Digam a Satã que o recado foi entendido
Idiotas extraordinários
Setembro/Outubro de 2009
Méan Fómhair/Deireadh Fómhair 2009
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Fica longe daqui, a montanha gelada onde eu vou morrer. Ainda não escolhi. Isso não quer dizer que ela não exista, e muito menos que eu não vá morrer por lá. Aprendi meio cedo que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Estou aqui, a cidade está no mapa, estou com vida, a cidade tem montanhas. Existe um caminho entre mim e a cidade, entre meu quarto e a montanha, entre a minha vida aqui e a minha morte lá. Isso não significa que só exista um caminho. Tudo são possibilidades. Uma coisa que dá tontura.
Mas nem por isso vou sair por aí pedindo conselhos, até porque ninguém tem noção de nada. Não é porque eu vou fazer treze anos daqui a dois meses que sei menos coisas que o meu pai, por exemplo. Estou de mal com ele faz mais de um ano. Ele não entende nada. Nadinha. Mas eu também não. É outra coisa que aprendi bem cedo. Ser humano é estar confuso. Não. Ser humano e medíocre é fingir que não existe confusão nenhuma. Que está tudo bem, que tudo é fácil, que qualquer coisa vai dar certo. Mas ser humano, humano mesmo, é admitir que não é bem assim. Admitir o fingimento e deixar só a confusão. E é bem isso que eu quero. Acho. Não tenho muita vontade nem de começar a fingir. E é por isso que eu vou pra cidade que tem as montanhas.
E vou de carona. Pegar carona é a coisa mais fácil do mundo. Parece ainda mais fácil pra quem sabe que vai morrer, porque aí os riscos não são exatamente riscos. Mas ia ser bem horrível morrer antes do lugar e da hora que combinei. Mesmo que eu só tenha combinado comigo. Imagina. Não que eu já saiba todos os detalhes. Só sei que vai ser na montanha gelada. Vou chegar perto do alto e sentar ao lado de alguma pedra. Se tiver alguma pedra por lá. Deve ter. Aí eu vou ficar olhando pro branco até a morte chegar. Acho que antes vou dormir, porque é isso que acontece quando a gente morre de frio. Depois a neve cobre o corpo todinho e ninguém fica sabendo de nada. Eu sumo e pronto. Quando a gente para e pensa nas possibilidades, nota que é bem fácil desaparecer e nunca mais ninguém encontrar. Mais fácil até que pegar carona.
Eu já tinha pensado nisso tudo muitas vezes, nem lembro como começou. Mas eu só tive certeza, só decidi mesmo que era isso que eu ia fazer, no dia que meu vô morreu. Foi ontem mesmo. Eram umas três da tarde e eu estava jogando Metroid quando ouvi umas risadas na sala. Umas risadas que não acabavam nunca. Cada riso escalava o final do outro. Uma coisa sem fim. Era meu vô, dava pra notar. E só tinha a gente em casa, mesmo. Meus pais estavam no trabalho. Minha irmã estava fazendo as coisas que ela vive fazendo e nunca me conta o que é. Mas ela tem os problemas dela. Se eu não soubesse quem é meu pai acho que também ia ficar meio assim que nem ela. Com muitos segredos. Acho. Mas eu sei direitinho quem é meu pai e mesmo assim também tenho os meus problemas. E os meus segredos. Então acho que dá no mesmo. Ou vai ver o problema é a nossa mãe. Ou só existir, mesmo. Existir é um negócio bem opressivo. E as risadas do meu vô não paravam nunca. Mas podia não ser ele. Às vezes o dia tem essas coisas. Essas surpresas. Tudo são possibilidades.
Meu vô era legal. Pai da minha mãe. Ninguém sabe de onde ele veio, só que tinha catorze anos e chegou na Irlanda de navio, sozinho, numa época em que todo mundo estava indo embora porque faltava tudo por aqui. Agora é que ninguém vai ficar sabendo de onde ele veio, mesmo. Sempre que ficava sozinho ele cantava umas musiquinhas que pareciam meio árabes. Ou judaicas, sei lá. Confundo. Quando ele percebia que eu estava ouvindo, fechava a cara e me xingava de alguma coisa com aquele sotaque que ninguém sabia de onde era. Sempre rindo. Ele tinha cheiro de lustra-móveis, mas cheiros são que nem idades. Não querem dizer nada.
Ele era bem magro e tinha uns cabelos despenteados, mesmo quando penteava. E olha que sempre andava com um pente no bolso. Dá pra entender? Não tinha jeito. Uns dentes bem amarelos. E sempre que eu olhava pras mãos dele pensava em boxe. Por causa do tamanho e dos dedos meio tortos e muito grossos. Meu vô vivia contando umas coisas que ninguém queria ouvir. Quase ninguém. Por causa dele, por exemplo, eu sei que as mulheres incas esmagavam batatas cozidas na cara de todos os homens narigudos que encontravam pela rua. As mesmas batatas que fizeram falta por aqui no século retrasado e aí quase todo mundo morreu de fome ou foi embora. E que uma vez a inquisição espanhola condenou à morte todos os habitantes da Holanda. Todinhos mesmo. E que num dos países da antiga União Soviética, ele não soube ou não quis me dizer qual, existe uma seita que adora um deus com cabeça de galo, um deus que não tem um dos dedos e protege o mundo de um novo dilúvio. E mais um montão de coisas desse tipo.
Uns dois dias antes de morrer ele tinha me contado a história de um filósofo da Grécia. Aqueles caras que viviam dentro de barris. Esse tinha morrido de tanto rir enquanto olhava um burro comendo figos. Aí quando eu ouvi aquelas risadas lembrei dessa história na hora. Larguei o controle e desci correndo. Mas não tinha burro nenhum na sala, só meu vô e a cadeira de balanço. Ele ainda estava rindo bastante, cobrindo a dentadura com uma das mãos. Com a outra estava segurando uma revista, que estendeu pra mim sem parar de dar risada. Era uma revista esotérica, esses negócios que ele gostava de ler. Uma edição especial. “Arqueologia Fantástica.” Aquela eu já tinha lido, tinha um texto sobre os crânios de cristal. Adoro os crânios de cristal. Ele me entregou a revista aberta bem numa página com a propaganda de um livro sobre o apocalipse. O anúncio dizia que o fim do mundo estava chegando. Sempre dizem isso. É uma possibilidade. Tinha também uma figura bem grandona de Saturno. Assim, o planeta. Não o deus. Na hora eu não entendi muito bem o que uma coisa tinha a ver com a outra.
Não perca tempo! Eram umas letras bem grandes, bem pretas. Aí tinha a capa do livro, que quase não dava pra enxergar porque se misturava com os anéis de Saturno, e mais um pouquinho de texto numas letras menores. O fim está próximo! Peça já! Um montão de exclamações. Só entendi o motivo de tanta risada quando meu vô apontou umas letrinhas bem pequenas, assim de lado, num dos cantos da página. Até decorei: Devido ao grande volume de pedidos, rogamos sua paciência em caso de atraso na entrega do livro. Era mesmo engraçado. Meu vô continuava rindo. Acho bom explicar que ele não ria que nem a maioria das pessoas. Uma vez, acho que eu tinha uns seis ou sete anos, ele me falou que o destino de todo mundo é virar idiota. Algumas pessoas percebem, outras não, mas todas acabam virando idiotas. Aí ele me falou que o importante era lembrar sempre disso e tentar ser um idiota extraordinário. Acho que era por isso que ele ria daquele jeito. Um riso meio assim engasgado, que começava aos poucos. Um rá-rá que depois virava um rá-rá-rá e aquela coisa ia crescendo cada vez mais e ficando mais e mais e mais e mais alta e descontrolada. Era bem legal.
Larguei a revista no colo do meu vô e fiquei olhando pra ele. Esperando ele finalmente parar de rir, recuperar o fôlego e dizer uma daquelas frases que vivia repetindo, umas coisas que eu nunca entendi direito mas gostava de ouvir assim mesmo. Tipo Multidões são vírgulas que desistem. Ou Sem misericórdia para quem vomita o próprio cabelo . Essa parecia tradução ruim, ainda mais com o sotaque. Mas ele não parava nunca de rir, e aí fez uns gestos que pareciam mímica. Levei um tempinho pra entender que ele estava pedindo um copo d’água. Quando cheguei na porta da cozinha ele parou de rir. Servi a água e voltei depressa. Enxerguei a revista no chão e meu vô na cadeira de balanço, bem quietinho, de olhos abertos. Parecia que estava encarando a samambaia, mas ninguém encara samambaias. Quando cheguei perto com o copo ele falou uma coisa com uma voz bem baixinha. É como um fósforo se apagando. Bem assim. É como um fósforo se apagando. Aí morreu, levando embora um mundo inteiro. Achei aquilo uma frase meio idiota, mas tudo bem. Não tinha mesmo como ganhar de Nem os esqueletos são eternos, minha preferida. Mas ele não disse mais nada. Parou nessa frase do fósforo e ficou ali, encarando a samambaia. Olhei mais uma vez pra Saturno na revista. Não perca tempo! Meu vô vendia perucas quando era novo, ele contou uma vez pra mim e pra minha irmã um tempão atrás.
Aí voltei pro quarto e olhei pra imagem congelada na televisão. Samus Aran em formato de bola. Não encontrei meu celular. Não consegui lembrar o número da minha mãe. Nem pensei em ligar pro meu pai. Desliguei o Wii, fiquei olhando pra tela preta da televisão e fui bebendo a água que tinha levado pro meu vô. Bem devagarinho. Engolindo como se aquilo fosse outra coisa.
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Stefanija foi embora e eu nem ligo.
Sendo mais justo com ela e com as minhas emoções, é verdade que ainda não tive tempo de sentir muita coisa. Levei bem mais de uma hora até perceber o que tinha acontecido. Em dias de folga, certas coisas demoram. Quando abri os olhos, às onze e quarenta, ela não estava ao meu lado na cama. Nem cheguei a estranhar. Mesmo com a chuva, era muito provável que ela tivesse saído para comprar alguma coisa nos coreanos, consumida por um desejo repentino de devorar meio quilo de kimchi.
É o tipo de coisa que Stefanija costuma fazer quando imagina estar grávida, algo que acontece com uma regularidade constrangedora. Ela não tem um ciclo menstrual muito confiável, mas parece se esquecer disso sempre que ocorre o mínimo atraso. Percebo os sinais de alerta assim que ela começa a se empanturrar de comida étnica para depois passar o resto do dia esparramada no sofá, acariciando a barriga inchada com um olhar meio indolente.
Logo na primeira vez aprendi que a melhor política é o silêncio. Melhor não fazer perguntas ou arriscar qualquer comentário, por mais inofensivo ou encorajador que pareça. Como ela se recusa a ir ao ginecologista ou fazer qualquer espécie de teste quando se encontra nessa situação, às vezes a agonia, o mau humor e a comilança se arrastam por um mês inteiro. É uma forma peculiar de tensão não menstrual que só chega ao fim quando eu perco a paciência, tento transar e sou rechaçado sempre com a mesma frase: “hoje não, os comunistas voltaram ao poder”. Nas primeiras três vezes eu ri.
Já era quase uma da tarde quando suspeitei que algo estava errado. Não foi o suficiente para me incomodar, porque ficar completamente sozinho em casa num dia de folga era uma sensação formidável. Nos últimos meses, até o silêncio de Stefanija andava me enervando. Só fiquei sabendo da verdade quando peguei o computador para conferir os e-mails.
