Digam a Satã que o recado foi entendido

Daniel Pellizzari · Capítulo 3 de 5

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Digam a Satã que o recado foi entendido

Jesuis

três meses atrás

Julho de 2009

Iúil 2009

 

OceanofPDF.com

Já vou dizendo que não acredito nesse negócio de deus, minha religião é louvar a empresa maravilhosa Nintendo. Acho que nem preciso falar mais nada sobre isso daí. Quem sabe, entende. E se cê discorda, parcêro, só posso lamentar. Também aprecio demais a função toda da manhã. Acordar, mijar de pau duro, escovar os dente. Tem uns dia em que tudo o que o cara precisa quando acorda é mijar de pau duro e dar uma boa escovada nos dente. Não que eu não faça isso todos os dia, mas fui ficando veio e entendi que tem umas hora na vida em que o melhor da vida é aquele gosto de começo que o cara só encontra dentro dos tubo de pasta de dente. Depois, claro, o negócio é ficar jogando um dos clássico. Zelda 2, que é o melhor de todos e todo mundo que discorda caminha por aí com uma cenoura enterrada na rabeta. Pilotwings quando tá chovendo. Super Mario 3, só pra me esconder atrás do cenário e me achar malandro. Era assim quando eu ainda morava na República de Cork, centro do cosmos e melhor lugar do mundo, e é assim até hoje. É bom demais aquele sorriso amarelo no espelho do banheiro, o gosto fresquinho, a espuma branca no canto da boca, depois limpar tudo bem direito. Agora que eu preciso sair da cama antes do almoço todos os dia pra cuidar daqueles tour de merda, o esquema de mijar de pau duro, escovar os dente e ficar uma meia hora jogando ficou ainda mais importante. Só depois desses três passo eu fico pronto pra espremer os cravo, bater uma punheta e um rango, sair pro trabalho e fazer tudo que rola na sequência. Uma coisa que eu aprendi com a idade é que a vida precisa ser assim. Uma coisa de cada vez.

Lá em Cork tinha uma assistente social muito da gostosa. Desde o começo me liguei que a safada queria dar pra mim, o pobre menino dos bloco, sem rumo, com problema de álcool e outras droga com menos tradição aqui na ilha. Ela não me chamava de Barry nem de Bartholomew. Era “meu drogadinho” mesmo. Que escrota. Gente sem ética acaba com meu dia, parcêro. Uma vez peguei ela bem descarada olhando pro meu pau duro. É que eu tava muito a fim de mijar. Deixei ela curtir um pouco o visual, baixei o capuz do moletom e daí perguntei se ela queria que eu botasse o pau pra fora. Tremeu alguma coisa nas bochecha dela, mas a mulher fez que nem tinha ouvido nada. Levantou os óculos com o dedão e me intimou:

— Mas o que você quer da vida, afinal?

Porra nenhuma, eu respondi. Porra nenhuma. Não quero fazer porra nenhuma da vida e era isso. Mas e aí, cê vai continuar olhando desse jeito pro meu pau?

Comi, e mais de uma vez. Mais de dez. Era bem boa de comer, a assistente social. Só que aí um dia ela noivou com um cara que tinha acabado de se formar em Computação, por sinal a mesma merda de curso que eu comecei na Universidade de Cork e larguei pra sempre na metade da terceira semana. Depois que ficou noiva a mulher começou com umas frescura de chorar depois que a gente fodia, era uma aporrinhação do caralho. Aí larguei. Larguei dela, dos meus velho, dos meus parcêro, da minha cidade, da vida que eu tinha em Cork. Subi pra Dublin e fiquei livre pra não fazer porra nenhuma. Não que eu odiasse essas coisa toda. Nem é por aí. A assistente social tinha uns peitão classe especial e chupava que nem uma sanguessuga, engargantava tudo. Meus velho eram uns inútil sem educação nenhuma, mas sempre fizeram de tudo pra mim. Meus parcêro eram um monte de bêbado gente boa. Minha cidade é o melhor lugar do universo e tinha cerveja barata em qualquer pub. Minha vida era só moleza. O ruim é que essas coisa toda me atrapalhavam. Pra falar a verdade, de vez em quando eu sentia uma vontade imbecil de fazer algo de útil com a minha vidinha, e isso é péssimo pra caralho. Aí cortei o mal pela raiz. Eu sou irlandês, porra. Sou um cara que tenho meus princípio.

Hoje eu sou empresário, virei mais um palhação do Tigre Celta. Não vou mentir que agora tenho uns objetivo nem nenhuma dessas merda de corno que faz faculdade, mas o cara precisa ganhar dinheiro de algum jeito se não nasceu com o furico recheado de ouro que nem essas bichola de Dublin 4. Vou fazer o quê, ficar pedindo esmola pra turista na Ha’penny? Sai fora. Ficar parado em vários lugar de Dublin é que nem ficar na frente de um pelotão de fuzilamento. Kilmainham Gaol o caralho, eu morro todo dia fuzilado por câmera de turista. Que gente mais escrota. Primeiro veio esse monte de imigrante, agora esses corno. Que se foda essa gente toda. Mas o país é bom, não tem lugar melhor na face da história. Só precisa mandar muita gente pra fora. Turista, imigrante, esses corno do governo. E todos os itinerante, claro, essa gente vagabunda que só sabe roubar e fazer amizade com cigano. Meu primeiro trabalho depois de subir pra Dublin foi entregar jornal. Eu morava lá pros lado de Portobello, ali perto de onde o canal ainda fede pra cacete. Tinha uns quarto barato e era um lugar decente fora o cheiro e as junkie grávida, porque taí uma coisa que eu nunca gostei de ver, mesmo quando é umas gostosinha. Porra, cê tá com uma criança no bucho, não faz sentido ficar chupando piroca pra comprar heroína. Mas os cara que entregavam jornal comigo eram muito engraçado. Naquela época, uns nove ano atrás, entregar jornal ainda não era coisa de imigrante safado. Até porque nem tinha tanto estrangeiro que nem agora. Era todo mundo irlandês mesmo, fora uns dois escocês. Até porque sempre tem escocês em qualquer lugar, né. Esses cara são foda. Mas acho que as melhor pessoa da face da história são os entregador de jornal, parcêro. A maioria é retardado pra caralho, mas isso nem chega a atrapalhar. Eles têm bom coração, tipo eu. Logo que comecei no trabalho, sem saber porra nenhuma, eles me sacanearam de começo mas também saíram me dando todas as dicas do serviço.

Era muito fácil, mas também era um pé no saco. Só que eu precisava da grana e não queria ficar sei lá, roubando carro na North Great Georges, então seguia driblando os cachorro e sacaneando os riquinho de merda que reclamavam quando eu arremessava o jornal direto no vidro das janela. Pode quebrar, eles diziam. Ah, é? Não me diz, parcêro. Jesuis. Como se eu não soubesse. Odeio quando me tiram pra idjota, e isso costuma acontecer mais do que eu gostaria. Um dia vou entender esse negócio daí. Agora tô morando aqui num sobrado perto dos prédio da Dominick com meu parcêro Stuart Escocês. Ele é gente boa, mas sei lá, é um pouco estranho pra caralho. Tenho a impressão de que o cara passa o dia inteiro de pau duro.

Hoje mesmo quando cheguei do centro ele tava no quintal, sentado numa cadeira reclinável verde e branca. Não tinha passado muito do meio-dia, o sol tava forte pra cacete de um jeito que quase nunca se vê por aqui e o Stuart ali, olhando pro nada. Perguntei o que tava fazendo, e ele:

— Esperando.

Jesuis. Acendi um cigarro e sentei na grama. Me distraí um pouco com umas formiga que tavam caminhando numa fila que não acabava nunca, parecia um monte de polonês indo trabalhar numa obra. Taí um bicho que é organizado, o Stuart falou uma vez, mas ali dava pra notar que não era em formiga que ele tava pensando. Nem em polonês.

— Mas esperando o quê, parcêro? — eu quis saber.

