Do jeito que eu gosto

Cecily von Ziegesar · Capítulo 1 de 3 · parte 1/3

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Do jeito que eu gosto

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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

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Advertência: todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.

oi, gente!

Obrigada a todos por virem à minha festa na semana passada. Eu teria escrito antes, mas, sinceramente, precisei de muito tempo para me recuperar. Sei que foi mesmo meio louco dar uma festa numa segunda a noite, mas a semana não voou depois dela? Tenho certeza absoluta de que todos vocês ainda estão tentando adivinhar se eu era a loura magrela com os Jimmy Choos verde-esmeralda ou o cara alto e negro com os maravilhosos cílios falsos azul-safira. E foi tão meigo que vocês tenham me dado presentes - especialmente o adorável filhote de poodle caramelo - quando nem sabiam quem eu era! A verdade é que eu meio que gosto de ser uma mulher internacional cheia de mistério. Então, por enquanto, vou manter minha identidade para mim mesma, embora isso seja frustrante. Pense nisso como uma diversão dos dias intermináveis de espera para descobrir se entramos na universidade, um quebra-cabeça para montar enquanto suportamos o estresse e o tédio destas semanas amargas de março. Não que a gente realmente precise de diversão. Temos muito com o que nos distrair – lindas roupas de grife, enormes apartamentos no Upper East Side com empregados, várias casas de campo e retiros de feriados, cartões sem limite de crédito, lindos diamantes, carros sensacionais (embora a maioria de nós ainda nem tenha carteira de habilitação) e pais bobalhões que nos deixam fazer absolutamente o que quisermos, desde que não criemos constrangimento para a família. Além disso, as férias de primavera estão chegando, dando um monte de tempo livre para ficarmos ocupados.

Flagra

S andando pela Madison Avenue desenhando bigodes naqueles lindos cartazes de propaganda do novo perfume da Les Best, o Lágrimas de Serena. B na Sigerson Morrison na Prince Street, entregando-se a seu fetiche por sapatos. N depositando uma sacola de compras cheia de papel de cigarro, prendedores de cigarro, cachimbos e isqueiros na lixeira da rua 86 leste. D fumando um cigarro na plataforma do metro na 72 com a Broadway tarde da noite, desafiando os guardas de trânsito a prenderem-no e lhe darem o muito necessário material para sua poesia. J com a nova amiga, E, e o namorado, L, bisbilhotando pelo distrito de arte de Chelsea – abominavelmente sofisticado para um bando de alunos do primeiro ano. Peraí, acho que ele pode mesmo estar no segundo - alguém aí sabe realmente alguma coisa sobre esse cara?! V e a irmã mais velha roqueira largando sacos de lixo na calçada do prédio em que moram em Williamsburg. Faxina de primavera? Ou talvez o corpo de D todo retalhado? Eca! Desculpe, essa foi podre.

Seu e-mail

P: Cara gossipgirl,

estou ficando frustrada porque vc nunca vai dizer a gente quem vc é. pq eu queria mesmo te conhecer pessoalmente, sabe como é, talvez eu já conheça! pelo q sei, vc basicamente admitiu q está no terceiro ano da constance.

naum é?

- curiosa

R: Cara curiosa,

Eu não vou ceder e dar meu endereço aqui e agora, nem dizer a você em que ano estou. Se você fosse cool o bastante para ir a minha festa, podia ter me visto, embora em geral eu fique completamente cercada por minha... comitiva e seja difícil ate dar uma olhada em mim. Continue curiosa. Um dia você pode descobrir.

- GG

P: Cara GG,

Você tem de ser gostosa, porque, se não for, vai ser bem difícil para você depois que todo mundo souber quem você é. Tipo assim, ela era só uma baranga invejosa! - wise

R: Caro wise,

Você nem sabe o significado de gostosa, e só vai saber quando me conhecer, o que provavelmente jamais acontecerá.

- GG

 

AGORA SOBRE AQUELA COISA QUE VEM APOQUENTANDO SECRETAMENTE VÁRIOS DE NÓS...

Ir para a faculdade virgem ou não?

Vamos tomar uma providência com relação a isso agora mesmo com um cara que conhecemos há anos? Vamos nos livrar disso nas férias de primavera? No verão? Ou vamos nos estabelecer nos nossos alojamentos do jeito que estamos, atrevidas mas inocentes, prontas para perdê-lo com o primeiro galinha do campus que disser "Vem cá, gostosa"? Talvez a gente deva só ouvir nossa mãe e as irmãs mais velhas e "esperar pela época certa", sei lá o que isso significa. É claro que algumas de nós cortaram esse problema pela raiz há muito tempo, optando por passar os anos de universidade concentradas em coisas mais importantes, como geologia e Freud. Não. Encare a realidade: mesmo que não seja mais virgem agora, você vai se sentir virgem de novo no minuto em que chegar ao campus. E isso é bom.

Obrigada novamente por meus presentes! Um beijão... vocês são demais!

Pra você que me ama,

gossip girl

não há lugar como o nosso lar

 

- Pra que ilha a gente vai, afinal? - perguntou Blair Waldorf a mãe. Eleanor Waldorf Rose estava empoleirada na beira da cama de Blair, vendo a filha se arrumar para a escola enquanto discutiam as férias de primavera.

- Oahu, querida. Acho que disse a você. Vamos para aquele resort no North Shore, para que os meninos possam aprender a surfar. - Eleanor passou as mãos em concha na barriga de-quase-sete-meses-de-gravidez e fez uma careta para as paredes creme como se tentasse receber as vibrações do bebê com relação ao papel de parede preferido dele. Ela ia dar a luz em junho e Blair entraria para a faculdade logo em seguida. Hoje Eleanor e o decorador discutiriam os planos de transformar o quarto de Blair no quarto de um bebezinho.

- Mas nós já fomos a Oahu - lamentou Blair dramaticamente. Ela sabia havia semanas que eles iam passar as férias de primavera no Havaí, mas até agora não tinha pensado em perguntar onde. Blair fechou a gaveta da cômoda de mogno antiga e parou diante do espelho de corpo inteiro nas costas da porta do armário, enfeitando-se. O cabelo castanho quase à escovinha estava elegantemente desgrenhado; a cashmere branca de gola em V era decotada o bastante para sugerir um pouco do colo sem que ela precisasse se preocupar em ser mandada para a Sra. M, a diretora, por se vestir como uma puta; e os novos sapatos turquesa sem salto Sigerson Morrison ficaram tão maravilhosos com as pernas nuas que ela decidiu não vestir a malha, embora estivesse fazendo um mês de março incomumente frio e ela fosse congelar desse jeito. - Eu queria ir a um lugar novo - acrescentou ela, fazendo beicinho para o espelho enquanto aplicava uma segunda camada de brilho labial Chanel.

