Diários (1909-1912)

Franz Kafka · Capítulo 3 de 7 · parte 2/3

Páginas do PDF

Diários (1909-1912)

Diários 1909-1912

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

nos banhos33, competia com suas roupas. Por um momento, pareceu-me que ela fumegava e enchia todo o quarto ao lado com seus vapores. Em seguida, estava com um corpete de cor cinza que, embaixo, se afastava tanto do corpo que alguém poderia sentar-se ali em cima e assim, de certo modo, cavalgar.

______

Mais sobre Kubin: o hábito de repetir as últimas palavras da outra pessoa, de toda maneira em tom aprovador, ainda que se verifique, pela fala própria aí entrelaçada, que não se concorda de forma alguma com o outro. Irritante. – Ao ouvir suas muitas histórias pode-se esquecer o que ele vale. De súbito somos lembrados disso e nos assustamos. Falava-se que um bar ao qual queríamos ir era perigoso; ele disse que não iria para lá; perguntei se ele era medroso, ao que ele respondeu, ainda por cima com o braço enganchado no meu: mas é claro, sou jovem e ainda tenho muito pela frente. – Durante a noite inteira e, segundo minha opinião, com toda a seriedade, falou com frequência da minha e da sua prisão de ventre. Por volta da meia-noite, quando deixei minha mão pendendo da borda da mesa, ele viu uma parte do meu braço e exclamou: “Mas o senhor está realmente doente!”. A partir de então, tratou-me de maneira ainda muito mais condescendente e, mais tarde, também rechaçou os outros, que queriam me convencer a acompanhá-los ao

b.34 Quando já nos tínhamos despedido, ele ainda me gritou à distância: “Regulin!”.

______

Tucholski35 36 e Safranski. O dialeto aspirado de Berlim, em que a voz precisa

de pausas que são formadas por “ 37 nich ”. O primeiro, um homem inteiramente uniforme de vinte e um anos. A começar pelo balanço comedido e enérgico da bengala, que eleva o ombro de modo juvenil, até à diversão e ao desdém deliberados quanto a seus próprios trabalhos literários. Quer tornar-se advogado, vê apenas poucos obstáculos – ao mesmo tempo, com a possibilidade de sua eliminação: sua voz clara, que, após o tom masculino da primeira meia hora de conversa, parece se tornar feminil – dúvida em relação à própria capacidade para a pose, a qual no entanto espera obter de uma maior experiência do mundo – por fim, medo de uma conversão ao mero tédio de viver, como observou em judeus berlinenses mais velhos da sua linha, ainda que por ora não sinta absolutamente nada disso. Irá casar-se em breve.

______

Safranski, aluno de Bernhard38, faz caretas enquanto desenha e observa, relacionadas àquilo que está desenhando. O que me lembra que eu, por minha parte, tenho uma acentuada capacidade de metamorfose que ninguém

percebe. Quantas vezes tive de imitar Max.39 Ao voltar para casa ontem à noite, poderia, como espectador, ser confundido com Tucholski. A essência alheia tem de ser tão nítida e tão invisível em mim quanto o elemento oculto de um rébus, no qual jamais se acharia algo caso não se soubesse que está ali. Por ocasião dessas metamorfoses, gostaria muitíssimo de acreditar numa turvação de meus próprios olhos.

Primeiro de outubro, segunda-feira.40 41 Ontem, sinagoga Velha Nova. Kol

nidre 42 . Murmúrio abafado de bolsa de valores. Na entrada, caixa com a inscrição: “Esmolas dadas com discrição apaziguam a irritação”. Interior com feitio de igreja. Três judeus devotos, evidentemente orientais. De meias. Curvados sobre o livro de orações, o xale de orações puxado sobre a cabeça, apequenados ao máximo. Dois choram; apenas tocados pelo dia festivo? Um deles talvez tenha apenas os olhos doloridos, sobre os quais coloca fugazmente o lenço ainda dobrado para logo aproximar outra vez o rosto do texto. A palavra não é propriamente, ou principalmente, cantada, mas extraem arabescos dela, formados a partir da palavra, fina como um cabelo, que continuam a fiar. O jovenzinho que, sem a menor ideia do todo e sem possibilidade de orientação, o barulho nos ouvidos, empurra-se e é empurrado entre a multidão aglomerada. O aparente vendedor que se sacode rapidamente durante a oração, o que só pode ser compreendido como tentativa de acentuar cada palavra com a maior força possível, ainda que talvez sem compreender, no que a voz é poupada, a qual, além disso, não conseguiria dar uma acentuação clara e grande em meio ao barulho. A família

do dono do bordel. Na sinagoga Pinkas43 fui tocado pelo judaísmo de maneira incomparavelmente mais forte.

______

No b. Suha44 trasanteontem. Uma das judias tem rosto estreito, ou melhor, o rosto termina num queixo estreito, mas se alarga pelo balanço de um penteado vastamente ondulado. As três portas pequenas que levam do interior do prédio ao salão. Os clientes como numa sala de guarda sobre o palco, bebidas na mesa que mal são tocadas. A mulher de rosto achatado e com um vestido anguloso que começa a se movimentar apenas bem embaixo, num debrum. Algumas, agora e antes, vestidas como as marionetes dos teatros infantis vendidas na feira de Natal, isto é, com babados e ouro colados e frouxamente costuradas, de modo que se pode descosê-las num só puxão e elas se desfazem entre os dedos. A dona, com o cabelo louro-pálido esticado sobre uma base sem dúvida nojenta, com o nariz descendo em ângulo agudo, cuja direção se encontra numa relação geométrica qualquer com os seios caídos e a barriga que mantém rija, queixa-se de dores de cabeça, causadas pelo fato de hoje, sábado, haver uma algazarra tão grande e isso não dar em nada.