— Cê não tá vendo, porra?

Olhei na direção pra onde ele apontou e só enxerguei uma melancia. O cara tava ali, no único dia de calor verdadeiro na farsa que é o verão nessa cidade, olhando pruma melancia enorme no sol. Mas que merda, tomou umas coisa forte e nem me avisou que tinha.

— Claro que não, ô idjota.

Aí ele me explicou a ciência e a magia de ficar esquentando melancia no sol.

— Tem que deixar ali um tempo. Depois que fica bem molinha e quente cê pega uma faca, faz um buraco e mete gostoso. É igual mulher. Igual não. É melhor, porque não fica falando merda o tempo todo.

E ainda por cima não acaba com a sua grana, declarou, tirando um canivete do bolso.

— Opa, tá pronta.

Levantei, bati a sujeira do abrigo e tomei o rumo da cozinha. Eu precisava de uma cerva e o Stuart com certeza tava a fim de ficar sozinho com sua doce flor da Irlanda. Ou dos trópico, né. Sei lá eu onde se planta melancia, porra. Além do mais o Stuart nunca entende minhas piada, então é quase certo que ia me levar a mal se eu sugerisse um negocinho a três.

§§§

Mas porra, o Stuart tem sorte pra cacete. O pai dele era um desses junkie de merda que enfiavam agulha até no olho do cu pra injetar heroína. E isso era nos anos oitenta, daí claro que ele acabou pegando o vírus. Ficou todo aidético, cheio daquelas mancha na pele, emagreceu até ficar quase um esqueleto e morreu tossindo, deitado num beco do centro de Dundee. Nessa época o Escocês tinha sei lá, uns quatro ano. Daí passou uns mês e a mãe dele, que também era de ficar tomando nos cano e devia ser uma baita duma vagabunda, desceu pra Londres e nunca mais deu notícia. Deixou o pirralho dentro do apartamento no bloco com umas lata de feijão, um abridor de lata e um bilhete que o infeliz nem tinha como ler, porque né. Quatro ano.

No meio do segundo dia ele começou a berrar de fome, daí os vizinho arrombaram a porta e acharam o pequeno Stuart Escocês todo cagado. Daí, como ele não tinha mais ninguém em Dundee, o governo da rainha mandou o cara prum sítio cheio de ovelha, bode e essas porra toda lá no interior da Escócia. Um lugar frio do caralho, fedido e cheio de pedra. Mas era onde morava uma tia veia dele, a única parente que aceitou ficar com o moleque. Daí ele cresceu por lá, correndo nu pelas montanha todo transtornado e cravando a piroca em tudo que respirava. E em melancia também, pelo jeito. Se tiver melancia na Escócia.

Mas logo depois do aniversário de dezoito ano o Stuart convenceu a tia dele, que eu chamo de vó Aoife, a vender o sítio com todos os bicho dentro, pegar uma balsa e vir pra Dublin. Enfim, voltar pra casa. Eu chamo o Stuart de escocês porque porra, ele nasceu na Escócia, mas na verdade a família dele é toda de irlandês que foi pra lá numa época em que tava todo mundo passando fome na ilha e só as família mais jogo duro, tipo a minha, ficaram por aqui. Daí ele é escocês irlandês, que é um negócio bem diferente de irlandês escocês, que é quase tudo um bando de protestante filho da puta que mora lá no norte e fornece a rabiola pros inglês todos os dias. E ainda rebolando. Porque eles gostam. Mas o Stuart não, ele é escocês irlandês, católico e gente boa. E sei lá o que tinha naquela merda daquele sítio, mas os dois ganharam foi muita grana vendendo o bagulho. Chegaram em Dublin e saíram logo comprando um sobrado bem velho e bem grande na Dorset. Tudo bem que isso ainda era na época antes do euro e da porra toda e que nessa parte da cidade só tinha junkie, lixo e itinerante, mas mesmo assim. Aí encheram a casa de porcaria, não reformaram nada e guardaram o resto do dinheiro sei lá onde. Aplicado em banco é que não tá. Mas isso não tem nada a ver. O que vale nessa história é que depois de chegar aqui e comprar a casa, o Stuart ficou livre pra passar a vida inteira fazendo nada, se destruindo e enchendo a cara, passageiro de primeira classe no trem-bala pra ruína. Vidão.

Conheci ele numa última rodada do Boar’s Head, no mesmo dia em que eu tinha saído no braço com uma tiazona toda demolida que eu tava comendo fazia uns dois ano e pouquinho só pra ter onde dormir. O Stuart odeia futebol, eu também, nós dois não curtimo itinerante nem cigano, e daí ficamo tomando lager e falando merda. No mesmo dia o cara me convidou pra morar com ele, dizendo que o sobrado era grande e que ele tinha medo de ficar sozinho com a tia dele, que era meio louca da cabeça. Aceitei mas já fui avisando que não era veado e que se ele tava pensando em me entubar era pra dizer logo de uma vez, porque aí eu preferia morar num abrigo fedido cheio de pulga gorda que se alimenta de imigrante da África. Ele se babou todo rindo e a partir daí virou meu melhor amigo, e isso já faz mais de ano e pouco. Foi antes de eu virar empresário. De vez em quando eu penso que ele devia mais era aproveitar o tempo e a grana pra sei lá, dar umas volta pelado nas praia da Grécia, comer um monte de francesinha chapada em Ibiza, essas porra toda, mas ele me manda à merda só de perceber que eu tô pensando algo nessa linha. Aí eu fico quieto, né.

De vez em quando rola umas festinha aqui no sobrado. Craic de montão. Até que tento trazer umas gostosa, mas antes que eu consiga me agilizar o Escocês já encheu a casa de monstrenga e traficante. Não tem como encarar umas mulher daquele naipe, mas é só ficar em volta dos trafi que eles acabam liberando alguma coisa de grátis. Eles curtem o Stuart, ou pelo menos era o que eu pensava.

— Jesuis. Mas cê é meio idjota mesmo, né? Eles curtem é minha grana, porra.

Saquei. Bebida liberada, muita mulher feia, o melhor da música ruim, tudo na casa de um cliente preferencial. O fundo do poço é o paraíso dos trafi. Caralho. Não sei quando a grana do Stuart vai terminar, mas sei que isso vai acontecer mais dia menos dia. Não tem nada que dure pra sempre, muito menos dinheiro, e menos ainda quando o cara gasta desse jeito. Só sei que esse dia vai ser estranho pra cacete, e é certo que na manhã seguinte vai tá eu bem bonitão procurando outro lugar pra morar.

Mas por enquanto a grana tá rolando solta e eu posso ser tudo mas trouxa é que eu não sou, né. Por uma boquinha dessa eu até aguento ser chamado de idjota às vezes. Moro aqui de graça, o Escocês é gente boa e ainda por cima encho a barriga com o rango que a tia dele faz pra gente todo santo dia. Grande vó Aoife. Gosto demais dessa veia, ela é demais. Demais. Acho que deve tá chegando perto dos novecentos ano, porque sinceramente nunca vi ninguém tão velho. É por isso que eu chamo ela de vó e não de tia. É ruga demais pruma pessoa tão pequena. Ela caminha com uns passinho bem curto, sempre de preto e manga comprida, o cabelo todo branco, bem desdentada. O corno do sobrinho dela gasta em bebida, puta e pó tudo que ganhou da venda do sítio na Escócia, mas não abre a mão pra comprar uns dente pra coitada. Eu fico com pena, mas que se foda. Na real nem tenho nada a ver com essa história.

Hoje de noite vai rolar uma festinha dessas daí. Dessa vez não cochilei e já saí convidando os parcêro do serviço, pedindo que trouxessem umas gatinha. Faz muito tempo que eu não como ninguém e isso tá me deixando alterado e loucão. Não tô a ponto de enfiar a piroca em melancia, mas se demorar muito pra alguém dar pra mim, sei lá eu o que vou acabar fazendo. Talvez até acabe encarando alguma das monstrenga que o Escocês traz pras festa. Jesuis, olha o que umas bola cheia de porra faz com o cara. É humilhante, parcêro.