- Eu sei, meu bem. - Eleanor se levantou da cama e se agachou para olhar uma tomada elétrica que parecia potencialmente perigosa no rodapé perto da janela. Depois que a decoração acabasse, ela teria de contratar alguém para deixar toda a casa a prova de bebês. - Mas você nunca foi ao North Shore. Aaron disse que tem o melhor surfe do mundo.

Para consternação de Blair, a mãe estava usando a calça de um agasalho de veludo bege com a palavra Suculenta no traseiro.

Alô-ô, inadequado?!

- Então minha preferência não conta mais? – retrucou Blair. Ela arrastou a bolsa de carneiro azul-bebê para fora do armário e enfiou as coisas da escola nela. - Primeiro você me expulsa do meu quarto e agora não posso falar do lugar onde vamos passar as férias? - Agora mesmo os meninos estão comprando umas coisas de surfe para a nossa viagem. Você podia dar uma olhada rápida no computador do Aaron. Veja se tem algo que você queira - respondeu a mãe, distraída. Agora ela estava de quatro, contornando o quarto, verificando qualquer perigo que pudesse estar de tocaia a altura de um bebê. - Sabe de uma coisa, eu estava pensando mesmo em abacate para o esquema de cores... é tão de menininha, mas não fica radical demais? Mas agora estou pensando que talvez um amarelo esverdeado fique ainda melhor. Endívia. Para Blair, era o bastante. Ela não queria ir para Oahu, não estava interessada em comprar equipamento de surfe, não queria falar de esquemas de cores para o quarto do bebê idiota e certamente não precisava ver a palavra Suculenta na bunda gorda e grávida da mãe por nem mais um minuto. Com um último borrifo do perfume Marc Jacobs favorito, ela foi para a escola sem nem mesmo se despedir.

- Aí, Blair. Vem cá um minuto! - gritou do quarto o meio-irmão de 17 anos quando ela passou.

Blair parou e enfiou a cabeça pela porta do quarto. Aaron e o irmão dela de 12 anos, Tyler, estavam dividindo a cadeira de fibra natural de Aaron - bem fraternais – enquanto encomendavam roupa de surfe online com o cartão de crédito de Cyrus Rose. - Tyler tinha parado de pentear o cabelo numa tentativa de fazer dreadlocks como Aaron, e parecia ter uma espécie de fungo capilar maluco. Blair mal conseguia acreditar que esse era o quarto em que ia ter de morar ate ir para a universidade. A colcha de cânhamo e o carpete de alga natural de Aaron estavam cobertos de capas de velhos discos de reggae, garrafas de cerveja e roupa suja de Aaron, e o quarto fedia aos cigarros naturais e aqueles revoltantes cachorros-quentes de soja que ele sempre comia – crus.

- Qual é o seu número? - perguntou Aaron. - A gente pode comprar uma camiseta de neoprene para você. Evita o atrito da prancha.

- As cores são legais - acrescentou Tyler, entusiasmado. - Verde-néon, por aí. Blair não ia ser vista nem morta usando verde-néon, e muito menos neoprene verde. Ela podia sentir o lábio inferior tremendo, com um misto de pavor e mágoa sobrepujando-a. Aqui estava ela, as sete e meia da manhã, e já a beira das lágrimas. - Achei! - Cyrus Rose, o padrasto desagradável, gritou atrás dela. Ele saiu gingando do quarto principal para o corredor usando apenas um roupão de seda vermelha preso com um nó perigosamente frouxo. O bigode eriçado e grisalho precisava ser aparado e a cara gorda estava vermelha e gordurosa. Ele acenou uma enorme sunga laranja para Blair. Tinha uns peixinhos azuis impressos nela e teria sido meio bonitinha em qualquer pessoa, menos nele.

- Adorei esta aqui. Os meninos vão pedir para mim uma neoprene para combinar! - anunciou ele, feliz.

A idéia de passar o feriado de Páscoa vendo Cyrus bancando o idiota numa prancha de surfe, usando sunga laranja e neoprene da mesma cor foi o bastante para levar Blair as lágrimas. Ela escapuliu pelo corredor para o vestíbulo, puxou o casaco do armário e correu para encontrar a melhor amiga.

Esperava que Serena pensasse em alguma coisa - qualquer coisa - para animá-la. Como se isso fosse possível.

s tem uma idéia de gênio

Serena van der Woodsen bebia o latte e olhava de esguelha para a Quinta Avenida de seu poleiro na escadaria do Metropolitan Museum of Art. a cabelo louro-claro abundante cobria o capuz do casaco de cashmere branco acinturado e caia nos ombros. Lá estava, de novo, na lateral do ônibus M 102 – O anúncio do Lágrimas de Serena. Ela não tinha problema com o modo como aparecia na foto. Gostava de como o vento frio chicoteava seu vestido de verão amarelo entre os joelhos bronzeados de St. Barts e como, embora ela só estivesse calçando sandálias e um vestido leve no meio do Central Park em fevereiro, o arrepio que sentira nos braços e pernas fora cuidadosamente retocado. Ela até gostava de como ficou sem batom, e assim seus lábios perfeitamente cheios pareciam meio rachados e arroxeados. Eram as lágrimas nos enormes olhos azul-escuros que a incomodavam. É claro que era o que tinha levado a Les Best a batizar o novo perfume de Lágrimas de Serena, mas o verdadeiro motivo para Serena ter chorado na foto foi porque era o dia - não, o exato minuto - em que Aaron Rose (por quem Serena tinha certeza de estar apaixonada, pelo menos por uma semana) a havia magoado. E o que a incomodava, o que a fazia se sentir como se chorasse tudo novamente, era que, agora que eles tinham terminado, ela não tinha ninguém para amar e ninguém que a amasse. Não que ela não amasse quase todos os caras que conhecera, e não que todo cara do mundo não fosse totalmente apaixonado por ela. Era impossível não ser. Mas ela queria alguém para amá-la e inundá-la de atenção como só um cara que estava completamente apaixonado por ela podia fazer. Esse amor raro. O amor verdadeiro. O tipo de amor que ela nunca teve.

