Diários (1909-1912)
Diários 1909-1912
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
inseridas de imediato no lugar correto, o que seria irritante (Kubin70), mas logo depois, porém apenas no decorrer da narrativa, o que, como bajulação objetiva, arrasta o ouvinte para dentro da história por lhe dar um direito bem especial de ser ouvinte nesse caso.
14/10/11. Ontem à noite no Savoy. 71 Sulamit [Sulamita], de A. Goldfaden. Na verdade é uma ópera, mas toda peça cantada chama-se opereta; já essa ninharia me parece apontar para um empenho artístico obstinado, precipitado, também animado pelos motivos errados, que corta em duas a arte europeia numa direção em parte fortuita. A história: um herói salva uma moça que – “oro a Ti, grande e forte Deus” – se perdera no deserto e, atormentada pela sede, caíra numa cisterna. Juram fidelidade um ao outro (minha cara, minha amada, meu brilhante achado no deserto), tomando por testemunhas o poço e um gato-do-deserto de olhos vermelhos. A moça, Sulamita (a sra. Tschissik), é levada de volta por Cingitang, o selvagem criado de Absolon (Pipes), ao seu pai, Monoach (Tschissik), em Belém, enquanto Absolon (Klug) ainda faz uma viagem a Jerusalém; mas lá ele se apaixona por Abigail, uma moça rica de Jerusalém (Klug), esquece Sulamita e se casa. Sulamita espera pelo amado em casa, em Belém. “Muitos homens vão a Jerusalém e retornam bem.” “Ele, o refinado, pretende ser-me infiel!” Através de explosões desesperadas, ela adquire uma confiança disposta a tudo e decide passar-se por louca para não precisar casar e poder esperar. “Minha vontade é de ferro, de meu coração faço uma fortaleza.” E, ainda na loucura, que agora encena anos a fio, ela goza triste e ruidosamente, com permissão obtida à força, todas as lembranças do amado, pois sua loucura trata apenas do deserto, do poço e do gato. Graças à sua loucura, ela logo afugenta seus três pretendentes, com os quais Manoach só consegue se entender pacificamente ao organizar uma loteria: Joef Gedoni (Urich), “sou o mais forte herói judeu”, Avidanov, o proprietário rural (R. Pipes), e o barrigudo sacerdote Nathan (Löwy), que se sente superior a todos, “dai-ma, morro por ela”. Absolon é acometido pela desgraça, um de seus filhos é morto a mordidas por um gato-do-deserto e o outro cai num poço. Ele se recorda de sua culpa, confessa tudo a Abigail, “modere tua choradeira”. “Pare de partir meu coração com tuas palavras.”
“Infelizmente, tudo o que digo é uma coisa só.” Alguns círculos de pensamento se formam em torno dos dois e se dissipam. Deveria Absolon voltar para Sulamita e abandonar Abigail? Sulamita também merece
rachmones 72 . Por fim, Abigail o manda embora. Em Belém, Manoach se lamenta por sua filha: “Ai de meus velhos anos”. Absolon a cura com sua voz. “O resto, pai, irei contar-te mais tarde.” Abigail se perde na vinha de Jerusalém, a única justificativa de Absolon é seu heroísmo.
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Ao final da apresentação ainda esperamos o ator Löwy, a quem eu gostaria de admirar em meio à poeira. Como de costume, ele deve “anunciar”. “Prezados frequentadores, agradeço em nome de todos nós por suas presenças e os convido cordialmente para a apresentação de amanhã, na qual será encenada a obra-prima mundialmente famosa... de... Até breve!” Sai acenando com o chapéu. Em vez disso, vemos que a cortina é mantida fechada e que depois é aberta um pouquinho a título de experiência. Demora bastante. Por fim, abrem-na amplamente, ela é presa no meio por um botão, por trás dela vemos Löwy dando um passo em direção à ribalta, o rosto voltado para nós, o público, e defendendo-se apenas com as mãos de alguém que o ataca de baixo, até que de repente a cortina inteira, com sua fixação de arame no alto, é puxada por Löwy, que busca um apoio e, dobrando os joelhos diante de nossos olhos, é segurado por Pipes, que fez o papel do selvagem e ainda se mantém curvado como se a cortina estivesse fechada e, com a cabeça, literalmente empurra Löwy para o lado, para fora do estrado. As pessoas se aglomeram na lateral da sala. “Fechar a cortina!”, gritam no palco quase inteiramente descoberto, no qual a sra. Tschissik, com o rosto pálido de Sulamita, está parada tão lastimavelmente; pequenos garçons, sobre mesas e cadeiras, conseguem deixar a cortina mais ou menos em ordem, o dono do estabelecimento busca acalmar o representante do governo, que só tem o desejo de sair dali e que é retido por essa tentativa de apaziguamento; por trás da cortina, ouve-se a sra. Tschissik: “E queremos pregar moral ao público do alto do palco...”; a associação de funcionários judeus “Futuro”, que assumiu a direção da noite de amanhã e teve uma reunião geral ordinária antes da apresentação de hoje, decide, devido a esse incidente, convocar uma reunião extraordinária dentro de uma meia hora, um membro tcheco da associação profetiza a completa derrocada dos atores devido ao seu comportamento escandaloso. De repente, vê-se Löwy, que parecia ter desaparecido, ser empurrado até a porta com as mãos, talvez também com os joelhos, por Roubitschek, o chefe dos garçons. Querem simplesmente jogá-lo para fora. Esse chefe, que mais cedo e mais tarde fica parado diante de cada cliente como um cachorro, também diante de nós, com um focinho canino que desce sobre uma boca grande, fechada por humildes rugas laterais, tem seu
