Dez coisas que eu amo em você
Capítulo nove
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
– Chá! – ela praticamente gritou, pondo-se de pé. – Precisamos de um chá. Vocês não acham?
– Eu acho – respondeu o Sr. Grey, animado, aproveitando a oportunidade para se afastar alguns centímetros de lady Vickers e se manter distante o suficiente para que ela não pusesse as mãos nele com tanto descaramento.
– Eu adoro chá – balbuciou Annabel, indo em direção ao sino para tocá-lo. – Vocês não?
Minha mãe sempre diz que é impossível resolver qualquer coisa sem um bule de chá.
– E o contrário é verdadeiro? – perguntou o Sr. Grey. – É possível resolver qualquer coisa com um?
– Em breve descobriremos, não é mesmo?
Annabel viu, horrorizada, a avó ir até ele.
– Ah, meu Deus! – exclamou lady Vickers, com um tom visivelmente enfático demais. –
Ficou preso. Sr. Grey, se importaria de me ajudar com isto?
Ela segurou a corda da campainha, tomando cuidado para não puxá-la.
Ele praticamente deu um pulo do sofá.
– Eu adoraria. As senhoras me conhecem – disse ele às outras damas. – Eu vivo para resgatar donzelas em perigo.
– É por isso que estamos aqui – disse lady Olivia suavemente.
– Cuidado – disse Annabel enquanto ele pegava a corda das mãos dela. – É melhor não puxar forte demais.
– Claro que não – murmurou ele, e depois mexeu a boca novamente, mas sem emitir nenhum som: – Obrigado.
Eles ficaram ali por um instante e, confiantes em que a avó e lady Olivia estavam envolvidas em outra conversa, Annabel disse: – Sinto muito pelo seu olho.
– Ah, isto? – disse ele, fazendo um gesto com a mão como se não fosse nada importante.
Ela engoliu em seco.
– Eu também sinto muito por não ter dito nada. Foi uma péssima atitude a minha.
O Sr. Grey deu de ombros e fez uma expressão de desdém.
– Se eu estivesse sendo cortejado pelo meu tio, acho que também não falaria.
Ela teve a sensação de que deveria rir, mas tudo o que sentiu foi um terrível desespero.
Conseguiu dar um sorriso, um não muito bom, e falou…
Nada. Aparentemente, sorrir era o máximo que ela conseguia fazer.
– A senhorita vai se casar com ele? – perguntou o Sr. Grey.
Annabel olhou para os pés.
– Ele não pediu.
– Ele vai pedir.
Ela tentou não responder. Tentou pensar em outra coisa para dizer, qualquer coisa para mudar de assunto sem parecer tão óbvio. Mexeu-se ligeiramente, depois olhou na direção do relógio, e então…
– Ele quer um herdeiro – comentou o Sr. Grey.
– Eu sei – confirmou ela calmamente.
– Ele precisa de um, e logo.
– Eu sei.
– A maioria das jovens ficaria lisonjeada com a consideração dele.
Ela deu um suspiro.
– Eu sei. – E então ergueu os olhos e sorriu. Era um daqueles sorrisos de nervosismo. – Eu estou… – disse ela, e engoliu em seco. – Estou lisonjeada.
– Claro que está – murmurou ele.
Annabel ficou parada, tentando não bater o pé no chão. Outro desses hábitos que sua avó detestava. Mas era muito difícil ficar parada quando não se sentia bem.
– É um ponto passível de discussão – comentou ela às pressas. – Ele não apareceu por aqui.
Suspeito que esteja em busca de outra pretendente.
– Pelo que espero que a senhorita esteja agradecida – retrucou o Sr. Grey, baixinho.
Ela não respondeu. Não conseguiu. Porque estava agradecida. Mais do que isso, estava aliviada. E se sentia extremamente culpada por isso. O casamento com o conde teria salvado toda a sua família. Ela não deveria se sentir agradecida. Deveria estar devastada pelo fato de o casório ter ido por água abaixo.
– Sr. Gre-ey! – entoou a avó dela do outro lado da sala.
– Lady Vickers – respondeu ele, solícito, indo em direção ao sofá, mas sem se sentar.
– Achamos que o senhor deveria cortejar minha neta – anunciou ela.
Annabel sentiu a pele ficar da cor de um tomate e adoraria ter se escondido debaixo de uma cadeira. Diante do pânico, ela se apressou em exclamar: – Ah, vovó, a senhora não pode estar falando sério! – Então se virou para o Sr. Grey: – Ela não está falando sério.
– Estou, sim – rebateu a avó de forma sucinta. – É a única saída.
– Não, não, Sr. Grey – disse Annabel, absolutamente mortificada por ele ter sido condenado a cortejá-la. – Por favor, não pense…
– Eu sou tão ruim assim? – indagou ele secamente.
– Não! Não. Quero dizer, o senhor sabe que não é.
– Bem, eu esperava que não… – murmurou ele.
Annabel olhou para a avó e para lady Olivia em busca de ajuda, mas elas não lhe ofereceram nenhuma.
– Nada disso é culpa sua – retrucou Annabel com firmeza.
– No entanto – disse ele com afetação –, eu não posso ficar parado enquanto uma donzela está em perigo. Que tipo de cavalheiro eu seria?
Annabel olhou para lady Olivia. Ela estava sorrindo de um jeito que a deixou assustada.
– Nada sério, é claro – explicou lady Vickers. – Só para manter as aparências. Vocês poderiam sustentar o relacionamento até o fim do mês. Um relacionamento amigável, é claro. –
A avó sorriu, maliciosa. – Odiaríamos se o Sr. Grey não se sentisse bem-vindo aqui na residência dos Vickers.
Annabel arriscou olhar para o cavalheiro em questão. Ele parecia ter o estômago embrulhado.
– Por favor, sente-se novamente – disse lady Vickers, dando um tapinha na almofada ao lado dela no sofá. – O senhor faz com que eu me sinta a anfitriã mais incompetente de todas.
– Não! – explodiu Annabel, sem conseguir ponderar a repercussão daquela única palavra.
