Do Mil ao Milhão: Sem Cortar o Cafezinho
Pilar 1. Gastar bem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Fique rico, mas não agora
Quando alguém sedentário decide se matricular em uma academia, geralmente está muito animado para mudar sua rotina de exercícios de maneira radical, com a meta de entrar em forma o mais rápido possível. Antes mesmo de pisar na esteira, vai à loja de esportes e compra um tênis novo, pesquisa na internet sobre aquele cara famoso que perdeu vários quilos, passa no supermercado e enche a despensa de comida leve e saudável.
Ao marcar o primeiro treino, ele escuta a pergunta do professor: — Quantos dias por semana você pretende vir à academia? Assim preparo um
programa focado em suas necessidades.
— Todos os dias, claro! E pode indicar um treino bem pesado, por favor. — Ah, tá... – responde com um sorrisinho irônico o professor, que conhece
bem esse tipo de aluno.
Ele não dá a mínima para o que o aluno pediu e entrega uma planilha com
apenas três dias de exercícios leves por semana. Mas o aluno está empolgado, no primeiro dia tira a selfie no espelho da academia e posta nas redes sociais, no segundo acaba participando de umas três aulas de treino aeróbico e no terceiro dia acha muito baixo o peso especificado pelo professor. Coloca o dobro de carga e, apesar de sentir os músculos tremendo, termina satisfeito as séries do dia de treino.
Ao fim da primeira semana matriculado, mal pode mexer as pernas. Quando
chega o domingo, o atleta ansioso tem que passar o dia inteiro na cama, de tanta dor. Na segunda-feira não consegue ir para a academia, afinal houve um imprevisto no trabalho. No dia seguinte, só tem tempo para uma caminhada leve, de meia hora, pois está começando a ficar resfriado. E, assim, passam-se uma, duas, três semanas. As visitas à academia, que foram diárias na primeira semana, logo se espaçam.
Essa fuga dos treinos foi comprovada por pesquisadores da Fundação
Oswaldo Cruz em um estudo publicado em 2016: em três meses, 63% dos alunos matriculados em academias acabam abandonando os treinos. Ao fim dos primeiros doze meses, apenas 4% das pessoas continuam realizando a atividade
física. [12]
Essa estatística negativa – e assustadora – é uma excelente metáfora para
começarmos a falar de dinheiro. Assim como na academia, a maioria das pessoas que começa seus estudos em busca da riqueza pensa que só serão necessários alguns poucos dias de dedicação máxima para sair da estaca zero e chegar ao primeiro milhão. Elas começam muito animadas, preenchendo planilhas complexas, anotam cada centavo gasto, a todo momento acessam a conta bancária para ver o que está acontecendo.
Mas, assim como no nosso exemplo inicial, aquela garra aos poucos vai se dissipando. É um gasto inesperado que entra, uma conta que parece impossível de ser cortada, muito estudo que precisa ser colocado em dia. O desânimo logo bate na porta de entrada, e a vontade de continuar desaparece. Tentamos acelerar passando do zero ao cem antes mesmo de avançar pelo um, dois, três e assim por diante. Sem passar por todos os degraus necessários, é impossível chegar ao fim da jornada, e nossa força de vontade acaba ficando pelo caminho.
O próprio perfil do poupador brasileiro demonstra que o exercício de pensar em longo prazo não é algo arraigado em nossa cultura. De acordo com pesquisa realizada pelo Banco Mundial em 2014, compilada por José Roberto Rodrigues Afonso, pesquisador da Fundação Getulio Vargas, apenas 3,6% dos brasileiros
acima de quinze anos economizam pensando na velhice. [13] Nossa falta de traquejo para a acumulação de capital nos coloca atrás de países como Argentina, Índia, Chile, Colômbia e Rússia. Mais longe ainda estamos de nações desenvolvidas, como os Estados Unidos, em que 45,1% poupam pensando na aposentadoria, e a Alemanha, onde 55,1% da população age dessa forma.
O mais interessante é que o relatório de Afonso ainda aponta que o problema não faz distinção social, sendo que entre os 60% mais ricos da população brasileira, apenas 4,7% têm o hábito de poupar. Se considerarmos os 40% mais pobres, a aptidão para guardar dinheiro cai a menos da metade, para 2,1%. Na média, entre 31 países considerados de baixa renda, continuamos na lanterna, uma vez que, mesmo nessas nações menos favorecidas, 8,3% da população, de acordo com o Banco Mundial, faz algum tipo de poupança.
Lidar com dinheiro exige disciplina, comprometimento e estudo, mas, acima
de tudo, uma grande mudança de mentalidade, o tal do mindset. E, por mais que pareça fácil e que você tenha nas mãos as ferramentas certas, fica difícil um projeto de longo prazo dar certo se você gasta todas as fichas logo no começo e não aprende, pouco a pouco, a mudar hábitos e a forma como se comporta com o dinheiro.
Não podemos esperar que alguém que mal se levanta do sofá se torne um
maratonista em duas semanas. Da mesma forma, você não pode ter a pretensão de se tornar um ás das finanças quando há poucos dias mal acompanhava a sua movimentação bancária. É também preciso considerar que você está inserido em uma cultura em que poupar não faz parte do dia a dia nem é ensinado de forma programada nas escolas ou em casa.
Algumas táticas, no entanto, poderão melhorar sua assertividade em busca de
caminhos melhores para sua renda e vão ajudá-lo nessa busca por autoconhecimento para alcançar resultados financeiros mais perenes. Apesar de O PRIMO RICO não pregar que existam receitas milagrosas e passo a passo que se apliquem a todos os tipos de pessoas e suas particularidades, a organização de algumas ideias favorece muito a iniciação do não poupador na cultura do investimento. O exercício de autoanálise pode ser feito a partir de uma série de ferramentas que apresentarei nas páginas seguintes, pois o entendimento das próprias limitações facilita a mudança concreta de atitude.
Vale ainda lembrar que trilhar esse caminho rumo à independência financeira não se trata apenas de ganância ou amor excessivo ao dinheiro, como muitos gostam de pregar. Ao contrário, pode ser essencial para encontrar equilíbrio emocional nos mais diversos aspectos da vida. Estar de bem com o dinheiro nos permite usufruir bens e coisas que vão além do essencial para sobreviver, tornam nossa rotina muito mais prazerosa e abrem caminhos para que exploremos mais lugares, hobbies e experiências. É poder ter um conforto extra em casa, alimentar-se bem todos os dias, ter a possibilidade de planejar uma viagem diferente em família. Em um grau avançado, permite que a pessoa não dependa de emprego algum para o próprio sustento.
