Do Mil ao Milhão: Sem Cortar o Cafezinho
Pilar 2. Investir melhor
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Realizando
projeções realistas
Existe um comportamento comum a todas as pessoas que pretendem começar a investir: ao decidirem se vale a pena aportar recursos em uma determinada aplicação, olham primeiro para o rendimento. Se ele for satisfatório, passam para a próxima etapa, a de verificar outras condições; caso contrário, a aplicação é desconsiderada.
Esse comportamento é errado por diversos motivos, mas existe uma falha principal nele, a de execução. Isso porque, para descobrirmos se o rendimento de uma aplicação é satisfatório ou não, temos que recorrer a uma projeção. Só que poucos sabem fazer projeções realistas. A maioria das planilhas e cálculos acaba sendo muito mal utilizada, e oportunidades que às vezes não são ruins são abandonadas por simples erros de conta.
Há uma maneira de comparar diferentes aplicações no mercado financeiro, que carinhosamente apelidei de “Triângulo de Nigro”. Não inventei a teoria, mas é a fórmula que encontrei para simplificar a avaliação de aplicações no mercado financeiro. O Triângulo de Nigro considera que todo investimento deve ser observado em três pontas: a do risco, a da liquidez e a do rendimento.
As três pontas apresentam uma relação muito íntima. Se uma aplicação é arriscada para o investidor, esse risco que será tomado deve ser convertido em um “prêmio” nas demais pontas do triângulo. É preciso ganhar algo com o que está na ponta oposta do que se escolhe.
É o que vemos, por exemplo, no mercado de ações. Quando o investidor
decide entrar na Bolsa de Valores, o risco da operação é muito maior, por ter de lidar com as oscilações de preços e o desempenho das empresas de capital aberto. Todavia, esse risco maior é compensado por maiores possibilidades de ganhos.
No período de 1995 até 2018, por exemplo, enquanto o CDI rendeu
aproximadamente 9,35% ao ano em retornos reais – ajustado pela inflação –, a ação da Ambev devolveu a seu acionista 18,12% ao ano.
Agora podemos pensar em outro exemplo, focando a liquidez: os CDBs.
Encontramos no mercado CDBs de uma mesma instituição, mas com diferentes prazos. Por serem da mesma instituição, o risco de crédito é sempre o mesmo, mas a mudança de liquidez também interfere no rendimento da aplicação, como podemos ver a seguir:
CDB BANCO PAN S/A
Liq. diária CDB Pan - junho/2019 Regressivo 100% CDI 365 dias R$ 1.000,00
CDB BANCO PAN S/A
CDB Pan - junho/2021 Regressivo 119% CDI 1.096 dias R$ 5.000,00
A imagem apresenta dois CDBs de uma mesma instituição, mas enquanto
um vence em 365 dias, o outro termina em 1.096 dias. Essa diferença de vencimento, por sua vez, foi compensada pelo rendimento da aplicação, que passou a ser de 119% do CDI.
Imagine que você tenha dinheiro aplicado no banco e pode resgatá-lo a
qualquer momento. Seu ganho – hipotético – é de 10% ao ano. Se seu gerente propuser travar essa aplicação por dez anos, o que você vai fazer? Resgatar ou continuar com a aplicação? Depende. Se ele te oferecer uma taxa maior para compensar esse benefício de resgate imediato que você não terá mais, você pode cogitar deixar seu dinheiro aí.
Por isso, a ideia do Triângulo de Nigro é simples: na hora de analisar suas
aplicações, faça uma comparação entre as aplicações disponíveis e veja qual faz mais sentido, de acordo com o prêmio que elas oferecem. Se, no exemplo anterior, os dois CDBs tivessem a mesma rentabilidade, a melhor opção, claramente, seria o CDB com maior liquidez, ou seja, com a menor data de vencimento. Isso porque você teria acesso mais rápido ao seu investimento sem nenhuma contraparte comparado ao CDB de maior data de vencimento.
Para efeitos de comparação, sempre avalie algum título público também, preferencialmente o Tesouro Selic, já que ele é o mais seguro do Brasil teoricamente. Se entre o Tesouro Selic e um CDB não houver um prêmio que justifique o seu risco maior na operação, você deve optar pelo de menor risco, o Tesouro Selic.
CALCULAR CORRETAMENTE FAZ A DIFERENÇA Errar décimos da inflação ou se esquecer de contabilizar o imposto de renda na projeção pode fazer você tomar uma decisão fora da realidade. Podemos ir um pouco além e notaremos que, apesar de alguns até se lembrarem de adicionar essas variáveis, não sabem como calculá-las da forma correta. Presenciei muitos casos em que, por exemplo, investidores descontaram a inflação de um período apenas subtraindo a taxa de inflação da taxa de juros
nominal. [29] Isso está errado, mas é o tipo de resultado que compartilham na internet, em livros, no trabalho e entre amigos.
Na tabela a seguir, podemos ver como a projeção pode mudar bastante conforme o jeito que a calculamos:
Investimentos mensais (PMT) R$ 500,00 Valor inical investido (PV) R$ 1.000,00 Taxa de rendimento (i) 12,0% Número de períodos (n) 200 Taxa de inflação (IPCA) 5,0% Alíquota de impostos (IR) 15,0% Valor total investido (inicial + aportes) R$ 101.000,00 Rendimentos Sem imposto de renda Com imposto de renda Rendimentos desconsiderando inflação R$ 305.108,37 R$ 274.492,12 Rendimentos subtraindo inflação R$ 182.611,89 R$ 170.370,11 Rendimento utilizando a metodologia correta R$ 182.139,85 R$ 169.968,87
Em um investimento de duzentos meses, com valor inicial de 1 mil reais e aportes mensais de quinhentos reais, podemos perceber que, se desconsiderarmos a inflação, o valor da projeção será muito maior do que o que vamos obter ao fim. Se ainda considerarmos a inflação, mas apenas a subtrairmos do rendimento, também teremos como resultado um valor superior ao efetivamente correto.
A metodologia correta para esse tipo de cálculo está indicada a seguir. Se
você for do tipo que nunca gostou de números nem de fazer contas, esta pode ser uma boa hora para mudar de ideia. Se esta já for a sua praia, aproveite para relembrar como se faz:
A. TAXA REAL DE JUROS
Para calcular a taxa real de juros da maneira correta, precisamos utilizar uma fórmula simples:
Juro real = [(1 + taxa nominal) ÷ (1 + taxa de inflação) – 1] × 100 Então, utilizando o exemplo exposto na tabela, o cálculo correto seria o
seguinte:
Juro real = [(1 + 0,12) ÷ (1 + 0,05) – 1] × 100
Juro real = (1,066 – 1) × 100
Juro real = 6,66%
Percebemos, então, que o juro real correto fica um pouco menor do que o
valor obtido apenas por meio da subtração simples de taxas.