Por um lado me surpreendi com sua presença de espírito. Ela sabia tanto quanto eu, talvez até melhor, que se tivesse cometido a decência de deixar um bilhete manuscrito eu certamente levaria alguns dias para encontrar. E se ela aparecesse na minha frente de malas prontas, anunciando que tudo estava terminado, seria ainda pior, porque:
a) eu já tinha perdido a habilidade cognitiva de realmente escutar as coisas que ela dizia. Tudo que escapava daquela boca chegava aos meus ouvidos como um espasmo brônquico de gato asmático; e
b) eu jamais levaria a sério, porque se existe algo de que Stefanija gosta ainda mais do que se imaginar grávida é ameaçar que está indo embora.
E assim, provavelmente imaginando que demonstrar me conhecer tão bem seria alguma declaração feminina de vitória final, ela simplesmente foi embora enquanto eu dormia, levando consigo roupas, cosméticos, notebook, celular e a bandeira da Eslovênia. Entre as coisas que deixou para trás, somente uma calcinha dependurada no boxe do chuveiro chegou a me afetar. Um final estranhamente desprovido de dramas para um relacionamento de dois anos com uma jovem mulher eslava.
Precisei de uns minutos para absorver o anticlímax.
§§§
Quando as coisas parecem se encaixar, releio o e-mail.
De: Stefanija Markežič <joyjoy@craic.ie>
Para: Magnus Factor <magnus.factor@gmail.com>
Assunto: <sem assunto>
vc me tratou muito mau tomara q morra logo
stfeka
Erro de ortografia. Abreviações. Ausência de pontuação. Falta de linha de assunto. Comic Sans cor-de-rosa. O próprio apelido escrito errado. É tão caricato, tão esculpido sob medida para me afetar, que só pode ser proposital. Chego até a me lembrar dos motivos não carnais que tinham feito eu me apaixonar por ela, mas agora isso não tem muita utilidade.
Abandono a cama. Enquanto o chá fica pronto, frito dois ovos com três nacos carnudos de bacon e esquento no micro-ondas metade do conteúdo de uma lata de feijão com curry. Quando abro a geladeira, encontro apenas duas latas abertas de Druids e meio kebab que não me lembro de ter comprado. Jogo tudo fora e percebo que Stefanija levou o lixo para a rua antes de me abandonar.
Mastigo com cuidado. Molhando os últimos pedaços de bacon nos rastros deixados pelas gemas moles, decido escovar os dentes logo depois de comer. Não tenho esse costume, a interação entre o gosto residual dos alimentos e a pasta me incomoda. Sinto o ímpeto de olhar para o copinho na pia e não sentir a mínima falta da escova roxa que ela também levou embora. Como eu imaginava, nunca um vazio foi tão satisfatório.
Duas da tarde. Parece que Stefanija não vai mesmo voltar. Entre outras coisas, isso significa que não preciso ter pressa em lavar a louça. Imprimo o e-mail e desligo o computador. No papel, as letras cor-de-rosa ficam quase ilegíveis. Vou até a cozinha e grudo o bilhete de despedida na porta da geladeira. Depois fico parado no meio da sala, olhando para as rachaduras num canto da parede. Como acontece em todos os finais de semana, os vizinhos tchecos se engalfinham numa discussão movida a ciúmes. Acusações raivosas e objetos variados parecem atravessar as paredes e quicar na minha cabeça ainda sonolenta.
Quando alugamos aquele apartamento, numa das inúmeras casas georgianas transformadas em condomínios perto da Mountjoy Square, não demoramos para entender por que o senhorio tinha nos proibido de pendurar qualquer coisa nas paredes. De tão finas, serviam apenas como divisórias de luxo.
Era verão. Eu estava meio grogue, caminhando pela casa de cuecas, admirando o contraste entre a pele muito branca de Stefanija e a calcinha preta de algodão que eu tinha comprado na loja de produtos brasileiros de Temple Bar. Bem menor que as calcinhas europeias, deixava evidente que mesmo tingindo os cabelos de preto ela não tinha como esconder que era loira. Ouvíamos com clareza o som da tevê do outro apartamento no mesmo andar. Os vizinhos assistiam a um reality show qualquer.
— Tem alguém aí? — berrei, abraçando Stefanija por trás e sentindo o ponto exato onde a curvatura final da espinha dava lugar ao volume da bunda que ela achava imensa.
— Oi, sejam bem-vindos! — respondeu uma voz com sotaque carregado, e todos caímos na gargalhada. Mais tarde Stefanija e eu passamos a noite fodendo e fazendo o máximo possível de estardalhaço. Foi a primeira vez que não usamos camisinha. Naqueles dias tudo era início. Tudo era bom.
Acalento minha barriga quase inexistente com dois tapinhas, coço o umbigo, me espreguiço sem muita pressa e depois sento no chão em frente à tevê. Pego o controle e começo a jogar Radiant Silvergun. Amanhã é domingo, o dia mais movimentado no trabalho. Lembranças existem para serem esquecidas, e sábados de folga passam mais rápido quando existem escores a serem melhorados.
§§§
Quando Satwan Singh começa a deslizar a navalha pela minha nuca, eu me sinto meio feminino. Saí mais cedo de casa porque tinha acordado com uma vontade incontornável de cortar o cabelo. Só agora, com o serviço quase terminado, lembrei que essa é uma das primeiras providências tomadas por uma mulher quando um relacionamento chega ao fim. Mau sinal. Para não chamar a atenção do barbeiro sikh, disfarço ao dar uma coçada no saco. Tudo certo. As bolas ainda estão no mesmo lugar. Relaxo os ombros. Exceto pelo sumiço de Stefka, o mundo continua em perfeita ordem.
Sempre que cruzo as portas do Salão McGyver, começo a me perguntar o que faz um sikh se tornar barbeiro. Satwan é um bom sujeito, com sua barba espessa, volumosa e geometricamente aparada, o cabelo comprido enrolado no topo da cabeça e escondido sob o turbante.
— Não é um turbante — ele me repreendeu certa vez, com ar magoado. — É um dastar. Não sou muçulmano nem hindu. Tivemos muitos problemas com os muçulmanos e os hindus.
Disso eu sabia muito bem, mas a nomenclatura diferente continuava me parecendo uma questão meramente semântica, um preciosismo tolo para um sikh que ganhava a vida fazendo nos outros aquilo que justamente não podia fazer consigo mesmo: cortar o cabelo e raspar a barba.
— Satwan — começo, encarando os ladrilhos gastos do piso. Ainda tento espantar o incômodo de estar me sentindo uma donzela de coração partido.
— Hm — ele resmunga, simpático.
— Diz uma coisa. O que faz um sikh se tornar barbeiro?
Satwan nem toma fôlego para responder.
— Todo sikh precisa ganhar a vida honestamente.
— Certo. Entendo — aquilo não era bem uma resposta. — Mas por que logo uma barbearia?
— Sou bom com lâminas.
— Ah — parecia razoável. — Mas isso não é contra a religião de vocês?
Nessa altura Satwan interrompe o trabalho e me encara pelo espelho. Colocando as mãos na cintura, inclina o corpo até deixar a cabeça bem ao lado da minha e pergunta, ainda olhando para o reflexo dos meus olhos:
— Você é sikh?
— Hã — hesito. — Não.
— Então a resposta é não — e volta ao trabalho, dando os últimos retoques com a navalha na minha nuca agora rígida.
Gosto dos sikhs.
§§§
Ainda não escureceu, e nenhum dos meus colegas tem o costume de chegar com muita antecedência no trabalho. Acendo um cigarro, apoio as costas numa das colunas do Correio e fico assistindo às manadas de colegiais católicas voltando para casa. De vez em quando me distraio com o bigode especialmente gigantesco de algum pavee que não troca de roupa desde 1972, mas meu foco sempre são as garotas.
Acho difícil entender o que leva os colégios católicos a impor esse tipo de uniforme às alunas. Imagino que o fetiche tenha nascido depois do uniforme, mas que se dane. É impossível imaginar um mundo onde adolescentes curvilíneas de saia plissada, camisa social, gravata e casaquinho não despertem intenções bem pouco cristãs. Gosto especialmente das colegiais imigrantes. Não que as irlandesas não sejam bonitas, só que a maioria costuma exagerar na maquiagem, aplicada desde cedo com a afobação de quem está começando a descobrir o poder que exerce sobre os homens. Mas nada supera as imigrantes. Uma chinesinha recém-chegada à Irlanda e à puberdade, embalada num uniforme católico, é um paradoxo tão delicioso quanto um cordeiro galês com molho hoisin.
Em meio às colegiais, aos pavees, aos turistas e ao resto do oceano de pessoas que escoa pela O’Connell no final da tarde, enxergo ao longe a maçaroca de cachos ruivos que reside na cabeça de Barry. Ele caminha sem a menor pressa, vestido com a habitual calça de tactel e um moletom listrado verde e branco, com capuz. De vez em quando esbarra num transeunte, aparentemente de propósito. Barry é nosso irlandês residente, peça fundamental do negócio. Nosso ramo são os tours por locais supostamente mal-assombrados de Dublin. Não é uma proposta muito original. Temos três concorrentes num raio de oitocentos metros e um deles, promovido pela Dublin Bus, é uma atração registrada em todos os guias turísticos. Somente o nosso diferencial nos protege contra a falência. Mostramos aos clientes uma Dublin assombrada secreta, com um roteiro exclusivo de paradas que não se repetem em nenhum dos outros tours da cidade.
Isso acontece, é claro, porque inventamos tudo nos mínimos detalhes. Criamos do zero as histórias que justificam cada passo de nosso tour. Não é tão difícil ou arriscado quanto parece à primeira vista. Nossos clientes são turistas, afinal de contas. E turistas não sabem nada sobre a cidade, especialmente o tipo de turista que se interessa por tours. Para a maioria deles Dublin significa U2 e bebedeira, nada mais. Para os mais pretensiosos também existe James Joyce, mas esses costumam se limitar aos pub crawls literários e não se interessam pelo serviço lowbrow que oferecemos. Quando resolvem conferir nossos roteiros, são fáceis de reconhecer pelo risinho indelével no canto da boca, que se sustenta por todas as paradas ou até que Barry tenha a chance de lhes conceder o que chama de “tratamento especial”. Melhor não entrar em detalhes. Há também os turistas wiccans, em geral uma turma de maconheiros loucos para acreditar em qualquer bobagem que se passe por misticismo celta ou viking. Mas o grosso dos clientes é gente comum, turistas que querem apenas se divertir e engolem qualquer história, desde que bem contada.
É raro, mas às vezes algum dublinense tenta se inscrever. Sempre em vão. Para quem nasceu na Irlanda, nunca temos vagas. Quando algum deles escapa da peneira, Barry entra em ação. Como único irlandês da empresa, tem como principal função servir como lastro de verossimilhança para as histórias que inventamos. Ele nasceu em Cork (“na República de Cork”, como sempre me corrige), mas mora em Dublin faz muitos anos e sabe imitar com perfeição o sotaque e os maneirismos da classe trabalhadora local. Quando um dublinense resolve questionar alguma das nossas histórias, Barry simula um ataque de fúria santa e metralha explicações que invariavelmente se iniciam com o bordão “meu avô, que Deus o tenha, sempre me contou que…”. E funciona. Assistir a Barry defendendo as nossas mentiras é aceitar que São Patrício pode mesmo ter expulsado as serpentes da Irlanda na base da lábia. Até os espiões da concorrência, que às vezes se inscrevem para tentar descobrir nossos segredos, parecem se render assim que o testemunho atávico é invocado por um sardento falastrão. Na Irlanda do século XXI, o respeito aos anciões do clã ainda resiste.
Hoje Barry não parece nem um pouco satisfeito em me ver. Pede um cigarro, arranca o maço inteiro da minha mão (“tributo”, rosna) e fulmina:
— Por que não veio trabalhar ontem? Cê sabe muito bem que domingo é um dia complicado, e ficou ainda pior sem a sua ajuda. Não atendeu o celular, não atendeu o telefone de casa. Qualé, imigrante? Fiquei sozinho com o Zbigniew, que nem fala inglês direito e só serve pra meter medo. Aí precisei ligar pro Seewo, que tava de folga e teve que vir às pressa e com uma cara de cu. E cê sabe melhor do que eu que esse preto não trabalha muito bem. Ele é meio retardado.
