Quando chegaram lá, Louisa imediatamente pegou uma pedra e a atirou, quicando-a no espelho-d’água.
– Como você fez isso? – indagou Annabel.
– Fazer uma pedra quicar? Você não sabe?
– Não. Meus irmãos sempre alegaram que nenhuma garota seria capaz de fazer isso.
– E você acreditou neles?
– Claro que não. Mas tentei durante anos e nunca consegui provar que eles estavam errados.
Annabel pegou uma pedra e tentou fazê-la quicar na água. A pedra afundou instantaneamente.
Louisa deu um sorriso esnobe, pegou outra pedra e a fez voar.
– Um, dois, três, quatro… cinco! – gritou ela, contando os quiques. – Meu recorde é seis.
– Seis? – indagou Annabel, sentindo-se uma fracassada. – Sério?
Louisa deu de ombros, procurando outra pedra.
– Meu pai me ignora na Escócia, tanto quanto o faz em Londres. A única diferença é que, para me ocupar, tenho lagos e pedras em vez das festas da temporada. – Ela encontrou uma bela pedra achatada e a pegou. – Tive bastante tempo para praticar.
– Me mostre como você…
Mas Louisa já a havia atirado.
– Um… dois… três… quatro. – Ela bufou, irritada. – Sabia que essa era pesada demais.
Annabel viu, incrédula, a prima atirar mais três pedras no lago, cada uma quicando cinco vezes.
– Acho que estou com inveja – anunciou por fim Annabel.
Louisa abriu um sorriso.
– De mim?
– Você não parece ter força suficiente nem para erguer uma daquelas pedras, menos ainda para fazê-las quicar na água.
– Ai, Annabel – repreendeu Louisa, sem deixar de sorrir. – Não precisa ser tão cruel.
Annabel fez uma careta fingida.
– Eu não consigo correr – disse a prima. – Fui banida de todos os torneios de arco e flecha por ameaçar a segurança dos demais competidores e jogo cartas mal para diabo.
– Louisa!
Louisa falara um palavrão. Annabel não podia acreditar.
– Mas sei fazer as pedras quicarem na água com maestria.
Ela atirou outra pedra no lago.
– Sabe mesmo – concordou Annabel, devidamente impressionada. – Você vai me ensinar?
– Não. – Louisa arqueou as sobrancelhas. – Gosto de ter algo em que sou muito melhor do que você.
Annabel mostrou a língua.
– Você disse que consegue dar seis quiques.
– Eu consigo – insistiu Louisa.
– Pois eu não vi. – Annabel caminhou até uma rocha grande e passou a mão no topo, certificando-se de que estava seca antes de se sentar. – Eu tenho a manhã toda. E a tarde também, acabo de constatar.
Louisa fez uma careta, depois resmungou e saiu batendo os pés na tentativa de encontrar mais pedras. Quicou cinco vezes, depois quatro, depois cinco de novo.
– Estou esperando! – clamou Annabel.
– As pedras estão acabando!
– Uma desculpa bem conveniente.
Annabel examinava as unhas para ver se havia alguma sujeira debaixo delas quando Louisa pegou sua pedra derradeira. Quando Annabel ergueu os olhos, uma pedra voava pela superfície.
Um… dois… três… quatro… cinco… seis!
– Você conseguiu! – exclamou Annabel, dando um pulinho. – Seis!
– Não fui eu – disse Louisa.
Ambas se viraram.
– Senhoritas – cumprimentou Sebastian, com uma mesura elegante.
Ele ficava absurdamente belo ao sol da alvorada. Annabel nunca percebera que seus cabelos tinham um tom avermelhado. Ela se deu conta de que nunca o havia visto pela manhã. Eles tinham se encontrado ao luar e à tarde. Na ópera, ela o vira sob a luz trêmula de centenas de velas.
A luz da manhã era diferente.
– Sr. Grey – murmurou ela, sentindo-se tímida de repente.
– Foi incrível! – exclamou Louisa. – Qual é o seu recorde?
– Sete.
– Sério?
Annabel não sabia se alguma vez vira a prima tão animada. Exceto, talvez, quando ela estava falando sobre os tais livros da Sra. Gorely. Que Annabel ainda precisava ler. Ela tinha começado A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso na noite anterior, mas só conseguira avançar por dois capítulos. Ainda assim, era impossível não ficar impressionada com as adversidades que a pobre Srta. Sainsbury havia conseguido superar em apenas 24 páginas. Ela tinha sobrevivido ao cólera e a uma infestação de ratos e torcera o tornozelo duas vezes. Os problemas de Annabel não pareciam tão terríveis em comparação com os dela.
– Sabe atirar pedras, Srta. Winslow? – perguntou Sebastian educadamente.
– Para meu eterno constrangimento, não.
– Eu consigo fazer seis quiques – disse Louisa.
