Eco da Voz Portuguesa por Terras de Santa Cruz

António Feliciano de Castilho · Capítulo 3 de 8

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Eco da Voz Portuguesa por Terras de Santa Cruz

*Iii*

Tu mesma não Prometteste a esse Povo esfaimado Derogar leis

que Fizeste contrarias á lei que Te fez de misera proscrita uma Rainha?

Tu mesma, Submettendo-Te a condições aviltantes não Te

Degradaste já de Tua alta dignidade?

Tu mesma não És que Derrubaste essa muralha de corações devotos, que Te amavam, que palpitavam por Ti, e inviolavel Te

faziam e Te guardavam?

Tu mesma não Foste que Deixaste cair o Teu sceptro de ferro sobre essas cabeças, que Te veneravam sagrada; e quasi que Te

adoravam divina?

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E ás boccas esfaimadas Atiras Tu uma dura pedra!…

E sobre as linguas sequiosas Gottejas Tu, risonha de escarneo, o fel amargo de Tuas ingratidões!…

E nas faces de fome pallidas, que enrubeceram pelo Teu

desamor, Tu Mandaste dar por Estrangeiros muita bofetada!…

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*III*

Em silencio temos por cá pranteado os males de nossa patria: temos devorado as lagrimas: e sem nenhum murmurio elevado

temos a Deos o nosso pensamento: e sobre seus altares temos por holocausto offerecido as magoas de nosso coração, por supplicar-

lhe que affaste de nossa Patria o seu rigor, tão justo, mas tão pungente.

Com resignação christã soffrido temos em nossos irmãos todo

esse rigor da justiça divina por mãos dos homens, irmãos nossos, infligido.

Com Fé de Portuguezes temos esperado que a misericordia

divina transforme os nossos males em venturas.

É com dor, mais que acerba, que bem vemos não se applacar a justa ira do

Senhor!

Tarde, bem tarde expiaremos as nossas culpas!

Tarde, bem tarde alcançaremos graça!

Porque a maldição de um Deos peza sobre o lusitano povo, como sobre o povo escolhido!

Porque um perjurio, um sacrilegio tanto excitaram a colera celeste

que muito longa e tormentosa terá de ser a expiação!

Porèm diz-nos a consciencia, animada pela Fé robusta de nossos Pais, que muito e muito haverá de soffrer este povo escolhido; mas

soffrer não deverá ser ignominia, aviltamento; porque elle é grande em sua pequenez, que encerra um passado glorioso, um futuro

providencial para a felicidade, para a regeneração da caduca Europa!