Do Mil ao Milhão: Sem Cortar o Cafezinho
Pilar 1. Gastar bem
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.
Os gastos acima poderiam estar sendo feitos tranquilamente por uma pessoa
que acredita não consumir de forma exagerada. Ao fim de cada mês, porém, estes três simples hábitos causam um impacto de 803 reais no orçamento. Para uma pessoa que recebe um salário líquido de 4 mil reais mensais, esse gasto não é tão irrelevante assim, abocanhando cerca de 20% do orçamento.
E não, não tem problema gastar 20% do salário com isso ou qualquer outra
coisa, desde que a ação seja controlada e realizada com base em um planejamento racional que comporte todos seus gastos essenciais e, o mais importante, dinheiro para seus investimentos.
Não há modelo de ajuste de finanças pessoais que funcione em um regime
restrito em que nada é deixado para o lazer, pois faz parte de nossa rotina consumir. Além disso, muitas das atividades que mais nos dão prazer estão atreladas à compra de algo ou algum serviço. Mas vale lembrar que não há modelo em prol da riqueza que não exija a tomada de decisões às vezes difíceis, com a limitação de impulsos consumistas.
Acima de tudo, o investidor deve ter consciência de que existem decisões de muito maior impacto financeiro – como a compra de um imóvel ou carro – do que o gasto com o cafezinho na padaria todos os dias (trataremos disso nas próximas páginas). Minha sugestão, porém, é que, com o orçamento em mãos, alguns gastos que talvez sejam desnecessários ou exagerados possam ser repensados.
Olhando os exemplos dados, é muito fácil termos ideias de como cortar ou pelo menos diminuir alguns deles. A pizza, por exemplo, pode ser quinzenal, ou pode ser feita em casa de vez em quando. Dispensar o transporte público de vez em quando, em um dia em que você está muito cansado ou com pressa, tudo bem, mas por que transformar isso em um hábito diário? E em relação a ter o último lançamento do celular, existe justificativa para isso que não seja o puro e simples consumismo? Por mais que as tecnologias sejam atualizadas a todo momento, um aparelho bem cuidado pode sim durar dois ou três anos, fazendo bem para seu bolso e para o meio ambiente. Que tal colocar o valor desta parcela em um fundo e, no fim do ano, escolher um bem que pode ser negociado com desconto à vista?
Não posso responder a perguntas individuais sobre corte de gastos; dicas como as dadas acima são infinitas. Cada pessoa entende quais são suas reais necessidades e vontades, possui metas e objetivos que podem variar muito se comparados aos de outra pessoa. O trabalho de anotar gastos, portanto, é muito mais um apoio para a reflexão. Ele pode, muitas vezes, surpreender, já que é comum se assustar ao perceber que alguns gastos considerados banais na verdade estavam ocupando boa parte do orçamento, sem que fossem antes notados.
Encontrar uma fórmula eficiente, que ajude na economia no cotidiano, exige muito mais autocontrole do que técnica. Para exercitar essa ponderação individual, sugiro que você divida seus gastos essenciais do restante em seu orçamento, utilizando um modelo de planilha de orçamento que lhe agrade, preenchendo-o algumas vezes por mês. Existem programas de computador que ajudam a fazer isso, além de várias opções disponíveis em sites e aplicativos. Use a que for mais simples e atrativa para você, lembrando que este não deve ser um hábito mecânico, mas que possa transformar seu relacionamento com o dinheiro.
Não deixe de praticar, sempre que puder, estratégias que lhe ajudem a analisar
o ritmo de seus gastos e como eles têm sido feitos ao longo do tempo. O roteiro abaixo é uma excelente forma de reflexão e pode ser repetido quantas vezes você achar necessário.
Liste as últimas cinco vezes que você gastou mais do que deveria e se arrependeu: 1 ____________________________
2 ____________________________
3 ____________________________
4 ____________________________
5 ____________________________
Quanto dinheiro você gastou a mais do que deveria no último mês? R$ ____________________________
Se você continuar gastando mais do que deve, pense em três coisas que podem acontecer com as pessoas que você mais ama:
1 ____________________________
2 ____________________________
3 ____________________________
Quais são as três coisas que você poderia fazer agora para gastar menos e melhor, que dependem exclusivamente de você?
1 ____________________________
2 ____________________________
3 ____________________________
UM PONTO DE PARTIDA
Não existe regra única e certeira aplicável para todos quando se trata de orçamento familiar, mas entendo que muita gente necessita de algum norte ou de um objetivo claro para começar a organizar a vida financeira.
Por isso, proponho que, caso você ainda não tenha muita ideia de como
estruturar seu consumo mensal, parta do pressuposto de que os gastos essenciais devem ocupar, no máximo, 50% de sua renda. Sei que, ao colocar este porcentual em números, parecerá muito difícil chegar a este patamar. Eu passei por isso, precisei trabalhar muito e buscar soluções que me permitiram, pouco a pouco, mudar minha realidade financeira, mas manter uma meta de se aproximar aos poucos destes 50% em mente é essencial. Essa folga no orçamento é necessária para investimentos e outros gastos eventuais.
Separados os gastos mais importantes, cerca de 10% deve ser distribuído para outros gastos não essenciais e pelo menos 30% para investimentos. Os últimos 10% devem ser sempre liberados para serem “torrados”, ou seja, podem ser gastos com o que você quiser com total liberdade, como compras ou lazer. Afinal, como disse anteriormente, viver apenas para trabalhar e guardar dinheiro é quase impossível, tornando-nos simples escravos do trabalho e do dinheiro. É importante para o emocional de toda pessoa deixar um pedacinho do orçamento para a diversão ou compras que você considera mais ligadas ao prazer do que às suas necessidades.
Dei exemplos sobre como você pode repensar seus gastos essenciais e não essenciais. Mas pensar com cuidado sobre os 30% que devem ser usados para arrecadar fundos para o primeiro milhão é também parte fundamental da engrenagem da riqueza. A primeira grande meta financeira de toda pessoa que começa a planejar o futuro parte do orçamento, pois é com ele que se calcula qual é o valor do chamado “fundo de emergência”.
O próprio nome já esclarece: esse fundo nada mais é do que um dinheiro reservado para algum gasto que pode desequilibrar significativamente o orçamento ou que exija a contração de uma dívida para ser quitado. No modelo que proponho, ele serve tanto para cobrir gastos inesperados como pode ser manejado para cobrir algumas contas que são conhecidas e ocorrerão no futuro.
A formação do fundo de emergência é primordial para o pensamento de longo
prazo. Ele é a solução para problemas financeiros urgentes que não podem ser projetados nem sequer imaginados. Além disso, pode ser um apoio extra para aquelas situações no curto prazo com grande potencial de sobrecarregar o orçamento. Imprevistos são sempre previsíveis. Por mais que não gostemos deles, sempre acontecem.
