Dez coisas que eu amo em você

Julia Quinn · Capítulo 3 de 5 · parte 2/3

Páginas do PDF

Dez coisas que eu amo em você

Capítulo nove

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

– Ela não é uma Vickers – disse alguém. – A mãe é, mas o pai era alguma outra coisa.

– Winslow – vociferou o conde. – O nome dela é Winslow.

Seb sentiu os dedos começarem a formigar. A mão direita talvez tivesse se fechado.

– Que tal Srta. Winslow?

– Você está fingindo que não sabe?

Seb deu de ombros, embora esse movimento casual tenha exigido sua absoluta concentração.

– Não estou fingindo nada.

Os olhos de seu tio queimavam de ódio.

– Em breve ela será sua tia, querido sobrinho.

Sebastian ficou sem ar e agradeceu a qualquer que tenha sido o deus ou o arquiteto responsável por haver uma parede ao seu lado, para que ele tivesse onde se apoiar.

Annabel Winslow era neta de lorde Vickers. Era a criatura exuberante e voluptuosa atrás de quem Newbury estava correndo desesperadamente, a que era tão fértil que fazia os pássaros cantarem.

De repente tudo fez sentido. Sebastian se perguntava como uma moça do campo tinha se tornado amiga íntima da filha de um duque. Ela e lady Louisa eram primas. É claro que eram amigas.

Ele se lembrou da conversa que teve com o primo, a parte sobre os quadris férteis e os pássaros cantando. A aparência da Srta. Winslow era mesmo tão espetacular quanto a descrição de Edward. Quando Sebastian pensou na maneira como os olhos do primo estavam vidrados quando descreveu os seios dela…

Seb sentiu ódio. Talvez ele tivesse que bater em Edward. Bater no tio seria um pouco demais por conta da idade, mas uma briga com Edward seria de igual para igual.

A Srta. Annabel Winslow era de fato uma fruta madura no pé. E seu tio planejava se casar com ela.

– Fique longe dela – falou lorde Newbury em voz baixa.

Sebastian não abriu a boca. Não tinha uma piada ou uma resposta pronta, então se manteve calado. Melhor assim.

– Embora só Deus saiba se eu ainda a quero, considerando sua duvidosa capacidade de

discernimento.

Sebastian se concentrou em sua respiração, que estava ficando perigosamente acelerada.

– Você pode ter boa aparência e ser jovem – continuou Newbury –, mas eu tenho o título. E

vou fazer de tudo para não deixar que caia em suas mãos.

Seb deu de ombros.

– Eu não quero seu título.

– É claro que quer – zombou o tio.

– Não quero, não – comentou Sebastian de modo casual.

Estava voltando a se sentir no controle da situação. É incrível como um toque de insolência e confiança é capaz de fazer um homem se recompor.

– Espero que o senhor se apresse e arrume logo um novo herdeiro. Isso tudo é absurdamente inconveniente.

Newbury ficou ainda mais vermelho, algo que Sebastian não imaginava que fosse possível.

– Inconveniente? Como se atreve a chamar o condado de Newbury de inconveniente?

Seb já ia dar de ombros novamente, então pensou que seria melhor inspecionar as unhas.

Depois de um momento, ele encarou o tio.

– Pois eu chamo. E o senhor é um estorvo.

Talvez aquilo tivesse passado um pouco dos limites. Tudo bem, Sebastian tinha passado bastante dos limites e, evidentemente, Newbury concordava com isso, porque balbuciava coisas incompreensíveis, cuspindo saliva e sabe-se lá mais o quê. Então jogou o conteúdo de seu copo no rosto de Sebastian. Não havia muito líquido; talvez metade caíra quando ele deu o soco em Seb. Mas foi o suficiente para deixar seus olhos ardendo e pingar pelo seu nariz. Enquanto Sebastian estava ali, como uma criança com o nariz escorrendo e precisando de um lenço, a raiva começou a crescer dentro dele. Uma raiva que não se parecia com nada que já houvesse experimentado. Mesmo durante a guerra ele se recusara a sentir aquela sede de sangue. Ele era um franco-atirador, treinado para ser tranquilo e calmo, para acertar o inimigo a distância.

Ele participava da guerra, mas não entrava em combate.

Seu coração batia forte, suas orelhas pareciam pegar fogo, e ainda assim conseguiu ouvir a arfada coletiva, ainda assim conseguiu ver os homens reunidos em volta, esperando que ele revidasse.

E assim o fez. Mas não com os punhos. Isso ele jamais faria.

– Em respeito a sua idade e sua fragilidade – advertiu ele friamente –, não vou bater no senhor. – Ele deu um passo em direção à saída e, incapaz de controlar toda a sua fúria, virou-se e acrescentou, em seu tom desleixado habitual: – Além do mais, sei que o senhor deseja um filho.

Se eu o derrubasse no chão agora, e todos aqui sabemos que seria fácil fazer isso… – Sebastian suspirou, como se lamentasse uma história muito triste – bem, não tenho certeza de que sua virilidade sobreviveria.

Fez-se um silêncio mortal, seguido pelas divagações e reclamações de Newbury, mas Sebastian não ouviu mais nada. Simplesmente lhe deu as costas e foi embora.

Era mais fácil assim.

 

Pela manhã, a notícia já tinha se espalhado por toda a cidade. O primeiro dos abutres chegou à residência dos Vickers às dez horas. Annabel já estava de pé; era normal, visto que era difícil abandonar os hábitos do campo. Ficou tão surpresa ao saber que duas condessas a esperavam que nem cogitou dizer ao mordomo que não estava disponível.

– Srta. Winslow – ressoou a voz ofensiva de lady Westfield.

Annabel imediatamente se levantou e fez uma mesura, depois repetiu o gesto em direção a lady Challis.

– Onde está sua avó? – perguntou lady Westfield, entrando na sala pisando firme.

Seus lábios formavam uma linha reta, em uma expressão de desagrado, e todo o seu comportamento parecia sugerir que ela sentia algum mau cheiro.