B. TAXA REAL MENSAL DE JUROS
O próximo passo será transformar a taxa real de juros em uma taxa mensal. Para isso, precisamos mudar o formato da taxa anual, obtida no passo anterior, de modo que seja apresentado o dado mensal. A fórmula para essa transformação está representada a seguir:
Taxa mensal = [((1 + taxa anual)1/12) – 1] × 100
Utilizando a taxa real, obtemos o seguinte resultado:
Taxa mensal = [((1+ 0,066)1/12) – 1] × 100
Taxa mensal = 0,534% a.m.
Com essa taxa definida, basta realizar o cálculo de juros compostos em
uma calculadora financeira, seja a tradicional ou a disponível online. Desse resultado, retire a porcentagem relacionada ao imposto de renda, sempre lembrando que ele incide apenas sobre o rendimento da aplicação, não sobre o montante total. Assim, a projeção está calculada da forma correta.
Eis os principais erros cometidos pelas pessoas ao fazer projeções:
1 Considerar que a taxa de rentabilidade hoje será mantida para os
próximos dez, vinte ou trinta anos, embora geralmente ela mude, quase sempre para pior;
2 Não considerar o imposto de renda no fim;
3 Descontar a inflação da taxa de rentabilidade com uma subtração
simples.
Às vezes pode parecer sedutor projetar seus investimentos para trinta anos sem considerar a inflação e o imposto de renda. Usando esse nosso exemplo,
a diferença no fim seria de quase 1 milhão de reais. [30] Mas não se deixe enganar! Quem te vende uma projeção calculada de maneira negligente não estará no mercado daqui a trinta anos. Nunca se esqueça de que o dinheiro é seu, e o maior interessado em ver isso dar certo é você. Ninguém quer chegar lá na frente e descobrir que os planos feitos de forma meticulosa há trinta anos estavam com erros de cálculo!
GANHE TEMPO DE VIDA
Certo dia, um grande amigo e eu oferecemos uma mentoria para um grupo de cerca de quarenta pessoas. Entre outras coisas, falamos sobre investimentos. Quando terminei, percebi que quem tivesse prestado bastante atenção no que falei não só sairia de lá podendo fazer seu dinheiro render mais, mas também teria mais tempo para viver bem. Entendi que pensar sobre dinheiro é falar sobre tempo e o que se pode fazer com ele, e vou explicar como cheguei a essa conclusão.
No começo, falei sobre poupança, afinal de contas mais da metade da
população ainda investe nessa modalidade. [31] Isso significa que seis entre dez pessoas que você conhece ainda mantêm dinheiro guardado dessa forma. Em uma pequena lousa branca, demonstrei para os participantes da roda como a poupança funciona.
Em primeiro lugar, é bom lembrar que existem dois tipos de poupança, a antiga e a nova. Todos os aportes feitos até o dia 03/05/2012 na poupança seguem a regra da poupança antiga, e todos os aportes feitos de 04/05/2012 em diante seguem as regras da poupança nova.
Depósitos a partir de 04/05/2012 com Selic menor ou igual a 8,5% ao ano 70% da Selic + TR
Depósitos a partir de 04/05/2012 com Selic maior que 8,5% ao ano 0,5% ao mês + TR
Depósitos até 03/05/2012 em qualquer patamar de Selic 0,5% ao mês + TR
Elas se diferenciam quando a taxa Selic está menor ou igual a 8,5% ao
ano.
Exemplo 1: Se a taxa Selic estiver em 10% ao ano
Rendimento da poupança antiga: 0,5% ao mês + Taxa Referencial (TR). Ou seja, 6,17% ao ano + TR.
Rendimento da poupança nova: como a taxa Selic está acima de 8,5%, o rendimento é igual à poupança antiga.
Exemplo 2: Se a taxa Selic estiver em 6,5% ao ano
Rendimento da poupança antiga: 0,5% ao mês + TR. Ou seja, 6,17% ao ano + TR.
Rendimento da poupança nova: 70% da Selic + TR. Ou seja, 4,55% ao ano + TR.
É importante notar nos exemplos que:
1 O rendimento da poupança antiga é superior ao da poupança nova – e
à maioria das aplicações tradicionais de renda fixa –, quando a taxa de juros está muito baixa;
2 A TR [32] costuma ser muito baixa, muitas vezes quase zero.
Retomando então minha breve apresentação para essa turma de mentoria,
apontei que naquele momento o rendimento anual da poupança estava na casa dos 4,55%, e a inflação, em 3,65%. Perguntei quanto dinheiro teríamos ao fim do ano se aplicássemos 100 mil reais na poupança, e a resposta uníssona foi: 104.550 reais. Afinal, se aplicarmos o rendimento de 4,55% da poupança no ano sobre os 100 mil reais, teremos esse resultado. Mas será que esse cálculo está correto?
Ele está correto e errado ao mesmo tempo. Matematicamente, sim, o saldo
que aparecerá na conta no fim do ano será esse mesmo, mas não terá o mesmo valor dos 104.550 reais projetados hoje.
Se a inflação for de fato 3,65% no ano, significa que a variação média dos
preços de produtos e serviços que consumimos será de 3,65%. Ou seja, o que eu compro hoje com 100 mil reais precisará de 103.650 reais para ser comprado em doze meses. Por isso, meu ganho, de fato, será a diferença entre 104.550 reais e 103.650 reais. Assim, terei um ganho real de apenas novecentos reais no período, ou de 0,9% no ano, ou 0,075% ao mês.
Se aplicarmos 1 milhão de reais, teremos um ganho anual de 9 mil reais. A reação de todos foi de choque e descrença, pois, afinal de contas, como daria para se aposentar ou “fazer o dinheiro trabalhar por eles” se o rendimento era tão baixo? Essa é a mesma pergunta que todos deveriam estar se fazendo, já que boa parte dos poupadores brasileiros segue apenas aplicando na poupança todos os meses.
Agora, faça as contas: 9 mil reais por ano representam 750 reais por mês. Dá para dizer que, com 1 milhão de reais em conta, você pode se aposentar com tranquilidade ficando apenas na poupança?
Para começar a introduzir para essa turma novas possibilidades de investimentos, apresentei a eles o Tesouro Direto. Falei dele algumas páginas atrás quando tratamos do fundo de emergência, ainda no pilar “Gastar bem”, e adiante teremos outros detalhes. Mas é importante entender que o Tesouro Direto apresenta diversas opções de títulos, com características e objetivos diferentes.
O mais tradicional deles é o Tesouro Selic, que é a aplicação mais conservadora do Brasil. Ele tem por característica um rendimento em linha com a taxa básica de juros do país, a Selic.