– Mas não conseguiu hoje – interveio Annabel, incapaz de resistir ao desejo de provocar a prima.
Louisa pôs o dedo em riste, irritada, e foi até a margem do lago, procurando outra pedra adequada. Sebastian se aproximou e parou ao lado de Annabel, as mãos levemente entrelaçadas nas costas.
– Ela sabe? – perguntou ele baixinho, indicando Louisa com a cabeça.
Annabel balançou a cabeça.
– Alguém sabe?
– Não.
– Entendo.
Ela não tinha certeza de que ele entendia alguma coisa, porque ela própria não entendia nada.
– Um convite bastante repentino ao campo, não acha? – murmurou ele.
Annabel revirou os olhos.
– Suspeito que minha avó esteja por trás disso.
– Foi ela quem me convidou?
– Não, acredito que na verdade ela tenha dito que não poderia impedir que você fosse convidado.
Ele riu.
– Eu sou tão querido.
O coração de Annabel parou por um segundo.
– O que foi? – indagou ele ao perceber que de repente ela parecia assustada.
– Eu não sei. Eu…
– Aqui está! – anunciou Louisa, andando de volta para junto deles. Ela segurava uma pedra redonda e chata, o braço estendido acima da cabeça. – Esta é a pedra perfeita para quicar na água.
– Posso ver? – perguntou Sebastian.
– Só se o senhor prometer não jogar.
– Eu lhe dou a minha palavra.
Ela entregou a pedra ao Sr. Grey, que a virou de um lado para outro, testando seu peso e sua textura. Depois a devolveu, meio que dando de ombros.
– Acha que não é boa? – questionou Louisa, um pouco desconcertada.
– Não é ruim.
– Ele está tentando abalar sua confiança – comentou Annabel.
Louisa suspirou.
– Isso é verdade?
Sebastian deu um sorriso falso para Annabel.
– A senhorita me conhece tão bem…
Louisa foi até a beira da água.
– Não foi muito gentil da sua parte, Sr. Grey.
Sebastian riu e se apoiou na rocha onde Annabel estava sentada.
– Eu gosto da sua prima – declarou ele.
– Eu também gosto dela.
Louisa respirou fundo, concentrou-se e atirou a pedra, com um movimento incrivelmente preciso do pulso, na opinião de Annabel.
Todos eles contaram: “Um… dois… três… quatro… cinco… seis!”
– Seis! – gritou Louisa. – Eu consegui! Seis! Rá! Eu disse que conseguia fazer seis. – A última frase foi dirigida a Annabel.
– Agora você tem que fazer sete – disse Sebastian.
Annabel explodiu em gargalhadas.
– Hoje não – comentou Louisa. – Hoje vou viver a glória da minha hexatidão.
– Hexatidão?
– Hexatitude.
Annabel deu um sorriso.
– Hexateza – proclamou Louisa. – Além disso – acrescentou ela, meneando a cabeça em direção a Sebastian –, eu não vi o senhor fazer sete.
Ele levantou as mãos em derrota.
– Faz muitos, muitos anos.
Louisa deu um sorriso genuíno para os dois.
– Diante disso, acredito que me retirarei para comemorar. Vejo vocês mais tarde. Talvez muito mais tarde.
E, tendo dito isso, ela partiu, deixando Annabel e Sebastian completamente a sós.
– Eu já disse que gosto da sua prima? – ponderou Sebastian. – Acho até que eu a amo. – Ele inclinou a cabeça para Annabel. – De forma puramente platônica, é claro.
Annabel respirou fundo, mas, quando soltou o ar, se sentiu trêmula e nervosa. Sabia que Sebastian queria uma resposta, e ele merecia uma. Mas ela não tinha nada a dizer. Apenas uma sensação horrível de vazio por dentro.
– Você parece cansado – disse ela.
Ele parecia mesmo.
Sebastian deu de ombros.
– Eu não dormi bem. Raramente durmo.
A voz dele soou estranha, e ela o observou com mais atenção. Ele não a encarava; seus olhos estavam fixos em algum ponto completamente aleatório. A raiz de uma árvore, ao que parecia.
Depois fitou os próprios pés, um dos quais juntava um montinho de terra. Havia algo familiar na expressão dele, e então ela se lembrou: era a mesma expressão que ele tinha naquele dia no parque, logo após ter atirado no alvo.
E, na ocasião, ele não quisera falar sobre o ocorrido.
– Sinto muito – disse ela. – Eu detesto quando não consigo dormir.
Ele deu de ombros novamente, o que começou a parecer forçado.
– Estou acostumado.
Annabel ficou algum tempo em silêncio, então percebeu que a pergunta óbvia era: – Por quê?
– Por quê? – repetiu ele.
– Sim. Por que você tem dificuldade para dormir? Sabe a causa?