Já trabalhei e já enchi a barriga, mas ainda falta muito pra noite chegar. Vou capotar ali no sofá da sala. Dou uma última golada na cerveja e abro o pote de biscoito onde fica guardado o fumo. Não tenho muita coordenação pra fechar bomba, mas de tanto precisar acabei pegando prática. Não fica especial, mas pelo menos serve pra estourar o melão. Fecho um baseado fininho, sem tabaco nem nada, pego uma marica e me jogo no cheiro azedo do sofá, que a cada dia que passa fica pior. É o mesmo cheiro da vó Aoife, o fedor duma coisa que devia ter morrido mas continua ali, contra todas as aposta. Acho que o Escocês só vai se livrar desse bagulho quando a vó dele se engavetar. Não que o sofá seja ruim pra dar uma deitada. Tirando uma mola solta que fica cutucando o cara bem no ossinho em cima do rabo, até que dá pro gasto. O problema é mesmo o cheiro. Acendo a bombinha e dou uma tragada animalesca, prenso até não mais poder e o cheiro do sofá desaparece rapidinho. Porra, nessa mesma hora a veia Aoife deve tá trancada no quarto, rezando novena ou algo assim. O Stuart ainda não voltou pra dentro, deve tá dando a segunda ou terceira totinha com a melancia. No meio do quintal, ainda por cima. Dou outro pega. Tem um baita pôster do Bob Marley em cima da tevê, com a palavra revolução escrita embaixo. Odeio reggae e odeio esse preto idjota que morreu só por causa da religião de maconheiro dele. Odeio maconheiro. Taí um lance que eu odeio mesmo. Só aguento o Stuart por tudo que já disse. Ele é parcêro. É, ele é parcêro.

Dou outra tragada furiosa e largo a ponta no cemitério. Cruzo as mão no peito e fico olhando pro teto. Tem uma mosca bem do lado da lâmpada. Porra, o Zbigniew tem que trazer a irmã dele, eu pedi com toda educação. Agnieszka, o nome dela. Agnieszka Brzesko. Só de falar esse nome minha piroca começa a soltar baba. O que aquele gordo tem de burro a irmã dele tem de gostosa. Muito gostosa. Deformada de gostosa. Vou galantear a polaquinha com estilo e botar pra dentro em dois toque. Eu mereço. Mas mereço mesmo, parcêro. Eu sou um cara legal. Tenho bom coração. Se tem alguém no mundo que merece comer uma polaca dessa estatura, sou eu. Eu. Eu mesmo. Um cara legal. Essa porra dessa mosca não se mexe. Como será que esses bicho enxergam o mundo? Aqueles olho gigantes e com mil e uma divisão e tal, deve ser um negócio insano. Imagina só uma mosca chapada. Jesuis. Não ia dar, não ia ter como. Ela ia se fuder legal no primeiro lugar em que pousasse. Ia ser esmagada sem nem se ligar no que tava rolando. Porra, morrer esmagado deve ser muito escroto. Caralho. Porra, deve doer demais. Principalmente se a mosca tiver chapada. Aí sim deve doer pra cacete. Jesuis. Se mosca fumasse um e tivesse larica, não ia ter merda no mundo que desse conta. Elas iam devorar tudo que vissem pela frente. Porra. É isso aí, na verdade. Se um dia alguém quiser acabar com o mundo é só chapar sei lá, uns cem trilhão de mosca. Porra, a gente ia pro saco em dois toque. Jesuis. Esse fumo é bom pra caralho, as fonte do Escocês são boa mesmo. Tomara que tenha sobrado aquela torta de ontem, como que é mesmo o nome? Porra. Delícia Polonesa. Isso. Delícia Polonesa da confeitaria lá da Capel. Muito creme amarelinho. Delícia Polonesa. Que nome engraçado, o cara que inventou devia estourar o melão todo dia. Certo que sim. Delícia Polonesa é a irmã do Zbigniew, porra. E eu vou comer ela também. Delícia Polonesa. Polaquinha Agnieszka Brzesko. Jesuis, preciso comer alguém. Essa semana aquele corno do Magnus me falou que tem sete mil enfermeira filipina na Irlanda! Pode um negócio desses? Bem que podiam separar umas sete dessas sete mil pra cuidar do meu problema. Essa porra dessa festa tem que chegar logo, minhas bola tão pesando vinte quilos cada, não aguento mais me acabar no cinco contra um. Se bem que bater punheta chapado é especial. Isso é. Porra. Alta viagem boa. Parece que tem um urso panda lambendo o saco do cara. Tipo uma coisa assim. Acho que vou acender essa ponta, cadê a porra da marica? Olha só que viagem esse negócio, hippie é tudo mais burro que itinerante, mas vai longe nesses esquema de artesanato. Um bando de fumeta, esses hippie. Tudo maconheiro. Jesuis. Olho de novo pro Bob Marley, que bom que morreu, olho de novo pra marica e ali tá ele de novo, o negócio tem forma de criôlo com as beiçola de bife fazendo bico pra fumar. Mas Jesuis. Olha só. Tem umas coisa que o cara só vê quando tá chapado, não adianta. Acho que vou largar o fumo. Na boa. É. Vou parar, senão um dia acabo um hippie fedido vendendo artesanato na O’Connell ali na frente do Correio. Que nojo. Aquelas mina não raspam o suvaco, é tudo uma pelama só, devem ter uma floresta em volta da buceta que também deve feder pra cacete. Racha toda peluda e cheia de sebo. Bando de gente porca e maconheira. Ficam fazendo protesto contra construção de estrada e o cacete, só porque o lance vai destruir sei lá, um lugar onde um monte de celta esfarrapado cagou molão duzentos mil anos atrás. Bando de maconheiro. Jesuis. Vou dormir. É. Vou dormir. Que se fodam as hippie de suvaco cabeludo e buceta de bacalhau. Hoje à noite eu vou comer uma polaquinha cheirosa chamada Agnieszka.

§§§

Abro os olho e pego a festinha a todo vapor. Pulo fora do sofá e vou pra cozinha pegar alguma coisa pra beber e procurar o gordo Zbigniew. Abro caminho pela multidão, chego na geladeira e me abraço numa latinha de Druids. Eu amo essa casa. Sento numa mesinha, onde uns cara que nunca vi antes tão esticando umas carreira.

Odeio pó. Esse aí parece ser do bom, amareladinho e tudo mais. É certo que esses grego ao meu redor são tudo traficante. Jesuis, olha que estupidez o tamanho dessa buchinha, mais parece um pedregulho. As feiosa ficam em volta dos cara, dando gargalhada, se abraçando neles e essa coisa toda. Mas é muita bandidagem. Bando de vagabunda cheiradora. Porra, por que esses infeliz não arranjam umas gatinha? Que eu saiba mulher bonita também cheira. Lembro que uma vez fiquei um dia inteiro cheirando com uma gostosa e uns vagabundo lá num dos bloco de Ballymun, antes de demolirem tudo. Isso foi logo que eu cheguei em Dublin, no ano maravilhoso de 1999. Mas mesmo com gostosa na jogada eu odeio pó. A coisa até que podia ser boa se não fosse os viciado. Odeio gente fraca.

Os trafi e a comitiva de vadia tão com os nariz tapado, tudo travadinho ao mesmo tempo. Fico besta quando vejo os sorriso dessa gente. Parece um bando de robô. Dou um último gole na Druids, pego outra na geladeira e saio da cozinha. Preciso achar a irmã do Zbigniew. Falando nisso, cadê esse polaco de merda?

— Não veio, Bazza — responde o Stuart, cabeção encostado na parede, com dois dedo enfiado na boca da mulher mais horrenda que eu já vi em toda minha vida e olha que já são trinta ano de carreira. — Nem ele e nem o preto.

Antes que eu fale qualquer coisa ele dá um sorrisinho de filho da puta e continua:

— Mas tem uma mina por aí que tá atrás de você. Uma loirinha com um bundolão. Cê tem ideia de quem seja?

