Dez coisas que eu amo em você

Julia Quinn · Capítulo 4 de 5 · parte 2/3

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Dez coisas que eu amo em você

Capítulo dezesseis

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Sebastian ficou se perguntando por que aquilo lhe agradava tanto. Ele não era assim. Sempre fora capaz de se manter impassível. Provavelmente era por isso que era tão bom de mira. Na guerra, às vezes tinha que ficar imóvel por horas em seu ninho de atirador, aguardando o momento perfeito para apertar o gatilho.

– Eu só queria que o senhor soubesse… – começou ela.

Ele esperou. O que quer que ela estivesse tentando dizer não era fácil.

– Eu só queria que o senhor soubesse – recomeçou ela, como se tentasse reunir coragem –

que eu sei que isso não tem nada a ver com o senhor. E eu não espero…

Ele balançou a cabeça, tentando poupá-la de ter que verbalizar algo tão difícil.

– Shhh. Não precisa falar mais nada.

– Mas lady Olivia…

– Pode ser muito intrometida – completou ele. – Por enquanto, vamos apenas fingir que…

Por acaso é um livro da Sra. Gorely?

Annabel olhou para baixo. Tinha esquecido que o livro estava em seu colo.

– Ah. Sim. Lady Olivia me emprestou.

Ele estendeu a mão.

– Qual deles?

– Bem… – Ela olhou para a capa. – A Srta. Sainsbury e o coronel misterioso. – Entregou o exemplar nas mãos dele. – Presumo que o senhor já tenha lido.

– É claro.

Sebastian abriu o livro na página inicial do primeiro capítulo. Os raios oblíquos da luz da alvorada, narrou ele para si mesmo. Lembrava-se com imensa clareza de quando havia escrito aquelas palavras. Não, isso não era verdade. Lembrava-se de ter pensado nelas. Pensou em todo o trecho de abertura antes de colocá-lo no papel. Ele o repassou diversas vezes, editando em sua mente, até deixá-lo do jeito que queria.

Tinha sido o momento dele. O verdadeiro divisor de águas. Ele se perguntou se todo mundo tinha um divisor de águas na vida. Um momento situado exatamente entre o antes e o depois.

Aquele fora o dele. Naquela noite, em seu quarto. Não fora muito diferente da noite anterior ou da anterior à anterior. Ele não conseguia dormir. Não havia nada fora do comum nisso.

Exceto que, por algum motivo – um motivo inexplicável e milagroso –, tinha começado a pensar em livros.

E então pegou uma pena.

Agora, ele estava vivendo o seu depois. Olhou para Annabel e logo desviou o olhar. Não queria pensar no depois dela.

– Posso ler para a senhorita? – perguntou ele, um pouco alto.

Ele precisava fazer algo para mudar o rumo de seus pensamentos. Além disso, aquilo poderia animá-la.

– Pode – respondeu ela, os lábios formando um sorriso hesitante. – Lady Olivia contou que o senhor é ótimo com leituras.

Não era possível que Olivia tivesse contado aquilo.

– Ela contou, foi?

– Bem, não propriamente. Mas ela falou que o senhor levou as aias às lágrimas.

– De um jeito positivo – assegurou ele.

Annabel deu uma boa gargalhada. Ele se sentiu absurdamente contente.

– Vamos lá – disse ele. – Capítulo um. – Sebastian limpou a garganta e continuou: – Os raios oblíquos da luz da alvorada ondulavam através da vidraça e a Srta. Anne Sainsbury estava

encolhida debaixo de seu cobertor fino, imaginando, como era de costume, onde conseguiria dinheiro para sua próxima refeição.

– Sou capaz de imaginar isso muito bem – interrompeu Annabel.

Ele olhou para ela com surpresa. E satisfação.

– Sério?

Ela assentiu.

– Eu costumava acordar cedo. Antes de vir para Londres. A luz é diferente na alvorada. É

mais uniforme, eu acho. E mais dourada. Sempre pensei… – Ela hesitou, inclinando a cabeça de lado. Suas sobrancelhas se uniram e ela franziu a testa. Era uma expressão adorável. Sebastian chegou a acreditar que, se olhasse com vontade, conseguiria enxergar os pensamentos dela. – O

senhor sabe o que eu quero dizer – concluiu ela.

– Eu sei?

– Sabe. – Ela se endireitou, e seus olhos brilharam com a lembrança. – O senhor mesmo falou. Quando eu o conheci, na festa de lady Trowbridge.

– No bosque – murmurou ele com um suspiro.

Uma lembrança que parecia muito agradável e distante.

– Sim. O senhor falou alguma coisa sobre a luz da manhã. Falou que… – Ela estacou, completamente corada. – Não importa.

– Preciso dizer que agora eu quero muito saber o que foi que eu falei.

– Ah… – Ela balançou a cabeça rapidamente. – Não.

– Annabel – provocou ele, gostando da forma como o nome dela soava musical.

– O senhor disse que gostaria de se banhar nela – revelou ela, as palavras saindo atropeladas.

– Eu disse isso?

Era estranho. Sebastian não se lembrava de ter dito aquilo. Às vezes, ele se perdia nos próprios pensamentos. Mas de fato parecia algo que ele diria.

Ela assentiu.

– Hum. Bem. Acho que eu gostaria mesmo. – Ele inclinou a cabeça na direção dela, como costumava fazer quando estava prestes a proferir uma gracinha. – Se bem que eu gostaria de um pouco de privacidade.