Eu pagaria muitos euros para saber as coisas que Barry fala a meu respeito quando não estou por perto.
— Explico mais tarde no pub. E olha, Barry, o Seewosagur não é negro. Você sabe muito bem. Ele veio das Ilhas Maurício, é de etnia urdu. Indianos não são negros.
— Ai ai ai. E onde é que fica essa ilha do Maurício, hein? Não é na África?
— No oceano Índico. Mas sim, é perto de Madagascar.
— Se fica perto de Madagascar, é África. Não me enrola. Olha, parcêro, quando meu pai tinha minha idade a população preta da Irlanda se resumia ao baixista do Thin Lizzy. Antes dele a única coisa escura que a gente tinha por aqui era a Guinness. Foi nesse ambiente que eu cresci e virei homem, então não me vem com essa conversa fiada de etnia e o caralho só porque agora esses político bichola enfiaram a gente nessa onda multicultural. Branco é branco, preto é preto e itinerante é itinerante, ponto final. E pra branco o Seewo não serve. Então sai fora. E vê se não me deixa na mão de novo, porra.
Barry tem um canino de ouro. Ficaria ridículo em qualquer outra pessoa.
— Eu tive bons motivos, cara. Juro.
— Tá bom então, parcêro. Acho que também vou matar trampo de vez em quando. Preciso mesmo de um tempo pra cuidar dos meus besouro, cê tá sabendo.
Nos últimos meses, Barry andava obcecado por uma nova ideia para ganhar dinheiro: criar besouros gigantes e vender para japoneses pela internet. No Japão tem muita gente que coleciona os bichinhos. Mas Barry não se satisfaz com uma simples criação de besouros, empreendimento que já estaria bem além de suas capacidades. O plano dele para enriquecer às custas dos colecionadores japoneses é cruzar espécies diferentes de besouros chifrudos. Tudo isso para criar variedades exóticas, que pretende vender a preços astronômicos.
— Deus do céu. Você ainda não tirou isso da cabeça? Barry, o que você entende de insetos? Acha que é simples? Vai fazer o quê, hein? Juntar um monte de besouros numa caixa de areia dentro do banheiro, apagar a luz, colocar “Sexual Healing” no repeat e promover uma orgia que vai render besouros nunca antes vistos? É esse mesmo o seu plano?
— Mas deixa de ser idjota, parcêro. Eu cresci jogando Game Boy, porra. Pokémon me ensinou tudo que alguém precisa saber sobre esse negócio de criar bicho estranho.
Pronto. Com Barry, qualquer discussão acaba mencionando games. Não posso reclamar.
— Pokémon. Que piada. Já falei mil vezes que os únicos jogos que importam são os shmups, Barry. Especialmente na categoria bullet hell.
Uma careta.
— Lá vem. Cê sempre começa com esses jogo de navinha. Sai fora. Nintendo ou nada.
— Sim, Bartholomew. Nada supera a pureza dos shmups. Esquece um pouco essa obsessão por encanadores italianos saltitantes.
— Ei. Eeei — ele espeta minha clavícula com o indicador em riste. — Mais respeito com as criação de Shigeru Miyamoto. Guarda as blasfêmia pros seus parcêro de sodomia lá do Fibber Magees, ô metaleiro sujo.
Metaleiro. Essa é nova.
— Cala a boca, Barry. Presta atenção. Num bullet hell você controla uma nave minúscula contra ondas intermináveis de inimigos. Está cercado por todos os lados de enxurradas de balas que parecem impenetráveis, inescapáveis. Mas sempre existe uma maneira de driblar e vencer os inimigos e suas armas. O segredo está em manter a calma e saber que os leques sucessivos de projéteis nunca são tão letais quanto parecem. Basta descobrir a margem de manobra possível dentro do sistema de colisão de cada jogo. Depois que você domina essa mecânica e descobre a melhor maneira de lidar com o arsenal à sua disposição, o jogo perdeu. Tudo que resta é continuar jogando todos os dias em busca de escores cada vez mais altos até cansar, para então partir para outro jogo. E a vida é isso, Barry.
Ele fica uns quarenta e cinco segundos imóvel, de boca aberta. Tem uma expressão de agonia nos olhos. Nem pisca. De repente funga com tanta força que tenho a impressão que a cabeça dele vai implodir.
— Jesuis — escarra na calçada, a menos de um centímetro dos meus pés. — Essa foi a comparação mais idjota que eu já ouvi em toda a minha vida. Mas o recado foi entendido. Agora sai da minha frente, ô imigrante vagabundo.
Barry é tão esperto que sabe direitinho como se fazer de burro. Alguns minutos depois Zbigniew aparece, careca e rosado, como sempre dando a impressão de estar fazendo um esforço sobre-humano para impelir o corpanzil adiante. Quando nos enxerga, acena e ensaia um meio sorriso. Nosso polonês tem dois metros de altura, pesa no mínimo cento e cinquenta quilos e compõe com Seewo a metade da equipe que não dá a mínima para games. Obcecado por pestes, pragas e todo tipo de epidemias, vive ruminando teorias aparentemente muito intrincadas a respeito de algumas delas. Infelizmente, por conta do seu curto vocabulário em inglês de sotaque eslavo, nunca conseguiu nos transmitir muita coisa além de entusiasmo.
Anoitece e as horas seguintes seguem a partitura habitual: os trouxas da noite chegam na hora marcada, levamos todo mundo para passear em nossa terra de faz de conta e pronto. Missão cumprida e euros no bolso. Ao fim do expediente, como todos na cidade, vamos encher a cara em nosso pub favorito.
§§§
Hairy Lemon lotado. Encaro meio lerdo as bicicletas dependuradas numa das paredes que consigo enxergar. Cacarejos femininos, rosnados masculinos, rúgbi na televisão. Na minha frente, um prato de linguiça com fritas pela metade e um pint de Guinness, ainda intocado. Quinta rodada. Três pints é a medida aproximada da quantidade de álcool necessária para invocar o gênio da autopiedade. Tento distrair sua presença passando por cima do ruído ambiente para prestar atenção nas palavras dos meus companheiros de mesa.
— Dupla penetração. Dupla penetração é a tendência, parcêro. Agora quase toda a mulherada aceita experimentar, não é mais tabu. Senhor Deus Todo-Poderoso, muito obrigado pela rede mundial de computador.
Segundo a teoria de Barry, o acesso instantâneo às mais variadas modalidades de pornografia promovido pela internet aumentou de forma estratosférica o nível de aceitação das mais variadas modalidades sexuais. Num mundo onde a coprofagia informal e as surubas entre pessoas vestidas como animais felpudos estão a um clique de distância, nada mais parece estranho. Nada mais parece novo. E o tédio, como se sabe, é o primeiro degrau na escadaria da perversão.
Lembro de Stefanija tentando me convencer a fazer suíngue. Dias e mais dias buzinando meus ouvidos com toda espécie de argumentos, tentando me dobrar ao que lhe parecia “bem emocionante”, “uma aventura”, essas coisas de mulher. Minha resistência estava, acima de tudo, relacionada a uma preocupação com os efeitos negativos que a presença de outro homem poderia causar no meu desempenho sexual, mas pelo menos era uma razão concreta. Concretudes não funcionavam com Stefka. Quando enfim cedi, ainda não totalmente à vontade com a ideia, ela respondeu com um tapa de mão aberta na minha bochecha direita. Depois vieram a choradeira e as reclamações: você não me ama de verdade, não me dá valor, quer que eu me entregue para qualquer um. “Entregar.” Verbo mais Stefkiano, impossível.
— Sorte sua, parcêro — Barry comenta quando acabo contando que Stefanija tinha ido embora. — Mulher só estressa o ambiente.
Stefka não gostava nem um pouco de Barry, e se recusava a fazer qualquer programa em que ele estivesse presente. Isso dificultava bastante a minha vida, porque ele é a coisa mais próxima que eu tenho de um melhor amigo em Dublin. Somos bastante diferentes, reconheço, mas na vida existem duas alternativas. Ou prestamos atenção naquilo que nos separa dos outros, ou resolvemos prestar atenção nas coisas que nos unem. Tento me concentrar na segunda opção. Talvez eu seja masoquista.
— Mas será que foi mesmo uma coisa boa, Barry? — insisto.
Barry quase cospe a cerveja em cima de Zbigniew, que sugeria pela milésima vez que fôssemos comer peixe com fritas.
— Se foi bom? — ri com a boca escancarada. — Numa palavra só? Sim. Em duas? Sim, porra.
Olho para a placa na parede do pub. hoje é o amanhã que ontem nos preocupava, e tudo vai bem . Já fazia algum tempo que Stefanija tinha abandonado o emprego de garçonete e se tornado lapdancer, ganhando cinco vezes mais. As funções laborais se resumiam ao óbvio: dançar e ocasionalmente se esfregar seminua em clientes inteiramente vestidos. A coisa toda raramente ultrapassava dez minutos. Pelo menos era o que ela me garantia. Barry tinha me convidado várias vezes para fazer uma visita surpresa à LaPetite, boate onde ela trabalhava, para confirmar in loco como as coisas funcionavam. Jamais aceitei. Ciúmes nunca fizeram muito sentido para mim. Se Stefka dizia que aquela era a verdade, por mim tudo bem. Num dia de tédio conferi o site do lugar e descobri que ela usava “Joy” como pseudônimo. Não resisti a comentar que aquilo parecia nome de égua premiada, e isso me rendeu três semanas e meia sem sexo nem paz doméstica.
— Sabe o que seria mesmo do caralho? — Barry me trouxe de volta para o pub com um cutucão no ombro. — Um rifle com mira telescópica e algum esquema de realidade virtual. Aí dava pra subir num prédio qualquer e sair atirando em todo mundo sem na verdade matar ninguém. Pela mira ia dar pra ver o cara desabando na calçada, todo encharcado de sangue, enquanto na verdade o corno continuaria bem vivinho. Com mais uns fone de ouvido o negócio ia ser perfeito. Ia dar até pra ouvir os tiro, os grito do pessoal na rua. O problema é que se algum idjota enxergasse você lá em cima é certo que ia chamar os gardaí, daí a diversão ia acabar na cadeia.
— Ou no caixão — sugiro.
— Peixe com fritas? — insiste Zbigniew, ignorando a conversa e por sua vez sendo ignorado por todos nós. Barry continua em chamas.
— Sabe por que não existe irlandesa bonita? — pergunta, com o dedo em riste. — Tudo culpa dos viking, parcêro. Levaram todas pra Islândia, pra se reproduzir com eles por lá. E olha que mesmo assim os islandês saíram com aquelas fuça de cachorro vesgo. Se liga na cara da Björk! — Barry esmurra a mesa com tanta força que quase derruba todos os pints. — E ela também não é muito certa da cabeça, né. Mas enfim, os viking levaram nossas gostosa e sobrou só esse monte de gorda bêbada. É por isso que meu negócio é outro. Tô no ramo da buça estrangeira. Cê também tem irmã, criôlo?
Certo. Um homem sensível sabe a hora de voltar para casa. Levanto e tento me despedir, mas Barry está concentrado em fazer perguntas sobre a irmã inexistente de Seewo, que reage com o bom humor de sempre. Zbigniew parece alheio a mim, à mesa e ao pub inteiro, provavelmente ocupado com a visualização de uma cordilheira de peixe com fritas. Bebo o que ainda resta do pint, dou de ombros e saio.
Como é barato andar de táxi em Dublin. Acho que nunca vou me acostumar.