Sentindo-se incomumente sombria e melancólica, ela pegou um cigarro Gauloises na amarfanhada bolsa Chanel de veludo cotelê preto e acendeu só para vê-lo queimar. - Eu me sinto feia como este clima - murmurou Serena, mas depois abriu um sorriso quando viu a melhor amiga, Blair, subindo os degraus em direção a ela. Pegou o latte extra que tinha comprado, levantou-se e estendeu-o para Blair. - Demais, os sapatos - assinalou ela, admirando a mais recente compra de Blair. - Pode pegar emprestado - ofereceu Blair generosamente. - Mas vou te matar se você derramar alguma coisa neles. - Ela puxou a manga de Serena. - Vem, vamos chegar atrasadas.

As duas meninas desceram lentamente a escada e subiram a Quinta Avenida na direção da escola, bebendo o café enquanto prosseguiam. Um vento frio soprava através dos galhos nus das árvores no Central Park, fazendo-as tremer. - Meu Deus, está frio - sibilou Blair e enfiou a mão livre no bolso do casaco de cashmere branco de Serena do modo como só uma grande amiga faria. - Mas aí - começou a falar. Tinha controlado as lágrimas, mas a voz ainda estava meio instável. - Não só minha mãe fica zanzando pela casa, tipo assim, alisando os ovários dela,como hoje o decorador vai transformar meu quarto num parquinho de bebê, em tons de chicória e cu! De repente O desejo de Serena por amor parecia meio banal. Os pais deLa não se divorciaram porque O pai era gay; a mãe dela não estava grávida; o meio-irmão não tinha dado em cima dela, depois da melhor amiga e depois deu o fora nas duas; e ela não ia ser obrigada a mudar de quarto. Não só isso, ela não era virgem na idade avançada de 17 anos e não tinha beijado o entrevistador de Yale e depois quase perdido a virgindade para o ex-aluno de Yale que fez outra entrevista, avacalhando completamente as chances de entrar para a universidade. Aliás, ao pensar realmente no assunto, Serena via que sua vida era um mar de rosas se comparada com a de Blair.

- Mas você pegou o quarto do Aaron, né? E acabou de ser redecorado para ele... é legal. - Pra quem gosta de cortinas de cânhamo e móveis de folha de ginkgo ecologicamente corretos - zombou Blair. - Além disso, Aaron é um idiota. Ir a Oahu para passar as férias de primavera foi totalmente idéia dele.

Serena não achava que Oahu parecesse tão ruim, mas não queria contradizer Blair quando ela estava de mau humor e corria o risco de furar os olhos dela. As duas meninas atravessaram a rua 86 no sinal aberto, esbarrando uma na outra enquanto corriam para escapar de serem atropeladas por um táxi. Quando chegaram à calçada, Serena de repente parou, os olhos azuis enormes brilhando de empolgação. - Ei! Por que não vem morar comigo?

Blair se curvou para abraçar as pernas nuas e congeladas. - Será que a gente pode continuar andando? – perguntou ela, rabugenta. - Você pode morar no quarto do Erik- continuou Serena, animada. - E pode deixar Oahu pra lá e ir esquiar em Sun Valley com a gente!

Blair parou e soprou no café, espiando a amiga através do vapor. Desde que Serena voltou do internato, Blair a odiava totalmente, mas às vezes a amava totalmente. Ela tomou o último gole e atirou o copo meio cheio numa lixeira. - Me ajuda a fazer a mudança depois da aula?

Serena passou o braço pelo de Blair e cochichou no ouvido dela: - Você sabe que me ama.

Blair sorriu e pousou a cabeça exausta de problemas no ombro de Serena enquanto as duas viravam a direita na rua 93. Algumas centenas de metros alem ficavam as grandes portas azul-real da Constance Billard School for Girls. Meninas de rabo-de-cavalo com as saias cinza pregueadas do uniforme andavam em círculos na calçada, tagarelando enquanto a notória dupla de veteranas se aproximava.

- Ouvi dizer que Serena conseguiu um baita contrato de modelo depois que fez o anúncio do perfume. Ela vai trazer o filho de volta da França. Sabe qual é, aquele que ela teve no ano passado antes de voltar para a cidade. Todas as supermodelos tem bebes - piou Rain Hoffstetter.

- Eu soube que ela e Blair vão pegar um apartamento no centro e criar o bebê sozinhas em vez de ir para a faculdade.

Blair decidiu nunca transar com homens, e obviamente Serena teve sexo suficiente para a vida toda. Olha só pra elas - entoou Laura Salmon. - Lésbicas totais. - Aposto que elas pensam que estão fazendo alguma grande declaração feminista ou coisa assim - observou Isabel Coates.

- É, mas elas não vão se sentir tão bem com isso quando os pais delas, tipo assim, forem obrigados a deserdar as duas - afirmou Kati Farkas. A primeira sineta tocou, levando as meninas para dentro da escola.

- Oi - disseram Serena e Blair enquanto passavam pelo grupo de meninas ao entrar. - Sapato bacana! - Rain, Laura, Isabel e Kati cantarolaram em resposta, embora só Blair estivesse usando sapatos novos. Serena estava com as mesmas botas de camurça marrom surradas que usava desde outubro. Blair sempre teve os melhores sapatos e as melhores roupas, e Serena sempre era linda, de qualquer forma, mesmo com as roupas rasgadas e queimadas de cigarro do internato. E esse era outro motivo para odiar a dupla, ou amá-la, dependendo de quem você fosse e de seu estado de espírito.

o único careta no time de lacrosse

- Peguei! - Nate Archibald girou o bastão de lacrosse sobre a cabeça, rebateu a bola e a atirou com habilidade para Charlie Dem. Seu rosto vermelho estava sujo de terra e os cachos castanho-dourados estavam colados de suar e pedaços de grama seca do Central Park, fazendo com que ele parecesse ainda mais gostoso do que o modelo mais gostoso de todo o catálogo da Abercrombie & Fitch. Ele levantou a camisa para enxugar o suor dos olhos verdes brilhantes, e até os pombos empoleirados nas mores piaram de prazer com essa visão. O grupo de calouras do Seaton Arms que assistia da lateral deu risadinhas de excitação.

- Caraca. Ele deve ter malhado muito na prisão – disse uma menina a meia-voz. - Ouvi dizer que os pais dele vão mandá-lo para o Alasca depois da formatura, pra trabalhar numa fabrica de atum enlatado - cochichou a amiga dela. - Eles estão preocupados que ele volte a traficar drogas se for para a faculdade. - Eu soube que ele tem um problema cardíaco bem raro.

Ele tem de fumar maconha para não ter ataques – acrescentou outra. - Na verdade, é meio cool.

