Digam a Satã que o recado foi entendido

Daniel Pellizzari · Capítulo 5 de 5

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Digam a Satã que o recado foi entendido

Crianças do milho

três meses depois

Fevereiro de 2010

Feabhra 2010

 

OceanofPDF.com

Chicomecoatl é a deusa asteca do milho, e sua vingança por tudo que os europeus fizeram com seu povo foi absolutamente impiedosa. Nem Xipe Totec, seu companheiro de panteão encarregado da guerra e da morte, eternamente vestido com uma pele humana esfolada, conseguiu reagir de um modo tão terrível. Séculos após a derrocada da civilização asteca nas mãos de Cortés e outros imperialistas espanhóis, o mundo inteiro se alimenta de milho. Milho in natura, farinha de milho, amido de milho, glicose de milho na maioria dos produtos alimentícios processados e industrializados. Difícil encontrar algum que não registre a presença desse grão. E em cada partícula de milho vive a consciência de Chicomecoatl, trabalhando para deixar a humanidade inteira doente. Obesidade. Diabetes. Câncer. Todo tipo de doença degenerativa. Tudo culpa do milho, o assassino silencioso. Apesar de responsável pela principal fonte de sustento de um povo numeroso, Chicomecoatl nunca se destacou pela misericórdia. Sua desforra não perdoa nem crianças que se empanturram de pipoca e refrigerantes adoçados com xarope de glicose de milho. Em cada estalo crocante de Doritos a gargalhada escarninha de Chicomecoatl, a morte lenta e enganosamente prazerosa concedida pela deusa-mãe de uma civilização gloriosa arrasada por invasores ignorantes, barbados e fedorentos.

De novembro em diante me alimentei somente de espigas de milho, pipoca, tacos sem recheio, Doritos e Jack Daniels, tentando convencer Chicomecoatl a me levar embora de uma vez. A derrocada do meu império pessoal teve início com o meu último encontro com Laura, uns dez dias depois da explosão que não aconteceu em Temple Bar. Eu estava sentado meio corcunda no balcão do Hairy Lemon, mastigando devagar as últimas batatas do meu coddle, quando ela apareceu.

— Sabia que você ia estar aqui — disse com aquela risada que não causava mais efeito nenhum em mim. Restava apenas um buraco onde antes havia uma resposta fisiológica que um dia eu tinha imaginado ser alguma coisa além disso.

— Você e seus amigos acham que sabem coisas demais, Laura — respondi de boca aberta, sem engolir as batatas nem olhar para ela. — Mas são um bando de pirralhos mimados. Não consigo acreditar que ninguém foi preso depois de tanta palhaçada. Que fim levou o Tony, hein? Onde foi que ele se escondeu? Será que lá tem modelador de penteado?

Laura riu de novo, e dessa vez eu ri também. Ficamos bebendo até o pub fechar. Enquanto enxugávamos os pints de Guinness Black Lager ela me contou que a menina que eu tinha visto e seguido pelas ruas de Howth era mesmo o irmão dela.

— Já explico essa parte — ela disse, ao ver minha expressão confusa. — Primeiro quero contar uma outra coisa.

Antes de partir numa viagem da qual ainda não tinha voltado nem ao receber a notícia do reaparecimento do menino, a mãe de Laura tinha enfim revelado a origem da filha. Foi a palavra que Laura usou, origem. Como se estivesse falando da gênese canônica de um super-herói da Marvel. Eu nem fazia ideia que ela não conhecia o próprio pai.

No final dos anos 1980, Dublin também teve sua cena acid house, inspirada pelo que estava acontecendo em Londres. Lucia, a mãe de Laura, foi uma das adolescentes que mergulharam na versão irlandesa do Segundo Verão do Amor. Acabou engravidando aos dezesseis de um tal Kevin Donohoe, um órfão malucão de dezessete anos que tinha se tornado uma espécie de celebridade local. Estava em todas as festas, sempre dançando sem parar com um par de maracas, imitando o Baz do Happy Mondays. Nunca se casaram, mas após a confirmação da gravidez, Kevin foi morar com Lucia e os pais dela. Pouco tempo depois do primeiro aniversário de Laura, em abril de 1991, ele despirocou de vez. Três anos tomando ecstasy e LSD em quantidades pantagruélicas acabaram cobrando um preço.