______

Sobre Kubin: a história de Hamsun é suspeita. Tais histórias, tiradas das obras deste, poderiam ser contadas aos milhares como algo vivido.

______

Sobre Goethe: “ideias excitadas” são meramente as ideias excitadas pelas cataratas do Reno. Depreende-se isso de uma carta a Schiller. – A observação momentânea isolada “o ritmo de castanholas das crianças com tamancos” causou tal efeito, foi aceita de modo tão universal, que é impensável que alguém, mesmo que jamais tivesse lido essa nota, pudesse sentir essa observação como uma ideia original própria.

______

2 de outubro. Noite insone. Já é a terceira consecutiva. Adormeço bem, mas desperto uma hora depois como se tivesse colocado a cabeça num buraco indevido. Estou completamente acordado, tenho a sensação de não ter dormido absolutamente nada ou apenas sob uma fina membrana, tenho outra vez diante de mim o trabalho de adormecer e me sinto repelido pelo sono. E, a partir de agora, as coisas continuam assim até por volta das cinco, é verdade que durmo, mas, ao mesmo tempo, sonhos intensos me mantêm acordado. É como se eu dormisse ao meu lado, enquanto eu mesmo tenho de me bater com os sonhos. Por volta das cinco, o último vestígio de sono se consumiu e apenas sonho, o que é mais cansativo do que estar acordado. Em suma, passo a noite inteira no estado em que uma pessoa saudável se encontra por um breve momento antes do adormecer propriamente dito. Quando acordo, todos os sonhos estão reunidos em torno de mim, mas me resguardo de examiná-los a fundo. Por volta do amanhecer, suspiro no travesseiro porque, para esta noite, toda a esperança se foi. Penso naquelas noites em cujo final fui elevado do sono profundo e acordei como se estivera preso numa noz. Uma aparição medonha dessa noite foi uma criança cega, pelo visto a filha de minha tia de

Leitmeritz45, que, aliás, não tem filhas, mas apenas filhos, dos quais um deles quebrou certa vez o pé. Em compensação, havia relações entre essa criança e

a filha do dr. Marschner46, que, conforme vi recentemente, está em vias de se transformar, de uma criança bonita, numa mocinha gorda, rijamente vestida. Essa criança cega ou de vista fraca tinha os dois olhos cobertos por um par de óculos; o esquerdo, sob a lente um tanto afastada, era de um cinza leitoso e se salientava convexamente, o outro era recuado e estava oculto por uma lente bem próxima. Para que essa lente fosse colocada de maneira opticamente correta era necessário, em vez do costumeiro suporte que se estende para trás sobre a orelha, empregar uma alavanca cuja cabeça não podia ser fixada de outra maneira a não ser no osso zigomático, de modo que dessa lente descia uma vareta até a bochecha, ali desaparecia na carne perfurada e terminava no osso, enquanto outra vareta de arame saía dali e se estendia para trás sobre a orelha. – Acho que essa insônia só vem do fato de escrever. Pois, por menos e pior que eu escreva, torno-me sensível devido a esses pequenos abalos, sinto o sopro, especialmente por volta do entardecer e ainda mais pela manhã, a possibilidade próxima de estados grandes e que me dilaceram, que poderiam me tornar capaz de tudo, e então, no ruído geral que está em mim e que não tenho tempo de comandar, não tenho sossego. Por fim, esse ruído é apenas uma harmonia opressa, contida, que, se liberta, me preencheria inteiramente, até me estenderia pelas amplidões e ainda assim me preencheria. Agora, porém, além de fracas esperanças, esse estado só me causa danos, visto que minha natureza não tem entendimento o bastante para suportar a mistura atual; durante o dia, o mundo visível me ajuda, durante a noite, isso me retalha sem obstáculos. Nisso, sempre penso em Paris, onde, na época do cerco e, mais tarde, até a Comuna, a população dos subúrbios do norte e do leste, até então estranha ao parisiense, se movia durante meses rumo ao interior de Paris pelas ruelas de ligação, literalmente de hora em hora, estacando como ponteiros.

Meu consolo – e com ele vou me deitar agora – é que não escrevi por tanto tempo que esse ato de escrever ainda não pôde se acomodar às minhas condições atuais, mas que, com alguma hombridade, isso tem de funcionar pelo menos provisoriamente.

Estive tão fraco hoje que contei a história da criança até a meu chefe. – Lembrei-me agora que os óculos do sonho são de minha mãe, que à noite senta-se a meu lado e, sob seu pincenê, olha em minha direção durante o jogo de cartas de uma maneira não muito agradável. Seu pincenê tem inclusive a lente direita mais próxima do olho que a esquerda, o que não lembro de ter observado antes.

 

3 de outubro. Uma noite igual, apenas peguei no sono com dificuldade ainda maior. Ao adormecer, uma dor que vai verticalmente pela cabeça passando sobre a base do nariz, como se proviesse de uma ruga da testa apertada de modo muito firme. Para ficar o mais pesado possível, o que julgo bom para o adormecer, cruzei os braços e pousei as mãos sobre os ombros, de modo que estava deitado ali como um soldado carregado com sua bagagem. Outra vez, foi a força de meus sonhos, que já irradiam antes do adormecer, o que não me deixou dormir. A consciência de minhas capacidades literárias é inabarcável à noite e pela manhã. Sinto-me afrouxado até o solo de meu ser e posso tirar de mim o que quiser. Esse ato de fazer tais forças saírem, que então não deixo

trabalhar, lembra-me minha relação com B.47 Também aqui há efusões que não são liberadas, mas que têm de aniquilar a si mesmas ao recuarem, só que aqui – essa é a diferença – se trata de forças mais misteriosas e de minha coisa última.