– É claro.

– Ou, quem sabe, nem tanta privacidade assim – refletiu ele.

– Pare – pediu ela.

Mas não pareceu ofendida. Não muito. Ele a observou quando ela achou que ele não estava olhando. Annabel parecia sorrir para si mesma. O suficiente para que ele visse sua coragem, sua força. Sua capacidade de se manter firme em meio à adversidade.

Ele parou. Que diabo estava pensando? Tudo o que ela fizera fora se defender do comentário inadequado dele. Não tinha nada a ver com adversidade, ora essa.

Sebastian precisava ter cuidado, senão a transformaria em algo que ela não era. Isso era o que ele fazia quase todas as noites, escondido em seu quarto com papel e tinta. Ele criava personagens. Se deixasse sua imaginação trabalhar livremente, ele a transformaria na mulher perfeita.

O que não era justo para nenhum dos dois.

Ele pigarreou e apontou para o livro.

– Posso prosseguir?

– Por favor.

– Ela olhou para sua fiel collie…

– Eu tenho um cachorro – Annabel deixou escapar.

Sebastian a olhou, surpreso. Não por ela ter um cachorro. Annabel parecia mesmo ser do tipo que teria um. Só que ele não esperava uma nova interrupção em tão pouco tempo.

– Tem?

– Um galgo.

– Ele corre?

Ela balançou a cabeça.

– O nome dele é Rato.

– Você é cruel, Annabel Winslow.

– Ele tem cara de rato, não posso negar.

– Suponho que ele não tenha vencido o concurso de Winslow Mais Apto a Correr Mais Rápido do que um Peru.

Ela riu.

– Não.

– A senhorita disse que ficou em terceiro lugar – lembrou ele.

– Os candidatos se restringiam à espécie humana – disse ela, e acrescentou: – Dois dos meus irmãos têm vento nos pés.

Ele ergueu o livro novamente.

– Quer que eu continue?

– Tenho saudade do meu cachorro – comentou ela, dando um suspiro.

Aparentemente, não.

– Bem… Seus avós não têm um? – perguntou ele.

– Não. O único é aquele cachorro ridículo da Louisa.

Ele se lembrou da salsicha gorducha com pernas que tinha visto no parque.

– Ele era um tanto robusto.

Ela bufou.

– Quem chama um cachorro de Frederick?

– O quê?

Annabel pulava de um tópico a outro como um pássaro agitado.

Ela se sentou um pouco mais ereta.

– Louisa batizou o cachorro de Frederick. Não acha isso ridículo?

– Na verdade, não – admitiu ele.

– Meu irmão se chama Frederick.

Sebastian não conseguia entender por que ela estava falando tudo aquilo, mas ela parecia querer fugir dos problemas que tinha na cabeça, então ele embarcou.

– Frederick é um dos que têm vento nos pés?

– É, sim. Ele é também o Winslow com Menor Probabilidade de Virar Padre. – Ela apontou para si mesma. – Eu com certeza o teria desbancado nisso se as meninas não tivessem sido desqualificadas por motivos religiosos.

– É claro – murmurou ele. – A Willow com Maior Probabilidade de Cochilar durante a Missa e tudo mais. – Então lhe ocorreu perguntar: – Isso já aconteceu mesmo? A senhorita dormiu durante a missa?

Ela deixou escapar um suspiro cansado.

– Todas… as… semanas.

Ele riu.

– Teríamos feito uma dupla e tanto.

– O senhor também dorme durante a missa?

– Ah, não. Nunca dormi. Fui expulso por mau comportamento.

Annabel chegou mais perto dele, com um brilho nos olhos.

– O que o senhor fez para isso?

Sebastian se aproximou também, com um sorriso malicioso.

– Isso a senhorita nunca vai saber.

Ela recuou.

– Não é justo.

Ele deu de ombros.

– Agora eu simplesmente não vou à missa.

– Nunca?

– Não. Para ser sincero, eu provavelmente pegaria no sono. Dormiria, com certeza. Os horários das missas não eram nada adequados para quem tem insônia.

Annabel sorriu, mas havia algo de melancólico naquilo, então ficou de pé. Ele ameaçou fazer o mesmo, mas ela levantou a mão.

– Por favor. Não por minha causa. – Sebastian observou enquanto ela caminhava até a janela, encostando a cabeça no vidro enquanto olhava para fora. – Acha que ele ainda está lá? – indagou ela.

Ele não fingiu que não sabia exatamente do que ela estava falando.

– Provavelmente. Ele é muito insistente. Se seus avós lhe disseram que a senhorita logo estaria de volta, ele vai esperar.

– Lady Olivia falou que passaria por lá depois do compromisso dela para ver se a carruagem ainda estava na frente. – Ela se virou e perguntou, sem olhar diretamente para ele: – Ela não tinha compromisso nenhum, tinha?

Ele pensou em mentir. Mas não o fez.

– Não.

Annabel assentiu devagar, seu rosto pareceu se contrair, e tudo em que ele conseguiu pensar foi: Ah, meu Deus, chega de lágrimas, porque ele não sabia lidar com choro. Muito menos com o dela. Mas antes que ele conseguisse pensar em algo reconfortante para dizer, percebeu que…

– A senhorita está rindo?

Ela balançou a cabeça. Enquanto ria.

Ele se levantou.

– O que é tão engraçado?

– Sua prima – soltou ela. – Acho que ela está tentando arrumar um compromisso para o senhor.

