Do jeito que eu gosto
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Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Só mais dois dias para as férias, e amanhã à noite vamos aquela festa. Voltarei antes disso.
Pra você que me ama,
gossip girl
b fica excitada só de ver os sapatos dele
- Pode dormir aqui - disse Serena a Blair enquanto as duas arrastavam as malas Louis Vuitton superlotadas de Blair para o quarto de Erik. - Meu irmão levou a TV; o aparelho de som e tudo com ele, então está meio vazio aqui, mas a gente vai ficar a maior parte do tempo no meu quarto...
- Está tudo bem. Blair olhou em volta. Comparado com a decoração suntuosa do resto do apartamento dos van der Woodsen, o quarto era bem pobre. Uma cama antiga de solteiro sob as janelas duplas que davam para a Quinta Avenida, o Met e o Central Park. Ao lado dela uma cômoda comprida e baixa, e, na parede oposta, mesa e cadeira, tudo da mesma madeira escura da cama. No chão havia um tapete turco em tons de azul-marinho e tangerina. A porta do armário estava entreaberta e Blair pode ver a silhueta da velha jaqueta de brim de Erik, pendurada no cabide.
Blair respirou o cheiro de madeira do quarto. A idéia de dormir na toca de um cara mais velho que ela não conhecia bem era estranhamente excitante. - Você se importa se eu guardar minhas coisas?
- Tudo bem, vai nessa. - Serena se jogou na cama e pegou uma revista Playboy embaixo do colchão de Erik, coçando o nariz perfeitamente reto enquanto passava as páginas. As duas meninas sabiam bem demais o que os garotos realmente faziam quando estavam sozinhos em seus quartos para se contorcer e gritar a visão de uma Playboy. Blair pegou uma calça na mala e abriu o armário. Ao lado da jaqueta de brim, duas camisas brancas J. Press com o colarinho e os punhos puídos penduradas ao lado de um smoking preto Hugo Boss que mal fora usado. No chão do armário havia um par de tênis Stan Smith surrados e ao lado deles uma caixa de sapatos Prada. Blair deu uma olhada em Serena, mas a amiga estava completamente hipnotizada pela Playboy. Ela se ajoelhou, perguntando-se que tipo de pessoa deixaria para trás os sapatos Prada. A caixa preta estava empoeirada, e quando ela levantou a tampa descobriu que não havia sapato nenhum, só um pequeno caderno de capa de couro marrom. Cautelosa, ela o ergueu e abriu na primeira página.
Não acredito que estou escrevendo na porra de um diário feito a porra de uma garota, mas estou bêbado de
tequila da festa de formatura do Case e, em vez de apagar como uma pessoa normal, estou pirando de vez.
Acabamos de nos formar. Vamos para a faculdade. Não
sei quem sou nem o que vou fazer, nem quem quero ser,
e agora estou deixando tudo que sei e FODA-SE!
Serena tem tanta sorte - ela só acabou de começar o
ensino médio e eu vou poder contar a ela qual é a parada com a faculdade, então ela vai saber. Ninguém vai
contar para MIM. E não e que eu vá procurar qualquer
um dos meus amigos e admitir que estou assustado.
Eles só falam das mulheres com quem podemos
transar. E tenho certeza de que isso vai acontecer, a não ser que eu me transforme num daqueles anormais que
moram num quarto sozinhos e nunca saem, e finalmente
precisam arrombar a porta por causa do cheiro.
Foda-se, isso e maluquice. vou para a cama.
Blair virou a página para ler mais, mas o resto do caderno estava em branco. Obviamente, Erik concluíra que escrever um diário não era a dele. O coração de Blair bateu alto enquanto ela relia a primeira e única entrada. Que loucura era essa de Erik van der Woodsen um cara que ela mal conhecia, ter apreendido com tanta perfeição o modo como Blair se sentia nas últimas semanas?
Ela se levantou e foi até a foto de família num porta-retratos de prata em cima da cômoda de Erik. Os van der Woodsen estavam escarrapachados numa praia em algum lugar em trajes de banho, todos bronzeados, o cabelo louro-claro, sorrisos brancos e olhos azuis enormes. Blair podia dizer que Serena tinha uns 14 anos na foto porque ela ainda tinha aquelas mechas na testa que conseguiu no fim da sexta série e passou o resto do ano cultivando. Então Erik devia ter 17. Com o short de surfe surrado, o corpo dele parecia musculoso e pronto para a ação, mas o rosto bonito estava um tanto cansado, como se ele tivesse passado a noite na farra, ou talvez estivesse meio triste. Por que eu nunca prestei atenção nele?, perguntou-se Blair. Atrás dela, Serena virava as paginas da Playboy.
- Erik tem namorada? - perguntou-se Blair em voz alta.
- Vamos perguntar a ele. - Serena atirou a revista no chão e pegou o telefone, um sorriso malicioso brincando no rosto. Ela estava acostumada a incomodar Erik na Brown pelo menos três vezes por semana, queixando-se com ele de sua vida amorosa ou da falta dela enquanto ele reclamava da ressaca permanente.
- Oi, pervertido. Eu estava lendo sua Playboy grosseira com a Demi Moore nas páginas centrais. Ela não tem uns cinqüenta anos?
- E daí? - bocejou Erik como resposta.
- Mas aíf, que sorte você tem de a mamãe e o papai não arrastarem mais você para as festas beneficentes.
- Vai ser hoje à noite?
- Amanhã à noite. Uma coisa de arte no Frick – respondeu Serena num tom cansado. - Nem vale a pena comprar um vestido. Blair e eu simplesmente vamos trocar as roupas para que elas pareçam novas. Aliás, ela quer te perguntar uma coisa. - E depois, sem avisar, Serena atirou o telefone para Blair.
Blair o pegou e o segurou nas mãos. - Alô? - Ela ouviu Erik dizer. Pôs o telefone na orelha.
- Oi. É a Blair. Hmmm, eu vou ficar no seu quarto. Espero que esteja tudo bem. - Claro. Olha só, minha irmã me disse há algum tempo que você estava superpreocupada com Yale e a merda de entrevista que fez lá, essas coisas... Os olhos de Blair se arregalaram de pavor. A porra da entrevista em Yale era a última coisa que Erik precisava saber a seu respeito. Serena era uma... - Bem, não precisa - continuou Erik. - Minha entrevista na Brown foi totalmente retardada e eu consegui entrar. Sei que você é fera no tênis, faz um monte de coisas de caridade e Serena disse que suas notas são sensacionais. Então, não encana, tá legal? - Tudo bem - prometeu Blair, trêmula. Não surpreende que Serena ligue para o irmão o tempo todo. Ele era absolutamente o cara mais sexy e mais doce do mundo! - E aí, vai pra Sun Valley com a gente nas férias? – perguntou ele. Blair tirou os sapatos turquesa e mexeu os dedos pintados de vermelho. Ela gostava da sensação áspera do tapete de Erik sob os pés descalços.