16/10/11. Domingo cansativo ontem. Todos os funcionários de meu pai se demitiram. Através de bons discursos, da cordialidade, do efeito de sua doença, do seu tamanho e da sua força anterior, de sua experiência e sua astúcia, ele consegue, em conversas públicas e privadas, reconquistar quase todos eles. Um importante auxiliar de escritório, Franz, quer tempo para pensar até segunda, pois deu a palavra ao nosso gerente, que saiu e gostaria de levar todos os funcionários para uma nova loja que pretende fundar. No domingo, o contador escreve que não poderá ficar, o Roubitschek não o deixa
faltar com a palavra. Vou vê-lo em Zižkov.73 Sua jovem mulher, com bochechas redondas, rosto alongado e um pequeno nariz grosseiro que nunca arruína rostos tchecos. Roupão comprido demais, muito solto, floreado e manchado. Ele fica especialmente comprido e solto porque ela faz movimentos especialmente apressados para me cumprimentar, colocar de modo correto o álbum sobre a mesa como último embelezamento e desaparecer a fim de buscar seu marido. O marido com movimentos apressados semelhantes, talvez imitados pela mulher bastante dependente, fortemente pendulares quando o tronco está inclinado para a frente, enquanto o baixo-ventre fica chamativamente para trás. Impressão de uma pessoa conhecida há dez anos, vista com frequência, pouco observada, com quem de súbito se trava uma relação mais próxima. Quanto menor o meu sucesso com minhas exortações em tcheco (afinal, ele já tinha um contrato assinado com Roubitschek, só que ficara tão sobressaltado pelo meu pai sábado à noite que não falara do contrato), tão mais felino torna-se seu rosto. No final, com um sentimento muito agradável, jogo um pouco; assim, olho mudamente pela sala com uma cara um tanto alongada de decepção e olhos apequenados, como se seguisse algo aludido no âmbito do indizível. Mas não fico infeliz quando vejo que isso tem pouco efeito e, em vez de ser abordado por ele num novo tom, tenho de começar outra vez a persuadi-lo. Tínhamos começado a
conversa falando que do outro lado da rua mora um outro Tullach74 e a terminamos junto à porta com sua admiração por eu vestir uma roupa leve no frio. Característico de minhas primeiras esperanças e de meu fracasso final. Porém, obtive dele a promessa de falar com meu pai à tarde. Minha argumentação, muito abstrata e formal em algumas partes. Um erro, não ter chamado a mulher para a sala.
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Para Radotin 75 à tarde, a fim de segurar o auxiliar de escritório. Em razão disso, perco o encontro com Löwy, em quem penso constantemente. No vagão: a ponta do nariz da velha com a pele retesada de modo ainda quase juvenil. Então a juventude termina na ponta do nariz e ali começa a morte? O engolir dos passageiros que desliza garganta abaixo, o alargamento da boca como sinal de que julgam irrepreensível, natural e insuspeita a viagem de trem, a mistura dos outros passageiros, a distribuição de seus assentos, a
temperatura do vagão e mesmo o número da 76 Pan que tenho sobre os joelhos e que alguns olham de vez em quando (pois, de qualquer forma, é algo impossível de terem previsto no compartimento do trem), ao mesmo tempo em que ainda acreditam que tudo também poderia ter sido bem pior. Para cima e para baixo no pátio do sr. Haman, um cachorro coloca uma pata sobre a ponta de meu pé, que balanço. Crianças, galinhas, adultos aqui e ali.
Uma babá, que de vez em quando se curva para baixo na 77 Pawlatsche ou se esconde atrás de uma porta, mostra gosto por mim. Sob seus olhares, não sei o que sou nesse momento, se indiferente, envergonhado, jovem ou velho, atrevido ou afetuoso, se seguro as mãos à frente ou atrás, se passo frio ou calor, se sou amigo dos animais ou negociante, amigo de Haman ou solicitante, superior aos participantes da reunião, que às vezes saem do local numa sinuosidade ininterrupta e vão ao mictório e voltam, ou ridículo devido à minha roupa leve, se judeu ou cristão etc. O fato de caminhar por ali, limpar o nariz, ler a Pan de vez em quando, evitar medrosamente a Pawlatsche com os olhos para de repente ver que está vazia, olhar as aves, ser cumprimentado por um homem, ver pela janela da taberna os rostos achatados e tortos, uns ao lado dos outros, dos homens voltados para um orador, tudo contribui para isso. O sr. Haman, que de tempos em tempos sai da reunião e a quem peço para aproveitar em nosso favor sua influência sobre o auxiliar de escritório, que ele trouxe à nossa loja. Barba castanho-escura, crescendo em volta das bochechas e do queixo, olhos pretos, as tonalidades escuras das bochechas entre os olhos e a barba. É amigo de meu pai, eu já o conhecia quando criança e a ideia de que fora torrador de café sempre o tornou para mim ainda mais escuro e mais viril do que era.
17/10/11. Não acabo nada porque não tenho tempo e dentro de mim há essa urgência tão grande. Se o dia inteiro estivesse livre e essa inquietação matinal em mim pudesse aumentar até o meio-dia e se cansar até a noite, então eu poderia dormir. Mas assim, resta para essa inquietação no máximo apenas uma hora do crepúsculo, ela se intensifica um pouco, então é oprimida e escava minha noite inútil e danosamente. Aguentarei isso por muito tempo? E terá alguma finalidade aguentá-lo, obterei tempo afinal?
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Quando penso nesta anedota: Napoleão conta no banquete da corte em
Erfurt78 o : “Quando eu ainda era um mero segundo-tenente no 5 regimento... (suas altezas reais entreolham-se constrangidas, Napoleão percebe e se corrige), quando eu ainda tinha a honra de ser um mero segundo-tenente...”; as veias de meu pescoço se incham de um orgulho que sinto facilmente por empatia, orgulho que entra artificialmente em mim.