Sebastian sentou-se ao lado dela, olhando para o lago, onde algumas ondulações provocadas pelas pedras ainda repercutiam na superfície. Pensou por um momento, depois abriu a boca como se fosse dizer algo.
Mas não disse nada.
– Eu aprendi que tenho que fechar os olhos – disse ela, captando a atenção dele. – Quando estou tentando dormir – esclareceu. – Tenho que fechar os olhos. Se eu ficar olhando para o teto, vou ter que aceitar a derrota. Afinal, não vou conseguir dormir com os olhos abertos.
Sebastian refletiu sobre aquilo por um instante, com um sorriso irônico.
– Eu olho para o teto – admitiu ele.
– Bem, aí está o seu problema.
Ele se virou. Annabel estava olhando para ele com uma expressão transparente, os olhos sinceros. E, enquanto estava sentado ali, desejando que fosse aquele o problema, de repente ele pensou: “Bem, talvez seja.” Talvez algumas das perguntas mais complexas tivessem respostas simples.
Talvez ela fosse a sua resposta simples.
Ele queria beijá-la. O desejo o atingiu de repente, de forma avassaladora. No entanto, queria apenas encostar os lábios nos dela. Nada além disso. Apenas um simples beijo de gratidão, de amizade, talvez até de amor.
Mas ele não iria beijá-la. Ainda não. Ela inclinara a cabeça para o lado, e a maneira como o encarava… Sebastian queria saber em que ela estava pensando. Queria saber mais sobre ela.
Queria saber quais eram suas ideias, suas esperanças e seus medos. Queria saber em que ela ficava pensando nas noites em que não conseguia dormir, e também com que ela sonhava quando finalmente pegava no sono.
– Eu fico pensando na guerra – confessou ele.
Nunca havia contado aquilo para ninguém.
Ela assentiu. De leve, um movimento tão breve que ele mal pôde notar.
– Deve ter sido terrível.
– Nem tudo. Só que o que eu mais penso durante a noite…
Sebastian fechou os olhos por um instante, incapaz de afastar o cheiro acre de pólvora, o sangue e, o pior de tudo, o barulho.
Annabel pousou a mão sobre a dele.
– Eu sinto muito.
– Não é tão ruim quanto antes.
– Isso é bom. – Ela sorriu encorajadoramente. – O que você acha que mudou?
– Eu…
Mas ele não terminou a frase. Não podia contar a ela. Ainda não. Como poderia lhe contar sobre seus escritos, se nem sabia se ela gostava deles? Nunca se incomodara com o fato de Harry
e Olivia acharem os livros da Sra. Gorely terríveis (bem, não tão terríveis, pelo menos), mas se Annabel os detestasse…
Talvez fosse demais para suportar.
– Acho que foi o tempo – respondeu Sebastian. – O tempo cura todas as feridas, é o que dizem.
Ela assentiu novamente, um pequeno movimento que ele gostava de pensar que só ele conseguia detectar. Annabel o encarou com curiosidade, a cabeça inclinada para o lado.
– O que foi? – perguntou ele, observando-a franzir a testa.
– Acho que seus olhos são da cor dos meus – disse ela, admirada.
– Que belos bebês de olhos acinzentados teremos – exclamou ele, sem pensar.
A animação desapareceu dos olhos de Annabel e ela desviou o olhar. Maldição. Ele não queria pressioná-la. Pelo menos não por ora. Sebastian estava tão feliz naquele momento!
Completa e perfeitamente confortável. Contara a outro ser humano um de seus segredos mais profundos e não tinha sido o fim do mundo. Era impressionante quanto aquilo o fez se sentir bem.
Não, “feliz” não era o termo correto. Era frustrante tentar encontrar as palavras certas. Não sabia como explicar. Ele se sentia…
Aliviado.
Leve.
Descansado. Ao mesmo tempo, queria fechar os olhos, encostar a cabeça em um travesseiro ao lado dela e dormir. Nunca havia sentido nada assim.
E então ele tinha estragado tudo. Annabel estava fitando o chão, as bochechas contraídas, e toda a cor se esvaíra dela. Ela parecia exatamente a mesma, não pálida, não corada, mas ainda assim sem cor.
A raiva começou a queimar dentro de Seb. Aquilo partiu o coração dele.
Ele conseguiu visualizar a vida dela como esposa de seu tio. Aquele casamento não a destruiria, apenas a sugaria pouco a pouco.
Sebastian não podia permitir que isso acontecesse. Simplesmente não podia permitir.
– Ontem eu lhe perguntei se você queria se casar comigo – disse ele.
Ela desviou o olhar. Dessa vez não para os pés, mas para longe.
Annabel não tinha uma resposta. Ele ficou surpreso com a dor que o atingiu. Ela não estava sequer recusando; estava apenas implorando por mais tempo.