– Ela ainda está deitada – respondeu Annabel, lembrando que lady Westfield e lady Vickers eram grandes amigas. Ou talvez apenas amigas. Ou talvez nem isso, mas se falavam com frequência.

O que deveria ser levado em consideração, imaginou Annabel.

– Então só podemos supor que ela não sabe – disse lady Challis.

Annabel virou-se para lady Challis, que era 25 anos mais jovem do que a mulher que a acompanhava, mas ainda assim conseguia estampar uma carranca irritada.

– Não sabe o quê, senhora?

– Não banque a esperta, mocinha.

– Não estou bancando nada.

Annabel olhava de uma para outra, ambas com uma expressão de descrença. De que elas estavam falando? O mero fato de ela ter conversado com o Sr. Grey não justificava tal censura. E

ainda por cima fora embora durante o intervalo, como Louisa insistira que fizesse.

– A senhorita é bastante ousada – comentou lady Challis –, colocando o tio contra o sobrinho.

– Eu… Eu não sei do que a senhora está falando – gaguejou Annabel.

Mas é claro que sabia.

– Pare já com isso – retrucou lady Westfield. – A senhorita é uma Vickers, apesar do homem pavoroso com o qual sua mãe se casou, e inteligente demais para tentar se safar com essa encenação insolente.

Annabel engoliu em seco.

– Lorde Newbury está furioso – disse lady Westfield entre dentes. – Furioso. Não o condeno por isso.

– Eu não prometi nada a ele – argumentou Annabel, desejando que sua voz soasse um pouco mais firme. – E eu não sabia…

– Faz ideia da honra que ele lhe concedeu, a consideração que teve com a senhorita?

Annabel abriu e fechou a boca. Então abriu e fechou de novo. E se sentiu uma imbecil.

Abrindo e fechando a boca como um peixe, incapaz de dizer uma única palavra. Se estivesse em casa, teria sido rápida em se defender, devolvendo cada acusação com habilidade. Só que nunca

havia enfrentado duas condessas furiosas que a encaravam com olhares gélidos e narizes empinados.

Era o suficiente para fazer uma garota querer se sentar, se lhe fosse permitido sentar na presença de duas condessas de pé.

– É claro que ele tomou medidas para proteger a própria reputação – disse lady Challis.

– Lorde Newbury? – perguntou Annabel.

– Óbvio. O outro não se importa nem nunca se importou com reputação.

Contudo, em alguma medida, Annabel não achava que aquilo fosse verdade. Todos sabiam que o Sr. Grey era um sem-vergonha, mas não somente isso. Tinha senso de honra, e ela suspeitava que ele dava muito valor a isso.

Ou talvez ela estivesse fantasiando, romantizando-o em sua mente. Quão bem o conhecia, afinal?

Nem um pouco. Ela o conhecera apenas dois dias antes. Dois dias! Precisava retomar o bom senso. Logo.

– O que lorde Newbury fez? – indagou Annabel cautelosamente.

– Defendeu a honra dele, exatamente como deveria – disse lady Westfield, o que Annabel considerou uma explicação bastante vaga. – Onde está sua avó? – repetiu ela, olhando atentamente na direção do quarto, como se fosse encontrá-la escondida atrás de uma cadeira. –

Alguém deveria acordá-la. Não é um assunto trivial.

Durante o mês em que estava morando em Londres, Annabel vira a avó de pé antes do meio-dia em apenas duas ocasiões. Nenhuma delas terminara bem.

– Tentamos acordá-la apenas em caso de emergência – respondeu a jovem.

– Quem diabo a senhorita pensa que é, mocinha ingrata? – rebateu lady Westfield quase gritando.

Annabel se encolheu como se tivesse sido atingida e sentiu as palavras se formarem na boca: Sim, é claro, senhora. Imediatamente, senhora. Então ergueu a cabeça, olhando bem nos olhos de lady Westfield, e viu algo tão feio, tão cruel, que era como se um raio tivesse atingido sua espinha.

– Não vou acordar minha avó – arrematou ela com firmeza. – E espero que a senhora não tenha conseguido fazer isso com seus gritos.

Lady Westfield recuou.

– Pense duas vezes antes de falar comigo dessa maneira, Srta. Winslow.

– Não estou aqui para desrespeitá-la. Muito pelo contrário, eu lhe asseguro. Minha avó não tem a cabeça no lugar antes do meio-dia, e estou certa de que, sendo amiga dela, a senhora não deseja lhe causar nenhum desconforto.

A condessa estreitou os olhos e encarou lady Challis, que parecia igualmente insegura sobre como agir diante da declaração de Annabel.

– Diga a ela que estivemos aqui – pediu lady Westfield, articulando a frase lentamente, sílaba por sílaba.

– Direi – prometeu Annabel, curvando-se em uma mesura rápida o bastante para demonstrar respeito sem parecer submissa.

Em que momento ela aprendera aquelas sutilezas típicas das mesuras? Devia ter absorvido mais conhecimentos subliminares em Londres do que imaginava.

As duas condessas foram embora, mas Annabel mal teve tempo de desabar no sofá antes de o mordomo anunciar outros dois visitantes: lady Twombley e o Sr. Grimston.

Annabel sentiu o estômago revirar de preocupação. Lembrava-se de ter sido apresentada aos dois apenas rapidamente, mas sabia muito bem quem eram. Fofoqueiros impiedosos, de acordo com Louisa, insidiosos e cruéis.

A jovem se levantou, tentando alcançar o mordomo antes que ele os mandasse entrar, mas era tarde demais. Ela já havia recebido um grupo de convidados; não era culpa dele se presumia que ela estava “em casa” para todos. De qualquer forma, teria feito pouca diferença; a sala de visitas ficava bem à vista da porta de entrada, e Annabel já podia ver lady Twombley e o Sr.

Grimston avançando.

– Srta. Winslow – cumprimentou a mulher enquanto andava com um gracioso farfalhar de musselina rosa.

Era uma jovem matrona incrivelmente adorável, com cabelos louros cor de mel e olhos verdes. Ao contrário de lady Olivia Valentine, cuja bela e pálida aparência irradiava graça e bondade, lady Twombley parecia perspicaz. E não de um jeito bom.