______

Na Josefsplatz 48 passou por mim um grande automóvel de viagem com uma família firmemente apertada dentro dele. Atrás do automóvel, com o cheiro de gasolina, passou sobre meu rosto uma brisa de Paris.

______

No escritório, ditando uma notificação mais longa a uma subprefeitura. Na conclusão, que deveria levantar voo, perdi o fio da meada e não consegui

fazer outra coisa senão encarar a datilógrafa, a srta. Kaiser49, que, como era seu costume, ficou particularmente vivaz, moveu sua cadeira, tossiu, deu batidinhas pela mesa e assim chamou a atenção da sala inteira para a minha desgraça. A ideia buscada também adquire agora o valor de que irá aquietá-la, e, quanto mais valiosa se torna, tão mais difícil é encontrá-la. Por fim, tenho a expressão “marcar a ferro” e a frase correspondente, mas ainda retenho tudo na boca, com um nojo e um sentimento de vergonha como se fosse carne crua, carne cortada de mim (tamanho esforço me custou). Por fim digo a frase, mas fico com o grande susto de que tudo em mim está pronto para um trabalho literário e que tal trabalho seria para mim uma solução celeste e um verdadeiro avivamento, enquanto aqui no escritório, por causa de um documento tão miserável, tenho de privar de um pedaço de sua própria carne um corpo capaz de tal felicidade.

______

4 [de outubro de 1911]. Estou inquieto e furioso. Ontem, antes de adormecer, havia no alto da minha cabeça, à esquerda, uma chamazinha tremulante e fria. Uma tensão já se instalou sobre o meu olho esquerdo. Quando penso a respeito, parece-me que não poderia aguentar o escritório mesmo se me dissessem que estarei livre dentro de um mês. E, no entanto, na maioria das vezes cumpro meu dever lá, fico bem quieto quando posso estar seguro da satisfação de meu chefe e não sinto que minha condição seja terrível. Aliás, ontem à noite me entorpeci intencionalmente, fui passear, li Dickens, então fiquei um pouco mais saudável e perdi a força para a tristeza que considerava justificada, mesmo que me parecesse um tanto remota, algo que, esperava, me traria um sono melhor. Ele foi um pouco mais profundo, mas não suficiente e interrompido muitas vezes. Para me consolar, disse-me que sem dúvida tinha reprimido mais uma vez o grande movimento que houvera em mim, mas que não pretendia renunciar a mim mesmo, como sempre fizera depois de tais períodos, e sim conservar na consciência de maneira precisa também os vestígios desses movimentos, o que nunca tinha feito antes. Talvez dessa forma eu pudesse encontrar em mim uma perseverança oculta.

______

Por volta do anoitecer, no escuro, em meu quarto, no canapé. Por que se precisa de um tempo mais longo para reconhecer uma cor, mas, então, depois da virada decisiva do entendimento, fica-se rapidamente cada vez mais convencido dela? Se a luz do vestíbulo e a da cozinha incidem de fora simultaneamente sobre a porta de vidro, derrama-se uma luz esverdeada, ou melhor, para não depreciar a impressão certeira, uma luz verde, por quase toda a superfície dos vidros abaixo. Se a luz do vestíbulo é apagada e resta apenas a luz da cozinha, o vidro mais próximo a ela fica azul-escuro, o outro fica azul-esbranquiçado, tão esbranquiçado que todo o desenho do vidro fosco (cabeças de papoula estilizadas, gavinhas, quadriláteros e folhas variados) se dilui. – As luzes e sombras lançadas pela luz elétrica da rua e da ponte, lá embaixo, sobre as paredes e o teto são desordenadas, em parte deterioradas, sobrepondo-se umas às outras e difíceis de examinar. É que quando instalaram as lâmpadas elétricas de arco voltaico lá embaixo e quando mobiliaram este quarto, não se deu qualquer atenção, daquela que é própria das donas de casa, à aparência que teria meu quarto a essa hora, visto do canapé, sem iluminação interior própria. – O brilho do bonde que passa lá embaixo, lançado contra o teto, passa esbranquiçado, misterioso e estacando mecanicamente ao longo de uma das paredes e do teto, quebrando-se no canto. – O globo se encontra no primeiro, fresco e pleno reflexo da iluminação da rua, sobre o guarda-roupa esverdeado em cima e puramente iluminado, tem um ponto brilhante em sua curvatura e uma aparência como se o brilho lhe fosse muito forte, embora a luz passe por sua lisura e o deixe duma cor que está mais para o castanho, para a casca de uma maçã. – A luz do vestíbulo produz um brilho de grande área na parede sobre a cama, limitado por uma linha sinuosa que sai da cabeceira dela, rebaixa seu aspecto, alarga seus pés escuros, eleva o teto do quarto sobre ela

______

5 [de outubro de 1911]. Pela primeira vez desde há alguns dias, novamente

inquietação inclusive quanto ao que aqui escrevo. Raiva de minha irmã50, que entra no quarto e se senta à mesa com um livro; minha espera pela próxima pequena ocasião de soltar essa raiva. Por fim, ela apanha um cartão de visita da caixa e palita os dentes com ele. Com raiva desvanecente, da qual só me fica na cabeça um vapor acre, e alívio e confiança incipientes, começo a escrever.