– Não? – ecoou a voz de sua avó.
– Deveríamos sair para um passeio – sugeriu Annabel.
– Deveríamos? – perguntou o Sr. Grey. – Ah, sim, deveríamos.
– Deveriam, definitivamente – disse lady Olivia.
– O tempo está ótimo – disse Annabel.
– Todo mundo vai nos ver e pensar que a estou cortejando – concluiu o Sr. Grey, pegando o braço de Annabel com entusiasmo, e anunciou: – Estamos partindo, então!
Eles saíram do aposento às pressas, sem pronunciar uma única palavra até chegarem à escada da frente da casa, quando o Sr. Grey se virou para ela e disse um sincero: – Obrigado.
– Foi um prazer – respondeu Annabel, os pés tocando com leveza na calçada.
Ela se virou e sorriu.
– Eu vivo para resgatar cavalheiros em perigo.
Capítulo catorze
Antes que Sebastian pudesse lhe dar uma resposta adequadamente concisa, a porta da residência dos Vickers se abriu e Olivia surgiu. Ele olhou para ela e arqueou uma sobrancelha.
– Serei sua dama de companhia – explicou ela, e, antes que ele pudesse abrir a boca, acrescentou: – A aia da Srta. Winslow está de folga hoje, então era eu ou lady Vickers.
– Estamos muito felizes por tê-la aqui – retrucou ele com firmeza.
– O que foi que aconteceu lá dentro? – perguntou Olivia, descendo até a calçada.
Sebastian se virou para a Srta. Winslow, que olhava fixamente para uma árvore.
– Não existe a menor possibilidade de eu falar sobre isso – disse ele, voltando-se para Olivia.
– É doloroso demais.
Ele pensou ter ouvido a Srta. Winslow bufar. Gostava mesmo do senso de humor dela.
– Muito bem – concordou Olivia, gesticulando como se enxotasse algo no ar. – Podem ir na frente. Vou ficar um pouco para trás, acolitando vocês.
– Essa palavra existe? – indagou Sebastian. Após o incidente envolvendo a palavra escopo, ela não tinha o direito de cometer nenhum erro de vocabulário.
– Se não existe, deveria – respondeu Olivia.
Sebastian tinha uma série de respostas concisas na manga, mas infelizmente todas envolviam revelar sua identidade secreta. Como seria incapaz de permitir que aquele comentário passasse sem dizer nada para Olivia, ele se virou para a Srta. Winslow e falou: – Esta é a primeira vez dela.
– A primeira vez…?
A Srta. Winslow encarou Olivia com uma expressão inquisidora.
– Como dama de companhia – esclareceu ele, pegando o braço da Srta. Winslow. – Ela vai tentar impressioná-la.
– Eu estou ouvindo!
– Claro que está – concordou ele, então se inclinou um pouco mais na direção da Srta.
Winslow e sussurrou em seu ouvido: – Vamos ter que trabalhar duro para nos livrar dela.
– Sebastian!
– Relaxe, Olivia – falou ele, alto. – E fique aí atrás.
– Isso não parece certo – disse a Srta. Winslow.
Seus lábios se franziram de um jeito adorável, e Seb se viu ponderando todas as maneiras de aquele beicinho ganhar um formato um pouco mais sedutor. Ou seduzível.
– O quê? – murmurou ele.
– Ela não é nenhuma tia solteirona – argumentou Annabel. – Lady Olivia, por favor. Junte-se
a nós.
– Tenho certeza de que não é o que Sebastian quer – retrucou Olivia, mas ele percebeu que ela apertou o passo para se aproximar. – Não se preocupe, Seb. Lady Vickers me deu um jornal.
Encontrarei um banquinho confortável e vocês dois poderão passear por onde desejarem.
Ela estendeu o jornal, com a intenção de que ele o carregasse, e assim foi. Sebastian nunca discutia, a menos que fosse absolutamente necessário. Os três seguiram o caminho até o parque, conversando sobre nada em particular, e, fiel à sua palavra, Olivia logo encontrou um banco e passou a ignorá-los. Ou, pelo menos, fez um belíssimo trabalho fingindo ignorá-los.
– Vamos dar uma volta? – perguntou ele à Srta. Winslow. – Podemos imaginar que esta é uma sala de visitas extremamente grande e percorrer todo o seu perímetro.
– Eu adoraria.
A Srta. Winslow olhou para Olivia, que lia o jornal.
– Ah, ela está de olho em nós, não se preocupe – disse ele.
– Acha mesmo? Ela parece bastante absorta.
– Pode ter certeza de que minha querida prima é capaz de ler o jornal e nos espiar ao mesmo tempo. Provavelmente poderia pintar uma aquarela e reger uma orquestra também. – Ele acenou com a cabeça em direção à Srta. Winslow em saudação e, em seguida, acrescentou: – Eu aprendi que as mulheres conseguem fazer pelo menos seis coisas sem uma única pausa para respirar.
– E os homens?
– Ah, somos uns cabeças de vento. É um milagre que consigamos andar e conversar ao mesmo tempo.
Ela riu e apontou para os pés dele.
– Aparentemente, o senhor está se saindo bem. É admirável.
Sebastian fingiu surpresa.
– Ora, veja só. Parece que estou mesmo melhorando.
Ela riu de novo, um som adorável e gutural. Ele sorriu para ela, já que era o que se fazia quando uma dama ria, e, por um momento, esqueceu onde se encontrava. As árvores, a grama, o mundo inteiro simplesmente desapareceu. Tudo que ele via era o rosto dela, o sorriso e os lábios, tão carnudos e rosados, tão deliciosamente curvados nos cantos.
Seu corpo começou a vibrar com uma sensação leve e inebriante. Não era luxúria nem mesmo desejo – ele conhecia esses sentimentos com precisão. Era algo diferente. Euforia, talvez.
Ou expectativa, embora ele não soubesse ao certo de quê. Os dois estavam apenas caminhando pelo parque. Ainda assim, Sebastian não conseguia se livrar da sensação de que estava esperando por algo bom.
Era uma sensação maravilhosa.