Como o fundo serve para emergências, oportunidades e curto prazo, é
importante que ele seja guardado de alguma maneira que ofereça liquidez, sendo facilmente resgatável. Por isso, não é o tipo de investimento que deve ser mantido em ações ou renda variável, pois pode acontecer de, no momento de necessidade, o mercado estar em baixa e seu capital ser muito afetado por uma turbulência momentânea.
Minha sugestão para o fundo de emergência é que ele seja o valor da soma do
custo de vida – ou seja, aqueles gastos essenciais sobre os quais já tratamos – por pelo menos seis meses para empregados com registro em carteira de trabalho. Isso é possível, pois esse tipo de profissional consegue ter uma previsibilidade maior dos seus ganhos todos os meses. Porém, se você for um profissional autônomo ou possuir uma renda variável, minha dica é formar um fundo que cubra pelo menos um ano de custos.
6 MESES Profissional assalariado
Registrado e com ganhos mensais fixo
1 ANO Autônomo e empresário
Ganhos mensais variáveis
E o que, exatamente, deve ser coberto pelo fundo de emergência? Quase
sempre é difícil prever, pois ele está sendo formado para prevenir um desbalanceamento completo do seu fluxo de renda e gastos devido a um evento imprevisto. Na maior parte das vezes, o uso do fundo de emergência é associado a um evento pessoal negativo, por isso poder contar com ele pode ser um apoio psicológico importante em uma fase da vida em que as coisas não vão muito bem. Imagine se, além de enfrentar um problema, você ainda tenha de fazer uma dívida enorme para resolvê-lo?
É por essa e outras razões que pensar com cuidado nos gastos e planejar as
finanças para o futuro – mesmo que no curto prazo – não pode ser dissociado de nossa felicidade e tranquilidade emocional. Alguns detalhes que parecem simples, como a formação de um fundo, podem ser um apoio essencial para aquele momento da vida mais nebuloso, em que pensar em finanças estará longe de suas prioridades.
Sugiro também que o fundo de emergência possa ser usado, no futuro próximo, na cobertura de um gasto que seja esperado ou cíclico. Desde que esse montante possa ser rapidamente devolvido ao fundo, não vejo problemas em usá-lo, por exemplo, para aquele período do ano, como em janeiro, quando contas, impostos e matrículas se acumulam, ultrapassando os gastos fixos médios do restante do ano.
Esses períodos de maiores gastos são sazonais, mas são esperados. Mesmo assim, é bem comum escutar amigos, parentes e conhecidos reclamando que os gastos feitos no Natal viraram uma bola de neve junto com as contas de janeiro. Dezenas de reportagens nessa época do ano mostram como famílias se endividam para equilibrar as contas, fazem cortes drásticos no consumo e têm dificuldades de lidar com os vários reajustes de preços pagos por serviços que pipocam no orçamento. Que tal, no ano que vem, estar preparado para tudo isso?
O QUE UM FUNDO DE EMERGÊNCIA PODE COBRIR?
Gastos com remédios e tratamentos para um problema grave de saúde. Nem sempre tudo é coberto pelo plano de saúde.
Pagamento de danos ou sinistro de automóvel em caso de acidente.
Período de desemprego ou redução drástica de renda.
Pedido de ajuda familiar inesperado.
Taxas e impostos a serem pagos no início do ano.
Oportunidades.
Entenderemos mais sobre investimentos na próxima etapa deste livro, na qual trato com mais profundidade as diversas opções para fazer seu dinheiro trabalhar por você. Neste ponto da formação do fundo de reserva, porém, é importante que você comece a estudar aplicações que rendam melhor que a poupança.
Se estamos falando de dinheiro que precisa ter liquidez e seja resgatável, encolhemos um pouco o leque de opções que pagam bons juros. Mesmo assim é possível fazer com que o dinheiro, pelo menos, ofereça taxas acima da inflação real. Abaixo, estão algumas das opções disponíveis para sua reserva de emergência:
TESOURO DIRETO | TESOURO SELIC
O Tesouro Direto é um programa de investimentos que foi criado pelo Tesouro Nacional, em parceria com a Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia (CBLC), que realiza a venda de títulos públicos para pessoas físicas.1 O objetivo desses ativos é captar recursos para o financiamento da dívida pública, assim como provisionar atividades de saúde, segurança e educação promovidas pelo governo federal. Em outras palavras, é como se você emprestasse dinheiro ao governo, com a garantia de receber o que investiu de volta ao fim do contrato.
São oferecidas à população algumas variantes de títulos do Tesouro, incluindo papéis com taxas prefixadas, opções com pagamentos semestrais e rendimentos que podem estar atrelados tanto à taxa de juros básica, a Selic, quanto a outros índices, como o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (IPCA).2 Para o fundo de emergência, o mais indicado é o Tesouro Selic, já que o valor de mercado desse título apresenta baixa volatilidade, evitando perdas no caso de venda antecipada.
Como os títulos são pós-fixados, possuem uma volatilidade geralmente muito baixa, e o Tesouro Direto faz a recompra em todo dia útil, o que é bem conveniente em caso de necessidade imediata de resgate de dinheiro. Além disso, pelo fato de o empréstimo estar sendo feito para um país, e não para uma instituição financeira, a chance de calote é baixa. Afinal, qual é a probabilidade de uma nação falir e não cumprir com seu dever de pagamento? É bem baixa.
Por essas razões, o Tesouro Direto é aconselhado para quem possui um perfil mais conservador e para aqueles que não sabem ainda quando precisarão realizar um resgate. Sobre ele, incidirão ainda apenas 0,3% de taxa de custódia cobrada pela Bolsa de Valores para os serviços de guarda dos títulos, informações e movimentações dos saldos, e taxas da sua corretora, lembrando que muitas instituições não cobram por esse serviço.
Também recai sobre o dinheiro aplicado no Tesouro Direto a cobrança de imposto de renda (IR) regressivo. Assim como em todos os investimentos de renda fixa, o imposto de renda diminui à medida que se deixa o dinheiro guardado por mais dias, de acordo com a seguinte regra:
Lembre-se: a regra do IR é válida para todos os investimentos de renda fixa, ou seja, quem resgatar dinheiro antes de seis meses de aplicação vai sempre pagar uma parcela maior de imposto sobre seus rendimentos. Para pagar um IR de apenas 15%, o investimento em renda fixa deve ser mantido por, no mínimo, dois anos. O fundo de emergência muitas vezes será requisitado antes disso, mas um bom investimento garante rentabilidade mesmo diante de um IR um pouco maior.