Só que, ao contrário do que a maioria sabe, não existe apenas uma taxa Selic. Não iremos entrar em muitos detalhes, mas em termos gerais ela se divide em Selic Meta, aquela estipulada pelo Comitê de Política Monetária (Copom), e a Selic Over, sempre um pouco menor, obtida a partir do financiamento no mercado interbancário lastreado em títulos públicos. O rendimento do Tesouro Direto Selic se baseia na taxa Over.
No dia da minha apresentação, em junho de 2018, a Selic Meta estava em 6,5% e a Selic Over em 6,4%. Ora, se o Tesouro Selic rende 100% da Selic Over, então a rentabilidade no ano será de 6,4%. Diferentemente da poupança, que tem isenção de imposto de renda para o investidor pessoa física até certo limite, no Tesouro Direto existem descontos do IR, conforme já apresentado no “Pilar 1” deste livro.
Ou seja, se o resgate for realizado depois de um ano, seu IR será de 17,5% sobre o lucro. Isso significa que a rentabilidade de 6,4% bruta será de 5,28% líquida. O ideal é que você resgate as aplicações de renda fixa sempre depois
de dois anos, para uma melhor otimização do IR. [33] Por isso, usarei 15% como referência para o cálculo.
O Tesouro Selic, no exemplo, teria um rendimento líquido de 5,44% ao
ano. Se retirarmos a inflação de 3,65% no ano, teremos então um rendimento real e líquido de 1,79% no ano – arredondado para 1,8%.
A conclusão é que, se na poupança o rendimento é de 0,9% ao ano (real e
líquido), e no Tesouro o rendimento é de 1,8% ao ano (real e líquido), a rentabilidade que conquisto em um ano no Tesouro é muito próxima à encontrada em dois anos de poupança. A cada dez anos aplicando no Tesouro, tenho um rendimento semelhante ao de vinte anos aplicando na poupança. É esse o poder de aplicar melhor. Não é só dinheiro que ganhamos. É tempo!
Quanto antes, melhor
Nunca é tarde para começar a investir melhor, mas, quanto mais tarde isso é feito, mais caro fica se aposentar. É como se você chegasse numa loja e tivesse dinheiro para pagar à vista. Quanto maior a entrada, menores os juros e maior o desconto. Pense na sua aposentadoria como um produto que você financia: quanto maior a entrada, menores ficam as prestações.
No Brasil, há uma peculiaridade que pode ser benéfica a você,
dependendo de seu nível de maturidade como investidor. Há algum tempo não era necessário muito conhecimento, mas apenas dinheiro disponível, para investir bem, pois as aplicações tinham barreiras de entrada maiores aos pequenos investidores. Hoje, no entanto, precisamos de informação, pois é possível acessar uma gama imensa de produtos, mesmo com poucos recursos.
Quase nunca paramos para fazer conta, mas vamos entender, com uma
analogia simples, o que acontece. Se você viajar com a família e tiver de chegar até uma praia a cem quilômetros de distância, após percorrer os cem quilômetros chegará ao destino. Mas e se errar o caminho? Vamos supor que ande dez quilômetros na direção errada logo no começo da viagem. Você não vai ter de andar apenas dez quilômetros a mais para corrigir a rota, mas sim o dobro. Serão dez quilômetros de erro e mais dez quilômetros para voltar ao ponto zero. Com o dinheiro é a mesma coisa.
Em uma simulação simples, se você investe 880 reais por mês de forma disciplinada, chegará a 1 milhão de reais em trinta anos, caso consiga uma taxa de 0,55% de rendimento ao mês. Mas o que acontece se você passar o primeiro ano (apenas um em trinta anos) sem aplicar os 880 reais mensais? Você vai ter deixado de aplicar 10.586,40 reais, mas chegará ao fim do período com 924 mil reais. Ou seja, por um ano de aplicação, você abriu mão de quase 80 mil reais no futuro. E o que isso significa? Que você deve começar desde já!
Esse é o preço do dinheiro no tempo. Tome cuidado, não postergue sua decisão e comece agora. Se ainda não está convencido, preciso, então, lhe contar mais sobre o CDI.
Como falamos no primeiro capítulo, o CDI é o Certificado de Depósito Interbancário, uma taxa muito importante para estabelecer um parâmetro aos rendimentos das aplicações de renda fixa. Quanto maior o CDI, melhor para
as aplicações de renda fixa pós-fixadas. [34] Quanto mais alto ele for, maior a rentabilidade das aplicações conservadoras, aquelas que não exigem muito estudo.
Há algumas décadas, o CDI era absurdamente alto. Não precisávamos pesquisar muito, pois qualquer aplicação de renda fixa fazia o capital dobrar muito rápido. No passado, demorávamos quatro anos para dobrar os rendimentos em renda fixa, mas hoje são necessários quase vinte anos.
Para ilustrar como era mais fácil dobrar o capital investido no passado, comparei o que acontecia com o CDI em duas ocasiões. Em 1997, a taxa anualizada era de 41,17% a.a., o que exigiria 25 meses de aplicação para dobrarmos o capital. Já em 2017, a taxa foi de 6,99% a.a., exigindo que a aplicação ficasse ali por 124 meses para dobrar de valor.
Veja o gráfico a seguir, com dados do Instituto de Pesquisa Aplicada (Ipea):
Cada ponto na linha preta representa a taxa mensal do CDI. Perceba que
há um padrão aqui. Uma hora é maior, outra menor, mas a taxa está em uma tendência de declínio. Isso significa que a cada mês o CDI está com um rendimento menor. E como isso impacta seu bolso?
Simples: hoje precisamos fazer um esforço maior para manter a
rentabilidade de nossa carteira em patamares interessantes. No passado, qualquer CDB ruim de banco poderia nos prover mais de 1% de rentabilidade líquida ao mês. Hoje, isso é raridade no mundo bancário – ainda mais para aqueles clientes com menos de 1 milhão de reais em aplicação, que acabam caindo no atendimento de varejo, sempre com acesso às piores taxas.
Conheça os tipos de contas
CONTA VAREJO:
A conta varejo é aquela básica, oferecida pelos bancos ao grande público, sem separação por renda ou inclusão
de atendimento com muita exclusividade. É um estilo de conta que, em teoria, tenta ser mais prática e incentiva
operações no ambiente online.
Para este perfil, não são disponibilizadas uma assessoria financeira ou consultoria de investimentos de
qualidade. Este público muitas vezes recebe ofertas de produtos de baixa rentabilidade, com taxas elevadas.
Mesmo em sua versão mais simples, ser correntista de algum banco no varejo pode garantir alguns benefícios,
como desconto em ingressos para o cinema, teatro e restaurantes. Na grande maioria das vezes, porém, estas
amenidades não justificam o valor de manutenção cobrado por estas contas. Como as taxas são altíssimas, esses
clientes acabam por vezes “sustentando” os subsídios recebidos pelos clientes com maior patrimônio no banco.