Annabel fez uma mesura.

– Lady Twombley. Que gentileza sua aparecer.

Ela indicou o companheiro.

– A senhorita já foi apresentada ao meu querido amigo, o Sr. Grimston, não foi?

Annabel assentiu.

– Foi no…

– Baile de Mottram – completou o homem.

– É claro – murmurou Annabel, surpresa por ele se lembrar; ela jamais se recordaria.

– Basil é dono de uma memória notável quando se trata de jovens senhoritas – esclareceu lady Twombley com uma risadinha. – Provavelmente é por isso que é um grande especialista em moda.

– Moda feminina? – indagou Annabel.

– Todos os tipos – respondeu o Sr. Grimston, olhando em volta com desdém.

Annabel gostaria de ter se ressentido com a expressão dele, mas precisava concordar: o cômodo inteiro era de um tom verde-malva um tanto opressivo.

– Vemos que a senhorita parece estar bem de saúde – comentou lady Twombley, sentando-se no sofá sem ser convidada.

Annabel imediatamente seguiu o exemplo dela.

– Sim, claro, por que não estaria?

– Ah, meu Deus! – Os olhos de lady Twombley ganharam uma expressão de choque sem perder o refinamento, e ela levou a mão ao peito. – A senhorita não ficou sabendo! Ah, Basil, ela não sabe.

– Não sei de quê? – perguntou Annabel.

Verdade seja dita, ela não tinha certeza se queria saber. Se a notícia deixara lady Twombley

tão contente, não podia ser boa.

– Se tivesse acontecido comigo – prosseguiu lady Twombley –, eu não teria saído da cama.

Annabel encarou o Sr. Grimston para ver se talvez ele pudesse esclarecer o que lady Twombley queria dizer, mas o homem estava ocupado demais tentando parecer entediado.

– Que ultraje – murmurou lady Twombley. – Que ultraje.

A mim? , Annabel quis perguntar. Mas não se atreveu.

– Basil testemunhou todo o ocorrido – comentou a mulher, apontando para o amigo.

Naquele momento, à beira do pânico, Annabel se virou para o cavalheiro, que suspirou e disse: – Foi um baita acontecimento.

– O que aconteceu? – disparou Annabel por fim.

Finalmente satisfeita com o nível de angústia de Annabel, lady Twombley falou: – Lorde Newbury agrediu o Sr. Grey.

Annabel sentiu o rosto empalidecer.

– O quê? Não. Não é possível.

O Sr. Grey era jovem e estava extremamente em forma. E lorde Newbury era… Bem, não era jovem nem estava em forma.

– Deu um soco no olho dele – contou o Sr. Grimston, como se não fosse nada além do esperado.

– Meu Deus! – exclamou Annabel, cobrindo a boca com a mão. – Ele está bem?

– Provavelmente, sim – respondeu Grimston.

Annabel olhou de lady Twombley para o Sr. Grimston e de volta para ela. Malditos fossem, eles iam fazê-la perguntar novamente.

– O que aconteceu depois? – perguntou, demonstrando irritação.

– Os dois trocaram xingamentos – revelou Grimston, com um bocejo educado –, então lorde Newbury jogou sua bebida no rosto do Sr. Grey.

– Eu gostaria de ter visto isso – murmurou lady Twombley.

Annabel lançou-lhe um olhar horrorizado, e a mulher apenas deu de ombros.

– O que não podemos impedir podemos ao menos testemunhar – acrescentou lady Twombley.

– O Sr. Grey bateu nele de volta? – indagou Annabel ao Sr. Grimston.

Ela percebeu, para o próprio horror, que estava um pouco atordoada. Não gostaria que uma pessoa causasse dor a outra, mas…

A visão de lorde Newbury sendo atirado ao chão… depois do que ele tentara fazer com ela na festa…

Annabel teve que se esforçar muito para não deixar que o entusiasmo transparecesse em seu rosto.

– Não – respondeu o Sr. Grimston. – Os homens ficaram surpresos com o comedimento dele, mas eu não.

– Ele é um sem-vergonha – acusou lady Twombley, inclinando-se para a frente com um brilho significativo nos olhos –, só não é um sujeito precipitado, se é que me entende.

– Não – disse Annabel, sem paciência para seus comentários vagos –, não entendo.

– Digamos que o Sr. Grey questionou a masculinidade do nobre lorde – explicou o Sr.

Grimston.

Annabel quase engasgou.

Lady Twombley riu.

– Do meu ponto de vista – prosseguiu Grimston –, uma de duas coisas provavelmente ocorrerá.

Pela primeira vez, pensou Annabel, não precisaria cavar uma resposta. A julgar pelo brilho voraz nos olhos, não havia como o Sr. Grimston manter seus pensamentos em segredo.

– É bem possível – continuou ele, claramente satisfeito com a atenção que lhe dedicavam –

que lorde Newbury agilize o casamento. Ele precisará defender sua honra, e a maneira mais rápida de fazer isso seria copulando com a senhorita.

Annabel recuou, depois se sentiu ainda mais enojada quando o Sr. Grimston a analisou da cabeça aos pés.

– A senhorita parece ser do tipo que procria rápido – concluiu ele.

– De fato – acrescentou lady Twombley.

– Perdão? – disse Annabel rigidamente.

– Ou então – acrescentou o Sr. Grimston – o Sr. Grey vai seduzi-la.

– O quê?

Isso chamou a atenção de Lady Twombley instantaneamente.

– Acredita mesmo nisso, Basil? – indagou ela.

Ele se virou para a amiga, dando as costas para Annabel.

– Ah, com certeza. A senhora consegue pensar num jeito melhor de se vingar do tio?

– Gostaria de pedir que os senhores se retirassem – ordenou Annabel.

– Ah, pensei numa terceira possibilidade! – anunciou lady Twombley, como se Annabel não tivesse acabado de tentar enxotá-la.

O Sr. Grimston era todo ouvidos.

– É mesmo?

– O conde poderia escolher outra noiva, é claro. A Srta. Winslow dificilmente é a única moça solteira em Londres. Ninguém pensaria menos dele por procurar outra pretendente depois do que aconteceu ontem à noite durante a ópera.