Imaginemos duas situações em que você investe 5 mil reais a uma taxa de juros anual de 7%. Na primeira, você resgata a aplicação em cinco meses. Na segunda, em dois anos.
PRIMEIRA SITUAÇÃO
Investimento inicial: R$ 5 mil
Rendimento: 7% a.a.
Período: 5 meses
Imposto de renda: 22,5% sobre o rendimento Valor final bruto: R$ 5.142,96
Valor do IR: R$ 32,17
Valor final líquido: R$ 5.110,79
SEGUNDA SITUAÇÃO
Investimento inicial: R$ 5 mil
Rendimento: 7% a.a.
Período: 2 anos
Imposto de renda: 15% sobre o rendimento
Valor final bruto: R$ 5.724,50
Valor do IR: R$ 108,68
Valor final liquido: R$ 5.615,82
FUNDOS DE RENDA FIXA REFERENCIADOS DI (FUNDOS DI)
Conhecidos como o “arroz com feijão” do mercado, são fundos de renda fixa de baixíssimo risco, totalmente ou quase em sua totalidade atrelados aos títulos públicos federais. Contam com liquidez diária e permitem que recursos possam ser sacados a qualquer momento.
Muitos Fundos DI permitem aplicações de baixo valor inicial, o que é importante para investidores que estão começando a investir ou para aqueles que querem fazer aportes adicionais constantes. São divididos em dois tipos:
Fundo de Renda Fixa Baixa Duração Aplica 100% do seu investimento em títulos públicos
Soberano federais, como o Tesouro Direto.
Fundo de Renda Fixa Baixa Duração Ao menos 80% das aplicações são feitas em títulos públicos
Grau de Investimento associados à Selic.
O grande chamariz dos Fundos DI é que a rentabilidade deles tem como meta acompanhar as taxas do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), que por sua vez é o índice utilizado pelos bancos para realizarem empréstimos entre si. O CDI é uma taxa que caminha muito próxima à variação da Selic, com frequência apenas cerca de 0,2% abaixo dela, protegendo o patrimônio dos investidores no longo prazo.
Como você deve ter notado, os Fundos DI são compostos por ativos do Tesouro Direto. E por que, então, valeria a pena investir em um Fundo DI em vez de aplicar diretamente no Tesouro?
Como explicado na tabela anterior, os fundos grau de investimento não aplicam 100% dos recursos no Tesouro e a eles é permitida uma diversificação minimamente maior, porém atrelada a títulos bem seguros. Com um leque maior de opções para investir, alguns desses fundos conseguem atingir uma rentabilidade total acima do Tesouro Selic, e é nessa situação que podem se tornar mais vantajosos.
Para que seja rentável optar pelo fundo, e não pela aplicação direta em títulos, geralmente é preciso que o Fundo DI pague, ao menos, 95% da taxa do CDI. Isso porque a rentabilidade dos fundos, apresentada nas chamadas “lâminas” por seu gerente ou corretor, deve ser líquida, descontadas todas as taxas. Já sobre o Tesouro Selic, sempre vai recair aquela taxa de 0,3% cobrada pela Bolsa, além de uma eventual taxa cobrada pelo agente de custódia, que nos bancos comerciais – aquele em que você tem conta-corrente – costuma ser de 0,45%. Em números: Tesouro Selic • Rendimento atrelado à Selic de 10%
• 0,3% da Bolsa
• 0,45% do agente de custódia
(taxa pode ser zero em algumas corretoras)
Rendimento final: 9,25%
• Rendimento atrelado ao CDI de 9,8%
Fundo DI a 95% do CDI • Rentabilidade líquida apresentada já na lâmina
• Atenção à taxa cobrada pelo banco
Rendimento final: 9,31%
Seguindo com os exemplos, vamos imaginar o que acontece em cinco, dez e quinze anos com dois investimentos iguais de 10 mil reais, um no Tesouro Selic e outro em Fundo DI.
TESOURO SELIC
Investimento inicial: R$ 10 mil
R$ 10 mil Rendimento: 9,25% a.a.
Resultado em cinco anos: R$ 15.563,50
Em dez anos: R$ 24.222,25
Em quinze anos: R$ 37.698,30
FUNDO DI
Investimento inicial: R$ 10 mil
Rendimento: 9,31% a.a.
Resultado em cinco anos: R$ 15.606,28
Em dez anos: R$ 24.355,61
Em quinze anos: R$ 38.010,05
A simples matemática acima demonstra que as tomadas de decisões de investimento não
podem ser feitas sem um pequeno estudo anterior. Como os Fundos DI são oferecidos por instituições financeiras, é preciso avaliar atentamente se as taxas de administração cobradas deixam a rentabilidade final competitiva comparada a outras aplicações. Outro ponto a ser questionado é se a instituição cobra uma pequena taxa sobre cada nova aplicação feita, conhecida no mercado financeiro como “taxa de carregamento”. Pense que, caso você planeje aplicar todos os meses pequenas quantias em Fundos DI, a taxa de
carregamento pode ser uma pedrinha no sapato, pois ela torna muito mais vantajoso fazer aportes maiores e menos frequentes.
Outro ponto de atenção é que, geralmente, os fundos DI oferecidos pelos grandes bancos comerciais cobram taxas maiores de quem investe menos, o que pesa – e muito – na rentabilidade final do investimento. Ou seja, não confie em uma única “lâmina” enviada pelo seu gerente ou agente financeiro: peça a ele o rendimento de todos os fundos oferecidos pela instituição, faça as contas e não deixe que decidam por você onde é melhor aplicar seu próprio dinheiro.
A seguir, podemos ver a comparação de dois fundos de investimento, o BTG Pactual Yield DI e o Itaú Uniclass Premium RF DI, e notar como trazem resultados diferentes.
[21]
Ambos são fundos DI, com praticamente o mesmo nível de risco na aplicação e mesma liquidez. No entanto, a taxa de administração anual cobrada pelo BTG Pactual Yield é de 0,3% e a do o Itaú Uniclass de 1,4%. Por isso, o BTG Pactual Yield obteve um rendimento de 101,78% do CDI entre o período de agosto de 2017 e julho de 2018, enquanto o Itaú Uniclass alcançou apenas 79,8% do CDI.
CERTIFICADO DE DEPÓSITO BANCÁRIO (CDB)
O CDB é um dos investimentos em renda fixa mais populares do mercado. Ele representa um título – daí vem o nome “Certificado” – de renda fixa emitido pelos bancos para captar dinheiro, que será devolvido a você no fim do contrato acrescido de juros.
Para entender como o CDB funciona, é preciso compreender como os bancos trabalham e conseguem garantir lucro. De uma maneira simplificada, toda instituição financeira utiliza o dinheiro de seus clientes depositado em conta-corrente em uma outra série de serviços, como em um empréstimo a uma terceira pessoa ou empresa. O banco trabalha com o dinheiro do cliente enquanto o mantém sob sua posse, e em troca garante devolvê-lo integralmente assim que lhe for requisitado.
