Digam a Satã que o recado foi entendido
O último dodô
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Outubro/Novembro de 2009
Deireadh Fómhair/Mína Samhna 2009
OceanofPDF.com
Começa com uma impressão muito delicada de que as coisas estão se acelerando. As pessoas caminham um pouco mais rápido, os fonemas se acavalam sem muita sutileza enquanto vão deixando a boca, a velocidade média dos carros parece levemente maior, os animais na rua correm em fast forward. Todavia, enquanto isso acontece ao mesmo tempo tenho consciência de que eu mesmo, Zbigniew, continuo na velocidade anterior, tanto por dentro quanto por fora. E as outras pessoas também percebem isso, eu sei, e quanto mais elas percebem, mais rápidas vão ficando e mais lento eu me torno, ainda que de fato minha velocidade nunca mude.
Quando o meu defeito de fábrica atinge esse ponto eu prefiro ficar parado em algum canto. Sentado, ou melhor ainda, deitado. Sem falar nem interagir com ninguém, apenas esperando passar. Até porque eu não gosto mesmo de ficar falando, especialmente em inglês. E é nesses momentos mais agudos que me ajuda bastante ficar enumerando em silêncio pragas, pestes e toda sorte de morte coletiva. Aconteceram várias epidemias de peste bubônica na Irlanda, mas ainda que a Peste Negra ocupe um lugar de honra no coração de qualquer estudioso onde quer que tenha se manifestado, também nutro carinho especial pelas epidemias de tifo, acompanhado ou não por disenteria. Na Irlanda, recito para mim mesmo enquanto me ajeito na privada do banheiro do Burger King, ocorreram epidemias de tifo de 1708 a 1710, de 1718 a 1720, de 1728 a 1730, de 1740 a 1741, de 1817 a 1818 e de 1836 a 1840. Isso funciona para me deixar mais calmo, mesmo quando não estou em crise. Mas eu estou.
Olho para os meus joelhos sob a luz ultravioleta, ali instalada para desencorajar os junkies a se drogarem no banheiro. Na minha estimativa, as portinholas das cabines têm no máximo sessenta centímetros de altura. Ficam posicionadas bem no espaço mediano do vão, deixando fendas de uns sessenta e cinco centímetros no topo e na base. Não servem para obstruir de fato a imagem da pessoa sentada no interior da cabine, sendo eficazes para impedir que alguém tenha qualquer privacidade para se injetar, cheirar e assim por diante. Enquanto me levanto, lembro que também houve uma epidemia de tifo na Irlanda de 1846 a 1850, em meio à Grande Fome.
Depois que tudo se acelera definitivamente, até mesmo o vento e a luz, que à noite fica tão abrupta que parece ter gume, vem o medo. Também prefiro permanecer em silêncio nessa fase, até porque sinto ser impossível não chamar a atenção enquanto eu me movo em câmera lenta através de um mundo onde até os ruídos são velozes. Mesmo que, objetivamente, essa câmera lenta seja a velocidade normal do mundo. Eu sei disso, mas não adianta e não me acalma. Cada passo que dou exige esforço e intenção concentrada. É como se minhas pernas fossem compostas por um metal muito denso e estivessem atoladas até as coxas em melado, como naquele episódio que aconteceu em Boston em 1919 e não foi praga nem peste, mas que todos os interessados genuínos em tragédias gostam de relembrar. Então é melhor ficar quieto, não me mover muito, não falar e, se possível, nem pensar em coisa alguma. Nesse momento não me adianta muito recitar datas e moléstias, porque é quando a cabeça começa a inchar. Um inchaço físico e repentino, acompanhando a velocidade do mundo exterior. Todavia a cabeça mantém o mesmo peso enquanto aumenta de tamanho, assim como eu mantenho a mesma velocidade enquanto o mundo inteiro se acelera. Nessas condições, minha cabeça fica tão grande e tão leve que sinto uma certeza súbita de que ela vai se descolar, se desacoplar do pescoço e sair pelo céu, deixando para trás o meu corpo pesado e lento e com ele também a minha consciência, igualmente dotada de peso e incapaz de acompanhar o voo da cabeça.
Sensações tão concretas que chegam a ser absurdas. Sei que nada daquilo é verdade, que nada está acontecendo de qualquer maneira registrável por um observador externo, mas por dentro eu sinto aquilo tudo como a verdade mais imperiosa que existe, a única realidade que sou capaz de experimentar naquelas condições. Para mitigar um pouco a experiência nessa altura da manifestação do meu defeito de fábrica, tento arrancar a consciência para fora do corpo fazendo um esforço para me enxergar de fora, passar pela experiência inteira e ao mesmo tempo ser um espectador. Isso acalma um pouco as coisas, mas também cria uma dissociação crescente entre o corpo que está sendo visto e experimentado e o meu senso de mim mesmo. Como se uma coisa não pertencesse à outra. E então meu senso de autoexistência vai indo embora, por ter ficado sem o invólucro, e nessa hora preciso fazer um esforço ainda maior para que ele não abandone o corpo. E é bem nesse ponto que começa o medo.
O café do Burger King é odioso e mais parece um caldo de água queimada. Além disso, me deixa com dor de cabeça por horas a fio. Consigo pensar em poucas ideias piores do que ingerir cafeína durante os primeiros sinais de uma crise, mas nem sempre me é possível agir com responsabilidade nessa situação. Varíola na Indonésia, de 1965 a 1967. Vinte anos de beribéri na Tailândia, quando mesmo? 1890 a 1910. Correto. Mas não adianta, eu sei que agora o medo vai chegar a qualquer momento. E quando o medo vem é intenso, piorando muito à noite ou em meio a multidões. Luzes, ruídos e pessoas ficam cada vez mais velozes e se revelam forças agressivas, sinistras. Quando alguém ri, está rindo de mim. Se gargalha, está me enfiando uma faca. Olhou, quer me matar. Até os gatos de rua estão planejando tocaias. Os ruídos do mundo tramam crescer em proporção geométrica até me envolverem por completo como um oceano de gelatina e me deixarem suspenso ali dentro para que as luzes cheguem muito rápidas e agudas e me perfurem o corpo inteiro, causando uma dor física sem adjetivos e permitindo que minha consciência escape pelas feridas abertas. Melhor ficar em casa. Melhor ficar quieto. Melhor não me mexer. Na fase do medo, a melhor atitude é ficar sentado com protetores auriculares e fones de ouvido, escutando ruído branco e nada mais. Deitar não adianta, pois o peso do corpo está tão grande que me é impossível deixar de sentir que vou afundar no colchão e atravessar o piso, mergulhando aos poucos no interior da terra até chegar ao magma e ser carbonizado. Ou que meus pulmões vão entrar em colapso e a garganta vai se fechar, me matando aos poucos por asfixia sem que eu consiga me descolar da cama para pedir ajuda. Então me armo com protetores auriculares, fones de ouvido e ruído branco. E com as datas. Surto de tarantismo, ocorrência histórica mais séria em 1374, em Aix-la-Chapelle. A população inteira dançando pelas ruas em movimentos convulsivos.