Nunca vi cê pegar ninguém, ele diz e sai metendo a língua na mulher mais feia do mundo. Ela tem uns olho esbugalhado que não piscam nunca, e nadinha de lábio. Os dente parece começar direto na cara, é uma coisa muito escrota. Quase perguntei se não era mais negócio ele seguir metendo a piroca em melancia, mas escuto de novo a voz dele na minha cabeça repetindo Tem uma mina por aí que tá atrás de você. Pra não dar outro motivo pra que me chamem de idjota, abro a latinha de cerva e saio pela casa lotada atrás da Agnieszka. Ainda escuto o Escocês dizendo:

— Peraí, parcêro! Fica frio que tô com um bagulho pra você aqui no bolso.

Mas faço de conta que não escutei nada e nem olho pra trás. A cabeça do meu pau tá piscando que nem louca, dizendo em código morse que hoje essa polaca não me escapa. Jesuis, não escapa mesmo. Mas essa casa tá tão lotada de marginal que não consigo encontrar a loirinha de jeito nenhum. Tá mais fácil encontrar bebida e pó, então vou aproveitando pra me destruir antes de ter que me concentrar em ganhar a mina, porque aquela ali tem cara de difícil. Vai me dar trabalho. Hahaha. Que piada. Dar trabalho nada, tá até perguntando por mim. É só chegar. Tô até vendo como vai ser, parcêro. Vou aparecer na frente da bandida, ela já vai sair pegando no meu pau e me empurrando pra parede, vamo ficar dando showzinho pra juventude e quando ela tiver no ponto vamo subir pro meu quarto e aí já era. Mal posso esperar. Jesuis. Vai ser épico. Só espero que cê tenha lavado bem o cu, minha filha, porque hoje eu tô pela aventura.

Tomo mais um gole da Druids e dou a volta pela outra porta da cozinha. Bem quando acho que enxerguei a Agnieszka no fundo da sala o Índio Americano aparece do meu lado e me segura pelo braço. Puta que o pariu. Tudo que eu não preciso agora é do Índio Americano, e ainda por cima bêbado. Acho que é importante explicar que o Índio Americano não é um idjota qualquer. Além de ser o tipo de cara que fala coisas do tipo bacana, tem muita chance de que ele seja o maior idjota que já surgiu na face da história. É um riquinho de merda que mora em Ballsbridge e sei lá como sempre me aparece nas festa aqui do sobrado. Ele faz o cara pensar que os idjota profissional devem ter embutido bem no meio da cabeça um tipo de despertador pra indicar a hora certa de encher o saco dos outro. Todo mundo sabe que a melhor hora presse tipo de idjota é sempre a pior hora pra vítima, e não levo fé que esses cara consigam ter uma noção tão perfeita sem alguma ajuda especial. Talvez tenham também um tipo de GPS escroto que indica o melhor lugar pra carbonizar os culhão de gente inocente. O cara tá ali no meio do pub, já se encharcou de stout, já tropeçou em cima dos parcêro, já ficou todo babado e se rindo sozinho e gritando umas coisa que nem ele ia querer ouvir se estivesse sóbrio ou não fosse um idjota. Quando parece que nada mais vai acontecer, toca a porra do relógio interno e todo o organismo do idjota fica alerta. Adrenalina nas veia, os membro engatilhado, as pupila do cara se dilatando e o gps entrando em ação, guiando o corpo do idjota até a pessoa que mais vai se dar mal com sua presença. E aí, parcêro, o palhaço faz o que tem que fazer. A natureza pode não ser sempre sábia, mas raramente erra nesse tipo de coisa.

Acho que foi bem isso que aconteceu dentro do Índio Americano um tempinho atrás. Eu já tinha visto ele mais cedo na noite, tomando uns soco de um trafi de bigode, chapéu e cara de itinerante. Deve ter derramado lager em cima dumas carreira ou algo assim. Até fico com vontade de sentir pena quando vejo ele se fudendo todo assim, mas não dá, parcêro. Não dá, ele não deixa. Só o jeito que ele fala, todo aveadado, me dá vontade de pendurar o infeliz no teto pelas bola. Um pouco depois vi ele sentado no canto, perto do relógio da entrada, bem quieto. Até pensei caralho, que bom, não vai mais encher o saco de ninguém. Merda. Não devia ter passado tão perto dele. Não devia nem ter pensado na existência desse idjota. O alarme deve ter tocado e o gps ficou nervosinho pra caralho indicando a minha direção e ele não descansou até ficar exatamente como tá agora, apertando meu braço com a mão toda mole e repetindo “Ô Bazza Ô Bazza” sem parar, a voz escorregando pelos beiço, os olho virado pra cima, “Ô Bazza ôôô Bazzááá”. Odeio quando o Índio Americano me chama assim. Meu nome é Barry, caralho. Me chama pelo meu nome, corno bichola filho de uma puta.

— Mas o Stuart chama você de Bazza, qual é o problema?

— O Stuart me chama assim porque ele é meu parcêro, caralho. E além de tudo ele é escocês e todo mundo sabe que esses porra não conseguem falar direito. Mas tudo bem, eu sou um cara de bom coração. Me chama do que cê achar melhor com esse sotaque de manjarrola de Dublin 4, só desafasta essa mão suada do meu braço e fala logo o que cê quer.

Foi eu terminar de dizer isso e o Índio Americano solta uma gargalhada tão alta que pra falar a verdade me dá até um pouco de medo. Aí eu falo de novo:

— Porra, indígena. Jesuis. Não me torra o saco, parcêro. Diz logo o que cê quer porque eu tenho mais o que fazer. Serinho. Tô pedindo numa boa.

E aí ele diz. Não, ele não diz. Ele faz. O filho da puta me abraça e começa a vomitar em cima de mim. O despertador deve ter tocado mais alto, o alarme deve ter deixado ele enjoado, sei lá que porra aconteceu, mas o Índio Americano tá me dando um banho de vômito e eu não tô fazendo nada. Não consigo nem reagir. Eu devia empurrar pra longe esse retardado que tá derramando tudo que tem nas tripa em cima de mim, mas não consigo fazer nada. Tem vômito na minha roupa toda, escorrendo pelo meu pescoço, um lixo completo. Mas puta que o pariu. O que eu faço com esse débil mental?

Fico parado esperando o idjota terminar. Parece que essa gosma nunca vai parar de sair de dentro dele. Daí ele me larga. Chego a ficar leve sem aquelas mão me apertando. Mas ele não parou de vomitar. Vira pro lado e vomita num cara que tava relaxando no sofá, que na mesma hora responde mandando uma bicuda bem no meio das perna do infeliz. Bêbado o cara sente menos dor, mas porra. Saco é saco. O Índio Americano desaba no piso e fica por ali mesmo, meio encolhido, ainda vomitando. Vida de idjota é isso aí. Respiro fundo e meu nariz me lembra que eu tô coberto de vômito. Seguro a vontade de também dar um chute no Índio Americano e vou abrindo caminho até o banheiro.

Depois de um milhão de cotovelada chego o mais perto que consigo da porta do banheiro, que tá com uma fila gigantesca. Odeio fila. É coisa de comunista e comunista é tudo um bando de maconheiro. Tudo hippie. Barbudo e o caralho. Mas é uma puta que pariu mesmo. Esses comuna me dão nos nervo, parcêro. Jesuis. Pela primeira vez na noite presto atenção no som que tá rolando na festa. God bless you please Mrs Robinson heaven holds a place for those who pray hey hey hey ? Mas que caralho de cu é esse? Não faço a mínima ideia de quem tá colocando o som, mas é certo que deixou a noção em casa. Vai ver é outro idjota do naipe do Índio Americano. O vômito na minha roupa tá fedendo, meu pau tá ardendo de vontade de mijar e a fila não anda. Jesuis! O banheiro lá de cima. Parcêro, de tanto conviver com esse monte de retardado eu devo tá ficando meio idjota mesmo. Lá em cima tem um banheiro sempre liberado e eu aqui, sofrendo numa fila cheia de vagabundo que daqui a alguns minuto vão ter começado a mijar direto nas parede. Eu sei como é. Até ajudei o Stuart a lavar uma vez. É foda. Gente sem educação me trinca os ovo.