CONTAS PREMIUM:
Voltadas para o público com renda um pouco mais elevada, a conta premium é para aquele cliente que não
utiliza serviços apenas para pagar contas, mas possui capital para começar a investir.
Para esses clientes, o banco já começa a oferecer alguns diferenciais, como agências exclusivas sem filas, café
fresco e ligações diretas com um gerente exclusivo. O serviço continua falho na oferta de produtos, com taxas
elevadas e um retorno aquém do que a conta exige de patrimônio para o cliente.
Entre os privilégios, está o acesso a taxas de juros um pouco menores, até porque este perfil de cliente possui um
patrimônio que dá mais garantias ao banco.
CONTA PRIVATE:
A conta do estilo private é para poucos. São oferecidas, em média, para quem tem pelo menos mais de 5
milhões de reais de patrimônio. O banco, neste caso, se torna muito mais cuidadoso ao lidar com o cliente, com
a oferta de investimentos realmente competitivos.
Mesmo assim, é preciso atenção. É comum o cliente acreditar que, sendo private, encontrará taxas melhores
que as de mercado, mas o problema é que o banco lhe dará poucas opções de aplicações.
Muitas vezes, o que fideliza o cliente private são apenas os mimos, como um cartão de crédito com um
interessante conversor de pontos de programas de fidelidade e outros presentes, como ingressos para corridas de
Fórmula 1, pacotes especiais de viagens e participação em eventos. Ainda assim, nessa categoria de atendimento
existe um diferencial competitivo muito forte.
Efeito manada
Quem nunca, ao caminhar na rua, se deparou com alguém olhando para cima, observando algo que parece estar distante, e instintivamente olhou para cima também para saber do que se tratava? Se a rua está movimentada, pode ser que em poucos minutos um pequeno aglomerado de pessoas esteja olhando para cima, mesmo sem fazer a mínima ideia do porquê. Talvez quem iniciou o gesto nem esteja mais ali para explicar o que estava acontecendo.
Se você fez algo sem pensar muito bem no porquê, apenas porque viu que outras pessoas estavam fazendo, agiu sob o conhecido “efeito manada”. É difícil, em determinadas situações, não ser influenciado por uma massa, mesmo que na hora isso nem seja percebido.
Quando falamos de mercado financeiro e de Bolsa de Valores, é quase impossível não tratar desse tema. Apesar de a maioria das pessoas ter uma ideia de que quem investe em renda variável toma decisões sempre muito racionais e baseadas em contas e fatos reais, a verdade é que só o efeito manada explica por que investidores, repetidamente, compram ativos quando eles estão em alta e os vendem na baixa, sendo que essa atitude geralmente resulta no pior retorno financeiro possível.
Um exemplo clássico do efeito manada é a atitude tomada por João, um investidor – fictício – tipicamente conservador. Durante toda a vida, João só investiu seu dinheiro em aplicações de títulos do governo, mas, como a taxa de juros começou a cair, seus rendimentos minguaram. Insatisfeito, João decidiu acompanhar os jornais para tentar
antever quando a taxa de juros voltaria a subir de novo, [35] pois isso devolveria rentabilidade a seus investimentos.
Nos jornais, porém, só se falava de outra coisa: ações. Ele pensou: “Isso é o que está dando dinheiro agora. É o momento de comprar, o mercado está em alta e todo mundo está ganhando dinheiro com a Bolsa!”
Assim como todos que apareciam felizes nas reportagens, falando de lucros e ganhos, João decidiu que partiria para a Bolsa. Comprou ações de uma empresa cujo nome nem sabia direito, mas havia verificado que, há dois dias, ela tinha mostrado uma valorização de 5% em apenas um dia.
Mas assim que comprou o ativo, seu valor caiu mais do que havia valorizado nos outros dias. Com medo de perder todo o seu dinheiro, pediu um resgate das ações, arcando com um prejuízo de cerca de 9%. Você já ouviu falar de alguém que passou por isso?
Talvez o exemplo mais icônico do efeito manada tenha sido o que aconteceu com MNDL3, as ações da Mundial, empresa no setor de tecidos, vestuário e calçados, conhecida por vender alicates de unhas. No dia 6 de abril de 2011, as ações dela começaram o dia, sem motivo aparente, com um aumento súbito de 12,5%, fechando o pregão com alta de 24,31%. Ou seja, seu valor saltou de 28,26 reais no dia 5 de abril de 2011 para 35,14 reais no dia 6 de abril de 2011.
A alta era impressionante, mas nada perto do que aconteceu depois. Vale lembrar que as ações dessa companhia não tinham muita liquidez antes, mas, ainda assim, no dia 1º de junho de 2011, quase dois meses depois, seus papéis valiam 130,89 reais. Estamos falando aqui de uma alta de 363,16%. Nesse patamar, as pessoas já não se importavam com os fundamentos da empresa, que, aliás, terminou o ano de 2011 com um prejuízo de quase 39
milhões de reais. [36]
Eu já operava no mercado e via muitas pessoas com a convicção plena de que, se comprassem ações de MNDL3, aumentariam em 10% seu patrimônio em apenas um dia. Mas consegui controlar minha gana e não me movimentei. No dia 11 de julho daquele ano, um mês e alguns dias depois, as ações bateram o valor de 958,78 reais. Isso representava uma alta de 3.292,71%.
É claro que eu cheguei a considerar que havia perdido uma oportunidade – todo mundo que está nessa situação a certo ponto se pega pensando nisso. Mas eu sabia que investidores mal avisados não enxergam o ciclo do papel e olham para a rentabilidade futura como se ela fosse um espelho do passado.
O investidor, no fim das contas, é quase sempre um arrependido. Quando determinada ação sobe, ele se arrepende por não ter comprado mais desse papel antes. Quando ela cai, lamenta o dinheiro perdido. Quando não faz nada e vê outros ganhando dinheiro, se arrepende de não ter investido naquele determinado ativo.
No caso da Mundial, investidores incautos entraram no circuito e começaram a comprar o papel, mas em curtíssimo tempo tentavam revendê-lo para aqueles mesmos que já tinham realizado um bom lucro com o mesmo ativo. Esse tipo de investidor é movido primeiro pela ganância, depois é desarmado pelo medo. Como quem iniciou o ciclo de alta já tinha feito muito dinheiro e os fundamentos da empresa não eram sólidos, em pouco tempo o papel entrou em queda, com todos querendo se livrar dele. Em nove dias, as ações
despencaram para 112,79 reais, uma queda de 88,24%. [37]
O caso é emblemático porque, devido à sua baixa liquidez, soube-se que houve manipulação de grandes investidores na compra e venda dessas ações. Quem perdeu mais, é claro, foi o investidor desavisado. E esse ciclo sempre se repete, porém nem sempre com tanta evidência.