Como é de se esperar, o banco não pode utilizar o dinheiro de seus clientes de forma ilimitada, pois isso geraria um risco enorme de quebra do sistema. Já imaginou se um banco sofre calote em diversos empréstimos e não pode entregar papel-moeda a um cliente que está sacando o próprio dinheiro em um caixa?
Como o Banco Central [22] controla o limite de utilização dos depósi- tos em conta-corrente, os bancos não remuneram seus clientes sobre esses empréstimos que ele realiza com todo o dinheiro que está depositado e em seu poder. Para obter outras fontes de recursos, os bancos podem oferecer um acordo de depósito a prazo via CDBs, em que ele combina com o cliente uma taxa de juros a ser paga, pré ou pós-fixada.
Esse é um tipo de contrato bem seguro quando realizado com aportes de até 250 mil reais, que é o teto coberto pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), instituição criada
em 1995 por uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN) [23]. A entidade administra mecanismos de proteção a titulares de créditos contra instituições financeiras e cobre o calote sofrido por clientes em alguns tipos de operações, incluindo os CDBs. Dessa forma, basta que o aplicador não ultrapasse esse limite de aporte em cada instituição para ter proteção garantida. Nada impede que você tenha, por exemplo, 200 mil reais em um banco e mais 150 mil reais em outro, garantindo assim pagamento integral de todo o seu capital, mesmo em caso de quebra das duas instituições.
Você conhece exatamente o valor que vai receber no vencimento. Se o contrato foi
CDB fechado com uma taxa prefixada de 12% a.a., significa que sua rentabilidade será
prefixado de exatamente 12%, sem surpresas.
CDB Nesse caso, não é possível determinar exata- mente quanto você vai receber, já que o
pós- valor varia de acordo com o indexador combinado. O indexador é uma fixado porcentagem estabelecida com base em um índice, no caso o CDI.
Em geral, uma porcentagem do CDI é usada como base para o CDB. Assim, se um banco lhe oferecer um CDB que pague 95% do CDI, e o CDI for de 10% ao ano, seu CDB vai render, no total, 9,5% ao ano.
A porcentagem do CDI oferecida varia de acordo com alguns fatores. Um deles é o tamanho do banco: grandes bancos comerciais oferecem parcelas menores do CDI, pois eles têm muitos clientes e não precisam se esforçar para obter recursos. As instituições de pequeno e médio porte, por outro lado, oferecem remunerações maiores para captar mais dinheiro e atrair investidores. Você pode comprar títulos emitidos por esses bancos sem precisar abrir uma conta neles, pois a transação pode ser feita por meio de uma corretora de valores.
O prazo e a liquidez também influenciam no rendimento. Títulos com vencimentos mais distantes e que não permitem o resgate antes dessa data geralmente oferecem remunerações maiores que aqueles de prazo mais curto e liquidez diária. Por fim, é importante notar que o valor investido deve ser considerado, pois há CDBs que oferecem porcentagens maiores, mas exigem, em contrapartida, a aplicação de quantias elevadas.
Na maior parte das vezes, o CDB é uma alternativa com rentabilidade bem melhor do que a poupança, mesmo que sobre ele recaia a cobrança de IR. Com uma conta em corretora, é possível que você tenha acesso a CDBs de várias instituições, com diferentes rentabilidades e prazos entre eles. Caso queira obter um CDB do banco em que possui conta-corrente, você terá que analisar as diferentes opções de CDB por conta própria.
Vamos comparar um CDB de liquidez diária a um CDB para três anos e à poupança. Considerando taxas disponíveis no mercado, temos:
100% do CDI: 6,39% a.a.
CDB Banco Inter Liquidez Diária, 101% do CDI, com IR.
CDB Banco Pan, 119% do CDI, com IR.
Poupança, 4,55% a.a. (70% da Selic + TR), sem IR.
Investindo 5 mil reais por um período de três anos, o resultado seria:
Retorno líquido CDB Banco Inter: R$ 5.876,55
Retorno líquido CDB Banco Pan: R$ 6.044,51
Retorno líquido poupança: R$ 5.714,02
Ou seja, a poupança perde em rendimentos tanto para o CDB de liquidez diária quanto para o de maior prazo.
Mais do que sair correndo para aplicar seu dinheiro após ver essas opções, o importante, num primeiro momento, é entender que o fundo de emergência deve ser formado com dinheiro pronto para ser resgatado a qualquer momento. Ele deve ser algo simples, não focado na maior rentabilidade.
Um alerta importante e sempre válido é saber que a economia de países em desenvolvimento, como o Brasil, não costuma ser estável e passa por turbulências difíceis de serem previstas. Regras e valor de taxas propostas pela política econômica tendem a mudar de tempos em tempos. É sempre relevante racionalizar todo tipo de aporte e verificar quais regras, rendimentos e perspectivas estão válidos para cada investimento no momento em que eles estão sendo realizados.
O canal O PRIMO RICO traz atualizações semanais sobre investimentos, mas vale falar com a corretora em que seu dinheiro está aplicado, verificar com cautela os serviços e produtos oferecidos pelo gerente do banco, além de conferir sites especializados e checar as notícias econômicas publicadas pela mídia em geral.
Fundo de emergência formado? Agora é continuar mantendo pelo menos 30% da renda mensal focada nos investimentos, que agora podem ser muito mais diversificados e contar com taxas de retorno ainda melhores. Nessa etapa, entra a renda variável e o pensamento focado no futuro. Confira a tabela do milhão e compare o valor que você tem hoje disponível para aplicar em seus investimentos, pois eles podem mostrar em quanto tempo você poderá atingir seu objetivo.
Não existe um momento ideal para guardar. Quanto
mais cedo, melhor.
Se você acha que alcançar essa meta está muito mais longe do que imagina, refaça seu orçamento e estruture planos para aumentar receitas. Se você não é mais tão jovem e tempo não é uma opção, reflita se realmente vale a pena correr mais riscos para aumentar a rentabilidade de seus aportes, pois pode ser muito difícil depois recuperar o que foi perdido. Tempo e rentabilidade, juntos, serão seus grandes companheiros de agora em diante.
A verdade é que gastar dinheiro é muito bom. Mas
gastar quando se tem dinheiro é muito melhor.
QUEM CASA QUER... FICAR RICO
As pessoas empobrecem muito mais pela falta de conhecimento do que pela falta de dinheiro. Pessoas que enriquecem dominam informações sobre investimentos, negócios e sabem que precisam construir ativos e itens que lhes gerem rendimento, não apenas gastos.