– Gostei de ter sido salvo – afirmou ele enquanto passeavam tranquilamente em direção à Stanhope Gate.
O tempo estava bom, a Srta. Winslow era adorável e os ouvidos de Olivia se encontravam fora do alcance deles.
O que mais um homem poderia desejar em uma tarde?
Se bem que ainda não tinha passado do meio-dia. Ele olhou para o céu. Ainda era manhã.
– Sinto muito pela minha avó – disse a Srta. Winslow com profunda sinceridade.
– Não, não. A senhorita não sabe que não deve mencionar essas coisas?
Ela deu um suspiro.
– Sério? Não posso nem pedir desculpas?
– Claro que não. – Ele sorriu para ela. – Deve varrê-las para debaixo do tapete e torcer para que eu não tenha notado.
As sobrancelhas dela se ergueram, em dúvida.
– Que a mão dela estava na sua… hã…
Ele abanou a mão, embora na verdade estivesse achando graça de ela estar ruborizada.
– Não me lembro de nada.
Por um instante, o rosto dela ficou completamente inexpressivo, depois a Srta. Winslow apenas balançou a cabeça.
– A sociedade londrina me deixa confusa.
– Não faz sentido, de fato – concordou ele.
– Basta olhar para a minha situação.
– Eu sei. É uma pena. Mas é assim que as coisas funcionam. Se eu não quiser a senhorita e meu tio também não – nesse exato momento ele a encarou, tentando divisar alguma decepção –, então ninguém mais vai querer.
– Não, isso eu entendo – comentou ela. – Acho absurdamente injusto…
– Sem dúvida – interferiu ele.
– … mas entendo. Ainda assim, suspeito que existam inúmeras sutilezas que desconheço por completo.
– Ah, com certeza. Por exemplo, os papéis que desempenhamos aqui no parque… Há detalhes que devem ser reproduzidos com precisão.
– Não tenho ideia do que o senhor está falando.
Sebastian mudou de posição de modo a ficar de frente para ela.
– Tudo depende de como eu olho para a senhorita.
– Perdão?
Ele sorriu, olhando para o rosto dela apaixonadamente.
– Mais ou menos assim – murmurou ele.
Ela entreabriu os lábios e, por um instante, não conseguiu respirar.
Ele adorava poder fazer isso com ela. Quase tanto quanto adorava saber que ela não conseguia respirar quando ele fazia isso com ela. Deus, como era bom ser capaz de ler as mulheres!
– Não, não – advertiu ele. – A senhorita não pode retribuir esse olhar.
Ela piscou, atordoada.
– O quê?
Ele se aproximou mais um pouco e sussurrou:
– As pessoas estão nos observando.
Os olhos dela se arregalaram, e ele notou o momento exato em que o cérebro dela voltou a
prestar atenção. Ela tentou disfarçar enquanto olhava para a esquerda, depois para a direita, e então, devagar e confusa, de volta para ele. Na verdade, não tinha ideia do que estava fazendo.
– A senhorita é uma péssima atriz – criticou ele.
– Estou totalmente perdida – admitiu ela.
– Porque não tem ideia do que está fazendo – concluiu ele com delicadeza. – Permita-me ajudá-la: nós estamos no parque.
Annabel arqueou uma sobrancelha.
– Estou ciente disso.
– Cerca de cem dos nossos conhecidos mais próximos também estão.
Ela virou a cabeça novamente, dessa vez em direção à Rotten Row, onde alguns grupinhos de damas fingiam não observá-los.
– Não seja tão indiscreta – pediu ele, acenando para cumprimentar a Sra. Brompton e sua filha Camilla, que sorriam como se dissessem Podemos nos cumprimentar, mas talvez não devêssemos conversar.
Annabel estava irritada; sério, quem olhava para alguém daquele jeito? Mas não pôde deixar de se parabenizar por ter interpretado com sucesso uma expressão multifacetada.
Por mais rude que aquilo pudesse ser.
– A senhorita parece irritada – comentou Sebastian.
– Não estou.
Bem, talvez sim.
– Entende o que estamos fazendo? – verificou ele.
– Acho que sim – murmurou ela.
– Deve ter notado que a senhorita se tornou objeto de especulação – disse ele.
Annabel lutou contra o desejo de bufar.
– Pode-se dizer que sim.
– Por que sinto uma pitada de sarcasmo em sua voz, Srta. Winslow?
– É apenas uma pitada.
Ele ia dar uma risadinha, mas não deu. Ela percebeu que ele sempre reagia assim: achava graça de tudo. Era um dom raro, e provavelmente explicava por que todo mundo gostava de estar perto dele. Ele era alegre, e era bom ficar perto de uma pessoa alegre. Talvez a alegria fosse contagiosa. Talvez fosse como um resfriado. Ou o cólera.
Contagioso. Ela gostava disso. Ser contagiada pela alegria.
Ela sorriu. Não pôde evitar. Olhou para ele, porque também não pôde evitar, e ele a encarou com curiosidade. Sebastian estava prestes a fazer uma pergunta, provavelmente por que ela havia começado a sorrir de repente, quando…
Annabel deu um pulo.
– Isso foi um tiro?
Ele não respondeu. Quando ela o olhou de perto, percebeu que o homem estava terrivelmente pálido.
– Sr. Grey? – Ela colocou a mão no braço dele. – Sr. Grey? O senhor está bem?
Ele continuou calado. Annabel sentiu que seus olhos se arregalavam e, embora soubesse que
não era possível que ele tivesse sido baleado, viu-se analisando-o na expectativa de encontrar algum sangue.
– Sr. Grey? – chamou ela outra vez, já que nunca o vira daquele jeito.
Embora não pudesse considerá-lo um conhecido de longa data, Annabel sabia que havia algo terrivelmente errado. O rosto dele estava imóvel e tenso, e seus olhos estavam em outro lugar.
Ainda estavam grudados nas respectivas órbitas, mas fixavam um ponto além do ombro dela.
Era como se ele não estivesse ali.
– Sr. Grey? – repetiu Annabel, e dessa vez beliscou de leve o braço dele, tentando acordá-lo.