______

Ontem à noite, café Savoy. Companhia judaica51 – sra. Klug, “imitadora de senhores”. De cafetã, calças pretas e curtas, meias brancas, uma camisa branca de lã fina que emerge do colete preto, presa na frente, junto ao pescoço, por um botão de retrós e que então se dobra numa gola larga, solta e esparramada. Sobre a cabeça, envolvendo o cabelo feminino, mas, de resto também necessário e também usado pelo marido, um barretezinho escuro, sem remate, e, por cima, um chapéu grande, preto e mole com as abas curvadas para o alto. – Na verdade, não sei que pessoas são essas que ela e seu marido representam. Quisesse explicá-las para alguém a quem não quero confessar minha ignorância, veria que os tomo por servidores da comunidade, por empregados do templo, conhecidos mandriões com quem a comunidade se resignou, pedinchões privilegiados de alguma maneira por motivos religiosos, pessoas que se encontram bem próximas do centro da vida comunitária precisamente devido à sua posição segregada, conhecem muitas canções devido ao seu deambular inútil e espreitador, enxergam de modo preciso a situação de todos os membros da comunidade, mas que, devido à sua falta de relação com a vida profissional, nada conseguem fazer com esses conhecimentos, pessoas que são judeus de uma forma especialmente pura porque vivem apenas na religião, mas sem esforço, compreensão ou lamento. Parecem zombar de todo mundo, riem logo depois do assassinato de um judeu nobre, vendem-se a um apóstata, dançam, encantados, com as mãos junto às costeletas quando o assassino desmascarado se envenena e clama por Deus, e, no entanto, fazem tudo isso apenas por serem leves como plumas, jazem no chão sob qualquer pressão, são sensíveis, choram logo, com o rosto seco (esvaem-se de chorar com caretas), mas, assim que a pressão passa, não adquirem o menor peso próprio, mas logo têm de saltar nas alturas. Por isso, na verdade teriam de causar muitas preocupações a uma peça séria como o

Meschumed 52 53 de Lateiner, visto que sempre estão à frente do palco em todo o seu tamanho e com frequência na ponta dos pés ou com as duas pernas no ar, sem desfazer a tensão da peça, e sim retalhá-la. Bem, mas a seriedade da peça se desenrola em palavras tão fechadas, dosadas mesmo na possível improvisação, retesadas por um sentimento unitário, que mesmo quando a ação se passa apenas no segundo plano do palco ela sempre conserva sua

importância. Os dois de cafetã54 são antes reprimidos aqui e ali, o que corresponde à sua natureza, e olhamos, apesar de seus braços estendidos e dedos estalantes, apenas para o assassino, que, o veneno dentro de si, a mão em sua gola, na verdade muito larga, cambaleia até a porta. – As melodias são longas, o corpo se entrega a elas com gosto. Devido à sua duração que transcorre linearmente, correspondem-lhes perfeitamente o balançar dos quadris, os braços estendidos que, numa respiração tranquila, são levantados e baixados, a aproximação das palmas das mãos às têmporas e a cuidadosa

evitação do contato. Lembra um tanto a 55 šlapak . – Por ocasião de algumas

canções, da pronúncia de 56 jüdische Kinderloch, de alguns ângulos dessa mulher que, no estrado, por ser judia nos atrai, o público, para si por sermos judeus, sem desejo ou curiosidade pelos cristãos, um arrepio me percorreu as

faces. O representante do governo57, talvez o único cristão na sala, com exceção de um garçom e duas empregadas de pé à esquerda do palco, é um homem deplorável acometido por um tique facial que, propagando-se com força especialmente pela face esquerda e também pela direita, contrai e abandona o rosto com a rapidez – quero dizer fugacidade – quase gentil do ponteiro dos segundos, mas também com sua regularidade. Quando o tique passa sobre o olho esquerdo, quase o apaga. Para essa contração, desenvolveram-se novos músculos, pequenos e frescos, no rosto de outro modo inteiramente arruinado. – A melodia talmúdica das perguntas, dos juramentos e das explicações mais exatas: o ar entra num tubo e o leva consigo; em compensação, um parafuso grande, orgulhoso no todo e humilde em suas voltas, gira na direção do interrogado a partir de inícios pequenos e remotos.

 

6 [de outubro de 1911]. Os dois velhos à frente, à longa mesa junto ao palco. Um deles se apoia com os dois braços na mesa e apenas vira o rosto para o alto, à direita, na direção do palco, rosto cujo rubor falso e inchado, com uma barba irregularmente quadrada e emaranhada embaixo, oculta tristemente sua idade, enquanto o outro, exatamente de frente para o palco, mantém seu rosto, verdadeiramente ressequido pela idade, longe da mesa, na qual se apoia apenas com o braço esquerdo, mantendo o direito curvado no ar para apreciar melhor a melodia, seguida pela ponta de seus pés e à qual o cachimbo curto

na mão direita cede debilmente. “ 58 Tateleben, cante junto”, clama a mulher, ora ao primeiro, ora ao segundo, enquanto se curva um pouco e estende os braços à frente, exortando-os.

– As melodias são apropriadas para apanhar toda pessoa que se levanta dum salto e, sem dilacerar, abranger todo seu entusiasmo, se é que não se queira acreditar que são elas que lhe dão esse entusiasmo. Pois especialmente os dois de cafetã se apressam a cantar, como se isso retesasse seus corpos conforme a necessidade mais genuína, e o bater de palmas durante a canção certamente indica o melhor bem-estar do ser humano no ator. – Os filhos do dono do estabelecimento, num canto, mantêm-se numa relação infantil com a sra. Klug, que está sobre o palco, e cantam junto, a boca cheia com a melodia entre os lábios arregaçados.