Na cultura de nosso país, no entanto, a noção sobre riqueza e investimentos
vem sendo há muito tempo ensinada e discutida de maneira distorcida, gerando crenças infundadas sobre acúmulo de patrimônio. Esses erros, repetidos geração após geração, criam pessoas endividadas, que não conseguem destinar nenhuma parte do que ganham para investimentos.
Um exemplo claro dessa distorção é o que diz o famoso ditado: “Quem casa
quer casa.” Ele reflete um estilo de vida voltado à posse, que nem sempre se reflete em um aproveitamento adequado das receitas daquela família. E o resultado: um futuro engessado em dívidas.
A verdade é que muitos vivem apenas antecipando
sonhos e acabam não desfrutando deles no momento
correto e, mais importante, com total tranquilidade.
Com certeza você conhece alguém que, assim que começou a vida profissional, tinha o sonho de ter uma casa própria e fez disso seu foco principal, sem antes estudar a melhor forma de fazê-lo. Em poucos anos, não bastava mais para esse indivíduo ter somente a casa própria, pois também queria fazer uma grande festa de casamento e, para fechar o ano, por que não fazer aquela viagem dos sonhos?
É natural que o tamanho da nossa carteira seja menor do que os nossos
sonhos. Pela falta de aprendizado de finanças e questões culturais, o brasileiro se acostumou a achar normal parcelar tudo e não colocar na ponta do lápis os custos desse hábito. O problema é que essa falta de conhecimento sobre finanças, mesclada com o apelo emocional de certas compras, faz com que milhares de brasileiros tomem decisões de altíssimo impacto financeiro muitas vezes sem reflexão alguma. Algumas delas são:
DECISÕES DE ALTO IMPACTO FINANCEIRO
1) Fazer aquela viagem dos sonhos.
2) Comprar um carro novo e financiado.
3) Ter filhos sem planejamento familiar adequado.
4) Financiar a maior parte de um imóvel.
E aí chegamos a um ponto fundamental deste livro. Como falei antes, não é cortando o cafezinho que você chegará ao milhão. Mas financiar mais de 50% de um imóvel ou um carro inteiro pode, sim, postergar em muito este resultado. Se utilizar o capital de terceiros para grandes compras for um hábito recorrente, então, a vontade de acumular patrimônio pode ser apenas uma ilusão, pois a maior parte da renda dessa pessoa estará sempre ocupada com pagamento de juros e não no recebimento.
O raciocínio é simples. Nenhuma empresa ou instituição coloca um bem em suas mãos ou empresta dinheiro porque é bonzinho. A moeda de troca são sempre os juros, e pagar os juros é o que distingue os ricos dos pobres.
O POBRE PAGA JUROS PARA SEMPRE, O RICO OS RECEBE. A verdade, porém, é que não há uma resposta única e simples para cada decisão financeira tomada. Como falamos anteriormente, este livro não pretende passar uma receita pronta para a riqueza – até porque ela não existe –, nem ditar o que é prioridade para você. Mas vou ajudar você, estimulando um raciocínio mais realista antes de cada escolha, evitando que o puro apelo consumista seja seu guia o tempo todo.
É comum ouvirmos de diversos especialistas conclusões superficiais e que não correspondem à realidade de todas as pessoas. Uma das coisas mais faladas, por exemplo, é que é mais vantajoso alugar um apartamento e investir o excedente da parcela do financiamento do que partir para um empréstimo de longo prazo. Mas será que isso é válido para todos os casos?
Com alguns números em mãos, veremos que isso nem sempre faz sentido. Algumas variáveis podem ser fundamentais para a decisão entre alugar ou financiar, e, nessa escolha, pesa muito o valor do imóvel. Quanto mais caro ele for, a tendência de manter o aluguel aumenta. Isso porque, além de os valores de apartamentos menores serem proporcionalmente mais caros do que comparados a um apartamento maior, o poder dos juros compostos com uma dívida muito grande é perturbador. Uma coisa é financiar 200 mil reais em trinta anos, outra bem diferente é financiar 600 mil reais.
Outra realidade é que, dependendo da entrada a ser dada, a parcela do financiamento pode ser menor que o valor do aluguel. Nesse cenário, se a pessoa não possui excedente de capital para continuar investindo, apostar na casa própria pode ser uma decisão financeira mais sábia do que se manter no aluguel.
Podemos partir para um exemplo prático com números, mas rapidamente
ficará claro que saber qual é a melhor decisão a ser tomada é algo muito pessoal.
Imaginamos que, para a compra de um imóvel de padrão médio na cidade de
São Paulo, com preço de 700 mil reais, um sujeito analisa as melhores opções de investimento. Por ser novo, até 80% do valor pode ser financiado em trinta anos. Caso opte por morar de aluguel em prédio semelhante, o valor a ser pago seria de 3 mil reais mensais.
Consideramos um empréstimo imobiliário feito com a tabela SAC, [24] que é
aquela em que as parcelas diminuem de valor ao longo do tempo, de custo total de 0,9% ao mês. A rentabilidade do investimento nesta comparação foi bem conservadora, de apenas 0,55%, e se refere ao rendimento ganho caso o dinheiro fosse aplicado, e não gasto com a compra do imóvel. Foram ainda estimadas algumas variáveis; o índice de atualização do imóvel é uma referência de mercado para a valorização do imóvel ao longo do tempo, além do reajuste do aluguel.
E assim ficou nossa tabela inicial de comparação:
TABELA SAC
Dados para a simulação
Valor financiado R$ 560.000,00
CET (total) (ao mês) 0,9%
Número de meses 360
Índice de Reajuste do imóvel (a.m.) 0,2%
Preço do aluguel (a.m.) R$ 3.000,00
Rentabilidade do investimento (a.m.) 0,55%
Reajuste do aluguel (a.m.) 0,41%
Entrada do imóvel R$ 140.000,00
Vamos avaliar agora como ficariam os primeiros dez meses nos dois cenários,
comparando a compra do imóvel com o aluguel. Para que sejam equiparáveis, tanto o valor da parcela quanto o do investimento devem ser iguais ao fim de cada mês.