Uso de novo os cotovelo pra abrir caminho e passo voando pela escada, o pau desesperado de vontade de largar uma água, quase esquecendo que a coisa que ele mais quer é se meter dentro de uma polaquinha e ficar entrando e saindo, saindo e entrando, dando soquinho no útero, dentro e fora, fora e dentro, jesuis, é hoje. Aí chego na frente da porta azul do banheiro vip, meto a mão no trinco e a porta não abre. Como assim, trancada?

— Porra, Stuart. Tô encharcando as cueca, parcêro. Sai logo de uma vez.

Nada. Continuo batendo na porta, cada vez mais forte. Ninguém responde.

— Tá comendo aquela feia?

Nada. Grito de novo, caprichando no “feia”.

— Tá comendo a feia, caralho? Comendo a fêêêêêa? Vai pro seu quarto fazer isso, porra!

Feia. Muito feia. Feia pra caralho. Tá comendo o monstro no banheiro, filho da puta? Dou mais um soco na porta. Nada. Meu pau fica ardendo como se tivesse cheio de vinagre. Dá vontade de tirar pra fora e mijar ali no corredor mesmo, mas aí lembro que depois eu vou ter que aguentar o cheiro durante um bom tempo e desisto. Além do mais, eu tenho educação. Não sou como esses corno. Não sou itinerante, não sou cigano, não sou preto, não sou imigrante. Posso ter escolhido não fazer nada da minha vida, mas sou um cara decente. Mas agora eu tô todo vomitado e louco pra mijar na porta de um banheiro trancado onde ninguém responde. Ah, caralho. Que se foda. Vou meter um chutão nessa porta, nunca que o Stuart vai achar que fui eu. Ele ri da minha cara porque eu falo obrigado, por favor e essas coisas. Nunca que vai botar a culpa em mim. Idjota. Dou o chutão.

A porta se arregaça toda e a primeira coisa que enxergo, mesmo com a luz apagada, é alguém caído no piso do banheiro com a cabeça apoiada na beira da privada. Pela saia dá pra ver que é fêmea. Jesuis, hoje em dia nem mulher se dá mais ao respeito. Tudo um bando de perdida. Vou chegando perto e daí eu vejo. É a vagabunda. Não, não a Agnieszka. A outra loira. É a Stefka, a tcheca que é casada com o Magnus. A privada tá cheia de vômito. Puta que o pariu, hein. Não sei se sou o cara com mais sorte ou mais azar nesse mundo. Antes de pensar em qualquer outra coisa vou abrindo as calça e começo a mijar na pia, bem delícia. Vai, meu bom. Derrama gostoso. O mijo não para de sair e vai enchendo a pia de espuma, escorrendo aos pouco pelo ralo. Último jato. Alívio total. Pareço outra pessoa agora.

Abro a torneira pra dar uma lavada e tiro minha camisa suja. Quando o cara tá se mijando não consegue pensar em mais nada. É engraçado como o pau comanda a cabeça do sujeito. Se o pau quer mijar, o cara só pensa nisso. Se o pau quer se enfiar num buraco, o cidadão faz tudo que pode pra conseguir uma racha. Agora que resolvi o problema do mijo, eu voltei a pensar em foda, e a gostosa da mulher do Magnus tá bem do meu lado, toda arruinada. Tomo o último gole da Druids, largo a garrafa na pia e tento trancar a porta de novo. Nem rola. Meu chutão fudeu tudo. A porta até que fecha, mas não tem como trancar. Azar. Encosto e era isso.

Acendo a luz e me agacho do lado da tcheca. Ela tá mesmo apagadaça. Tem um fio de baba grossa escorrendo da boca dela direto pra dentro da privada. E vômito por tudo que é lado, tanto azedume que rapidinho nem sinto mais o cheiro. Olha só, minha querida, vou dizer uma coisa aqui entre nós: cê tá toda imunda, mas até assim cê é gata pra caralho. Se todo imigrante fosse que nem você eu mandava abrirem de vez as perna da Irlanda. Pelo menos pras mulher. Aproveito o estadinho da criatura pra dar uma conferida de qualidade. Jesuis. Que rabão, parcêro. Não preciso nem de um minuto olhando aquilo pro meu pau ficar pronto pra guerra. Dou uma chacoalhada pra ver se ela acorda. Nada. Não se mexe, não abre os olho, não chega nem a grunhir alguma coisa. Levanto, pego uma toalha e passo na boca dela pra limpar as baba. Tomara que ela não espere que eu vá ficar de beijinho na hora da ação. Eu me agacho de novo, fico cutucando as costela da vadia e mandando uns acorda aí, meu amor. Nada. Resolvo mandar tudo à merda e levar ela pro meu quarto, onde a gente vai poder conversar com mais calma.

Ainda bem que ela é baixinha e leve, porque foi só colocar a vadia no ombro pra me dar conta que não tô nas melhores condição. Dou uma respirada legal e faço um bico pro ar sair com força. Fico com medo de tá apertando a barriga da tcheca. Sei lá, vai que ela ainda não vomitou tudo que tinha que vomitar. Vou caminhando devagarinho até a porta. Quando tô quase com a mão na maçaneta, alguém grita do outro lado.

— ô filho da puta!

Jesuis. Pela voz é o Stuart. Se ele tentar abrir a porta vai me pegar e certo que vai descer as escada correndo e contar pra todo mundo que eu tô carregando nas costa uma tcheca toda suja de vômito, só pra queimar meu filme de vez com a mulherada. Conheço bem esse corno, ele não resiste. Fico bem parado.

— ô viado de bosta!

Não mexo nem um pentelho.

— ô itinerante!

Começo a achar a Stefka meio pesada. Sinto a barriga dela se tremendo toda no meu ombro. Caralho. Acho que vai vomitar de novo.

— ô caralho! — o Escocês tá gritando tanto que até ficou com a voz meio fininha.

Sinto uma cachoeira de vômito escorrendo pelas minhas costa. Puta merda.

— Cê não vai abrir, Bazza? Então tá.

Ela para de vomitar. Acho que esvaziou tudo que tinha dentro das tripa. Silêncio do outro lado. Que bizarro. Por que essa bichola só ficou gritando? Era só entrar, porra, a porta tava aberta. Acho até que era só bater pra porta se escancarar. Ah, mas pau no cu dessa porra toda. Eu quero é meter e vai ser agora. Continuo parado por mais um tempo, giro a maçaneta e abro a porta. Ninguém. Mas é um escroto mesmo esse Escocês. Vou caminhando o mais rápido que consigo até chegar no meu quarto. Antes de fechar a porta, olho pra trás e enxergo uma trilha de pegada de vômito. Largo a Stefka no colchão, corro de volta pro banheiro e saio enxugando a porra toda com uma toalha. Depois volto pro quarto, jogo a toalha suja num canto, tranco a porta e tiro o resto da roupa.

Ainda bem que ela tá de saia, nada melhor pra facilitar o trabalho. Vou logo arrancando a calcinha. É preta e toda cheia das frescura, renda e o cacete. Essas puta escolhem sempre esse tipo de calcinha quando saem de casa pensando em dar. Saiu de casa com coceira na xota, não foi, minha filha? Então se prepara que já vou aplicar o remedinho. Remedião. Meu cacete é uma viga de aço que brota de uma floresta de pentelho em chamas. Quase não se depila essa safada. Mas olha só, é loira mesmo. Material genuíno. Que beleza. Vou logo metendo o nariz. Ahhh, que coisa maravilhosa. Isso sim. Se fosse uma hippie da O’Connell eu morria na primeira fungada. Ela resmunga alguma coisa mas nem abre os olho. Meu pau tá doendo de tão duro. O cabeção tá parecendo uma ameixa, quase se explodindo. Então tá, meu amor, cê vai pro sacrifício dormindo mesmo. Mas não sem camisinha, porque apesar do que dizem por aí eu sou tudo menos idjota.