A peça: Seidemann, um judeu rico, numa condensação evidente de todos os seus instintos criminosos com vista a esse fim, deixou-se batizar já faz vinte anos e, na ocasião, envenenou sua mulher porque ela não se deixou forçar ao batismo. Desde então, esforçou-se por esquecer o iídiche, que, no entanto, ressoa involuntariamente no fundo de sua fala, expressando sem cessar, em especial no início, para que o público o perceba e porque os acontecimentos vindouros ainda deixam tempo para tanto, um grande nojo em relação a tudo o que é judaico. Destinou sua filha ao oficial Dragomirow, enquanto ela, que ama um primo, o jovem Edelmann, declara ao pai numa grande cena, erguendo-se numa posição pétrea, inusual, apenas quebrada na cintura, que não desistirá do judaísmo, finalizando todo um ato com uma risada de desdém pela coação que lhe é imposta. (Os cristãos da peça são: um honesto criado polonês de Seidemann, que mais tarde contribui para seu desmascaramento, honesto sobretudo porque os contrastes precisam estar reunidos em torno de Seidemann; o oficial, do qual a peça pouco se ocupa, exceto pela representação de suas dívidas, pois, como cristão nobre, ele não interessa a ninguém, assim como um presidente de tribunal que entra em cena mais tarde e, por fim, um funcionário do tribunal, cuja maldade não ultrapassa a exigência de sua posição e a jocosidade dos dois homens de cafetã, embora Max o chame de pogromista.) Mas, por alguma razão, Dragomirow só pode se casar quando suas letras de câmbio forem pagas, as quais estão com o velho Edelmann, mas este, embora esteja prestes a viajar à Palestina e embora Seidemann queira pagá-las em dinheiro vivo, não as entrega. A filha é arrogante com o oficial apaixonado e se vangloria de seu judaísmo, embora seja batizada, o oficial não sabe o que fazer e, os braços caídos, as mãos frouxamente entrelaçadas, olha para o pai em busca de ajuda. A filha foge para onde está Edelmann, quer se casar com o amado, embora provisoriamente em segredo, visto que um judeu, segundo a lei secular, não pode se casar com uma cristã, e ela, evidentemente, não pode se converter ao judaísmo sem a concordância do pai. O pai vem, reconhece que sem astúcia tudo estaria perdido e dá exteriormente sua benção a esse casamento. Todos perdoam Seidemann, chegam mesmo a amá-lo de tal maneira como se houvessem estado errados, inclusive o velho Edelmann, e este em especial, embora saiba que Seidemann envenenou sua irmã. (Essa lacuna talvez tenha surgido devido a uma abreviação, mas, talvez, também pelo fato de a peça ter se divulgado principalmente de modo oral de uma trupe a outra.) Mediante essa reconciliação, Seidemann obtém sobretudo as letras de câmbio de Dragomirov, pois, “sabes”, diz ele, “não quero que esse Dragomiriv fale mal dos judeus”, e Edelmann as entrega de graça; depois Seidemann o chama até o reposteiro ao fundo, supostamente para lhe mostrar alguma coisa, e, por trás, crava-lhe mortalmente nas costas uma faca que atravessa o roupão. (Entre a reconciliação e o assassinato, Seidemann estivera afastado do palco por algum tempo a fim de elaborar o plano e comprar a faca.) Com isso, quer levar o jovem Edelmann ao patíbulo, pois a suspeita terá de recair sobre ele, e sua filha ficará livre para Dragomirov. Ele escapa, Edelmann está caído atrás do reposteiro. A filha entra em cena com o véu de noiva, de braço dado com o jovem Edelmann, que vestiu o manto de orações. O pai, como veem, infelizmente ainda não está ali. Seidemann chega e parece feliz ao ver o casal de noivos. Então aparece um homem, talvez o próprio Dragomirov,

 

8/10

talvez apenas o seu ator, na verdade um detetive que não conhecemos, e declara que precisa fazer uma busca na casa “porque nela não se pode estar seguro de sua vida”. Seidemann: “Crianças. Não se preocupem, isso naturalmente é um erro, está claro. Tudo será esclarecido”. O cadáver de Edelmann é encontrado, o jovem Edelmann é arrancado de sua amada e preso. Ao longo de um ato inteiro, Seidemann dá instruções com grande paciência e pequenos apartes muito bem marcados (Sim, sim. Muito bem. Assim está errado. Sim, assim já está melhor. De fato, de fato.) aos dois de cafetã sobre como deverão testemunhar no tribunal a respeito da suposta inimizade de anos entre o velho e o jovem Edelmann. É difícil mobilizá-los, há muitos mal-entendidos; assim, num ensaio improvisado da cena do tribunal, eles vêm à frente e declaram que Seidemann os incumbiu de apresentar a questão do modo que segue, até que por fim mergulham tanto naquela inimizade que inclusive – Seidemann não consegue mais detê-los – são capazes de mostrar como aconteceu o próprio assassinato e o homem apunhala a mulher com a ajuda de um croissant. Naturalmente, isso é de novo mais do que será necessário. Apesar disso, Seidemann está bastante satisfeito com os dois e espera um bom desfecho para o processo com a ajuda deles. Nesse ponto, para o espectador crente, sem que seja pronunciado de alguma maneira porque é óbvio, intervém o próprio Deus, no lugar do escritor que recua, e castiga o mau com a cegueira. No último ato, como presidente do tribunal, vemos novamente o eterno ator de Dragomirow (também aí se mostra o desprezo pelo que é cristão; um ator judeu pode bem representar três papéis cristãos, e se os representa mal, isso também não importa) e, a seu lado, como advogado, com grande aparato de cabeleiras e bigodes, logo reconhecida, a filha de Seidemann. É verdade que logo a reconhecemos, mas, considerando Dragomirow, julgamos por longo tempo que é a substituta de outro ator, até que vemos, por volta da metade do ato, que ela se disfarçou para salvar o amado. Os dois de cafetã devem testemunhar separadamente, o que lhes cria muitas dificuldades, pois ensaiaram juntos. Tampouco compreendem o alto-alemão do presidente, a quem, no entanto, o advogado auxilia quando as coisas ficam muitos difíceis, tal como também precisa lhe soprar outras coisas. Então vem Seidemann, que antes já tentou dirigir os de cafetã com auxílio de puxões na roupa, e causa, por seu discurso fluente e decidido, por sua atitude sensata e por se dirigir de maneira correta ao presidente do tribunal, uma boa impressão quando comparada às testemunhas anteriores, impressão que se encontra numa oposição terrível ao que sabemos dele. Sua declaração é relativamente sem conteúdo, ele infelizmente sabe muito pouco da coisa toda. Mas agora, na última testemunha, o criado, e não inteiramente consciente disso, vem o verdadeiro acusador de Seidemann. Ele observou Seidemann comprar a faca, sabe que Seidemann estava na casa de Edelmann no momento decisivo e, por fim, sabe que Seidemann odiava os judeus, especialmente Edelmann, e queria suas letras de câmbio. Os dois de cafetã erguem-se de um salto e ficam felizes em poder confirmar tudo isso. Seidemann se defende como um homem honrado um tanto perplexo. Então é a vez da filha falar. Onde estará ela? Em casa, naturalmente, e lhe dá razão. Não, ela não faz isso, afirma o advogado, e quer prová-lo; vira-se para a parede, tira a peruca e se volta ao horrorizado Seidemann revelando-se como sua filha. O branco puro acima do lábio superior, quando ela também arranca o bigode, tem uma aparência reprovadora. Seidemann se envenena para escapar à justiça terrena, mas mal confessa seus malfeitos aos homens, e sim ao Deus judaico, a quem professa agora. Nesse meio-tempo, o pianista começou a tocar uma melodia, os dois de cafetã se sentem arrebatados por ela e começam a dançar. Ao fundo está o casal de noivos reunido, eles cantam junto a melodia, em especial o noivo sério, segundo o antigo costume do templo.