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Ainda em Radotin: então caminhei sozinho pelo jardim gramado, passando frio, e reconheci na janela aberta a babá, que se deslocara comigo para esse lado da casa –
20 [de outubro de 1911]. Dia 18 na casa de Max, escrevi sobre Paris. Escrevi mal, sem chegar verdadeiramente ao campo livre da verdadeira descrição, que permite a uma pessoa libertar o pé da vivência. Eu também estava apático após a grande exaltação do dia anterior, que tinha terminado com a leitura pública de Löwy. Durante o dia ainda não estava em qualquer estado
extraordinário, fui com Max buscar sua mãe, que chegara de Gablonz79, fui com eles ao café e então à casa de Max, que tocou para mim uma dança
cigana de 80 Das Mädchen von Perth . Uma dança em que por páginas a fio apenas os quadris se balançam num tiquetaquear monótono e o rosto tem uma expressão vagarosa e cordial. Até que no final, breve e tardiamente, chega a selvageria interior que fora atraída, sacode o corpo, domina-o, comprime a melodia a ponto de fazê-la bater nas alturas e nas profundezas (ouvem-se tons especialmente duros e abafados) e então faz um encerramento inadvertido. No início, e impossível de se perder durante o todo, uma forte proximidade à vida cigana, talvez porque um povo tão selvagem na dança se mostre tranquilo apenas ao amigo. Impressão da grande verdade da primeira dança. Então folheei os Aussprüche Napoleons [Ditos de Napoleão]. Com que facilidade nos tornamos momentaneamente uma partícula de nossa própria e imensa ideia de Napoleão! Então já fui borbulhando para casa, não pude resistir a nenhuma de minhas ideias, desordenado, grávido, desgrenhado, inchado, em meio aos meus móveis girando em torno de mim, sobrevoado por meus sofrimentos e preocupações, tomando o maior espaço possível, pois apesar de minhas proporções eu estava bastante nervoso, entrei na sala de conferências. Da maneira como eu estava sentado, por exemplo, e muito verdadeiramente sentado, logo teria, como espectador, reconhecido meu
estado. Löwy leu contos humorísticos de Scholem Aleichem81, depois uma
história de Perez82 83 , um poema de Bialik (apenas nesse caso, a fim de popularizar seu poema que explora o pogrom de Kichinev em favor do futuro judeu, o poeta se rebaixou do hebraico até o iídiche e traduziu ele próprio seu poema originalmente hebraico para o iídiche) e “Die Lichtverkäuferin” [A
vendedora de velas], de Rosenfeld.84 Um repetido arregalar dos olhos, natural para o ator, olhos que então ficam parados assim por um momento, emoldurados pelas sobrancelhas erguidas. A plena verdade de toda essa leitura pública; a fraca elevação do braço direito, originada no ombro; o mexer no pincenê, que parece emprestado, tão mal se ajusta ao nariz; a posição da perna sob a mesa, tão esticada que estão em atividade sobretudo os frágeis ossos de ligação entre a coxa e a canela; a curvatura das costas, que parecem fracas e miseráveis, pois o observador, diante de costas unitárias, uniformes, não se deixa enganar em seu juízo, tal como, ao olhar o rosto, pode acontecer devido aos olhos, às cavidades e saliências das faces, mas também devido a qualquer ninharia, mesmo que seja um fiapo de barba. Após a leitura, já no caminho para casa, senti todas as capacidades concentradas e por isso me queixei a minhas irmãs e, em casa, até à minha mãe.
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No dia 19 com o dr. Kafka devido à fábrica.85 A ligeira inimizade teórica que tem de surgir entre as partes quando se assinam contratos. O modo como investiguei com os olhos o rosto de Karl, que estava voltado para o doutor. Essa inimizade tem de surgir tanto mais entre duas pessoas que normalmente não estão acostumadas a pensar sobre sua relação mútua e por isso esbarram em qualquer ninharia. – O costume do dr. Kafka de caminhar pela sala diagonalmente, com o balançar tenso, salonesco, do tronco para frente, falar enquanto isso e sacudir com frequência a cinza de seu cigarro num dos três cinzeiros espalhados pela sala ao chegar ao fim de uma diagonal.
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Hoje cedo na Löwy & Winterberg.86 A maneira como o chefe escora lateralmente suas costas na poltrona a fim de obter espaço e apoio para seus gestos de judeu da Europa oriental. A cooperação e o mútuo reforço entre o jogo das mãos e o da fisionomia. Às vezes ele reúne os dois, ou olhando para suas mãos, ou segurando-as próximo ao rosto para a comodidade do ouvinte. Melodias do templo na entonação de sua fala; em especial na enumeração de vários pontos leva a melodia de um dedo a outro, como se passasse por diferentes registros. Depois encontrei meu pai no Graben com um certo sr. Preissler, que inclusive levanta a mão para que a manga caia um pouco para trás (afinal, não quer puxar a manga para trás ele mesmo) e faz, no meio do Graben, os fortes movimentos de parafuso com o abrir deslizante da mão e o afastamento dos dedos
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Provavelmente estou doente, desde ontem tenho coceiras pelo corpo inteiro. À tarde, meu rosto estava tão quente e multicolorido que, ao cortar o cabelo, temi que o barbeiro, que afinal podia ver minha pessoa e minha imagem no espelho sem cessar, reconhecesse em mim uma grande doença. A ligação entre o estômago e a boca também está parcialmente perturbada; há uma tampa do tamanho de um florim que ou sobe e desce, ou fica embaixo e irradia para cima com um efeito que se expande, que cobre o peito na superfície e é ligeiramente sufocante.