Era a coisa mais ridícula que ele já tinha ouvido. E a mais verdadeira.

– Ah, Annabel… – Ele suspirou, indo na direção dela com a graça de um predador. – Eu já fui comprometido muito, muito tempo atrás.

– Sinto muito. – Ela ainda estava rindo. – Eu não quis insinuar…

Sebastian ficou esperando, mas o que quer que ela não quisesse insinuar tinha se perdido em uma nova onda de risadas.

– Ah! – Ela se apoiou na parede com as mãos na barriga.

– Não foi tão engraçado – retrucou ele.

Mas ele estava sorrindo quando falou aquilo. Era impossível não sorrir quando ela ria.

Annabel deu uma risada extraordinária.

– Não, não – disse ela, ofegante. – Não foi isso. Eu estava pensando em outra coisa.

Ele esperou. Nada. Por fim, ele questionou:

– A senhorita se importaria de me dizer em quê?

Ela soltou uma gargalhada, possivelmente pelo nariz, e pôs as duas mãos sobre a boca, ou seja, sobre o rosto inteiro.

– Parece que a senhorita está chorando – comentou ele.

– Não estou – foi a resposta abafada dela.

– Eu sei. Só pensei em lhe dizer isso, caso alguém entre aqui e pense que eu a fiz chorar.

Ela espiou por entre os dedos.

– Perdão.

– O que é tão engraçado? – Àquela altura, ele precisava saber.

– Ah, foi só que… ontem à noite… quando o senhor estava conversando com seu tio…

Ele se recostou no sofá, esperando.

– O senhor disse que desejava me reintegrar no seio da sociedade.

– Não foi a forma mais elegante de me expressar – admitiu ele.

– E tudo em que eu conseguia pensar era… – Parecia que ela ia explodir novamente. – Eu não sei se gosto tanto assim do seio da sociedade.

– Não é meu tipo favorito de seio – concordou ele, esforçando-se bastante para não olhar os seios dela.

Isso só fez com que ela risse ainda mais – e determinadas regiões do corpo dela se sacudissem ainda mais.

O que teve um enorme efeito em determinadas regiões do corpo dele.

Sebastian ficou imóvel.

Ela cobriu os olhos, envergonhada.

– Não acredito que eu acabei de dizer isso.

Ele prendeu a respiração. Não conseguia parar de olhar para ela, para os lábios dela, rosados e carnudos, ainda arqueados em um sorriso.

Sebastian queria beijá-la. Queria beijá-la mais do que queria respirar. Queria beijá-la além da razão, porque, se estivesse sendo racional, teria se afastado. Teria saído da sala. Teria se enfiado em um banho frio.

Em vez disso, ele deu um passo na direção dela. Pôs as mãos sobre as dela, mantendo-as delicadamente sobre os olhos. Os lábios dela se separaram e ele ouviu um leve sopro. Se ela tinha inspirado ou expirado, ele não sabia. E não se importava. Ele só queria que a respiração dela fosse a respiração dele.

Ele se aproximou mais. Devagar. Não podia se apressar, não podia correr o risco de perder um segundo. Queria se lembrar daquele momento. Queria que cada instante ficasse gravado em sua memória. Queria saber como era estar a 2 centímetros de distância, depois 1, depois…

Os lábios dele tocaram os dela. Um pequeno toque fugaz antes de ele se afastar. Ele queria olhar para ela, para saber exatamente como ela reagiria a um beijo.

Para saber exatamente como ela reagiria enquanto esperava por mais um.

Ele entrelaçou os dedos nos dela e lentamente retirou a mão dela dos olhos.

– Olhe para mim – sussurrou ele.

Ela balançou a cabeça, mantendo os olhos fechados.

E então ele não conseguiu esperar mais. Passou os braços em volta dela, puxando-a contra si e trazendo os lábios dela ao encontro dos seus. Foi muito mais que um beijo. Suas mãos deslizaram pela cintura dela até suas nádegas, e ele as apertou. Não sabia se estava tentando pressioná-la contra si ou se queria apenas se deleitar com a luxúria do corpo de Annabel.

Ela era uma deusa em seus braços, suave e suntuosa, e ele queria senti-la, cada centímetro.

Queria tocar, acariciar e apertar e, Deus do céu, quase se esqueceu de que a estava beijando também. Mas o corpo dela… o corpo dela era uma obra de arte. Era um maldito milagre, e, quando finalmente desgrudou a boca da dela para tomar fôlego, ele não pôde evitar. Sebastian soltou um gemido e depois foi descendo até o queixo, até o pescoço. Não queria beijá-la apenas na boca. Queria beijá-la por inteiro.

– Annabel – disse ele com um suspiro, seus dedos ágeis encontrando os botões do vestido dela.

Ele era bom naquilo. Sabia como despir uma mulher. Sebastian costumava fazer isso devagar, saboreando cada momento, cada centímetro de carne, mas com ela… ele não podia esperar. Agia como se estivesse louco, soltando botão por botão até ter aberto o suficiente para conseguir puxar o vestido dela para baixo.

A combinação que ela usava era muito simples, feita não de seda, mas de algodão branco, fino, sem rendas. Isso o deixou descontrolado. Ela não precisava de ornamentos. Era perfeita por si só.

Com dedos vacilantes, ele alcançou os laços nos ombros dela e os desfez, mal conseguindo respirar quando as finas tiras de tecido caíram.