- Eu tenho de ir para o Havaí com a minha família.
- Não tem não - intrometeu-se Serena da cama. – Ela não vai! - gritou alto o bastante para Erik ouvir. - Ela vai para Sun Valley com a gente!
- Você não quer mesmo ir para o Havaí, quer? – perguntou Erik meio de gentileza, meio de brincadeira. – Vai ser muito melhor esquiar com a gente. Blair analisou o rosto de Erik na fotografia. será que ele sempre falou com ela desse jeito familiar, de você-sabe-que-me-quer? Será que ela sempre foi completamente surda? Ela se imaginou recostada com ele perto do fogo no bar do Sun Valley Lodge. Ela fazia a Marilyn Monroe com sua magreza gostosíssima, usando um casaco de pele de coelho branca, o jeans Seven favorito e as botas de inverno brancas de pele de ovelha que tinha com prado em janeiro e nunca usou. Ele era... Ernest Hemingway, todo alto-mar e instruído, usando um daqueles suéteres de gola rulê apertados, azul-marinho, com fecho na gola, que os patrulheiros sensuais de esqui sempre usam meio abertos. Eles bebericavam conhaque aquecido e viam as sombras formadas pelas chamas que brincavam no rosto um do outro enquanto ela acariciava os músculos fortes e quentes por baixo da blusa dele.
Três anos antes, Erik não tinha idéia de quem era ou do que ia fazer, ou do que queria ser, mas agora já se passaram três anos e ele definitivamente sabia. Só a idéia de dormir na cama dele a noite era extremamente reconfortante. Ela podia ate usar uma das velhas camisas dele na cama para criar um clima.
- Sim - disse Blair em seu sussurro mais Marilyn Monroe. - Sim, acho que eu vou. E você, docinho, prepare-se para um prazer especial.
será que n vai resistir a entrar na da gata com bafo de erva?
No dia seguinte, depois do treino de lacrosse e antes de ter de ir para casa se arrumar para a festa beneficente no Frick, Nate fez um desvio para a Scandinavian Ski Shop na rua 57 Oeste a fim de se equipar para Sun Valley.Ele esquiava e fazia snowboarding praticamente desde que nasceu e já possuía toneladas de equipamento, mas estava tudo no Maine - e, além disso, este era o tipo de compra que ele realmente gostava de fazer. A Scandinavian Ski Shop da Madison Avenue era especializada em trajes Bogner de esqui em pele e botas de pele, e havia um certo clima de florestas tirolesas de mentirinha ali, com paredes revestidas de madeira e carpetes verde-mata, mas ainda era a melhor loja de produtos para esqui de Nova York.
Nate foi direto para os fundos da loja, onde as pranchas de esqui e snowboarding eram vendidas. Ele enfiou as mãos nos bolsos da calça cáqui, contemplando as pranchas encostadas na parede. Imediatamente seus olhos deram numa prancha vermelho-escura com a imagem de uma folha de maconha. A palavra normal estava impressa numa das extremidades da prancha, e a palavra pateta na outra. Ele estendeu a mão e passou o polegar pela borda da prancha.
- Essa é demais, se você faz saltos. - Uma voz enfumaçada de mulher vagou até ele. Nate se virou e viu uma garotinha com cabelo louro curto e um nariz arrebitado olhando para ele. Vestia casaco de capuz Roxy verde-oliva e calça Roxy cinza-clara. Os olhos castanhos eram caídos, como de um filhotinho de cachorro. Ou talvez ela estivesse chapada.
- Você trabalha aqui? - perguntou ele.
A garota sorriu. Os dentes eram muito pequenos e juntos. - Às vezes. Quando estou de folga. Vou para Holden, New Hampshire, sabe? Sou capitã da equipe feminina de snowboarding. - A garota sorriu mais um pouco e Nate concluiu que ela estava definitivamente chapada.
- Posso te ajudar em alguma coisa? - ofereceu ela.
Nate bateu os dedos na prancha vermelha.
- Acho que vou levar esta. E preciso de botas e amarras.
A garota continuou sorrindo enquanto procurava numa estante de caixas um par de botas Raichle do tamanho dele e as melhores amarras K2 do mercado. - Acabei de experimentar este jogo em Stowe no fim de semana. - Ela se ajoelhou aos pés de Nate para ajudá-lo com as botas. - É totalmente demais. Nate se levantou e olhou para a frente do casaco dela, que estava aberto um pouco abaixo do colo. Ela não usava sutiã, só um top branco, e ele pode ver tudo. Ela sorriu para ele, segurando o pé com bota de Nate nas mãos. - Como se sente?
Ele pensou em estender a mão e levá-la para a cabine de provas. Podia até imaginar como a boca da garota teria o gosto fumacento e de mate que ele gostava, o gosto de depois-de-fumar-um-bagulho. Era estranho, mas desde que parou de fumar maconha Nate ficava basicamente excitado o tempo todo. E ter uma namorada na reabilitação que só tinha permissão para visitas supervisionadas não ajudava muito. Georgie, Georgie, Georgie. Ele mal podia esperar por Sun Valley.Eles iam esquiar o dia todo e se agarrar a noite toda. O que poderia ser melhor?
- Posso montar esses agora? - perguntou ele com uma pressa repentina. A garota reuniu as amarras e pegou a prancha do tamanho correto na estante. - Eu vou montar para você.
Claro que ia.
- Volto já.
Enquanto esperava, Nate bisbilhotou uma pilha de bonés de esqui e começou a experimentá-los. Pegou um verde felpudo com protetores de orelha e uma borla comprida no alto - muito granola-com-Ralph-Lauren - e o colocou. - De jeito nenhum - murmurou, enquanto se examinava no espelho. Em geral ele não pensava muito em como estava ou no que vestia - não tinha de se preocupar - mas queria ficar legal para Georgie. Ele devolveu o boné verde para a prateleira e experimentou um boné tipo beisebol, preto, com protetores de orelha que podiam ser dobrados para cima, meio que uma versão moderna do chapéu de caça do Gaguinho do Pernalonga.