Kevin começou a não falar coisa com coisa. Mencionava pessoas que não existiam e ficou obcecado por Crom Cruach, uma divindade celta em forma de serpente para quem se faziam sacrifícios humanos e, segundo a lenda, foi derrotado por São Patrício. O avô de Laura, um imigrante judeu persa, expulsou Kevin da casa e em seguida ele desapareceu. Em 1992, uma amiga de Lucia contou ter encontrado Kevin em Berlim, por acaso. Ele estava usando uma picareta para arrancar pedaços do Muro, derrubado três anos antes. Contou que estava viajando pela Europa com uns ciganos new age e depois tentou enxergar a aura dela e começou a falar de cobras. Depois disso, nunca mais Lucia teve notícias do sujeito.

— Vai ver morreu ou foi internado — Laura suspirou meio indiferente, como se estivesse falando da história de outra pessoa. — Ou virou pescador na Noruega, sei lá. Não me importa. Passei a vida inteira querendo descobrir a verdade, e agora que fiquei sabendo, tudo que consigo sentir é tédio.

Alguns anos depois, Lucia engravidou de novo, agora de um estudante de Administração da University College Dublin. Muito rico. Dessa vez se casou, o sujeito adotou Laura e uns meses mais tarde nasceu o irmão mais novo, Glen. Laura explicou que agora ele atendia por irmã mais nova, e se chamava Patricia.

— Ah, já que a gente está falando sobre nomes — aproveitou. — Meu sobrenome não é Cohen, tá. Eu inventei isso. Meu nome é Laura Heaney, que é o sobrenome do meu pai que não é meu pai de verdade. Não que isso faça diferença hoje em dia. Ninguém mais usa o nome verdadeiro mesmo.

— Meu nome de batismo é Magnus Factor — protestei sem muita vontade. Porque era mesmo.

Depois que o Hairy Lemon fechou, seguimos direto para minha casa. Enquanto Laura entrava no apartamento, varri com a mão os sacos vazios de pipoca de micro-ondas que cobriam o sofá. Assim que nos sentamos, quando fiz menção de ligar o Saturn, ela me perguntou com uns olhos meio caídos:

— Não vai me beijar?

Respondi mencionando a promessa que ela tinha me pedido para fazer no Fibber Magees. Ela segurou de novo minha cabeça com as duas mãos, do mesmo jeito que tinha feito naquela outra noite, e disse:

— Queria que pelo menos hoje você fosse um homem como os outros. Que nunca cumprem promessas.

— Mas de jeito nenhum — protestei. — Não pela promessa, que em si não tem nenhum valor legítimo e muito menos qualquer peso moral. Ainda mais uma promessa negativa como essa que você me obrigou a fazer, uma declaração de intenções ao contrário. Não vou fazer coisa nenhuma, Laura. Pode desistir. Não por ter prometido, mas porque é a coisa certa. Isso não tem cabimento. Eu sou um adulto responsável, e você…

Então ela avançou para cima de mim e calou minha boca fazendo o que eu deveria ter feito.

§§§

Foi mais ou menos. Laura beijava bem, mas depois que tirava a roupa, todas as insinuações de bandidagem se desmanchavam no ar. Mesmo bêbada ela ficou meio encabulada, pedindo para eu apagar a luz, escondendo o corpo e dizendo não faz isso, não faz aquilo. Cheia de frescuras. Não me dou bem com esse tipo de mulher, porque eu também fico constrangido. Começo a pensar obsessivamente no que estamos fazendo e tudo fica meio travado, automático. Sexo não combina com autoconsciência massacrante e análise objetiva em tempo real.

Mas pegar no sono abraçando ela por trás foi muito bom. Quando acordei, ela não estava mais na cama. Tive um ligeiro flashback que passou quando percebi que em cima do travesseiro havia um bilhete. Esfreguei os olhos e comecei a ler, mas estava escrito com letras que mais pareciam um alfabeto cuneiforme. Sem paciência nenhuma para aquela coisa besta, piquei o bilhete em pedacinhos bem miúdos. Caminhei até o banheiro, joguei tudo dentro da privada, bombardeei os fragmentos de papel com jatos da minha urina matinal e puxei a descarga. Nunca mais encontrei Laura. No começo de janeiro tive um surto pontual de saudade, fiz uma pesquisa rápida na internet e descobri que ela tinha ido estudar no Canadá. Melhor assim.

De todas as peças que formavam minha vida recente em Dublin, não me tinha sobrado muita coisa além da minha coleção de videogames. Estava sem trabalho, com amores zerados e amigos também. Descobri que Zbigniew tinha se matado depois que li as centenas de comentários deixados na última coisa que ele tinha postado em seu perfil no Bebo: as palavras “Agora sim”. Fora Agnieszka, nem sei de onde tinha saído toda aquela gente. Mesmo na rede social, Zbigniew nunca tinha dado sinais de se relacionar com muitas pessoas em Dublin além dos colegas de trabalho e da irmã. Lendo e relendo aquela tripa interminável de comentários sem sentido, de certo modo compreendi o último ato do nosso polonês. Como seguir vivendo se todo momento é agora, se todo lugar é aqui, se todo pensamento é compartilhado, por mais insignificante que seja?