Ele sussurrou o nome dela, uma, duas, três vezes. Ele a ouviu gemer, um pequeno ruído suave que ficou mais profundo e rouco quando a mão dele deslizou do ombro em direção à curva deliciosa de seu seio. O espartilho não estava muito apertado, mas mesmo assim empurrava tudo para cima, deixando seus seios incrivelmente firmes e roliços.

Sebastian quase perdeu o controle naquele momento.

Precisava parar. Era loucura. Ela era uma verdadeira dama, e ele a estava tratando como…

Ele deu um último beijo na pele dela, sentindo aquele perfume quente, e então se afastou.

– Sinto muito – disse ele, quase engasgando.

Mas não sentia. Ele sabia que deveria, só que era impossível se arrepender de tê-la apertado de forma tão íntima.

Ele começou a se afastar, porque achava que não era capaz de vê-la sem tocá-la novamente, mas, pouco antes disso, percebeu que ela mantinha os olhos fechados.

O coração dele se partiu e ele correu para junto dela.

– Annabel? – Ele tocou seu ombro, depois sua bochecha. – O que houve?

– Nada – respondeu ela baixinho.

Sebastian deslizou os dedos até o rosto dela, bem próximo às pálpebras.

– Por que está de olhos fechados?

– Eu estou com medo.

– De quê?

Ela engoliu em seco.

– De mim mesma – disse ela, e abriu os olhos. – Do que eu desejo. E do que eu preciso fazer.

– Você não queria que eu…

Pelo bom Deus, será que ela não o desejava? Ele tentou raciocinar. Ela havia retribuído o beijo? Havia tocado nele de volta? Sebastian não conseguia se lembrar. Ficara tão hipnotizado por ela, pelo próprio desejo, que não conseguia se lembrar do que ela tinha feito.

– Não – respondeu ela, com delicadeza. – Eu queria. Esse é o problema. – Ela fechou os olhos novamente, mas apenas por um instante. Parecia estar tentando recompor algo dentro de si, e então voltou a abri-los. – Você poderia me ajudar?

Ele começou a dizer que sim, que a ajudaria. Faria o que estivesse ao seu alcance para protegê-la de seu tio, para salvar sua família e manter seus irmãos na escola, mas só então percebeu que ela estava apontando para os laços da combinação e que tudo o que ela queria era ajuda para se vestir.

E assim ele fez. Deu os laços e abotoou o vestido, e não pronunciou uma palavra quando ela se sentou perto da janela enquanto ele preferiu uma cadeira próximo à porta.

Eles esperaram. E esperaram. Por fim, depois do que pareceu horas, Annabel se levantou e anunciou: – Ela voltou.

Sebastian ficou de pé e observou Annabel enquanto ela espiava pela janela Olivia descer da carruagem. Ela se virou, e de pronto ele deixou escapar: – Você quer se casar comigo?

Capítulo dezoito

Annabel quase caiu de cara no chão.

– O quê?

– Não era exatamente a resposta que eu esperava – murmurou Sebastian.

Ainda assim, ela não conseguiu entender.

– Você quer se casar comigo? – indagou ela.

Ele deixou a cabeça cair de lado.

– Se não me engano, foi essa a pergunta que acabei de lhe fazer, então sim.

– Você não precisa fazer isso – retrucou Annabel, enfática, porque…

Porque ela era uma idiota, e isso era o que idiotas faziam quando homens as pediam em casamento. Diziam que eles não precisavam fazer isso.

– Você está recusando? – perguntou ele.

– Não!

Ele sorriu.

– Então está aceitando.

– Não.

Deus do céu, ela estava atordoada.

Ele deu um passo na direção dela.

– Você não está sendo muito clara, Annabel.

– Você me pegou desprevenida de propósito – acusou ela.

– Eu mesmo me peguei desprevenido – respondeu ele, com delicadeza.

Ela se agarrou ao encosto da cadeira em que se sentara antes. Era um móvel terrivelmente desconfortável, mas ficava perto da janela, e ela queria ficar de olho em lady Olivia, e… Ah, pelo amor de Deus, por que ela estava divagando sobre aquela cadeira estúpida? Sebastian Grey tinha acabado de pedi-la em casamento.

Annabel espiou pela janela. Lady Olivia ainda estava descendo da carruagem. Annabel tinha dois minutos, três no máximo.

– Por quê? – perguntou ela a Sebastian.

– Está me perguntando por quê?

Ela assentiu.

– Não sou uma donzela em perigo. Quer dizer, sou, mas não é sua responsabilidade me resgatar.

– Verdade – concordou ele.

Ela tinha um argumento na ponta da língua. Não era um argumento coerente, mas ainda

assim era um argumento. A resposta dele, no entanto, a deixou completamente desconcertada.

– Verdade? – perguntou ela.

– Sim, você tem razão. Não é minha responsabilidade. – Ele caminhou na direção dela, sedutoramente diminuindo a distância entre eles. – No entanto, seria um prazer.

– Ah, meu Deus.

Ele deu um sorriso.

– Estou de volta!

Era lady Olivia, anunciando sua chegada ainda no corredor.

Annabel olhou para Sebastian. Ele estava de pé, bem próximo a ela.

– Eu beijei você – sussurrou ele.

Ela não conseguiu falar. Mal conseguia respirar.

– Eu beijei você como um marido beija sua esposa.

De alguma forma, ele estava ainda mais perto do que antes. Agora ela definitivamente não conseguia respirar.

– E eu acho – murmurou ele, sua respiração agora tão perto que ela sentia o calor na própria pele – que você gostou.