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A menina estava no meio da estrada, os dois anunciaram a Demetrius assim que chegaram na casa da Família. Ela pediu uma carona e a gente deu, Oisín explicou enquanto Ciara dizia que a menina queria ir para bem longe até chegar em uma montanha gelada. Eu ouvi isso através da porta e parei a meditação vespertina e desci as escadas até o primeiro andar e olhei para a menina e vi que era alta e magra e comprida e com cabelo liso e castanho bem escuro e cílios bem longos. Cheguei mais perto e eles disseram Oi, Siobhán e eu nem falei nada e perguntei baixinho no ouvido da menina Tem celular? Eles mandaram você jogar fora o celular? É proibido entrar com celulares na casa de número sete de Asgard Road, eu expliquei. São pontos de contato, aparelhos localizadores, antenas transmissoras para a Confederação Galáctica. E nós, menina, nós somos os inimigos ancestrais da Confederação Galáctica. Nós somos as Serpentes, a raça gelada da Ursa Maior, os ofídios gnósticos, os filhos da cobra do Jardim do Éden, os encantados dos sídhe, as crianças sonhadas por Crom Cruach. Entende do que estou falando? eu quero saber e a menina me olha meio dura e os cílios parecem arame farpado mas encaro com a outra visão e a aura dela não está agressiva e é bonita e tem muito azul e chamas douradas e dourado é a cor dos Ofídios. Quando a criatura descende de Marte que é um planeta neutro e está tomada pela emoção raiva tem vermelho e negro e quando é da raça dos escravos dos Homens Grandes de Órion só se enxerga um cinza muito opaco e quando é da Confederação o olho que vê a aura se enche de violeta que é a cor do Inimigo segundo nosso mestre Demetrius Vindaloo, que cruzou o rio da percepção comum e foi além, muito além. Quando eu cheguei na casa número sete de Asgard Road, nossa casa e lar da Família, Demetrius me disse vem cá, senta aqui, me chamando pelo meu nome cristista que eu ainda nem tinha falado a ele qual era. Foi o segundo sinal. O primeiro sinal aconteceu quando eu vi Demetrius na rua e eu ainda estava com o véu sobre todos os meus olhos mas quando enxerguei Demetrius saindo da St. Georges Arcade e atravessando a rua movimentada até parar na frente do Hospital de Bonecas e Ursinhos foi o vislumbre de uma claridade muito forte, um facho direto de luz, um raio intenso de sol sendo filtrado por um pano muito grosso e eu sabia que emanava dele e que era o Lúmen ainda que eu não soubesse que tinha esse nome. E depois disso eu falei com Demetrius e ele me chamou para Howth e viemos para Asgard Road e entramos na casa de número sete e depois que ele me chamou pelo meu nome cristista que eu não tinha falado em momento algum nós fizemos um exercício, o exercício do primeiro passo da imunização, o primeiro erguer dos panos que encobrem as visões. Demetrius me chamou e ficamos sentados de frente um para o outro com os joelhos se encostando e os olhos fixos nos olhos do outro e não era permitido piscar nem desviar os olhos nem deixar a atenção se dissipar, concentração total e completa nos olhos do outro, no fundo dos olhos do outro e em tudo que se podia conhecer a partir dos olhos do outro. E nessa noite ele me batizou de Siobhán e depois eu comi meu primeiro pedacinho do Salmão do Conhecimento e dormi na casa de Asgard Road e tive meu primeiro sonho com os Homens Grandes de Órion. Esse foi o terceiro sinal, o último que eu precisava para entender e decidir que tinha que me entregar à verdade de Demetrius Vindaloo, que cruzou o rio da percepção comum e foi além, muito além. No sonho o Homem Grande ficava parado na minha frente e não me olhava nem reconhecia minha presença e nem parecia estar fazendo qualquer coisa, mas eu me sentia presa e não conseguia sair e nem me mexer e nem respirar direito e então olhei para os lados e vi frutas que conhecia em cores que nunca tinha visto, cachos de uvas muito amarelas e maçãs tão azuis que pareciam pintadinhas à mão e amoras de uma cor que não existe em nosso planeta Tellos e na dimensão que ele ocupa, uma cor chamada octarina, e me vi rodeada dessas frutas em uma floresta e eu estava em cima de uma árvore, uma árvore carregada das maçãs azuis, e enquanto eu tentava entender tudo aquilo o Homem Grande começou a vibrar e a zunir e a emitir um som contínuo, mecânico, ensurdecedor, e levantou o braço apontando o dedo para mim, que ainda estava em cima da árvore. Não disse nada, o Homem Grande, mas eu entendi no mesmo instante o que ele queria de mim, o que ele buscava, qual era a intenção dele ao me visitar daquele jeito e naquela forma. Ele queria me emprenhar e me usar como receptáculo da Semente Cósmica e me preencher com um filho dos Homens Grandes de Órion, que ia crescer dentro do meu corpo e em três meses estaria pronto para ser parido e depois que saísse para o mundo cresceria na velocidade dos Homens Grandes de Órion e em cinco dos nossos anos já estaria maduro e também pronto para semear, fertilizar, inserir a nódoa e fazer todas as coisas que eles fazem em todas as partes do cosmos onde eles se manifestam querendo dominar o universo inteiro. Mas eu me neguei e ainda toda paralisada senti uma grande angústia, um mal-estar, e disse a ele que não, que só queria voltar para casa, para o meu lar, e eu não sabia ainda qual era o meu lar mas no sonho eu falei. Então acordei e estava de volta ao nosso planeta Tellos e nosso mestre Demetrius Vindaloo pairava sobre mim na cama vestido de céu, despido de roupas e de sujeira e de maldade e eu ainda repetia em voz alta Uvas. Maçãs azuis. Homem Grande de Órion? O que você quer comigo, Homem Grande de Órion? Um bebê? Um bebê! Eu quero voltar para casa, quero voltar para a Ursa Maior. Uvas. E eu não parava nunca de repetir essas palavras, até que Demetrius encostou a mão sobre a minha testa e o toque ardeu e queimou e senti a minha pele sendo arrancada e ao mesmo tempo os panos que cobriam todos os meus olhos e a minha visão verdadeira e então eu pude enfim ver e enxergar da maneira correta. Comecei a falar do sonho mas Demetrius me disse Nunca mais conte sonhos para mim ou para ninguém e eu obedeci e nunca mais deixei a casa número sete de Asgard Road e a Família, que é o nosso lar, e nunca mais me afastei da presença de nosso Pai Mensageiro cósmico e terrestre, esotérico e exotérico, interno e externo, transcendente e imanente, nosso mestre Demetrius Vindaloo, que cruzou o rio da percepção comum e foi além, muito além. Agora a menina tinha subido com ele para o andar de cima, imagino que para passar pela mesma primeira meditação que eu no dia da minha chegada. Devem estar com os joelhos encostados e as auras uma sobre a outra e estou feliz por ter mais uma pessoa aqui porque é de nós que o mundo, o universo inteiro, a imensidão do cosmos precisam. Caminhei até a cozinha atrás do cheiro e Oisín e Ciara estavam sentados na mesa tomando chá e comendo torradas e Deirdre também estava com eles e bem quando entrei ela estava dizendo assim Eu ainda morava com aqueles hippies neopagãos e ele me achou na O’Connell protestando contra as obras em Tara. Ciara pergunta se isso tinha sido na mesma época que ela usava a droga cocaína com seringas ou se ela já tinha parado com isso nessa época e Deirdre responde que com os neopagãos ela tomava chás com as plantas da religião bruxaria e voava todas as noites mas que às vezes também fugia e voltava para reencontrar os conhecidos da época das seringas e usava a droga cocaína com eles dentro de casas abandonadas perto do hospital Rotunda e depois ficava andando e andando e andando pelo centro da cidade até não ter mais pernas e aí voltava para a comunidade dos neopagãos em Cabra e chorava e eles cuidavam dela e à noite ela tomava o chá com as plantas da religião bruxaria e começava tudo de novo. Só parou quando ela foi encontrada por Demetrius e todos na Família se lembram muito bem de quando foram encontrados por Demetrius e a menina nova também vai lembrar, mesmo que ela tenha sido encontrada primeiro por Ciara e Oisín. Tomo um gole do chá e me dá vontade de cuspir e penso que sempre colocam muito açúcar e pouco leite e eu não acho isso correto porque ao contrário fica melhor. Escuto os gritos de uma gaivota mas ainda não sei entender o que ela diz e olho pela janela e vejo várias gaivotas costurando o céu em zigue-zague mas também ainda não sei compreender esse padrão e fico olhando para o mar meio verde e meio cinza e pensando em tudo que ainda preciso aprender até o dia que vou atingir o último estágio do Lúmen Serpentino. Oisín está dizendo que agora vão mesmo precisar dessa menina porque Ciara não pode mais fazer o que tinha de ser feito e começo a sentir tontura porque não reconheço o padrão que ele verbaliza nem entendo do que está falando e então Deirdre se levanta da mesa sacudindo a cabeça como quem deixou a emoção raiva surgir e confiro a aura dela e está toda vermelha e pontiaguda. Ciara e Oisín se olham na mesa e baixam a cabeça mas Oisín tem um risinho por baixo da máscara de carne que esconde seu rosto de réptil, um riso que talvez somente eu consiga enxergar só que também não compreendo por inteiro esses padrões e esses movimentos todos, é um momento difícil e então convido todos para cantarem e começo a cantar o hino dos Ofídios Gnósticos que fala sobre a luta contra a Confederação Galáctica e a vitória final no dia da Arrebatação e eles me olham sem dizer nada e ficam assim até o final do hino e depois eu saio da cozinha e me sento em uma cadeira na sala de costas para a janela. Fico imóvel e curvada como uma das gárgulas da igreja grande ali subindo a rua, amanhã bem cedinho quero levar a menina nova até lá para ver, acho que ela vai gostar porque ouvi ela dizendo que nasceu e morou a vida inteira em Dublin e nunca tinha vindo para Howth e então sei que nunca viu as gárgulas. Elas ficam do lado de fora do templo com aqueles rostos congelados em caretas de ameaça e o corpo todo transformado em pedra e rígido para sempre por amor ao dever de assustar as coisas ruins e os demônios e a imundície e impedir que entrem dentro do espaço sagrado. Assim como em nome dos Ofídios Gnósticos nós da Família protegemos Tellos, o oásis azul-profundo do Sistema Solis, dos planos nefandos da Confederação Galáctica e de toda a maldade e perfídia do imperialismo espacial. Então também somos gárgulas e eu, Siobhán, sou a gárgula da casa número sete de Asgard Road, e protejo nosso Pai Mensageiro, detentor da peçonha que dissolve toda a mentira, luz da estrela pulsar na escuridão do universo. Estou quieta e estou atenta e os demônios não param de chegar de todas as partes da galáxia e estão vestidos de branco e são loiros e muito altos e têm a aura violeta do Inimigo. Vou ficar aqui sentinela silenciosa e guardar como gárgula a casa da Família e Demetrius Vindaloo e os meus irmãozinhos ofídios e até a menina que chegou hoje cedo, tão bonita e comprida e delicada. O Inimigo não vai entrar. Viva nosso Pai Mensageiro, viva a Senda do Lúmen Serpentino e a senda sinuosa que até ele nos leva.