- Esse boné fica incrível em você - disse a vendedora, voltando com a prancha. Ela apoiou a prancha na prateleira de roupas e foi até Nate, delicadamente desvirando as abas sobre as orelhas perfeitas dele. - Você adorou – acrescentou ela com a voz rouca. O hálito dela cheirava exatamente como ele imaginava. Nate lambeu os lábios. - Qual é o seu nome?
- Maggie.
Nate assentiu lentamente. O boné ficava bem em sua cabeça. Ele podia pegar Maggie neste exato momenta e abrir o top dela. Perguntar se ela que ria dividir um baseado. Ele podia, podia mesmo. Mas não ia fazer.
Nate tirou o boné e o enfiou debaixo do braço.
- Muito obrigado por sua ajuda. Hmmm, sou Nate Archibald. Minha família tem conta aqui?
Maggie passou a prancha e as novas botas para ele com um sorriso de decepção. - Talvez eu esbarre com você nas rampas um dia desses.
Nate se virou, surpreso com a própria força de vontade. Ele estava tão totalmente concentrado que até o treinador se impressionaria.
Não que ele ainda não estivesse excitado como o diabo.
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Advertência: todos os nomes verdadeiros de lugares, pessoas e fatos foram abreviados para proteger os inocentes. Quer dizer, eu.
oi, gente!
VIRTUDE E VÍCIO
E então, será que todo mundo esta sendo arrastado pelos pais para a festa beneficente Virtude e Vicío na Frick hoje à noite? Espero que sim - pelo menos isso significa que não estarei sozinha na minha infelicidade. E claro que todos sabemos que o único motivo para eles insistirem em que a gente vá e que eles podem nos comparar com os outros, falar das universidades a que nos candidatamos, de quem já entrou, e geralmente nos levar à loucura, uma vez que aqueles são definitivamente nossos temas preferidos. Além disso, não pode haver lugar pior para uma festa. Quer dizer, qual é? uma festa no Frick e como uma festa na casa de campo da sua avó.
Sei que pareço ingrata - convenhamos, uma festa é uma festa, e você sabe o quanto eu gosto de me produzir. Mas prefiro festas sem pais! A única coisa legal e que nossos pais estarão tão ocupados tentando impressionar os outros que não vão se incomodar de nos repreender por fumar no banheiro. Na verdade, se fizermos alguma coisa mesmo que ligeiramente constrangedora, eles só terão de fingir que não nos conhecem. Então vamos tentar nos divertir um pouco, né? Você já está ansioso por hoje à noite, não está?
Vou poupar seus e-mails e flagras para depois do baladão.
Vejo vocês lá!
Pra você que me ama,
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a galera do upper west side empina o nariz para os malversados
- Senhoras e senhores, por favor, tomem seus lugares! - gritou Rufus Humphrey enquanto trazia à mesa uma terrina de salsichas chiando com maçãs e bananas assadas ao rum. Jenny tinha feito o pai se sentir tão culpado por sair na véspera, quando ela levou Leo em casa, que Rufus insistiu em que ela convidasse Leo e Elise para jantar na noite seguinte. Não que Rufus quisesse impressionar os convidados: como sempre, ele vestia uma camiseta branca manchada de comida e a calça de moletom preferida, queimada de cigarro e frouxa na bunda. O cabelo grisalho curto e as monstruosas sobrancelhas grisalhas espetavam em ângulos estranhos da cara hirsuta, e a boca e os dentes estavam manchados de vermelho do vinho.
- É melhor a gente se sentar. -Jenny desligou a TV na biblioteca e sorriu para Leo. - Agora você vai provar a comida esquisita do papai. Cuidado - alertou ela. - Ele põe álcool em tudo.
Leo olhou o relógio. Depois enfiou as mãos nos bolsos do jeans e as tirou novamente. Parecia nervoso.
- Tá legal.
- O pai dela não é tão assustador como parece – disse Elise. Ela colocou os pés nos tamancos rosa J. Crewe foi para a sala de jantar como se morasse a vida toda na casa de Jenny.
Dan os encontrou na mesa de jantar desconjuntada. Estava lendo um exemplar da Red Letter e nem olhou para cima quando o pai jogou no prato dele uma banana inteira e uma salsicha que parecia estropiada. Depois que todos foram servidos, Rufus encheu sua taça de vinho ate a borda e a ergueu no ar.
- Um joguinho de poesia!
Dan e Jenny reviraram os olhos um para o outro à mesa.
Normalmente Jenny não ligava para os testezinhos relâmpagos, joguinhos e aulinhas do pai, mas com Leo ali era constrangedor demais.
- Pai- gemeu ela. Por que ele não podia ser normal pelo menos uma vez? Rufus a ignorou.
- "Aonde vai você, Walt Whitman?/ As portas se fecham em uma hora./Para que lado sua barba aponta esta noite?"- Ele apontou um dedo com gordura de salsicha para Leo. - O nome do poeta!
- Pai! -Jenny protestou batendo na decadente mesa de jantar de madeira. Tudo no apartamento de quatro quartos dos Humphrey, esparramado na rua 99 com West End Avenue, era decadente. Mas o que se podia esperar quando eles não tinham mãe nem empregada para limpar tudo para eles?
- Ah, vamos lá. Essa e fácil! - rugiu Rufus para Leo. O disco de vinil que ele tinha colocado antes de trazer a comida de repente aumentou, e os estranhos e agudos yodels peruanos de Yma Sumac encheram a sala. Rufus se serviu de outra taça de vinho, esperando ansioso por uma resposta.
Leo sorriu educadamente.
- Hmmm... Não tenho certeza se sei...
Dan se inclinou e sussurrou no ouvido de Leo.
- Allen Ginsberg. "Supermercado na Califórnia". Fácil.
Jenny chutou o pé do irmão debaixo da mesa. Ele precisava mesmo ser tão sabe-tudo? Rufus cerrou os dentes.
- "Mas tenho promessas a cumprir./E milhas a seguir antes do sono" - desafiou ele, os olhos castanhos e vagos esbugalhados ao encarar Leo.
O cabelo louro de Leo parecia quase transparente enquanto de murchava sob o olhar incansável de Rufus.
- Hmmm...
- Pai! – gritou Jenny pela terceira vez. -Meu Deus.- Ela sabia que o pai só estava tentando fazer sua parte de pai-louco-e-maravilhoso, exagerando na compensação por outras seis noites daquela semana, quando ela e Dan comeram em quentinhas diante da TV; mas será que ele não percebia que a poesia não era a praia de Leo? - Bem, até eu sei essa - disse Elise com a voz esganiçada - Robert Frost. "Parada no Bosque numa Noite de Neve". Tive de decorar na sexta série. - Ela se virou para Dan. - Olha, eu meio que sei alguma coisa de poesia.