Primeiro, o financiamento:
FINANCIAMENTO
Mês Prestação Amortização Juros Saldo devedor Imóvel atualizado
0 R$ 560.000,00 R$ 700.000,00
1 R$ 6.595,56 R$ 1.555,56 R$ 5.040,00 R$ 558.444,44 R$ 701.400,00
2 R$ 6.581,56 R$ 1.555,56 R$ 5.026,00 R$ 556.888,89 R$ 702.802,80
3 R$ 6.567,56 R$ 1.555,56 R$ 5.012,00 R$ 555.333,33 R$ 704.208,41
4 R$ 6.553,56 R$ 1.555,56 R$ 4.998,00 R$ 553.777,78 R$ 705.616,82
5 R$ 6.539,56 R$ 1.555,56 R$ 4.984,00 R$ 552.222,22 R$ 707.028,06
6 R$ 6.525,56 R$ 1.555,56 R$ 4.970,00 R$ 550.666,67 R$ 708.442,11
7 R$ 6.511,56 R$ 1.555,56 R$ 4.956,00 R$ 549.111,11 R$ 709.859,00
8 R$ 6.497,56 R$ 1.555,56 R$ 4.942,00 R$ 547.555,56 R$ 711.278,71
9 R$ 6.483,56 R$ 1.555,56 R$ 4.928,00 R$ 546.000,00 R$ 712.701,27
10 R$ 6.469,56 R$ 1.555,56 R$ 4.914,00 R$ 544.444,44 R$ 714.126,67
Agora, veremos como ficaria caso a escolha seja partir para o aluguel, contando desde o primeiro mês com o valor da entrada de 140 mil reais, que seria utilizado em aplicações que busquem um rendimento conservador de 0,55% ao mês:
ALUGUEL
Aluguel Excedente Investimentos
R$ 3.000,00 R$ 143.595,56 R$ 143.595,56
R$ 3.012,22 R$ 3.569,33 R$ 147.954,66
R$ 3.024,49 R$ 3.543,06 R$ 152.311,48
R$ 3.036,82 R$ 3.516,74 R$ 156.665,93
R$ 3.049,19 R$ 3.490,37 R$ 161.017,96
R$ 3.061,61 R$ 3.463,94 R$ 165.367,50
R$ 3.074,09 R$ 3.437,47 R$ 169.714,49
R$ 3.086,61 R$ 3.410,95 R$ 174.058,87
R$ 3.099,18 R$ 3.384,37 R$ 178.400,56
R$ 3.111,81 R$ 3.357,74 R$ 182.739,51
Agora vamos dar uma olhada ao longo do décimo ano no que aconteceu:
FINANCIAMENTO
Mês Prestação Amortização Juros Saldo devedor Imóvel atualizado
120 R$ 4.929,56 R$ 1.555,56 R$ 3.374,00 R$ 373.333,33 R$ 889.661,15
121 R$ 4.915,56 R$ 1.555,56 R$ 3.360,00 R$ 371.777,78 R$ 891.440,47
122 R$ 4.901,56 R$ 1.555,56 R$ 3.346,00 R$ 370.222,22 R$ 893.223,35
123 R$ 4.887,56 R$ 1.555,56 R$ 3.332,00 R$ 368.666,67 R$ 895.009,80
124 R$ 4.873,56 R$ 1.555,56 R$ 3.318,00 R$ 367.111,11 R$ 896.799,81
125 R$ 4.859,56 R$ 1.555,56 R$ 3.304,00 R$ 365.555,56 R$ 898.593,41
126 R$ 4.845,56 R$ 1.555,56 R$ 3.290,00 R$ 364.000,00 R$ 900.390,60
127 R$ 4.831,56 R$ 1.555,56 R$ 3.276,00 R$ 362.444,44 R$ 902.191,38
128 R$ 4.817,56 R$ 1.555,56 R$ 3.262,00 R$ 360.888,89 R$ 903.995,77
129 R$ 4.803,56 R$ 1.555,56 R$ 3.248,00 R$ 359.333,33 R$ 905.803,76
130 R$ 4.789,56 R$ 1.555,56 R$ 3.234,00 R$ 357.777,78 R$ 907.615,36
Enquanto isso, o aluguel:
ALUGUEL DETALHADO
Aluguel Excedente Investimentos
R$ 4.866,86 R$ 62,70 R$ 623.902,56
R$ 4.886,68 R$ 28,87 R$ 627.362,89
R$ 4.906,59 -R$ 5,04 R$ 630.808,35
R$ 4.926,58 -R$ 39,03 R$ 634.238,77
R$ 4.946,65 -R$ 73,10 R$ 637.653,99 R$ 4.966,81 -R$ 107,25 R$ 641.053,83
R$ 4.987,04 -R$ 141,49 R$ 644.438,14
R$ 5.007,36 -R$ 175,81 R$ 647.806,74
R$ 5.027,76 -R$ 210,21 R$ 651.159,48
R$ 5.048,25 -R$ 244,69 R$ 654.496,16
R$ 5.068,81 -R$ 279,26 R$ 657.816,63
Note que, neste ponto, o valor da parcela paga e o aluguel se igualam, sendo necessário, na teoria, retirar dinheiro dos investimentos para quitar o aluguel. O mais curioso, no entanto, é ver que o investidor que começou poupando os 140 mil reais da entrada, e continuou aplicando o excedente da parcela do financiamento não realizado, teria acumulado 623 mil reais ao chegar com disciplina ao 120º mês da estratégia. Enquanto isso, quem optou por comprar o imóvel teria uma propriedade de valor atualizado de 907 mil reais – caso não houvesse crises no setor imobiliário ao longo desse tempo –, mas um saldo devedor ainda de 357 mil reais.
Além da dívida a ser paga nos próximos vinte anos, o financiamento acaba muitas vezes engessando a família e fazendo com que ela perca oportunidades. Somem-se a isso a depreciação do imóvel – no caso do aluguel, quem paga os consertos e melhorias necessárias é o dono – e a falta de mobilidade – ao comprar um apartamento, quem garante que em trinta anos você vai continuar querendo morar no mesmo local?
Por outro lado, pode ser que quem tenha optado pelo financiamento o tenha feito sabendo que não é uma pessoa cautelosa com os gastos. É comum escutar de algumas pessoas que elas preferem ter uma conta fixa a pagar – no caso, o financiamento – para garantir que conseguirão juntar algum patrimônio no longo prazo.
Fazendo as contas, pode até ser que financiar o apartamento não seja bom, mas se alguém acha improvável conseguir investir mês após mês, por anos, o excedente que seria usado em uma parcela, quem pode alegar que decidir pelo financiamento foi errado? Melhor pagar juros e terminar o fim do período com o imóvel do que permanecer no aluguel sem disciplina alguma para investir.