Implorando silenciosamente, ele se corrigiu. Talvez a cena pudesse ser descrita mais precisamente como “evitando a questão”.
Ainda assim, Sebastian havia pedido sua mão em casamento. Será que ela pensava que ele fazia propostas como aquela da boca para fora? Ele sempre achou que, quando finalmente pedisse uma mulher em casamento, ela explodiria em lágrimas de felicidade e ficaria fora de si de tanta alegria. Um arco-íris irromperia no céu, borboletas dançariam sobre os dois e o mundo inteiro cantaria de mãos dadas.
Ou, pelo menos, ela diria sim. Ele não se considerava o tipo de homem que pediria a mão de uma mulher que pudesse dizer não.
Ele ficou de pé. Estava inquieto demais para permanecer sentado. Toda aquela paz, toda aquela adorável leveza, havia desaparecido.
Que diabo ele deveria fazer agora?
Capítulo vinte
Annabel observou enquanto Sebastian caminhava em direção à água. Ele parou bem na beira do lago, perto o suficiente para quase molhar os sapatos. Seus olhos estavam fixos na margem oposta, a postura, rígida e inflexível.
Aquilo era tão incomum. Era tão… errado.
Sebastian tinha graça, desenvoltura. Todos os movimentos dele eram como uma dança secreta, todo sorriso era um poema silencioso. Aquilo não estava certo. Não era ele. Desde quando ela o conhecia tão bem que podia afirmar que ele estava estranho apenas ao olhá-lo? E
por que doía tanto saber que ela entendia isso? Que o conhecia?
Depois do que pareceu uma eternidade, Sebastian se virou e disse, com uma formalidade dolorosa: – Pelo seu silêncio, devo imaginar que você não tem uma resposta.
Ela balançou a cabeça muito de leve, apenas o suficiente para dizer não.
– Isso abala mesmo minha confiança – comentou ele –, deixá-la assim sem palavras.
– É tudo muito complicado – retrucou Annabel.
Sebastian cruzou os braços e olhou para ela com uma sobrancelha erguida. E assim, do nada, ele estava de volta. A rigidez tinha ido embora, substituída por uma confiança descontraída.
Quando ele caminhou na direção dela, o fez com uma graciosidade tão arrogante que a hipnotizou.
– Não é complicado – disse ele. – Não poderia ser mais simples. Eu pedi sua mão em casamento e você quer se casar comigo. Tudo o que você precisa fazer é aceitar.
– Eu não disse que…
– Você quer – interveio ele, com um grau incrivelmente irritante de certeza. – Você sabe que quer.
Ele estava certo, é claro, mas Annabel não pôde deixar de se afetar pela arrogância dele.
– Você é tão seguro de si.
Sebastian deu um passo na direção dela, abrindo lentamente um sorriso. Sedutoramente.
– Não deveria?
– Minha família… – sussurrou ela.
– Não vai passar fome. – Ele tocou o queixo dela, erguendo seu rosto gentilmente. – Eu não sou um pobretão, Annabel.
– Nós somos oito.
Ele ponderou.
– Muito bem, ninguém vai passar fome, mas pode ser que todos emagreçam um pouco.
Ela soltou uma gargalhada. Odiava que ele fosse capaz de fazê-la rir num momento como
aquele. Não, ela amava. Não, ela o amava.
Oh, Deus.
Ela deu um pulo.
– O que foi? – perguntou ele.
Annabel balançou a cabeça.
– Me diga – insistiu ele, pegando a mão dela, puxando-a de volta para si. – Aconteceu alguma coisa. Eu vi nos seus olhos.
– Não, Sr. Gr…
– Sebastian – lembrou ele, dando um beijo suave na testa dela.
– Sebastian – resmungou ela.
Era difícil falar quando ele estava tão perto. Era difícil pensar.
Os lábios dele desceram até a bochecha dela, leves e macios.
– Eu conheço algumas formas de fazer você falar – sussurrou ele.
– Q-Quê?
Ele mordeu o lábio inferior de Annabel e depois avançou para a orelha dela.
– Em que você estava pensando? – murmurou ele.
Ela só conseguia gemer.
– Terei que ser mais persuasivo.
As mãos dele desceram pelas costas dela, deslizando para baixo até apalpar suas nádegas, pressionando-as contra ele. Annabel sentiu a cabeça pender para trás, fugindo daquele ataque libidinoso, mas ainda assim ela mal conseguia respirar. Seu corpo estava totalmente contraído e quente, e ela sentia o volume do membro dele crescendo.
– Eu quero você – sussurrou ele. – E eu sei que você me quer.
– Aqui? – indagou ela, arfando.
Ele riu.
– Sou um pouco mais refinado do que isso. Mas – acrescentou ele, parecendo pensativo –
estamos mesmo sozinhos aqui.
Ela assentiu.