Rufus espetou uma salsicha e a jogou no prato azul e rachado de Leo. - Afinal de contas, onde é que você estuda?
Leo enxugou a boca com as costas da mão.
- Smale. Na Smale School, senhor. - Os olhos dele dardejaram pela mesa para Jenny, que sorriu, estimulando-o.
- Hmmm - respondeu Rufus, pegando uma salsicha nos dedos e mordendo a metade. Ele engoliu a salsicha com um gole de vinho. - Nunca ouvi falar. - É especializada em artes - interveio Dan.
Jenny não conseguia comer. Estava muito irritada com o pai. Normalmente ele era meio legal, de um jeito ríspido e rabugento. Por que tinha de ser tão cruel com o Leo? - Mas então, um emprego na Red Letter - disse Rufus, erguendo a taça para Dan. - Ainda não consigo acreditar. - Rufus tinha um baú cheio de poemas inéditos e inacabados no seu escritório e, embora ele mesmo fosse editor, nunca foi publicado. Agora Dan ia ter uma carreira de escritor que ele nunca teve. - Ai, garoto! - resmungou ele. - Mas vê se não começa a falar com sotaque falso como todos os outros cretinos. Dan franziu a testa, lembrando-se do sotaque alemão difícil de entender de Siegfried Castle. Parecia bem autêntico para ele.
- Como assim?
Rufus riu enquanto garfava uma banana.
- Você vai ver. Mas estou orgulhoso de você, filho. Se continuar desse jeito, será um poeta premiado lá pelos vinte anos.
De repente, Leo se levantou.
- Com licença. Tenho de ir.
- Não! -Jenny levantou-se de um salto. Ela havia pensado que eles comeriam rapidamente, Elise iria embora e ela e Leo iriam para o quarto dela e se beijariam por algum tempo, e talvez fizessem o dever de casa juntos. Ela podia ate pintar o retrato dele, se ele deixasse. - Fica, por favor.
- Desculpe,Jenny. - Leo virou-se para Rufus e estendeu a mão rigidamente. - Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Humphrey. Obrigado pelo jantar delicioso. Rufus agitou o garfo no ar.
- Não fique acostumado com isso, garoto. Na maior parte das vezes, comemos comida chinesa.
Isso era verdade. A idéia que Rufus fazia de compras no supermercado era comprar vinho, cigarro e papel higiênico. Jenny e Dan seriam desnutridos se não conseguissem pedir comida pelo telefone.
Jenny acompanhou Leo até a porta.
- Você está bem? - perguntou ela, preocupada.
Leo abriu seu sorriso tímido de dentes tortos daquela altura toda. - Estou. Eu só achei que a gente ia comer um pouco mais cedo. Preciso ir para casa e... - Ele parou, franzindo a testa enquanto colocava um cachecol de cashmere vermelha e preta de grife no pescoço. "Burberry", dizia a etiqueta. Jenny nunca o vira usar isso. - Vou te mandar um e-mail mais tarde - acrescentou ele antes de desaparecer pelo corredor para pegar o elevador.
Jenny voltou para a mesa e Rufus ergueu bestificado as sobrancelhas bastas para ela. - Foi alguma coisa que eu disse?
Jenny olhou para ele. Ela não tinha idéia de por que Leo fora embora tão de repente, mas culpar o pai era a solução mais fácil.
- Ah, qual é, Jen? - continuou o pai insensivelmente.
- Então ele não é a ferramenta mais afiada na caixa. Mas provavelmente vai dar um bom namorado.
Ela se levantou.
- Vou para o meu quarto.
- Quer que eu vá com você? - propôs Elise.
Jenny achava que Elise estava muito feliz sentada ao lado de Dan, conversando sobre poesia. Ela chegou a se servir de uma taça de vinho.
- Não, está tudo bem - murmurou ela. Só o que ela realmente queria era se deitar de cara para baixo na cama e ruminar sobre Leo, sozinha.
Elise tomou um gole de vinho.
- Eu devo ir daqui a um minuto, de qualquer forma. - Ela olhou de lado para Dan enquanto ainda olhava para Jenny, como quem diz: Adivinhe só? Eu gosto mesmo do seu irmão.
- Estou pensando em escrever um poema quando chegar em casa. Ah, então tá.
Quando entrou no quarto, Jenny se esticou na cama de solteiro e olhou carrancuda para as pinturas e o cavalete vazio no quarto. Ela tinha certeza de que Leo não era burro, embora aquele poema de Robert Frost fosse muito conhecido. Na verdade, ele provavelmeme era um pouco mais inteligente do que o resto deles, só que de uma forma menos óbvia. Ela se lembrava da primeira vez em que pôs os olhos nele na Bendel's antes de eles se conhecerem pela Internet. Foi no departamento de cosméticos e ele estava fuçando as bolsas de cosméticos listradas de marrom e branco características da loja, o único homem que fazia compras em toda a loja. O que ele estava fazendo ali, afinal? Era um mistério. E aquela observação, do nada, que ele fez ontem, sobre a mulher com casaco de mink falso? Ou o novo cachecol da Burberry? Ele parecia saber tanto de... coisas bonitas. E por que ele ainda não a havia convidado para ir a casa dele? A casa dele provavelmente era linda. E ele nunca falou dos pais. Os mistérios de Leo só se acumulavam. E não havia nada que uma garota gostasse mais do que decifrar os segredos de um cara misterioso.
a idéia de diversão de um artista é a idéia de bobeira de outro artista
Na segunda noite de visita, os pais de Vanessa a levaram, com Ruby, a galeria onde a exposição de escultura de arte fundamental estava acontecendo. A galeria era enorme e brilhante, com piso de madeira clara e paredes brancas. No meio do salão maior havia um cavalo marrom e branco, devorando satisfeito uma salada Caesar tamanho família em uma enorme tigela de madeira. Ao lado do cavalo havia um balde de plástico azul com um forcado apontando para fora. Sempre que o cavalo evacuava, a garota vestida de alemã, atrás da mesa colocada ao lado da porta da galeria, saltava de sua cadeira giratória para recolher o estrume com o forcado e despejar no balde.
Ruby, a irmã de 22 anos de Vanessa, afagou o focinho do cavalo e lhe deu Tic Tacs de menta, as luzes da galeria batendo na calça de couro roxa. - Esse é o Buster. É um doce, não é? - perguntou sua mãe, Gabriela, admirando o cavalo. – Nós o encontramos comendo alface-romana no nosso jardim comunitário. O dono dele foi um anjo em deixar que a gente o pegasse emprestado. - Ela afastou a longa trança grisalha do ombro e afagou a ponta. O cafetá africano berrante que escolhera para usar naquela noite cala dos ombros feito uma toalha de mesa roxa, amarela e verde com um buraco no meio para a cabeça. Fugindo totalmente da moda, Gabriela preferia "costumes tribais" e gostava de se considerar uma "modelo global". Ela estava ate usando mocassins mexicanos feitos de couro de porcos selvagens.