Agora, vamos usar os mesmos dados, mas nos baseando em um rendimento melhor, de 1% ao mês. Esse percentual maior seria possível com uma mescla de ativos diferentes, incluindo renda variável. A diferença é assustadora no décimo ano. Enquanto a estimativa do financiamento permanece igual, o dinheiro no bolso do investidor se multiplica:
ALUGUEL
Aluguel Excedente Investimentos
R$ 4.866,86 R$ 62,70 R$ 974.458,10 R$ 4.886,68 R$ 28,87 R$ 984.231,56 R$ 4.906,59 -R$ 5,04 R$ 994.068,83 R$ 4.926,58 -R$ 39,03 R$ 1.003.970,50 R$ 4.946,65 -R$ 73,10 R$ 1.013.937,10 R$ 4.966,81 -R$ 107,25 R$ 1.023.969,22 R$ 4.987,04 -R$ 141,49 R$ 1.034.067,43 R$ 5.007,36 -R$ 175,81 R$ 1.044.232,29 R$ 5.027,76 -R$ 210,21 R$ 1.054.464,41 R$ 5.048,25 -R$ 244,69 R$ 1.064.764,37 R$ 5.068,81 -R$ 279,26 R$ 1.075.132,75
Ou seja, teria poupado um valor maior que o imóvel, com uma renda que lhe
permite pagar um aluguel mais caro sem deixar seu patrimônio diminuir. Seguindo essa lógica, considerando rendimento de 1%, ao fim de trinta anos o resultado seria o seguinte:
FINANCIAMENTO
Total pago em juros R$ 909.720,00 Total pago em prestações R$ 1.469.720,00 Patrimônio total ao fim R$ 1.437.069,56
ALUGUEL
Total pago em aluguel R$ 2.446.127,72 Investimento total ao fim R$ 7.633.742,01
É isso mesmo: enquanto quem comprou manteve-se endividado por trinta anos, pagou milhares de reais em juros e garantiu um imóvel, ao fim, estimado em 1,4 milhão de reais, quem investiu teria o equivalente a cinco desses
imóveis, num total de 7,6 milhões de reais. [25] E aí fica de novo a pergunta: de qual lado dos juros você gostaria de estar, do que paga ou do que recebe?
E é assim que percebemos que comprar um imóvel não se trata apenas de realizar o “sonho da casa própria”. É o tipo de decisão que pode separar, literalmente, uma pessoa comum de um milionário. O mesmo raciocínio vale para diversas outras compras de alto impacto financeiro que citamos. Quando é a instituição financeira que recebe os juros, eles enriquecem, não você.
É por isso que a compra de um carro financiado, por exemplo, com certeza nunca vai valer a pena diante da possibilidade de utilizar transporte público e poupar o valor para uma compra à vista. Carros exigem manutenção periódica e terão seu valor de venda diminuído com o passar do tempo. Além disso, demandam gastos com combustível, taxas e impostos. Carro não é ativo, nem patrimônio, é gasto puro, e deve ser visto sempre como um passivo dentro do seu orçamento.
Mesmo diante do custo de manter o carro, a realidade é que o brasileiro médio adora esse tipo de bem e, de acordo com diversas pesquisas, faz uma relação direta entre um bom carro e status. Esse apego emocional a um passivo faz com que o tempo de troca de carro no país seja de apenas 1,7 ano, enquanto
nos Estados Unidos é de 3,1 anos e no Reino Unido, de 3,5 anos. [26]
Aproveitando essa vontade de gastar do consumidor brasileiro, algumas montadoras instaladas no país, inclusive, criaram sistemas de financiamentos com a meta de fidelizar seus clientes. O chamariz para o consumidor é uma entrada menor atrelada a uma espécie de garantia de recompra do carro usado no fim de um período, desde que a venda seja feita para a aquisição de um novo carro na mesma loja. Caso o cliente não queira trocar de carro e embarcar em um novo financiamento, ele é obrigado a pagar mais algumas parcelas, chamadas de residual. As condições oferecidas, se friamente analisadas,
parecem uma sentença de prisão perpétua ao endividamento. [27]
Veja uma simulação publicada no jornal Folha de S.Paulo:
Opções dadas ao
Valor do carro novo: R$ 62.990 Entrada: R$ 18.900 Parcelas: 30 x R$
consumidor ao fim do
1.208
período
Adquirir um novo carro e financiamento com a mesma montadora, Pagar um residual de 12 x
recebendo pelo seu carro cerca de 85% da tabela Fipe R$ 1.914
Dessa forma, o consumidor assume uma nova dívida ou paga um total de
78.108 reais pelo carro que à vista teria custado R$ 62.990,00. Se considerarmos
ainda uma depreciação [28] de cerca de 10% ao ano, esse ativo no fim de 42 meses valeria apenas 45.002,83 reais. Se em vez de comprar o carro – e pagar juros – nós tivéssemos feito exatamente o inverso, ou seja, investido os 18.900 reais, passado trinta meses aplicando 1.208 reais todos os meses, e depois aplicado por mais doze meses os 1.914 reais, teríamos 95.750,99 reais.
Carro financiado, valendo R$ 45.002,83 ao fim de 3,5 anos ou...
Investimento de R$ 95.750,99 na mão
Nesse exemplo de financiamento casado com a recompra, as condições para a
venda do usado para a loja ainda são rígidas, exigindo quilometragem e revisões dentro do prazo, sempre em concessionárias, entre outros. Vendo dessa forma, é difícil entender por que alguém entraria nesse tipo de enrascada. Mas a mesma matéria mostra o banco de uma montadora comemorando que esse tipo de contrato passou de uma participação de 45% dos financiamentos realizados entre fevereiro e abril de 2017 para 60% em dezembro do mesmo ano.
Evitar a antecipação do sonho é válido para todas as compras de alto valor
realizadas. Assim como o carro novo, uma viagem internacional por ano pode consumir uma parte considerável do seu orçamento, ainda mais se for parcelada com juros. Você merece viajar todo ano, mas esse hábito pode se tornar um ciclo sem fim de pagamentos.
Mas como ser feliz no presente e, de alguma forma, usufruir do esforço de ter
de trabalhar todos os dias? É para isso que servem aqueles 10% da sua renda que devem ser separados para serem “torrados”. É nesse tipo de gasto que eles devem entrar em ação, sempre alinhados aos seus gastos essenciais e à receita para investimento, para que seu caminho rumo ao milhão não fique comprometido.
A verdade é que nem tudo na vida pode ser decidido apenas com uma calculadora na mão. Alguns grandes gastos entram em uma seara mais subjetiva, e são bastante difíceis de serem ponderados de forma apenas racional. Entram nessa categoria viagens, uma festa de casamento para muitos convidados e até mesmo a decisão de ter filhos.
Uma viagem ao exterior pode ser preparada com bastante antecedência para evitar o custo de parcelas; uma festa de casamento pode manter um orçamento apertado; um bebê pode ser planejado para um momento de vida financeira mais tranquila. A conta é simples: caso você deseje ter mais capital para gastar com algo, terá que cortar despesas fixas e essenciais ou começar a ganhar mais.