O motivo da ganância pela ação da Mundial era simples. Se você pudesse manter estável a taxa de 3.292,71% de reais ao ano, uma aplicação de 10 mil reais renderia:
Em um ano: 339 mil reais.
Em cinco anos: 449 bilhões de reais (com “b” mesmo).
É compreensível que isso motivasse algumas pessoas se o rendimento fosse fixo. Mas se tratava de renda variável, e acertar em momentos de tanta variação sem motivo aparente é extremamente improvável. Mesmo com tantos exemplos, a verdade é que esse tipo de situação continua sendo muito comum entre os investidores da Bolsa de Valores, e até mesmo os mais experientes cometem erros desse tipo.
Podemos detalhar visualmente o efeito manada da forma como está neste gráfico elaborado pelo economista – e amigo – Richard Rytenband:
Na imagem, podem ver que no início de movimento de alta do ativo apenas o smart money, ou seja, de agentes muito profissionais do mercado, entrou para a compra de ativo, que tinha um valor baixo. Nesse ponto, a mídia especializada cautelosa começa a falar sobre o ativo e o mercado, mas aos poucos investidores institucionais, aqueles que gerenciam grandes recursos e são muito bem instruídos, começam a ser atraídos, levando a um movimento suave de alta de preços. Com a alta progressiva, a mídia especializada mais confiante começa a publicar notícias otimistas sobre aquela empresa e o ativo passa a ser descrito como bom para o longo prazo. Com seu valor já muito elevado, o papel atrai o público geral, que finalmente fica sabendo de sua existência, seja por indicação de amigos ou da mídia não especializada, criando um último pico de subida. Aliás, quando o assunto começa a aparecer em tudo que é portal de notícia e televisão, é bom tomar cuidado – experiência própria.
A partir daí o ativo pode ter atingido o preço máximo, e agentes especializados o elencam como já sendo muito caro, o que significa que seu potencial de alta é muito menor. Quem entrou no investimento tardiamente começa a perceber que ele não sobe mais tão rápido e, com medo, quer se livrar do papel. O problema é que, nesse ponto, poucos vão querer comprá-lo.
Voltando ao investidor João, podemos ver que ele está agindo em um cenário em que até mesmo a mídia não especializada em finanças passou a falar sobre a Bolsa de Valores. Isso é um alerta de que uma forte correção, como na imagem anterior, está para chegar. Para o investidor inteligente, mais do que um alerta de caos, é um alerta de oportunidade.
Isso porque, apesar de o efeito manada fazer com que muitos investidores percam dinheiro, também é uma grande oportunidade para os que estão atentos. É justamente quando a grande massa se afoba, amedrontada, e faz o mercado cair que surgem as grandes oportunidades de compra em Bolsa de Valores.
Acompanhe este gráfico:
Ele mostra o dia conhecido como “Joesley Day” e o que aconteceu nos dias seguintes. [38] Em 17 de maio de 2017, com a notícia de que o então presidente Michel Temer havia sido gravado em conversas ligadas à corrupção com o empresário Joesley Batista, dono da JBS, o mercado ficou em pânico e entrou em ritmo acentuado de queda. Não que esse medo não fosse justificável, muito pelo contrário: o risco político do Brasil, naquele momento, era nítido. Ninguém sabia dos rumos políticos do país depois do impeachment da presidente Dilma Rousseff ocorrido meses antes.
Nesse gráfico do Índice Bovespa (IBOV), [39] é possível notar que, após a queda, houve uma recuperação com alta de mais de 30%, posicionando o mercado em um patamar melhor do que estava antes da grande queda. Quem aproveitou a queda causada pela massa amedrontada e fez compras bem pensadas conseguiu uma valorização muito interessante no pós-crise.
COMO TOMAR A MELHOR DECISÃO,
EM 99,9% DAS VEZES
Todas as vezes que você se deparar com uma situação em que é necessária uma decisão relacionada a investimentos, precisa entender um conceito muito importante, mas não tão simples, chamado “custo de oportunidade”. O Triângulo de Nigro também se baseia nele, e suas três pontas – rentabilidade, liquidez e risco – sempre devem ser analisadas antes de um aporte.
Para refletir sobre o “custo de oportunidade”, o primeiro passo é criar um parâmetro de referência, sendo o melhor deles sempre o Tesouro Selic, considerado o investimento mais
seguro do país. Por se tratar de um título público, [40] seu risco advém da possibilidade de o governo brasileiro quebrar. Logo, por ser o ativo mais conservador que existe no mercado financeiro, pode ser utilizado como referencial para todas as aplicações que fazemos.
Vamos imaginar que temos a opção de investir entre o Tesouro Selic e o CDB de um banco. Sabemos que o Tesouro Selic é o investimento mais conservador, certo? Então, para valer colocar dinheiro no CDB, que tem um risco um pouco maior, o rendimento final terá que ser um pouco superior.
É aí que entram em cena outras duas características muito importantes para os investimentos: a liquidez – ou seja, a facilidade em que podemos ter o dinheiro do investimento em mãos – e a rentabilidade. São elas que irão compor o que nós chamamos de “prêmio pelo risco”. Para que faça sentido adquirir um risco maior nas aplicações, precisamos ser recompensados – com maior rentabilidade ou maior liquidez, de preferência os dois. Como o Tesouro Selic possui uma alta liquidez e segue a taxa Selic, isso o torna um referencial perfeito.
No entanto, por mais que tenhamos claro o referencial, precisamos entender que devemos investir o dinheiro apenas naquilo que entendemos de fato. Sempre serão oferecidos para o investidor produtos que parecem ser muito vantajosos, ou aquela dica quente e chamativa de um produto com alta rentabilidade. Também pode ser visto em um artigo de jornal algo novo que está sendo disponibilizado no mercado, mas do qual temos poucas referências e experiências compartilhadas.
Não existe dica quente no mercado. O investidor astuto não
sai compartilhando por aí as operações que podem ser mais
vantajosas para ele.
Se não entendemos bem do que se trata, como vamos poder avaliar o efeito real do investimento no longo prazo? Pode até ser que no curto prazo a aposta em algo novo e desconhecido dê certo, mas um susto no futuro pode fazer com que a perda seja muito maior do que os ganhos acumulados. Avaliar o que se faz começa com passos muito simples, como primeiro questionar se aquele produto rende mais que o CDI e quais são os índices que podem influenciá-lo negativamente.