Reviro a gaveta atrás da camisinha e quando encontro o negócio meu pau já ficou mole. Aí eu me ajoelho do lado da tcheca do Magnus e começo de novo a mexer nela pra ver se o capitão volta a ficar em posição de sentido. Só de eu passar a mão no rabo dela o garoto fica todo animado de novo, aí aproveito pra colocar a camisinha. Mas dá merda. Não sei quem foi o idjota que espalhou por aí que colocar camisinha é fácil. Na verdade nem sei se teve alguém que disse isso, mas se teve é um palhaço filho de uma puta que nunca tentou comer alguém usando essa porra. O negócio entala na chapeleta e não desce mais. Fico me mordendo e tentando de tudo pra ver se a borracha desliza. A tcheca dá outro resmungo e se mexe um pouco. Já vai, minha filha. Já vai. É só eu terminar de desenrolar esta merda aqui.

Mas não consigo. O anel de borracha travou depois do cogumelo e não desce nem fudendo, parece que vai até decapitar minha piroca. Passo tanto nervoso que o pau amolece de novo. Eu não devia ter bebido tanto, mas agora já era. Começo a ficar puto. Porra, quer saber? Vou é botar pra dentro sem camisinha mesmo. Que se foda. Não aguento mais, preciso me esvaziar. Inauguro os dedo dentro das carne da Stefka, mas aí a coisa fica mais feia que a mulher que o Escocês tava agarrando lá embaixo. Meu pau não endurece mais. Não sei que porra tá rolando, mas meu cacete faleceu e não parece que tá a fim de voltar pro mundo dos vivo nunca mais. Fico de pé no meio do quarto, com a tcheca toda molhada e deitada de perna aberta bem na minha frente, mas não acontece nada com meu pau. Puta que o pariu. Só pode ser dor na consciência. Só pode ser. É essa porra do meu bom coração. Essa merda de consciência que eu tenho. A mulher tá desmaiada, não é certo se aproveitar, se liga que daí é estupro, e ela é casada, cê conhece o marido dela e tudo, ele é até seu amigo . Ãrrã. Sei. Pensar esse tipo de coisa é a maior bichice da face da história, só que é bem esse tipo de ideia que não me sai da cabeça. Jesuis. Essa daí é puta profissional, todo mundo sabe. Todo mundo menos o Magnus, que é bem burrão e acredita que ela só faz dancinha. E porra, se ela apareceu no sobrado é porque tava querendo ser recheada. Por que eu não sou mais fiadaputa, hein? Se eu não tivesse essas frescura já ia tá fazendo omelete com os ovário dessa gostosa. Puta que pariu. Ter bom coração é coisa de idjota, parcêro.

Sento no colchão com as mão enfiada na cabeça. Não tem mais o que fazer. Nessa altura do campeonato a Stefka já virou de rabeta pra cima e tá até roncando. Desisto. Vou é dormir, caralho. Que se foda isso tudo. Que se foda. Meio tonto de tanta bebida e azar misturado, me deito do lado dela e fecho os olho. Cê não perde por esperar, minha filha. Sei que quando acordar cê vai querer dar pra mim. Sim, é certo que vai. Cê sempre quis, né. Eu percebia. Admite. Sempre quis. Cê me quer. Tô sabendo. Espera só um pouquinho. Espera só raiar o dia que cê vai ver o que é levar rola.

§§§

Abro os olho com a boca toda babada, encostada numa piscina de cuspe morno no colchão. Tá tudo quieto. É sempre assim quando eu encho a cara, não consigo dormir muito tempo. Esfrego os olho e dou uma olhada no resto do quarto, só pra ter certeza que a Stefka não se arrastou até algum canto pra vomitar de novo e resolveu ficar por lá. Mas que nada. A tcheca sumiu e só deixou de lembrança uma poça de vômito ao lado da cama com as calcinha preta bem no meio, tudo lambuzada. Vai ver tentou limpar a cacaca. Já deve ser dia claro, mas essa porra de quarto tá sempre escuro pra caralho por causa das cortina que eu fiz. É foda. Antes não dava pra dormir porque o quarto era claro demais e só tinha umas janela de vidro, aí pegava sol a manhã inteira bem em cima do colchão. Aí tentei resolver o problema e fiz essas cortina com uns cobertor, mas daí o quarto fica escuro o dia inteiro porque o tecido é grosso demais e não tem jeito de prender ou enrolar. Jesuis. Não adianta. Por mais que o cara se esforce as coisa nunca ficam perfeita. E ainda por cima é úmido pra cacete aqui dentro, tudo fica mofado, meu Gamecube estragou. Não vou ficar reclamando porque moro aqui de graça, mas que lixo imundo esse lugar. Deito de novo e tento tirar mais um ronco.

§§§

Não consigo. Fico pensando que além de não ter comido a tcheca também perdi a racha polaca. Devo mesmo ser idjota. Dou uma olhada pro meu pau todo encolhido. É o menor pau mole da face da história, não tenho dúvida. Filho da puta, me deixou na mão. Culpa da porra da camisinha. Nunca mais vou usar essa merda. Que se foda. Umas carne imigrante arreganhada na minha frente e eu sem poder botar pra dentro. Nunca mais, parcêro. Pode anotar isso daí. Camisinha nunca mais. O recado foi entendido. Se você acha camisinha inconveniente, experimente ter gonorreia! Ah, mas vai se foder. Chupa minhas prega bem gostoso, bichona do governo que inventou essa campanha de merda. Cê acha gonorreia inconveniente? Então experimenta não comer ninguém, ô filho da puta.

Quando me viro de bruço pra ver se rola mais um sono, escuto uns barulho no corredor. Rá. É a bichola do Stuart querendo me sacanear de novo. Uma vez eu tava dormindo podre de bebum e ele veio de manhã e me jogou um balde de água suja na cabeça. Ficou ali se rindo todo com a porra do balde na mão. Depois dessa ele tentou fazer a mesma coisa mais de um milhão de vezes, mas eu comecei a botar uma cadeira na frente da porta, cheia de traste e lata vazia em cima, pra fazer barulho quando ele tentasse abrir. Mesmo assim o corno não desiste, e pra variar tá tentando de novo. Jesuis, como é burro. Mesmo acordado, eu me levanto e começo a encostar a cadeira na porta só pra ele ver que eu tô ligado e que ele não vai mais me pegar de calça curta, que foi só aquela vez e nunca mais, mas aí me veio outra ideia.

Desisto da cadeira e me grudo na parede bem ao lado da porta. Quando ele abrir eu vou tá de tocaia lá atrás e quem vai tomar uma ruim é ele. Se fudeu. A porta abre bem devagar, o Stuart tentando não bater na cadeira pra eu não acordar com o barulho. Jesuis. Que esperto que cê é, Escocês. Crânio, mesmo. Corno. Vou botar no seu cu. Ele se liga que dessa vez não tem cadeira nenhuma e abre a porta toda sem fazer barulho. Entra uma luz forte de fora do quarto, já deve ter passado das dez da manhã. Mesmo sem pegar direto nos meus olho, o clarão me dá um pouco de dor de cabeça. Ressaca é uma merda. Não consigo enxergar o Stuart, mas dá pra calcular que ele deve tá parado na frente da porta. Dou um pontapé pra ela se fechar, enxergo o vulto do Escocês pulando meio cagado de susto pro meio do quarto, pego impulso e dou uma voadora com os dois pé, berrando:

— ir-laaaaannnn-dáááááaá!