______

Primeira cena dos dois de cafetã. Entram no quarto de Seidemann com caixas de coleta, cujo dinheiro será usado no templo. Olham em volta, sentem-se mal, olham um para o outro. Percorrem os batentes da porta com as mãos e

não encontram nenhum mezuzá.59 Tampouco nas outras portas. Não querem crê-lo e, junto a diversas portas, saltam alto e batem bem no topo dos batentes a ponto de estalar, como quando se pega moscas, elevando-se e caindo repetidas vezes. Infelizmente, tudo em vão. Até então, não disseram uma palavra.

______

Semelhança entre a sra. Klug e a sra. Weinberg60, do ano passado. A sra. Klug talvez tenha um temperamento ligeiramente mais fraco e mais uniforme, em compensação é mais bonita e mais decente. A Weinberg fazia constantemente o gracejo de bater o seu grande traseiro nos outros atores. Além disso, tinha uma cantora pior a seu lado e era inteiramente nova para nós.

______

“Imitadora de senhores” é na verdade uma designação errônea. Por estar metida no cafetã, seu corpo é completamente esquecido. Apenas devido ao encolher de ombros e ao virar de costas, que acontecem como se fosse picada por pulgas, ela se lembra de seu corpo. As mangas, embora curtas, precisam ser puxadas um pouquinho para cima a cada momento, a partir do que o espectador espera para a mulher, que tem tanto a cantar e também a explicar de modo talmúdico, um grande alívio, inclusive prestando atenção para que ele ocorra.

Desejo de ver um grande teatro iídiche, pois a encenação talvez padeça do pequeno elenco e do ensaio impreciso. Também o desejo de conhecer a literatura iídiche, à qual evidentemente cabe uma ininterrupta postura combativa nacional, que determina cada uma de suas obras. Uma postura, portanto, que nenhuma literatura, mesmo a do povo mais oprimido, adota desse modo universal. Talvez aconteça em outros povos, em épocas de luta, que a literatura combativa nacional prospere, e outras obras, mais distantes, adquiram um brilho nacional nesse sentido devido ao entusiasmo do público,

como, por exemplo, 61 Die verkaufte Braut [ A noiva vendida ], mas aqui parecem perdurar, e duradouramente, apenas as obras do primeiro tipo.

______

O aspecto do palco simples, que aguarda os atores tão mudo quanto nós. Já que com suas três paredes, a cadeira e a mesa ele terá de bastar a todos os acontecimentos, nada esperamos dele; esperamos com toda a nossa força, isso sim, os atores, e por isso somos atraídos sem resistência pela canção por trás das paredes vazias que dá início à apresentação.

 

9/10/11

Se chegar aos quarenta, provavelmente me casarei com uma solteirona com os dentes de cima saltados, um tanto descobertos pelo lábio superior. Os

dentes centrais superiores da srta. Kaufmann62, que estava em Paris e Londres, são deslocados uns contra os outros, como pernas que alguém cruza fugazmente na altura dos joelhos. Mas dificilmente completarei quarenta anos; fala contra isso, por exemplo, a tensão que se encontra com frequência sobre a metade esquerda do meu crânio, que ao toque se parece com uma lepra interior e que me dá a mesma impressão, quando não considero os incômodos e quero apenas observar, que o aspecto dos cortes transversais do crânio nos compêndios escolares ou que uma vivissecção quase indolor, em que o bisturi, um pouco refrescante, cauteloso, parando e retornando com frequência, às vezes jazendo quieto, divide ainda mais envoltórios finos como folhas, bem próximo a partes do cérebro que estão trabalhando.