Saindo para a O’Connell com o copo de papel ainda cheio de café ruim, caminho por alguns metros e volto a me abrigar da multidão no saguão externo da Easons. Fico observando uma loira de queixo quadrado e traços fortes e angulosos, escandinavos. Bonita. O cabelo naturalmente quase branco tem a franja muito curta, deixando a testa inteira à mostra, enquanto fios soltos descem pelo pescoço e pelas orelhas. Alta, forte, muito pálida e rosada, com uma camisa sem gola de mangas compridas em padrão de joaninha, vermelha com pintas negras, ela sabe muito bem que está sendo observada. Ao mesmo tempo que não disfarça, não demonstra qualquer incômodo. Os olhos escuros estão livres da aparência assustada que é onipresente em quem passa regularmente por determinado tipo de sofrimento, mesmo quando a pessoa não está em crise. Certamente ela nunca sentiu o mundo se acelerando, nunca sentiu a cabeça prestes a voar, nunca sentiu o medo e por consequência nunca chegou a sentir a raiva. A raiva pura.
Para quem está sempre se observando de perto, e eu sei o quanto essa atenção me é importante se eu não quiser ser engolido, sugado e mastigado aos poucos pela bocarra ensopada e banguela do meu defeito de fábrica, a raiva se anuncia quando o mundo exterior fica um tanto fora de foco. Uma camada de uns dois graus de miopia recobre todas as coisas, as luzes e sons ficam cada vez mais estranhos, alongados e vivos. Tudo se torna mais irreal e mais hostil. E a velocidade que antes era apenas externa passa a ser sentida por dentro, os pensamentos se aceleram, quase faiscando, e o coração bate mais rápido e mais forte, fazendo as têmporas pulsarem. Todavia mesmo assim não se atinge um equilíbrio com o mundo exterior, que fica ainda mais veloz, e enquanto dentro e fora apostam corrida, eu sou arremessado para longe do meu próprio corpo, mesmo que não queira, observando a tudo do alto, sem poder interagir ou tomar qualquer providência além de não deixar o meu defeito de fábrica tomar de vez as rédeas da situação. E isso já exige esforço suficiente.
Nesse momento não há mais datas e pragas terapêuticas a serem recitadas, pois não existe momento algum senão aquele instante, aquela velocidade e a raiva pura. Um ódio de intensidade crescente se imiscui sobre todas as pessoas ao redor, sobre o mundo borrado que me rodeia, e eu vou tornando a raiva algo pessoal, olhando no rosto de cada uma dessas pessoas, me visualizando agarrar um pedaço de pau e bater sem dó na boca de algum sujeito, ou puxar briga, ou ao menos xingar aos berros. Se eu de fato fizesse alguma dessas coisas, nunca saberia a diferença. Não teria como dizer se apenas fantasiei ou se derrubei mesmo alguém no chão e comecei a desferir uma tempestade de pontapés com minhas botas de ponta de aço. Nesse ponto, quando o meu defeito de fábrica toma conta de vez, não existe diferença entre pensamento e ação, entre realidade interior e exterior, e a raiva não tem um porquê. É um sentimento que existe e pronto, e está ali, determinado a se manifestar no mundo exterior. Aos poucos vou sentindo a pureza e a gratuidade do sentimento se esvaírem e começo a procurar motivos ilógicos para odiar cada uma das pessoas que me circundam. Minha expressão facial deve mudar, porque cerro os dentes com toda a força e no dia seguinte a dor na mandíbula é muito forte e não me deixa esquecer. E o mundo vira isso, um borrão meio distante do qual saltam em foco muito nítido pessoas aleatórias que devo espancar, matar, estuprar ou xingar. E é bem aqui que alguma coisa na maioria das pessoas que nasceram com um defeito de fábrica se quebra de vez. Começam a sair gritando pela rua e muitas vezes acabam mesmo agredindo ou fazendo coisas ainda piores com alguém ou consigo mesmas. Algumas não voltam nunca.
Mas eu não. Minha força de vontade e a recitação de datas impedem que isso aconteça, que eu efetivamente faça alguma das coisas ordenadas pelo oceano de ódio que sinto nesses momentos. Por outro lado elas não fazem diferença nenhuma, não me fazem deixar de sentir aquilo nem mandam a sensação embora. Defeitos de fábrica não vão dormir quando alguém manda, eles têm um cronograma próprio e uma agenda definida e incognoscível. E nessa hora preciso ter muito cuidado para garantir que minhas emoções fluam de um modo natural, que passem por mim sem tomarem conta e se transformarem em ação. Nada de chorar, sair correndo, gritar. Nada de rolar pelo chão. Nada de bater a cabeça em postes. Nada de esmurrar ninguém. Ao mesmo tempo, nada de abafar coisa nenhuma. É preciso sentir tudo isso por inteiro. Qualquer tentativa de mudar o curso das emoções faz a raiva recobrar a pureza e se voltar contra mim mesmo, com força total e a mesma gratuidade de quando surge no curso normal das coisas. E é daí que vem o ímpeto suicida, porque quando as coisas estão assim alguém precisa morrer, e se não forem as pessoas na rua terá de ser eu mesmo.
O controle funciona, mas é exaustivo para o corpo e para a mente. Não consigo fazer mais nada além de sentir todas as emoções abruptas trazidas pelo meu defeito de fábrica e ficar me observando, monitorando cada passo e cada pensamento e cuidando para que o equilíbrio se mantenha e a raiva toda simplesmente aconteça e siga o curso natural sem se manifestar externamente nem se voltar contra mim. Se alguém falar comigo eu não xingo, não bato, não faço nada disso. Respondo com algum monossílabo educado e sem fazer contato visual, o que seria a morte. Se a pessoa insiste em manter a conversa depois disso, simplesmente me afasto e vou embora. Quando volto para casa depois de passar um dia inteiro assim na rua, a única coisa que consigo fazer é despencar na cama e dormir. Gasto minha última reserva de energia trancando a porta.