– Nenhum dos convidados chegou ainda. – Ele beijou a pele macia onde a orelha dela encontrava a linha do maxilar. – E acho que é seguro supor que sua encantadora prima não vai nos perturbar.
– Sebastian, eu…
– Ela será a madrinha dos nossos filhos.
– O quê?
No entanto, ela mal conseguia falar, de tão ofegante. A mão dele havia encontrado o caminho sob a saia dela e subia implacavelmente por sua perna. E tudo o que ela queria – ah, meu bom Deus, ela era uma menina travessa – era se curvar, abrir um pouco mais as pernas e deixar tudo mais fácil para ele fazer o que quisesse.
– Ela pode ensiná-los a quicar pedras na água – disse ele, alcançando a parte macia logo acima do joelho.
Annabel estremeceu.
– Sente cócegas aqui? – perguntou ele com um sorriso, e então subiu a mão. – Teremos muitos filhos, eu acho. Muitos e muitos e muitos.
Ela precisava detê-lo. Precisava falar alguma coisa, dizer que ainda não havia decidido, que não podia se comprometer enquanto não tivesse tempo suficiente para pensar com clareza, o que obviamente não ia acontecer na presença dele. Ele estava falando sobre o futuro, sobre filhos, e ela sabia que seu silêncio parecia um consentimento.
Ele passou o dedo ao longo da parte interna da coxa dela.
– Acho que não existe a menor chance de não termos muitos filhos – murmurou ele enquanto seus lábios encontravam a orelha dela novamente. – Não vou deixar você sair da nossa cama.
As pernas dela amoleceram.
O dedo escorregou ainda mais para cima, alcançando a dobra quente onde a perna e o quadril se encontravam.
– Devo lhe contar o que pretendo fazer quando estivermos lá? Na nossa cama?
Ela assentiu.
Sebastian sorriu. Ela sentiu o sorriso dele contra sua orelha, os lábios dele se mexerem, abrindo e fechando, ouviu a respiração dele se encher de entusiasmo.
– Primeiro – começou ele –, eu vou me certificar de lhe dar prazer.
Um pequeno gemido escapou dos lábios de Annabel. Ou talvez tenha sido um ganido.
– Vou começar com um beijo – relatou ele, a voz quente e baixa contra a pele dela. – Mas onde, eu me pergunto?
– Onde? – sussurrou ela.
Não era realmente uma pergunta, e sim um eco de incredulidade.
Ele tocou os lábios dela.
– Na boca? Talvez. – O dedo dele percorreu uma trilha preguiçosa até a clavícula dela. – Eu gosto desta parte do seu corpo. E destes… – Ele tomou um dos seios na palma da mão, gemendo enquanto o apertava. – Eu poderia me perder neles o dia inteiro.
Annabel arqueou as costas, querendo lhe oferecer mais. Seu corpo havia assumido o controle e estava desesperado por Sebastian. Ela não conseguia parar de pensar no que ele fizera com ela na sala de estar dos Valentines. Como ele tocara seus seios. Durante toda a sua vida, Annabel os detestara, detestara como os homens olhavam e assobiavam e, quando bebiam demais, agiam como se ela fosse uma fruta madura, pronta para ser colhida do pé.
Mas Sebastian tinha feito com que ela se sentisse bonita. Ele amava o corpo dela, e isso fez com que ela também amasse o próprio corpo.
Ele enfiou a mão no corpete do vestido e deslizou os dedos sob a combinação até conseguir roçar seu mamilo.
– Você não faz ideia – continuou ele em uma voz rouca – de quanto vou amar você aqui.
Annabel perdeu o ar e ficou desapontada quando ele moveu a mão novamente. Era uma posição muito desconfortável, e ela só conseguia pensar que, se pudesse tirar toda aquela maldita roupa, ele poderia tocar todas as partes de seu corpo. Poderia apalpar, apertar e chupar.
– Ai, meu Deus – gemeu ela.
– Em que você está pensando? – sussurrou ele.
Ela balançou a cabeça. Annabel não era capaz de dar voz a tantos pensamentos devassos.
– Está imaginando onde mais eu poderia beijar?
Meu bom Deus, ela esperava que ele não lhe exigisse uma resposta.
– Eu poderia beijar você todinha – brincou ele.
A outra mão de Sebastian, a que estava no meio das pernas de Annabel, envolveu a coxa dela e a apertou.
– Se eu quiser lhe dar prazer – murmurou ele –, prazer de verdade, acho que vou ter que beijar você bem aqui.
O dedo dele mergulhou entre as pernas dela.
Annabel quase deu um pulo para trás. Teria feito isso, se o braço dele não estivesse tão firme ao redor de seu corpo.
– Você gosta disto? – perguntou ele, traçando pequenos círculos enquanto se aproximava do que havia mais acima entre as suas pernas.