Nate deu um sorriso distraído para elas e as meninas fecharam os olhos para não despencarem no chão. Meu Deus, ele é perfeito. Era o início da temporada e ainda não tinham apontado nenhum capitão do time, então cada garoto dava o máximo de si. Depois das jogadas de sempre, o treinador Michaels pediu a eles que fizessem uns lançamentos livres. Nate estava lançando com o amigo Jeremy Scott Tomkinson quando ouviu o celular tocar na pilha de casacos. Ele acenou para Jeremy e correu para atender.

Georgina Spark, namorada de Nate há semanas, estava morando em uma clínica exclusiva de reabilitação de drogas e álcool em sua cidade natal de Greenwich, Connecticut, e só tinha permissão para dar telefonemas vigiados em determinadas horas do dia. Da última vez em que Nate perdeu um telefonema dela, ela ficou tão arrasada que tomou um porre e depois foi encontrada no telhado da clínica, mascando chiclete Nicorette e cheirando um frasco de removedor de esmalte, coisas que tinha roubado da bolsa de uma enfermeira.

- Você está ofegando - observou Georgie timidamente quando Nate atendeu. - Estava pensando em mim?

- Estou no treino de lacrosse - explicou ele. O treinador Michaels cuspiu ruidosamente na grama só a alguns metros de distância. - Mas acho que está acabando. Você está bem? Como sempre, Georgie ignorou a pergunta.

- Adoro o jeito como você está todo atlético, saudável e sem química, e eu aqui nesta prisão, definhando de saudade de você. Como uma princesa de conto de fadas. Ou não.

Algumas semanas antes, Nate foi pego pelos tiras enquanto comprava uma trouxinha de erva no Central Park e foi mandado para a reabilitação na Breakaway, em Greenwich. Nate conheceu Georgie na terapia de grupo. Uma noite, durante uma tremenda tempestade de neve, Georgie convidou Nate para ir à mansão dela para namorar. Eles ficaram chapados juntos e depois Georgie desapareceu no banheiro para tomar comprimidos controlados. Logo ela desmaiou de calcinha na cama e Nate não teve absolutamente nenhuma alternativa a não ser ligar para o pessoal da Breakaway para que viessem pegá-la. E desde então eles estavam namorando. Este seria um conto de fadas meio tosco.

- Então o motivo para eu ligar é... - cantarolou Georgie no telefone. Os colegas de time de Nate se reuniram em volta dele, pegando os casacos e tilitando as garrafas de Gatorade que tinham trazido. O treino acabara. O treinador Michaels cuspiu um catarro preto perto da ponta do tênis de Nate e apontou um indicador nodoso para ele. - É melhor eu ir - disse Nate a Georgie. - Acho que o treinador quer me indicar como capitão. - Capitão Nate! - guinchou ela ao telefone. – Meu capitãozinho lindo! - Então eu te ligo depois, tá legal?

- Peraí, peraí, peraí! Eu só queria que você soubesse que consegui que minha mãe convencesse esses macacos a me deixarem sair nos sábados, desde que eu esteja com um adulto ou mentor responsável. Então vamos para a casa de esqui da minha mãe no Sun Valley nas suas férias de primavera, tá bom? Você vem?

O treinador Michaels grunhiu alguma coisa para Nate e pôs as mãos nos quadris de velho. Mas Nate não precisava pensar por muito tempo na pergunta de Georgie. Sun Valley parecia um inferno muito melhor do que fazer reparos no velho catamarã do pai na casa de verão em Mt. Desert, no Maine.

- É claro que eu vou.Claro que sim. Olha, eu tenho de ir.

- Oba! - gritou Georgie. - Eu te amo – acrescentou ela com a voz rouca e depois desligou. Nate atirou o celular em cima do casaco de lã azul-marinho Hugo Boss e esfregou as mãos com energia. Os colegas de time já haviam ido para casa. - Que foi, treinador?

O treinador Michaels deu um passo na direção dele, sacundindo a cabeça enquanto puxava o ranho das vias nasais.

Mas que eca.

- No ano passado eu quase fiz de você o capitão, quando o Doherty machucou o joelho - disse o treinador. Ele cuspiu e sacudiu a cabeça de novo. - Ainda bem que não fiz. Epa.

O sorriso de esperança de Nate entortou um pouco.

- Por que isso?

- Porque você não foi feito para ser capitão, Archibald! -ladrou o treinador. - Olha pra você, tagarelando no telefone como um playboy enquanto o resto do time esta lá, dando duro. E não pense que não sei sobre sua prisão por drogas. - Ele deu uma rosnadinha. - Você não e líder, Archibald. - Ele cuspiu novamente e deu as costas para Nate, enfiando as mãos nos bolsos da parca vermelha Lands' End enquanto se afastava. - Você é só um monte podre de decepção.

- Mas eu nem tenho fum... - gritou Nate para ele, a voz falhando no vento. O céu era de um cinza de aço e os galhos nus das arvores estalavam e gemiam. Nate ficou de pé sozinho na grama marrom de março, segurando o bastão de lacrosse e tremendo um pouco de frio. Seu pai era um ex-capitão da marinha, então ele estava acostumado a desprezar velhas figuras de autoridade arrotando poder com seus sermões. Mas ainda era muito ultrajante que o treinador Michaels pensasse que o único sujeito careta no time não era adequado para ser o capitão. O treinador nem mesmo lhe deu a oportunidade de se defender.

Ele se curvou e pegou o casaco. Se estivesse chapado agora, teria dado um sorriso sereno para as acusações do treinador e acendido um baseado. Em vez disso, jogou o casaco nos ombros, mostrou o dedo médio para as costas do treinador e arrastou-se pela campina que escurecia em direção a Quinta Avenida.

Charlie, Jeremy e Anthony Avuldsen estavam esperando por ele no caminho que saía do parque. Anthony era doidão demais ate para praticar esporte, a não ser pelo jogo ocasional de futebol no parque, mas ele sempre encontrava os rapazes depois do treino com baseados já apertados e um grande sorriso na cara sardenta de cavanhaque louro. Devagar, os garotos saíram do parque e foram para a Quinta Avenida. - Cara, ele te nomeou capitão, não foi? – perguntou Charlie, a voz falhando como sempre acontecia quando ele estava chapado, o que significava basicamente o tempo todo. Nate pegou a garrafa de Gatorade azul da mão de Charlie e tomou um gole. Embora aqueles caras fossem seus melhores amigos, ele não ia contar o que tinha acontecido. - O treinador me ofereceu, mas eu recusei. Quer dizer, não tenho certeza se já estou na Brown, de qualquer forma, então não é que eu precise do titulo de capitão de lacrosse no meu histórico escolar. E provavelmente vou perder alguns jogos de fim de semana saindo com a Georgie em Connecticut. Eu disse ao treinador para dar a um calouro. Os três garotos ergueram a sobrancelha, surpresos e admirados. - Meu Deus, cara – disse Jeremy num sussurro. – Isso é, tipo assim, grande da sua parte. De repente Nate sentiu o tipo de rubor que podia ter sentido se realmente tivesse dito ao treinador para fazer de capitão um calouro em vez dele. Como ele teria sido grande se isso realmente tivesse acontecido.