E, da mesma forma que retornar para o caminho certo naquela viagem em família leva tempo e consome gasolina, errar no investimento ou aportar recursos em algo falho faz com que você perca anos investidos e recursos conquistados com muito suor. Às vezes, vale mais a pena apostar no velho mapa impresso em papel do que naquele GPS que perde o sinal no meio da estrada ou possui funções que você nem sabe operar muito bem. Pode render menos ou até perder algum atalho interessante, mas é mais seguro.
A MELHOR CARTEIRA
Já falamos sobre projeções, sobre como aproveitar oportunidades e decisões. Mas como estruturar uma carteira de investimentos da forma correta? Muitos dirão que basta olhar para o rendimento dela – mas, como você deve imaginar, isso não basta.
Apesar de parecer o mais importante, uma boa carteira de investimentos não é aquela que promete maior rendimento, mas sim a que atende melhor tanto as suas necessidades de curto prazo quanto as de longo prazo. Isso se faz necessário porque de nada adianta investir no longo prazo e buscar rentabilidade futura se os investimentos de curto prazo não estiverem garantidos.
Antes de entrar em detalhes, é preciso ressaltar que muitas pessoas, ao começarem a investir, ainda possuem dívidas. Elas sempre fazem esta pergunta:
— Vale mais a pena quitar as dívidas antes de começar a investir ou é melhor partir direto para os investimentos?
Se olharmos apenas o lado financeiro, faz sentido investir, desde que os juros das aplicações sejam maiores do que as dívidas. Mas temos que considerar também a ideia de antifragilidade nesse momento. Por mais que possamos encontrar aplicações que rendam mais do que nossas dívidas – lembrando que conseguir isso é bem difícil –, a realidade é que as dívidas não só nos tornam mais fracos, mas também nos deixam à mercê do risco da ruína.
Por mais que a rentabilidade possa ser atrativa, o fato de haver a possibilidade de que o investimento dê errado pode potencializar ainda mais os danos de uma dívida que não é paga no momento certo... Além do risco de falhar na escolha do investimento, outros acontecimentos adversos podem ocorrer, como uma doença na família ou perda do emprego. Um bem pode ser roubado ou uma conta extra aparecer. Por isso, só há um tipo de investimento que foge a essa regra, e ele é justamente aquele que ajuda a estruturar os investimentos de curto prazo: o fundo de emergência. Assim, por mais que matematicamente faça sentido, devemos evitar ao máximo investir enquanto temos dívidas.
Para entender melhor, imagine um cassino. Estatisticamente, não faz diferença se cem pessoas jogam no cassino no mesmo dia ou se uma pessoa joga durante cem dias seguidos. Só que, quando uma única pessoa joga, ela está exposta ao risco da ruína: se em um dia ela quebrar, não vai voltar nunca mais. Esse é o risco da ruína. Por isso, para o cassino é melhor virem cem pessoas diferentes do que uma só.
Já falamos sobre o fundo de emergência antes, mas vale a pena repetir, para que não seja deixado de lado em nenhum momento. É com ele que garantimos cobertura em caso de imprevistos, sem prejudicar nossa estratégia de investimentos.
Além do fator preventivo, o fundo de emergência pode ter outra função interessante, a de fundo de oportunidades. Isso porque há casos em que chances únicas surgem, mas acabam exigindo que tenhamos dinheiro disponível. Pode ser um imóvel bem abaixo do valor de mercado, uma mudança de fundamentos de uma ação que a torne barata para compra imediata, entre tantas outras possibilidades. Por isso, mais do que simplesmente apartar emergências, é importante considerar que o fundo de emergência, com sua liquidez, pode servir como uma reserva inteligente para se ter dinheiro disponível sempre que uma oportunidade aparecer.
Recentemente, por exemplo, tive a oportunidade de comprar uma casa na praia por 250 mil reais, sendo que o imóvel estava avaliado no mercado por 1,2 milhão de reais. Isso só aconteceu por problemas familiares dos antigos proprietários, mas, se eu tivesse um grande montante aplicado apenas em algo que não fosse resgatável, poderia estar abrindo mão dessa oportunidade que passava bem na minha frente.
Assim como a maior parte dos imprevistos não são, de fato, imprevisíveis, as oportunidades também aparecem aos montes – principalmente para quem tem dinheiro. Com o fundo de emergência preparado, temos o que é necessário para o curto prazo. Mas ao partir para o próximo passo de divisão de nossa carteira, temos que ter em mente mais dois lotes imaginários: o de investimentos que servirão para cobrir necessidades e os que serão focados no longo prazo.
Os investimentos para necessidades são importantes porque, em muitos casos, temos objetivos de gastos definidos. Pode ser um casamento no próximo ano, uma viagem de fim de ano, o pagamento das chaves do imóvel, entre tantos outros compromissos que já estão assumidos.
Para esses gastos, continua valendo a regra de procurar ativos de alta liquidez e segurança, como no fundo de emergência, pois você tem uma ideia de quando vai resgatá-los. De toda forma, pode começar a procurar títulos que garantam um pouco mais de rentabilidade. Entram nessa categoria os CDBs e as Letras de Créditos.
Já vimos como funcionam os CDBs, e agora é hora de entender um pouco melhor o que são as tais Letras de Crédito.
EXERCÍCIO:
Etapa 1: Fundo de emergência (ou de oportunidade!)
Meta (R$): _____________________
Aplicação(ões): __________________
(NOTA: A meta é o seu primeiro objetivo financeiro. Para quem tem uma renda constante, como um trabalhador CLT ou um funcionário público, a meta pode ser seis vezes seu custo mensal familiar. Para um empreendedor ou autônomo, a meta pode ser doze vezes seu custo mensal familiar. Esse é o objetivo número 1 antes de sair buscando aplicações de longo prazo. Nas Aplicações, quero que você escreva onde pretende colocar seu dinheiro para chegar nesse primeiro objetivo. Lembre-se: não adianta olharmos para a etapa 2 – falaremos adiante – antes de atingirmos esse primeiro objetivo. Degrau a degrau!)
Etapa 2: Aposentadoria
Meta (R$): _____________________
Aplicações: _____________________
(NOTA: Para você calcular o quanto precisa ter para se aposentar, o racional é ter dinheiro suficiente para que apenas os rendimentos paguem o que você precisa receber por mês, como se seu dinheiro pagasse um “salário” para você. Para você descobrir quanto dinheiro precisa ter, basta você seguir esse passo a passo: 1) Quanto você quer receber por mês no futuro? 2) Multiplique esse valor por trezentos se você acredita que seu dinheiro vai render 4% ao ano no futuro. Multiplique esse valor por quatrocentos se você acredita que seu dinheiro vai render 3% ao ano no futuro. Multiplique esse valor por quinhentos se você acredita que seu dinheiro vai render 2,4% no futuro. Não se preocupe, esse “macete” serve para você simplificar a matemática. Se você acredita que seu dinheiro vai render 4% ao ano e acredita que precisa ganhar 5 mil reais ao mês para se aposentar, então você vai preencher “1,5 milhão de reais”. Sobre a matemática, se quiser simular com qualquer taxa – usando a calculadora – basta dividir o quanto você quer receber por ano – não por mês – pela taxa de rentabilidade anual que espera ter.)