– Não aconteceu nada durante a ópera – refutou Annabel.

Lady Twombley a encarou com pena.

– Não importa se aconteceu ou não. A senhorita já deve ter percebido isso, não é?

– Continue, Cressida – pediu o Sr. Grimston.

– É claro – disse ela, como se estivesse oferecendo um presente. – Se lorde Newbury escolher outra pessoa, o Sr. Grey não terá motivo para correr atrás da Srta. Winslow.

– E o que vai acontecer então? – perguntou Annabel, mesmo sabendo que não deveria.

Os dois olharam para ela com a mesma expressão vazia.

– A senhorita será considerada uma pária na sociedade – esclareceu lady Twombley, como se a conclusão fosse um tanto óbvia.

Annabel ficou sem palavras. Não tanto pelo que eles estavam dizendo, e sim pelo modo

como o faziam. Os dois invadiram a casa dela – a casa dos avós dela, mas que, naquele momento, também era dela – e a insultaram de todas as maneiras possíveis. O fato de provavelmente estarem corretos em suas previsões só piorava a situação.

– Lamentamos muito que sejamos emissários de notícias tão desagradáveis – murmurou lady Twombley.

– Acho que deveriam ir – retrucou Annabel, de pé.

Ela queria ter dito aquilo de forma bem diferente, mas tinha consciência de que sua reputação estava por um fio e que pessoas como eles – medonhas e desprezíveis – detinham o poder de sacar suas pequenas tesouras e cortá-lo.

– É claro – disse lady Twombley, levantando-se. – A senhorita ficará aborrecida, com certeza.

– Parece ruborizada – acrescentou Grimston. – Embora possa ser efeito do borgonha do seu vestido. Um tom um pouco menos azulado lhe cairia melhor.

– Vou levar isso em consideração – comentou Annabel com firmeza.

– Ah, deveria mesmo, Srta. Winslow – concordou lady Twombley, deslizando em direção à porta. – Basil tem um olhar muito aguçado para a moda. Sem dúvida.

E assim os dois se foram.

Quase.

Eles tinham acabado de chegar ao vestíbulo quando Annabel ouviu a voz da avó. Deus do céu. Annabel olhou para o relógio: dez e meia! Que diabo poderia ter tirado lady Vickers da cama tão cedo?

Annabel passou os dez minutos seguintes de pé diante da porta, testemunhando a avó ouvir a ladainha de Sr. Grimston e lady Twombley. Que alegria, pensou ela, entediada, ter que suportar tudo aquilo novamente. Nos mínimos detalhes. Finalmente, a porta da frente se abriu e se fechou e, um minuto depois, lady Vickers irrompeu na sala.

– Preciso de uma bebida – anunciou ela. – E você também.

Annabel ficou quieta.

– Que dupla ardilosa e irritante, esses dois – disse a avó, virando o conhaque de uma só vez.

Ela se serviu outra dose, tomou um gole e depois serviu uma para Annabel.

– Mas eles estão certos, malditos. Que confusão foi essa em que você se meteu, minha menina?

Annabel molhou os lábios com o conhaque. Bebendo às dez e meia da manhã. O que diria sua mãe?

A avó balançou a cabeça.

– Você foi tola, muito tola. O que estava pensando?

Annabel esperava que fosse uma pergunta retórica.

– Bem, suponho que você não fizesse ideia de que isso pudesse acontecer. – Lady Vickers encheu mais uma vez a taça e se acomodou em sua poltrona preferida. – A sorte é que seu avô é um grande amigo do conde. Ainda vamos conseguir salvar esse casamento.

Annabel assentiu com obediência, desejando…

Desejando…

Apenas desejando. Qualquer coisa. Algo de bom.

– Graças a Deus, Judkins teve o bom senso de me avisar de todas as pessoas que estiveram aqui hoje – prosseguiu a avó. – Vou lhe dizer uma coisa, Annabel, faz muito pouca diferença o tipo de marido que você arranja, mas um bom mordomo vale seu peso em ouro.

Annabel não conseguia sequer começar a pensar em uma resposta.

A avó tomou mais um gole do conhaque.

– Judkins disse que Rebecca e Winifred vieram mais cedo, não foi?

Annabel assentiu, presumindo que a avó se referia a lady Westfield e lady Challis.

– A casa vai ser inundada de gente. Simplesmente inundada – advertiu ela para Annabel, estreitando os olhos. – Espero que você esteja pronta.

Annabel sentiu o desespero se agitando na barriga.

– Não podemos dizer que não estamos em casa?

Lady Vickers bufou.

– Não, não podemos dizer que não estamos em casa. Você se meteu nessa confusão e deve encará-la como uma dama, o que significa manter a cabeça erguida, receber todos os convidados e se lembrar de cada palavra para que possa dissecá-las e analisá-las mais tarde.

Annabel sentou-se, depois ficou de pé quando Judkins entrou, anunciando o próximo grupo de visitantes.

– É melhor terminar esse conhaque – disse a avó. – Você vai precisar.

Capítulo doze

Três dias depois

– Se você não tomar alguma atitude para reparar o que fez, nunca mais vou falar com você.

Sebastian, antes concentrado nos ovos, ergueu o olhar para o rosto magnificamente furioso da esposa do primo. Olivia não costumava ficar irritada e, na verdade, ficava até bonita assim.

Ele apenas preferia que a raiva fosse direcionada a outra pessoa.

Seb olhou para Harry, que estava com o jornal aberto em cima do próprio desjejum. O primo deu de ombros, indicando claramente que aquilo não era problema dele.

Sebastian sorveu um gole de chá, engoliu e depois olhou de novo para Olivia com um semblante cuidadosamente vazio.

– Perdão – disse ele, com animação. – Estava falando comigo?

– Harry! – exclamou ela, deixando escapar um suspiro de indignação.

O marido apenas balançou a cabeça, sem sequer encará-la.

Olivia franziu o cenho de maneira ameaçadora, e Seb se sentiu muito feliz por não estar na pele de Harry mais tarde, quando tivesse que enfrentar a esposa.