A voadora sai meio errada e eu desabo por cima dele, os dois se esborrachando no piso. Aí me levanto pra não tomar umas porrada e entendo rapidinho por que foi que o Stuart caiu tão fácil. Porque não era o Stuart. Caralho, não era o Escocês. Caralho. Era a vó Aoife. Fico de pé num pulo só. puta que pariu eu dei uma voadora de dois pé e caí por cima da vó aoife. Ela tá caída no chão segurando um cobertor, paradinha. Acorda, vó Aoife. Pelamordedeus. Acorda, é o Barry. Eu tava só brincando, achei que era o merda do seu sobrinho. Mas a veia não se mexe, tá dura no chão com os olho e a boca bem aberto. Coitadinha, ela tava indo me cobrir. Coitadinha. Mas o que foi que eu fiz, caralho? Dou uma olhada no corpo e ela tá inteirinha, não quebrei nada. mas puta merda vó aoife nem tá fazendo frio caralho porra que merda é essa de usar cobertor no verão porra porra . Jesuis. Não dá pra ficar berrando assim, preciso me controlar. Ainda bem que o Stuart bêbado não acorda nem na base de chute na cara. Só quando acorda sozinho, claro. Puta merda. Se ele não tiver dormindo eu me fudi. Olho de novo pras mão da vó Aoife agarrando o cobertor com toda força. Tento puxar, mas o cobertor não sai. Como assim, caralho? Ainda nem deu tempo dessa veia ficar dura, o corpo nem esfriou ainda. Que porra é essa? Tento abrir os dedo dela, um de cada vez, mas nada. Sento do lado do presunto e fecho os olho, mas logo me levanto de novo. Não dá pra perder mais tempo. Vai que o Escocês acorda. Aí eu me fodo de vez. Só tem uma coisa a ser feita.

Boto a vó Aoife nas costa e na mesma hora quase caio e dou de testa na parede, de tão tonto que fiquei. Acho que ainda tô meio bêbado. Ontem à noite eu tava com uma gostosa vomitada no lombo, agora tô carregando uma veia morta. Uma gostosa que eu não comi e uma veia que eu matei. Jesuis. Tenho mais é que me fuder, mesmo. Vou andando devagarinho, segurando bem a vó Aoife e apoiando uma das mão na parede do corredor. A merda do cobertor que ela não larga mesmo depois de morta fica se enrolando nas minhas perna e eu quase desabo duas vez. Que bonito que ia ser. Mas aí consigo chegar no quarto da veia, boto ela deitada na cama e ajeito o cobertor em cima. Jesuis. Tá bem morta mesmo. Passo a mão em cima dos olho dela que nem em filme pra ver se fecha, e funciona. Com a boca não tem muito o que fazer, vai ficar escancarada mesmo. Tô me sentindo gelado. Melhor dormir.

Volto pro quarto e enxergo outra poça fria de vômito que eu ainda não tinha visto, bem do lado do colchão. Valeu aí, Stefka. Grande presença. Quando o Stuart acordar eu tô fudido, puta merda. Não vai ter ninguém mais fudido do que eu na Irlanda inteira. Fecho os olho.

§§§

Abro os olho meio que me afogando. O Stuart tá na porta do quarto com um balde vazio na mão, se rindo todo. O filho da puta me jogou água suja na cabeça de novo. Jesuis. Vou sentando devagar no colchão e digo:

— Caralho, Escocês, se fode aí.

Ele fica bem sério e pergunta:

— E aí, cê matou?

Parece que usaram uma máquina de vácuo pra chupar todo o ar da minha volta. Fico olhando pro cabeção do Stuart, aquela boca mole, e parece que meus dente vão cair sozinho um por um. Chego a ouvir o barulho deles se derramando tudo em cima do piso, por cima do vômito seco que a tcheca do Magnus, que eu não comi, me deixou de lembrança.

— Cê matou, Bazza? — o Stuart pergunta de novo, e aí eu tento falar alguma coisa e sai um fiapinho de voz ridículo, mais pareço uma bichola:

— Hein?

Ele larga o balde, chega mais perto de mim, dá um chute no colchão e berra:

— Cê matou a bola, parcêro?

Aí eu penso porra, era isso? Sim. Era isso! Parece que vou cagar nas calça de tanta alegria. Abro um sorrisão e o Escocês segue no discurso:

— Cê comeu a loira, né? Foi encomenda especial.

O Stuart olha pros meus dente à mostra e acha que eu tô dizendo que sim. Daí sai falando sem parar, massageando o próprio saco de um jeito que me parece impossível de não doer demais. Diz que a mulher no banheiro era uma stripper que ele e os trafi grego tinham resolvido chamar pra fazer uma coisa diferente na festa. Aí quando ela chegou ele deu uma conferida no material, decidiu que tinha chegado minha hora de comer alguém e bolou um plano pra me dar um presente.

— A gente deu um porre nela, fizemos queimar um skunk especial que o Índio Americano trouxe de Amsterdã e pronto, a vaca dançarina virou bela adormecida. Deixamo no banheiro de cima, só pra você. Eu e o Pássaro que carregamo o tesouro. Tranquei por fora e saí atrás de você pra entregar a chave do banheiro com o presente. Mas cê saiu correndo quando falei da loira, nem me esperou dar a chave. Aí subi aqui em cima e vi que cê tinha arrombado a porta. Deve ter sentido o cheiro, né, safado? Bem loucão. Daí fiquei batendo na porta só pra incomodar, mas acho que cê tava ocupado. Hahaha.

— Porra, Escocês. Calaboca — quando o Stuart se empolga não tem mais como fazer ele ficar quieto. Minha cabeça tá pulsando mais que a cabeça do meu pau duro ontem de noite. — Cê é chato pra caralho. Jesuis.

— Chato o caralho, ô bichola ingrata. Deixei a loira na sua. A gente tá em 2009, século XXI, ninguém é de ninguém. Tá ligado? Eu podia ter abatido a profissional com o Índio Americano. A gente podia ter comido ela sem pagar nem nada. Cê sabe como são essas estrangeira, ficam tudo doida quando pisam na Irlanda. Tipo essas espanhola que depois de umas duas semana já saem tentando escalar a Spire com a cabeça cheia de Guinness e a minissaia nas orelha. Cê sabe como é mulher, porra. Mas a gente deixou pra você, Bazza. Tá, mas e aí? Cê virou o senhor do anel? Tem um cuzão aquela loira.

Deve ter uma máquina de falar merda dentro das tripa desse filho da puta. Não pode ser. Só baixo a cabeça, tento segurar a vontade de vomitar e digo:

— Não, Stuart.

Aí o Escocês senta do meu lado no colchão todo molhado de água suja, bota a mão no meu ombro tirando uma onda de veterano e sai explicando:

— Como assim, parcêro? Olha só, Bazza. Toda mulher quer dar o cu. Repete comigo. Toda… mulher… quer… dar o cu.

Não repito. Não falo coisa nenhuma. Só consigo pensar na vó Aoife mortinha com o cobertor nas mão. E na tcheca do Magnus escancarada bem na minha frente e eu de pau molão com uma camisinha dependurada, mais parecendo uma gota gigante de catarro.

— repete, cacete — o Stuart grita e me dá um tapão nas costa que quase faz meus pulmão sair pelas orelha.

— Tá bom — eu me forço a repetir. — Toda mulher quer dar o cu.

— É isso mesmo que eu tava dizendo, Bazza — pronto, fodeu. Agora o corno se empolgou. O Stuart levanta do colchão e sai andando em círculo pelo quarto, falando pelos cotovelo. — O que não tá garantido é que vai ser pra você. Mas que ela quer dar o cu, olha, isso daí não tem discussão. E é nesse detalhe que entra em cena a sabedoria do guerreiro. Comer cu é uma arte, Bazza. Olha só.

Quando o Escocês se agacha na minha frente com pose de catedrático do sexo anal, minha paciência se acaba de uma vez e resolvo contar tudo. Tudo significa a história da mulher do Magnus, não a parte sobre a vó Aoife, porque eu até posso mesmo ser meio idjota, mas suicida eu não sou. Fico olhando pras unha do meu dedão do pé e digo de uma vez:

— Não, Escocês. Não meti em nenhum buraco. A loira nem me chupou. Não fiz porra nenhuma, tirando uma dedada. Não comi a Stefka.