- É, isso aí. - Ele sorriu, pouco à vontade, e abotoou o casaco. Não só tinha mentido sobre a oferta da posição de capitão do treinador, como também mentira sobre suas chances de ser aceito na Brown. É claro que seu pai tinha ido lá e é claro que ele fez uma entrevista de arrasar, mas ele estava chapado como uma fatia de pão em cada prova e teste padronizado que fizera desde o primeiro ano, então suas notas mal passavam de medíocres.

- Toma. - Anthony estendeu um baseado aceso. Ele tinha a tendência a esquecer a toda hora que Nate parara de fumar aquilo. - É cubano. Comprei do meu primo, que conseguiu com Rollins, na Flórida.

Nate afastou o baseado.

- Tenho de escrever um trabalho - disse ele, afastando-se do grupo na direção de casa. Era difícil se acostumar com isso: não ficar doidão. Sua mente estava tão clara que quase doía. E de repente havia tanta coisa em que pensar. Caraca.

o copo de d está meio vazio

Quando a escola liberou os alunos para o dia, o antes desgrenhado e agora arrumadinho na moda Daniel Humphrey não ficou zanzando pelos arredores da Riverside Prep com os outros alunos do terceiro ano, quicando bola de basquete e comendo pizza em fatia na 76 com a Broadway. Em vez disso, fechou a nova jaqueta preta APC, amarrou novamente os sapatos de boliche Camper e foi para o Plaza Hotel encontrar-se com sua agente. O salão de jantar decorado em ouro do Plaza estava zumbindo da multidão habitual de turistas russos vestidos espalhafatosamente, vovôs extravagantes e algumas famílias ruidosas do Texas, todos com sacolas de compras da FAO Schwarz e da Tiffany, e todos tomando chão exceto Rusty Klein.

Mud! Mud!

Rusty soprou beijos no ar dos dois lados do rosto de Dan enquanto ele se sentava. - Mystery vem? - perguntou ele, cheio de esperança.

Dezenas de pulseiras de aura chocalharam ruidosamente quando Rusty deu um tapa na própria testa.

- Mas que merda! Acho que esqueci de contar. Mystery está numa turnê mundial do livro por seis meses. Já vendemos 500 mil exemplares no Japão!

A última vez em que Dan vira Mystery foi em uma apresentação no Rivington Rover Poetry Club, no centro da cidade. Eles praticamente transaram no palco enquanto faziam uma recita improvisada de poesia juntos. Depois a poeta lânguida, excitada e de dentes amarelos se retirou para escrever e Dan não a viu desde então. - Mas o livro dela ainda nem saiu - protestou ele.

Rusty empilhou o cabelo vermelho-fogo no alto da cabeça e enfiou um lápis número dois nele. Pegou o martíni e bebeu, borrando toda a borda da taça com o batom rosa. - Não importa se o livro nunca sair. Mystery já é uma celebridade - declarou ela. Fumante ávido, Dan de repente ficou desesperado por um cigarro. Mas era proibido fumar, então em vez disso ele pegou um garfo na mesa e apertou os dentes na palma da mão trêmula. Mystery, que tinha apenas 19 ou 20 anos (Dan não tinha certeza), conseguira escrever um livro de memórias intitulado Por que eu sou tão fácil em menos de uma semana. No dia em que terminou, Rusty o vendeu a Random House por um adiantamento de surpreendentes seis dígitos, com um acordo para o cinema. Rusty puxou a cadeira para a frente e empurrou a taça meio bebida de água velha para Dan, como se esperasse que ele tomasse.

- Mandei "Cinzas, cinzas" para a North Dakota Review disse ela de forma precipitada. - Eles odiaram.

"Cinzas, cinzas" era o último poema de Dan, escrito na voz de um sujeito que perde o cão morto, mas deixava que o leitor deduzisse que o narrador estava se dirigindo a um cachorro, e não a uma ex-namorada ou coisa assim.

É o primeiro jogo de basquete da temporada

Espero por seu beijo

O bafo de carne feito chocolate

Meus sapatos ainda lá

Um na sua cama, onde você o deixou

O outro no banco traseiro do meu carro

Dan afundou na cadeira. Na semana em que "Putas" saiu na New Yorker, ele se sentiu invencível e famoso. Agora ele se sentia um imbecil.

- Queridinho, posso pensar em vários motivos para seu texto não agradar a todos como o de Mystery – cantarolou Rusty. - Você ainda é novo, meu benzinho. Só o que precisa é de um bom treinamento. Que merda, preciso de outro drinque. - Ela arrotou no pulso e depois ergueu as duas mãos, segundos depois um martíni transbordando era colocado diante dela.

Dan pegou o copo de água pela metade e depois o baixou novamente. Queria perguntar a ela sobre aqueles "vários motivos" por que seu texto não agradava a todo mundo como o de Mystery, mas de novo tinha certeza de que sabia a resposta. Enquanto Mystery escrevia principalmente sobre sexo, Dan escrevia principalmente sobre a morte, ou querer morrer, ou se perguntar se estar morto e melhor do que estar vivo, o que era meio deprimente, se pensarmos no assunto. Além disso, ele não era órfão, como Mystery - de acordo com a lenda, de qualquer forma. Uma órfão criada por prostitutas. Dan era só um garoto de 17 anos que morava num apartamento enorme pré-guerra no Upper West Side com o ultrajante mas adorável pai divorciado, Rufus, e a irmã mais nova relativamente adorável e de peitos grandes, Jenny. - Então, era isso que você queria me dizer? – perguntou ele, sentindo-se deprimido. - Está brincando? - Estimulada pelo quarto gole do martíni número dois, Rusty pegou um celular da bolsa Louis Vuitton edição Snapdragon. - Prepare-se, Dannyzinho. Estou ligando para Sig Castle, do Red Letter. Vou conseguir que ele te dê um emprego! A Red Letter era a publicação de literatura de maior prestígio do mundo. Começou cinco anos antes, com o poeta alemão Sigfried Castle, em um armazém abandonado em Berlim Oriental, e recentemente foi comprada por Condé Nast e se mudou para Nova York, onde prosperava no papel de filhote-vanguarda-moleque dos editores da vogue e da Lucky. Rusty começou a discar antes que Dan sequer tivesse a oportunidade de responder. É claro que trabalhar na Red Letter seria uma honra, mas ele não estava procurando um emprego no mercado.