Buster era mesmo um doce, mas isso o tomava arte?, perguntou-se Vanessa. Ela foi até uma coisa pregada na parede, descobrindo que era uma corrente de raladores de queijo. Alguns até tinham pedaços secos de queijo ainda presos.
- Você deve estar pensando: "Eu podia ter feito isso."- observou o pai dela, Arlo Abrams. - Na verdade não - respondeu Vanessa. Por que diabos ia querer fazer uma corrente de raladores de queijo?
Arlo arrastou os pés na direção dela, usando uma capa peruana de lã preta desbotada, uma saia de cânhamo na altura dos tornozelos - sim, isso mesmo, uma saia - e tênis de lona branca. Gabriela era responsável pelas roupas dele, caso contrário ele não se incomodaria em usar roupa nenhuma. Os cabelos compridos e grisalhos se abriam em leque pelos ombros e, como sempre, ele parecia macilento e alarmado. Vanessa tinha certeza absoluta de que a parte alarmada vinha de todo o ácido que ele tomou quando jovem. E, quem sabe, talvez ainda estivesse tomando. - Feche os olhos e passe a mão neles - instruiu Arlo, pegando a mão de Vanessa. Seu hálito cheirava ao tempeh grelhado que Ruby tinha posto na lasanha da noite passada, ou talvez ela estivesse sentindo o cheiro do queijo velho dos raladores. Vanessa fechou os olhos, perguntando-se se esse era o momento em que ela finalmente entenderia o brilhantismo e o propósito do trabalho dos pais. Ela deixou que o pai passasse os dedos dela pelas protuberâncias pontudas e afiadas dos raladores. Parecia exatamente que estava tocando em raladores de queijo, nada mais e nada menos do que isso. Ela abriu os olhos.
- Arrepiante, hein? - disse Arlo, os olhos castanho-claros se repuxando. Era arrepiante mesmo.
Do outro lado da sala, Ruby e Gabriela estavam ao lado de um vaso de terra - outra de suas obras de arte fundamental -, rindo como meninas de dez anos. - O que há de tão engraçado? - perguntou Vanessa, pensando que talvez elas estivessem falando de um dos namorados músicos esquisitos de Ruby ou coisa parecida. Depois ela percebeu que ate a alemã loura e convencida atrás da mesa estava sorrindo. - Que foi? - repetiu Vanessa.
Arlo riu e passou os dedos manchados de tinta nos longos cabelos grisalhos, parecendo inacreditavelmente satisfeito consigo mesmo.
- Tem sementes nessa terra - sussurrou ele, os olhos saltados. - Sabe como é, sementes! Hein?
Vanessa sempre foi uma solitária na escola, com a cabeça raspada e a tendência a usar só preto, mas em geral sua solidão era voluntária. Neste caso, ela queria entender a piada, realmente que ria. Mas não conseguia. E se os pais dela pensavam que a arte era um cavalo comendo salada, utensílios de cozinha pregados numa parede ou um vaso de terra com sementes, não havia jeito de eles entenderem a intensidade sombria de seus filmes sutis e mórbidos. E não havia jeito de Vanessa sequer pensar em compartilhar os filmes com eles.
- Prontos para debandar? - disse Gabriela ao lado do vaso de terra. Os amigos hippies da família da época da escola de arte, os Rosenfeld, convidaram-nos para uma espécie de festa beneficente de arte e eles decidiram arrastar Vanessa e Ruby com eles. - Aonde vamos, afinal? - perguntou Vanessa ceticamente enquanto saíam da galeria, esperando por um táxi. Ela imaginou passar o resto da noite dançando descalça em volta do fogo em algum parque de escultura no Queens para evocar os espíritos da primavera ou outro absurdo hippie igualmente imbecil.
- A um lugar chamado Frick. Acho que fica na rua 5. - Gabriela começou a fuçar na bolsa disforme que uma amiga havia feito para ela de pneus de trator reciclados. - Tenho o endereço escrito em algum lugar por aqui.
- Fica na Quinta Avenida - corrigiu Vanessa. – Sei onde é. - E Vanessa tinha certeza absoluta de que não ia haver um monte de homens de saia lá também. Não, mas seria muito mais divertido se houvesse.
pirando no frick
O Frick fora a residência em Nova York de Henry Clay Frick, o magnata do aço e do coque da era industrial. O Sr. Frick era um grande colecionador de arte européia e, após sua morte, a mansão foi transformada em museu.
A festa beneficente Virtude e Vício acontecia no Living Hall, um grande salão com painéis de carvalho, forrado de tapete persa e exibindo quadros de grandes artistas do século XVI, como El Greco, Holbein e Ticiano. No meio de uma parede havia uma das esculturas de bronze de Soldani, Virtude triunfando sobre o vício, e no meio de cada uma das enormes mesas redondas montadas para a festa com toalhas de linho creme e prataria reluzente havia uma replica de 25 centímetros de altura da mesma escultura, cercada por uma guirlanda de tulipas roxas.
Não que alguém estivesse dando atenção à arte.
As mulheres com vestidos feitos sob medida e homens de smoking se reuniam nas mesas ou ficavam de pe no bar, mordiscando pato ao molho de ameixa e conversando sobre qualquer coisa, menos arte.
- Viu a garota van der Woodsen no anuncio do novo perfume? - cochichou Titi Coates para Misty Brass.
- A lágrima falsa foi demais para mim. Acho que foi muita exploração, não foi? - declarou Misty. Ela apontou com a cabeça enquanto Serena e Blair seguiam os pais de Serena para o salão antes que as duas meninas escapulissem para encontrar alguma coisa para beber.
- Seus peitos devem ser maiores do que os meus. - Serena levantou o tomara-que-caia Donna Karan que pegou emprestado com Blair. Elas usavam o mesmo tamanho de sutiã, então ela achou que o vestido ficaria bem, mas toda vez que dava um passo podia sentir a roupa caindo um pouco.
- É, mas você é mais magra. - Blair não estava disposta a admitir, mas o vestido de festa cor-de-rosa Milly de Serena estava rasgando aos poucos debaixo dos braços e nas costuras do corpete desde que ela o fechara. Com demasiada freqüência ela ouvia um pequeno rip enquanto as costuras cediam, mas esperava que o vestido agüentasse até ela voltar para casa.