Letras de Crédito do Agronegócio (LCA)/
Letras de Crédito
Imobiliárias (LCI)
As LCA e as LCI são títulos emitidos por instituições financeiras públicas e privadas. Uma é vinculada a direitos creditórios originários de negócios na área imobiliária (LCI), e a outra, a negócios da área rural (LCA).
A LCI é um dos instrumentos de renda fixa mais procurados pelo investidor
pessoa física nos últimos anos, porque, ao contrário do CDB, conta com isenção de IR para esse público. Ela pode ser remunerada por taxa pós ou prefixada e ainda
possui garantia do FGC. [41]
As rentabilidades das Letras podem parecer nominalmente um pouco menores
do que as dos demais investimentos, mas a isenção de IR, principalmente no curto prazo, tende a deixar esses títulos bem interessantes. Quando consideramos um horizonte de prazo maior, não é tão difícil encontrar CDBs que, mesmo pagando IR, acabam rendendo mais que as LCI/LCA, pois a partir de dois anos de investimento a alíquota do IR passa a ser de 15%.
Para ficar clara essa vantagem das LCI/LCA no curto prazo, vamos imaginar
dois investimentos: uma LCI que renda 88% do CDI em um ano e seis meses e um CDB que renda 105% do CDI no mesmo prazo.
O CDI considerado foi de 7% ao ano, enquanto a alíquota de IR para esse prazo
fica na casa dos 17,5%, lembrando que quanto mais tempo o investimento é mantido, menos imposto ele paga. Qual dos dois investimentos renderia mais? Algo mudaria se o investimento tivesse, na realidade, vencimento em dois anos, com IR de 15%?
Não precisamos nem entrar em valores. Em uma análise rápida, apenas com as
taxas, encontramos:
CDI: 7% a.a.
CDB: 105% de 7% = 7,35% a.a.
7,35% ‒ 17,5% (IR para um ano e seis meses) = 6,06% a.a. 7,35% ‒ 15% (IR para dois anos) = 6,25% a.a. LCI: 88% de 7% = 6,16% a.a.
Ou seja: entre um CDB de 105% do CDI e uma LCI de 88% do CDI, o prazo de
um ano e meio favorece a rentabilidade da LCI, enquanto para dois anos o CDB será um melhor negócio. Por isso, quem escolhe uma LCI deve ter em mente que elas são muito atrativas no curto prazo, nem sempre no longo.
ENCONTRE OS MELHORES INVESTIMENTOS
Com o aumento da procura por investimentos melhores que a poupança, a oferta de serviços financeiros cresceu exponencialmente. Abaixo estão listados cinco métodos de pesquisa bem práticos para quem está começando:
Bancos: As instituições bancárias brasileiras por muitos anos reinaram como
opção única e absoluta. Isso acabou criando organizações que não precisavam considerar o cliente, pois todo o ecossistema havia sido arquitetado para tirar o maior dinheiro possível do pequeno poupador (que se endividava).
Isso gerou um foco extremo no próprio negócio e nas metas extremamente agressivas impostas aos gerentes, que eram treinados para vender a maior quantidade de produtos desnecessários possível. Para os que já têm alguns milhões em conta, porém, existe uma categoria de atendimento conhecida como private, na qual o cliente consegue ter acesso a opções, algumas bem interessantes, que não são oferecidas para o cliente comum.
Ao lidar com bancos, sempre tenha em vista que o principal negócio dele é lucrar com empréstimos, não com investimento. Você não entra numa loja de roupas para comer um hambúrguer, correto?
Corretora: A corretora é uma das melhores opções para os investidores que não
fazem parte do private, oferecendo maior poder de escolha aos clientes. Mesmo existindo uma curadoria que lhe indicará boas aplicações, isso não garante que você não terá algumas aplicações ruins em sua carteira. Entre as vantagens de se usar uma corretora é que com ela você consegue comparar muitas aplicações sem precisar abrir conta em diversos lugares. Por exemplo, numa corretora você poderá encontrar CDBs oferecidos por bancos como Itaú, Bradesco e Caixa Econômica Federal, sem precisar ter conta aberta em cada uma dessas instituições.
Algumas corretoras oferecem taxa zero para alguns produtos, mas é preciso entender que as corretoras também ganham dinheiro com o
spread [42] na venda de alguns produtos financeiros e com a taxa de corretagem pelo giro das aplicações. Os interesses são mais alinhados aos seus do que nos bancos, mas ainda assim não são exclusivamente os seus.
Banco digital: São instituições financeiras sem agências, que funcionam de maneira
100% digital. Para o pequeno investidor/poupador, é uma opção com baixos custos e que apresenta títulos com rendimentos superiores aos dos bancos convencionais. Porém, pelo pouco tempo há que estão no mercado, a oferta ainda é bem limitada e nem todos os bancos digitais oferecem pacotes de serviços que atendem a todas as demandas de seus clientes.
Gestora: Na maioria dos casos, não faz sentido investir diretamente pelas gestoras
– empresas do setor financeiro que criam um fundo e decidem para onde vão seus recursos –, pois com as corretoras você tem acesso direto a vários fundos de uma só vez e pode compará-los de maneira muito mais fácil. Um ponto positivo das gestoras, no entanto, é que elas não cobram comissão e costumam prestar um bom atendimento ao cliente.
Robôs: Investir por meio de robôs tem ganhando bastante popularidade. Um
sistema avalia seu perfil de risco e faz os investimentos por você. É bom para leigos e não custa tão caro para o nível de serviço que prestam. Mas, para quem entende um pouco mais do assunto ou quem gosta de autonomia, o robô acaba limitando o poder de decisão e tendo um custo superior ao encontrado em outros tipos de instituições.
OLHE OS SINAIS, FUJA DOS RUÍDOS
Todos os dias nós nos deparamos com uma série de informações que interferem na forma como tomamos decisões. Algumas dessas informações são úteis, mas uma grande parte delas não é e pode, inclusive, atrapalhar a tomar a decisão correta. Por isso, uma das coisas mais importantes para o investidor ter sucesso é a capacidade de separar o que é “ruído” do que é “sinal”. Em outras palavras, determinar quais são as informações úteis e as que apenas servem para confundir.