Ela assentiu. Ou talvez tenha pensado que assentiu. Definitivamente, não negou.
Um segundo dedo se juntou ao primeiro e, com uma delicadeza mordaz, ele a provocou, acariciando sua intimidade molhada. Annabel sentiu seu corpo começar a tremer e estremecer e se agarrou firmemente aos ombros dele, com medo de desabar se o soltasse.
– Você deve ter o sabor do paraíso, eu imagino – prosseguiu ele, obviamente disposto a não parar até que ela explodisse em seus braços. – Eu lamberia você bem aqui. – Ele passou a ponta do dedo levemente sobre a pele dela. – E depois aqui. – Repetiu a carícia do outro lado. – E
depois eu viria para cá. – Ele alcançou a parte mais sensível de sua carne, e ela quase gritou.
Sebastian pressionou ainda mais a boca na orelha dela.
– Eu também lamberia isto aqui.
Annabel o apertou, levando os quadris em direção à mão dele.
– Mas mesmo isto pode não ser suficiente – sussurrou ele. – Você é uma mulher exigente, e pode ser trabalhoso lhe dar prazer.
– Ai, Sebastian… – gemeu ela.
Ele riu levemente contra a pele dela.
– Talvez eu precise tocá-la um pouco mais fundo. – Um dos dedos dele começou a passear pela sua fenda, depois deslizou gentilmente para dentro. – Deste jeito. Você gosta disto?
– Sim – disse ela, ofegante. – Gosto.
Sebastian começou a mexer o dedo dentro dela.
– E disto?
– Sim.
Ah, ele era travesso, e ela era travessa, e ele estava fazendo coisas travessas com ela. E a única coisa em que ela conseguia pensar era que os dois estavam a céu aberto e qualquer um podia aparecer, e de alguma forma isso tornava tudo ainda mais delicioso.
– Entregue-se, Annabel – sussurrou ele no ouvido dela.
– Não posso – choramingou ela, enlaçando-o com as pernas.
Annabel estava em chamas. Ele era responsável por aquilo, e ela não tinha ideia de como fazê-lo parar.
Nem mesmo se queria fazê-lo parar.
– Entregue-se – sussurrou ele novamente.
– Eu… eu…
Ele riu.
– Vou falar com bastante clareza, Anna…
– Ah!
Ela não tinha certeza se conseguira se entregar ou não, mas algo dentro dela desmoronou.
Annabel se agarrou aos ombros dele, como se sua preciosa vida dependesse disso, e então, quando começou a se sentir mole, ele a abraçou e a carregou no colo até um gramado a alguns metros de distância. Ela se sentou e depois se deitou, permitindo que o sol aquecesse seu rosto.
– Eu amo você de verde – disse ele.
Ela não abriu os olhos.
– Eu estou de rosa.
– Você ficaria ainda melhor se tirasse tudo – retrucou ele, dando um beijo no nariz dela – de modo a serem apenas você e a grama.
– Eu não sei o que você acabou de fazer comigo – respondeu ela.
Annabel parecia atordoada. Achava que nunca havia se sentido tão atordoada em toda a sua vida.
Ele a beijou novamente.
– Posso pensar em mais dez coisas que eu gostaria de fazer com você.
– Acho que eu morreria.
Sebastian riu alto.
– Obviamente, precisamos praticar mais. Aumentar sua capacidade de resistência.
Ela finalmente abriu os olhos e o encarou. Ele estava deitado de lado, a cabeça apoiada em uma das mãos, segurando um trevo na outra.
Ele fez cócegas no nariz dela.
– Você é tão linda, Annabel.
Ela soltou um suspiro de felicidade. Estava se sentindo linda.
– Vai se casar comigo?
Ela fechou os olhos novamente. Sentia-se absolutamente letárgica.
– Annabel?
– Eu quero – disse ela suavemente.
– Por que eu estou achando que isso não é a mesma coisa que um sim?
Annabel deu outro pequeno suspiro. O sol era extremamente agradável em seu rosto. Ela não conseguia nem se preocupar com as sardas que poderia ganhar.
– O que eu vou fazer com você? – indagou ele em voz alta.
Ela o ouviu se mexer, e de repente a voz dele estava muito mais próxima.
– Eu posso continuar criando maneiras de fazer você se comprometer.
Annabel riu.
– Deixe-me pensar. Número dez…
– Eu também faço isso – interveio ela, ainda estudando o interior de suas pálpebras, meio
avermelhadas pela luz do sol. Era uma cor agradável e quente.
– Isso o quê?
– Contar às dezenas. É um número redondo e tão agradável!
Ele mordeu o lóbulo da orelha dela.
– Eu gosto de coisas agradáveis e redondas.
– Pare.
Mas mesmo ela sentiu que não estava falando sério.
– Quer saber como eu sei que você vai se casar comigo?