Acho que o Stuart parou de respirar. Fica me olhando meio de boca aberta, com a língua pra fora da boca até a metade, ensanduichada bem no meio dos dente. É uma língua feia pra caralho, meio roxa desbotada e coberta de gosma branca. No meio daqueles dente acavalado e cor de laranja, cheio de mancha de cigarro, isso chama ainda mais a atenção. Até que daí ele fala:

— Não.

— Não o quê, Stuart?

— Cê comeu a loira.

— Não comi.

— Ah, comeu.

— Não comi, porra.

— Comeu sim.

— Não comi, caralho.

Aí ele se agacha de novo e fica me olhando daquele jeito com o cabeção quase colado na minha cara, aquela língua nojenta pra fora. Acho que tem até uns cogumelo crescendo nessa bosta. Aí ele me empurra pra trás com as duas mão e grita:

— mas puta que o pariu cê é bem bichola mesmo hein caralho bazza mas que porra é essa?

Sento de novo no colchão e explico a história da camisinha com a voz baixa. Não tenho energia nem pra respirar direito. Quando eu termino de contar o filho da puta cai na gargalhada.

— Mas só veado mesmo pra colocar essas borracha. Cê não tem jeito mesmo, parcêro. Mas tá, chega de falar do seu fracasso. Cê não tá com fome? Já passou da hora do almoço, nem sei por que a tia ainda não começou a fazer o rango.

Puta merda.

— É — saio mentindo, porque ao contrário de comer mulher isso eu ainda sei fazer bem direitinho. — Não tem cheiro mesmo. Que estranho. Vai ver ela foi na missa mais cedo, né. Hoje é domingo.

— Missa o caralho — Stuart vai dizendo enquanto sai do quarto, e daí eu fecho os olho. Jesuis. Hora de pensar onde vou morar daqui pra frente, isso se eu continuar vivo depois da surra. Será que tem lugar na casa do Magnus? Aí quem sabe eu consigo comer a Stefka. Porque ela queria. Ah, queria mesmo. Sempre quis. Dava pra ver.

— E hoje é sábado, ô idjota! — grita o Escocês no meio do corredor, e bem depois desse grito tudo fica bem quieto. — Tia? — eu escuto ele dizer uma vez. Duas. Três.

Tudo fica bem quietinho de novo até um barulho que parece um dinossauro gargarejando chegar pelo corredor. O Escocês tá urrando, dando uns soco na parede com toda força, chutando e quebrando um monte de bagulho. Levanto do colchão, caminho até a porta do quarto e enxergo ele vindo com tudo na minha direção. Fico com o corpo bem mole esperando o murro. Assim é melhor, dói menos. Mas daí o Escocês para bem na minha frente, todo vermelho e suado, grita umas coisa sem sentido com a mandíbula travada pra frente, agarra minha camisa com as duas mão e começa a esguichar lágrima.

— Minha tia morreu do coração! — ele berra, misturando choro e baba.

Aí eu dou um abraço no idjota, né. Que mula.

§§§

Abro os olho e vou direto pra cozinha. Nunca vi o Stuart tão sério e calmo. O viado tá tão branco que parece mais claro que os azulejo. Vai bebendo o chá bem devagar, sem reclamar do leite nem da falta de comida. Quando ele abre a boca, quase nem reconheço a voz. Toda tranquila. Até o sotaque tá diferente. Parece que botaram outra pessoa dentro daquele corpo, e essa pessoa me chama de Barry.

— Já procurei pela casa inteira, Barry — diz a pessoa de voz calma que se mudou pra dentro da carcaça horrenda do Escocês. — Passei uma semana revirando essa porra toda. Não tá em lugar nenhum. Só a tia sabe onde enfiou essa grana, e agora ela tá morta e enterrada dentro de um caixão do governo porque nem pra comprar um decente me sobrou dinheiro. Não tenho mais porra nenhuma.

Penso em sugerir que ele venda o sobrado, mas fico na minha. Não sou tão idjota assim e a coisa tá mesmo feia pra ele. Pra nós. Porque não é só uma questão de ter grana pra comer e encher a cara. Pra isso o Escocês pode trabalhar, porra. O problema é que ele também deve muito dinheiro. Pros trafi. E pior, pros trafi grego. Uns filho da puta que só não são cigano porque não são preto e só não são itinerante porque tomam banho e não usam bigodão. E uma parte desse dinheiro que ele deve, na verdade quem deve sou eu. Porque é uma grana que ele me emprestou nos últimos tempo. Pra alugar o escritório na O’Connell e pra comprar os besouro. Eu achava que o dinheiro era dele, mas o Escocês tinha pegado tudo emprestado com os trafi porque era mais fácil. A vó Aoife fazia jogo duro, tinha esse esquema todo de esconder a grana sei lá eu onde. Aí o Stuart achava mais fácil pegar emprestada uma bolada de cada vez e ir pagando aos pouco com o dinheiro pingado que a veia ia passando pra ele todo mês. Até agora eu não sabia de nada dessas porra. Os grego nem cobravam juro por causa da coisa toda de festa e o cacete, e porque ele sempre pagava mesmo. Mas agora não ia mais ter como fazer esse esquema, e era muita grana no último empréstimo. No dia quinze de outubro já ia ter que rolar o pagamento. Faltava três mês.

— Esses grego são tudo maluco. Usam espada ninja pra cortar as cabeça de quem deve pra eles, e depois jogam no canal. Cê sabe como é, Barry. Cê mesmo já me mostrou umas notícia sobre isso no jornal. A gente precisa pensar em alguma coisa. Quanto cê ganha mesmo com esse negócio dos lugar com fantasma?

Levanto da cadeira e começo a lavar as mão na pia, bem quieto. O dinheiro que anda rolando na empresa só dá pra eu comprar jogo e fazer umas merda por aí. Se fosse só eu e o Magnus na empresa tudo bem, mas depois de pagar o preto e o polaco não sobra muito. Talvez eu convença o Magnus a demitir os dois, mas ainda assim é pouca grana. E preciso admitir que sem eles pra ajudar o trabalho ia ficar bem difícil. Jesuis. Mesmo se o Stuart arranjar um emprego não vai ter como conseguir essa grana a tempo. São quinze mil euro. Esse escocês burro pegou quinze mil euro emprestado com uns traficante grego que enrabariam as própria mãe pra espantar o tédio e gastou tudinho pagando puta e pó pra metade de Dublin. E emprestando um pouco pra mim, que na real sou o único amigo dele e mereço mesmo porque aguentar esse traste é um negócio mais heroico que as história do Cú Chullain que minha mãe contava quando eu era pirralho. Não tem jeito de conseguir quinze mil euro assim do nada em três meses. Só se a gente cair na bandidagem também, ou bolar um plano muito bom. Vou ter que pensar pra caralho agora, porque se a nossa salvação for depender dos miolo do Stuart, daí fudeu geral mesmo. Fico olhando pra cara dele, que tá chorando de novo. Não parou com o choro desde que a veia bateu as bota. E quem matou ela fui eu. Eu, porra. Foi sem querer, mas fui eu.

Matei a vó Aoife. Os besouro não tão se reproduzindo. Não comi a irmã do Zbigniew. Não comi a mulher do Magnus. Tamo devendo dinheiro grosso prum bando de traficante assassino da Grécia com uns nome estranho pra caralho, tipo sei lá, Charalambos Chorianopoulos. O pangaré do Stuart só consegue chorar e ficar escavando o quintal atrás da fortuna que a veia escondeu tão bem que parece ter sumido. E quem vai ter que resolver essa merda toda? Bartholomew O’Shaugnessy, é claro. O orgulho da República de Cork. Então vamo nessa, eu vou cuidar direitinho desse assunto. Deixa comigo. Mas agora chega de surpresa, na boa. Por favor. Serinho. Não dá mais, parcêro. Tá bom assim. Mas pensando bem, que porra ainda pode acontecer depois de tanta merda? Jesuis. Alguém precisa dizer pro homem de preto que o recado foi entendido.

 

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