Embora Harry parecesse não estar nem um pouco preocupado com isso.

– Sebastian! – disse Olivia severamente. – Está me ouvindo?

Ele piscou, tentando se concentrar no rosto dela.

– Eu presto atenção em cada palavra sua, querida prima. Você sabe disso.

Ela puxou a cadeira e se sentou na frente dele.

– Não quer tomar o desjejum? – perguntou ele delicadamente.

– Depois. Primeiro eu…

– Eu adoraria servi-la – ofereceu ele. – Não deseja ficar sem comer direito no seu estado, não é mesmo?

– Meu estado não é o problema em questão – disse ela, apontando um dedo longo e gracioso na direção dele. – Sente-se.

Seb inclinou a cabeça interrogativamente.

– Eu estou sentado.

– Já estava pensando em fugir.

Ele se virou para Harry.

– Como você consegue suportá-la?

Harry ergueu os olhos do jornal pela primeira vez naquela manhã e sorriu maliciosamente.

– Tem suas vantagens – murmurou ele.

– Harry! – reclamou Olivia.

Sebastian ficou satisfeito ao ver que ela havia corado.

– Muito bem – disse ele –, o que eu fiz agora?

– É sobre a Srta. Winslow.

Srta. Winslow. Seb tentou não franzir a testa enquanto pensava nela. O que era irônico, porque ele passara praticamente dois dias franzindo a testa enquanto tentava não pensar nela.

– O que tem a Srta. Winslow?

– Você não mencionou que ela estava sendo cortejada pelo seu tio.

– Eu não sabia que ela estava sendo cortejada pelo meu tio.

Será que tinha soado um pouco nervoso? Isso não podia acontecer. Ele precisava ter mais controle de seu semblante e de seu tom.

Houve um momento de silêncio. E então:

– Você deve estar muito bravo com ela – disse Olivia.

– Pelo contrário – rebateu Sebastian, meio indiferente.

Os belos lábios de Olivia se abriram em surpresa.

– Você não está bravo com ela?

Seb deu de ombros.

– Ficar bravo requer um imenso gasto de energia. – Ele tirou os olhos do prato, dirigindo a ela um sorriso insípido. – Tenho mais que fazer com meu tempo.

– Ah, tem? Isto é, claro que tem. Mas não acha que…

Sebastian entendeu que precisava fazer algo a respeito daquela pontada de irritação que o atingia. Era bastante desagradável, e ele achava muito mais fácil se esquivar ignorando os sentimentos ruins. Mas, sério, Olivia achava mesmo que ele passava o dia inteiro sentado comendo bombons?

– Sebastian? Você está me ouvindo?

Ele sorriu e mentiu:

– É claro.

Olivia soltou um ruído que parecia algo entre um gemido e um resmungo.

– Muito bem. Você não está bravo com ela, embora, na minha opinião, tenha todo o direito de estar. Ainda assim…

– Se meu tio estivesse correndo atrás de você – interrompeu Sebastian –, não desejaria alguns últimos momentos de alegria? Digo isso sem querer parecer arrogante, apesar de eu ser uma excelente companhia, se assim posso dizer, mas acredito que esse seja um fato incontestável. Sou uma companhia muito mais agradável que Newbury.

– Faz sentido – pontuou Harry.

Olivia fez uma careta.

– Achei que você não estivesse ouvindo.

– Não estou – respondeu Harry. – Estou apenas aqui sentado enquanto meus ouvidos são agredidos.

– Como você consegue suportá-lo? – murmurou Sebastian.

Olivia rangeu os dentes.

– Tem suas vantagens – respondeu ela.

No entanto, Sebastian achava que Harry talvez não tivesse vantagem nenhuma naquela noite.

– Então é isso – disse Sebastian a Olivia. – Eu a perdoo. Ela deveria ter me contado, mas também entendo por que não contou e suspeito que qualquer um de nós teria feito o mesmo.

Houve uma pausa e, em seguida, Olivia comentou:

– É muito gentil da sua parte.

Ele deu de ombros.

– Não é bom para a saúde guardar rancor. Basta olhar para Newbury. Ele não seria tão gordo nem tão vermelho se não me odiasse tanto.

Sebastian se voltou para o desjejum imaginando como Olivia rebateria seus argumentos.

Ela esperou aproximadamente dez segundos antes de continuar:

– Fico aliviada em saber que você não nutre rancor contra ela. Como eu disse, ela precisa da sua ajuda. Depois da sua pequena cena no White’s…

– O quê? – retrucou Sebastian, se segurando para não bater com a mão na mesa. – Espere um minuto. Não fui eu que fiz uma cena. Se quer responsabilizar alguém, vá atrás do meu tio.

– Tudo bem, me desculpe – disse Olivia, com desconforto suficiente para que ele acreditasse nela. – Foi sem dúvida obra do seu tio, eu entendo, mas sinto muito. A Srta. Winslow se encontra em uma situação terrível, e você é a única pessoa que pode salvá-la.

Sebastian comeu e limpou cuidadosamente a boca. Havia pelo menos dez coisas implícitas no que Olivia dissera às quais ele poderia se opor, se fosse o tipo de cavalheiro que se opunha a declarações de mulheres irritadas.

Um: A situação da Srta. Winslow não era tão terrível assim, porque dois: ela estava aparentemente muito perto de se tornar a condessa de Newbury, título que três: vinha com todo tipo de fortuna e prestígio, apesar de também vir acompanhado pelo conde de Newbury, que ninguém jamais poderia considerar um prêmio.

Para não mencionar que quatro: era Sebastian quem estava com o olho roxo e cinco: também era o único em cujo rosto haviam atirado bebida, tudo porque seis: a Srta. Winslow não achara oportuno lhe contar que estava sendo cortejada pelo tio dele, apesar de sete: saber muito bem da relação entre os dois, afinal oito: quase desmaiara de choque quando ele lhe disse seu nome aquela noite no bosque.

Talvez ele devesse se concentrar mais na segunda parte da declaração de Olivia, algo sobre ele ser a única pessoa que poderia salvar a Srta. Winslow. Porque nove: ele não entendia o sentido dessa afirmação e dez: não via por que deveria se importar.