O miolo dos comentários no último post de Zbigniew, intercalado por inúmeras variantes de “Descanse em paz” deixadas por pessoas aleatórias, era um arremedo de debate sobre o ato suicida. Quase nenhum dos participantes conhecia Zbigniew de fato, disso eu tenho certeza. Eram apenas figurinhas num banco de dados dedicado a gerar receita com publicidade. Uma horda ávida por tagarelar sem ponderação alguma, emitindo opiniões compulsivas sobre qualquer coisa como se esse desespero servisse para confirmar sua existência. Discussões em que o único objetivo é vencer, sem nenhum espaço para a empatia, nenhum sinal de reconhecimento do outro. Vence quem posta o primeiro comentário ou afeta o descaso mais sarcástico, a ironia mais rasteira, substituindo qualquer vestígio de emoções humanas genuínas. Uma vida inteira reduzida a um jorro de texto que não passaria pelo crivo do filtro de spam mais rudimentar. Enojado, cliquei no nome de Agnieszka para enviar uma mensagem particular. Desisti quando o browser carregou o perfil da irmã do meu amigo e a atualização mais recente mostrava uma fotografia em resolução ruim da tabuleta que Zbigniew tinha pendurado no peito antes de se dependurar pelo pescoço. Surto Dublinês de Suicidioses, 2007, anunciava a inscrição em letras bem grossas. Fechei a aba e em seguida apaguei meu perfil no Bebo e minha recém-inaugurada conta no Facebook.

Fui visitar Seewoosagur em casa, um apartamento minúsculo nos blocos da Lower Frederick, onde ele morava sozinho. Queria pedir desculpas pela confusão, pela idiotice com os dodôs, por tudo. Seewo era um cara instruído e de boa índole, que nunca tinha feito por merecer a campanha de humilhação promovida por Barry e que suportou com estoicismo até explodir naquela manhã na Henry Street. Os blocos de dois andares pareciam peças de um lego triste. As portas dos apartamentos, que davam direto para a rua, estavam pintadas em cores básicas, imitando as portas das casas georgianas. Mas o colorido desse simulacro kitsch era o único sinal de vida naquelas construções. De resto, eram catedrais do mau gosto e da opressão habitacional, com tubulações metálicas entrando e saindo pelas fachadas de tijolos escuros e ladrilhos rosados, tudo produzido com os materiais mais baratos que a empreiteira conseguiu encontrar. Nos tapumes do outro lado da rua, cercando um terreno vazio onde antes havia mais blocos, alguns cartazes de Demolição em progresso. Todas aquelas construções, nódoas purulentas dos tempos de privação econômica, estavam marcadas para desaparecer e dar lugar à nova Irlanda, com seus imóveis ordinários mas nordicamente decorados e vendidos a quantias inacreditáveis. Mas Seewo não estava em casa. Insisti na campainha por alguns minutos, até que o vizinho do lado abriu a porta:

— Tá atrás do preto que morava aí? Foi embora pra Londres, e já foi tarde. Esse aí fedia mais que itinerante.

Sobre o destino do Barry quem me informou foi o noticiário da RTÉ. Encontraram a cabeça do infeliz boiando no Grand Canal, amarrada com arame na cabeça decepada do escocês que morava com ele, como se estivessem se beijando. Dentro da boca de cada um, os genitais do outro. Ainda estavam procurando os corpos. Essa notícia serviu como deixa para uma reportagem especial exibida na semana seguinte a respeito de uma onda crescente de assassinatos relacionados ao tráfico de drogas, com uma violência que não tinha mais sido vista desde os anos 1990. Outras coisas que me chamaram a atenção ao se materializarem na tela da tevê naqueles dias de ingestão compulsiva de milho: a investigação policial sobre um artefato explosivo caseiro encontrado em Temple Bar, outro inquérito sobre o mistério do roubo do coração de São Valentim e um documentário sobre a profecia maia para o fim do mundo em 2012. Como sempre, a humanidade perdia tempo olhando para o lugar errado mesmo com a verdade sacudindo o rabo bem na sua frente. Tantas pessoas se preocupando com os maias e ninguém dando a menor bola para a vingança dos astecas. Fazer o quê.