- Mas eu ainda estou na escola - murmurou ele.Às vezes a agente tendia a se esquecer de que ele só tinha 17 anos e portanto não podia se encontrar com ela para tomar expressos no meio da manha de uma segunda-feira ou pegar um avião para Londres impulsivamente para comparecer a um recital de poesia. Ou ter um emprego de tempo integral.

- Sig-Sig, é a Rusty - cantarolou ela. - Escute, meu amor. Estou mandando um poeta para você. Ele tem potencial, mas você podia dar uma afiadinha nele. Entendeu? Sigfried Castle - Dan ainda não conseguia acreditar que Rusty estava realmente falando com o Sigfried Castle – disse alguma coisa que Dan não pôde ouvir. Rusty passou o telefone a ele.

- Sig quer dar uma palavrinha.

As mãos de Dan pingavam de suor quando ele levou o telefone a orelha, nervoso, e disse, a voz tremida:

- Alô?

- Eu náo tenho a menorrr idéa de quéin vozê é, mas Rrrusty cuida da vantástica Mysterry Crraze, entáo ajo que devo conziderrar vozê tambéin, hein? - balbuciou Sigfried Castle num sotaque alemão arrogante.

Dan mal conseguiu entender uma palavra, exceto a parte de Mystery Craze. Como é que todo mundo ouvira falar de Mystery, e não dele? Afinal, ele foi publicado na New Yorker. - Muito obrigado pela oportunidade - respondeu ele com humildade. - Na semana que vem estarei livre, de férias, então poderei trabalhar o dia todo. Depois que as férias terminarem, só posso trabalhar depois da aula.

Rusty arrancou o telefone dele.

- Ele estará aí na segunda de manhã - declarou ela. - Bye-bye, Sig-Sig. - Desligando, ela atirou o telefone na bolsa e atacou o martíni. - Nós éramos amantes, mas é melhor agora, que somos amigos - confessou ela. Ela estendeu a mão e beliscou a bochecha pálida e confusa de Dan. - Nossa. Você é p novo estagiário de Sig-Sig, seu estagiariozinho bonitinho-cuticúti!

Rusty falou num tom aviltante, como se Dan fosse passar os dias de trabalho mexendo os cafés descafeinados de Sigfried Castle e fazendo ponta nos lápis dele. Mas um estágio na Red Letter era um cargo de tanto prestigio e tão impossível de conseguir que ele não podia reclamar.

- Mas e aí, a Red Letter recebeu esse nome por causa da letra A de adultério que Hester Prynne teve de usar em A letra escarlate?- perguntou ele, genuinamente interessado. Rusty o encarou de um jeito interrogativo. - Como é que eu vou saber, porra?

como não falar com quem você não está falando

Depois da reunião de editorial da Rancor, Vanessa Abrams disparou pela porta da Constance Billard e desceu a escada. Os cabelos não voavam atrás dela, batendo lindamente nos ombros, porque ela mantinha a cabeça raspada e praticamente não tinha cabelo. E ela não precisava se preocupar com uma torção no tornozelo por causa dos saltos porque ela nunca usava saltos. Na verdade, ela nunca usava sandálias, só botas. E das grandes, com biqueira de aço.

O motivo de toda essa pressa de Vanessa era porque Ruby tinha lhe dado uma lista de umas porcarias para comprar na loja de produtos naturais quando saísse da escola, e ela realmente precisava conseguir tudo e chegar em casa antes dos pais, para se certificar de não ter esquecido de se livrar de alguma prova de seu trabalho de cineasta e eles descobrirem e a desmascararem.

Na base da escada, ela quase atropelou a última pessoa que esperava ver. Dan, o ex-melhor amigo e ex-namorado. O cabelo castanho-claro de Dan estava elegantemente arrumado, com costeletas compridas emoldurando o maxilar sério, e ele vestia um temo cinza que parecia francês e caro. Isso de um cara que antigamente só cortava o cabelo quando não era mais capaz de enxergar e que usava a mesma calça de veludo marrom até que as bainhas ficassem puídas e tivesse buracos nos joelhos. Vanessa puxou a malha de lã preta que aquecia as pernas e cruzou os braços. - Oi. - Por que você está aqui, merda? - Oi - respondeu Dan. - Só estou esperando pela Jenny - explicou ele. - Consegui um emprego hoje. Queria contar a ela sobre isso.

- Que bom pra você. - Vanessa esperou que Dan dissesse mais alguma coisa. Afinal, foi ele quem a traiu com aquela piranha da Mystery e foi ele quem se vendeu totalmente para ficar famoso. Ele podia pelo menos se desculpar por isso. Dan continuou mudo, os olhos passando do rosto de Vanessa para as portas da escola e de volta ao rosto dela. Vanessa podia dizer que ele estava morrendo de vontade de contar a ela sobre o emprego, mas ela não ia lhe dar a satisfação de perguntar. Ela pegou uma bisnaga de vaselina do bolso da jaqueta de aviador e passou um pouco nos lábios. Era a coisa mais próxima de brilho labial que Vanessa tinha. - Eu vi sua irmã aí dentro, falando com a professora de arte. Vai sair num minuto. - O que é que tá rolando? - perguntou Dan, exatamente quando ela estava prestes a sair. Vanessa suspeitou de que ele só estava perguntando para que ela perguntasse a ele o que estava rolando, e depois de pudesse contar tudo sobre como foi indicado ao Prêmio Pulitzer ou uma merda dessas.

- Meus pais vão chegar hoje à noite - respondeu ela, cedendo um pouco. - Você sabe como isso sempre é divertido para mim - acrescentou ela, depois desejou não ter feito isso. Não fazia bem nenhum lembrar que os dois sabiam tudo um sobre o outro, agora que não estavam se falando mais.

- É isso aí. Tchau.

- Tá. - Dan ergueu a mão e deu um largo sorriso, o tipo de sorriso falso de merda que ele nem sabia dar antes de começara ir a desfiles de moda com agentes que davam beijinhos no ar e poetas famosas, esquisitas e piranhudas. - Foi bom te ver.