– E então? – exigiu Olivia. – Tem alguma coisa a dizer sobre o assunto?

– Várias, na verdade – respondeu ele serenamente.

Sebastian se voltou para a comida. Depois de um instante, ergueu novamente o olhar. Olivia segurava a mesa com tanta força que os nós dos dedos estavam ficando brancos e a expressão em seu rosto…

– Cuidado aí – murmurou ele. – Você vai talhar o leite.

– Harry! – gritou ela bem alto.

Harry baixou o jornal.

– Embora eu aprecie o fato de você ter solicitado a minha opinião, estou certo de que não posso ajudar em nada. Duvido até que eu seja capaz de reconhecer a Srta. Winslow se esbarrasse com ela na rua.

– Você passou uma noite inteira com ela no camarote – rebateu Olivia, incrédula.

Harry pensou um pouco.

– Acredito que eu seja capaz de reconhecer a nuca dela, já que foi esse o ângulo que ela me ofereceu.

Sebastian riu, mas logo se conteve. Olivia não estava achando graça nenhuma.

– Ah, muito bem – disse ele, juntando as mãos na direção dela em súplica. – Explique por que tudo isso é culpa minha e o que eu posso fazer para consertar a situação.

Olivia o encarou por um segundo que pareceu uma eternidade antes de calmamente concluir:

– Me alegra que você tenha perguntado.

Harry engasgou. Provavelmente com uma risada. Sebastian torceu para que tivesse sido com a língua.

– Tem ideia do que as pessoas estão falando a respeito da Srta. Winslow? – indagou Olivia.

Como Sebastian havia passado os últimos dois dias enfurnado em seus aposentos, trabalhando para tirar a fictícia Srta. Spencer da cama fictícia de seu escocês, ele não sabia de fato o que as pessoas estavam falando sobre a Srta. Winslow.

– Tem? – insistiu Olivia.

– Não, não tenho ideia – admitiu ele.

– Estão falando… – Ela se inclinou para a frente, e sua expressão era tal que Sebastian não conseguiu evitar recuar. – Estão falando que é apenas uma questão de tempo até que você a seduza.

– Ela não seria a primeira dama sobre quem falam isso – apontou Seb.

– É diferente – disse Olivia entre dentes –, e você sabe disso. A Srta. Winslow não é uma de suas viúvas alegres.

– Eu realmente adoro uma boa viúva alegre – murmurou ele, só porque sabia que isso a irritaria.

– As pessoas estão falando – resmungou ela – que você quer arruinar a vida dela apenas para atrapalhar os planos de seu tio.

– Posso garantir que não é essa minha intenção – comentou Sebastian – e espero que o resto da sociedade descubra isso assim que perceber que eu nem sequer tentei.

Nem pretendia tentar. Sim, ele gostava bastante da Srta. Winslow e, sim, havia passado muito tempo acordado refletindo sobre as inúmeras maneiras de amarrá-la a uma cama, mas não tinha absolutamente nenhuma intenção de levar adiante essa fantasia. Ele poderia tê-la perdoado, mas não faria mais nenhum tipo de contato. Para ele, se Newbury a queria, que fizesse bom proveito.

Foi o que ele disse a Olivia, embora com um pouco mais de delicadeza. Isso, no entanto, só fez com que ele recebesse um olhar furioso, seguido por: – Newbury não a quer mais. Esse é o problema.

– Problema para quem? – perguntou Seb, desconfiado. – Se eu fosse a Srta. Winslow, veria isso como algo mais próximo de uma solução.

– Você não é a Srta. Winslow e, além disso, não é uma dama.

– Graças a Deus – disse ele, sem demonstrar qualquer sentimento.

Ao seu lado, Harry bateu três vezes no tampo da mesa.

Olivia fez uma careta para os dois.

– Se você fosse uma dama – continuou ela –, entenderia que isso é um desastre. Lorde Newbury não a visitou nem uma única vez desde que se desentendeu com você no clube.

As sobrancelhas de Sebastian se ergueram.

– É mesmo?

– Sim. E você sabe quem a visitou?

– Não sei – respondeu ele, porque duvidava que ela não fosse contar.

– Todo mundo. Todo mundo!

– Com certeza, uma sala de visitas bastante movimentada – murmurou ele.

– Sebastian! Você sabe quem “todo mundo” inclui?

Ele cogitou dar uma resposta sarcástica, depois decidiu, por motivos de pura autopreservação, que deveria segurar a língua.

– Cressida Twombley – revelou Olivia com um sibilo. – E Basil Grimston. Eles já estiveram lá três vezes.

– Três ve… Como você sabe?

– Eu sei de tudo – retrucou Olivia com desdém.

Nisso ele acreditava. Se Olivia tivesse estado na cidade antes de encontrar a Srta. Winslow no parque, nada daquilo teria acontecido. Ela saberia que Annabel Winslow era prima de lady Louisa. Provavelmente saberia a data de aniversário dela e também a cor favorita. Certamente saberia que a Srta. Winslow era neta dos Vickers e, portanto, a presa de seu tio.

E Sebastian teria se mantido muito, muito longe dela. O beijo no bosque não teria passado de uma vaga (embora agradável) lembrança. Ele definitivamente não teria aceitado o convite para a ópera e não teria se sentado ao lado dela… e não saberia que os olhos dela – de um cinza tão límpido e claro – ganhavam um tom de verde quando ela se vestia com essa cor. Ele não saberia que suas opiniões eram semelhantes às dele nem que ela mordia o lábio inferior quando estava pensando. Ou que ela não era muito boa em ficar parada.

Ou que ela exalava um leve perfume de violeta.

Se ele soubesse antes quem ela era, nenhuma dessas informações desagradáveis atravessaria sua cabeça, ocupando um espaço que deveria ser ocupado com coisas mais importantes. Como uma análise completa das diferenças entre os estilos roundarm e underarm no críquete. Ou a redação precisa do Soneto 103 de Shakespeare, “Ah! Que pobreza traz a minha Musa”, que havia pelo menos um ano ele recitava errado para si mesmo.

