Eco da Voz Portuguesa por Terras de Santa Cruz

António Feliciano de Castilho · Capítulo 4 de 8

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Eco da Voz Portuguesa por Terras de Santa Cruz

*Iv*

A nossa voz rompe o silencio dos irmãos nossos, magoados, que

choram pela Patria, e se envergonham de que os vejam chorar em terra alheia; e abafam seus gemidos para não parecerem ingratos,

elles, que aqui não soffrem, na terra mais hospitaleira e venturosa!

Egoista, que por viveres abrigado de tantas miserias não te importa a fome e a guerra, que vão matando os teus irmãos n'outro

hemispherio.

Devasso, que porque sobre a tua face não foi dada a bofetada, tua face fica pallida, impassiva, indiferente á affronta que lá

soffreram, a duas mil legoas, os teus compatriotas.

Nenhum de vós se atreva a ler este papel.

 

*IV*

Rainha pelos Portuguezes!

O desamor de Teus subditos ao usurpador, Teu Tio, entorpeceo-lhes os braços por tal fórma que deixaram entrar uma Esquadra

Franceza pelo tejo.

E o pavilhão francez, o pavilhão tricolor, essa bandeira do Povo, essa bandeira que a desgraçada Polonia julgava a cada instante

esperançosa vêr tremular ao longe em soccorro de seu ultimo baluarte; esse pavilhão mentiroso tremulou por algumas horas

n'algumas fortalezas de Portugal.

Mas assim foi ainda, porque os Portuguezes, opprimidos, esperavam protecção nesses estrangeiros para sacudir o jugo de um tyranno, sem derramar tanto sangue, quanto é o que a Tua

Corôa lhes tem custado.

Illudidos foram nas suas esperanças; e nunca lhes hade passar a magoa de não terem corrido todos, á voz de quem quer que fosse,

para o combate, para morrer abraçados á cruz de sua bandeira!

Triste necessidade, lhes nutrindo uma esperança, os fez covardes, e tal desengano lhes ha de enrubecer de vergonha

sempre as faces maceradas!…

E com que necessidade agora Tu Consentes que o pavilhão da soberbissima

Inglaterra se arvore em terra de Portuguezes?

E em que logar, em que torre elle se arvora, para conservar preso um troço de Portuguezes, surpreendidos sem nenhuma declaração

de guerra?

Conheces aquella torre?

A torre de S. Julião!….

…………………………………………………………………

Naquella torre, cadafalso de Gomes Freire!…

Naquella torre, cujos alicerces estão ensopados de sangue portuguez, derramado gota a gota para Ti, por mais de cinco

annos….

Alli… alli se arvora a bandeira de Inglaterra, que tem prisioneiros os Teus subditos…. e a Ti mesma…. a Ti mesma, qual outra Pomaré!…