Ele deu um pulo e virou a cabeça na direção dela. Encarou-a por alguns segundos até que ela tivesse a certeza de que ele realmente a via, então piscou várias vezes antes de dizer: – Minhas sinceras desculpas.
Annabel não sabia o que responder. Não havia por que pedir desculpas.
– É essa maldita competição – murmurou ele.
Ela sabia que não deveria repreendê-lo pelo seu linguajar.
– Que competição?
– Um concurso de tiro idiota. Em pleno Hyde Park – retrucou ele. – Um bando de imbecis.
Quem faria algo desse tipo?
Annabel começou a falar alguma coisa. Sentiu seus lábios se moverem, mas nenhuma palavra saiu. Então fechou a boca. Melhor ficar calada do que dizer algo tolo.
– Estavam competindo na semana passada também – explicou ele.
– Acho que eles estão mais para lá – afirmou Annabel, apontando para o terreno atrás dele.
O tiro soara bastante próximo, na verdade. Nada que a fizesse ficar pálida e trêmula; não era possível uma menina crescer naquele país sem ouvir rifles serem descarregados com regularidade. Ainda assim, tinha sido bem alto, e ela supôs que se alguém tivesse voltado da guerra…
A guerra. Só podia ser isso. O avô paterno dela havia lutado nas colônias e até o dia de sua morte dava um pulo toda vez que ouvia um barulho alto. Ninguém nunca comentava sobre o assunto. A conversa era interrompida por um instante, nunca além disso, e então continuava como se nada tivesse acontecido. Era uma espécie de regra tácita na família Winslow. E
funcionara muito bem.
Ou será que não?
Com certeza, funcionara para o restante da família, mas para o seu avô? Ele nunca perdeu aquele olhar vazio. E não gostava de viajar depois do anoitecer. Ninguém gostava, acreditava Annabel, mas todos faziam isso quando era necessário. Exceto o avô. Quando a noite caía, ele estava em casa. Em qualquer casa. Mais de uma vez acabou se tornando um hóspede inesperado.
E Annabel se questionou: alguém havia perguntado a ele por que aquilo acontecia?
Ela encarou o Sr. Grey, subitamente sentindo que o conhecia muito melhor do que apenas um minuto antes.
Mas talvez não o suficiente para dizer uma palavra de conforto.
Ele se forçou a olhar de volta para o rosto dela e começou a dizer algo, mas então…
Outro tiro.
– Maldito seja.
Os lábios de Annabel se abriram de surpresa. Ela olhou de um lado para outro, esperando que ninguém o tivesse ouvido praguejar. Ela mesma não se importava, é claro, nunca tinha sido muito exigente com essas coisas, mas…
– Com licença – murmurou ele, e então partiu na direção dos tiros, marchando a passos largos e determinados.
Annabel demorou um instante para reagir, depois recobrou a atenção e correu atrás dele.
– Aonde está indo?
O Sr. Grey não respondeu ou, se respondeu, ela não conseguiu ouvi-lo, porque ele não se virou. E era uma pergunta estúpida, de qualquer forma. Estava perfeitamente claro para onde ele estava indo: até a competição de tiro, embora ela não soubesse por quê. Ele iria repreendê-los?
Pedir que parassem? Será que lhe cabia isso? As pessoas deveriam ter permissão para praticar tiro no parque. Será que não tinham tomado essa precaução?
– Sr. Grey! – chamou ela, tentando alcançá-lo.
Mas ele tinha pernas compridas, e Annabel precisava movimentar as dela quase duas vezes mais rápido para acompanhar o passo dele. Quando chegou à área de competição, estava sem fôlego e suava sob o espartilho.
Ela continuou em frente, perseguindo-o até que estivesse apenas alguns passos atrás. O Sr.
Grey foi até o grupo de participantes: cerca de meia dúzia de jovens, nenhum deles com mais de 20 anos, pelo que Annabel pôde notar.
– Que diabo vocês pensam que estão fazendo? – perguntou Sebastian com rispidez, mas sem erguer a voz, o que Annabel achou impressionante, considerando quão irritado ele estava.
– Uma competição – respondeu um dos jovens cavalheiros, abrindo um largo sorriso falso que sempre fazia Annabel revirar os olhos. – Estivemos aqui a semana toda.
– Sim, eu ouvi – concordou o Sr. Grey.
– Isolamos toda essa área aqui atrás – disse o cavalheiro, acenando com o braço em direção ao alvo. – Não se preocupe.
– E quando termina essa competição? – indagou o Sr. Grey friamente.
– Quando alguém atingir em cheio o centro do alvo.
Annabel olhou para o alvo. Já tinha visto inúmeras competições de tiro e podia dizer que o alvo fora instalado longe demais e de um jeito bastante incomum. Suspeitava que pelo menos três homens estivessem bebendo. Eles poderiam passar a tarde toda ali.
– O senhor gostaria de tentar? – perguntou outro jovem, oferecendo uma arma ao Sr. Grey.
Ele deu um sorriso antipático e pegou a arma.
– Obrigado.
E então, diante dos olhos extremamente arregalados de Annabel, ele ergueu o braço, apertou o gatilho e devolveu a arma ao dono.
– Pronto – anunciou ele secamente. – Fim da competição.
– Mas…
– Acabou – disse ele, depois se virou para Annabel com uma expressão plácida. – Vamos continuar nosso passeio?
Annabel assentiu, mas não sabia se ele a entendera, pois sua cabeça oscilava entre o Sr. Grey e o alvo. Um dos jovens saíra correndo para ver como ele havia feito aquilo e berrava alguma coisa, extremamente surpreso.
– Na mosca! – gritou, correndo na direção deles. – Bem no meio!
Os lábios de Annabel se abriram de espanto. O Sr. Grey não havia sequer mirado. Ou pelo menos não parecia ter mirado.
– Como o senhor conseguiu? – perguntavam os jovens.
E então um deles acrescentou:
– Poderia fazer de novo?
– Não – respondeu Sebastian secamente –, e não se esqueçam de limpar tudo isso antes de irem embora.