Todo mundo parecia estar tomando coquetéis, mas os garçons não eram vistos em lugar nenhum.
- Por que estamos aqui mesmo? - gemeu Blair.
- Sei lá. É só uma daquelas coisas - respondeu Serena contritamente. - Bem, se eles não tiverem vodca Ketel One este ano, vou embora - sussurrou Blair. No ano passado ela teve de se contentar com Absolut, tão passé que era praticamente pré-histórica.
- Não é maravilhoso ver as duas meninas juntas de novo? - sussurrou a mãe de Blair no ouvido da Sra. van der Woodsen.
_ Não foi muito bom quando Serena estava no internato. Nós, mulheres, precisamos ter as amigas por perto.
_ Sim, é verdade - concordou a Sra. van der Woodsen friamente enquanto desviava os olhos azuis da barriga de grávida de Eleanor. Ela e Eleanor sempre foram amigas, mas um bebê de quase cinco meses era simplesmente vulgar demais. E aquele empreiteiro gordo, barulhento e bigodudo com quem ela estava casada era meio duro de engolir. -Ah, olha, é Misty Brass. Vamos lhe dar um alô. Misty tinha deixado Titi Coates discutindo com a filha, Isabel, sobre se Isabel devia ganhar um carro na formatura ou não, e agora Misty estava sentada sozinha com o filho, Chuck, fofocando como sempre. Ela era uma loura severa com um vestido dourado Carolina Herrera e jóias Harry Winston, e ele estava um demônio sombrio e enganosamente lindo num terno Prada riscadinho de verde. Na verdade, Chuck realmente era o demônio, e ele sempre procurava por novas maneiras de expressar sua maldade. Mas, seja paciente, vamos chegar lá. - Chegando aos cinqüenta e com quase sete meses - cochichou Misty para o filho. - Como sua amiga Blair reagiu a isso?
Chuck deu de ombros como se não ligasse a mínima. Na grande festa de Ano-novo de Serena, ele puxou Blair de lado e propôs que ela perdesse a virgindade com ele, uma vez que ele era um verdadeiro especialista em defloramento. Para irritação dele, Blair tinha se recusado categoricamente. Ultimamente ele vem experimentando ser gay, pelo menos para matar o tédio.
Ou para ter uma desculpa para tirar as sobrancelhas.
- Provavelmente ela vomitou mais algumas vezes - observou Chuck de uma forma insensível, referindo-se ao probleminha de Blair com a bulimia, que não era segredo nenhum. - Ela vai sair de casa assim que o bebê nascer, de qualquer forma. - Eu soube que Blair vai a uma clínica logo depois da formatura para cuidar de seu problema de uma vez por todas - observou Misty. - Não é verdade? Mas Chuck não estava mais ouvindo. Do outro lado da sala, um pequeno drama se desenrolava e ele não queria perder essa.
Nate mal tinha posto os olhos em Blair desde que ela o perseguiu na reabilitação em Greenwich, Connecticut, algumas semanas antes. Durante seu único aparecimento na terapia de grupo, a psicóloga obrigara a admitir em voz alta, na frente de todos, que ela era bulímica, embora Blair insistisse em chamar o problema de "regurgitação induzida por estresse". Nate podia ter se divertido com o aparecimento dramático de Blair na clínica, mas na época ele só estava começando a namorar Georgie, e duas malucas de uma só vez era simplesmente demais para ele. Felizmente Blair entendeu que seu plano de ataque tinha dado em nada e prontamente decidiu que a reabilitação estava abaixo dela.
Como se ela realmente quisesse passar as tardes de sábado falando de como enfiava o dedo na garganta de vez em quando, em lugar de comprar sapatos com Serena. Não, obrigada.
E Serena? Nate não conseguia se lembrar da última vez em que a vira, mas, como sempre, ela estava glamourosa e equilibrada, naquele jeito encantador e discreto dela. Em geral Nate gostava de ficar num canto nas festas e deixar que as pessoas viessem a ele, se tivessem vontade de conversar, mas decidiu tomar a iniciativa de cumprimentá-las. Por que não? Mesmo que Blair não falasse com ele, Serena falaria. Serena foi a primeira a ver Nate se aproximar. Ela acendeu um cigarro, deixando a cinza cair no inestimável piso de mármore da mansão.
- Nathaniel Archibald - declarou ela, em parte para alertar Blair, mas em parte agradavelmente surpresa. – Nosso há muito perdido Nate. - Mas que porra. - Blair esmagou o Merit Ultra Light com o salto pontudo de uma das sandálias de cetim preto Manolo Blahnik. - Meu Deus.
Serena não tinha certeza se Blair estava xingando porque Nate era a última pessoa na Terra que ela que ria ver ou porque Nate estava tão arrasadoramente gostoso com o smoking clássico Armani.
Não havia nada mais emocionante do que um cara delicioso de smoking, mesmo que você deva odiá-lo.
- Oi. - Nate beijou Serena rapidamente no rosto e depois pôs as mãos nos bolsos da calça do smoking, sorrindo cautelosamente para Blair. Ela girava o anel de rubi no dedo repetidamente, como sempre fazia quando ficava nervosa. Seu cabelo curto fazia com que os malares se destacassem mais, ou talvez ela tivesse emagrecido um pouco. De qualquer forma, ela parecia meio... furiosa. Furiosa e delicada ao mesmo tempo. - Oi, Blair. Blair enfiou as unhas na palma da mão. Precisava de outro drinque. - Oi. Como está a reabilitação?
- Acabou. Pelo menos pra mim. Aquela garota que estou vendo... a Georgie... ainda está lá.
- Porque é viciada em drogas? - respondeu Blair, virando o que restava da vodca. A música da big-band turbulenta que ninguém percebera que estava tocando de repente parou, gelando o salão.
- Vamos tomar um porre - interrompeu Serena antes que Blair pudesse fazer alguma maluquice, como dar um golpe de caratê na cara de Nate. - Só falta mais um dia de escola antes das férias!
Nate parou um garçom que passava e pegou mais vodca com ele. - Vocês vão a algum lugar legal?
- Sun Valley... como sempre - disse Serena a ele.
Blair limitou-se a ficar parada ali, entornando o segundo drinque e desejando que a) Nate fosse embora, b) ele não estivesse tão animado e careta, c) ele parasse de ser tão absurdamente simpático e d) Serena parasse de retribuir a simpatia. - Blair vai com a gente. Ela acabou de comprar a passagem. Nate pegou um maço de Marlboro no bolso e colocou um cigarro entre os lábios. Acendeu cuidadosamente, olhando para Blair através da chama e depois para longe de novo.