– Sebastian? – Era lady Olivia. – Ah!

– Um instante, Olivia – disse ele, sem sequer se virar. – E feche a porta.

Annabel ouviu a porta bater.

– Sr. Grey, não sei se…

– Não acha que está na hora de começar a me chamar de Sebastian?

Ela engoliu em seco.

– Sebastian, eu…

– Sinto muito. – Era lady Olivia novamente, adentrando a sala. – Eu não posso permitir.

– Você pode, Olivia – grunhiu Sebastian.

– Não, não posso. É minha casa, ela é solteira e…

– E eu estou pedindo que ela se case comigo.

– Ah!

A porta se fechou novamente.

Annabel tentou manter os pensamentos em ordem, mas era difícil. Sebastian estava sorrindo para ela como se quisesse mordiscá-la da cabeça aos pés, e ela começava a experimentar sensações estranhíssimas em regiões do corpo que ela mal lembrava que existiam. Mas não podia ignorar que provavelmente lady Olivia estava do outro lado da porta e também não podia ignorar que…

– Alto lá! – exclamou ela, esticando os braços.

Deu um empurrãozinho nele e, ao ver que isso não fez efeito, aumentou um pouco a força.

Ele recuou um passo, mas não parou de sorrir.

– Você acabou de falar para lady Olivia que não queria se casar comigo – argumentou ela.

– Como?

– Apenas algumas horas atrás. Quando eu estava chorando. Você falou que me conhecia havia pouco mais de uma semana.

Sebastian pareceu não se preocupar.

– Ah, aquilo.

– Acha que eu não escutei?

– De fato, eu conheço você há pouco mais de uma semana.

Ela não respondeu. Então ele se aproximou e roubou um beijo rápido.

– Mudei de ideia.

– Em duas horas? – perguntou ela, olhando desesperadamente ao redor em busca de um relógio.

– Duas horas e meia, na verdade. – Ele lhe deu seu sorriso mais perverso. – Mas foram duas horas e meia bastante relevantes, concorda?

Olivia irrompeu sala adentro.

– O que você fez com ela?

Sebastian soltou um grunhido.

– Você daria uma péssima espiã, sabia?

Olivia atravessou a sala em praticamente um segundo.

– Você a desonrou na minha sala de estar?

– Não – respondeu Annabel imediatamente. – Não. Não. Não, não, não. Não.

Era um bocado de nãos, pensou Seb, contrariado.

– Ele me beijou – contou Annabel a Olivia –, foi só isso.

Sebastian cruzou os braços.

– Quando você se tornou tão puritana, Olivia?

– É a minha sala de estar!

Sebastian não via problema algum naquilo.

– Você não estava aqui – salientou ele.

– Basta! – declarou Olivia, passando por ele, decidida, e pegando Annabel pelo braço. –

Você vem comigo.

Ah, não, ela não iria.

– Aonde você pensa que a está levando? – inquiriu ele.

– Para casa. Acabei de passar por lá. Newbury já foi embora.

Seb cruzou os braços.

– Ela ainda não me deu uma resposta.

– Ela dará amanhã. – Olivia se virou para Annabel. – Você pode dar sua resposta amanhã.

– Não. Espere. – Sebastian se esticou e puxou Annabel de volta. Olivia não iria se meter em seu pedido de casamento. Segurando Annabel firmemente ao seu lado, ele se virou para Olivia e disse: – Ainda há pouco você estava me pressionando a pedi-la em casamento, e agora quer levá-la embora?

– Você tentou seduzi-la.

– Se eu tivesse tentado seduzi-la – rosnou ele –, você teria se deparado com uma cena bem diferente quando chegou.

– Eu ainda estou aqui – avisou Annabel.

– Posso ser a única mulher em Londres que não se apaixonou por você – anunciou Olivia,

apontando o dedo para Sebastian –, mas isso não significa que não sei quão charmoso você é capaz de ser.

– Ora, Olivia – disse ele –, que adoráveis elogios.

Annabel levantou a mão.

– Ainda estou aqui.

– Ela tomará a decisão na privacidade do próprio lar, não enquanto você a olha com esses…

esses… olhos.

Por cerca de dois segundos, Sebastian ficou em silêncio. Depois se curvou de tanto rir.

– O que foi? – disparou Olivia.

Seb cutucou Annabel, então indicou Olivia com a cabeça.

– Eu costumo olhar para ela com o nariz.

Annabel mordeu o lábio, claramente se esforçando para não rir. Ele sabia que ela tinha um ótimo senso de humor.

Olivia cruzou os braços e se virou para Annabel:

– Ele é melhor do que o lorde Newbury – disse ela, com convicção –, por muito pouco.

– O que está acontecendo aqui? – Era Harry, parecendo um tanto desalinhado, como se tivesse passado a mão pelos cabelos a tarde toda. Havia uma mancha de tinta em sua bochecha. –

Sebastian?

Seb olhou para o primo, depois para Olivia, e começou a rir tanto que precisou se sentar.

Harry deu de ombros, como se aquilo não fosse nada fora do comum.

– Ah, boa tarde, Srta. Winslow. Não a vi.

– Não falei que você sabia como ela era? – murmurou Olivia.

– Estou procurando uma pena – disse sir Harry, dirigindo-se à escrivaninha e vasculhando as gavetas. – Quebrei três só hoje.

– Você quebrou três penas? – indagou Olivia.

Ele abriu outra gaveta.