______

O sonho desta noite, que mesmo cedo ainda não julguei bonito, exceção feita a uma pequena cena cômica composta de duas réplicas, que resultou naquele imenso contentamento onírico que no entanto esqueci. Eu atravessava – não sei se Max estava junto logo no começo – uma longa fileira de casas na altura do primeiro ao segundo andar, assim como se passa de um vagão ao outro nos trens expressos. Andava muito rápido, talvez também porque às vezes a casa era tão decrépita que já por isso se apressava o passo. As portas entre as casas absolutamente não me chamavam a atenção, era simplesmente uma gigantesca série de quartos, e, no entanto, não se reconhecia apenas a diferença entre cada apartamento, mas também entre as casas. Talvez estivesse passando apenas por quartos com camas. Ficou-me na memória uma cama típica, encostada lateralmente, à minha esquerda, junto à parede escura ou suja, talvez inclinada como num sótão, com uma edificação baixa de roupas de cama, cujo cobertor, na verdade apenas um lençol grosseiro, pisoteado pelos pés de quem ali dormiu, tem uma ponta pendente. Senti vergonha, numa hora em que muitas pessoas ainda estavam nas camas, de passar por seus quartos, por isso andei nas pontas dos pés com grandes passos, por meio dos quais esperava mostrar de alguma maneira que passava por ali apenas porque era forçado, poupava tudo ao máximo e pisava fraco, que minha passagem, na verdade, não contava de modo algum. Por isso, também nunca virava a cabeça no mesmo quarto, e olhava apenas para o que estivesse à direita, do lado da rua, ou à esquerda, do lado da parede traseira. A série de apartamentos era com frequência interrompida por bordéis, mas, pelos quais, embora aparentemente fizesse tal caminho por causa deles, eu passava de modo especialmente rápido, de maneira que nada percebi senão sua existência. Mas o último quarto de todos os apartamentos também era um bordel, e nele fiquei. A parede defronte à porta pela qual entrei, ou seja, a última parede da série de casas, era de vidro ou fora inteiramente demolida, e eu teria caído se fosse adiante. É até mais provável que tivesse sido demolida, pois as prostitutas estavam deitadas no chão contra a borda do assoalho, duas eu via de modo claro, no solo, a cabeça de uma delas pendia um pouco para fora sobre a borda, ao ar livre. À esquerda havia uma parede firme, em compensação a parede da direita não estava completa, via-se o pátio lá embaixo, embora não até o fundo, e uma escada cinzenta prestes a ruir conduzia para baixo, para dentro de várias divisões. A concluir pela luz no quarto, o teto era como o dos outros quartos. Eu estava lidando principalmente com a prostituta cuja cabeça pendia; Max, com a que estava deitada à esquerda dela. Eu apalpava suas pernas e então fiquei apertando regularmente suas coxas. Meu prazer nisso era tão grande que me admirei que não se precisasse pagar nada por essa diversão, que era justamente a mais bela. Estava convencido que eu, e só eu, enganava o mundo. Então, com as pernas em repouso, a prostituta levantou o tronco e me deu as costas, que, para meu susto, estavam cobertas por grandes círculos de um vermelho-lacre com bordas palescentes e salpicos vermelhos espalhados entre eles. Então percebi que todo o seu corpo estava cheio deles, que mantinha o polegar em suas coxas sobre tais manchas e que tais particulazinhas vermelhas, como se fossem de um lacre despedaçado, também estavam em meus dedos. Recuei para o meio de alguns homens que pareciam esperar junto à parede, próximo a embocadura da escada, na qual havia um pequeno trânsito. Esperavam como homens que, no campo, ficam parados juntos na praça do mercado na manhã de domingo. Por isso também era domingo. Aqui também se desenrolou a cena cômica, quando um homem, que eu e Max tínhamos motivo para temer, foi embora, em seguida subiu a escada, veio em minha direção e, enquanto eu e Max esperávamos com medo uma ameaça terrível qualquer, fez-me uma pergunta ridiculamente simplória. Então fiquei ali parado e observei com preocupação a forma como Max, sem medo nesse estabelecimento, estava sentado no chão em algum lugar à esquerda comendo uma espessa sopa de batatas, da qual estas sobressaíam como grandes esferas, sobretudo uma. Ele a apertava com a colher, talvez com duas colheres, para dentro da sopa, ou simplesmente a fazia rolar.

______

10/10/11. Escrevi um artigo sofístico pró e contra a agência no jornal

Tetschen-Bodenbacher Zeitung 63 .

______

Ontem à noite no Graben. 64 Três atrizes que saíam de um ensaio vieram em minha direção. É tão difícil familiarizar-se rapidamente com a beleza de três mulheres, ainda mais quando se quer ver dois atores que se aproximam por trás delas naquele passo de ator por demais gingado e além disso leve. Os dois – dos quais o da esquerda, com o rosto juvenilmente gordo, o sobretudo aberto em torno da figura forte, é bastante característico de ambos – ultrapassam as moças, o da esquerda pela calçada, o da direita pela rua. O da esquerda pega seu chapéu pelo topo, agarrando-o com os cinco dedos, levanta-o alto e exclama (só agora o da direita se lembra): “Até logo! Boa noite!”. Porém, ao passo que esse ultrapassar e cumprimentar separou os senhores, as mulheres cumprimentadas, como se guiadas pela mais próxima da rua, que parece ser a mais frágil e mais comprida, mas também mais jovem e mais bonita, seguem seu caminho, inteiramente imperturbadas, com um cumprimento que mal interrompe sua conversa harmoniosa. Naquele momento, o todo me pareceu uma forte prova de que as condições teatrais daqui são organizadas e bem conduzidas.

______

Anteontem com os judeus no café Savoy. Die Sejdernacht [A noite do sêder],

de Feimann.65 Em algumas ocasiões (a consciência disso me atravessou no momento), só não interviemos na ação por estarmos muito agitados, e não por sermos meros espectadores.