Foi bom te ver também, baba-ovo, respondeu Vanessa em silêncio enquanto ia para a Lexington pegar o metrô para Williamsburg.

Na verdade, era mesmo meio bom ver o Dan, e ela queria contar mais a ele. Queria contar como o incessante "somos artistas, olha como rugimos" dos pais sufocava qualquer migalha de criatividade dela. Como os pais dela sequer sabiam que ela fazia filmes, embora fosse basicamente a única coisa que gostava de fazer. Como eles nem mesmo sabiam que ela fora admitida antecipadamente na Universidade de Nova York, puramente com base na força de sua arte. E como eles não iam saber, em toda a visita de quase duas semanas, que o armário do quarto dela estava abarrotado de equipamento de filmagem e os velhos vídeos preferidos. Apesar de parecer irônico, Ruby - a filha que nunca foi a faculdade, usava calça de couro o tempo todo embora fosse vegetariana e tocava baixo numa banda de garagem esquisita, ruidosa e quase toda masculina - era a filha criativa, a favorita.

É. Dan não ia gostar nem um pouco disso. Isto é, se eles ainda estivessem se falando. Chegando a Williamsburg, ela correu para fora do metrô e entrou na loja de produtos naturais a algumas quadras de distância. Mussarela de soja, massa de lasanha sem glúten, tempeh..., ela leu a lista que Ruby lhe dera. Nesta noite Ruby ia fazer sua famosa lasanha de soja e tempeh em homenagem a chegada dos pais. Havia outra coisa que isolava Vanessa. Ela era carnívora, enquanto Ruby e os pais eram totalmente vegetarianos.

Ela pegou um bloco de tempeh na geladeira da loja.

- Você nem olha para esse tipo de comida - disse ela, atirando o tempeh na cesta de compras. Sacudiu a cabeça e sorriu com amargura enquanto ia para o corredor em busca da seção de produtos sem glúten. Seu pai sempre falava com objetos inanimados. Era parte da mística de "artista piradinho" dele. Mas Vanessa não era realmente artista - ainda - e, se não encontrasse alguém para conversar alem de um bloco de carne vegetariana cujo sabor sequer lhe agradava, ela ia ficar mais do que piradinha: ia ficar totalmente insana.

"Por que não sai e faz alguma coisa com seus amigos?", Ruby sempre perguntava quando Vanessa parecia particularmente triste, amargurada e solitária. Vanessa sempre tratava essa questão da mesma maneira como tratava a pergunta "Por que não usa cores em vez de só preto?". Porque, para ela, o preto era uma cor - a única cor. Assim como Dan era o único amigo. Ia ser estranho quando os pais dela perguntassem por ele e ainda mais estranho não ter ninguém para sair nas férias.

A não ser que... a não ser que ela conhecesse alguém com quem sair.

gosto de uma boa pele falsa

Lá estava ele! Jenny voou escada abaixo ao sair da escola. Leo - que era abreviatura de Leonardo, claramente representativo de Leonardo da Vinci, que foi um grande, se não o maior artista, na opinião dela -, Leo, o Leo dela, estava esperando por ela depois da aula como um bom namorado, o melhor namorado. Superalto e superlouro, com olhos azuis felizes, um adorável dente da frente torto, andava a passos largos. E ele era dela, todo dela!

- Olha, é o seu irmão. - Jenny ouviu a nova melhor amiga, Elise Wells, dizer atrás de si enquanto ela corria ao encontro de Leo. Só a meio metro de distância, Dan estava parado, curvado, as mãos nos bolsos, como se ela tivesse dez anos de idade novamente e ele a estivesse esperando para levá-la para casa.

Jenny ficou na ponta dos pés e deu um beijo no rosto de Leo enquanto Dan ficou observando.

- Oi - murmurou ela na orelha de Leo, sentindo-se extremamente madura. Com sorte, toda a turma - não, a escola inteira - estava olhando invejosamente neste exato momento. - Você esta toda quente - sussurrou Leo, pegando a mãozinha dela na mão desajeitada e desengonçada dele. O pulso dele acidentalmente esbarrou no peito de Jenny e ela corou. Jenny Humphrey era baixinha, a garota mais baixa de todo o primeiro ano, mas tinha os maiores peitos da escola, ou talvez do mundo todo. Eram tão grandes que ela havia pensado em reduzi-los cirurgicamente, mas depois de pensar um pouco mais ela decidiu que faziam parte do que a tomava ela mesma, e então decidiu deixá-los como estavam. E após viver com eles por 14 anos, ela se acostumou com as pessoas esbarrando neles por acidente porque eles apontavam muito para fora, mas Leo claramente ainda estava tentando entender como lidar com eles.

É claro que estava.

- E aí, o que vamos fazer? - perguntou ele, a voz mal podendo ser ouvida. No começo, Jenny teve problemas para entendê-lo, porque ele falava quase aos sussurros e preferia e-mails a telefone. Mas quando pensou no assunto ela meio que gostou de que ninguém mais pudesse ouvir o que Leo lhe dizia. Era como se eles tivessem a própria língua particular. E isso fazia com que Leo parecesse mais problemático e misterioso, como alguém com um passado obscuro.

Dan tinha ouvido de tudo sobre Leo Berensen, o garoto que Jenny conhecera online, mas não pessoalmente. Ele se aproximou e se apresentou.

- Então você está no segundo ano da faculdade? Na Smale? Soube que as artes gráficas são ótimas por lá.

- É - respondeu Leo inaudivelmente, o olhar nebuloso mal roçando o rosto de Dan. Jenny ergueu o braço de Leo e sorriu exultante como se ele tivesse acabado de salvar o mundo com suas palavras. - Muito.

- Legal. - Dan estava meio irritado por ter tido o trabalho de ir até a escola para encontrar Jenny depois da aula e poder se gabar do estágio na Red Letter, e agora esse louro palerma estava atrapalhando.

- Hmmm, odeio interromper desse jeito, gente, mas será que a gente pode, tipo assim, ir a algum lugar? - pediu Elise Wells do lado de fora do círrculo. Seu cabelo louro e duro estava enfiado atrás das orelhas frias e rosadas. - Estou ficando com hipotermia. Não era de todo surpreendente, considerando que o uniforme cinza pregueado estava tão curto que mal cobria a bunda. O estilo de Elise sempre foi de boa-menina-patricinha-misturado-com-puta-barata, mas ultimamente ela estava pecando para o lado do puta-barata.