– É aquela bendita Gorely. Algumas frases dela… Por Deus, elas não acabam nunca. Não sei se tenho capacidade para traduzi-las.

– Faça um esforço – disse Sebastian, ainda tentando recuperar o fôlego.

Harry olhou para ele.

– O que há com você?

Seb abanou a mão no ar, dispensando a pergunta.

– Estou apenas me divertindo um pouco às custas da sua esposa.

Harry encarou Olivia, que apenas revirou os olhos. Depois se dirigiu a Annabel: – Eles podem ser um pouco cansativos às vezes. Espero que você esteja sendo bem-tratada.

Annabel corou de leve.

– Bem, estou, sim – gaguejou ela.

Harry, no entanto, era daltônico, o que o deixava alheio ao rubor de uma mulher.

– Ah, aqui está. – Ele ergueu uma pena. – Finjam que eu não estou aqui. Continuem o que quer que vocês estivessem… – ele olhou para Sebastian e balançou a cabeça – … hã… fazendo.

– Sim – disse Sebastian, um tanto solene.

Ele soou como um noivo no altar. E gostou disso.

– Eu deveria ir para casa – comentou Annabel enquanto observava Harry deixar o aposento.

Sebastian levantou-se, quase totalmente recuperado de seu acesso de riso.

– Eu vou com você.

– Não vai, não – interveio Olivia.

– Vou, sim – retrucou ele, e então ergueu o queixo e a olhou de cima.

– O que está fazendo? – explodiu ela.

– Estou olhando para você – respondeu ele, quase cantarolando.

Annabel tampou a boca com a mão.

– Com o meu na-riz – acrescentou, caso Olivia não tivesse entendido a piada.

Olivia pôs as mãos no rosto. E não porque estivesse rindo.

Sebastian se inclinou na direção de Annabel, uma manobra nada fácil enquanto tentava manter o nariz apontado para Olivia.

– Não é meu tipo favorito de seio – sussurrou ele.

– Eu não quero nem saber o que você acabou de dizer a ela – grunhiu Olivia, ainda com o rosto escondido nas mãos.

– Não – concordou Seb –, não quer mesmo. – Ele endireitou a postura e sorriu. – Vou acompanhar Annabel até a casa dela.

– Ah, vá logo, então – cedeu Olivia, com um suspiro.

Sebastian se aproximou de Annabel e cochichou:

– Eu a venci pela exaustão.

– Até eu estou exausta.

– Pois eu ainda não.

Annabel corou novamente. Sebastian se deu conta de que jamais se sentira tão grato por não ser daltônico como o primo.

– Você precisa lhe dar pelo menos um dia para pensar na proposta – insistiu Olivia.

Sebastian arqueou uma sobrancelha.

– Sir Harry lhe deu um dia?

– Isso não está em questão – rebateu Olivia.

– Pois bem – disse Sebastian, voltando-se para Annabel. – Eu me rendo à grande sabedoria do meu querido primo. Acho que Harry foi o 12o homem a pedi-la em casamento. Ao passo que eu jamais havia pronunciado a palavra “casamento” diante de uma dama até hoje.

Annabel sorriu para ele. Foi como um nascer do sol.

– Amanhã vou procurá-la para saber sua resposta – anunciou ele, sentindo um sorriso se abrir no próprio rosto. – Enquanto isso… – Ele estendeu o braço. – Podemos partir?

Annabel deu um passo na direção dele, depois parou.

– Na verdade, acho que eu gostaria de voltar para casa sozinha.

– Gostaria?

Ela assentiu.

– Presumo que minha aia ainda esteja aguardando para me acompanhar. Não é muito distante. Além disso… – Ela baixou os olhos e mordeu o lábio.

 

Sebastian tocou o queixo dela.

– Seja franca, Annabel – disse ele baixinho.

– Creio que será difícil pensar com clareza na sua presença – respondeu ela, sem fitá-lo.

Ele considerou isso um ótimo sinal.

Annabel fechou a porta com cuidado ao entrar e parou por um segundo. A casa estava em silêncio; talvez, com sorte, seus avós tivessem saído. Ela pôs o livro no aparador do vestíbulo enquanto tirava as luvas, depois o pegou de volta, planejando subir para o quarto. Mas, antes que desse três passos, sua avó surgiu na entrada da sala de estar.

– Aí está você – disse lady Vickers, parecendo extremamente aborrecida. – Onde diabo se meteu?

– Fui fazer compras – mentiu Annabel. – Encontrei algumas amigas. Tomamos uma granita.

A avó soltou um suspiro de preocupação.

– Você vai arruinar sua silhueta.

Annabel deu um sorriso tenso e ergueu o livro que lady Olivia havia lhe emprestado.

– Vou para o quarto ler um pouco.

A avó esperou até que ela pisasse no primeiro degrau e falou: – Você perdeu a visita do conde.

Annabel engoliu em seco e se virou.

– Ele esteve aqui?

A avó estreitou os olhos, mas, se suspeitava que Annabel evitara lorde Newbury de propósito, não falou nada. Indicou a sala de estar com a cabeça, claramente esperando que Annabel a seguisse. Annabel foi atrás dela e parou junto à porta enquanto a avó foi até o bar para se servir de uma bebida.

– Teria sido muito mais conveniente se você estivesse aqui – começou lady Vickers. – Mas tenho o prazer de afirmar que o tratamos da melhor forma possível. Ele passou quase uma hora com seu avô.

– Passou? – A voz de Annabel saiu aguda e hesitante.