Isso nem sempre é fácil. Apesar de a teoria parecer tranquila, o ser humano, em grupo, possui a tendência de fazer as coisas da mesma forma que os demais. Por causa disso, muitos investidores, em vez de olhar para os fundamentos de uma empresa, observar as suas projeções e a saúde financeira do negócio, acabam sendo influenciados por dicas informais que receberam de conhecidos ou por notícias que leram na mídia de maneira descontextualizada. Quando você age dessa forma, está apenas prestando atenção aos ruídos.
Um bom exemplo é o ano de 2002 no Brasil. Naquele momento, a possível eleição de Luiz Inácio Lula da Silva era vista com grande pessimismo pelo mercado. De janeiro a outubro, período das eleições, a Bolsa chegou a despencar mais de 30%, enquanto a cotação do dólar disparava em mais de 50%, até a véspera do primeiro turno.
No fim, o que aconteceu? De 2002 a 2008, vimos a Bolsa subir cerca de 400%.
Os sinais positivos sempre estiveram presentes: as ações em 2002, devido ao pessimismo
do mercado, estavam com um valuation [43] muito baixo e com baixo preço em dólar, já que o câmbio havia depreciado demais. Além disso, tivemos um governo Lula que, em matéria econômica, mostrava-se prudente; havia indicadores mostrando melhora na economia ainda no final de 2002, e o mundo passava pelo famoso boom das commodities – este sim, um
grande impulso para a nossa economia. [44]
Mas como seria possível identificar esses sinais quando se vive um momento de maior turbulência econômica? Uma das formas mais úteis é olhar para os grandes ciclos do mercado.
O método parte de uma abordagem em que se avalia primeiro o quadro de valoração, ou seja, se o mercado está caro ou barato pelos fundamentos das empresas. Em seguida, olha-se para o cenário macroeconômico, passando por indicadores que mensuram o pulso da atividade econômica e os de sentimento empresarial, que indicam se o humor para investimentos está se deteriorando ou ficando mais positivo ao longo do tempo.
O objetivo tem de ser o de identificar situações de baixo e alto risco para o sistema financeiro, ter visão de longo prazo e reduzir os vícios de leitura de informações de mercado, que podem estar enviesados naquele momento de maior volatilidade.
DIMENSÃO DA VALORAÇÃO
Sem ter uma noção da valoração do mercado de ações, ou seja, sem saber se determinado ativo está caro ou barato, o investidor não saberá de forma mais exata sobre o risco que está assumindo no longo prazo.
Para entender como isso pode funcionar na prática, um dos cálculos mais utilizados é o do Preço sobre Lucro, o famoso P/L. Na prática, quanto menor ele for, mais barato está o ativo.
Imagine que você comprou uma empresa por 1 milhão de reais, e ela distribui anualmente um lucro de 100 mil reais. Se fôssemos utilizar o indicador P/L, teríamos um Preço (1 milhão de reais) sobre Lucro (100 mil reais) de dez, o que significa que dez anos serão necessários para obter o capital de volta por meio dos lucros distribuídos. Se essa mesma companhia distribuísse 200 mil reais de lucro, teríamos um P/L de cinco, ou seja, ela estaria mais barata para a compra.
É claro que olhar para esse indicador de forma isolada pode ser prejudicial, mas ele é importante como um complemento de análise. O indicador aponta, mas não determina.
Diferentemente de mercados maduros, como o norte-americano, encontrar um histórico completo de P/L dos ativos negociados pela Bolsa brasileira é bem difícil. Muitas empresas quebraram, compraram ativos ou foram compradas, e existem P/Ls distorcidos por resultados estratosféricos ou muito baixos daquelas empresas, o que prejudica a média.
Na internet, pesquisando por uma ferramenta que auxiliasse o uso do P/L nas avaliações, me deparei com o blog HC Investimentos, que havia realizado um estudo com o cálculo histórico até 2011. Conversei com o Ricardo Kerbej, um dos autores do estudo, e juntos alimentamos uma planilha até os dias de hoje.
Agora, veja abaixo o P/L do S&P 500 [45] e repare que, no último ponto, ele está em
24,12. [46] No mesmo período, o P/L do Ibovespa foi de 15,37.
De forma geral, o P/L das ações no Brasil é mais baixo. Isso pode ser um benefício muito importante para o futuro, mesmo que o investidor saiba que existem alguns motivos
tangíveis para isso, como o risco-Brasil. [47]
Recentemente, tomei a decisão de trocar minhas posições de ITUB3 (ações de Itaú ordinárias) por ações de ITSA4 (ações de Itaúsa Preferenciais), pois elas estavam com um
P/L [48] mais caro, como você pode ver a seguir:
ITUB3 ITUB4 ITSA4 ITSA3
Preço da ação 36,81 42,08 9,72 10,55
Lucro por ação [49] 3,19 3,19 1,06 1,06
P/L 11,54 13,19 9,17 9,95
Apesar de ligadas, as duas empresas são distintas. A Itaúsa é uma holding que controla participação em várias empresas. Como toda holding, enfrenta desafios que geram desconto maior em seu valor, quando comparada a uma ação de uma empresa pura. Entre esses desafios, estão menor liquidez no mercado e gastos com a própria estrutura. O acionista Itaúsa ainda acaba comprando uma cesta de ações que às vezes nem gostaria de ter em seu portfólio.
Porém, como você pode ver a seguir, [50] de acordo com a própria Itaúsa existe um desconto de 23,33% no preço de suas ações em relação à posição que elas efetivamente possuem.
EM 29 DE JUNHO DE 2018
Cotação média Valor de
Total de Participação da Valor de mercado
Empresas de capital da ação mercado das
ações Itaúsa nas das participações
aberto maislíquida empresas (R$
(mil) empresas (%) (R$ milhões)
(R$) milhões)
(A) (B) (A) x (B) (C) (A x B) x (C)
Itaú Unibanco Holding
6.487.678 40,25 261.129 37,51% 97.942
S.A.
Duratex S.A. 689.306 8,64 5.956 36,68% 2.184 Alpargatas S.A. 463.053 12,10 5.603 27,55% 1.544
Itautec S.A. 11.072 15,80 167 98,93% 165 Nova Transportadora do
1.393
Sudeste S.A. – NTS (D)
Demais ativos e passivos
-2.374
líquidos (E)
Valor de mercado da soma
das partes da Itaúsa em 100.854 29/06/2018 (F)
Valor de mercado da R$
9,19 9,19 77.326
Itaúsa em 29/06/2018 (G) 4.831,56
Desconto (%) (H) =
-23.33%
(G)/(F)-1
Apesar de ser um indicador muito importante, o P/L não diz tudo. Por exemplo, se a ação da empresa A apresenta um P/L de doze, enquanto a ação da empresa B apresenta um P/L de vinte, a primeira impressão é que a ação da empresa A está mais barata do que a da empresa B, e por isso vale mais a pena investir na empresa A.