Por conta de tudo isso, é errado entender que buscar a liberdade financeira se trata apenas de acúmulo de capital. Essa liberdade é uma meta que deveria ser traçada em paralelo à da felicidade e faz parte da realização plena de toda pessoa. As pessoas que defendem que dinheiro não faz parte disso geralmente são as que não têm dinheiro.
Em termos práticos, a fórmula matemática da independência financeira é muito simples. Trata-se de uma engrenagem contínua em que o valor dos rendimentos de sua carteira de aplicações provém mais ou a mesma coisa que seus gastos, incluindo os fixos e variáveis de todos os meses. Quando isso acontece, é possível afirmar que essa pessoa não é mais obrigada a trabalhar pelo dinheiro, pois nesse estágio o seu próprio capital acumulado fará o exercício de gerar uma renda mensal capaz de cobrir quaisquer despesas recorrentes.
Como você deve ter notado, azeitar essa engrenagem para seu perfeito
funcionamento não é algo corriqueiro ou possível de ser alcançado em um prazo muito curto, para a imensa maioria das pessoas. É por isso que devemos começar a investir em independência financeira sem sobrecarregar nosso sistema, planejando com cuidado cada etapa, dando apenas os passos necessários para cada momento, evitando chegar à exaustão muito antes de alcançar o objetivo final.
Um mercado sem
investidores
Todos que aplicam dinheiro na Bolsa de Valores se consideram investidores. Ostentam ganhos, dividendos e operações, até que o mercado entre em compasso de baixa ou alta extrema. Nesses momentos de vales e picos, a maioria das posições de investimento – mesmo aquelas que se diziam de longo prazo – entram em ebulição. Pouquíssimos conseguem racionalizar a situação e têm condições de operar quando a Bolsa cai ou sobe demais. Seja por desejo de obter lucro rápido, por medo ou por crença em rumores, a verdade é que as pessoas, sobretudo as que operam em mercados emergentes, tendem a agir de acordo com a maioria, sob o chamado “efeito de manada”.
Por causa desse comportamento, com certa frequência os preços das
ações são insensatos. [14] Quem afirmou isso foi o megainvestidor Warren Buffett, em um artigo publicado na primeira edição em português de um dos principais guias de investimentos do mundo, O investidor inteligente, do pioneiro investidor norte-americano Benjamin Graham. No texto, Buffett definiu:
Quando o preço de uma ação pode ser influenciado por uma “manada” em Wall Street, com preços estabelecidos, na margem, pela pessoa mais emocional ou mais gananciosa ou mais deprimida, é difícil defender a posição de que o mercado sempre gera cotações racionalmente.
Buffett se referia aos chamados “especuladores de mercado”. O que
pouco se fala, no entanto, é que quase todos que operam na Bolsa são especuladores, mesmo quando se autointitulam investidores. Como Graham explica em seu livro, “uma operação de investimento é aquela que, após análise profunda, promete segurança do capital investido e um retorno adequado. As operações que não atendem a essas condições
são especulativas”. [15]
Estudos sobre esses movimentos inesperados no mercado de ações
ganham cada vez mais espaço na literatura de finanças comportamentais. Essas teorias concordam com a suposição de que
preços de ativos podem se movimentar de forma aleatória, sem que em algumas ocasiões estejam de fato embasados nos aspectos financeiros da empresa negociada. “O comportamento de manada ocorre quando um grupo de investidores negocia o mesmo ativo, na mesma direção do mercado, em um certo período, ignorando suas próprias informações e
crenças a respeito dos preços dos ativos.” [16]
Um dos maiores investidores pessoa física da Bolsa, Luiz Barsi,
detalhou um pouco de seu entendimento sobre o assunto de forma muito didática em uma entrevista concedida a mim, em meu projeto O
Código da Riqueza. [17]
Quando eu recomendo a alguém que faça uma carteira [de ações] de previdência, a primeira coisa que eu digo é que você tem que incorporar o espírito do investimento, o sentido de parceria. É preciso saber que não se está comprando a ação pelo simples ato de compra, você está comprando ações de um projeto que pode ser bem-sucedido. Para fazer isso, eu analiso duas características: o projeto tem que estar em um setor perene, e que produz sustentabilidade.
Para Barsi, o argumento de que investir na Bolsa é muito arriscado
ou pode levar uma pessoa à falência é puramente especulativo.
O cidadão que fala isso não sabe que uma Klabin [empresa do setor de papel e celulose] tem 120 anos de existência. Muitos bancos quebraram nesse período, mas a Klabin não quebrou, e existem muitas outras empresas nesse patamar.
AGORA, PENSE NAS PERGUNTAS A SEGUIR:
1) Você investe seu dinheiro, seja em fundos, Tesouro, CDBs ou ações,
pensando no longo prazo?
2) Você fez um investimento em um título, pensando no resgate dele em uma
década. No terceiro ano, o Brasil entra em crise e o valor do título começa a
cair. Você o vende o mais rápido possível?
3) Você tem 1 mil reais para investir em ações. Estudou diversas empresas e
se decidiu por uma. Você olha o preço dessa ação antes de comprá-la e isso
pode influenciar seus planos?
4) Você acredita que, além de estudo, ganhar um rendimento adequado com
investimentos em fundos, ações e renda fixa, entre outros produtos
financeiros, depende de sorte?
Baseado nos pensamentos desses grandes autores citados anteriormente, entendi que, mesmo quando bem instruídas, a maioria das pessoas continua a olhar para o mercado de capitais com receio e prefere agir de maneira especulativa, sem avaliar o valor intrínseco das empresas disponíveis. O verdadeiro investidor não deveria sentir um frio na espinha quando faz um grande aporte. Tendo estudado e compreendido o potencial daquele negócio, e após ter incorporado o sentimento de ser sócio da empresa, a sensação deveria ser de conforto e sucesso, não o contrário.
Sabendo disso, entendemos que a primeira pergunta, na verdade, não passa de um pleonasmo. Todo investimento real é de longo prazo, portanto, aquele que pode se mover conforme condições momentâneas de mercado é apenas especulativo. Se você avalia responder com um “sim” à segunda questão, também está especulando. Sabemos que turbulências políticas e econômicas são cíclicas, especialmente no Brasil, e esse não deve ser o único fator a ser considerado no resgate de um aporte.