Depois disso os dias se tornaram uma coleção de repetições. Andar a esmo pela cidade, encher a cara no Hairy Lemon, cravar novos recordes em shmups, tentar pensar em não pensar no que fazer para ganhar dinheiro com as economias chegando ao fim. Eu teria voltado para casa, se soubesse onde ficava. Mas como eu não tinha mais certeza sobre coisa nenhuma, resolvi ficar parado no mesmo lugar para ver se minha casa acabava me encontrando. E de um modo torto, como tende a ser tudo nessa minha vida, foi bem isso o que aconteceu.

Uma noite a campainha irritante do meu apartamento zumbiu. Uma, duas, muitas vezes. Levei algum tempo para me descolar do sofá. Abri a porta e só reconheci aquela figura esférica, com cabelos muito curtos pintados de um vermelho quase tão vivo quanto o do batom, imensos brincos de argola e um casaco felpudo com padrão de oncinha, quando ela abriu a boca.

— Desculpa — foi a primeira coisa pronunciada por Stefanija. — Desculpa — ela repetiu, grávida, chorosa e praticamente uma desconhecida.

— Ah — reagi. — Você.

— O Bazza morreu — ela disse, passando a mão na barriga.

— Eu sei. Vi na tevê.

Stefanija fez menção de me abraçar com um gesto teatral, mas sacudi a cabeça em negativa e cruzei os braços. Mesmo de cuecas eu ainda precisava manter a dignidade.

— Não sei mais o que fazer da vida, Magnus — ela voltou a se lamentar, com os olhos inchados. — Não tenho nem onde ficar. E nessa situação em que estou… Mas eu sei que meu amor verdadeiro é você.

— Cala essa boca, por favor — olhei para o teto e tentei me concentrar na teia de aranha que decorava um dos cantos da sala.

Então ela começou toda uma ladainha da qual só escutei metade, explicando tudo que tinha acontecido com ela e conosco nos últimos sete meses. O namoro com Barry. A gravidez. Na versão de Stefanija, ela naturalmente tinha sido seduzida e enganada, e a culpa de tudo era cem por cento do ruivo cadáver. O pior amigo que eu já tive, ela pontificou.

— Certo, certo. Chega — implorei quando não dava mais para aguentar aqueles espasmos brônquicos de gato asmático. — Mas então me diz uma coisa. Uma só. Lá na boate você só dançava mesmo, né? Não fazia programa nem nada. Só dançava.

— Sim — Stefanija assentiu com tanta veemência que as bochechas chegaram a tremer e os brincos de argola quase entraram em órbita. — Só dançava. Juro, meu amor. Juro.

— Eu sei.

Minha vontade era bater a porta na parte mais rotunda daquela criatura triste, dar meia-volta e voltar para o sofá e para o meu shmup. Eu estava indo bem no jogo. Estava tudo bem na minha vida. Estava tudo errado, mas tudo errado também era tudo bem. E Stefanija não tinha mudado nada. Mesmo que eu tivesse perdido metade da massa encefálica, ainda conseguiria perceber. Stefanija continuava a mesma de sempre, muito convencida de que sua merda não fedia. Ou pelo menos que eu era incapaz de sentir o cheiro. Eu deveria ter fechado a porta e cravado um novo recorde com a boca cheia de Doritos, mas ao invés de fazer isso eu disse:

— Entra.

Stefanija abriu um sorriso que poderia ser descrito como a morte em forma de dentes, deu uns passos para o interior bagunçado do apartamento e me mandou trazer a mala para dentro, porque estava pesada demais e ela quase tinha passado mal carregando aquilo do táxi até a porta da nossa casa. Nossa casa. De certo modo, era como se ela nunca tivesse ido embora. Mas tinha. Tinha me traído da pior maneira possível, tinha me abandonado, tinha arruinado tudo. Muita coisa tinha acontecido em pouco tempo, como aquela barriga imensa nunca me deixaria esquecer. Por outro lado, ali estava ela, retornando ao lugar de onde nunca deveria ter arredado o pé. Minha eslava com um demônio no útero.

— Tira esse casaco — pedi, e ela tirou. Estava gigantesca, o contorno da barriga exibindo um redondo tão perfeito que chegava a ser difícil de aceitar. E ainda faltavam quase dois meses para a criança sair.

Tentou me abraçar de novo, e dessa vez eu me rendi. Aproveitou para cobrir meu rosto de beijos, deixando tudo melado de lágrimas, saliva e batom. Depois reclamou da bagunça, perguntou se eu andava mesmo comendo só pipoca e Doritos, avisou que ia aumentar a temperatura do aquecedor e perguntou onde eu tinha enfiado o cinzeiro.

§§§

E foi assim que meus problemas começaram.

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