Na esteira disso tudo e nos períodos entre uma crise e outra, na fase de gerenciamento de danos, sobra apenas um mal-estar permanente. Às vezes parece que a raiva vai despontar de repente, mas eu sei que não acontece assim. Há passos a serem seguidos. Por conta disso não fico alarmado e no máximo passo o dia inteiro quieto com o indicador pousado sobre os lábios para controlar a sensação de que posso cuspir na cara de alguém de uma hora para a outra. Como forma de defesa, nunca de agressão. Muito menos de agressão gratuita. Porque nada nesse período é gratuito, tudo é defesa. E assim levo adiante os meus dias, entre pensamentos circulares e obsessivos sobre sexo e suicídio. Às vezes, mesmo sabendo por experiência própria que é inútil, fico ruminando pensamentos e tentando entender por que eu sou desse jeito. Mas isso também é uma defesa. É meu defeito de fábrica cravando mais fundo suas garras, mostrando sua natureza simbiótica. Sem ele eu não tenho como existir. Mas por que eu sou assim?, eu me pergunto, mas sei muitíssimo bem que essa é uma pergunta que não quer resposta nenhuma. Quer apenas que eu siga fazendo a pergunta. Porque é assim que o meu defeito de fábrica se nutre e fica ainda mais insidioso. Encontrando resistência, passando por questionamentos cíclicos e tentativas ocasionais de esmiuçamento que servem apenas para que ele potencialize o que tem de pior e consiga enfim atingir o ápice da nocividade. Então o ideal é não se fazer perguntas. Saber que o meu defeito de fábrica está ali e que nunca irá embora, ficar conformado com o fato de que ele se confunde com minha própria identidade. Aceitar o caos ordenado e seguir vivendo como e até onde der. Mas sem fazer nada.
Esse é o princípio de tudo, da convivência possível com o meu defeito de fábrica. Tudo que importa se inicia com uma negação, eu penso, por mais que isso pareça contraintuitivo. Nada nunca é fácil. Nada, nunca, e para ninguém. Existir exige tanto, mesmo para quem teve mais sorte na loteria genética e não precisa conviver com algum tipo de defeito de fábrica. Melhor seria nunca ter existido. Mesmo as alegrias mais passageiras exigem muito. Todavia estamos todos aqui e qualquer culpa é sempre cem por cento nossa, ainda que o livre-arbítrio não passe de uma ilusão confortável. É tão complicado existir e seguir em frente, tão difícil fazer a coisa certa, tão doloroso aceitar que talvez não exista a coisa certa e que, ainda que isso mais pareça uma capitulação, a melhor atitude talvez seja deixar a onipotência de lado e permitir que as coisas se façam por si mesmas.
Chego no trabalho e a primeira coisa que enxergo ao entrar no escritório é Barry sentado com uma das pernas sobre a mesa.
— Mas por que cê demorou tanto, gordão? Se perdeu no caminho, é isso? Certo que se perdeu. Aposto cem euro e ganho. Jesuis! Mas como é burro esse polaco, puta merda — Barry gargalha mostrando o canino de ouro. — E a mana, como é que tá? Se estourando toda de gostosa, como sempre?
Barry é o gerente da nossa empresa, mas vive dizendo que não quer fazer nada da vida. Que descobriu muito novo que as coisas não serviam para nada, que a vida não tem sentido e como tudo é mesmo inútil então nada vale a pena. Essas pessoas que reclamam em cada fôlego que a vida não tem sentido algum na verdade nunca deixaram de ser crianças. Basta ver como Barry se comporta. Gente como ele espera que alguém apareça entregando de bandeja um sentido pronto e embalado para a vida, e como isso jamais acontece, e, se parece acontecer, estamos diante de algum tipo de picaretagem, eles depreendem que descobriram A Grande Mentira e que não existe sentido algum para a existência, e em seguida passam o resto da vida denunciando essa revelação. Como não respondo nada, Barry apenas balança a cabeça e troca de alvo para Magnus, sentado na mesa ao lado.
— Não vai tomar café da manhã, parcêro? Falta só quinze minuto pro trampo começar.
— Eu estou tomando café — Magnus responde sem olhar. — Não está me vendo comer esse croissant?
— Isso não é café, caralho. Isso é uma porra dum pãozinho afrescalhado de francês bichola. Cadê o feijão, os tomate, os ovo e a salsicha? Nem chá cê tá tomando, ô fiadaputa.
Enquanto Magnus continua mastigando sem fazer mais comentários, Barry rodopia e volta a se dirigir a mim:
— Mas sabe por que cê é burro mesmo, gordão? Porque cê nem precisava ter vindo pro serviço. Hoje é dia do preto. Olha ele ali saindo do banheiro.
O rosto marmóreo de Seewoosagur Burrenchobay não manifesta emoção alguma ao me enxergar parado no meio do escritório, com um copo de papel vazio na mão.
— Foi levar uns parente seu pra nadar, safado? — Barry tira os pés de cima da mesa. — É isso que acontece quando cê come kebab logo de manhã, imigrante. Tá, olha só. Já que o polaco resolveu aparecer no dia de folga, hoje a gente trabalha com o time completo. Bora mandar um abraço coletivo?
É o primeiro dia do nosso novo roteiro, e tanto Barry quanto Magnus concordam que é melhor começar pela Henry Street, ainda que caminhar por lá a essa hora seja um pouco complicado, especialmente no final de outubro. Na minha opinião, tentar criar um clima de mistério no meio de centenas de pessoas carregando sacolas cheias de compras é um desafio desnecessário. Existe um motivo para o tour da Dublin Bus acontecer à noite, mas Barry e Magnus acham que isso é um apelo fácil ao clichê e argumentam que ser o tour das surpresas é justamente o nosso diferencial. Mesmo assim, me parece que visitar locais diferentes deveria bastar, e como eles mesmos inventam quase todas as atrações, isso não seria problema algum. Começar um roteiro à luz do dia, e logo pela rua de pedestres mais movimentada das redondezas, continua me parecendo uma complicação dispensável. Todavia meu inglês falado não é bom o suficiente para que eu proteste, e acabo me rendendo às decisões tomadas em conjunto pelos dois. Existe algo de preocupante em ver Barry e Magnus funcionando em harmonia. Não é o normal.
— Café? Croissant? Kebab? — meu estômago se contrai. — Vamos comer?
