Digam a Satã que o recado foi entendido
Sobre a questão eslava
dois anos atrás
Maio de 2007
Bealtaine 2007
OceanofPDF.com
Aí eu penso no sofrimento da jovem mulher feia na Rússia. Aos dezoito anos, uma garota russa que não seja estonteante deve se sentir um paquiderme. Em partes menos afortunadas do planeta a menina até que poderia ser considerada atraente, mas na Mãe Rússia isso não faz a menor diferença.
Em pouco mais de uma década as coisas se invertem. Por volta do aniversário de trinta anos, obedecendo a uma coreografia genética, quase todas as russas incham de uma hora para a outra. Viram matronas amargas embaladas em vestidos floridos, escondem a cabeça com lenços que parecem feitos com trapo de cortina e dedicam o resto da vida a zanzar de um lado para o outro com sacolas abarrotadas de manteiga, vodca e batatas.
Amargas, suspeito que sempre foram. Jovens russas são uma fruta de casca brilhante que atrai a mordida para só então se mostrar venenosa. É uma estratégia desprovida de qualquer sentido em termos evolutivos, mas estamos falando da Rússia. Não fazer sentido algum é o lema nacional. Aposto nesse absurdo entranhado nos cromossomos como origem das propriedades de bomba-relógio das mulheres russas. E talvez por isso todas venham acompanhadas por uma trilha sonora orquestral muito dramática, com direito a gongo e estouro de canhões.
Basta olhar para uma jovem russa com um mínimo de atenção para compreender que ela pode explodir a qualquer momento. Pode estar montada em cima do camarada e de repente soluçar, cerrar os punhos e golpear o peito do infeliz, depois o colchão, agarrando os lençóis com força suficiente para rasgar, e depois erguer os olhos para o teto berrando fonemas guturais como se estivesse ajoelhada em frente a um trigal nas cercanias de Volgogrado, encarando os céus e amaldiçoando o destino. E mesmo assim, em meio aos murros, às lágrimas, à baba, aos soluços e à gritaria, continuar tão bela quanto as melhores tragédias. Um investimento de alto risco, as jovens russas.
No fundo imagino que isso valha para todas as eslavas, mas me concentro nas russas porque estou rodeado delas. Esta noite, tudo que enxergo à minha volta são russos. Talvez sejam poloneses ou ucranianos, admito. Não sei. Mas são eslavos, disso tenho certeza: as mulheres presentes não me enganam. Escuto o drama e os guinchos da trilha sonora abafando o texas blues de quinta categoria que escapa das caixas de som. Bleu Note. Um nome afrancesado para um pub irlandês dedicado a um estilo musical americano e frequentado por eslavos. Cheguei aqui meio por acaso, caminhando a esmo pelas ruas idênticas do centro de Dublin ao norte do rio Liffey, ruas que mais parecem muralhas intermináveis de tijolos avermelhados.
Chegando na esquina da Capel, abri caminho por entre uma pequena multidão de fumantes, cruzei as portas azuis, desci as escadas e fui parar no meio da Guerra Fria. Pareço ter voltado quase meio século no tempo e invadido por engano o porão do quartel-general da kgb. Todos os homens, invariavelmente corpulentos, vestem roupas sociais e têm a cabeça raspada ou o cabelo cortado muito rente, acentuando os maxilares angulosos. Alguns usam óculos escuros. Todos bebem com um ar que poderia ser chamado de solene se não fosse rude. E as mulheres, exceto as duas ruivas, são todas loiras.
Descontando os russos, parece um pub como outro qualquer: meio escuro, meio barulhento, meio antigo, meio qualquer coisa. Uma atmosfera de suor alcoólico e perfume. Sento num dos bancos do balcão. Considero a ideia de pedir um pint de lager, mas acabo me decidindo por uma vodca dupla. Desta vez pode ser necessário me encaixar no ambiente. Minha solidão não chega a durar cinco minutos. Ainda estou no primeiro terço da vodca quando um russo de paletó com ombreiras senta no banco vago ao meu lado. Olhando para cima, estala os dedos da mão esquerda no ritmo do blues pasteurizado e usa a outra mão para segurar um copo. Ao registrar a minha presença, resmunga alguma coisa cheia de consoantes que termina num ditongo interrogativo. Seu rosto é um bloco de concreto sem expressão alguma.
— Desculpa, não entendi — explico. Ele não parece aceitar o que acaba de ouvir e repete o que parecem ser as mesmas frases, agora um pouco mais devagar. — Não entendi — repito, e ele segue me encarando sem nenhuma intenção de fazer amigos. Arrisco um sorriso e pergunto se pareço russo. Ele não diz nada. — Eu pareço russo? — insisto.
— Não — ele responde, e faz uma pausa para analisar minhas feições. — Turco — acaba dizendo, quase num arroto. — Turco judeu — completa, babando e mostrando dentes irregulares e pontiagudos. Pelo menos não são de aço.