Ela abriu os olhos. Ele parecia bastante seguro de si.
– Como?
– Olhe para você. Toda feliz e contente. Se não fosse se casar comigo, estaria correndo em círculos como uma galinha… não, desculpe, um peru… se perguntando o que eu fiz? , o que você fez? ou o que nós fizemos? .
– Estou mesmo pensando em todas essas coisas – concordou ela.
Sebastian bufou.
– Está bem.
– Você não acredita em mim.
Ele a beijou.
– Nem um pouco. Mas o dia ainda não terminou, e eu sou um homem de palavra, então não vou atormentá-la.
Ele ficou de pé e estendeu a mão.
Annabel a pegou e se levantou, sorrindo, incrédula.
– Aquilo não foi atormentar?
– Minha querida Srta. Winslow, eu nem comecei a atormentá-la. – E então os olhos dele assumiram um ar extremamente diabólico. – Hum.
– O que foi?
Ele riu para si mesmo enquanto a conduzia colina acima em direção à trilha. – Já houve alguma competição do Winslow Mais Capaz de Vencer a Tormenta?
Ela riu durante todo o caminho de volta para Stonecross.
Capítulo vinte e um
À noite
– Você o viu hoje à tarde?
Annabel teria olhado para Louisa, que acabara de entrar na sala, se Nettie não estivesse mexendo em seu cabelo como se fosse num torno.
– De quem você está falando? – perguntou Annabel. – Ai! Nettie!
Nettie puxou ainda mais, torcendo uma mecha e prendendo-a.
– Fique parada e não vai demorar tanto.
– Você sabe quem – respondeu Louisa, puxando uma cadeira.
– Você está de azul – disse Annabel, sorrindo para a prima. – É a cor que mais gosto em você.
– Não tente mudar de assunto.
– Ela não o viu – retrucou Nettie.
– Nettie!
– Bem, a senhorita não o viu mesmo – declarou a aia.
– Não o vi – confirmou Annabel. – Não o vejo desde o almoço.
O almoço fora servido ao ar livre, e, como não havia lugares marcados, Annabel acabara ficando em uma mesa para quatro pessoas junto de Sebastian, Edward e Louisa. Eles se divertiram muitíssimo, mas em determinado momento lady Vickers pedira para falar em particular com Annabel.
– O que você pensa que está fazendo? – indagou a avó, assim que elas se afastaram.
– Nada – insistiu Annabel. – Louisa e eu…
– Isso não tem a ver com a sua prima – interrompeu lady Vickers entre dentes, agarrando o braço de Annabel com força. – Estou falando do Sr. Grey, que não é, devo dizer, o conde de Newbury.
Annabel percebeu que o tom elevado da avó começava a chamar atenção, então ela passou a falar mais baixo, esperando que a avó seguisse o exemplo.
– Lorde Newbury ainda não chegou – disse ela. – Se ele tivesse chegado, eu…
– Se sentaria com ele? – Lady Vickers arqueou uma sobrancelha extremamente cética. –
Prestaria atenção em cada palavra que ele proferisse e agiria como uma rameira?
Annabel suspirou e deu um passo para trás.
– Todo mundo está de olho em você – argumentou lady Vickers entre dentes. – Você pode
fazer o que quiser depois de se casar. Inclusive vou lhe ensinar exatamente como proceder. Mas, por enquanto, deve continuar tão pura quanto a maldita neve. E sua reputação também!
– O que a senhora acha que eu tenho feito? – indagou Annabel em voz baixa.
Sua avó não teria como saber o que havia acontecido no lago. Ninguém sabia.
– Você não aprendeu nada do que eu lhe ensinei? – Os olhos de lady Vickers, claros e sóbrios como Annabel jamais vira, se fixaram nos dela. – Não importa o que você faz, e sim o que as pessoas pensam que você faz. E você olha para aquele homem como se estivesse apaixonada por ele.
Mas ela estava apaixonada.
– Vou tentar me comportar melhor – foi tudo o que Annabel respondeu.
Ela voltou para o almoço, porque não poderia ser vista correndo para o quarto logo depois de a avó repreendê-la publicamente. Assim que terminou de comer, pediu licença e se recolheu durante a tarde. Avisou a Sebastian que precisava descansar. O que era verdade. E que não queria estar presente quando o tio dele finalmente chegasse.
O que também era verdade.
Então ela se sentou na cama com A Srta. Sainsbury. E seu coronel misterioso. E disse a si mesma que merecia uma tarde só para si. Tinha muito em que pensar.
Annabel sabia o que queria fazer e sabia o que deveria fazer, e sabia que eram coisas diferentes.
Ela também sabia que, se mantivesse a mente concentrada num livro durante a tarde inteira, conseguiria ignorar aquela tremenda confusão por algumas horas.
O que era extremamente tentador.