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Ainda em Radotin: convidei-a a descer. A primeira resposta foi séria, embora até então, com a menina confiada aos seus cuidados, tenha rido e coqueteado tanto como nunca teria ousado a partir do momento em que nos conhecemos. Em seguida rimos bastante juntos, embora eu passasse frio embaixo e ela em cima, com a janela aberta. Ela apertava seus seios contra os braços cruzados e o conjunto, com os joelhos evidentemente curvados, contra o peitoril. Tinha dezessete anos de idade e julgou que eu tivesse quinze ou dezesseis, do que toda a nossa conversa não a dissuadiu. Seu pequeno nariz era um pouco torto e por isso lançava uma sombra incomum sobre a bochecha, o que no entanto não poderia me ajudar a reconhecê-la. Ela não era de Radotin, e sim de Chuchle (a estação seguinte na direção de Praga), o que ela não queria deixar esquecer. Em seguida, com o auxiliar de escritório, que mesmo sem minha viagem teria ficado em nossa loja, um passeio no escuro pela estrada que sai de Radotin e de volta à estação. De um lado, colinas desertas aproveitadas por uma fábrica de cimento para suas necessidades de calcário. Moinhos velhos. Narrativa sobre um choupo arrancado giratoriamente da terra por um ciclone junto com suas raízes, que primeiro entravam a pique na terra e em seguida se esparramavam. O rosto do auxiliar de escritório: carne pastosa avermelhada sobre ossos fortes, aparenta estar cansado, mas, dentro de seus limites, enérgico. Nem sequer na entonação se espanta com o fato de passearmos juntos aqui. Num grande campo, adquirido previdentemente por uma fábrica, sem uso por enquanto, no meio da localidade, cercado por prédios de fábricas iluminados por forte luz elétrica, mas apenas aqui e ali. Lua clara, cheia de luz, por isso fumaça nebulosa saindo de uma chaminé. Sinais de trem. Ruído de ratos ao lado do caminho longo que cruza o campo, aberto pela população contra a vontade da fábrica.
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Exemplos do fortalecimento que devo a esta escrita, embora ela seja insignificante em seu todo:
Na segunda-feira, dia 16, fui com Löwy ao Teatro Nacional ver a
Dubrovnická Trilogie 87 [Trilogia de Dubrovnik]. A peça e a encenação foram desoladoras. Do primeiro ato, apenas fica na memória o belo som de um relógio de lareira; o cantar da Marselhesa dos franceses invasores diante da janela, a canção que enfraquece é retomada repetidamente pelos que chegam e se intensifica; uma moça vestida de preto passa com sua sombra pelas faixas de luz que o sol poente lança sobre o parquê. Do segundo ato, fica apenas o pescoço delicado de uma moça que, saindo de ombros recobertos por uma roupa castanho-avermelhada entre mangas bufantes, se estende e se retesa até a cabeça pequena. Do terceiro ato, o casaco imperial amarrotado, o colete de fantasia escuro, com a corrente dourada do relógio atravessada, de
um velho e curvado descendente dos antigos hospares.88 Não é muita coisa, portanto. Além disso, L. me confessou sua gonorreia; em seguida, meu cabelo tocou o seu quando me inclinei na direção de sua cabeça e fiquei com receio devido aos piolhos, de todo modo possíveis; os assentos foram caros, joguei dinheiro fora nisso como péssimo benfeitor, enquanto ele estava em apuros; por fim, ele se entediou ainda um pouco mais que eu. Em suma, demonstrei mais uma vez a má sorte que têm todos os empreendimentos que começo sozinho. Porém, enquanto normalmente me uno de modo inseparável a essa má sorte, subindo até mim todos os casos anteriores de má sorte e baixando até mim todos os posteriores, desta vez fui quase inteiramente independente, suportei tudo como se fosse algo único de maneira bem fácil e até senti, pela primeira vez no teatro, que minha cabeça, como a cabeça de um espectador, se elevava, do meio da escuridão concentrada das poltronas e dos corpos, numa luz especial, sem depender da péssima ocasião dessa peça e dessa encenação.
Um segundo exemplo: ontem à noite, na Mariengasse, estendi minhas duas mãos ao mesmo tempo para minhas duas cunhadas com tal habilidade como se fossem duas mãos direitas, e eu, uma pessoa dupla.
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21 [de outubro de 1911]. Um contraexemplo: quando meu chefe discute comigo assuntos do escritório (hoje, o fichário) não consigo olhar muito tempo em seus olhos sem que venha ao meu olhar, inteiramente contra a minha vontade, uma ligeira amargura, que afasta ou o meu olhar ou o seu. O seu se afasta mais fugazmente, mas com maior frequência, pois ele não está consciente da razão, cede a cada estímulo para desviar o olhar, mas o faz retornar logo, pois considera tudo isso apenas como um cansaço momentâneo de seus olhos. Defendo-me contra isso com mais força, razão pela qual acelero o zigue-zague de meu olhar, prefiro muito mais olhar ao longo de seu nariz e para as sombras das bochechas, muitas vezes seguro o rosto em sua direção apenas com a ajuda dos dentes e da língua na boca fechada, é verdade que baixo os olhos quando não há saída, mas nunca abaixo de sua gravata, porém logo obtenho o mais pleno olhar quando ele afasta os olhos e o sigo de modo preciso e sem consideração.
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Os atores judeus: a sra. Tschissik tem saliências nas bochechas, nas proximidades da boca. Surgidas em parte devido às bochechas cavadas por causa dos sofrimentos da fome, do parto, das viagens e das encenações, em parte devido a músculos incomuns em repouso, que tiveram de se desenvolver para os movimentos de atriz de sua grande boca, que originalmente sem dúvida era lerda. No papel de Sulamita, tinha os cabelos soltos na maioria das vezes, cobrindo suas bochechas, de maneira que às vezes seu rosto parecia um rosto de menina de outrora. Ela tem um corpo grande, ossudo, de força mediana e está firmemente espartilhada. Seu andar adquire facilmente algo solene, pois tem o costume de levantar seus braços longos, estendê-los e movê-los lentamente. Em especial quando cantava a
canção nacional judaica89, balançava debilmente os quadris grandes e movia os braços dobrados paralelamente aos quadris para cima e para baixo com as mãos côncavas, como se brincasse com uma bola que voava lentamente.