— Além de cabeça oca cê é oco por dentro, né? — Barry me dá um tapinha na barriga. — Por isso cê vive pensando em comer. Que gordão inútil. Agora não dá mais tempo de sair atrás de rango, a gente precisa trabalhar.
Eu não sou oco. Meu problema é justamente o oposto disso. Descobrir como não transbordar. Como não deixar que todas as coisas que guardo dentro de mim percam os limites e fiquem disformes, inchando, se derramando e deixando de fazer parte do meu corpo, tornando inválida qualquer diferenciação entre mim e o resto das coisas que existem. Mas Barry nunca entenderia uma coisa dessas.
Assim que Magnus engole o último pedaço do croissant, as pessoas começam a chegar. Nenhum irlandês, como de hábito. Nisso Barry é muito competente, e nunca se descuida da peneira. Hoje o dia começou fraco, com apenas três clientes para o tour matinal. Uma morena roliça de cabelos cacheados, calça jeans, jaqueta de veludo marrom de corte sessentista, chapéu xadrez preto e branco. Provavelmente espanhola. Um americano quase da minha altura, mas bem magro e com cabelos cor de ferrugem, de mãos dadas com uma tailandesa bronzeada e sorridente de no máximo um metro e meio. Curioso como ela parece recatada mesmo com uma das menores minissaias que já vi. Barry abre um sorriso imenso, faz uma mesura desconjuntada e convida os três para caminharem conosco pela O’Connell até chegarmos no calçadão da Henry. Ele e Magnus vão na frente, guiando os turistas e construindo o clima com histórias fantásticas e completamente mentirosas. Seewoosagur e eu acompanhamos o grupo na retaguarda, sem termos muito o que fazer a menos que surja algum imprevisto.
Dobramos na Henry e em menos de meia quadra Magnus indica nossa primeira parada. Pelo visto é uma das novas atrações, sobre as quais nada sei e nem preciso saber. Sou apenas um segurança disfarçado. Barry aponta muito animado na direção de uma porta discreta na fachada de um dos prédios comerciais, no intervalo entre uma loja de brinquedos e um restaurante italiano. Viro a cabeça para a esquerda e para cima e fico olhando a ponta da Spire. Meu estômago ronca com mais força. Sinto as pessoas passando por mim com sacolas, algumas chegando a esbarrar em mim, mas me concentro na ponta de metal fosco contra o cinza-azulado do céu. Durante o dia o medo é mais brando, mas o risco ainda existe. Especialmente de manhã, tendo ingerido cafeína e com tantas pessoas ao meu redor. Epidemias de varíola na Itália. 1814. 1839 a 1845, mas talvez isso tenha sido meningite. Preciso revisar minhas pesquisas. 1870 a 1872. Dessa, todavia, eu tenho certeza, porque foi a primeira da Itália unificada. 1900 a 1902. 1920 a 1921, o vírus trazido pelos soldados dos campos de batalha da Primeira Guerra. Certo. Volto a olhar para a rua e a primeira coisa que enxergo é um grupo de pessoas com máscaras grotescas de papel machê e animais empalhados embaixo do braço. Um pouco incomum, ainda que esteja chegando o Halloween. Fico acompanhando a passagem do cortejo até a voz aguda de Seewoosagur estrilar nos meus ouvidos:
— Último dodô o caralho!
Nunca tinha ouvido Seewoosagur usando esse tipo de palavreado. Nunca o tinha visto perder o controle dessa forma. Tem alguma coisa errada. Avança na direção de Magnus e agarra com as duas mãos a camisa floreada que ele usa por baixo do blazer de veludo.
— Último dodô o caralho! — repete, sacudindo Magnus com violência. — Como vocês podem dizer uma coisa dessas?
Barry ignora o protesto e segue tagarelando, sacudindo os braços em todas as direções para capturar a atenção dos nossos três clientes:
— Como eu ia dizendo, meus parcêro. Foi bem aqui neste lugar que o último dodô foi exposto ao público, no final do século xix. Imagino que cês conheçam o dodô — Barry tira do bolso do moletom um papel dobrado em quatro, que ao ser aberto revela a gravura novecentista de um dodô. — Isso aí mesmo. Aquela mistura de galinha e avestruz com umas coxa de dinossauro. Pois não é que foi bem aqui que o último desses bicho morreu? Dizem que depois ele foi empalhado e que daí, no porão desse prédio aqui na nossa frente…
— Último dodô o caralho! — Seewoosagur empurra um Magnus atônito por cima de Barry. — Os dodôs viviam nas ilhas Maurício, seus filhos da puta! O último dodô morreu na ilha Mascarenhas!
— Macarena? — Barry cantarola, improvisando uma coreografia latina pelo calçadão. — Hey! Macarena!
— Parem de sacanear o meu país, seus débeis mentais! — os olhos de Seewoosagur estão amarelos e inchados, e o corpo magro e musculoso parece a ponto de explodir. — E que porra um dodô tem a ver com lugares assombrados? De onde vocês tiraram essa ideia cretina?