Já o terceiro ponto exige um grau de maturidade e estudo maior do potencial investidor. Existem estratégias como o value investing (falaremos sobre isso adiante), que envolve a busca por boas empresas que estão sendo negociadas a preços baixos – provavelmente influenciadas por movimentos especulativos – mas o preço da ação, em teoria, não deve ser fator primordial na tomada de decisão de compra. Quando o investidor estuda uma empresa, reconhece seu potencial de crescimento e, por consequência, entende que sua ação também se valorizará ao longo do tempo, mesmo que esteja “cara” ou “barata” hoje.
Por fim, quem responder com “sim” à indagação número quatro também continua no campo da especulação. Não existe sorte quando se conhece com profundidade os preceitos do produto em que se colocou dinheiro, seus desafios e vantagens comparados a outras alternativas existentes no mercado.
Quando eu trabalhava no mercado financeiro, diversas vezes me deparei com clientes que se consideravam investidores, mas, na verdade, nunca conseguiram sair do patamar da mera especulação. Ter dinheiro aplicado em ações não torna ninguém um especialista no assunto, pronto para tomar as melhores decisões. Mudar o mindset de uma pessoa imediatista não é algo simples. Pensar no futuro, e não no lucro imediato, pode ser uma tarefa hercúlea se você não tem um objetivo muito claro e não estuda o mercado para saber como e por que, em alguns momentos, ele não se comporta de maneira regular.
Mas, se atuar como um investidor é muito melhor para o meu futuro, por que
o mercado está repleto de especuladores?
Responderei com alguns exemplos de clientes com quem já trabalhei. Eles
recebiam instruções e opções de investimento, mas sempre coube a eles mesmos tomar a decisão final sobre o que gostariam de fazer com o próprio dinheiro. Porém, costumavam seguir caminhos muito diferentes dos quais eu imaginava serem os mais corretos para o portfólio deles.
PERFIS DE ESPECULADORES CASOS REAIS
O ESTRANGEIRO
Asiático empreendedor que vivia no Brasil há algum tempo. Procurou nossa equipe para fazer um aporte de renda variável, mas após poucos meses chegou furioso ao escritório, gritando que havia perdido seu dinheiro após ser influenciado por um dos funcionários. Nos reunimos em uma sala e explicamos em detalhes que o dinheiro dele continuava seguro, pois a queda era totalmente relacionada a uma turbulência momentânea da Bolsa e a sua carteira tinha empresas com bons fundamentos de longo prazo. Mal terminamos a conversa, ele abriu o computador no meio de todos e passou a fazer solicitações de compra, sem pensar ou estudar, pois agora “entendia” que qualquer ação voltaria a subir no futuro próximo. Chegou a dizer que iria “aumentar suas apostas”.
O FUNCIONÁRIO
Um trabalhador recebeu uma ação trabalhista importante e investiu tudo o que recebeu em ações. Ele até sabia administrar as perdas, mas toda vez que enxergava alguma oportunidade de realizar lucro rápido, não conseguia aguentar e vendia suas ações sem pensar. Agia pela emoção da vitória, mas depois cometia erros ao ter que reinve-stir seu dinheiro. Deixava boas empresas pela falta de paciência e aumentava seu risco ao ter de operar o tempo todo no mercado.
O MÉDICO
Muito reconhecido na sua área profissional, este médico recebia um salário muito bom e conseguia aplicar bastante dinheiro em ações todos os meses. Ele era disciplinado nos aportes, mas não na forma como lidava com seus ativos. Era apaixonado pelas “oportunidades” e achava que, por já ter certa idade, investir nunca poderia ser algo de longo prazo. Para ele, o rendimento só era válido se fosse realizado no presente, e isso o fez perder muito dinheiro.
O MILIONÁRIO
Foi um dos clientes mais ricos que tive, dono de mais de cinquenta postos de gasolina. Ele investia apenas em uma empresa: Petrobras. Se a ação caía, ele comprava mais, se dava um salto, vendia e esperava uma nova queda. Ele não deveria fazer isso pelo valor da ação, pois o valor intrínseco da empresa mudou muito ao longo dos anos. O valor da ação poderia ser o mesmo de anos atrás e uma “oportunidade”, mas seu lucro era muito menor e os problemas de gestão eram claros. Não podemos comparar empresas pelo seu preço de antes e agora, pois muitas vezes o negócio já mudou tanto que esse embate entre passado e presente não faz sentido.
O TÉCNICO
Muito inteligente e habilidoso com exatas, este cliente fez um curso de análise técnica de ações — que se baseia apenas em gráficos e preços dos ativos para avaliação de investimentos. Apaixonou-se pelo tema e passou a fazer operações diferenciadas, de maior risco e derivativos. Operava alavancado em muitas delas e chegou, em um único dia, a realizar trezentas operações de compra e venda. Ele não era ingênuo nos negócios, mas tornou-se apenas um bom cliente para a corretora, que ganhava muito dinheiro com taxas. O rendimento de sua carteira, com o passar do tempo, não superava nem de longe aportes de longo prazo que ele poderia ter feito com o mesmo capital, mas com muito menos trabalho.
Como aponta Décio Bazin em uma das bíblias de investimentos no Brasil, o livro Faça fortuna com ações, o especulador, “mesmo que queira”, não consegue se livrar do seu vício – ou paixão –, que é o lado especulativo do
mercado. [18] Bazin ainda ressalta que, ao contrário do que a mídia prega, os especuladores não são essenciais para a Bolsa de Valores, pois eles só negociam as poucas ações que já têm liquidez. “Se essa liquidez não existisse, não seria possível negociar os papéis, e os especuladores, que não têm residência permanente em qualquer setor do mercado financeiro, estariam levando seu capital para outro destino”, pontua.
Quem especula se submete repetidas vezes ao risco da ruína. Pode haver um, dois, dez, cinquenta dias de sucesso, mas, se no 51º o erro for muito grande, talvez não haja mais capital suficiente para retornar ao mercado no dia seguinte. Daí é que surgem as famosas “lendas urbanas” da Bolsa:
— Puxa, eu pensei em investir na Bolsa, mas meu amigo colocou 50 mil reais lá e perdeu tudo! Então vou comprar um imóvel para fazer renda.
— Quando o assunto são ações, eu só invisto 25% do que tenho. É muito arriscado, sou conservador. Se você for além disso, só pode ser maluco!
— Eu comprei ações, mas contratei também uma operação que pode garantir
um preço mínimo de venda, embora tenha custos. Assim estou bem seguro de que não vou perder todo o meu dinheiro.