22 [de outubro de 1911]. Ontem, com os judeus, 90 Kol nidre, de Scharkansky, uma peça bastante ruim com uma cena boa e divertida sobre a escrita de uma carta, uma oração em que os amantes estão de pé com as mãos postas um ao lado do outro e o encostar do grande inquisidor convertido na cortina da Arca da Aliança; ele sobe o degrau e fica ali parado, a cabeça baixa, os lábios na cortina, segurando o livro de orações diante de seus dentes
que batem. Pela primeira vez nesta quarta noite91, minha clara incapacidade de receber uma impressão pura. Culpa disso também foram o nosso grande grupo e as visitas à mesa de minha irmã. Apesar disso, eu não poderia ter sido tão fraco. Com meu amor pela sra. Tschissik, sentada a meu lado apenas graças a Max, comportei-me miseravelmente. Mas vou me reerguer, agora já está melhor.
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A sra. Tschissik (gosto tanto de escrever esse nome) gosta de inclinar a cabeça à mesa, mesmo ao comer ganso assado; acreditamos poder chegar sob suas pálpebras com o olhar se primeiro olharmos cautelosamente ao longo das bochechas e então, apequenando-nos, metermo-nos para dentro, no que sequer precisamos erguer as pálpebras primeiro, pois estão levantadas e deixam passar precisamente um brilho azulado que seduz à tentativa. Do conjunto de sua interpretação verdadeira, emergem aqui e ali investidas do punho, giros do braço, que esboça em torno de seu corpo invisíveis caudas de vestido pregueadas, o gesto de colocar os dedos esparramados no peito, pois o grito desprovido de arte não basta. Sua interpretação não é variada: o olhar apavorado ao seu antagonista, a busca por uma saída no palco pequeno, a voz suave, que, numa elevação reta e breve, apenas se torna heroica, sem amplificação, com a ajuda de uma maior ressonância interior, a alegria que nela penetra pelo rosto que se abre, que se espalha acima da testa alta até os cabelos, a autossuficiência no canto solo sem acréscimo de novos recursos, o endireitar-se quando há uma resistência, forçando o espectador a se preocupar com todo o corpo dela; e não muito mais do que isso. Mas aí está a verdade do todo e, consequentemente, a convicção de que nem o menor de seus efeitos lhe pode ser tirado.
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A compaixão que temos por esses atores, que são tão bons e não ganham nada, e, além disso nem de longe obtêm gratidão e fama suficientes, é na verdade apenas a compaixão pelo triste destino de muitos esforços nobres, sobretudo dos nossos. Ela também tem uma força tão desproporcional porque se atém exteriormente a pessoas alheias e na realidade pertence a nós mesmos. Mas, apesar disso, ela está, no fim das contas, tão estreitamente ligada a esses atores que nem mesmo agora consigo separá-la deles. Por reconhecer isso, ela se liga, por teimosia, ainda mais a eles.
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A chamativa lisura das bochechas da sra. Tschissik ao lado de sua boca musculosa. Sua filhinha um tanto disforme
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Passeei por três horas com Löwy e minha irmã.
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23 [de outubro de 1911]. Por sua presença, os atores me convencem, repetidamente para meu espanto, de que a maior parte do que escrevi até agora sobre eles está errado. Está errado porque escrevo sobre eles com amor constante (apenas agora, quando escrevo, é que isso também se transforma em erro), porém com força variável, e essa força variável não atinge sonora e corretamente os atores reais, e sim se perde surdamente devido a esse amor, que nunca estará satisfeito com a força e que, pelo fato de retê-la, acredita proteger os atores.
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Disputa entre Tschissik e Löwy. T.: Edelstatt92 é o maior escritor judeu.
Ele é sublime. Rosenfeld93 naturalmente também é um grande escritor, mas não é o primeiro. – L.: T. é socialista, e porque Edelstatt faz poemas socialistas e é redator de um jornal judeu socialista em Londres, T. julga que ele é o maior. Mas quem é Edelstatt, seu partido o conhece e mais ninguém, mas Rosenfeld todo mundo conhece. – T.: não se trata de reconhecimento. Todas as coisas de Edelstatt são sublimes. – L.: também o conheço muito bem. “Der Selbstmörder” [O suicida], por exemplo, é muito bom. – T.: de que adianta a briga? Não vamos chegar a um acordo. Direi minha opinião até amanhã e tu também. – L.: vou dizê-la até depois de amanhã.
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Goldfaden 94, casado, esbanjador, mesmo em grande miséria. Cerca de cem peças. Tornou populares melodias litúrgicas roubadas. O povo inteiro as canta. O alfaiate em seu trabalho (é imitado), a empregada etc.
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Num espaço tão pequeno para se vestir, como diz Tschissik, não há como evitar as brigas. As pessoas vêm agitadas da cena, cada um se julga o maior ator e se alguém pisa no pé do outro, por exemplo, o que é inevitável, não haverá apenas uma briga, mas um grande combate. Pois é, em Varsóvia havia 75 pequenos camarins individuais, todos iluminados
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Por volta das seis, encontrei os atores no café, sentados ao redor de duas mesas, ordenados de acordo com os dois grupos inimigos. Na mesa do grupo
de Tschissik havia um livro de Perez.95 Löwy tinha acabado de fechá-lo e se levantou para ir embora comigo.
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Até os vinte anos, Löwy foi um 96 bocher que estudava e gastava o dinheiro de seu pai abastado. Havia um grupo de pessoas jovens, de mesma idade, que se reunia justamente no sábado num lugar fechado e, de cafetã, fumava e cometia outros pecados contra os mandamentos dos dias sagrados.