O casal de alturas e etnias díspares se entreolha. A espanhola roliça começa a ir embora, mas Barry a segura pelo braço. Ela reage com um grito e um tapa. Todos começam a discutir aos berros. As pessoas saem das lojas para ver o que está acontecendo. Uma rodinha se aglomera ao nosso redor. Eu não vejo mais nada, apenas sinto. Epidemia de malária na Etiópia. Mil novecentos e nem sei mais. Não consigo encontrar as datas, os números se embaralham na minha cabeça e as moléstias viram um mal-estar único e imperioso, concentrado em todas as células do meu corpo. O medo chega de vez, e sem pausa se torna a raiva. A raiva pura. E ao me pegar de surpresa ela toma conta. Procuro o casal, mas tudo que enxergo são manchas. A gritaria cresce e se apresenta a mim na forma de borrões pontiagudos que querem me destripar e mastigar meus intestinos expostos. Não consigo me enxergar de fora nem entender o que estou fazendo, mas parece que estou andando em círculos sem sair do mesmo lugar. O medo quer sair, precisa se misturar com a nódoa que se tornou tudo que existe. Uma centelha dourada rouba o pouco que ainda me resta de atenção. Meu esqueleto é percorrido por uma sensação de eletricidade pastosa e meus punhos se fecham, cravando minhas unhas na parte mais carnuda das mãos. Não consigo mais. Sou jogado para fora do corpo e me vejo armando um murro. Meu braço esquerdo se estica na velocidade de uma sinapse até atingir o brilho dourado. O choque físico de uma extremidade do meu corpo contra aquilo me puxa de volta para dentro. Estou preso no interior do meu crânio. Estranho os solavancos na minha respiração, mas continuo sem enxergar coisa alguma além de um borrão multicolorido passando diante dos meus olhos em moto-contínuo. Alguma coisa contém o avanço do meu corpo e os movimentos dos meus braços e das minhas pernas, e tenho a sensação de estar amarrado a um rochedo no fundo do oceano, rodeado por peixes abissais com apêndices luminosos. Não quero mais fazer força, desisto de lutar contra o que está me contendo, e ordeno aos músculos que parem. Não consigo avaliar meu sucesso. Fecho os olhos. Epidemia do Exército de Barbarossa. Não lembro. Epidemia de Poliomielite em Los Angeles. Nada. Em que ano estamos? Não sei. Minha avó em Nowe Grądy. Consigo me recordar das galinhas, das cabeças em forma de cone encimadas por cristas volumosas. Lembro quando ela levou todos os netos para ver os pintinhos recém-saídos do ovo. Entregou um bichinho para cada um de nós, pintinhos malhados de preto e prateado. Senti tanto medo de deixar o meu bichinho cair no chão que acabei exagerando na força ao segurar, espremendo o coitado até as tripas aparecerem. Lembro que não chorei, mas fiquei bem nervoso com aquilo por alguns anos. Morrendo de medo de tocar em coisas frágeis com todo o cuidado e mesmo assim causar pequenas tragédias. Depois passou.
Abro os olhos e tento me concentrar na minha respiração, agora mais tranquila e controlada. Estou deitado na calçada, de barriga para cima. Várias pessoas estão me segurando, entre elas Magnus. Tento dizer que está tudo bem, que já podem me soltar, mas minha voz não sai. Ninguém está olhando para mim. Viro a cabeça e enxergo os cachos ruivos de Barry, que está caído na calçada a alguns metros de distância. Com um puxão repentino consigo libertar o braço esquerdo, que está pulsando, e o trago para mais perto do rosto. Um canino de ouro está cravado entre o indicador e o dedo médio, e o sangue que deixou a boca de Barry se mistura com o que está escorrendo da minha mão. Viro a cabeça para a direita e enxergo a polícia chegando com suas fardas azuis e seus coletes amarelo-fluorescentes. Certo, entendi. Desisto. Deixo o corpo bem mole e espero. Se a vida não me quer mais, ela que se foda.
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De início achei que podia ser piada, mas nem é. Não tem nada de brincadeira. É isso mesmo que eles estão falando. A Ciara era virgem, deixou de ser com o Oisín e por causa disso agora ela não pode mais ser sacrificada pra invocar um anjo com pele de lagarto, alimentar um deus-serpente e com isso salvar o mundo. Agora quem precisa morrer no lugar dela é a única virgem que restou no grupo. E essa pessoa sou eu. Eu, que antes queria tanto morrer no alto de uma montanha gelada e agora até que não acharia ruim existir mais um pouquinho porque as coisas estavam ficando meio divertidas. Mas tudo bem. Essas pessoas acreditam mesmo nessa história toda, e eu também quero acreditar pelo menos um pouco. Ou pelo menos deixar que exista essa possibilidade. Estou falando da chance de eu talvez decidir acreditar nessas coisas, não de elas serem mesmo verdade. No meio da tarde, depois da meditação em grupo, o Oisín apareceu com um furgão na frente da casa. Não era bem um furgão, era meio que uma cápsula sobre rodas, em forma de pastilha e bem antiga. Nem consegui entender onde ficava o motor. E olha que ele fazia um barulhão, mesmo com o furgão parado. Uns estalos meio secos. Aí todo mundo ajudou a levar sacolas e caixas pra dentro dele, e o Demetrius apareceu com um cajado com ponta de forquilha. E daí a gente embarcou na lata velha. Eu, o Demetrius, a Siobhán, a Deirdre, a Ciara e o Oisín. O furgão foi saindo de Howth e cruzando aos pouquinhos por Dublin inteira, seguindo na direção das montanhas Wicklow. Que não têm neve e nem são bem montanhas. Só uns morros meio grandes e sem árvore nenhuma, com uns vales bem bonitos e muitos campos de turfa. Uma terra bem preta. Lembro de ter passado por aqui numa excursão do colégio ano retrasado. Parece que era desse lugar que vinha toda a turfa usada como combustível na Irlanda por um tempão. E acho que encontraram umas múmias ali no meio, também. Não lembro bem se era aqui, mas era em turfa. Morrer e ter o corpo conservado em turfa não parece muito bom. Mas o gelo também mumifica, acho. Eu nunca tinha pensado nesse detalhe antes desta viagem que vai ser minha última. Que coisa. Eu não quero virar múmia. Não quero que meu corpo dure muitos séculos depois de virar só uma lembrança de parte de tudo que eu fui. Uma lembrança enganosa. Espero que não joguem meu corpo na turfa depois do sacrifício. Aceito morrer pra salvar o mundo, mesmo não acreditando nisso. Eu queria morrer desde o início, então melhor me concentrar de novo nisso. Mas quero que o meu corpo desapareça bem loguinho. Sem ninguém pra me achar daqui a mil e duzentos anos e ficar tentando entender quem eu era. Não aguento isso nem agora.