– Sim, e você terá o prazer de saber que eu fiquei escutando atrás da porta o tempo todo. –

Ela tomou um gole e soltou um suspiro de satisfação. – Seu avô esqueceu de mencionar uma coisa sobre sua família em Gloucestershire, então decidi interferir.

– Interferir?

– Posso ter 53 anos…

Na verdade, tinha 71.

– … mas ainda sou afiada como uma espada. – Lady Vickers pousou a taça na mesa e se inclinou para a frente, parecendo extraordinariamente orgulhosa de si mesma. – Newbury pagará a universidade para todos os seus quatro irmãos e comprará um título para qualquer um que quiser. Quanto às suas irmãs, só consegui garantir um mísero dote, mas já é mais do que o que você mesma conseguiu. – Ela tomou um longo gole e riu. – E você fisgou um conde.

Era tudo que Annabel esperava. Seus irmãos e irmãs estariam resguardados. Teriam tudo de que precisassem.

– Ele não quer um noivado muito longo – contou lady Vickers. – Você sabe que ele quer um filho, e rápido. Ah, não me olhe com essa cara. Sabia que isso estava por vir.

Annabel balançou a cabeça.

– Eu… eu não estava olhando a senhora com cara nenhuma. Eu só…

– Meu Deus – gemeu a avó. – Vai me obrigar a ter a conversa com você?

Annabel esperava com todas as forças que não.

– Céus. Eu tive com sua mãe e com sua tia Joan. Vou precisar de uma dose maior se tiver que ter essa conversa com você.

– Não, está tudo bem – respondeu Annabel de pronto. – Não preciso da conversa.

A declaração deixou a avó espantada.

– Mesmo? – perguntou ela, subitamente muito interessada.

– Bem, não agora – disse Annabel, e continuou, embora num tom um pouco mais baixo: –

Ou talvez não precise… jamais. Com a senhora.

– Como assim?

– Eu vim do campo – esclareceu ela, com uma falsa alegria. – Muitos… animais… e… hã…

– Olhe – disse lady Vickers –, você pode saber coisas sobre ovelhas que com certeza eu jamais desejaria ouvir, mas sei de uma coisinha ou outra sobre se casar com um nobre com excesso de peso.

Annabel desabou em uma cadeira. Qualquer que fosse o conhecimento que sua avó queria lhe transmitir, ela não estava certa de que conseguiria ouvi-lo sem se sentar.

– Tudo se resume a uma coisa – anunciou lady Vickers, sacudindo um dedo na direção da neta. – Quando ele terminar, fique de pernas para o ar.

O sangue desapareceu do rosto de Annabel.

– Faça isso – insistiu a avó. – Confie em mim. Isso ajudará a manter a semente lá dentro e, quanto mais cedo você engravidar, mais cedo poderá parar de dormir com ele. Esse, minha querida, é o segredo para um casamento bem-sucedido.

Annabel pegou seu livro e ficou de pé, caminhando um tanto atordoada.

– Preciso me deitar.

Lady Vickers deu um sorriso.

– Vá, querida. Ah! Quase esqueci. Vamos viajar hoje à noite.

– O quê? Para onde?

E como ela daria a resposta a Sebastian?

– Winifred organizou uma festa de última hora no campo – contou ela –, e você vai conosco.

– Eu vou?

– Preciso ir também, para aquele maldito, aquele estúpido…

Annabel ficou de queixo caído enquanto ouvia aquela série de impropérios, surpreendentes até mesmo quando saíam da boca da avó.

– Eu odeio o campo – resmungou lady Vickers. – É um desperdício de ar puro.

– Temos mesmo que ir?

– Claro que temos que ir, sua boba. Alguém precisa resolver as coisas.

– Como assim? – indagou Annabel, cautelosa.

– Winifred é uma maldita fingida, mas me deve um favor – disse a avó com rispidez. – Ela me garantiu que Newbury estará presente. Só que não pude impedi-la de convidar aquele outro também.

– Sebas… O Sr. Grey? – questionou Annabel, deixando cair o livro.

– Sim, esse – confirmou lady Vickers, parecendo bastante ofendida.

Ela esperou cerca de meio segundo enquanto Annabel se atrapalhava, deixando o livro cair pela segunda vez antes de finalmente largá-lo sobre a mesa.

– Acho que não posso condená-la – continuou ela. – Será o maior evento da temporada.

– Ele confirmou presença? Mesmo sabendo que o tio estará lá?

– Quem vai saber? Winifred enviou os convites esta tarde. – Lady Vickers deu de ombros. –

Ele é mesmo bonito.

– O que isso tem a ver com… – Annabel fechou a boca. Não queria ouvir a resposta.

– Vamos partir em duas horas – disse lady Vickers, terminando a bebida.

– Duas horas? Eu não consigo me aprontar em duas horas.

– Claro que consegue. As criadas já arrumaram suas coisas. Winifred não mora muito longe da cidade, e o sol se põe tarde nesta época do ano. Com bons cavalos, chegaremos lá logo após o anoitecer. E prefiro ir logo esta noite. Detesto viajar de manhã.

– A senhora tem estado muito ocupada – pontuou Annabel.

Lady Vickers se empertigou, parecendo bastante orgulhosa de si mesma.

– Tenho mesmo. Você faria bem em seguir o meu exemplo. Ainda vamos fisgar esse conde.

– Mas eu… – Annabel congelou, imediatamente emudecida diante do olhar da avó.