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“O grande Adler” 97, o mais famoso ator iídiche de Nova York, que é
milionário, para quem Gordon98 escreveu Der wilde Mensch [O homem selvagem] e a quem L. pediu em Karlsbad que não fosse assistir à peça, que não teria coragem de representar diante dele naquele palco mal equipado. – Apenas cenários, não esse palco miserável em que as pessoas não conseguem se mexer. Como é que vamos encenar Der wilde Mensch! Para isso se precisa
de um divã. No Palácio de Cristal99 de Leipzig foi grandioso. Janelas que se podia abrir, o sol iluminava o interior, precisávamos de um trono na peça, bem, aí estava o trono, atravessei a multidão na direção dele e realmente fui um rei. Lá é muito mais fácil de atuar. Aqui tudo nos desconcerta.
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24 [de outubro de 1911]. Minha mãe trabalha o dia inteiro, fica alegre ou triste conforme o caso, sem fazer a menor exigência com respeito à sua própria situação, sua voz é clara, alta demais para a conversa habitual, mas benéfica quando se está triste e a ouvimos repentinamente depois de algum tempo. Há muito tempo já me queixo que estou sempre doente, mas jamais tenho uma doença específica que me forçasse a ficar de cama. Esse desejo certamente se deve em grande parte ao fato de eu saber como minha mãe consegue consolar quando, por exemplo, ela vem da sala de estar iluminada para a penumbra do quarto do doente, ou, à tardinha, quando o dia começa a se transformar uniformemente em noite, volta da loja e, com seus cuidados e rápidas disposições, faz o dia já tão tardio recomeçar outra vez e encoraja o doente a ajudá-la nisso. Eu desejaria isso outra vez, pois então estaria fraco e, por isso, convencido de tudo que minha mãe fizesse, podendo ter alegrias infantis com a capacidade de apreciação mais nítida da idade adulta. Ontem me ocorreu que só não amei sempre minha mãe como ela merecia e como eu podia porque a língua alemã me impediu disso. A mãe judia não é uma
Mutter100, a designação de Mutter a torna um pouco esquisita (não a si própria, pois estamos na Alemanha); damos a uma mulher judia o nome da Mutter alemã, mas esquecemos a contradição, que tão mais pesadamente se afunda no sentimento; Mutter é especialmente alemão para os judeus, contém, de modo inconsciente, ao lado do brilho cristão, também a frieza cristã; por isso, a mulher judia chamada de Mutter não se torna apenas esquisita, mas também estranha. Mama seria um nome melhor se ao menos não imaginássemos Mutter por trás dele. Acredito que apenas as lembranças
do gueto conservam a família judia, pois também a palavra 101 Vater não se refere nem de longe ao pai judeu.
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Hoje estive frente a frente com o conselheiro Lederer 102, que de modo inesperado, não solicitado, infantil, mentiroso, ridículo e capaz de me fazer perder a paciência indagou sobre minha doença. Já fazia tempo que não conversávamos tão intimamente, ou talvez jamais tenhamos conversado assim, quando senti como meu rosto, nunca por ele observado tão precisamente, se abria para ele em partes falsas, mal compreendidas, mas que de qualquer modo o surpreenderam. Fiquei irreconhecível a mim mesmo. Quanto a ele, conheço-o muito bem.
1. Ievguênia Eduardova (1882-1960), integrante do Balé Imperial Russo de São Petersburgo, que se apresentou em Praga em maio de 1909.
2. Referência à comédia Die Jungfern von Bischofsberg [As donzelas de Bischofsberg], 1907, de Gerhart Hauptmann (1862-1946). Kafka desenvolve esse apontamento mais adiante (ver p. 120).
3. De 16 a 30 de novembro de 1909 apresentou-se em Praga o grupo de equilibristas japoneses “The Mitsutas”, cujo repertório incluía o número descrito (e ilustrado) por Kafka.
4. Franz Blei (1871-1942), escritor e editor alemão, a quem Kafka e Max Brod acompanharam ao monte Petřín (ou Laurenziberg, em alemão), em Praga, na noite do dia 18 de maio de 1910 para assistir à passagem do cometa Halley, ocorrida na madrugada do dia 19 (e não 18, conforme anotou Kafka).
5. De 1907 a 1913, a família Kafka morou no no 36 da Niklasstrasse (em tcheco: Pařížká), num apartamento do último andar de um prédio com vista para o rio Moldava.
6. Em alemão, o verbo costuma estar no final da frase.
7. É possível que esse fragmento se relacione com um texto do escritor suíço Robert Walser (1878-1956), “Theaterbrand” [Incêndio no teatro], publicado em 9 de julho de 1908 na revista Die Schaubühne.
8. George Sand (1804-1876), escritora francesa. Este e os dois fragmentos seguintes foram provavelmente redigidos durante uma estada em Paris com Max e Otto Brod, de 8 a 17 de outubro de 1910. As observações sobre o teatro foram feitas a propósito da encenação da peça Manette Salomon, de Edmond de Goncourt, no Théâtre de l’Odéon, em 15 de outubro. Max Brod fez uma observação parecida num artigo publicado no jornal Frankfurter Zeitung em 26 de março de 1911, “Der Wert der Reiseeindrücke” [O valor das impressões de viagem], sobre a claque nos teatros franceses: “Ela não visa o engano de maneira alguma. Trabalha abertamente, a um sinal que todos ouvem. O bastão bate, aplauso”.
9. Esboço de uma carta ao superior imediato de Kafka, Eugen Pfohl (1867-1919), na Agência de Seguros contra Acidentes de Trabalho do Reino da Boêmia em Praga (o “escritório”), em que Kafka trabalhou de 1908 até a sua aposentadoria precoce, em 1922. Não há indícios de que a carta tenha sido enviada ao “chefe” (conforme é sempre chamado nas anotações subsequentes). O “outro trabalho” de Kafka é sua dedicação à literatura.
10. Como vários outros fragmentos deste diário, trecho relacionado a uma segunda versão da novela Beschreibung eines Kampfes [Descrição de uma luta], cuja primeira versão fora iniciada em 1904.