No caminho de construção da riqueza, a especulação ingênua não pode ter
espaço. É importante ressaltar que existe o especulador profissional de mercado, que tem como metodologia de trabalho realizar um grande volume de operações de curtíssimo prazo. Eles são especializados e dispõem de ferramentas adequadas que lhes conferem agilidade e controles de riscos, ao contrário de quem especula apenas por desconhecimento. Diversos estudiosos do mercado financeiro apontam que é o especulador do mercado que dá liquidez à Bolsa de Valores, pois são eles que fazem um grande volume diário de operações, sempre comprando ou vendendo ações.
Por isso, sugiro que você avalie qual é seu perfil e, com base nessa reflexão,
pontue quais passos precisa tomar para, o mais rápido possível, tornar-se um investidor de verdade, que percorre um caminho seguro rumo ao seu primeiro milhão.
INVESTIR OU ESPECULAR?
ASPIRANTE
Ainda não consegue investir.
Não tem a consciência de que precisa investir o que ganha.
É o famoso “poupador”, que até pouco tempo só conhecia a caderneta de poupança.
Acabou de descobrir as maravilhas do Tesouro Direto e por isso não deixa a renda fixa.
ESPECULADOR INICIANTE
Negocia ações sem pensar no valor da empresa, mas apenas no preço da ação.
Não investe na empresa, pois encerra sua posição todos os dias no pregão.
Acredita que a sorte faz parte do mercado de ações, fica viciado no “jogo”.
Corre risco de falência ao operar diversas vezes e, à medida que sofistica suas ações, opta por produtos ainda mais voláteis.
INVESTIDOR
Nunca compra ou vende ações baseado no preço delas no momento, mas sim nos fundamentos da companhia.
Não faz day trade desnecessariamente ou pretende ganhar dinheiro com operações de curto prazo que geram custos excessivos com corretagem.
Faz aportes pensando na velhice e aposentadoria. Entende o poder dos juros compostos.
ANAMNESE FINANCEIRA
Na academia, antes de começar qualquer exercício físico, precisamos primeiro passar por um exame médico. Avaliar nosso estado inicial ajuda a entender de qual ponto partimos e quais metas são realistas para nós. Traçar objetivos alcançáveis e superá-los um a um tornam a jornada muito mais produtiva e faz com que novos hábitos sejam criados e tenham mais chances de se tornarem parte da rotina.
De forma similar, para saber como vai a saúde do seu bolso, um dos primeiros passos é aferir a temperatura financeira e realizar a anamnese, que, na linguagem médica, refere-se à entrevista executada pelo profissional de saúde com o paciente, como ponto inicial no diagnóstico do estado de saúde dessa pessoa.
Nas finanças, a reflexão sobre as perguntas a seguir tem o mesmo objetivo. Como na elaboração de um prontuário, elas vão ajudar você a identificar o que não funciona bem e quais mudanças podem ser feitas.
DIAGNÓSTICO 1
Se você respondeu não a pelo menos uma dessas perguntas, você ainda não é 100% saudável financeiramente. Você pode aparentar estar em forma, ter feito alguma reserva e pensar no futuro, mas é possível que esteja sendo instruído por algum profissional (aquele gerente do banco ou um corretor) pouco interessado no seu real objetivo. Talvez esteja recebendo conselhos inadequados desconhecidos que pouco estudaram sobre o tema, ou até mesmo tem escolhido as ferramentas incorretas para alcançar as suas metas.
TRATAMENTO: Repense o seu mindset de forma integral, foque em conhecimento e trace uma estratégia clara. Mas fique tranquilo, O Primo Rico vai ajudar você nesta tarefa.
DIAGNÓSTICO 2
Se você respondeu sim a todas as perguntas, significa que está no caminho certo para a
independência financeira. Entenda que manter esse padrão de pensamento será essencial para alcançar seu objetivo final.
TRATAMENTO: Continue se adaptando aos constantes desafios, construindo uma postura antifrágil (leia mais sobre esse termo a seguir) de investimentos. Se você imagina que daqui para a frente o caminho será linear, sem altos e baixos, está muito enganado. Seu grande desafio será manter sua assertividade em alta ao longo do tempo. É importante ter consciência de que até mesmo quem acumula patrimônio pode ter dificuldade em conquistar a verdadeira liberdade financeira, já que é fácil gastar dinheiro em um ritmo muito mais rápido do que se ganha.
O investidor antifrágil
Na introdução deste livro, citei brevemente alguns sacrifícios que toda pessoa que almeja a riqueza terá de fazer em algum ponto de sua trajetória, se não de forma constante. Entre eles, estava algo que chamei de “renúncia à fragilidade”.
Entender o que há por trás dessa palavra é importante, pois o ser
humano tem a tendência natural de se apoiar em rotinas e repetições com a crença de que isso o deixa no controle da sua vida. A verdade, no entanto, é que, se não somos submetidos à pressão, em geral não encontramos a motivação necessária para a ação e o progresso. Engana-se quem acredita em uma caminhada, em especial quando se trata de investimentos, sem perder de vez em quando.
Num debate semântico, poderíamos simplesmente dizer que não ser
frágil é ser forte ou robusto. Avaliando pelo lado comportamental, talvez chegaríamos à conclusão de que uma pessoa que não é frágil e consegue resistir às dificuldades da vida é alguém resiliente.
O significado de progresso, porém, afasta-se da resiliência, pois essa
palavra apenas denomina algo que é capaz de voltar à sua posição original após, por exemplo, um trauma. No dicionário, mudar, transformar-se e tornar-se mais forte também não é o oposto de fragilidade.
Dessa dificuldade de explicar o que é não ser frágil nas mais diversas
esferas da vida, e principalmente nos negócios, é que nasceu o conceito do antifrágil, um neologismo criado pelo professor Nassim Nicholas
Taleb, um dos maiores estudiosos sobre análise de risco e autor do best-
seller Antifrágil. [19]
Na proposta elaborada por Taleb, se alguém é por si só forte ou
robusto, não há mais nada que possa ser feito por ele nem qualquer desenvolvimento a ser perseguido.
E a antifragilidade deriva – de certa forma – dessa definição explícita
de fragilidade. Ela aprecia a volatilidade et al. Ela também aprecia o tempo. E há uma ligação poderosa e positiva com a não linearidade: tudo que é não linear em sua resposta é frágil ou antifrágil diante de determinada fonte de aleatoriedade.
Por isso, entende-se que, para existir, o antifrágil necessita do caos,
de tudo aquilo que está em desequilíbrio. Viver é uma sucessão constante de fatos aleatórios, acontecimentos, sensações e vontades que a todo tempo tentamos equalizar. Viver nada mais é do que estar imerso em constante caos. Por isso, precisamos buscar a antifragilidade.