Talvez, se ela esperasse o suficiente, alguma coisa acontecesse e todos os seus problemas desaparecessem.
Quem sabe sua mãe encontrasse um colar de diamantes perdido havia muito tempo?
Lorde Newbury poderia encontrar uma garota com quadris ainda maiores. Poderia haver uma inundação. Uma praga. De fato, o mundo estava repleto de calamidades.
Bastava olhar para a pobre Srta. Sainsbury. Do terceiro ao oitavo capítulo, ela caíra do deque de um navio, fora capturada por um corsário e quase tinha sido pisoteada por uma cabra.
Quem poderia garantir que as mesmas coisas não aconteceriam com ela?
Embora, avaliando todas as possibilidades, o colar de diamantes fosse um pouco mais atraente.
No entanto, uma garota não podia se esconder por muito tempo, e naquele momento Annabel estava sentada diante do espelho, os cabelos sendo puxados de um lado para outro, enquanto Louisa a atualizava do que ela havia perdido.
– Eu vi lorde Newbury – disse Louisa.
Annabel soltou uma espécie de suspiro.
– Ele estava conversando com lorde Challis. Ele… é… – Nervosa, Louisa engoliu em seco e puxou o adorno de renda de seu vestido. – Ele comentou algo sobre uma licença especial.
– O quê? Ai!
– Não se mexa tão de repente – repreendeu Nettie.
– O que ele falou sobre licença especial? – sussurrou Annabel.
Não que houvesse um motivo real para sussurrar. Nettie sabia de tudo. Annabel lhe prometera duas toucas e um par de sapatos para que a aia ficasse quieta.
– Só disse que tinha uma. E que por isso chegou atrasado. Veio direto da Cantuária.
– Você falou com ele?
Louisa balançou a cabeça.
– Acho que ele nem me viu. Eu estava lendo na biblioteca e os ouvi pela porta entreaberta.
Eles conversavam no corredor.
– Uma licença especial – repetiu Annabel, a voz abafada.
Uma licença especial significava que um casal poderia se casar logo, sem a necessidade de proclamas. Três semanas inteiras poderiam ser poupadas, e a cerimônia poderia ocorrer em qualquer lugar, em qualquer paróquia. Inclusive em qualquer momento, embora a maioria dos casais ainda fosse apegada à tradicional manhã de sábado.
Annabel percebeu seu olhar fixo no espelho. Era quinta à noite.
Louisa estendeu a mão para alcançar a dela.
– Eu posso ajudá-la – afirmou ela.
Annabel virou-se para a prima na mesma hora. Algo na voz de Louisa a deixou desconfortável.
– O que você quer dizer?
– Eu tenho… – Louisa parou, olhando para Nettie, que espetava outro grampo no cabelo de Annabel. – Preciso falar com a minha prima em particular.
– Este é o último – avisou Nettie, dando no cabelo de Annabel o que ela considerou uma reviravolta mais vigorosa do que o necessário, então colocou a mecha no lugar e deixou o aposento.
– Eu tenho dinheiro – disse Louisa, assim que a porta se fechou. – Não muito, mas o suficiente para ajudar.
– Louisa, não.
– Eu nunca gasto toda a minha mesada. Meu pai me dá muito mais do que eu preciso. – Ela deu de ombros com uma expressão triste. – É para compensar a ausência dele em todos os outros aspectos da minha vida, tenho certeza. Mas isso não importa. A questão é que posso enviar um pouco para a sua família. Será o suficiente para manter seus irmãos na escola por mais um ano, pelo menos.
– E no ano seguinte? – indagou Annabel.
Porque haveria outro depois daquele. E mais outro. Por mais generosa que fosse a oferta de Louisa, seu dinheiro não duraria para sempre.
– Vamos lidar com isso quando chegar a hora. Pelo menos ganharemos tempo. Você pode conhecer outra pessoa. Ou talvez o Sr. Grey…
– Louisa!
– Não, escute – interrompeu a prima. – Talvez ele tenha algum dinheiro do qual ninguém tenha conhecimento.
– Você não acha que ele teria dito alguma coisa, se fosse o caso?
– Ele não disse…
– Não, ele não disse – retrucou Annabel, odiando o fato de sua voz estar falhando.
Mas era difícil. Era difícil pensar em Sebastian e em todas as razões pelas quais ela não deveria se casar com ele.
– Ele comentou que não é nenhum pobretão e que não morreríamos de fome, mas, quando eu o lembrei de que somos oito, ele fez uma piada sobre emagrecermos!
Louisa se encolheu, envergonhada, depois tentou afastar o sentimento.
– Bem, sempre soubemos que ele não é tão rico quanto o conde. Mas, no fim das contas, quem é? E você não precisa de joias e palácios, precisa?
– Claro que não! Se não fosse pela minha família, eu…