– Ah, nós ainda não terminamos – disse um dos jovens, de maneira tola, na opinião de Annabel.
O tom do Sr. Grey era leve, mas apenas um idiota não teria percebido a dureza em seu olhar.
– Estabeleceremos outra meta – prosseguiu o jovem. – Temos até as duas e meia. O senhor não conta, já que não está inscrito na competição.
– Com licença – pediu o Sr. Grey suavemente a Annabel.
Ele soltou o braço dela e se voltou para os rapazes.
– Posso pegar sua arma? – perguntou a um deles.
O jovem entregou a arma em silêncio e, mais uma vez, o Sr. Grey ergueu o braço e, sem nenhuma concentração, apertou o gatilho.
Um dos postes de madeira que sustentava o alvo se partiu (evaporou, na verdade) e tudo foi ao chão.
– Agora vocês terminaram – anunciou o Sr. Grey, devolvendo a arma ao proprietário. –
Tenham um bom dia.
Ele voltou para junto de Annabel, deu-lhe o braço e, antes que ela pudesse perguntar, explicou: – Eu era franco-atirador. Na guerra.
Annabel assentiu, quase certa de que agora entendia como os franceses haviam sido derrotados. Olhou de volta para o alvo, cercado pelos jovens, depois para o Sr. Grey, que parecia absolutamente despreocupado. Então, como não conseguiu se conter, voltou-se para o alvo, um pouco consciente da pressão em seu braço enquanto ele tentava trazê-la de volta.
– Aquilo foi… aquilo foi…
– Não foi nada – disse ele. – Nada mesmo.
– Eu não chamaria aquilo de nada – retrucou ela cautelosamente.
O Sr. Grey parecia não querer receber elogios, mas, ao mesmo tempo, ela não conseguia deixar de falar a respeito.
Ele deu de ombros.
– É um talento.
– Bem, é um talento bastante útil, na minha opinião.
Ela queria olhar para trás de novo, mas não conseguiria ver nada e, de qualquer forma, ele não havia olhado para trás nem uma vez.
– Gostaria de tomar uma granita? – perguntou ele.
– Perdão?
– Granita. Estou com um pouco de calor. Poderíamos ir até o Gunter’s.
Annabel não respondeu, ainda confusa com a mudança abrupta de rumo da conversa.
– Teríamos que chamar Olivia, é claro, mas ela é uma boa companhia. – Ele franziu a testa, pensativo. – E provavelmente está com fome. Não tenho certeza se tomou o desjejum.
– Bem, é claro… – concordou Annabel, embora não soubesse de que ele estava falando.
O Sr. Grey a encarava com expectativa, e ela claramente deveria responder logo.
– Excelente. Gunter’s, então.
Ele sorriu, seus olhos brilhando daquela maneira agora tão familiar, e Annabel queria agarrá-lo pelos ombros e sacudi-lo. Era como se o episódio inteiro com as armas e o alvo nunca tivesse acontecido.
– A senhorita gosta de laranja? – indagou ele. – A de laranja é particularmente boa, perdendo apenas para a de limão, ainda que eles não a sirvam sempre.
– Eu gosto de laranja – disse ela, novamente porque parecia apropriado responder qualquer coisa.
– A granita de chocolate também é bem gostosa.
– Eu gosto muito de chocolate.
E assim foi, uma conversa sobre nada específico, até o Gunter’s. Lá, Annabel não estava particularmente orgulhosa de dizer, ela esqueceu todo o incidente ocorrido no parque. O Sr. Grey insistiu que pedir uma granita de cada sabor, e Annabel insistiu que seria rude não provar todas (exceto a de rosas, que ela não suportava; era uma flor, pelo amor de Deus, não um sabor). Então lady Olivia se declarou incapaz de tolerar o cheiro da de bergamota, o que fez o Sr. Grey agitar a respectiva granita debaixo do nariz dela. Annabel não conseguia se lembrar da última vez que se divertira tanto.
Diversão. Pura e simples diversão. Uma coisa muito boa, de fato.
Capítulo quinze
Dois dias depois
Quando Annabel terminou de dançar com lorde Rowton, logo depois de dançar com o Sr.
Berbrooke, logo depois de dançar com o Sr. Albansdale, logo depois de dançar com outro Sr.
Berbrooke, logo depois de dançar com o Sr. Cavender, logo depois de dançar com – Deus do céu! – um príncipe russo, logo depois de dançar com sir Harry Valentine, logo depois de dançar com o Sr. St. Clair (ela teve que retomar o fôlego aqui, só de pensar!), então veio a sua dança com o Sr. Grey…
Bastava dizer que, se até então ela não havia entendido a natureza inconstante da sociedade londrina, conseguia compreendê-la agora. Annabel não sabia exatamente quantos dos cavalheiros a convidaram para dançar porque o Sr. Grey lhes pedira, nem quantos a convidaram porque todos os outros pareciam estar fazendo isso, mas uma coisa estava clara: ela estava em evidência.
Naquela semana, ao menos.
A caminhada no parque surtira efeito, assim como a ida ao Gunter’s. Annabel tinha sido vista por toda a alta sociedade com Sebastian Grey agindo (nas palavras dele) como um tolo apaixonado. Ele se certificara de que todas as fofoqueiras o tivessem visto beijando a mão dela, rindo de suas piadas, e que aqueles que puxaram conversa com eles o vissem admirando (não com lascívia) o rosto dela.
E, sim, ele de fato utilizara a palavra “lascívia”. O que a teria chocado se não fosse o jeito divertido de ele dizer as coisas. Tudo o que ela podia fazer era rir, o que, segundo ele, era justo apenas porque o Sr. Grey não entendia que ele estava rindo das piadas dela, e não vice-versa.
O que a fazia rir novamente.
Eles repetiram a farsa na tarde seguinte e na posterior, saindo para um convescote com sir Harry e lady Olivia. O Sr. Grey a deixara na casa dos avós dela com instruções estritas para não chegar ao baile de Hartside naquela noite até pelo menos as nove e meia. A carruagem dos Vickers apareceu às quinze para as dez e, quando Annabel adentrou o salão, cinco minutos depois, o Sr. Grey estava parado junto à porta, conversando com um cavalheiro que ela não reconheceu. Quando a viu, no entanto, ele imediatamente o abandonou e foi na direção dela.