- Eu vou pra lá também - disse ele por fim. - A mãe de Georgie tem uma casa nas montanhas. A gente deve esquiar junto.
Blair sentiu o estômago começar a gorgolejar e espadanar no vestido apertado demais de Serena.
- Volto já. - Ela enfiou o copo vazio na mão de Serena. - Talvez você deva encontrar nossa mesa para a gente poder se sentar.
- Blair está morando na minha casa por um tempo - explicou Serena a Nate enquanto eles viam Blair ir direto para o banheiro das mulheres. De repente Serena se sentiu meio como uma irmã mais velha e protetora em relação a Blair, e ficou feliz em poder ajudar.- A mãe dela está transformando o quarto dela para a nova irmãzinha. Sacanagem, né? Nate tentou imaginar como devia ser a vida de Blair, agora que ela tinha um padrasto novo, um meio-irmão novo e uma nova irmãzinha a caminho. Ele não conseguiu ir muito longe.
- Você está diferente - observou Serena, olhando Nate de cima a baixo. Ela ergueu uma sobrancelha perfeitamente tirada e sorriu. – Está ótimo. Nate e Serena sempre tiveram tesão um no outro. Eles até transaram uma vez, perdendo a virgindade juntos antes do primeiro ano, pouco antes de Serena ir para o internato. Mas era uma espécie de tesão meio recreativo, sem ligação nenhuma, e eles não repetiram a dose desde aquela primeira vez. - Eu me sinto bem - admitiu Nate. Ele pensou em contar a ela como tinha parado de ficar chapado, mas ainda não era o capitão do time de lacrosse. Como estava louco para que ela conhecesse Georgie porque eles definitivamente estavam juntos. Mas Nate não era de falar muito. – É legal que você vá para lá - disse ele simplesmente. - Deve ser bem divertido.
- Deve ser divertido? - repetiu Serena, atirando os braços em volta dele com seu habitual jeito espontâneo e deixando brilho labial rosa em todo o rosto dele. – Normalmente eu só posso esquiar com o chato do meu irmão mais velho. Vai ser demais! Nate resistiu ao abraço, tentando não ficar excitado. Mas, agora que estava sem maconha, a mera sugestão do perfume de uma garota ou o roçar dos cabelos dela era o bastante para fazer seu rosto arder, em especial quando ela era tão linda quanto Serena. Serena pegou um cigarro do maço na bolsa e passou se espremendo por ele. - É melhor procurar a Blair. A gente se vê, tá legal?
Nate observou-a ir, sentindo o celular no bolso da calça do smoking. Georgie provavelmente estava no quarto dela na Breakaway agora mesmo, num momento de sossego, ou o que quer que eles fizessem com os pacientes depois do jantar, mas talvez a enfermeira encarregada fosse legal o bastante para deixar que eles transassem por telefone.
Ele discou o número e pôs o aparelho na orelha antes de levantar a cabeça. Chuck Bass estava olhando para ele de sua cadeira ao lado da mãe abarrotada de jóias, parecendo mesmo extremamente gay. E só a idéia de que Chuck podia ter uma queda por ele foi o suficiente para sufocar a premência do telefonema de Nate a Connecticut. Ele devolveu o aparelho ao bolso e foi procurar a mesa, sem sequer se dar ao trabalho de pensar nos boatos que Chuck já começara a espalhar sobre ele e Serena.
virtude e vicío
Vanessa sabia que fora um erro vir no minuto em que colocou os olhos no vestido dourado de Misty Bass. Pouco importava o fato de que o pai estivesse usando um poncho de lã e saia - ela ainda estava com o uniforme da escola!
Mas seus pais não pareciam nada constrangidos.
- Olha o papai olhando a birita grátis - cochichou Ruby na orelha dela. - Ele está pirando no paraíso.
- Precisam colocar uma música pop para as pessoas dançarem - comentou a mãe, estalando os dedos e se balançando nos mocassins. Provavelmente era a única mulher no prédio que não estava de saltos; até Vanessa e Ruby estavam usando botas plataforma. Um murmúrio abafado e apavorado percorreu o salão.
- Quem diabos são aqueles? - perguntou Chuck Bass a mãe. Misty Bass era uma das grandes damas da sociedade de Nova York. Ela conhecia todo mundo. - Não tenho certeza - respondeu a mãe de Chuck. - Mas adoro homem de saia. Que coragem!
- Sabe de uma coisa, eu reconheço aqueles dois – disse Titi Coates ao marido. - São os artistas do vernissage a que fomos ontem à noite... aquela com o cavalo maravilhoso! - Gabby! Arlo!
Uma mulher com um elegante longo preto, o cabelo castanho com luzes puxado para trás num coque profissional e com estilo, acenava vigorosamente para os Abrams de uma mesa no canto.
- Acho que deve ser a Sra. Rosenfeld. - Vanessa arrastou os pais para a mulher que gesticulava.
Mud! Mud!
- Estamos tão felizes de vocês terem vindo! – gritou Pilar Rosenfeld, beijando cada um dos Abrams duas vezes em cada bochecha. - Não é maravilhoso, Roy? – perguntou ela, tocando o braço bem-definido e de smoking do marido. -Aqui estamos todos juntos novamente, depois de todos esses anos.
- Esplêndido! - disse Roy Rosenfeld com uma voz profunda e viva. Os Rosenfeld tinham ido a faculdade de arte com os Abrams e antigamente usavam só batik, shorts feitos de calças velhas e nenhum sapato, embora fossem de famílias ricas da Nova Inglaterra. Obviamente os tempos de faculdade foram só uma fase.
Ao lado do Sr. Rosenfeld, u,m rapaz alto de cabelo preto e óculos de aro de aço Armani apontou o formidável nariz para Vanessa, como se tentasse identificá-la. - Jordy, lembra de Gabriela e Arlo, Ruby e Vanessa? - perguntou a mãe. A atitude arrogante do rapaz não se alterou.
_ Acho que da última vez em que vi vocês, eram só bebezinhas, mas tenho certeza de que você tinha mais cabelo.
Vanessa tinha acabado de notar Serena van der Woodsen e Blair Waldorf expondo toda sua glória na mesa ao lado, tornando-a ainda mais consciente do fato de estar com o uniforme da escola.
- Da última vez em que te vi, você usava fraldas de batik. Jordy puxou os óculos para cima do enorme nariz.
- Bem, agora me preparo para ser advogado na Columbia. Ruby se sentou à mesa e se serviu de uma enorme taça de champanha. - Mãe? Pai? Está tudo bem?