§§§
O nome cristista da menina é Patricia, Patricia Heaney, e ela tem doze anos, quase treze, e eu lembro muito bem como é o mundo e como é ser uma menina com doze anos, quase treze. Ela me conta que foi isso mesmo, que ela estava parada no meio da estrada querendo ir para algum lugar, talvez para o norte, e depois passar para a Escócia e subir e ir subindo e subir ainda mais até chegar em uma montanha gelada para então subir até o alto e fazer alguma coisa que ela não contou porque talvez ainda não se ache pronta mas sei que sem demora vai me revelar. Estamos caminhando pelo cemitério ao redor da velha igreja porque é aqui que eu gosto de trazer as pessoas novas quando elas aparecem na casa número sete de Asgard Road e depois que têm a primeira meditação com Demetrius, não que apareça muita gente nova por aqui mas isso é bom. Poucos serão os chamados e raros os escolhidos são as exatas palavras de Demetrius Vindaloo, que cruzou o rio da percepção comum e foi além, muito além. A menina fica olhando para um urso de pelúcia pendurado em uma das lápides, um urso que deve ter sido branquinho ou marrom bem claro mas agora é cinza-escuro e o pelo parece estar sempre molhado e um dos olhos caiu e o bicho inteiro parece estar apodrecendo como as pessoas debaixo das lápides apodreceram muito tempo atrás ou nem tanto e às vezes o cheiro por aqui faz isso ficar ainda mais claro só que hoje não. Hoje tem uma lápide caída e é uma lápide grande que me faz pensar no animal crocodilo, que é réptil como nós mas é também um animal sonso que se deita na lama e mastiga ossos e chora, chora, chora enquanto engole a pasta que um dia foi o corpo da vítima. Sorrio para a menina e mexo a cabeça um pouco para o lado mostrando o caminho que eu gostaria que ela fizesse comigo, mas sempre sem tocar porque não gosto de encostar a mão em ninguém nem que encostem em mim, menos nas meditações e apenas se o toque vier do Pai Mensageiro, porque nesse caso não é um toque físico, não é o tato do corpo, é uma coisa que vem da essência e desce do cosmos e passa por ele até chegar dentro de mim, é uma comunicação de duas vias, um toque sem tocar, mas é só assim que eu tolero e se for de qualquer outro modo me vem a emoção medo com a emoção raiva e me dá vontade de usar minhas unhas para arrancar os olhos de quem me toca, o que não é uma reação muito boa. Patricia caminha mais um pouco e entra nas ruínas da igreja e se senta no banquinho e me olha e levanta e caminha até mais perto de mim e depois fica olhando para as ondas lá embaixo, como eu sempre faço enquanto penso no Lúmen Serpentino, e eu paro ao lado dela e também fico olhando e não digo mais nada, apenas penso bem-vinda, menina, bem-vinda à Família e à casa número sete de Asgard Road. Ontem passei uma noite de gárgula no nicho do corredor e agora entendo o que Oisín e Ciara estavam dizendo para Deirdre mesmo que não tenham me dito ou falado ou revelado ou compartilhado nada além do que foi dito naquela hora, era só prestar atenção e esperar e montar guarda e então saber. Se eu estou certa e calha que sempre estou, bem-vinda mais uma vez, menina Patricia, pois mesmo ainda não tendo comungado do Salmão do Conhecimento e mesmo ainda sem um nome celta concedido por Crom Cruach e mesmo sem ainda ter sido tocada pelo veneno ofídio santo que não mata mas purifica quem vai salvar o nosso mundo da degeneração é você.
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Stefanija foi embora e isso me deixou completamente transtornado.
Mudar para melhor é uma coisa. Deixar o que está ruim para trás? Abandonar alguma coisa que incomoda? Renunciar ao que prejudica? Acho tudo isso ótimo. Mas mudar por mudar, e ainda por cima assim de repente, não faz muito sentido. Atrapalha a rotina, cria problemas inesperados, atrasa o almoço. Fico remoendo os últimos dias que passei com Stefka e procurando indícios de qualquer coisa mais errada que o normal, mas só encontro motivos para me envergonhar de mim mesmo. Penso na sorte de quem consegue viver sem ficar arquivando para futura análise tudo que vê, cheira, prova, escuta, toca, pensa ou sente. Eu trocaria isso pela chance de viver as coisas no instante em que me acontecem, e não uma semana depois. Ou um mês. Ou uma vida inteira.
Passei uns dias considerando a ideia de aparecer sem aviso na LaPetite, como Barry tinha me sugerido tantas vezes no passado, mas fiquei satisfeito ao ver que ainda me sobrou algum senso de ridículo. Aí continuei por umas semanas com minha rotina de sair de casa para o trabalho e vice-versa, fazendo de conta que nada tinha acontecido, e estaria fazendo isso até agora. Só que agora eu tenho Laura, e quando as coisas mudaram por causa dela eu consegui encontrar um arremedo de motivação. E isso já é melhor do que nada.
Dublin é uma excelente cidade para se deixar para trás, e minha intenção era precisamente essa no dia que encontrei Laura pela primeira vez. Queria me sentir distante do ar abafado, da sujeira, da sensação de estar eternamente misturado com a multidão que fervilha a qualquer hora do dia pelo centro da cidade, pelas ruas arcaicas e cheias de descaso que jogam séculos de história na cara dos passantes e recebem de volta a mesma indiferença. A multidão só entende o fluxo, o movimento. Mas no contexto, isso é até saudável. Se alguém para e fica olhando um cara igual ao Miles Davis tocando trompete na ponte da O’Connell e desvia o olhar para as águas cinzentas do Liffey e depois para o chão, onde enxerga uma placa com um trecho de Ulysses que se passa naquele exato ponto da cidade, e daí volta a olhar para a rua e enxerga uns brasileiros com uniforme de time de futebol gritando coisas naquela língua que só eles entendem, e assim por diante, quando acontece a toda hora, esse tipo de coisa desorienta. A multidão está certa. É melhor se unir aos lemingues e avançar sem medo nem esperança na direção da falésia. Melhor não parar nunca, seguir em frente e deixar Dublin para trás.
Mal entrei na estação e já me imaginei caminhando pelas ruas de Howth, a capital mundial do peixe com fritas, em mais um capítulo da busca pelo pint secreto. Dentro do trem, os adolescentes fumando no interior do vagão fechado e escarrando panquecas de muco no chão impediam que eu me esquecesse do centro de Dublin. E também do Barry, porque as duas coisas se misturam. Um dos garotos tinha no máximo doze anos, completava com um boné o eterno moletom com capuz e usava aqueles anéis ridículos feitos com moedas de ouro. Menos mal que desceram logo em Clontarf Road, a primeira parada.
O casal de jovens sentado no banco da frente não fumava, não vestia moletom e não fazia barulho. Ficavam se olhando em silêncio por um tempo que arranhava os limites do constrangimento e então sorriam e desviavam o olhar. Quando começaram a usar as mãos entendi que eram surdos-mudos. O rosto da menina tinha as feições de quem tinha deixado havia pouco de ser filhote, e ela mascava chiclete de boca aberta sem perceber o barulho que isso fazia. Não era ruim, e não se parecia em nada com uma vaca ruminando. Ficava mais óbvio quando ela sorria e seguia mascando chiclete, olhando dentro das pupilas do namorado cheio de espinhas. Aquela boca escancarada produzia uma sinfonia de estalos molhados que, assim tão próximos e em conjunto com a dentição meio pontiaguda e muito branca, me concediam arrepios no saco. De repente o namorado deu o bote, mordendo de leve o pescoço da menina. Ela reagiu com um gritinho breve que arruinou de vez minha tentativa de parecer blasé. Foi algo completamente diferente do ruído que seria emitido na mesma situação por alguém que não fosse surdo-mudo. Não parecia humano, não tinha relação alguma com uma linguagem estruturada. Um ganido animalesco misturando surpresa, dor e prazer. Depois de testemunhar aquilo a uma distância de alguns centímetros, encontrar o pint secreto me pareceu ainda mais urgente.
Howth me recebeu com seu espaço aberto, o vento salgado, a gritaria das gaivotas e dos corvos e o ronco dos aviões de cauda verde da Aer Lingus voando baixo na direção do aeroporto, indo e voltando. Mesmo de fora, eu sentia que o mar cinzento estava gelado. Chegando mais perto do pub, rodeado de carros totalmente cobertos de merda de ave marinha, enxerguei a torre Martello com suas curvas de muffin e me senti voltando para algum lugar que não era minha casa, mas também não me oprimia. Entrei no pub e tomei meu lugar predileto, ao lado da janela que dá direto para o mar e para a ilhazinha das focas. Pedi o primeiro pint. Assim que ele chegou e tomei o primeiro gole, tudo se encaixou.
Estava terminando o terceiro pint quando um velho forte, com cara de lobo do mar, barba branca cerrada, gorro verde e nariz batatudo entrou no pub empurrando uma cadeira de rodas na qual havia um sujeito mais novo com paralisia cerebral, as mãos retorcidas cruzadas sobre o peito. O velho pediu um pint de cider e outro de Guinness, que logo chegaram acompanhados por uma jarra de água com gelo e três rodelas de limão. Tirou um canudinho do bolso, mergulhou na cider e aproximou o pint da boca do homem na cadeira de rodas, que sugou o canudinho. Então colocou o pint de volta sobre a mesa, tomou um gole da cerveja e recomeçou o processo. Fizeram isso até esvaziarem os pints, ao quê o velho pescador se levantou, emitiu um arroto sem discrição nem escândalo e foi embora, deixando o cara na cadeira de rodas sentado diante da mesa.
Não tocaram na jarra de água em momento algum.
Na volta para Dublin, meu nariz escorria tanto que eu não conseguia parar de fungar. Para não me sentir tão leproso, peguei um lugar num vagão quase vazio, exceto por dois sujeitos na outra ponta. Tinham todo jeito de turistas italianos: barbas curtas minuciosamente esculpidas, cheiro de colônia, roupas sem vincos, um ar indistinto de pederastia. Mas na parada de Kilbarrack uma garota bem jovem e morena, de rosto comprido e olhos imensos quase escondidos pela franja enorme do cabelo cor de Nutella, se sentou no banco que ficava de frente para o meu, mesmo com o vagão inteiro quase vazio.
Fiquei tentando segurar a respiração para não fungar tanto, mas era quase impossível. Na visão periférica, enxerguei quando ela tirou um lenço do bolso e assoou o nariz com força, emitindo um som berrante digno de quem tem uma sirene de neblina instalada dentro do crânio. Funguei mais uma vez e ela respondeu com outro buzinaço da sirene. Olhei para cima e vi a garota colocando o lenço dentro do bolso da jaqueta vermelha de algum tecido sintético que imitava textura de couro. Subi mais um pouco o olhar, passei pelo nariz com uma argola muito delicada e quase invisível até nossos olhos se encontrarem. Então ela sorriu, um riso aberto, com a mandíbula inferior meio deslocada para um dos lados, quase deixando entrever a língua e a cavidade molhada da boca. Resisti dois segundos, olhei para o chão e fiquei ao mesmo tempo tentando:
a) não respirar, para não continuar fungando tanto; e
b) não mover mais a cabeça, para não correr o risco de enxergar aquele sorriso de novo.
Minhas orelhas ferviam. Decidi comprar um lenço assim que descesse do trem. Tentei enxergar para que lado os pés dela estavam virados, mas com a mochila no colo a tarefa se demonstrou impossível. Ela acionou mais uma vez a sirene nasal. Acompanhei suas mãos de dedos meio quadrados dobrando perfeitamente o lenço e o devolvendo ao bolso interno da jaqueta, e em seguida ela abriu a bolsa e retirou um livro fininho. Fragmentos de uma antropologia anarquista , dizia a capa. Foi minha deixa para sacar o portátil do bolso, tentar bater meu último recorde em Nanostray e seguir não fungando até o instante em que uma gota de muco transparente pingou na tela durante um momento de tensão.