O conceito de antifrágil pode ser uma âncora importante na busca da
riqueza, pois, ao compreendê-lo, o investidor começa a desfrutar das constantes dificuldades e desafios almejando seu amadurecimento e aprimoramento técnico. Todo mundo sabe que a economia, o câmbio, as taxas de juros e sobretudo a política são voláteis. Por isso, a pessoa que entende e aceita a própria antifragilidade consegue se sair muito melhor neste longo caminho que é aprender a gastar melhor e investir de forma eficiente. Quem imagina que acertará sempre, e de primeira, está profundamente enganado.
Sem a hostilidade de um ambiente aleatório, o antifrágil não evolui,
não desenvolve novos métodos nem encontra caminhos que podem ser mais saudáveis. Como explica Taleb, é muito mais fácil descobrir se algo é frágil do que prever a ocorrência de um evento capaz de prejudicá-lo. A fragilidade pode ser medida; o risco, não. “A sensibilidade aos danos causados pela volatilidade é remediável, mais ainda do que a predição do evento que poderia causar o dano.”
AS QUATRO FASES FINANCEIRAS
Mais um diagnóstico que pode surgir no exercício de autoanálise financeira é a identificação da fase financeira em que você está vivendo. Existem momentos de oscilação, estágios em que há um foco mais efetivo na busca pela acumulação de capital e, por isso, você economiza mais. Em outros períodos, a sensação de inércia é preponderante, aniquilando qualquer tentativa de planejamento.
Estar em uma ou outra fase financeira não tem a ver com idade e profissão, mas com o que se faz naquela etapa da vida e com o reconhecimento de quais passos devem ser dados para atingir o próximo nível. Isso significa que uma pessoa de vinte anos de idade pode estar passando pela mesma fase financeira de alguém com cinquenta anos, assim como profissionais dos mais diferentes níveis salariais podem estar com um denominador comum, financeiramente falando.
Certa vez, ouvi um desabafo de um conhecido que tinha um cargo de
liderança em uma consultoria, viajava com frequência para fora do país a trabalho, comia em restaurantes bacanas, mas se surpreendeu numa simples corrida de táxi.
— Sabe, estava voltando dos Estados Unidos a trabalho, minha mala mal
fechava de tanta muamba que trouxe. Eu sabia que o limite do cheque especial naquele mês já estava sendo utilizado, mas tinha que aproveitar, não é? Então peguei o táxi, e, naquele trânsito, comecei a conversar com o motorista, até que chegamos no assunto dinheiro. Ele relatou que estava comprando um segundo imóvel, pois tinha casa própria e havia adquirido um terreno no estado natal dele, com a ideia de investir em gado e plantar algo. Olhei com cuidado para o interior do carro, percebi que havia uma sacola de marmita, provavelmente com seu almoço do dia, suas roupas eram simples, mas bonitas e jeitosas, e o celular dele não era o último modelo lançado no mercado, aquele que custa milhares de reais.
“Fiquei chocado, pois nem casa própria eu tenho, não tenho conseguido
poupar quase nada ao fim da maioria dos meses e ainda vou pedir empréstimo para o banco, mais uma vez. Eu sempre achei que fosse rico pelas coisas que eu consumia, pelas viagens e pela minha qualidade de vida. Mas descobri naquele momento que, na verdade, eu estava pobre, e isso não tem nada a ver com o cargo que ocupo ou as coisas que compro.”
Justo por causa dessas diferentes formas de se relacionar com o dinheiro, sem
levar em conta o grau de instrução ou profissão, as respostas para os mesmos problemas e as metas a serem estabelecidas podem variar de maneira considerável de pessoa para pessoa. O mais importante, no entanto, é entender o que precisa ser feito em prol da evolução e como será possível chegar ao próximo degrau.
Reconhecer a si mesmo e entender os desafios de cada uma das quatro fases
financeiras descritas a seguir são um bom ponto de partida e podem prover o suporte necessário na elaboração de suas primeiras metas rumo ao milhão.
AS FASES PARA A LIBERDADE FINANCEIRA 1) Endividado
2) Pequeno investidor
3) Foco no longo prazo
4) Liberdade financeira
A primeira fase financeira, a do endividado, é autoexplicativa. Por razões óbvias, nesse momento a pessoa geralmente não consegue guardar nada do que recebe. Ou quando o faz, pensa que o acúmulo momentâneo serve apenas para cobrir aquela parcela a ser paga no mês. O problema é que a dívida continua crescendo por causa de novas compras ou necessidades imediatas.
Muitas vezes, quem se encontra nessa fase não percebe que, mesmo recolhendo parte dos ganhos para alguma aplicação, aquele rendimento provavelmente não estará cobrindo os juros que ele paga para quitar seus empréstimos.
A realidade é que quem só possui dívidas não consegue adotar uma estratégia de crédito consciente. Para avançar de fase, precisa aprender a gastar melhor, comprar barato, estudar maneiras de aplacar sua dívida o quanto antes sem desperdício de dinheiro. O grande problema é que muitas vezes quem vive esse momento deixa de procurar a saída por pensar que talvez não exista. Ela sempre pode ser encontrada, porém não sem alguns sacrifícios, como corte de gastos – às vezes até drástico – por um período.
O próprio sistema financeiro oferece parte da solução, com feirões para renegociação de dívidas e portabilidade de contratos. Ao mesmo tempo devem ser buscadas maneiras de aumentar a renda, como batalhar por uma promoção, buscar um serviço extra nas horas que antes seriam de folga ou partir para o empreendedorismo, mesmo que de forma limitada.
Eu mesmo, no início da minha vida adulta, optei por fazer trabalhos variados em meu horário livre com o puro e simples objetivo de aumentar minha renda. Fui garçom de uma grande rede de restaurantes e trabalhei como barman. Quando eu era estudante, também procurava estágios na área em que realmente gostaria de trabalhar. Eu podia imaginar colegas aproveitando festas, tardes livres, dormindo até tarde nos fins de semana, enquanto eu carregava caixas de cerveja depois de uma noite inteira de trabalho. Era trabalho pesado, braçal, mas eu tinha um objetivo claro. Uma coisa é reclamar que não dá, que se ganha pouco, enquanto se está parado sem fazer nada. Não existe retorno sem pelo menos um pouco de sacrifício.