Uma coisa da qual eu vou ter um pouco de saudade é do espelho na entrada da casa de Asgard Road. Tem uma moldura dourada toda cheia de curvas e detalhes, dividida ao meio. Primeiro parece os olhos bem redondos de uma coruja. Aí depois que você fica um tempinho olhando, ele muda. Pelo menos pra mim mudava. Especialmente quando eu dava uns passos pra trás. Aí parecia mais os olhos de uma caveira. As órbitas, porque caveira não tem olhos. Tem só o lugar onde ficavam os olhos. As órbitas vazias. E em cima do espelho, bem no alto da partezinha que divide ele em duas partes arredondadas, tem um escaravelho. Que eu lembro de ter lido nas revistas esotéricas do meu vô que era o símbolo da alma pros egípcios. Acho essa uma ideia bem legal. Não que eu acredite em alma. Mas é legal, isso de acreditar que a alma é um besouro. Um besouro que rola cocô até ficar bem redondinho. Como se o besouro fosse a essência da pessoa e a bolinha de cocô fosse o corpo. Aí quando a pessoa morre o corpo vai embora. O escaravelho para de rolar o cocô e fica sozinho. Só ele, brilhando bem verdinho pra sempre. Só a alma, que é a essência e não morre nunca. É uma ideia bonita. Mesmo que os egípcios também gostassem de deixar múmias pra trás. Tipo um pedaço de cocô enrolado em tiras de linho. Nossa, como eu penso besteira. Mas eu gostava mesmo de ficar me olhando ali no espelho. Quando você olha muito tempo pro seu reflexo a imagem começa a tremer. Depois se dissolve. Aí a pessoa que aparece ali não é mais a pessoa que está do outro lado. Uma coisa muito maluca. Adoro. Vou sentir muita saudade desse espelho. E de caminhar pelas ruazinhas de Howth. Descer aquela escadinha meio escondida perto da rua que fica de frente pros barcos. Sentar no muro do cemitério da igreja em ruínas e ficar olhando pro farol e pro mar. Mas que bobagem, também. Morto morre. Tudo morre, não sobra nada. Só o corpo pra adubar a terra que nem cocô, isso quando ele não vira múmia. Mas eu sei que não existe escaravelho nem alma. Não sobra coisa nenhuma. Nada que consiga sentir saudade. Já devo estar ficando idiota, como meu vô avisou. Mas idiota que morre pra chamar um anjo lagarto e salvar o mundo com certeza faz parte dos idiotas extraordinários, então tudo bem. Meu vô ia gostar de saber que eu cheguei lá.
No meio do caminho a Siobhán resolve cantar aquelas músicas dela. Sobre as cobras da gnose que brigam com os homões de Órion. Ninguém canta com ela. Nunca. Nem o Demetrius. Mas ela nem se importa, acho, porque fica cantando igual. O Demetrius tá bem quieto, passando a mão na careca e no rabo de cavalo o tempo todo. Ele sua muito. A Deirdre fica sacudindo a perna sem parar, uma coisa que ela também faz o tempo todo. E a Ciara fica fazendo carinho atrás da cabeça do Oisín. Ele parece meio nervoso dirigindo. Deve ser porque ele não tem idade pra ter carteira e se alguém mandar o furgão parar a gente pode se dar mal. Pra mim o Demetrius ou a Siobhán é que deviam estar dirigindo, porque são adultos. Ou a Deirdre, mas às vezes ela treme tanto que eu ia ter medo de andar num furgão com ela segurando o volante. A estradinha é bem estreita. Acho que quando chove a coisa deve ficar meio feia por aqui. O Oisín fica dizendo não falta muito mesmo sem ninguém perguntar. Por mim tanto faz, não estou com tanta pressa de morrer. Sei que vai ser hoje, então tudo bem. Prefiro aproveitar o que ainda me sobra. Ando tendo uns sonhos bem esquisitos. Não são pesadelos. Nunca tive pesadelos. Nem sei como é. Então tem uma possibilidade de que sejam mesmo pesadelos, não sei. E o engraçado é que eu nem lembro desses sonhos. Fica só a sensação mesmo. Como a memória de uma coisa que não tem como ter acontecido. Então só pode ser um sonho. É uma impressão forte de que eu matei alguém. Um sentimento bem real. Fico até com vontade de confessar o crime. Mas eu sei que não matei ninguém. É só uma coisa que eu sinto por algum tempo depois que acordo. Então só pode ter aparecido em algum sonho. Mas não dá pra diferenciar. Uma coisa bem maluca.
Depois de um tempo somem os campos de turfa e a estrada passa por um vale. Aparecem muitas árvores e tudo fica bem mais bonito. Sinto um pouco de fome mas nem falo nada. A Siobhán parou de cantar e está todo mundo quieto. Quieto e sério. Não entendo como eles podem estar assim se daqui a pouco vão salvar o mundo. Talvez estejam pensando se vale mesmo a pena fazer isso. É uma possibilidade. Pelo menos é isso que eu estou pensando. Tem muita coisa boa no mundo, acho. Mas sei que tem muita coisa ruim também. Fico tentando me concentrar nas coisas que eu sei que são boas. Porque senão vou estar confundindo a minha vida com o mundo inteiro. Com a vida de todas as pessoas que existem no mundo. Todas as pessoas e todas as criaturas. E isso ia ser errado demais. E idiota demais. Mas sem nada de extraordinário. O Oisín sai da estrada principal e depois de um tempinho estaciona o furgão no meio de dois ônibus de excursões. Também conheço esse lugar aqui. Pelo jeito a gente está fazendo o mesmo roteiro da excursão que fiz com o pessoal do colégio. Aquela na qual eu tive uns probleminhas. Que coisa.
E tudo por aqui continua igual. Está ali como tem estado nos últimos mil e quinhentos anos, ou algo assim. A gente passa por um portão de pedra muito antigo, sobe uns degraus e chega no cemitério. Muitas cruzes de muitas épocas diferentes. Dá pra ver de longe as ruínas do mosteiro. E de uma igreja também, e da minha coisa preferida nesse lugar, que é a torre. Um cilindro de pedra bem comprido, terminando numa ponta que parece um chapéu em forma de cone. E um pouco depois do meio da torre, bem no alto, tem uma porta. É a única entrada. Tem outra abertura mais em cima, mas deve ser uma janela. A torre servia pra proteger os monges que moravam aqui dos vikings que subiam as montanhas pra roubar tudo que eles tinham. Acho que eram vikings, não lembro bem o que o professor disse nessa hora. Mas aparecia uma gente ruim que colocava fogo em tudo, matava e roubava os tesouros deles. Aí, quando alguém via de longe esse pessoal chegando, os monges encostavam uma escada bem grande na torre. Botavam as coisas preciosas deles dentro de sacos e subiam pela escada. Aí quando estava tudo bem seguro lá dentro, os monges, os livros e as coisas de ouro, eles puxavam a escada e ficavam trancadinhos na torre. Esperando os vikings. Acho que os vikings não tinham escadas. Pelo menos no começo. No fim acho que aprenderam a levar escadas na viagem, porque um dia tudo que existia aqui foi destruído e sobraram só essas ruínas. Mas aí nem sei mais quem foi. O legal mesmo é a torre. Agora ela fica ali no fundo da paisagem, vazia. A gente vai caminhando pelo cemitério. Uns turistas tiram fotos. É tudo bem bonito mesmo, e tem um lago que daqui não dá pra ver, mas eu adorei conhecer no dia da excursão. Duas moças simpáticas seguem com uma câmera um cara com cabeça de ovo e barbicha de bode que fica caminhando pelo meio das lápides. Não entendi isso muito bem. Um pessoal de colégio faz algazarra. Como a minha turma também fez naquele dia, ainda mais depois do probleminha. Depois do cemitério tem mais ruínas e mais adiante a floresta, que é pra onde a gente vai. Muitos carvalhos. Uma trilha cheia de folhas marrons com aquelas voltinhas. Tantas cores. Algumas das árvores parecem estar pegando fogo de tão alaranjadas. Passamos por umas pedras e por uma árvore toda desfolhada com pedacinhos de pano colorido amarrados por todos os galhos. Deirdre pisca muito os olhos verdes e diz que aqueles trapinhos são pedidos. Ela aprendeu isso com os neopagãos de Cabra. A pessoa pensa em alguma coisa que quer ou precisa muito e depois amarra o pedaço de pano na árvore. Uma tradição antiga. Como toda tradição, eu acho. Não sei se dá pra dizer que uma coisa nova é uma tradição. Acho que daí o nome certo é hábito. A gente sai da trilha e vai se enfiando bem no meio da floresta, caminhando sem parar por uns quinze minutos. É meio que uma subida, porque a floresta fica num terreno inclinado. Quando chegamos numa clareira, o Demetrius levanta a mão e diz que é hora de esperar. Aí todo mundo senta no chão mesmo e a gente fica ali enquanto o sol vai morrendo por trás de algum morro. Como eu também vou morrer daqui a pouco. Não sinto nada.