Os pais dela estavam parados de pé, rígidos e juntos, apoiando-se um no outro como uma de suas esculturas de arte fundamental. Vanessa se perguntou se eles esperavam dançar descalços em volta do fogo para dar as boas-vindas a primavera em vez de ficar sentados em um evento de gala.
- Por favor. - O Sr. Rosenfeld puxou uma cadeira vazia ao lado da dele e gesticulou para a mãe de Vanessa se sentar.
- Adorei sua saia - observou a Sra. Rosenfeld, apontando para a declaração acidental de moda de Arlo. – É Galiano, por acaso?
Arlo a encarou com o olhar vago. Um garçom de paletó branco chegou para servir o primeiro prato, uma terrina de patê de pato. Arlo começou a cutucá-lo com a colher de sobremesa, procurando por sinais de vida. A mãe de Vanessa pegou o guardanapo de pano e assoou o nariz nele. Ruby riu com o champanha.
- Ainda estão fazendo arte pela paz, ou desistiram disso tudo? - perguntou Gabriela a Pilar.
Pilar sorriu.
- Roy e eu somos advogados do setor imobiliário. Jordy quer se doutorar em direito também, quando terminar a faculdade. Pode esquecer isso... não temos nem tempo de reciclar mais nada!
Os pais de Vanessa empalideceram. Era de reciclar que se tratava a arte fundamental. Sem reciclagem, eles e sua arte deixariam de existir. - Bem, é uma pena - disse Gabriela, fazendo uma careta para o patê. -Acha que posso pedir a eles para fazer uma salada para nós?
Vanessa remexeu o patê, deliciada com essa virada engraçada dos acontecimentos. - Que tipo de advocacia você quer praticar? – perguntou ela a Jordy. Ele afastou a fumaça de cigarro de suas narinas estranhamente grandes. Atrás dele, Blair Waldorf e Serena van der Woodsen fumavam feito chaminés enquanto a mãe grávida de Blair livrava-se rapidamente da comida no prato.
- Provavelmente imóveis, como os meus pais.
Vanessa assentiu. Era meio difícil se referir ao desejo de uma pessoa de imitar os pais quando seus próprios pais eram tão aberrantes. Mas a falha de imaginação de Jordy também era estranhamente atraente. E ele nem era de se jogar fora, com um cabelo preto ondulado que dava a impressão de que ele passava muito tempo cuidando dele, e aquele nariz. Vanessa não teria se importado de colocar o nariz de Jordy num filme. - Gosto dos seus óculos - disse ela.
Só porque Vanessa tinha a cabeça raspada não queria dizer que não soubesse paquerar. - Obrigado. - Ele os tirou e colocou de volta. – Você está no terceiro ano, não é? Sabe que universidade vai fazer no ano que vem?
Vanessa olhou para Ruby, desafiando-a a soltar a informação sobre a aceitação precoce de Vanessa na NYU. Mas Ruby permaneceu fielmente em silêncio, o que era um desafio e tanto para uma matraca igual a ela.
- Que importância tem isso? - perguntou Arlo, rabugento. - Qualquer faculdade que possa ajudá-la a descobrir o que a apaixona seria ótima. Gabriela puxou a longa trança grisalha, os olhos castanhos passando distraidamente para Vanessa.
- É verdade, você vai mesmo para a universidade no ano que vem. - Ela se virou para Pilar. - Arlo sempre esperou que Vanessa fosse para Oberlin. Não sei de onde ele tirou essa idéia. Afinal, é uma escola de arte. - Tenho certeza de que alguma faculdade será idiota o bastante para me aceitar - disse Vanessa baixinho.
- É esse o espírito, querida! - piou Pilar. - E nesse tempo todo vocês duas estão morando sozinhas em Williamsburg acrescentou ela, mudando de assunto. - Minha nossa, você é independente!
- Ruby consegue sustentar a casa com a música – disse Gabriela com entusiasmo. - A banda dela pode até assinar contrato com uma gravadora em breve. Vanessa sorriu duro.
- Enquanto isso, eu fico sentada em casa o dia todo, comendo Pringles sabor carne e vendo violência na TV.
Ao lado dela Jordy grunhiu, o único na mesa que tinha entendido a piada. A banda começou a tocar, um pouco mais alto desta vez. Duke Ellington ou coisa parecida. Chuck Bass foi dançando até a mesa de Serena e Blair, as mãos nos quadris para ficar mais gay.
- Esta festa seria muito menos chata se vocês, meninas, dançassem comigo. - Ele se inclinou no encosto da cadeira das duas e bafejou no pescoço delas. Serena e Blair se olharam de lado. A única escapatória das duas era fugir para o banheiro das mulheres para fumar mais. Pegando os drinques, arrastaram a cadeira para trás e puseram-se de pé.
Rrrriip!
Uooosh!
Epa!
O vestido rosa apertado demais e emprestado de Blair rasgou-se obscenamente dos dois lados, revelando o fato de que ela só estava usando meias pretas e nenhuma calcinha. Pior ainda, o tomara-que-caia de Serena ficou preso no encosto da cadeira e foi puxado até a cintura, revelando seus peitos 42 totalmente nus.
- Tudo bem, gente, somos todas garotas aqui. – Chuck abafou o riso. - Feche os olhos, querido - disse Titi Coates ao marido, Arthur. - Ah, meu Deus! - exclamou a Sra. van der Woodsen, pegando o drinque por reflexo. Caraca - sussurrou Nate, de repente feliz por não estar chapado. As meninas riram histericamente, abraçaram-se freneticamente enquanto passavam batido por Chuck, dispararam para pegar os casacos e deram o fora do Frick com a rapidez que seus saltos de nove centímetros permitiram.
Ninguém na mesa de Vanessa tinha percebido. Os Rosenfeld e Abrams mais velhos estavam ocupados demais se ofendendo mutuamente enquanto a banda atacava Puttin' on the Ritz de Irving Berlin.
Vanessa odiava dançar, mas pegou a manga do casaco caro de Jardy. - Adoro esta musica. Dança comigo?
Jordy se levantou e puxou a cadeira para ela, todo cheio de boas maneiras e aquiescência. Depois ele a levou para a pista e rodopiou com ela com a facilidade de quem fez uma escola de dança.
Vanessa se surpreendeu por se sentir meio frívola enquanto ele a girava e a tombava nos braços. Ele era um dançarino do bom que ela se esqueceu completamente do uniforme idiota da escola.
Mas a maioria das outras meninas no salão jamais se esqueceria.