A segunda fase é aquela em que a pessoa se torna o que chamo de “pequeno investidor”. Já ganha um pouco mais do que gasta, mas ainda não consegue se planejar para guardar uma parte da renda ou, se tem guardado, ainda é muito pouco. A pessoa que vive essa fase pode estar dando os primeiros passos para formar algum tipo de patrimônio, mas, para evoluir, precisa aplicar sem riscos esse dinheiro que sobra. E deve aprender a fazê-lo de uma maneira mais eficiente e rentável, em comparação à maioria das pessoas.
O maior desafio nesse estágio é evitar as decisões erradas, ou não perceber
que o acúmulo de capital ainda é muito incipiente. Mesmo ainda tendo pouco dinheiro guardado e pouca experiência, o pequeno investidor pensa que reconhece as melhores oportunidades e passa a tomar decisões sem o devido preparo, o que pode levá-lo a perdas ou até mesmo fazê-lo regressar ao estágio anterior.
Além disso, é nesse estágio que aparecem os grandes vendedores de sonhos,
com promessas de investimentos mirabolantes, com altos ganhos em pouco tempo. São muitas vezes especuladores, travestidos de agentes do mercado, assessorias e bancos, lucrando com a corretagem e mirando apenas o curto prazo. O pequeno investidor fica tentado, acaba se distraindo pela perspectiva de ganho fácil e apenas escuta os ruídos de mercado, sem notar quais são os sinais reais de uma provável alta ou baixa.
Se, no entanto, o investidor consegue cobrir seus gastos de emergência
pontuais com suas economias, autofinanciar-se no momento em que alguma despesa inesperada aparece, sem ter a necessidade de se capitalizar com bancos, pagando juros altos, entendemos que ele pode estar próximo do passo seguinte. Nessa fase, o hábito de poupar começa a fazer parte da rotina de uma forma fluida, e o objetivo de longo prazo se torna factível.
Na terceira fase financeira, o indivíduo está olhando para além do curto
prazo. Suas metas não são o celular novo ou a reforma da casa no fim do ano. Ele está com as contas em dia, tem seu fundo de emergência preparado e sendo constantemente reposto, e começa a refletir sobre o futuro do seu caixa. Passa a procurar investimentos que exigem comprometimento duradouro e, muitas vezes, potencializam-se ao longo do tempo. O foco deixa de ser apenas o ano seguinte, mas a aposentadoria dali a algumas décadas. Esse investidor já sabe que, em um certo momento da vida, o salário vai deixar de entrar, mas os gastos fixos ficarão.
Com o patrimônio formado para o futuro, o poupador entra em uma quarta
fase, na qual não precisa mais se preocupar com o dinheiro que possui naquele momento. Ele sabe que vai se aposentar com certa tranquilidade e garantiu a renda que considera necessária para o resto da vida, tendo sobrevivido aos mais diversos tipos de adversidades monetárias. É nela que se maturam todos os esforços realizados ao longo de muitos anos, baseados na constante atualização de conhecimentos e disciplina.
Mas sabemos que estar no auge da maturidade não significa que os objetivos que envolvem dinheiro se encerram por completo. Assim como em outros aspectos da vida, manter-se ativo e encontrar novos desafios sempre fazem bem e ajudam a engrenagem da vida a continuar girando sem os percalços causados pela desmotivação.
Dessa maneira, quando possui liberdade financeira, uma pessoa pode aproveitar os estímulos de novos projetos de cunho profissional ou pessoal sempre que desejar. Sem depender de salário, pode até mesmo correr alguns riscos quando julgar necessário.
No cume da liberdade financeira, é possível, por exemplo, começar uma fase empreendedora, na qual se aposta em um negócio mais arrojado – mas que sempre foi um sonho – por puro prazer. Quem tem o futuro garantido tem autonomia para, se assim desejar, entrar em uma fase financeira familiar, na qual passa a preparar quem está em seu entorno pessoal para também se tornar independente no longo prazo.
O investidor, acima de tudo, é um ser humano envolto em uma gama complexa de relacionamentos e desejos, que podem ser muitas vezes compartilhados em conjunto, com a família ou até mesmo com a sociedade. A tendência é que quanto mais temos, mais desejamos compartilhar – com consciência, claro. É também possível que aflore em nós a necessidade de deixar um legado. Afinal, não é apenas sobre dinheiro que estamos falando – é sobre felicidade. E você? Consegue determinar em qual momento da vida está? Se sim, o que pode ser feito para chegar à próxima fase?
A HORA DA VERDADE
Agora que exercitamos um pouco a mente com ferramentas de autoanálise, chegou o momento de, na prática, partirmos para o milhão. Sim, minha proposta com este livro não foi apenas criar um título marqueteiro e tratar apenas de teoria, mas convencê-lo de que é possível traçar metas realistas para a riqueza. É parte fundamental do processo que você entenda, em números, como isso funcionará, pois a transparência consigo mesmo ajuda a criar hábitos que tornam aportes factíveis e que vão impulsioná-lo a buscar novos ganhos para acelerar a chegada ao objetivo final.
Escuto o tempo inteiro comentários de pessoas que afirmam estar poupando dinheiro. O que elas não compreendem é que isso não significa investir dinheiro. A diferença entre poupar e deixar dinheiro guardado embaixo do colchão, principalmente no curto prazo, pode ser bem pequena. Por isso, podemos dizer que quem apenas poupa está, na realidade, perdendo anos de riqueza no futuro, mesmo quando esses aportes são frequentes e visam o longo prazo. Quem poupa está apenas guardando dinheiro, enquanto quem investe aumenta a cada mês seu patrimônio líquido.
Poupança • R$ 76.210,85 ao fim do período
de R$ 500 ao mês,
por 10 anos • Rendimento médio de 0,37% ao mês
Investimento • R$ 116 mil ao fim do período
de R$ 500 ao mês,
por 10 anos • Rendimento médio de 1% ao mês
Mesmo diante de exemplos como o do quadro anterior, [20] as pessoas
continuam preferindo a poupança e acreditam que não há problema em deixar o capital ali, às vezes parado por meses a fio, antes de tomarem uma decisão mais acertada sobre o que fazer com ele. Muitas podem até se confundir com os termos, pois poupança deriva da palavra “poupar”, fazendo com que muitos subentendam que já estão cuidando bem de seu dinheiro apenas por guardá-lo assim.
Mas uma das grandes desvantagens dessa prática é que, com a poupança
atrelada à conta-corrente e ao cartão de crédito, o incentivo para o consumo está pronto. Basta querer, e o dinheiro pode ser resgatado, postergando ainda mais que a postura de investidor seja incorporada à rotina diária.