11. Richard Pollak-Karlin (1867-1945), pintor praguense, e Hilda Kotány-Pollak (1874-1943), pintora e artesã. Pintaram o motivo de Lemúria e Atlântida (ver adiante, notas 16 e 17).
12. Xaverine Bittner, mãe do juiz e compositor Julius Bittner.
13. Rudolf Steiner (1861-1925), austríaco, fundador da doutrina mística da antroposofia. De 19 a 28 de março de 1911 pronunciou um ciclo de onze conferências em Praga, das quais Kafka assistiu a algumas.
14. Ou Eugène Lévy, adepto e popularizador de Steiner na França.
15. Wie erlangt man Erkenntnisse der höheren Welten? [Como se obtém o conhecimento dos mundos superiores?] é o título de um livro de Steiner publicado em 1909. Foi publicado no Brasil sob o título O conhecimento dos mundos superiores (São Paulo: Antroposófica, 1985).
16. Vasta ilha ou continente lendário submergido em tempos remotos.
17. Continente primitivo hipotético na região do oceano Índico com que se buscava explicar a existência dos lêmures na ilha de Madagascar.
18. Na doutrina dualista do zoroastrismo, princípio do mal, origem da morte e da desordem; sua contraparte é Ormuz, o princípio do bem.
19. Berta Fanta (1865-1918): figura eminente da vida cultural e intelectual de Praga. Interessava-se pela doutrina de Steiner desde 1909 e, em 1912, fundou em sua casa um grupo de trabalho teosófico independente.
20. Tipo de casaco de uso obrigatório para os civis em ocasiões oficiais na corte austríaca.
21. Romance (1911) de Max Brod, do qual este fragmento constitui o início de uma resenha.
22. Ver nota 10.
23. Piscinas públicas em que também se davam aulas de natação. Königssaal e Černoschitz: lugares de excursão e veraneio às margens do rio Moldava, cerca de quinze quilômetros ao sul de Praga.
24. Referência à viagem de férias em companhia de Max Brod. Ver Kafka, Reisetagebücher [Diários de viagem], viagem de agosto/setembro de 1911 (quarto e último volume dos Diários de Kafka).
25. Ver nota 10.
26. Neste caso, a metafonia é a transformação da vogal o em ö (stossen, “empurrar” → stösst, “empurre”), indicando um som intermediário entre o e e.
27. Hermann Kafka (1852-1931) era dono de uma loja de acessórios de moda (luvas, pantufas, artigos de corte e costura, guarda-chuvas, bengalas etc.) que administrava com sua mulher, Julie (1855-1934). Ele padecia de problemas respiratórios, cardíacos e circulatórios.
28. Ou seja, Ottilie (1892-1943), a mais nova das três irmãs de Kafka.
29. Alfred Kubin (1877-1959), pintor, desenhista e escritor que Max Brod conheceu em Praga em setembro de 1911 e a quem apresentou Kafka no mesmo mês.
30. Knut Hamsun (1859-1952), escritor norueguês admirado por Kafka; Alfred Langen (1869-1909), cuja casa era um dos centros da vida cultural e social de Munique, era seu editor alemão.
31. Kafka refere-se a um belvedere na margem esquerda do rio Moldava, dotado de amplos parques onde costumava passear.
32. Emil Artur Longen (ou Longhen), pseudônimo de Emil Artur Pittermann (1885-1936): ator, dramaturgo, diretor e pintor; amigo de Max Brod.
33. Referência a algum dos balneários às margens do rio Moldava.
34. Bordel.
35. Kurt Tucholsky (1890-1935): poeta e satirista alemão, nessa época estudante de direito em Berlim.
36. Kurt Szafranski (1890-1964): desenhista alemão.
37. Provável deformação de nicht, “não”.
38. Lucian Bernhard (1883-1972): desenhista alemão.
39. Max Brod (1884-1968): escritor e grande amigo de Kafka, também editor e divulgador de sua obra. Kafka menciona-o sempre pelo prenome.
40. Na verdade, domingo.
41. A mais antiga sinagoga de Praga.
42. “Todos os votos”, oração pronunciada na sinagoga que abre o Iom Kipur, o “dia do perdão”, a data mais importante da religião judaica.
43. Situada junto ao antigo cemitério judaico de Praga.
44. Salão Šuha, um dos bordéis mais conhecidos de Praga.
45. Karoline Kohn (1856-1929), viúva de Heinrich Kafka, um tio falecido em 1886.
46. Robert Anton Maschner (1865-1934) era o diretor da Agência de Seguros em que Kafka trabalhava. Sua filha, Berta, viveu entre 1900 e 1972.
47. No manuscrito, “Bailli”, em seguida riscado, com exceção da inicial. Trata-se provavelmente de Louise Bailly (1860-1942), antiga governanta da casa dos Kafka.
48. Rebatizada de Náměstí Republiky (Praça da República) após a proclamação da República Tcheca. Nela começa a rua em que se localizava a agência para a qual Kafka trabalhava.
49. Julie Kaiser (1887-1941), colega e amiga de Kafka.
50. Provavelmente Valerie (1890-1942), apelidada de Valli, ou então Ottilie (1892-1943), também chamada de Ottla, ambas, como Kafka, ainda morando com os pais nessa época.
51. Trata-se de uma companhia de teatro iídiche da cidade ucraniana de Lviv (ou Lemberg, em alemão) que se apresentou em Praga de setembro de 1911 a janeiro de 1912. Kafka tornou-se amigo dos membros desse grupo (os casais Klug e Tschisik, os atores Pipes, Urich e, sobretudo, Jizchak Löwy), recebendo deles as primeiras indicações sobre a história da literatura e do teatro iídiches.