O fato de ele ter passado por três mulheres lindas para chegar até ela não fora, Annabel suspeitava, um acidente.
Em dois minutos eles estavam dançando. E cinco minutos depois ela dançava com o cavalheiro com quem ele estava conversando antes. E assim por diante, desde o príncipe russo, passando pelos dois Berbrookes, até lorde Rowton. Annabel não sabia ao certo se queria viver para sempre como a garota mais popular da cidade, mas precisava admitir que, por uma noite, era maravilhosamente divertido. Lady Twombley se aproximara, puro veneno e fel, mas mesmo ela não conseguia distorcer os fatos e transformar as fofocas em algo impróprio. Ela não era páreo para lady Olivia Valentine, que – Annabel fora informada – havia mencionado para três de suas amigas mais íntimas que o Sr. Grey talvez estivesse verdadeiramente encantado.
– As três sem nenhuma discrição – murmurou sir Harry.
Annabel começara a notar que lady Olivia entendia muito bem como funcionava o mercado de fofocas.
– Annabel!
Ela viu Louisa acenando, então, logo depois de fazer uma mesura para lorde Rowton e de lhe agradecer pela dança, foi em direção à prima.
– Somos gêmeas! – exclamou Louisa, apontando para os vestidos, que tinham um pálido tom verde-acinzentado quase idêntico.
Annabel não pôde deixar de rir. Dificilmente poderia haver primas tão pouco parecidas quanto as duas.
– Eu sei – disse Louisa. – Não combino com esta cor.
– Bobagem – assegurou Annabel, embora de fato não lhe caísse mesmo tão bem.
– Não minta – pediu Louisa. – Como minha prima, é seu dever dizer a verdade quando ninguém mais o fará.
– Está bem, não é a melhor cor para você…
Louisa deu um suspiro.
– Me falta cor.
– Claro que não! – exclamou Annabel.
Apesar de talvez de fato lhe faltar um pouco, com aquele vestido verde-acinzentado que lhe caía terrivelmente mal. A pele de Louisa era sempre pálida, mas a luz fraca e o vestido pareciam sugar até a última gota de rubor de suas bochechas.
– Gostei muito do azul que você estava usando na ópera. Ficou encantador em você.
– Acha mesmo? – perguntou Louisa, quase esperançosa. – Eu me senti encantadora ao usá-lo.
– Às vezes isso já é metade do caminho – disse Annabel.
– Bem, você deve estar extremamente encantadora nessa cor – concordou Louisa. – É a rainha do baile.
– Não tem nada a ver com a cor do meu vestido – retrucou Annabel –, como você bem sabe.
– O Sr. Grey tem estado muito ocupado – afirmou Louisa.
– De fato.
Elas ficaram ali paradas por um momento, observando os outros convidados, e então Louisa disse: – Foi um belo gesto da parte dele interceder.
Annabel assentiu.
– Não, quero dizer que foi um belo gesto da parte dele.
Annabel se virou para encarar a prima.
– Ele não precisava ter feito isso – argumentou Louisa, de forma não propriamente ríspida, mas… quase. – A maioria dos cavalheiros não faria.
Annabel observou a prima de perto, buscando em seu rosto algum sinal que mostrasse um significado oculto. Mas Louisa não estava olhando para ela. A prima tinha o queixo erguido e ainda observava a multidão, movendo a cabeça muito de leve, como se estivesse procurando alguém.
Ou talvez apenas olhando mesmo.
– O que o tio dele fez… – comentou Louisa num tom suave. – Foi imperdoável. Ninguém o condenaria por revidar.
Annabel esperou por mais. Uma explicação. Instruções. Qualquer coisa. Finalmente, soltou um suspiro reprimido.
– Por favor – disse ela. – Você também?
Louisa se virou.
– O que quer dizer?
– Exatamente isso. Por favor, apenas diga o que quer dizer. É exaustivo ficar tentando adivinhar o que todo mundo está querendo me dizer quando não tem nada a ver com as palavras que realmente saem de suas bocas.
– Mas eu disse – argumentou Louisa. – Você precisa entender como o comportamento dele foi notável. Depois do que o tio fez, e de maneira tão pública, ninguém poderia condenar o Sr.
Grey se ele quisesse lavar as mãos e deixá-la sozinha nesse escândalo.
– Está vendo? É isso aí – rebateu Annabel, aliviada por Louisa finalmente ter explicado o que queria dizer, mesmo que não fosse algo agradável. – Era disso que eu estava falando. Agora tudo faz sentido. Era isso que eu queria ouvir.
– O que você queria ouvir?
Annabel quase deu um pulo para trás.
– Sr. Grey! – exclamou ela com um gritinho.
– Ao seu dispor – disse ele, fazendo-lhe uma mesura garbosa.
Ele usava um tapa-olho por cima do machucado, o que na maioria dos homens ficaria ridículo. Ele, no entanto, parecia espirituoso e perigoso, e Annabel desejava não ter ouvido duas damas comentando que gostariam de ser saqueadas por aquele pirata.
– A senhorita parece tão compenetrada – disse ele a Annabel. – Preciso saber o que estavam conversando.
Annabel não via motivo para não ser honesta.
– Basicamente que eu considero exaustivo ter que interpretar o que todo mundo diz aqui em Londres.
– Ah – murmurou ele –, você dançou com o príncipe Alexei. Não ligue para ele. Tem um sotaque muito forte.
Louisa deu uma risadinha.
Annabel lutou contra o desejo de revirar os olhos.
– Ninguém diz o que realmente quer dizer – explicou ela ao Sr. Grey.
Ele a encarou com uma expressão vazia, depois indagou:
– Esperava que fosse diferente?
Outro bufada saiu da boca de Louisa. Seguida por várias tossidas discretas, uma vez que nunca seria tão ousada a ponto de rir alto em público.
– Gosto de falar em código – revelou o Sr. Grey.