Com o poder dos juros compostos, no entanto, a discrepância entre quem
apenas poupa e quem investe se torna ainda mais gritante. Basta olhar o mesmo montante considerando um prazo ainda maior, de trinta anos.
Poupança • R$ 378.710,00 ao fim do período de R$ 500 ao mês,
por 30 anos • Rendimento médio de 0,37% ao mês
Investimento • R$ 1,7 milhão ao fim do período de R$ 500 ao mês,
por 30 anos • Rendimento médio de 1% ao mês
DIFERENÇA DE MAIS DE R$ 1 MILHÃO
E o que, exatamente, são os juros compostos? Nossa meta não é explicar em detalhes operações matemáticas, mas não é preciso muita teoria para compreender o poder multiplicador que eles exercem sobre o dinheiro a ser guardado e reinvestido ao longo do tempo.
De maneira simples, imagine que você tem uma pequena banca de frutas. Você investiu cem reais para comprar os primeiros itens e os revendeu por 150 reais. Em vez de gastar os cinquenta reais que lucrou, você comprou mais frutas com 120 reais e usou trinta reais para comprar saquinhos e vender essas frutas higienizadas, acondicionadas individualmente, um pouco mais caras. No fim do segundo mês, recebeu duzentos reais e, mais uma vez, reinvestiu no negócio, fazendo com que ele prosperasse, pouco a pouco.
No começo, pegar todo trocado ganhado para ser colocado mais uma vez no empreendimento era bem difícil. Foi preciso cortar todos os gastos possíveis, trabalhar muito mais horas por dia, acordar cedo para buscar fornecedores de qualidade com o menor custo possível e estudar com afinco as formas de expandir o negócio. No entanto, graças à persistência em sempre reinvestir os lucros, em cinco anos a barraca se tornou um ponto fixo, com três funcionários e uma receita mensal considerável. A recompensa é que agora a loja já tem crédito para capital de giro, consegue postergar pagamentos a fornecedores e investe no marketing local para continuar atraindo mais clientes. Não só parece, mas de fato ficou mais fácil crescer em escala ao longo do tempo.
O mesmo acontece com nosso dinheiro quando guardado e bem investido. No início, o saldo final a cada mês cresce de maneira muito lenta. Exige um sacrifício enorme, além de persistência e hábito para manter os aportes sempre constantes. Em números, veja o que acontece quando um valor é continuamente reinvestido. No longo prazo, acontece o que muitos economistas gostam de chamar de “mágica dos juros compostos”:
ANO 1
Taxa de juros = 10%
Valor inicial = R$ 100
Tempo = 1 ano
RESULTADO: R$ 110
ANO 2
Taxa de juros = 10%
Valor ao fim = R$ 110
do ano 1
Tempo = 1 ano
RESULTADO: R$ 121
ANO 10
Taxa de juros = 10%
Valor ao fim = R$ 235
do ano 9
Tempo = 1 ano
RESULTADO: R$ 260
ANO 20
Taxa de juros = 10%
Valor ao fim = R$ 611
do ano 19
Tempo = 1 ano
RESULTADO: R$ 672
Se no primeiro ano você obteve um rendimento de onze reais acima do que
investiu e ao longo do tempo continuou reaplicando todos os valores, no décimo ano aquele montante inicial de cem reais aplicado somaria 260 reais. Isso acontece porque os juros não estão sendo pagos em cima daqueles cem reais iniciais, mas sim do total acumulado até o fim do nono ano, e assim consecutivamente.
Para quem gosta de matemática, a fórmula é esta:
C X (1+i) t = RECEITA FINAL Sendo C = capital inicial; t = tempo; i = taxa de juros.
Um gráfico simples mostra como essa fórmula acelera o ganho de capital ao longo do tempo. Note que a curva dos juros compostos se descola após alguns anos de espera e constância nos aportes.
Com esses exemplos, fica muito clara a importância de ser paciente e focar o longo prazo, pois é apoiado nele que os grandes ganhos se acumularão. Ainda é preciso ter em mente que seus aportes mensais podem (e devem!) crescer ao longo dos anos, para que o ritmo de ganhos acelere ainda mais. É natural que, com a maturidade e a experiência profissional, a remuneração mensal pelo seu trabalho aumente. Por isso manter-se focado na meta do milhão ajuda a manter gastos controlados para que os investimentos sejam crescentes.
A seguir, “A tabela do milhão” considera uma taxa de rendimento anual de 12%. Essa porcentagem pode ser menor do que a renda variável pode proporcionar, mas a ideia aqui é mostrar como os juros compostos dão um belo impulso ao investidor comprometido. E, o melhor, a cada ano que passa, esse trampolim vai impulsioná-lo cada vez mais, sem que você precise aumentar seu nível de esforço.
A TABELA DO MILHÃO 12% A.A.
Aporte
1 ano 5 anos 10 anos 20 anos 30 anos 40 anos
mensal R$ R$ R$ 8.110,36 R$ 22.403,59 R$ 91.985,74 R$ 308.097,32 R$ 979.307,10 100,00 1.276,65
R$ R$ R$ R$ R$
R$ 44.807,18 R$ 616.194,64
200,00 2.553,30 16.220,72 183.971,47 1.958.614,20
R$ R$ R$ R$ R$
R$ 67.210,77 R$ 924.291,96
300,00 3.829,95 24.331,08 275.957,21 2.937.921,30
R$ R$ R$ R$ R$ R$
R$ 89.614,36
400,00 5.106,60 32.441,45 367.942,94 1.232.389,28 3.917.228,41
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 500,00 6.383,25 40.551,81 112.017,94 459.928,68 1.540.486,60 4.896.535,51
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 1.000,00 12.766,50 81.103,61 224.035,89 919.857,36 3.080.973,21 9.793.071,01
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 2.000,00 25.533,00 162.207,23 448.071,78 1.839.714,71 6.161.946,42 19.586.142,03
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 3.000,00 38.299,49 243.310,84 672.107,67 2.759.572,07 9.242.919,63 29,379,213.04
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 5.000,00 63.832,49 405.518,06 1.120.179,45 4.599.286,78 15.404.866,05 48.965.355,07
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 10.000,00 127.664,98 811.036,13t 2.240.358,90 9.198.573,56 30.809.732,10 97.930.710,13
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 15.000,00 191.497,47 1.216.554,19 3.360.538,34 13.797.860,34 46.214.598,15 146.896.065,20
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 20.000,00 255.329,96 1.622.072,25 4.480.717,79 18.397.147,12 61.619.464,20 195.861.420,27
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 30.000,00 382.994,94 2.433.108,38 6.721.076,69 27.595.720,67 92.429.196,30 293.792.130,40
R$ R$ R$ R$ R$ R$ R$ 50.000,00 638.324,90 4.055.180,63 11.201.794,48 45.992.867,79 154.048.660,49 489.653.550,67
Nesse exemplo, com cem reais investidos todo mês e reaplicação dos lucros,
você chegará perto do primeiro milhão em quarenta anos. Com quinhentos reais, sua liberdade está a cerca de 25 anos. E a resposta para o título do livro? Saindo de aportes de mil reais todos os meses, você chegará ao milhão em cerca de vinte anos. É possível, envolve muitas variáveis na prática, mas não é difícil. E vamos aprender como conseguir fazer isso nas próximas páginas.