– A Srta. Winslow se tornou motivo de chacota – disse Olivia –, e isso não é justo. Ela não fez nada de errado.

– Nem eu – pontuou Sebastian.

– Mas você tem o poder de consertar as coisas. Ela não.

– Ah! Que pobreza traz a minha Posição – murmurou ele.

– O quê? – disse Olivia, impaciente.

Ele abanou a mão, ignorando seu comentário anterior. Não valia a pena tentar explicar. Em vez disso, Sebastian olhou fundo nos olhos dela e perguntou: – O que você gostaria que eu fizesse?

– Faça uma visita a ela.

Sebastian se virou para Harry, que ainda fingia ler o jornal.

– Ela não acabou de dizer que Londres inteira acha que eu pretendo seduzir a moça?

– Sim, ela disse – confirmou Harry.

– Meu Deus – blasfemou Olivia, com tanto furor que fez os dois homens se assustarem. –

Vocês dois são tão obtusos…

Eles a encararam, o próprio silêncio confirmando a declaração dela.

– Neste momento, parece que você e o conde a abandonaram. Pelo andar da carruagem, o conde não a quer mais e você também não. Só Deus sabe o motivo das risadinhas que as damas da sociedade tentam disfarçar.

Sebastian podia imaginar muito bem. A maioria delas diria que a Srta. Winslow fora longe demais. A sociedade adorava assistir à humilhação pública de uma mulher.

– Neste momento, as pessoas estão indo à casa dela por mera curiosidade – relatou Olivia. –

E também – acrescentou ela, estreitando os olhos – por crueldade. Mas não se engane, Sebastian.

Quando tudo isso acabar, ela ficará sozinha. A menos que você faça a coisa certa agora.

– Por favor, não me diga que a coisa certa envolve um pedido de casamento – disse ele.

Por mais agradável que a Srta. Winslow fosse, ele não achava que havia se comportado de maneira a justificar tal atitude.

– Claro que não – retrucou Olivia. – Você precisa apenas visitá-la. Mostre à sociedade que ainda a acha encantadora. E aja de maneira apropriada. Se fizer algo que dê qualquer indício de sedução, ela estará arruinada.

Sebastian estava prestes a fazer um de seus comentários impertinentes, mas uma pequena pontada de indignação começou a incomodá-lo e, quando ele abriu a boca, não era mais possível negar.

– Por que as pessoas… pessoas que, devo acrescentar, me conhecem há anos, talvez décadas… acreditam que eu seja o tipo de cavalheiro capaz de seduzir uma jovem inocente por vingança? – perguntou ele.

Ele aguardou um momento, mas Olivia não tinha uma resposta. Aparentemente nem Harry, que havia desistido de qualquer possibilidade de ler seu jornal.

– É uma pergunta séria – insistiu Sebastian, irritado. – Em algum momento eu me comportei de modo a sugerir uma coisa dessas? Por favor, me diga o que fiz para me tornar um vilão predador. Devo confessar que estou um tanto confuso. Sabia que eu nunca, nem uma única vez, dormi com uma virgem? – Ele dirigiu o comentário a Olivia, tentando chocar e ofender. – Nem quando eu era virgem.

– Já chega, Sebastian – intercedeu Harry calmamente.

– Não, eu não acho que chega. Fico me perguntando o que as pessoas pensam que eu planejo

fazer com a Srta. Winslow depois de seduzi-la. Abandoná-la? Matá-la e jogar o corpo no Tâmisa?

Por um momento, Harry e Olivia não conseguiram fazer nada além de observar. Era o mais perto que Sebastian chegara de levantar a voz desde…

Desde…

Desde sempre. Mesmo Harry, que o conhecia desde a infância e havia passado pela escola e pelo Exército com ele, nunca o ouvira levantar a voz.

– Sebastian – disse Olivia gentilmente.

Ela estendeu a mão sobre a mesa para colocá-la sobre a dele, mas ele a afastou.

– É isso que você pensa de mim? – indagou ele.

– Não! – exclamou ela, seus olhos se enchendo de horror. – Claro que não. A questão é que eu conheço você. E… Aonde você vai?

Ele já havia se levantado e andava rapidamente em direção à porta.

– Visitar a Srta. Winslow – despejou ele.

– Não vá desse jeito – disse ela, pulando da cadeira.

Sebastian parou e a encarou.

– Eu… hã…

Olivia olhou para Harry, que também se levantou. Ele respondeu à pergunta silenciosa da mesma maneira, apenas erguendo uma sobrancelha e indicando a porta com a cabeça.

– Talvez seja melhor que eu vá com você – argumentou Olivia, engolindo em seco, e rapidamente colocou a mão no braço de Sebastian. – Parece mais adequado, não acha?

Sebastian assentiu bruscamente, mas a verdade era que ele não sabia mais o que pensar. Ou talvez simplesmente não se importasse.

Capítulo treze

– Conhaque? – ofereceu lady Vickers, segurando uma taça.

Annabel recusou. Depois da segunda manhã recebendo visitas junto da avó (que não era capaz de enfrentar nada antes do meio-dia sem a devida libação), ela havia aprendido que era melhor beber apenas limonada e chá até a hora do jantar.

– Vai me dar dor de estômago – justificou ela.

– Isso? – perguntou lady Vickers, olhando a taça com espanto. – Que estranho. Isso faz com que eu me sinta positivamente serena.

Annabel assentiu. Não havia outra maneira de responder. Ela passara mais tempo com a avó nos últimos dias do que no mês anterior. Quando lady Vickers a aconselhara a aceitar o escândalo como uma dama, também estava se referindo a si mesma e, aparentemente, isso significava ficar grudada à neta.

Annabel percebeu que era a demonstração de amor mais tangível que sua avó já tinha lhe dado.

– Bem, vou lhe dizer uma coisa – proclamou lady Vickers. – Embora seja por conta de um escândalo, tenho visto mais amigos do que em anos.

Amigos? Annabel deu um sorriso hesitante.