Quando o trem chegou na minha parada, fingi mexer no celular quando percebi que a garota também estava saindo. Na estação, percebi que além de coxas e panturrilhas grossas ela tinha a cintura marcada e um pouco baixa, dando ao conjunto uma impressão curiosa mas agradável. Tentou enfiar o livro de volta na bolsa sem parar de caminhar, mas deixou cair no chão sem perceber e seguiu em frente. Na mesma hora eu disse “Ei!”, ao quê ela olhou para trás e me viu agachado com uma cara de pateta e o livro na mão.
— Obrigada — ela disse. — Seria bem ruim perder esse livro.
— É tão bom assim?
— Ah, mais ou menos — ela abriu de novo aquele mesmo sorriso do trem, e fiquei um pouco decepcionado ao perceber que parecia mesmo ser um sorriso que ela usava em qualquer situação e não alguma tentativa de interação sensual. — Mas é que… espera, de onde você é?
— Meu sotaque é tão forte assim? — perguntei sem querer ouvir a resposta, e então contei de onde eu tinha vindo.
— Não tem muita gente do seu país por aqui, né.
— Pois é, eu gosto de ser pioneiro. Explorar novos territórios, essas coisas.
Disse isso olhando para as coxas dela e depois não consegui levantar os olhos. Não era a primeira vez que eu fantasiava reencontrar a adolescente de Parnell Square. Desde aquela manhã em que eu tinha conhecido Stefka, e já fazia dois anos, a garota saltitante se infiltrava no meu pensamento mesmo quando eu conhecia alguma outra mulher que não tinha objetivamente muitas coisas em comum com ela. Neste caso, a semelhança física entre as duas ficava um pouco abaixo dos quarenta por cento.
Depois que a paixão por Stefka se aplacou e morreu e tudo virou rotina, durante nossas fodas eu não conseguia deixar de ficar imaginando que era a adolescente que eu comia, ao invés da garçonete eslovena do Eddie Rockets por quem eu tinha me apaixonado naquela mesma data. Não era proposital e em boa parte das vezes eu nem queria que aquilo acontecesse, mas era impossível controlar. Especialmente quando eu tinha bebido um pouco, e fazia bastante tempo que eu bebia muito todos os dias. Às vezes, engolfado pelo álcool, eu passava minutos esquadrinhando o rosto tão familiar de Stefanija até que os traços perdessem os contornos e virassem uma tela em branco em que eu projetava as feições daquela garota perturbada que eu tinha visto apenas de relance, por no máximo uns dois minutos.
Voltei para casa com o nome Laura Cohen, um número gravado na agenda do celular e uma nova imagem marcada a laser no meu arquivo interno.
Tem punhetas que fazem o cara chorar.
§§§
— Chegou uma modernete aí querendo falar contigo, parcêro — anunciou Barry mostrando o canino de ouro enquanto eu estudava o mais novo roteiro do tour principal, com quatro atrações adicionais inventadas. — Cê anda fodendo menor de idade, imigrante safado?
Infelizmente a resposta era não, e eu também nem esperava que Laura voltasse a me procurar depois da segunda vez que nos vimos, quando marquei um encontro com ela na Grafton bem em frente da Tangier Lane para almoçarmos no Green. Foi uma ideia que me veio na hora, agi sem pensar e deu certo: telefonei e ela foi. Tangier Lane é o único lugar da área central de Dublin que fede a mijo e ao mesmo tempo nunca tem nenhum junkie sacolejando um copo de papel para pedir esmolas. É apenas um beco bem iluminado com algumas lixeiras, grades e paredes de tijolo.
Enquanto esperava, acompanhei o movimento de ioiô de uma senhora baixinha e gorducha, vestida de preto da cabeça aos pés com um bóton enorme e amarelo no peito e usando uma manta de tricô como capuz. Subia e descia a Grafton, alheia às pessoas desfilando diante das vitrines, aos músicos tocando em troca de moedas e aos dançarinos de flamenco. Carregava uma placa também preta, sobre a qual tinha colado a imagem de um feto no interior do útero e uma folha de papel com a inscrição manuscrita Seja a voz da maioria silenciosa. A careta que ela trazia no rosto mais parecia uma máscara de sofrimento, casando bem com os olhos de cenho franzido que não se focavam em lugar algum. Numa das mãos ela carregava uma bolsa vermelha e branca que parecia bastante pesada, e na outra um terço que dedilhava continuamente.
Às vezes a senhora parecia sair de dentro de si mesma. Olhava para os lados como se estivesse procurando alguém em especial ou buscando um olhar de reconhecimento, mas não reagiu nem retribuiu a nenhuma tentativa de contato visual feita por transeuntes. Quando passou diante de um caixa automático, um velho de blusão de lã verde, touca vermelha e a boca totalmente coberta por um bigode esverdeado e cinza como o mar da Irlanda gritou alguma coisa. A senhora não deu sinais de perceber a presença dele ou escutar o grito, e seguiu adiante no mesmo andor. O velho, por sua vez, continuou tagarelando sem parar no ouvido de todas as pessoas que paravam para fazer saques no caixa. A única palavra que distingui foi “beber”, mas não me ficou claro se ele estava dizendo “vou beber”, “não vou beber” ou algo totalmente diferente. O velho se apoiava num andador metálico e tinha umas coisas estranhas na canela, uma espécie de proteção de borracha que ia do tendão de aquiles ao joelho.
Laura mandou um SMS (“chgnd”) e no minuto seguinte apareceu com nosso almoço, carregada com wraps e garrafas plásticas de Ribena. Fomos direto para o Green, procurando um local à sombra na beira do lago, e nem mencionei que eu só não considerava o sabor de groselha vencida da Ribena a coisa mais lamentável no universo das bebidas não alcoólicas porque existe Lucozade, a urina radioativa com açúcar. Assim que nos sentamos sobre o pano colorido que ela tirou da bolsa e estendeu sobre a grama, apareceu o primeiro junkie, vestido com um abrigo esportivo azul com detalhes em amarelo. Nem deu tempo de abrir as Ribenas.
— Boa tarde, distinto senhor. Olá, bela senhorita — ele começou, as palavras escorregando com preguiça pela língua cheia de aftas. — Odeio atrapalhar sua refeição, mas vejam bem, eu não tenho casa. Moro na rua. Então acabo forçado a isso. Por favor, poderiam me doar algum trocado?
Levou cinquenta centavos. Quando o quinto junkie apareceu, sem nem tirar o capuz mas também pedindo desculpas por interromper o almoço (devem aprender isso em algum curso, não pode ser), eu ainda não tinha terminado a primeira metade do wrap de frango jamaicano “feroz” (ao receber o pacote das mãos de Laura e ler o rótulo, perdoei a Ribena e recuperei minha crença em sua capacidade de fazer escolhas). Aquele junkie parecia ter sido bonito algum dia, quando ainda tinha todos os dentes. Antes que eu pudesse dizer alguma coisa Laura colocou as mãos nos ouvidos e gargarejou um lalalalalalalalalalala variando altura e tom. Subia bastante e baixava o volume de novo, mudava de tom, subia e baixava. Um fio de baba escorreu pelo queixo dela, que em seguida avançou para mais perto de mim e lambeu minha bochecha.
— Jesuis — disse o junkie, fazendo o sinal da cruz, e se afastou.
Laura recuperou a compostura na mesma hora e continuou agindo como se nada tivesse acontecido. Eu ainda sentia a saliva misturada com Ribena secando no meu rosto quando ela deu uma mordida em seu wrap vegano e disse, mastigando:
— Eu deixei o livro cair de propósito. Você sabe disso, né.
Eu não sabia. Eu nunca sei.
— Não — admiti, derrotado desde o primeiro segundo. — Por quê?
— Gostei de você no trem. Só isso. Achei que parecia uma boa pessoa.
Aquilo de novo. Uma vida inteira flutuando no miasma das boas pessoas, onde vivem os amigões e os eunucos.
— Mas não sou — protestei.
Laura deu mais uma mordida no wrap, mastigou bem e sem engolir aquela pasta encheu a boca com um gole da Ribena. Sempre achei isso um hábito detestável. Depois ficou me olhando como se estivesse diante de alguém com severos problemas de desenvolvimento cognitivo.
— Qualquer um que se declare uma boa pessoa não presta. Disso você sabe, né.
— Sei — respondi sem tomar fôlego, mas também não sabia.
Aí ela perguntou por que eu tinha resolvido ficar em Dublin. Todas as minhas tentativas de resposta ficaram entaladas, meu cérebro parecia estar com prisão de ventre. Não queria mencionar Stefka e muito menos a adolescente saltitante, que definitivamente não era Laura. Eu não reclamaria se fosse. Considerei mencionar o imperativo do milk-shake perfeito, mas temi que isso a fizesse não ter mais dúvidas sobre meus problemas mentais. Ela notou minha hesitação, provavelmente farejando também o cheiro doce e diarreico dos meus medos, e tentou me ajudar perguntando do que eu mais gostava na cidade. Nem pensei muito, para evitar me lembrar de que na verdade eu não gostava de Dublin e apenas estava lá porque era lá que eu estava, e fui respondendo o que me aparecia na cabeça:
— Gosto do jeito que o pessoal explica como chegar em algum lugar quando você pergunta na rua, especialmente ao norte do Liffey. O caminho sempre começa no pub mais próximo e termina no pub que fica mais perto de onde a pessoa quer chegar. Gosto também de ver nigerianos usando expressões dublinenses com aquele sotaque e a voz quase sempre grave e cavernosa. E adoro ver chineses falando “idjota”.
E eu gostava mesmo dessas coisas. Demais. E do fato de a manteiga irlandesa estar sempre cremosa em qualquer estação do ano. Às vezes é bom verbalizar as coisas para descobrir, ou pelo menos tornar algo mais verdadeiro ao ser transformado em palavra. Especialmente palavras ditas a alguém. Laura perguntou se eu já tinha ido em Grangegorman. Nunca nem cheguei perto, respondi. Ela estendeu as duas mãos para a frente, com os dedos bem abertos, respirou fundo e desatou a falar arregalando os olhos que mesmo sem isso já eram enormes:
— É onde fica o St. Brendan’s, o hospício. E ali perto tem um bordel. Mas não é como esses bordéis do centro, cheios de sei lá, eslovenas. É o bordel do Fred Maluco, onde só tem doida. Mas doida mesmo, né. Paciente do hospício. Não sei muito bem como ele faz isso, como consegue tirar as malucas do hospital, mas é o que acontece. Elas até dançam, tiram a roupa toda, é uma maravilha. E só custa trinta euros pra levar uma delas pro quarto.
A massa viscosa do wrap mastigado ficou tanto tempo parada sobre a minha língua que comecei a me incomodar com o peso. Fiz um esforço para engolir, mas a pasta empacou no meio da glote. Tomei um gole de Ribena com medo de me engasgar ainda mais e morrer asfixiado no meio do St. Stephen’s Green, cercado de junkies com copos de papel cheios de moedas e gente comendo sanduíches de todo tipo, na frente de uma estudante de Antropologia de dezenove anos que eu mal conhecia. Mas com a ajuda do líquido abominável tudo desceu sem grandes protestos, e quando minha boca e minha língua enfim ficaram livres novamente tudo que consegui dizer foi:
— Mas pode isso?
Laura deu uma risada que só consigo classificar como gostosa, ainda que eu abomine usar esse termo para qualquer coisa que não possa ser comida.
— Claro que não — emitiu de novo a risada gostosa, batendo uma mão contra a outra para limpar os farelos. — Mas ele faz assim mesmo. Parece que a coisa toda começou como um serviço dos internos pros internos, sabe? Pros louquinhos transarem entre si. Porque maluco também sente tesão quando não está travado de tanto Haldol, né. Só que aí um pessoal de fora ficou sabendo e pronto. Hoje todo mundo sabe que o bordel existe, mas ninguém fala nada nem faz coisa alguma pra impedir. Deixam o Fred Maluco e as doidas dele em paz. E é isso, esse bordel dos malucos, a coisa que eu mais gosto em Dublin.