E existem muitos judeus na Turquia?, penso mas não pergunto. Ainda estou ruminando o que responder quando ele se levanta e debruça o corpo maciço sobre o balcão, ficando praticamente deitado. Esticando um dos braços, apanha uma maleta estilo 007 que parece saída diretamente dos anos 1970 e a coloca sobre a madeira gasta do balcão. Sem dizer nada, volta a me encarar. Uma cicatriz corta seu rosto de uma têmpora a outra, dividindo a testa ao meio.
— Turco judeu — repete, dessa vez num tom mais baixo e sem saliva, e acaricia as trancas da maleta com a ponta dos dedos grossos.
Todo mundo sabe o que significa uma maleta nas mãos de um russo de paletó e cabeça raspada. Acabo de entrar, mas sei que chegou a hora perfeita para bater em retirada. Não chega a ser medo de levar uma surra. É um temor mais profundo, quase religioso. Russos com maletas são praticamente um ícone bizantino, e o recado é claro: armagedon. Como um apocalipse nuclear pode arruinar o dia de qualquer um, deixo algumas moedas sobre o balcão, me levanto e tomo o caminho da rua sem olhar para trás.
Saio do Bleu Note, atravesso outra vez a muralha de fumantes e dou os primeiros passos na direção do albergue. Assim que viro a esquina começa a garoar. Os pingos engrossam um quarteirão mais tarde, no mesmo instante em que o néon do Eddie Rockets atrai minha atenção. É um pequeno templo kitsch, imagem platônica de uma lanchonete americana dos anos 1950. Piso quadriculado branco e preto, bancos forrados de falso couro vermelho com detalhes em branco, mesas de fórmica com mini-jukeboxes individuais, metálicas e brilhantes, e uma equipe de garçonetes imigrantes vestidas de adolescentes wasp dos Estados Unidos de meio século atrás. Num canto do cardápio, perdido entre hambúrgueres medíocres e fritas gorduchas acompanhadas de chili sempre meio gelado, se esconde o melhor milk-shake do hemisfério ocidental.
Era disso que eu precisava para obliterar da minha cabeça a imagem de cogumelos atômicos. Desde que descobri o milk-shake do Eddie Rockets, me converti. Admito que a sensação de tomar esse milk-shake é uma das melhores coisas que já aconteceram comigo. Não é tão sublime quanto tirar a calcinha de uma mulher que você ainda não comeu, mas é sensacional.
Sento em uma das mesas, tiro o casaco úmido, ignoro a mini-jukebox e faço de conta que analiso o cardápio. Continuo pensando nos judeus da Turquia, ainda pouco disposto a me envolver numa discussão íntima sobre qual sabor de milk-shake deveria escolher. Quase sempre peço chocolate simples e não posso dizer que me decepcionei com baunilha, mas o problema é que ainda me restam outras duas opções. Nesse contexto, escolher sabores de milk-shake também é um investimento de alto risco. Qualquer descuido, qualquer ousadia, e a perfeição pode ser arruinada. Mantenho os olhos colados no cardápio e vou remoendo algo que me aconteceu na manhã daquele dia, enquanto eu caminhava ao norte da Parnell Square após tomar meio litro de café aguado numa lojinha de conveniência de esquina.
Apesar do vento frio, o céu estava limpo e as gaivotas se esgoelavam ao longe. Como se fosse uma criança de quatro anos, a garota saltitava à minha frente, usando sapatilhas sem meia. Não podia ter mais de dezessete anos. De início achei que estava brincando, mas logo percebi que ela fazia aquilo com certo desespero, quase rígida de angústia. Com roxos aqui e ali, a pele que se mostrava a partir das sapatilhas era coberta do tornozelo para cima por uma legging preta que se escondia sob uma minissaia verde-musgo. Por baixo de uma jaqueta vermelha de algodão com capuz, uma blusa sem mangas com listras pretas e brancas. Sem sutiã, os seios pareciam ainda mais volumosos e sacudiam a cada salto. Cabelos negros compridos e repicados. Mesmo saudável e fornida demais para se encaixar no estereótipo junkie, a garota tinha marcas escuras na mão esquerda, entre indicador e polegar. Resmungava baixinho palavras curtas e urgentes enquanto saltava de uma pedra a outra do calçamento. Quando emparelhamos na esquina, espichei o olho sem virar a cabeça. Tentei enxergar seu rosto. Ela devolveu o olhar num reflexo, infantil e pálida, olhos verdes rodeados por lápis borrado, um nariz quase pontiagudo de tão insolente.