Annabel sentiu algo pulsar no peito. Poderia ter sido surpresa. Ou decepção, quem sabe. Ela olhou para ele, completamente incapaz de disfarçar sua expressão, e retrucou: – É mesmo?
Os olhos dele fitaram os dela por um longo e tenso momento. Então ele respondeu, quase
soando perplexo: – Não.
A boca de Annabel se abriu, mas ela não disse nada. Não conseguia respirar. Algo incomum acabara de se passar entre eles, algo notável.
– Eu acho… – comentou ele, lentamente. – Acho que deveria convidá-la para dançar.
Annabel assentiu, praticamente atordoada.
Ele estendeu a mão e então a recolheu, sinalizando que ela o esperasse onde estava.
– Não saia daí – pediu ele. – Eu já volto.
Eles estavam parados perto da orquestra, e Annabel observou enquanto ele se dirigia ao maestro.
– Annabel! – sibilou Louisa entre dentes.
Annabel se assustou. Tinha esquecido que a prima estava ali. Tinha esquecido que todos estavam ali. Por um perfeito instante, o salão estava vazio. Não havia nada além dela, dele e da suave respiração deles.
– Você já dançou com ele – avisou Louisa.
Annabel assentiu.
– Eu sei.
– As pessoas vão comentar.
Annabel se virou e piscou, tentando focar o rosto da prima.
– As pessoas já estão comentando – argumentou ela.
Louisa abriu a boca como se pretendesse dizer mais alguma coisa, mas apenas sorriu.
– Annabel Winslow – disse ela suavemente. – Acho que você está se apaixonando.
Isso tirou Annabel do transe.
– Não estou, não.
– Ah, está, sim.
– Eu mal o conheço.
– Aparentemente, você o conhece o suficiente.
Annabel viu que o Sr. Grey estava voltando, e algo que se assemelhava a pânico emergiu em seu peito.
– Louisa, feche a boca. Isso é tudo encenação. Ele está me fazendo um favor.
A prima deu de ombros de um jeito indiferente, pouco incomum.
– Se é o que você diz…
– Louisa – chamou Annabel entre dentes, mas ela começou a se retirar quando viu que o Sr.
Grey havia retornado.
– É uma valsa – anunciou ele, como se não tivesse acabado de pedi-la ao maestro.
Ele estendeu a mão.
Ela quase a pegou.
– Louisa – disse ela. – O senhor deveria dançar com Louisa.
O Sr. Grey a encarou.
– E depois comigo – concluiu Annabel. – Por favor.
Ele fez uma mesura e se virou para Louisa, mas a moça murmurou um pedido de desculpas, inclinando a cabeça na direção de Annabel.
– Tem que ser você, Srta. Winslow – disse ele gentilmente.
Ela assentiu e deu um passo à frente, permitindo que ele pegasse sua mão. Ouviu cochichos e percebeu os olhares ao seu redor mas, quando ergueu o olhar e o viu olhando para ela, seus olhos de um cinza tão claro, tudo desapareceu. O tio dele… as fofocas… nada daquilo importava. Ela não permitiria.
Eles foram até o centro do salão, e ela ficou de frente para ele, tentando ignorar o arrepio de desejo que a atravessou quando ele pousou a outra mão nas costas dela. Annabel nunca compreendera por que a valsa fora considerada escandalosa no passado.
Agora ela sabia.
Ele a segurava de modo apropriado, com largos 30 centímetros de distância. Ninguém seria capaz de encontrar uma falha no comportamento dos dois. Mesmo assim, Annabel sentia como se o ar ao redor deles tivesse sido aquecido, como se um feitiço, estranho e cintilante, tivesse sido lançado sobre toda a sua pele. Cada respiração parecia encher seus pulmões de maneira diferente, e ela estava profundamente consciente do próprio corpo, de como era estar contida nele, de como cada curva se movia e fluía com a música.
Annabel se sentia como uma ninfa. Uma deusa. E, quando ela o encarava, ele a observava com uma expressão crua e faminta. Ele também estava ciente do corpo dela, Annabel percebeu, e isso a deixou ainda mais tensa e contraída por dentro.
Por um breve instante, ela fechou os olhos, lembrando a si mesma que era tudo uma farsa.
Eles estavam atuando, reabilitando-a aos olhos da sociedade. Ao dançar com ela, o Sr. Grey a tornava desejável. E, se Annabel estava se sentindo desejada – por ele –, precisava colocar a cabeça no lugar. Ele era um homem honrado e generoso, mas também era um ator habilidoso no cenário social. Sabia exatamente como olhar para ela, como sorrir para ela, para que todos pensassem que estava apaixonado.
– Por que pediu que eu dançasse com a sua prima? – perguntou ele, a voz soando estranha, quase como se tivesse um nó na garganta.
– Não sei – confessou ela.
E ela não sabia mesmo. Ou talvez não quisesse admitir para si mesma que tinha ficado assustada.
– Ela não dançou ainda – disse Annabel.
Ele assentiu.
– Não seria bom para a encenação – emendou ela, tentando focar na posição de seus pés –
que o senhor dançasse com ela? Não estaria preocupado com isso se desejasse apenas…
– Apenas o quê? – perguntou ele.
Ela passou a língua pelos lábios. Estavam secos.
– Seduzir.
– Annabel – disse ele, surpreendendo-a com o uso de seu primeiro nome –, nenhum homem olha para você sem pensar em seduzi-la.
Ela o encarou, assustada com a pontada de dor que sua declaração lhe causara. Lorde Newbury a desejava por suas curvas, seus seios fartos e seus quadris largos e férteis. E Deus era testemunha de que ela nunca conseguira se acostumar com os olhares lascivos que lhe eram
lançados pelos mais respeitados cavalheiros. Mas o Sr. Grey… Ela pensava que, de alguma forma, ele fosse diferente.
– O que importa – falou ele calmamente – é saber se eles também pensam em algo além disso.
– O senhor pensa? – sussurrou ela.
Ele não respondeu imediatamente. Então, quase como se tivesse acabado de tomar consciência daquilo, disse: – Acho que sim.