Com o escuro chega o frio. O Demetrius tira coisas das caixas e dos sacos com ajuda do Oisín, que segura uma lanterna com facho muito forte e branco. Ciara chega perto de mim e passa a mão no meu rosto. A mão dela é quente e suada. Tão magrinha, ela diz. Depois dá um beijo na minha testa e se afasta de novo. Quando vejo que todos estão tirando a roupa me dá um nervoso. Siobhán vem sorrindo e estende um pano branco pra mim. Pego sem perguntar nada e ela diz Veste, Patricia. É tipo uma túnica. Todo mundo está vestindo a sua. Cada uma de uma cor. Peço licença e entro mais um pouco pra dentro da floresta. Longe da clareira, da luz da lanterna e dos outros. Tiro a roupa todinha. Coloco a túnica, que mais parece um saco com um buraco pra eu enfiar a cabeça. Fica meio curta demais em mim. Na parte da frente tem uma pintura de uma cobra enrolada numa forquilha. Bem bonitinha. Em cima da cobra tem um negócio que parece uma mistura de coroa com disco voador. É difícil enxergar direito os detalhes, mesmo com a lua cheia.
Volto pra clareira e agora tem um caldeirão pequeno bem no meio, de metal escuro. O Demetrius soltou o rabo de cavalo e ficou pelado, mas não dá pra ver o pinto dele. Tem muito pelo, muita barriga. E nem a luz da lanterna ajuda. Ainda bem. Ele faz um sinal com a mão. Acho que está querendo que eu fique bem aqui onde estou. Aí eu fico. Tirando nós dois, cada um dos membros da Família está parado num canto diferente da clareira. A Siobhán com uma túnica vermelha. A Ciara de verde. Deirdre, azul. E acho que a túnica do Oisín é marrom bem escura, mas pode ser preta. Todos estão de olhos fechados. Aí levantam os braços e começam a fazer um som que parece um zumbido. Ninguém abre a boca, sai tudo pelo meio dos dentes e dos lábios. Daí o Demetrius pega o cajado com ponta de forquilha e desliga a lanterna. Não escuto barulho algum na floresta, parece até que não tem bicho nenhum por aqui. Nem insetos. Acho isso bem estranho. Fico piscando até meus olhos se acostumarem com a escuridão. A luz da lua passando pelas folhas dos carvalhos faz uns desenhos bem legais no chão da clareira. O Demetrius vai usando a ponta do cajado pra traçar um círculo na terra. Começa por trás da Deirdre e vai rodeando ao contrário do sentido dos ponteiros do relógio até chegar na Siobhán. Deixa só um espacinho sem contorno, servindo de porta. Aí ele pega um saco pequeno e faz um sinal com o cajado, me chamando. Entro pelo espaço que ele deixou aberto no contorno. O Demetrius entra depois de mim e fecha o traçado. Caminha até o meio do círculo e indica com o queixo o lugar onde eu preciso ficar. Bem na frente dele, do outro lado do caldeirão. Paro ali, sem saber o que fazer. Não que eu precise saber, pelo jeito. E às vezes é até bom não saber, mesmo. Até porque eu sei como termina. Com minha morte. E foi pra isso que eu saí de casa, mesmo. Então tudo bem.
O Demetrius coloca o cajado deitado na terra, deitado na frente dele de comprido. Faz isso com muito cuidado. Daí ele tira uma coisinha escura do saco. Parece um pedacinho de carvão do tamanho de uma ameixa meio gorda. Coloca dentro do caldeirão e mistura com outras coisas que tira do saco. Parecem umas ervas, uns galhinhos. Não dá pra ver direito. Aí ele pega uma bisnaga e esguicha um líquido em cima daquilo tudo. Acende um fósforo e joga. O fogo quando nasce faz um puf! meio seco. Ele tira uma faca do saco. Parece mais uma adaga, porque tem dois gumes. E um cabo preto. Daí ele pega o cajado de novo, ergue os braços e fecha os olhos. Os outros continuam zumbindo sem se mexer, mas agora cada um num tom diferente. Oisín bem grave, Siobhán bem agudo. O Demetrius vai respirando cada vez mais fundo e mais curto, com lábios entreabertos e dentinhos cerrados. Mas acho que o ar está entrando e saindo só pelo nariz mesmo. Parece que alguma coisa vai escapar de dentro das narinas dele. E daí ele abre os olhos e para de respirar daquele jeito. Tem alguma coisa estranha nos olhos do Demetrius. Na expressão toda. Uma calma que eu nunca tinha enxergado antes. E a bolinha dos olhos parece bem pequena e fina. Quase um risco, que nem um olho de réptil. Nossa.