Quando o sinal para pedestres abriu, comecei a atravessar a rua. Após uns cinco ou seis passos, não senti mais presença alguma ao meu lado. Olhei para trás, tentando ser discreto. Ela continuava parada na esquina, diante da faixa de pedestres. Quase congelei no meio da rua. Ainda a escutei dizendo “socorro” com uma voz morna e achatada. Foi um “socorro” muito claro, acompanhado por uns murmúrios que não consegui entender. Continuei mudo e virei à esquerda. Já estava a uns cinquenta metros de distância da garota e só conseguia pensar em voltar, mas temia dar a impressão errada. Não queria parecer maluco ou tarado. Parei em frente à porta dos fundos do hospital, a menos de cem metros. Dei mais uma espiada. Ao ver que ela continuava no mesmo ponto, virei o rosto. Continuei fingindo estar esperando alguém. Quando resolvi dar uma última olhada para em seguida fazer alguma coisa, qualquer coisa, a garota não estava mais lá.
Sem que eu percebesse, ela tinha atravessado. Passou por mim do outro lado da rua, ainda pulando de uma pedra a outra do calçamento. Não parecia seguir lógica alguma nos saltos. Não tentava evitar os limites entre uma pedra e outra, não se esforçava para escolher as mais escuras ou as mais claras, não pulava sempre a mesma distância. Talvez estivesse usando um padrão pouco óbvio. Datas de aniversários, números primos, as casas decimais de pi, qualquer coisa. Talvez nem estivesse percebendo o que fazia. Resolvi que precisava fazer alguma coisa. Travei os dentes, tomei fôlego e atravessei a rua.
Distraído com o esforço de tentar agir naturalmente, não entendi muito bem o que aconteceu. Não vi se a garota entrou numa das casas meio destruídas e cheias de pichações, se embarcou num dos ônibus estacionados por ali, se tinha se desvanecido no ar ou escapulido por algum portal mágico. Qualquer que fosse a resposta, ela não estava mais em lugar nenhum. Apertei o passo e virei à direita, mas nada. Tinha mesmo sumido. Fez isso sozinha, com as próprias forças, sem dar sinal algum de suas intenções, sem nem perceber que eu estava prestes a salvar o dia. Fiquei tonto, costurando a rua de uma calçada a outra. Quase fui atropelado por um táxi, que seguiu seu caminho na trilha do grito de “idjooooota!” do motorista. Acabei entrando numa ruazinha e topando de nariz com o fedor de peixe de uma feira. A tontura piorou, virando enjoo. Entrei num centro comercial, sentei no primeiro banco que encontrei e fiquei imóvel por quase uma hora em frente à vitrine de uma loja de artigos esportivos, tentando me acalmar, tentando me entender, tentando deixar de esperar que a garota reaparecesse.
Uma garçonete de pescoço comprido demais, olhos quase azul-celestes e cabelos com óbvia tinta preta ignora meu interesse fingido pelo cardápio e pergunta o que desejo. Segundo o crachá que decora seu corpo de falsa magra, ela se chama Stefanija. É tão bonita que me constrange. Sou o tipo de barbado que se intimida até mesmo com a presença de colegiais de treze anos. Para vencer a paralisia, coloco a perfeição em risco e peço um milk-shake de chocolate maltado. Funciona. Aproveito a onda de coragem e pergunto à garçonete se ela é russa. Eslovena, responde, inclinando a cabeça para a direita como um cãozinho confuso.
— Eslovenos são eslavos? — percebo na hora que a pergunta foi idiota. A etimologia parece bem clara. Eslovênia, eslavo, escravo. Pelo que lembro, todas compartilham a mesma origem. Mas por mais que eu olhe para a garçonete, não escuto violino algum. Talvez eu não entenda nada de etimologia.
Stefanija abre um meio sorriso, responde que a Eslovênia fica perto da Itália e se afasta da mesa. Depois de transmitir meu pedido para a cozinha, olha para a minha mesa por alguns segundos e inclina a cabeça para a esquerda. Muito, muito de leve. Poucos minutos depois, sirvo meu copo e provo o milk-shake de chocolate maltado. Perfeição.
Antes mesmo de pedir a conta já estou resolvido a deixar três euros de gorjeta. Assim que Stefanija estende os dedos longos e cônicos para apanhar o dinheiro, percebo que uma das moedas é polonesa. Magnus, eu digo. Meu nome é Magnus. Magnus, ela repete, se atrapalhando com a sílaba tônica e chiando levemente o último fonema. Não ouço música nenhuma. Talvez só as jovens eslavas loiras sejam trágicas. E as ruivas. Talvez um pouco de tinta resolva qualquer problema. Pergunto se ela sabe que em Dublin existe um porão que esconde um pub secreto, com espaço para apenas cinco ou seis clientes. Ela responde que não bebe.
Desembarquei na Irlanda para passar algumas semanas. Um mês e meio, no máximo. Tenho vinte e sete anos, algumas economias e nenhuma ambição ou perspectiva para o futuro além de talvez partir em seguida para algum outro país, talvez a França, talvez para ficar mais tempo. Graças ao milk-shake perfeito e a um pouco de tinta preta, tudo mudou. Chega de talvez.
Vou ficar.
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