– Tenho certeza – interrompeu lady Vickers, estreitando os olhos até se tornarem duas lascas de gelo – de que você não ia dizer que não quer se casar com ele.

Annabel não respondeu. Nunca ouvira a avó falar num tom tão ameaçador. Ela balançou a cabeça em negativa, devagar.

– Muito bem. Porque eu sei que você não gostaria de dificultar ainda mais a vida de seus irmãos.

Annabel deu um passo para trás. Como era possível que a avó a estivesse ameaçando?

– Ah, pelo amor de Deus – disparou lady Vickers. – Não faça essa cara de apavorada. Acha que eu vou bater em você?

– Não! É só que…

– Você vai se casar com o conde e pode ser amante do sobrinho dele.

– Vovó!

– Não me olhe como uma maldita puritana. Você não poderia esperar nada melhor. Se engravidar do homem errado, pelo menos tudo fica em família.

Annabel não conseguia encontrar as palavras.

– Ah, a propósito, Louisa também vai conosco. A tiazinha chata dela pegou um resfriado e não poderá lhe fazer companhia esta semana, então eu falei que a levaria junto. Não queremos que ela fique mofando dentro do quarto, não é mesmo?

Annabel balançou a cabeça.

– Pois bem. Vá se aprontar. Partiremos em uma hora.

– A senhora disse duas.

– Eu disse? – Lady Vickers deu de ombros. – Devo ter mentido. Melhor isso do que ter esquecido.

Annabel viu, boquiaberta, a avó sair da sala. Sem dúvida, aquele tinha sido o dia mais estranho e mais importante de sua vida.

No entanto, tinha a impressão de que o dia seguinte seria ainda mais…

Capítulo dezenove

Na manhã seguinte

Sebastian sabia exatamente por que fora convidado para a festa na casa de lady Challis. Ela nunca tinha gostado dele, e ele nunca fora convidado para nenhum evento dos Challis antes. No entanto, lady Challis, apesar de seu jeito de beata, era uma anfitriã extremamente competitiva e, se conseguisse organizar a festa do ano – contando com a presença de Annabel, Sebastian e lorde Newbury sob o mesmo teto –, então, em nome de Deus, ela o faria.

Seb não gostava muito de ser tratado como fantoche, mas não estava disposto a permitir que Newbury tivesse acesso irrestrito a Annabel, o que aconteceria caso recusasse o convite.

Além disso, ele dissera a Annabel que lhe daria um dia para avaliar seu pedido e pretendia cumprir sua promessa. Se ela ia estar em Berkshire, na casa de lorde e lady Challis, ele também estaria. Contudo, Seb não era tolo e sabia que lady Vickers, lady Challis e seus comparsas estariam torcendo para que lorde Newbury vencesse a guerra pela mão de Annabel. Como as batalhas mais difíceis são travadas pelos melhores soldados, ele tratou de arrancar Edward da cama e o meteu na carruagem para Berkshire. Edward não havia sido convidado, mas ele era jovem, solteiro e, até onde Sebastian sabia, tinha todos os dentes. O que significava que nunca seria expulso de uma festa numa casa de campo. Nunca.

– Harry e Olivia sabem que você roubou a carruagem deles? – perguntou Edward, esfregando os olhos.

– O termo correto é “recrutar”. E, sim, eles sabem.

Sabiam mais ou menos. Sebastian deixara um bilhete.

– Quem vai estar lá? – Edward bocejou.

– Cubra a sua boca.

Edward olhou atravessado para ele.

Sebastian ergueu o queixo enquanto olhava impaciente pela janela. A rua estava lotada de gente e a carruagem se movia a passo de tartaruga.

– Além da Srta. Winslow e do meu tio, não faço ideia.

– Srta. Winslow… – repetiu Edward, com um suspiro.

– Não ouse – rebateu Seb.

– O que foi?

– Não faça essa cara quando estiver pensando nela.

– Que cara?

– Essa que você… – Seb fez uma expressão abobalhada e deixou a língua pender no canto da boca. – Esta.

– Bem, você há de convir, ela é muito…

– Cale-se – advertiu Seb.

– Eu ia dizer que ela é muito encantadora – informou Edward.

– Você não ia dizer isso.

– Ela tem um belo par de…

– Edward!

– … olhos – completou o outro, com um sorriso malicioso.

Sebastian o encarou, cruzou os braços e se virou para a janela. Depois descruzou os braços, olhou para Edward mais uma vez por um bom tempo e o chutou.

– Por que isso?

– Por qualquer comentário inapropriado que você fosse fazer.

Edward começou a rir. Pela primeira vez, Seb não sentiu que alguém estivesse rindo com ele.

Definitivamente, o primo estava rindo dele.

– Preciso lhe dizer – apontou Edward – que é mesmo engraçado você se apaixonar pela mulher com quem seu tio quer se casar.

Sebastian se mexeu desconfortavelmente em seu assento.

– Eu não estou apaixonado por ela.

– Não – disse Edward, com ironia –, só quer se casar com ela.

– Olivia lhe contou?

Oras, ele pedira a Olivia que não dissesse nada a ninguém.

– Ela não disse nada – respondeu o primo, com um sorriso. – Você, sim.

– Filhote … – murmurou Seb.

– Acha que ela vai aceitar?

– Por que não aceitaria? – questionou Sebastian em um tom defensivo.

– Não me entenda mal; se eu fosse mulher, não conseguiria pensar em mais ninguém com quem iria preferir me casar…

Continuar: parte 3 de 3