Ela ficou sem ar e olhou para ele, tentando interpretar o que revelara. Não lhe ocorreu que talvez ele também não soubesse exatamente o que queria dizer, que poderia estar tão confuso quanto ela por conta daquela estranha atração entre eles.
Ou talvez ele não quisesse dizer nada. O Sr. Grey era o tipo raro de homem que sabia como ser amigo de uma mulher. Talvez fosse isto: ele achava sua companhia divertida, era ótimo rir com ela e de repente até valesse a pena levar um soco por ela.
Talvez fosse só isso.
Então a dança acabou. Ele se curvou enquanto ela fazia uma mesura, e os dois voltaram para o canto do salão, em direção à mesa de limonada, pela qual Annabel se sentia extremamente grata. Estava com sede, mas o que realmente precisava era de algo nas mãos, algo para distraí-la, para impedi-la de parecer inquieta. Porque sua pele ainda estava quente e seu coração aos pulos, e se ela não tivesse algo em que se apoiar, achava que não seria capaz de se manter de pé.
Ele entregou-lhe uma taça, e Annabel havia acabado de tomar o primeiro gole quando ouviu que alguém o chamava. Ela se virou e viu uma matrona de uns 40 anos se aproximando, acenando e gritando: – Ah, Sr. Grey! Sr. Grey!
– Sra. Carruthers – cumprimentou ele, educadamente. – Prazer em vê-la.
– Acabei de saber de algo surpreendente – disse a Sra. Carruthers.
Annabel se preparou para uma notícia terrível, provavelmente a envolvendo, mas a Sra.
Carruthers concentrou toda a sua atenção no Sr. Grey e disse: – Lady Cosgrove me contou que o senhor está de posse de livros autografados pela Sra. Gorely.
Era só isso? Annabel ficou um tanto decepcionada.
– Estou, sim – confirmou o Sr. Grey.
– O senhor precisa me dizer onde os conseguiu. Sou uma profunda admiradora e não poderia afirmar que minha biblioteca está completa sem um autógrafo dela.
– Hã… Os livros estavam em uma livraria em, hã, em Oxford, na verdade, creio eu.
– Oxford – repetiu a Sra. Carruthers, visivelmente desapontada.
– Acredito que não valeria a pena viajar até lá para tentar encontrar outros exemplares –
argumentou ele. – Havia apenas uma coleção autografada, e o livreiro me disse que nunca tinha visto outras antes.
A Sra. Carruthers levou a ponta do indicador à boca, apertando os lábios, pensativa.
– É tão intrigante – comentou ela. – Será que ela é de Oxford? Talvez seja casada com um professor.
– Existe um professor lá com o sobrenome Gorely? – perguntou Annabel.
A Sra. Carruthers virou-se para ela como se só então percebesse que Annabel estava ali,
parada ao lado do Sr. Grey.
– Minhas sinceras desculpas – murmurou ele, e então fez as devidas apresentações.
– Existe? – questionou Annabel novamente. – Parece-me que essa seria a maneira mais eficiente de determinar se ela é ou não esposa de um professor.
– É improvável que Sarah Gorely seja seu verdadeiro nome – explicou a Sra. Carruthers em um tom autoritário. – Não consigo imaginar uma dama que permitisse que seu nome fosse colocado em um romance.
– Se esse não é o verdadeiro nome dela – deduziu Annabel –, o autógrafo tem algum valor?
A pergunta foi recebida com silêncio.
– Além disso – prosseguiu Annabel –, como saber que se trata de fato da assinatura dela?
Poderia ter sido eu a assinar o nome dela na folha de rosto.
A Sra. Carruthers a encarou. Annabel não sabia dizer se a senhora estava perplexa com as indagações ou apenas irritada. Depois de um momento, a mulher voltou-se decididamente para o Sr. Grey: – Se o senhor encontrar outra coleção autografada ou um único livro que seja, compre e saiba que eu o reembolsarei.
– Será um prazer – murmurou ele.
A Sra. Carruthers assentiu e se afastou.
Annabel a observou partir.
– Acho que não a agradei – disse ela.
– Não – concordou ele.
– Pensei que levantar a questão sobre o valor da assinatura fosse pertinente – argumentou ela com um dar de ombros.
Ele sorriu.
– Estou começando a entender sua obsessão pelas pessoas que não dizem o que querem dizer.
– Não é uma obsessão – protestou ela.
O Sr. Grey arqueou uma sobrancelha. O movimento ficou implícito pelo tapa-olho, o que de alguma forma tornou tudo ainda mais provocador.
– Não é – insistiu Annabel. – É bom senso. Basta pensar em todos os mal-entendidos que poderiam ser evitados se as pessoas simplesmente fossem diretas em vez de dizer algo a uma pessoa que poderia contar a outra, que poderia contar a outra, que poderia…
– A senhorita está misturando duas coisas diferentes – interrompeu ele. – Uma coisa é diálogo intricado, outra é fofoca.
– Ambas são igualmente traiçoeiras.
Ele a olhou com um ar condescendente.
– Está sendo muito dura com seu amigo aqui, Srta. Winslow.
Ela se enfureceu.
– Não acho que seja pedir demais.
O Sr. Grey assentiu lentamente.
– De qualquer forma, eu preferiria que meu tio não tivesse dito o que disse na quarta-feira à noite.
Annabel engoliu em seco, sentindo-se um pouco enjoada. E culpada, certamente.
– Talvez eu aprecie a honestidade dele. Em um nível puramente filosófico, é claro. – Ele deu um sorriso contido. – Em termos práticos, no entanto, acho que sou mais bonito sem o tapa-olho.
– Sinto muito – disse ela.
Não era a coisa certa a dizer, mas foi o melhor em que conseguiu pensar. Pelo menos não estava errada.
Ele abanou a mão como se não fosse preciso um pedido de desculpas.
– Todas as novas experiências são boas para o espírito. Agora eu sei como é levar um soco na cara.
– Isso é bom para o seu espírito? – perguntou ela, confusa.
Ele deu de ombros, olhando para a multidão.