Terminados os wraps, seguimos de volta pela Grafton e nos separamos quando ela entrou no Trinity para assistir a uma aula e eu voltei para o escritório na O’Connell. Não nos falamos mais por algumas semanas, nem por SMS, e achei que as coisas iam ficar por aquilo mesmo. Mas ali estava ela de novo, aparecendo de surpresa com uma saia preta, meias de renda, botas de couro marrom-escuras, uma jaqueta de couro preta com detalhes cromados e uma echarpe roxa, dando uma das risadas gostosas assim que me enxerga e me convidando para ir com ela a uma reunião na faculdade no final da tarde.
Aceitei, claro.
§§§
No Trinity College a divisão do espaço entre os pássaros é bem clara: as gaivotas ficam grasnando em cima dos prédios enquanto os pombos gordos ciscam pelo chão. Estes últimos não se incomodam nem com o burburinho da Semana dos Calouros, quando o espaço central do campus, demarcado por prédios cinza-claros do século dezoito, é tomado por pós-adolescentes e uma infinidade de estandes, mesinhas e barracas representando todos os clubes estudantis da universidade. Imune à gritaria, um pombo sem dois dedos numa das patas procura por algo comestível em alguma fresta do calçamento de paralelepípedos. Pergunto a Laura se foi para aquilo que ela tinha me trazido até ali, ao que ela responde franzindo a testa e o nariz e emitindo um monossílabo rouco:
— Ãi.
Vamos caminhando. Sociedade de Aikidô. The Hist, O Clube Estudantil Mais Antigo do Mundo (1770). Clube de Ficção Científica. Sociedade Japonesa. Associação de Paintball. Círculo de Cineastas. Clube de Caiaque. Sociedade de Capoeira, exibindo um pendão jamaicano com o rosto de Che Guevara. Academia de Tênis de Mesa. Sociedade pela Igualdade entre Gêneros. Clube do Surfe, com uma cabaninha de madeira. Sociedade dos Alunos Maduros. União Cristã do Trinity College. Clube de Esgrima, sem ninguém, porque os sujeitos estão duelando pelo meio das outras barracas. Sociedade de Canto Coral. gamers!, estranhamente sem nenhum gordo. Sociedade de Dança. MathSoc, com panfletos que anunciam “almoço grátis”. Grupo de Teatro Estudantil (oficial). Grupo de Teatro Estudantil (alternativo). Associação de Enxadristas, onde apenas uma menina magrinha com feições de esquilo parece ter uma noção básica de interação social. Clube de Tiro. The 200 Soc. Clube de Natação. Sociedade Afro-Caribenha. Federação Sapiossexual. Grupo de Judô. Sigma Society. Grupo de Ioga. Associação de Salto Ornamental. Sociedade de Encenação Histórica (Alta Idade Média). Clube dos Hackers, uma barraca preta com bandeira de pirata e também nenhum gordo, mas onde todos usam sobretudos e chapéus pretos. Clube de Alpinismo. Veganos Contra o Motor. Sociedade de Economia e Negócios, animada por loiras muito bronzeadas de sorrisos ofuscantes. Clube de Basquete. Sociedade de Encenação Histórica (Segunda Guerra Mundial), onde todos sem exceção estão vestidos como soldados alemães. Alunos Celíacos. Grêmio Literário, onde enfim os gordos aparecem. Sociedade de Arqueologia. TCD Poliamor. Círculo da Amizade Irlanda-Calmúquia, sem ninguém e nem ao menos um folheto explicando onde fica a tal Calmúquia. An Cennan Gaelach Colóiste na Tríonóide.
— Acorda pra vida, Magnus. É óbvio que o Trevo Negro não participa dessa bobagem burguesa — Laura desdenha quando passamos por uma espécie de arco encimado por algo que parece um campanário e enfim deixamos o burburinho para trás. Diante de nós, ao final da pequena trilha ladeada por árvores que ponteiam gramados cobertos de folhas secas e placas azuis com a inscrição Ná gabh ar na faichí led’thoil, um prédio baixo e antigo de tijolos vermelhos quebra a monotonia do cinza-claro circundante. Antes que eu pergunte, Laura responde “Proibido pisar na grama, Magnus” e me puxa pelo braço.
Sobre o arco de pedras claras que protege uma das portas de entrada, um número em algarismos romanos: xxiii. Na madeira da porta, uma placa mais recente, de plástico cor de vinho, traz a inscrição Particular. Laura aperta um botão no interfone, relativo ao número 23.2.02, e a porta se abre quase imediatamente sem nenhuma pergunta. Subimos dois lances de escadas sombrias e chegamos a outra porta, onde um cartaz exibe um leão rampante sem cabeça com três gotas de sangue jorrando do pescoço decepado. Debaixo dele, as letras T. N. com serifas muito agudas. Laura abre a porta e imediatamente uma nuvem de bolhas de sabão escapa para fora e estoura em nosso rosto. Ainda dá tempo de ouvir vozes debatendo alguma coisa com entusiasmo, mas assim que eu cruzo a porta o silêncio se instala. Um sujeito de paletó de tweed, na casa dos trinta anos de idade, se levanta da cadeira, aponta para mim e pergunta para Laura:
— E esse aí, quem é?
— Meu namorado — Laura me abraça por trás, espremendo os seios nas minhas costas e me criando uma necessidade urgente de arranjar algum lugar para sentar. — Achei o pobrezinho dormindo numa calçada em Dún Laoghaire.
— Laura, a gente confia em você, mas não acha que devíamos pelo menos promover uma votação sobre a presença de um estranho na reunião de hoje?
— Olha — digo, tentando não me mexer muito para evitar que Laura desgrude o corpo do meu. — Se vocês quiserem eu posso ir embora.
— Mas que diabos de sotaque é esse? De onde você é? — pergunta um magrinho de óculos, feições quadradas e penteado nervosamente milimétrico.
— Da Ilha de Páscoa, Tony — Laura responde por mim, me largando e expulsando o magrinho da cadeira.
— É, pelo formato da cabeça eu consigo entender os moais — comenta o primeiro. — Pode sentar. Se a Laura se responsabiliza por você, tudo bem. Não temos líderes por aqui, mas o voto dela tem peso especial por ser a única mulher do grupo.
— Viva o critério sexista — ela ri. — Magnus, esse senhor simpático é o Francis John. Ele é pederasta, pós-doutorando em ciência política e mora no campus mais ou menos desde o século dezenove. Essa criaturinha instável, com roupas passadas e cabelo cheio de modelador de penteado hf10/sf0 é o Tony, nosso pequeno animal com problemas de ansiedade.
E com essa breve formalidade, seguida pelo reinício dos debates (“como eu estava dizendo”, diz um sujeito com sotaque alemão que mais tarde me foi apresentado como Professor Presunto, “a natureza é amoral e a civilização é imoral”), fui introduzido ao Trevo Negro, o clube de alunos que não é um clube de alunos e professa algo que Laura tentou me resumir como “anarquismo ontológico”.
A primeira pessoa que me chamou a atenção foi um baixinho rechonchudo de olhos amendoados, cabelos negros e rosto muito plano, com as feições de quem tinha sido golpeado na cara com uma frigideira logo após o parto. Era o responsável pelo tal Círculo da Amizade Irlanda-Calmúquia, que estava ali com a intenção de fundir seu clube com o Trevo Negro para conseguir apoio a um projeto de traduzir a obra mais importante da literatura calmúquia para o gaélico irlandês. Mas o que realmente estava concentrando a atenção de todos naquele dia era a ideia de criar um plano para abalar o estado irlandês, por algum motivo que me escapou totalmente na hora e meia que passei ali dentro. Francis John insistia que a coisa mais óbvia seria sabotar uma corrida de galgos, que segundo ele seria um símbolo da acomodação da classe trabalhadora e do desperdício burguês, “além de toda a questão especista”. Não entusiasmou muito os colegas.
Após uma fatia excruciante de tempo, enquanto Tony e um israelense barbudo que foi identificado como “O Espectro” discutiam as diferenças entre fascismo, totalitarismo e autoritarismo alheios ao debate principal sobre os sentidos ocultos do lema de Dublin (A obediência dos cidadãos é a alegria da cidade), Laura deu um tapinha na minha coxa e indicou a porta com a cabeça. Tudo indicava que uma mulher sensível também sabe a hora de voltar para casa.
Como é bom fazer amizades. Promessas, nem tanto.
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Não, Demetrius. Não é assim, não olhe para eles desse jeito. Viu? Agora aquela mulher está devolvendo o olhar. Estabelecendo um circuito, Demetrius. E você sabe que ela está vendo um homem alto, com um corpo desequilibrado no qual o tórax em formato de pera dá a impressão de pertencer a uma pessoa e as pernas com zero por cento de gordura a outra. É isso que ela enxerga, Demetrius, enquanto sai da loja de peixe com fritas e você insiste em sustentar o circuito, buscando impor sua vontade sobre ela. Mas não é assim que funciona, e às vezes você parece se esquecer. Olhe bem. Ela não apenas está encarando como também dá alguns passos na direção desse homem desproporcional, de barriga imensa e pernas finas, com olhos muito próximos, testa ampla e cabelos negros escasseando no alto do crânio, mas que ainda tem fios longos o suficiente na parte de trás da cabeça para ostentar um rabo de cavalo que escorre até o meio das costas, preso por um elástico atoalhado preto e todo desfiado. Ela parou, Demetrius. Você viu? Mas continua encarando, e isso que você enxerga nos olhos dela talvez seja o início de uma palavra. Você finalmente quebra o circuito, desvia os olhos para baixo e enxerga no final de uma das suas pernas a ponta de um pé esquerdo dentro de um sapato de bico fino virado ligeiramente para cima, remexendo as pedrinhas de cascalho no canteiro em frente à loja na Dame Street. O pé direito continua imóvel. Os sapatos são vermelhos, um pouco gastos, e parecem apertados. Ou são os pés que dão a impressão de ter um tamanho muito menor do que deveriam. Talvez eles tenham vindo de outra pessoa, Demetrius. Como as pernas e o tórax. Cada parte de um alguém diferente. Ela está percebendo tudo, mas parou de se mover. Você imagina que talvez ela esteja percebendo outros detalhes do homem, como as unhas compridas cortadas em cunha, pontiagudas. Ou a jaqueta de malha verde-clara, com zíper estragado. Venta pouco nessa manhã, mas faz frio o bastante para incomodar e deixar o dia parecendo ainda mais inerte em conjunto com a falta de nuvens que manchem de imundo o branco do céu. Você percebe que a mulher fica observando o homem tentando traçar padrões no cascalho com a ponta do pé. Ela vai falar, Demetrius. Você sabe disso. Você sente. Você tem meios para isso. Você não aquieta o pé. Você está pensando em erguer a cabeça e reativar o circuito quando esbarra de frente com a voz.
— Kevin — emite a dona da voz, uma mulher loira com os cabelos presos num coque. Você percebe que mesmo desbotada pelo tempo a cor do cabelo é natural. Ela está falando com você, Demetrius. Com você, que passou boa parte da vida reunindo coragem para falar com pessoas que não existem mais. Pessoas que diziam coisas como Para obter o poder divino é preciso sodomizar um deus . Acima de tudo um deus caolho. Essa mulher não sabe disso. Está condenada, como todos que estão longe da Senda do Lúmen Serpentino. Talvez tenha chegado a hora de ela saber, Demetrius. Fale com ela. Arme o circuito. Sustente o olhar. Ela veste um moletom azul com a inscrição california surf em letras de fôrma amarelas, desenhando um arco. Traz numa das mãos a sacola da loja de peixe com fritas, enquanto a outra se ocupa das chaves do carro. Hora de se afastar, Demetrius. Ela está condenada. Tudo está condenado. Você sabe. É preciso ir ao centro de poder do Eire, ao umbigo da ilha, e esperar pela Transmissão. Pelas instruções dos Ofídios. Vamos, Demetrius. Siga caminhando, entre no Dublin Castle. Você sabe o que deve ser feito. Não existe caminho, existe apenas este passo. Vamos.