Dia claro, noite escura, os outros começam a cantar andando ao nosso redor. Cantam e andam, virados de frente pro interior do círculo. Andam cada vez mais rápido. Quando o Demetrius olha pra cima e grita Dos ofídios a criatura está aqui a invocar, eles começam a andar na direção inversa e cantam Venham todos escutar. Ficam repetindo aquilo bem forte. Venham todos escutar, venham todos escutar, venham todos escutar . E correndo ao redor do círculo. Cada vez mais rápido. Faz até um barulhinho de vento. O fogo no caldeirão vai subindo e ficando verde. Meio que um redemoinho esverdeado de fogo. Não consigo entender. O Demetrius baixa o cajado e os outros param de cantar e correr. O redemoinho no caldeirão baixa e volta a ser fogo. Fogo comum. Aí o Demetrius fala um monte de coisas que talvez dessem medo em quem não cresceu convivendo com meu vô e os assuntos dele. Era uma mistura de mitologia celta com ufologia e muitas coisas diferentes. Um negócio muito cafona e sem pé nem cabeça. Crom Cruach devorando o núcleo do planeta. Um terremoto destruindo tudo. Apenas o sangue de uma virgem pura e reptiliana pode acalmar o deus-serpente que veio do espaço sideral. Sei que ele está falando de mim. Virgem eu sou, mas nem sabia que também fazia parte desses reptilianos. Nem nome novo o Demetrius tinha me dado ainda. Mas tudo bem. Só quero que ele feche a boca de uma vez e enfie aquela adaga em mim. Bem no coração. Acabando com tudo. Fico com vontade de perguntar por que a gente precisa salvar o mundo se ele acaba de dizer que o planeta já caiu nas mãos da Confederação Galáctica e a batalha se perdeu. Vai ver Crom Cruach tem razão nessa história de destruir tudo e esse pessoal está atrapalhando os planos dele com essa história de sacrifício. Sei lá. Vai que isso nem passou pela cabeça deles, nem todo mundo é como eu e gosta de considerar todas as possibilidades. O Demetrius falou do coração de Valentim, o santo católico. Agora está falando dos filhos de uns tais de Nefilim. Não sei quem são, vai ver ele inventou. Parece uma peça de teatro muito ruim baseada no livro esotérico mais vagabundo que alguém já escreveu.
Daí os outros tiram as túnicas quando o Demetrius fala Céu três vezes. Fica todo mundo pelado. Eles chamam isso de se vestir de céu, aprendi lá na casa de Asgard Road. Pronto. Acho que vai ser agora. O Demetrius ergue os braços de novo. Não sei pra onde olhar. Tento me distrair olhando pro rosto da Deirdre, que fora o Demetrius é a pessoa que está mais perto de mim. Mas aí meus olhos descem pros peitos dela. Como são bonitos. Como eu queria aqueles peitos. Pra mim ou em mim. Tanto faz. Qualquer coisa me servia. Aceito as duas possibilidades. Mesmo com o frio todo, eu sinto um calor descendo pela minha barriga até chegar nas pernas. Parece até que tem um líquido escorrendo pelas minhas coxas. Mas não tem nada, é só uma sensação maluca. Tento parar de ficar olhando pros peitos da Deirdre. Não consigo. Isso não vai dar certo. Segurando a adaga, o Demetrius passa por cima do caldeirão pra chegar mais perto de mim. Fico esperando os pelos pegarem fogo, mas nem chamuscam. Agora vejo melhor os olhos dele. Estão bem normais, são os mesmos olhos de sempre. Acho que me enganei antes. O Demetrius para bem na minha frente com a adaga e diz que chegou a hora de eu também me vestir de céu. Já tinha entendido que isso é tirar a roupa. Aí eu tiro. Nem penso. Jogo a túnica embolada dentro do caldeirão. Essa parte foi sem querer. O fogo parece que vai se apagar, mas logo queima o tecido da túnica e volta a iluminar a clareira. E bem nessa hora eles me olham sem roupa e enxergam o pinto.
Mas. É a única coisa que o Demetrius diz. Mas. Os outros continuam sem falar e sem se mexer. Ele atira a faca no chão e se afasta. Sai do círculo de qualquer jeito, apagando uma parte do contorno com os pés sem nem se importar. Aí desaparece no meio da floresta. Por uns segundinhos eu sinto que o mundo vai mesmo acabar e que a culpa é toda minha. Que eu não devia ter mentido. Não devia ter enganado ninguém. Mas só que tem uma coisa. Ou melhor, duas. Em primeiro lugar, a pessoa tem que ser muito burra e muito triste pra acreditar nessa conversa toda do Demetrius. E eu sou só muito triste. Em segundo lugar, eu não menti. Não enganei ninguém. Não tenho culpa se o meu corpo diz uma coisa e a minha cabeça diz outra. A culpa não é minha coisa nenhuma. A culpa, se é que ela existe mesmo, é todinha de quem não enxerga as coisas como elas realmente são. Dessa gente que enxerga cobra do espaço onde só tem macaco pelado. Tudo perdido!, vem um grito do meio da floresta. Olho pra Deirdre, que está olhando pra minha virilha. A Siobhán diz Patricia? com as mãos na boca. O Oisín e a Ciara estão abraçados. Sorrindo. Eu também sorrio pra Deirdre, que sacode a cabeça. Agora só mesmo a arrebatação!, Demetrius volta berrando. Todo babado e ridículo. Daí ele para na minha frente e me sacode bem forte com as duas mãos. A arrebatação para o plano dos Tuatha Serpentinos! Os dedos dele se afundam no meu ombro e nos ossinhos da clavícula. Dói. Mas eu nem me mexo. Deixo ele me chacoalhar bastante e falar aquelas bobagens todas. Que debiloide esse Demetrius. Bem, então parece que vai ser isso mesmo. Não vai ter outro jeito. Ou o mundo deixa de existir, ou eu. E isso, agora eu aprendi, não dá no mesmo.
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— Cada um leva a vida que quer — insiste Rod dependurado no muro antes de se deixar cair em pé no pátio interno da igreja de St. Michan.
— Nem começa — resmunga Marcel, ainda no alto, e atira no chão a sacola de lona cor de vinho com a inscrição Duck & Donut Café e o desenho de um pato de borracha amarelo conversando com uma rosquinha glaceada. A grama alta abafa o impacto.
— Admite — Rod passa a cochichar. — Exceto por doenças graves e catástrofes que devem acontecer com uns três por cento das pessoas no mundo ocidental, é isso aí.
Marcel sacode a cabeça, desce pelo muro e se agacha ao lado da sacola. Não diz nada. Abre o zíper, mais uma vez sem se preocupar muito em não fazer barulho.
— Você quer que a gente seja preso antes mesmo de entrar no porão da igreja, é isso? — Rod protesta. — Dá pra ter um pouco de cuidado?