52. Termo de origem hebraica; literalmente, “extirpado”, designação para o judeu batizado (apóstata).
53. A peça fora anunciada inicialmente como sendo de Joseph Latteiner, mas seu autor é Abraham Scharkansky.
54. Max Brod vê nessas duas figuras os precursores dos “ajudantes” de O castelo.
55. Dança popular tcheca.
56. Iídiche: “criancinhas judias”.
57. Membro do departamento de censura encarregado de observar apresentações públicas.
58. Iídiche: “querido pai”.
59. Palavra hebraica que significa “batente de porta”. Trata-se um rolo de pergaminho com trechos do Deuteronômio colocado num estojo fixado no batente direito da porta e que é tocado ao sair e ao entrar na casa.
60. Em abril e maio de 1910 apresentou-se no café Savoy uma companhia de teatro iídiche dirigida por Moritz Weinberg, da qual também faziam parte sua mulher, Pepi, e a cantora Salcia Weinberg.
61. Ópera cômica do compositor tcheco Bedřich Smetana (1824-1884), em estilo marcadamente nacional.
62. Provavelmente Rosa Kaufmann (1878-1942), cujo irmão, Hugo, casara-se com Olga Ehrmann, filha de Julie Ehrmann, tia de Kafka.
63. O artigo foi publicado em 4 de novembro de 1911 sob o título “Die Arbeiterunfallversicherung und die Unternehmer” [O seguro contra acidentes de trabalho e os empreendedores].
64. Isto é, “fosso”. Rua que separa a parte antiga de Praga da nova e que segue o traçado do fosso que, em séculos anteriores, circundava a cidade antiga.
65. O autor da peça é na verdade Joseph Latteiner. O sêder é uma celebração doméstica durante a festa judaica do pessach, que comemora a lendária fuga do Egito.
66. Ver Kafka, Diários de viagem, agosto/setembro de 1911.
67. Angela Rehberger (nascida em 1887), conhecida de Kafka e Brod.
68. Ilha do rio Moldava acessível por uma escada que parte do meio da ponte Kaiser Franz; nela há um restaurante e áreas verdes.
69. Robert Kafka, advogado, filho de Heinrich Kafka, um primo do pai de Kafka. Robert era responsável pela parte jurídica da Fábrica Praguense de Asbesto Hermann & Cia. (a “fábrica”, como é chamada simplesmente doravante), que Franz Kafka, na condição de sócio comanditário, fundaria em dezembro de 1911 juntamente com seu cunhado Karl Hermann (1883-1939), marido de Gabriele (ou Elli, 1889-1941), sua irmã mais velha.
70. Ver p. 53.
71. Opereta de Abraham Goldfaden (1840-1908), o fundador do teatro iídiche.
72. Iídiche: “misericórdia”.
73. Subúrbio a leste de Praga, com inúmeras fábricas, habitado na época sobretudo por trabalhadores tchecos.
74. O contador a quem Kafka visitou se chamava Anton Tullach; o “outro Tullach” era o tipógrafo Karel Tulach.
75. Localidade situada quinze quilômetros ao sul de Praga.
76. O número da revista o Pan de 15 de outubro de 1911 (vol. 2, n 2, p. 53-58) continha um texto de Max Brod, “Kommentar zu Robert Walser” [Comentário acerca de Robert Walser].
77. Do tcheco pavlač. Espécie de corredor avarandado que dá para o pátio interno de uma casa e a liga com outras.
78. Capital do estado alemão da Turíngia.
79. Pequena cidade industrial do norte da Boêmia.
80. A formosa donzela de Perth, ópera de Georges Bizet inspirada no romance homônimo de Walter Scott.
81. Pseudônimo de Scholem Rabinowitsch, conhecido como autor de inúmeras obras humorísticas.
82. Isaak Loeb Perez (1852-1915), popular autor iídiche.
83. O poema de Chajim Nachman Bialik chama-se “Am Ort des Mordes” [No lugar do assassinato] e trata de um massacre de judeus ocorrido em 1903 em Kichinev, cidade da Bessarábia (na época, província do império russo).
84. Morris Rosenfeld (1862-1923): escritor iídiche. Emigrou da Rússia para a Inglaterra e em seguida aos Estados Unidos, onde também foi alfaiate. Foi editor de um jornal iídiche e suas obras foram traduzidas para vários idiomas.
85. Ver p. 77.
86. “A Löwy & Winterberg é sem dúvida uma firma grande, a terceira maior madeireira da Boêmia, até onde sei” (Kafka em carta a Felice Bauer de 4/5 de fevereiro de 1913).
87. Obra do autor croata Ivo Vojnovíč (1857-1929).
88. Provável deformação de “hospodares”. “Hospodar” (senhor) era o título dos príncipes da Valáquia e da Moldávia.
89. Em hebraico, Ha-Tikvah [A esperança], canção escrita em 1878 por Naphtali Herz Imber. Inicialmente hino não oficial do movimento sionista, mais tarde tornou-se o hino oficial e hoje é o hino nacional de Israel.
90. Ver nota 42.
91. As noites anteriores haviam sido 5, 8 e 13 de outubro.
92. David Edelstadt (1866-1892), um dos primeiros autores iídiches socialistas. Emigrou da Rússia para os Estados Unidos, trabalhou como alfaiate e participou de um grupo anarquista, para o qual editou um jornal. Morreu jovem, tornando-se um dos heróis do movimento trabalhista judaico.
93. Ver nota 84.
94. Ver nota 71.
95. Ver nota 82.
96. Iídiche: “jovem”, “estudante de uma escola talmúdica”.
97. Jacob P. Adler (1855-1926).
98. Mais exatamente, Jakob Gordin (1853-1909).
99. Krystall-Palast: na época, uma das maiores e mais renomadas casas de entretenimento da Alemanha.
100. Em alemão, “mãe”.
101. “Pai” em alemão.
102. Eugen Lederer (1861-1937), conselheiro imperial e diretor da seção de acidentes da Agência de Seguros contra Acidentes de Trabalho; Kafka trabalhara nessa seção durante alguns meses em 1909.