- Vamos pegar o ônibus para a minha casa - piou Jenny alegremente. Ela nunca se sentiu tão... procurada em toda a vida. - Talvez o papai esteja em casa. Ele está morrendo de vontade de te conhecer - disse ela a Leo.

Dan sorriu para si mesmo enquanto os seguia pela Quinta Avenida para a rua 96. É mais provável que o pai deles quisesse comer Leo no almoço.

Elise andou ao lado dele, as mangas do suéter cor-de-rosa puxadas sobre as mãos para mantê-las aquecidas. - E ai, você é um poeta de verdade? - perguntou ela enquanto o ônibus encostava e eles entravam. Jenny e Leo já estavam sentados juntos, de mãos dadas. Dan foi para uma cadeira bem atrás deles e Elise se sentou ao lado dele. - Eu odeio redação criativa. Nossa professora age como se todo mundo estivesse cheio de idéias o tempo todo... só precisamos colocar no papel. Mas toda vez que temos de fazer uma redação em aula, não consigo pensar em nada para escrever. Sabia?

Dan não sabia. Para ele, a redação em aula era um completo dom divino. Ele era tão cheio de idéias que não tinha tempo para escrever todas. Ainda assim, era meio refrescante conversar com alguém que o achava um poeta de verdade. - Na verdade, eu acabo de descobrir que vou fazer um estágio na Red Letter nas minhas férias de primavera. Estou muito animado. Quer dizer, aqueles estágios são muito difíceis de conseguir.

Elise inclinou a cabeça e apertou os lábios.

- Red o quê?

- Sabe qual é, a Red Letter. E tipo a revista trimestral de vanguarda literária mais bem-sucedida do mundo.

- Ah. - Elise olhou para ele de lado, como se quisesse saber se ele era ainda mais bonitinho de perfil.

E era, especialmente com aquelas novas costeletas hipster. - Posso ler um poema seu? - perguntou ela descaradamente.

Jenny se virou quando ouviu isso. Então Elise estava paquerando seu irmão. Ela olhou para Leo e pensou em cochichar alguma coisa com ele sobre isso, mas Leo não era do tipo de fazer fofoca.

Por acaso se escreve c-h-a-t-o?

Mas então Leo a surpreendeu, inclinando-se e cochichando no ouvido dela. - Olha só o casaco daquela mulher do outro lado. É falso, mas dá pra dizer que é um J. Mendel pela cor. A maioria das peles falsas e toda de uma cor só, mas o mink verdadeiro tem montes de cores diferentes. A J. Mendel faz as melhores peles falsas. Jenny olhou o casaco da mulher, insegura quanto ao que fazer com tudo aquilo. Pele falsa era uma coisa meio estranha para um cara conhecer. Ela ainda não tinha perguntado o que os pais dele faziam para viver. Talvez fossem importadores de peles russas exóticas, caçadores ou coisa assim.

- Como...?- Ela virou a cabeça para responder, mas Leo estava olhando intensamente pela janela enquanto zuniam pelo Central Park, tão imerso em pensamentos que ela não quis interrompê-lo. Olhando para o buraco escuro da orelha esquerda dele, ela se perguntou se ele podia ser meio surdo, e daí os sussurros. Ele até tinha uma pequena cicatriz no pescoço que podia ter sido de varíola, ou de um tiro.

Ela apertou mais a mão dele. Ah, que maravilha ter um Leo, um Leo louca e maravilhosamente misterioso!

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Advertência: todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.

oi, gente!

EU, GLORIOSAMENTE EU

Parece que ultimamente todo mundo que é alguém esta falando de mim. Totalmente lisonjeiro, sim, mas também totalmente inútil. Não há melhor lugar para andar incógnita do que aqui em Manhattan, onde qualquer pessoa notável pelo menos finge que não quer ser notada. Sabe, como as celebridades, tipo Cameron Diaz, estão sempre andando de boné e óculos de sol para esconder a identidade? As pessoas normais não fazem isso, então, se você fizer, imediatamente atirará a atenção e as pessoas constantemente tentarão imaginar quem você é, e a questão é exatamente essa. Basicamente, sou gulosa por esse tipo de atenção - eu adoro! Por que eu estragaria tudo revelando quem sou? Se por acaso você é um certo cara por quem eu par acaso tenho uma quedinha imortal, e você fica interessado em descobrir quem eu sou, eu só posso mandar um beijo...

Seu e-mail

P: Cara GG,

Então eu estava me perguntando o que você acha da idéia de tirar um ano, em vez de ir para a faculdade, e seguir uma banda que eu gosto e que viaja muito. Eu podia ganhar algum dinheiro vendendo biscoitos ou camisetas de batique no estacionamento dos shows deles ou coisa assim e só ver o que e a vida. Quer dizer, meus pais querem que eu vá para a universidade, mas achei que seria muito mais divertido se talvez eu só fizesse minhas coisas, entendeu?

- cheese

R: Oi, cheese,

Sei lá. Não parece o plano-mais-bem-pensado para mim. Imagino que você não seja apaixonada pelo cantor da banda nem nada, né? Porque não é que ele vá se apaixonar por você, mesmo que ele veja sua cara no estacionamento vendendo biscoitos. Além disso, acho que a faculdade vai ser divertida. Um tipo de diversão diferente, mas muito divertida. Conheço caras de bandas que são totalmente sensuais, mas, pelo que eu soube, toda universidade está cheia de caras em bandas, e você e eles estão vivendo e dormindo no mesmo campus pequeno. Agora me diz, não parece divertido? -GG

Flagra

N com os amigos no parque, de porre. Um mito, é o que achamos. G, a namorada doida herdeira do aço, numa excursão acompanhada da enfermeira da reabilitação ao Darien Sport Shop em Connecticut para se vestir com roupas de esqui bonitinhas Bogner e comprar os mais rápidos esquis da Rossignol. C, também na Darien Sport Shop, com a mãe, comprando uma nova prancha de snowboard e olhando cobiçosamente para G. S e B no departamento de lingerie da Barneys, fazendo estoque de coisas de mulherzinha para vadiar durante a festinha noturna na casa de S. D na seção de publicações de literatura da Coliseum Books, fartando-se para o novo emprego. V filmando pombos empoleirados no peitoril da janela do quarto. Ai, do que e que ela esta lançando mão? E um casal de artistas de meia-idade meio parecidos com V, se ela tivesse cabelo grisalho pegajoso, no vernissage da exposição de escultura deles na Holly Smoke Gallery, no distrito da carne. Uma peça envolvia uma roda mofada de queijo brie e uma cama inflável. Não pergunte.

Continuar: parte 2 de 3