— Kevin! — a mulher repete, e desta vez você a encara tentando focar a visão enquanto decide se coloca as mãos nos bolsos frontais da jaqueta ou nas laterais da calça preta de tecido sintético, com o logotipo fluorescente da marca esportiva. Você sabe por que ela está repetindo esse nome, Demetrius? Fique atento. O universo inteiro é um oceano de símbolos. É importante saber se manter na superfície ao invés de se afogar ou ser levado pelas correntes, e para isso é necessário estar atento aos padrões. Aquela insistência em repetir um nome está claramente formando um padrão, e desde o trabalho de Hermes Trismegistos nenhum habitante de Tellos pode duvidar que onde existem padrões, existe verdade. Você se aproxima da mulher e busca apreender sua aura e suas correntes vibratórias, inclinando o tórax para a frente. Mas não percebe nada digno de nota. Seu nome não é Kevin, Demetrius. Você se chama Demetrius, Demetrius Vindaloo, e você sou eu e somos tudo que existe.
— Kevin? — insiste a mulher por uma terceira vez, agora já nutrindo alguma dúvida, o que a faz abraçar a sacola da loja de peixe com fritas de modo quase imperceptível para quem está de fora e não consegue sentir nos seios o calor dos pequenos esquifes de papelão. Mas você tem a Empatia Teúrgica, e sente tudo em consonância com quem está inserido no circuito. Enfim você enxerga a aura, e é cinza opaca. Uma escrava dos Homens Grandes de Órion. Inútil, portanto. Você para de olhar para a mulher e dá nove passos para trás com a cabeça voltada para cima. Nove, e mais nenhum. Como os nove dias desde a chegada de Patricia. Três vezes três, a trindade perfeita. E então você fica ali, olhando para o céu sem nuvens e sentindo as pessoas desviando de você na calçada. Você respira fundo nove vezes, dando atenção plena ao ato. O ar gelado entra pelo nariz, é aquecido e desce para os pulmões e então volta a sair quase como vapor. Em seguida você conta nove vezes. Dá nove giros de trezentos e sessenta graus sem sair do lugar, quarenta vezes nove, que se reduz a quatro. O número do Imperador e do quadrado perfeito. E pela gematria você sabe o que isso significa. Então você abre os olhos e a mulher não está mais lá. Foi dissolvida.
Você estala os dedos da mão esquerda três vezes e segue caminhando pela Dame Street até passar pelos portões do Dublin Castle. Segue em frente em direção ao jardim, com seu gramado circular decorado com um padrão celta de serpentes entrelaçadas. Ali ficava a lagoa negra que dá nome à cidade, Dubhlinn, de onde saíram os primeiros Ofídios a visitarem a ilha. Agora o que restou daquelas águas se esconde em galerias subterrâneas. Você sabe que se caminhar pelo padrão do gramado na ordem certa, algo se revelará. Mas mesmo sem uma Transmissão você será reenergizado, e isso basta. Aquele local de poder resiste a todas as tentativas de ruína impostas pelo Inimigo. Você se senta em um dos bancos que circundam o gramado com as serpentes e olha para o templo disfarçado de biblioteca construído bem ao lado. Batizado com o nome de um notório magista enoquiano disfarçado de empreendedor, Chester Beatty, abriga entre outros objetos religiosos o fragmento mais antigo que se conhece do Apocalipse. Você sabe muito bem o que os profanos pensam a respeito desse livro, Demetrius. Imaginam que tem algo de profético, que fala sobre o final dos tempos. Mas você sabe muito bem que se trata de uma alegoria do início da igreja católica, um libelo contra a entrada de gentios na seita. E o autor João do Apocalipse não é o autor João do Evangelho. Como o profeta cristista Jesus, certamente se tratava de um representante da Confederação Galáctica. Como todos os semitas, híbridos funestos de humanos com Homens Grandes de Órion. Abominações.
Foi ali, sobre a lagoa negra encoberta pelo círculo de grama entrecortada pelo padrão serpentino, que você acessou o Lúmen Serpentino pela primeira vez. Sua filha ainda era um bebê e você ainda morava com a menina impura e os pais dela. Você pisou ali e se sentiu de novo uma criança recém-nascida e sem memória. A memória serve para que você se esqueça de quem é, Demetrius. É um artefato do Inimigo. Quanto mais você se lembra, mais se esquece do que é natural e antigo e verdadeiro. E o olho com o qual a criança enxerga os Ofídios é o mesmo olho com que os Ofídios enxergam a criança. O olho puro e solitário de Crom Cruach. Mas sem demora esse olho é recoberto por memórias. E com as memórias vêm as opiniões. E com as opiniões, as preferências. E com elas, as abstrações. E por fim a chamada personalidade, a forma rígida dentro da qual a Confederação aprisiona os incontáveis seres que foram criados livres, mas que estão aprisionados em grilhões. Você já tinha suspeitado disso na infância, jogando Serpentes e Escadas. Mas foi naquela tarde, bem aqui no centro de poder da cidade, que você conseguiu se livrar disso, Demetrius. Você estava com sua filha no colo, caminhando pelo gramado e acompanhando o padrão das cobras. Sua filha ainda pequena e pura. Sem personalidade. O sol piscou no céu quase esverdeado e caiu sobre vocês dois, perfurando seu coração com a verdade do Lúmen Serpentino. E então veio uma dor de gozo. A beleza estranha do Lúmen, que não é uma lembrança do paraíso mas o paraíso em si, presente naquele momento. Que é para sempre, Demetrius. Você caiu de joelhos sobre o padrão de serpentes, ergueu sua filha para o alto com as duas mãos, na direção do sol, e começou a chorar. Depois deixou o bebê sorrindo banguela no meio do gramado, foi embora da Irlanda e desde então se dedica a peregrinar pela Europa para tornar imanente o Lúmen Serpentino, protegendo o planeta e libertando a todos do jugo da Confederação Galáctica. Por isso voltou para Dublin após receber uma Transmissão no interior da Bulgária. E logo no seu primeiro dia encontrou a casa abandonada em Howth, no final da rua sem saída, conforme as instruções precisas que tinha recebido dos Mais Antigos. Você forçou a porta e ali estavam as mesmas paredes rachadas que você tinha enxergado na Visão, o mesmo piso um pouco inclinado no segundo andar. Porque os Ofídios não descuidam dos seus soldados, e neste planeta o único responsável pelo combate à Confederação Galáctica é você, Demetrius. Você e sua Família, que são poucos e jovens, mas dedicados à causa reptiliana. Mas é difícil, e você sabe que a guerra em Tellos pode estar perdida.
Veja o gato malhado e obeso se aproximando de você quase em linha reta, seguindo os contornos do calçamento e nunca pisando no gramado repleto de trevos. Antes o felino estava com as duas meninas que leem sentadas no murinho. O gato para na sua frente, espirra e continua andando até ressurgir por trás das garotas. Apenas a cabeça enorme e as patas. Ele alterna o olhar entre as duas e você, mais parecendo um diabrete. Outro sinal talvez, Demetrius. Mais atenção. Você está se perdendo. Refaça o circuito com o Ofídio Mais Secreto. Esqueça as gaivotas no telhado do castelo. Esqueça as cores vivas e destoantes das paredes. Esqueça a cortina imóvel na única janela aberta. Passe a se concentrar nos olhos de vidro e metal das serpentes. Veja crianças e mulheres de todas as idades não resistindo ao ímpeto de caminhar pelos padrões serpentinos, seguindo os imperativos das linhas de Ley. Uma mulher fica parada à beira do centro do poder mas também não se move. Perceba os traços, o nariz, a postura encurvada e o sorriso de usura. Abominação.
Agora também o gato malhado segue os padrões. Siga olhando por mais algum tempo e perceba que o pelo também possui manchas cinzentas além das pretas, enquanto o pescoço é branco. Três cores, é uma gata. As patas da frente são brancas e as traseiras são brancas até o joelho. Você se desconcentra com o surgimento de quatro jovens conversando com sotaque vagamente americano. Um garoto gordo de moletom e três meninas. Uma delas tem o cabelo muito preto e a pele muito branca, alta, de botas. É nova e cheia de curvas como Ciara. Ciara que era a esperança de Tellos e arruinou tudo ao deixar que Oisín rompesse sua membrana. Você confiou na continência de adolescentes, Demetrius. Imaginou que a promessa do Lúmen Serpentino e da redenção final de Tellos seria o bastante. Esqueceu que você mesmo não conseguia se controlar com a mesma idade. Esqueceu que sua filha nasceu por conta disso. Mas agora esqueça sua filha, Demetrius. Volte ao Mais Secreto. Busque a Transmissão, porque ela chegará com a solução final para o problema dos Homens Grandes de Órion. Esqueça Oisín e Ciara se aproximando com um misto de timidez e orgulho. O cheiro azedo dos hormônios transbordantes. As gotas de suor sobre o bigodinho de Oisín. As mãos compridas e desajeitadas que lembram raquetes de tênis. A vulgaridade precoce do corpo de Ciara, tentando seduzir antes mesmo que a intenção surgisse na consciência da menina. Uma Sheela na Gig escancarando a vulva com as duas mãos, controlada pela fertilidade. Agora é tarde, Demetrius. Mesmo ofídia, agora que perdeu a membrana, ela está nas mãos da natureza. Não pode mais servir de alimento a Crom Cruach, não será mais a responsável pela chegada do emissário dos Ofídios Superiores.
Mas Patricia ainda é pura. Caminhe até o centro do gramado, Demetrius. Diga em voz alta: Patricia ainda é pura. Caminhe pelos padrões serpentinos. Mais rápido. Patricia ainda é pura e tudo se resolverá em meio aos carvalhos da floresta de Glendalough. Os profanos gostam de dizer que São Patrício expulsou todas as serpentes da Irlanda e condenou Crom Cruach ao sono eterno, mas você sabe que essa é a maior mentira de todas no planeta Tellos. Nós ainda estamos aqui. Você ainda está aqui. Sua Família ainda está aqui. Venceremos. Caminhe mais rápido, não perca o traçado. Veja as pessoas se afastando, Demetrius Vindaloo. Não grite. Sustente o circuito com os Mais Antigos. Deixe a energia do Lúmen preencher suas células. Seja um canal. Seja o veículo reptiliano. Vibre. Patricia ainda é pura, e na noite do Samhain ela será transfigurada em oferenda. E o coração de São Valentim será queimado no caldeirão do Dagda antes do sacrifício final. E Crom Cruach enviará do altíssimo seu emissário com pele de lagarto e plumagem colorida. E nosso mundo será purificado. E a Confederação Galáctica nunca mais terá poder por aqui. Você está sentindo, Demetrius? Gargalhe. Você enxerga uma criatura de aura violeta apontar o dedo imundo na sua direção enquanto fala com um homem uniformizado de aura vermelha. Mas eles não podem fazer nada. Você se vestiu com a Armadura Herpetiforme e está pronto para a batalha final. Agora caia de joelhos mais uma vez. Bem no centro. Onde as serpentes dão um nó. Encha as mãos com grama e trevos e arranque tudo. Esfregue no rosto. Enfie na boca. Agora erga os braços e arme de uma vez por todas o circuito com o Ofídio Mais Secreto. Receba a Transmissão. Você que não tem nome. Que não é você. Que não tem você. Tudo está resolvido. Foi. Será. Pode rir. Podem rir. Podem vir.
O anjo mais feio de todos vai descer dos céus.
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