______

12/10/11. Ontem, na casa de Max, escrevi no diário de Paris.66 Na penumbra

da Rittergasse, a gorda e quente Rehberger67 com seu conjunto outonal, a quem só conhecemos com uma blusa de verão e uma fina jaqueta de verão azul, com as quais uma moça de aparência não inteiramente sem defeitos fica por fim pior do que nua. Então é que realmente se via seu nariz forte no rosto exangue, em cujas bochechas se poderia apertar as mãos por muito tempo até que um rubor tivesse se mostrado, a forte penugem loira que se acumulava nas bochechas e no lábio superior, a poeira do trem que se extraviara entre o nariz e as bochechas e a brancura débil no decote da blusa. Mas hoje a seguimos respeitosamente e, quando tive de me despedir na embocadura de uma passagem diante da Ferdinandstrasse por não estar barbeado e devido à minha aparência andrajosa em outros sentidos (Max estava justamente muito bonito com o sobretudo preto, o rosto branco e o brilho dos óculos), senti em seguida alguns pequenos abalos de simpatia por ela. E quando refleti sobre o porquê, tinha de me dizer sempre que era porque ela estava vestida de forma tão quente.

______

13/10/11. Transição, desprovida de arte, da pele retesada da careca de

meu chefe às rugas suaves de sua testa. Uma fraqueza evidente da natureza, muito fácil de imitar; notas de dinheiro não deveriam ser feitas assim.

______

Não considerei bem-sucedida a descrição da Rehberger, mas ela deve ter sido melhor do que pensei, ou minha impressão de anteontem da Rehberger deve ter sido tão incompleta que a descrição lhe correspondeu ou até a ultrapassou. Pois quando ia para casa ontem à noite, a descrição me ocorreu momentaneamente, substituiu, desapercebida, a impressão original e acreditei ter visto a Rehberger apenas ontem, e sem Max, de modo que me preparava para lhe contar sobre ela exatamente como a descrevi aqui a mim mesmo.

______

Ontem à noite, na Schützeninsel 68, não encontrei meus colegas e logo fui embora. Chamei um tanto a atenção com meu casaco curto e o chapéu mole amarrotado na mão, pois fora estava frio, mas dentro estava quente da respiração dos bebedores de cerveja, dos fumantes e dos tocadores de instrumentos de sopro da orquestra militar. Essa orquestra não estava muito elevada, também não poderia estar, pois a sala é um tanto baixa e ela a enchia de uma ponta até as paredes laterais. Essa multidão de músicos fora empurrada para essa ponta da sala como se fosse encaixada nela. Essa impressão de aglomeramento perdia-se então um pouco na sala, pois os lugares próximos à orquestra estavam relativamente vazios e a sala se enchia apenas próximo ao meio.

______

A loquacidade do dr. Kafka.69 Andei com ele durante duas horas atrás da estação Franz Joseph, pedia-lhe de tempos em tempos para que me liberasse, eu tinha as mãos entrelaçadas de impaciência e prestava a menor atenção possível. Pareceu-me que um homem que alcança boas coisas em sua profissão necessariamente se transforma num imbecil quando se mete a narrar histórias profissionais; sua capacidade vem-lhe à consciência, de cada história resultam conexões, várias delas, ele abrange a todas, pois as vivenciou, por pressa e por consideração a mim precisa silenciar sobre muitas, também lhe arruíno algumas por meio de perguntas, mas através disso o levo a outras, mostro-lhe assim que ele também impera amplamente em meu próprio pensamento, na maioria das histórias sua pessoa tem um belo papel, ao qual ele apenas alude e assim o assunto silenciado lhe parece ainda mais significativo, mas agora ele já está tão certo da minha admiração que também pode se queixar, pois mesmo em sua desgraça, em seu tormento, em sua dúvida, ele é admirável, seus adversários também são pessoas capazes e dignas de uma narrativa, num escritório de advocacia que tem quatro juristas em formação e dois chefes havia um litígio em que ele enfrentou sozinho esse escritório, por semanas o tema da conversa diária desses seis juristas. O melhor orador deles, um arguto jurista, o enfrentou, ao que se junta o supremo tribunal, cujas sentenças supostamente são ruins, mutuamente contraditórias, em tom de despedida defendo um pouco esse tribunal, mas então ele apresenta provas de que esse tribunal não pode ser defendido e mais uma vez precisamos subir e descer a rua, admiro-me logo da inferioridade desse tribunal, ao que ele esclarece por que tem de ser assim, o tribunal está sobrecarregado, por que e como, bem, eu preciso ir, mas agora o tribunal de apelação é melhor e o tribunal administrativo é melhor ainda e por que e como, por fim ele não consegue mais me segurar, então tenta fazê-lo com meus próprios assuntos, pelos quais fui procurá-lo (a fundação da fábrica) e que há muito já tínhamos discutido de ponta a ponta, ele espera inconscientemente apanhar-me dessa maneira e poder atrair-me outra vez para suas histórias. Então digo algo, mas, durante minhas palavras, estendo a mão expressamente para a despedida e assim fico livre. De resto, ele narra muito bem, em sua narrativa mescla-se a expansividade precisa dos documentos legais com a fala vivaz, tal como a encontramos com frequência em judeus tão gordos, escuros, provisoriamente saudáveis, de estatura mediana, excitados pelo consumo constante de cigarros. Expressões jurídicas dão solidez à fala. São citados artigos cujo número elevado parece remetê-los à lonjura. Cada história é desenvolvida desde o início, fala e réplica são apresentadas e, por assim dizer, sacudidas por meio de apartes pessoais, coisas secundárias em que ninguém pensaria são mencionadas em primeiro lugar, então são chamadas de secundárias e empurradas para o lado (“um homem, como se chama, é coisa secundária”), o ouvinte é convocado pessoalmente, interrogado, enquanto a história se condensa ao lado, muitas vezes o ouvinte é interrogado, naturalmente de modo inútil, até antes de uma história, que não pode lhe interessar de forma alguma, a fim de estabelecer uma relação provisória qualquer, observações intercaladas do ouvinte não são

Continuar: parte 3 de 3