DO MIL AO MILHÃO EM
O essencial...
nem sempre é essencial
O primeiro passo para pinçarmos alguns de nossos erros financeiros mais recorrentes está na confecção de nossa própria planilha de orçamento. Eu tenho a plena certeza, no entanto, que ao longo da sua vida você se deparou dezenas de vezes com modelos de controle de gastos que exigiam seu total empenho – e paciência – para discriminar o que é fixo ou variável, para onde vai cada centavo em comida, transporte, educação e lazer, entre tantas outras possíveis despesas.
Esse tipo de planilha é muito útil para obtermos um raio x exato daquele momento da sua conta bancária, mas uma de suas falhas é que ela não mostra de forma clara, ao fim de cada mês, se você está mais rico que no período anterior. Além disso, antes de você se dar conta de que “planilhar” todos os gastos, a todo momento, pouco ajuda a visualizar essa riqueza, já terá se cansado do processo extenuante de anotar cada detalhe da sua vida e terá soltado o freio dos gastos, muitas vezes realizando compras que não deveria.
Anotar gastos por puro reflexo, sem a devida análise
da necessidade deles, apenas desperdiça seu tempo.
Por isso, nosso trabalho de entender melhor o que acontece com o dinheiro que você ganha vai começar de uma forma um pouco diferente. O primeiro passo é começar com uma análise muito mais simples da sua renda. Para isso, anote o que lhe for pedido, pois trabalhar com números e dados reais da sua vida fará toda a diferença nesse processo.
Antes de seguir com a leitura, preencha o quadro abaixo indicando apenas o que você imagina ser a separação ideal de seus gastos:
PLANILHA BÁSICA DE ORÇAMENTO
PLANILHA BÁSICA DE ORÇAMENTO
+ Suas receitas:
— Gastos essenciais:
— Gastos não essenciais:
Não vamos, neste momento, nos concentrar em como aumentar suas receitas,
pois esse tópico será abordado na terceira parte deste livro. A meta agora é entender de forma simples e direta como seus gastos são divididos ao longo do mês e quais são importantes para você. Aqui, não posso determinar o que deve ser essencial ou não, pois as escolhas de cada um são muito particulares e devem ser analisadas no contexto individual ou familiar.
Para mim, por exemplo, uma assinatura de serviços de streaming de vídeos e
filmes é muito importante, mas para outra pessoa isso pode ser supérfluo. Para muita gente, pagar a mensalidade da academia é fundamental para manter uma rotina de atividades saudável, enquanto algumas pessoas preferem se exercitar ao ar livre e não consideram esse tipo de gasto necessário.
EXEMPLO DE PLANILHA BÁSICA DE ORÇAMENTO
+ Suas receitas:
• Salário
• Trabalho extra esporádico
- Gastos essenciais: • Aluguel • Assinatura de streaming
• Supermercado • Aplicações em investimentos
• Transporte
• Seguro de saúde
• Plano de internet
- Gastos não essenciais: • Pizza toda sexta-feira • Diarista
• Roupas novas • Empréstimo
• Academia • Entretenimento
Entenda que o gasto essencial é aquele que, muitas vezes, não pode apenas ser reduzido de um mês para outro ou é quase impossível de ser eliminado no curto prazo. Isso não significa que, com tempo e preparo corretos, até mesmo um gasto essencial possa ser reavaliado e passe a ser menor.
Veja a seguir um exemplo de como isso pode ser feito ao se considerar a diferença entre morar de aluguel em um local com acesso a meios de transporte mais econômicos. Os cenários apresentados a seguir são baseados na realidade da cidade de São Paulo, onde utilizar carro e transporte individual com frequência – como táxi ou aplicativos de carona –, além de ser mais caro, pode fazer com que a pessoa perca muito mais tempo no trânsito.
Morar próximo ao metrô, apesar de quase sempre custar mais caro, pode ser vantajoso em alguns casos. Trocar o aluguel de um apartamento antigo por um em edifício novo também pode reduzir gastos com condomínio, mas o custo do metro quadrado de um apartamento com menos anos de uso provavelmente será maior que o de um apartamento antigo.
MAIS GASTOS
CENÁRIO 1:
Aluguel menor, metragem maior em prédio antigo, longe do metrô
Aluguel: R$ 2 mil
Condomínio: R$ 660
Transporte: R$ 588
Total: R$ 3.248
MENOS GASTOS
CENÁRIO 2:
Aluguel mais caro, imóvel menor e mais novo, ao lado do metrô
Aluguel: R$ 2.300
Condomínio: R$ 500
Transporte: R$ 168
Total: R$ 2.968
Além da análise detalhada de cada gasto essencial, o exercício de preencher
uma planilha de orçamento – mesmo que de vez em quando – serve como um termômetro de nossos gastos e sempre nos apresenta diversas opções de trabalhar nosso consumo de forma que ele se torne mais eficiente em prol da riqueza. Isso acontece porque é comum, no dia a dia, desprezarmos certos gastos considerados pequenos, como sair para comer fora de vez em quando, parcelar em doze vezes a troca anual do aparelho celular ou criar qualquer hábito consumista sem se dar conta do impacto mensal no orçamento. Se você ainda não parou e fez sua planilha, analisando cada um de seus gastos, pare tudo e o faça agora. Exemplos simples de como esse exercício pode ser útil não faltam:
GASTO MENSAL COM PIZZA: R$ 260
Pedir delivery de uma pizza em um bairro de classe média, em São Paulo, custa cerca de R$ 65 em 2018.
GASTO EXTRA MENSAL COM TRANSPORTE: R$ 252
Com a chegada de serviços de aplicativos para transporte, deixei de usar ônibus para voltar para casa e pego um carro particular.
GASTO MENSAL COM PARCELA: R$ 291
Troca anual de aparelho celular por modelo mais novo de R$ 3,5 mil, parcelado em doze vezes.