O melhor modelo de orçamento para sua renda será sempre aquele que você mesmo aprendeu a construir. Encontrar o equilíbrio entre seus gastos, investimentos e prazer pode ser difícil, mas um rápido checklist pode ser feito antes de toda compra e auxiliar na sua tomada de decisão:
CHECKLIST PARA DECISÕES DE ALTO IMPACTO FINANCEIRO
De que lado estão os juros, do seu ou do banco?
Você está antecipando um sonho que pode ser usufruído com mais tranquilidade no futuro?
Com esta decisão, conseguirá manter sua meta de investir, pelo menos, 30% da renda todos os meses?
A motivação para este gasto é realmente importante para você ou apenas um ato consumista?
Avalie o gasto e espere alguns dias para reavaliá-lo. Pondere se será necessário utilizar o cheque especial ou pagar juros altos. Pode ser que, em pouco tempo, seu impulso tenha diminuído e você nem considere mais o gasto tão importante. Acredite: a pressa não é só inimiga da perfeição, mas do seu bolso também.
E assim fechamos o primeiro pilar proposto por este livro, que é o de aprender a raciocinar sobre os gastos. A partir de agora, você entende como o poder dos juros joga contra ou a seu favor, sabe da importância de racionalizar seu orçamento e repensar seus impulsos consumistas, uma vez que ter dinheiro e exibir bens e luxos não é, necessariamente, sinônimo de riqueza.
Seu salário pode ser mais alto que o dos seus amigos, sua renda pode ser
suficiente para ter um bom padrão de vida comparado à maioria dos brasileiros. Não importa quanto entra, se a saída de capital ao longo do tempo for maior e o saldo for negativo, tenho de lhe avisar: você não é rico. Se você sonha com um salário maior pensando apenas no carro bonito, nas viagens de luxo para postar nas redes sociais, no consumismo desenfreado e, ao conseguir uma promoção, automaticamente aumenta seu padrão de vida, sem pensar no futuro, você... provavelmente também não será rico.
O dinheiro – junto com a ostentação – pode ser apenas uma máscara da
riqueza se for desperdiçado, mal aplicado e não der garantias para o futuro. Quem esbanja não necessariamente tem uma conta bancária sólida e está preparado para todo tipo de eventualidade. Assim como usar uma máscara de super-herói no Carnaval não lhe dá poderes de verdade, ter dinheiro não o tornará rico enquanto você construir com ele apenas alicerces para a pobreza.
E agora, primo, vamos investir?
REFERÊNCIAS
Afonso, J. R. R. (maio de 2017). Fomento da Poupança Previdenciária. Fonte: FGV/IBRE:
http://slideplayer.com.br/slide/12072556/
____________ (23 de abril de 2018). Portal IBRE/FGV. Fonte:
http://portalibre.fgv.br/lumis/portal/file/fileDownload.jsp?
fileId=8A7C82C5593FD36B015BF80D3AC65EFC
B3. (28 de março de 2018). Fonte: http://www.bmfbovespa.com.br/pt_br/servicos/market-
data/consultas/historico-pessoas-fisicas/
___. (28 de março de 2018). Fonte: http://www.bmfbovespa.com.br/pt_br/servicos/market-
data/cotacoes/
Banco Central. (02 de abril de 2018). Fonte:
https://www3.bcb.gov.br/sgspub/localizarseries/localizarSeries.do?
method=prepararTelaLocalizarSeries
____________. (28 de junho de 2018). Fonte:
https://www.bcb.gov.br/htms/novaPaginaSPB/compulsorios.asp ____________. (28 de junho de 2018). Fonte:
https://www.bcb.gov.br/htms/novaPaginaSPB/compulsorios.asp ____________. (04 de maio de 2018). Calculadora do Cidadão. Fonte:
https://www.bcb.gov.br/calculadora/calculadoracidadao.asp
Banco Mundial. (02 de abril de 2018). Fonte: https://data.worldbank.org/indicator/FR.INR.LNDP?
view=map
Barsi, L. (2017). O Código da Riqueza. (www.ocodigodariqueza.com.br, Entrevistador) Bazin, D. (2017). Faça Fortunca com Ações. São Paulo: CLA. Buffett, W. E. (2007). Os superinvestidores de Graham-and-Doddsville. Em B. Graham, O investidor
inteligente (pp. 581-605). Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil. Buy Bitcoin Worldwide. (28 de março de 2018). Fonte: https://www.buybitcoinworldwide.com/pt-
br/preco/ da Silva, J. X., Barbedo, C. H., & Araújo, G. S. (abril de 2015). Há efeito manada em
ações com alta liquidez do mercado brasileiro? Trabalhos para Discussão – Banco Central do
Brasil.
Esperandei, S., Viera, M. C., & Reis, A. C. (novembro de 2016). Adherence to physical activity in an
unsupervised setting: Explanatory variables for high attrition rates among fitness center members.
Journal of Science and Medicine in Sport, pp. 916-920.
FGC. (28 de junho de 2018). Fonte: https://www.fgc.org.br/garantia-fgc/sobre-a-garantia-fgc FipeZap. (29 de março de 2018). Fonte: http://www.fipe.org.br/pt-br/indices/fipezap/ Folha de S.Paulo. (11 de Fevereiro de 2018). Financiamento de veículos vira plano de fidelização.
São Paulo. Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/sobretudo/rodas/2018 /02/1956214-
financiamento-de-veiculos-vira-plano-de-fidelizacao.shtml
Graham, B. (2007). O investidor inteligente. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil. IBGE. (23 de abril de 2018). IBGE. Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística:
https://ww2.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/precos/inpc_ipca/defaultseriesHist.shtm Social Blade. (03 de abril de 2018). Fonte: https://socialblade.com/youtube/user/thigas Sperandei, S., Vieira, M. C., & Reis, A. C. (novembro de 2016). Adherence to physical activity in an
unsupervised setting: Explanatory variables for high attrition rates among fitness center members.
Journal of Science and Medicine in Sports, pp. 916-920.
Taleb, N. N. (2012). Antifragile. Nova York: Random House.
Telefónica. (2014). Connected Car Industry Report. Fonte:
https://iot.telefonica.com/system/files_force/telefonica_digital_connected_car_report_english_36. pdf?download=1
Tesouro Direto. (28 de março de 2018). Fonte: http://www.tesouro.gov.br/pt/balanco-e-estatisticas Tesouro Nacional. (12 de junho de 2018). Fonte: http://www.tesouro.gov.br/tesouro-direto-entenda-
cada-titulo-no-detalhe#this
_______________. (24 de junho de 2018). Fonte: http://www.stn.fazenda.gov.br/tesouro-direto-
entenda-cada-titulo-no-detalhe
Vérios. (27 de julho de 2018). Comparação de Fundos. Fonte:
https://verios.com.br/apps/comparacao/log/1ano/cdi/