– Talvez agora diminua – prosseguiu lady Vickers. – Foram 33 visitantes no primeiro dia, 39

no segundo e apenas 26 ontem.

Annabel ficou de queixo caído.

– A senhora está contando?

– Claro que estou contando. O que você tem feito esses dias?

– Bem… Fico sentada encarando a situação como uma dama?

A avó riu.

– Você provavelmente não achava que eu fosse capaz de contar até essas cifras.

Annabel engasgou e gaguejou, e começou a se arrepender de ter recusado o conhaque.

– Pfff… – resmungou lady Vickers, abanando a mão em desdém. – Tenho vários talentos ocultos.

Annabel assentiu, mas não sabia ao certo se gostaria que os outros talentos da avó viessem à tona. Isto é, tinha certeza de que não gostaria.

– Uma dama deve ter sua própria reserva de segredos e força – continuou sua avó. – Acredite em mim. – Ela tomou um gole de sua bebida, soltou um suspiro de satisfação e tomou outro. –

Quando você se casar, vai entender o que estou dizendo.

Noventa e oito visitantes, Annabel pensou, fazendo a soma de cabeça. Noventa e oito pessoas

tinham ido até a residência dos Vickers, ansiosas para testemunhar o escândalo de perto. Ou para divulgá-lo. Ou para lhe informar quanto havia sido divulgado.

Uma situação terrível.

Noventa e oito pessoas. Ela desabou.

– Sente-se direito! – exclamou sua avó.

Annabel obedeceu. Talvez não tivessem sido exatamente 98. Algumas pessoas haviam ido mais de uma vez. Lady Twombley tinha ido todos os dias.

E por onde andava o Sr. Grey no meio de tudo aquilo? Ninguém parecia saber. Ele não fora visto desde a briga no clube. Annabel tinha quase certeza de que a história era verdadeira, porque lhe contaram aquilo nada menos que 98 vezes.

Annabel não estava irritada com o Sr. Grey. Não tinha sido culpa dele. Ela deveria ter lhe dito que estava sendo cortejada pelo tio. Era ela quem poderia ter evitado o escândalo. Essa era a pior parte. Ela passara os últimos três dias inteiros se sentindo envergonhada, zangada e insignificante, e não havia ninguém para culpar além de si mesma. Se tivesse contado a verdade, ainda que não no momento em que soube o nome dele, mas pelo menos quando se encontraram no Hyde Park…

– Visitantes, minha senhora – anunciou o mordomo.

– Os primeiros do dia – disse lady Vickers secamente… ou ironicamente? – Quem são, Judkins?

– Lady Olivia Valentine e o Sr. Grey.

– Já não era sem tempo – resmungou lady Vickers.

Quando Judkins apareceu com os visitantes, ela comentou novamente: – Já não era sem tempo. Por que demorou tanto?

Annabel queria morrer de humilhação.

– Fiquei doente – respondeu o Sr. Grey delicadamente, com um sorriso irônico que se retorcia na direção do olho.

O olho dele. Estava horrível. Um círculo extremamente avermelhado, um pouco inchado, com um hematoma azulado que se espalhava do meio para fora. Annabel arfou alto; não conseguiu evitar.

– Pareço uma figura bastante assustadora de se ver – murmurou ele, pegando a mão dela e se inclinando para beijá-la.

– Sr. Grey – cumprimentou ela –, sinto muito pelo seu olho.

Ele se endireitou.

– Eu até que gosto. Tenho a impressão de que estou o tempo todo dando uma piscadela.

Annabel esboçou um sorriso, depois se conteve.

– Uma piscadela medonha – concordou ela.

– E eu achando que estava elegante – suspirou ele.

– Sentem-se – ordenou lady Vickers, apontando para o sofá.

Annabel começou a andar até o local, mas a avó disse:

– Não. Ele. Você fica ali. – Então gritou para o mordomo: – Judkins, não vamos receber mais ninguém! – E bateu a porta com força.

Depois que terminou de conduzir cada um aos lugares que havia determinado, lady Vickers não perdeu tempo em dar início à conversa: – O que planeja fazer? – perguntou ela, dirigindo-se não ao Sr. Grey, mas à prima dele, que até então permanecera em silêncio.

Lady Olivia não se abalou. Estava claro que não tomara decisão alguma sobre os dois envolvidos, que deveriam ser capazes de administrar o próprio escândalo.

– É por isso que estamos aqui – disse ela de pronto. – Meu primo está perplexo com o dano potencial à reputação de sua neta e sente muitíssimo por qualquer participação que possa ter tido.

– É bom que sinta mesmo – retrucou lady Vickers com acidez.

Annabel lançou um olhar para o Sr. Grey. Para seu alívio, ele parecia estar se divertindo.

Talvez até um pouco entediado.

– É claro – disse lady Olivia suavemente – que seu envolvimento foi inadvertido. Como todos sabemos, lorde Newbury deu o primeiro golpe.

– O único golpe – interveio o Sr. Grey.

– Sim – concordou lady Vickers, demonstrando sua aceitação com um amplo movimento do braço. – Quem poderia culpar o conde? Ele deve ter ficado chocado. Conheço Newbury há décadas. É um homem extremamente sensível.

Annabel quase bufou alto. Ela encarou o Sr. Grey, para ver se ele sentia o mesmo. No instante em que fez isso, os olhos dele se arregalaram, alarmados.

Espere um momento… alarmados?

O Sr. Grey engoliu em seco.

– Sim – disse lady Vickers dando um suspiro forçado –, mas agora o casório corre risco.

Queríamos muito um conde para Annabel.

– Uau!

Annabel e lady Olivia olharam para o Sr. Grey, que, se os ouvidos de Annabel não a enganavam, tinha acabado de soltar um gritinho. Ele sorriu de um jeito forçado, parecendo bastante constrangido como ela jamais o vira. Não que o tivesse visto tantas vezes, mas ele dava a impressão de ser o tipo de cavalheiro que sempre se sentia confortável com seus atos.

Ele se remexeu na cadeira.

Annabel olhou para baixo.

E viu a mão da avó pousar na coxa dele.

Continuar: parte 3 de 3