Educação infantil: discurso, legislação e práticas institucionais

Lucimary Bernabé Pedrosa de Andrade · Capítulo 2 de 7

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Educação infantil: discurso, legislação e práticas institucionais

1 Percurso metodológico

 

Diferentemente da arte e da poesia que se concebem na

inspiração, a pesquisa é um labor artesanal, que se não

prescinde da criatividade, se realiza fundamentalmente por uma

linguagem fundada em conceitos, proposições, métodos e

técnicas, linguagem esta que se constrói com um ritmo próprio

e particular.

Minayo, 2000

 

A discussão metodológica

Para iniciarmos a apresentação do percurso metodológico da presente pesquisa, gostaríamos de refletir sobre as contribuições do texto de Pedro Benjamim Garcia (1996). O autor, no bojo de suas indagações acerca da relação entre a crise de paradigmas e a educação, faz referência à história de Alice no país das maravilhas, quando a personagem, não sabendo qual caminho percorrer, encontra-se com o gato Cheshire, que afirma à menina que o caminho a percorrer está relacionado ao lugar onde queremos chegar. E o autor conclui o diálogo dos personagens afirmando:

Isto não significa que, contrariamente a Alice, tenhamos que

saber o caminho, mesmo porque não existe o caminho, mas

caminhos, uma pluralidade deles e... desconhecidos. Contudo é

necessário escolher algum. E escolher é sempre um risco.

Nada nos assegura o resultado do caminho escolhido que, só

parcialmente, e muito parcialmente, depende de nós. (Garcia,

1996, p.62)

Assim, a elaboração de uma pesquisa científica é sempre uma opção, reflete escolhas, caminhos e riscos a serem percorridos.

Com base no materialismo dialético histórico de Marx, compreendemos que a metodologia científica deve buscar relações intercausais historicamente constituídas para conhecer a essência e a explicação dos fenômenos.

A compreensão da construção da metodologia científica, à luz do materialismo dialético histórico e da perspectiva histórico-cultural,

pode ser caracterizada pelos seguintes aspectos: 1 o conhecimento é relativo, nunca acabado; existe uma unidade inseparável entre o empírico e o racional, entre o teórico e o prático, entre o quantitativo e o qualitativo, fazendo romper as dicotomias e estabelecendo as inter-relações e as contradições; a seleção dos métodos está aliada à definição do objeto de estudo, e o valor ético da produção científica consiste no respeito à diversidade de conhecimentos.

Portanto, a escolha de determinada metodologia requer a aproximação com o objeto de estudo, excluindo-se a ideia de superioridade de um determinado método ou abordagem.

Dessa forma, cada método tem suas características, adequando-se às especificidades do problema, dos objetivos e dos propósitos de investigação. O problema não está em como usar determinado método e sim em ter claro o limite que cada método pode determinar no processo de investigação de uma dada realidade. O pesquisador precisa ter uma definição concisa do problema de pesquisa, enquanto etapa mais importante do processo de investigação científica, para escolha do método.

Nas Ciências Sociais, a abordagem qualitativa tem sido mais utilizada, principalmente nos estudos culturais, educativos e sociológicos, por proporcionar uma interpretação e análise explicativa do caráter humano e subjetivo.

Conforme Minayo (2000b, p.21), a pesquisa qualitativa trabalha com o universo de significações, aspirações, crenças, valores e atitudes, contribuindo dessa forma para uma compreensão adequada de certos fenômenos sociais de relevância no aspecto subjetivo. Possibilita aos participantes da pesquisa expressarem suas percepções e representações, valorizando o conteúdo apresentado pelos sujeitos.

Já evidenciamos a proximidade com o objeto de estudo na introdução deste trabalho, em especial pelo envolvimento com a questão da educação infantil, quer por nossa trajetória profissional, quer pela formação acadêmica.

O suporte teórico-metodológico para o nosso caminhar foi resultado de um estudo realizado na disciplina de Seminários de Tese, no doutorado, em que nos aproximamos do aporte teórico-metodológico das representações sociais. Apesar de sua complexidade conceitual, há um consenso nas Ciências Sociais de que as representações sociais revelam as ideias, as concepções, percepções e visões de mundo que os atores sociais possuem sobre a realidade social, favorecendo a interação social e a prática social dos indivíduos em uma determinada realidade.

Para Minayo, as representações sociais constituem-se em um importante material para as pesquisas nas Ciências Sociais:

[...] podemos dizer que as representações sociais enquanto

senso comum, ideias, imagens, concepções e visões de mundo

que os atores sociais possuem sobre a realidade social, são um

material importante para a pesquisa no interior das Ciências

Sociais. As representações sociais se manifestam em condutas

e chegam a ser institucionalizadas, portanto, devem ser

analisadas a partir da compreensão das estruturas e dos

comportamentos sociais. (Minayo, 2004, p.173)

A história da teoria das representações sociais iniciou-se com o surgimento da Psicanálise. Sérge Moscovici, ao buscar uma redefinição dos problemas e conceitos da Psicologia Social, por meio do estudo de como a Psicanálise, enquanto disciplina científica, pode ser transferida do domínio dos especialistas para o domínio do público em geral, estabeleceu a teoria das representações sociais. Assim, o conceito de representação social foi criado em 1961 por Moscovici, através do trabalho intitulado La Psychanalyse, son image et son public. A representação social define um cenário interdisciplinar que abrange disciplinas como História, Economia, Antropologia, Semiótica e Psicologia. Porém, é na Psicologia Social que as representações sociais adquirem o estatuto de abordagem e teoria.

Segundo Moscovici, “a representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre indivíduos” (Moscovici, 1978, p.26).

Dotta (2006, p.17), ao referir-se aos postulados de Moscovici, destaca o caráter determinante das representações sociais nos comportamentos dos indivíduos: “Ela reproduz e determina comportamentos, definindo simultaneamente a natureza dos estímulos que cercam e provocam os indivíduos e o significado das respostas a serem dadas”.

A autora afirma que Moscovici considera as representações sociais entidades quase tangíveis, visto que “circulam, cruzam-se e e cristalizam continuamente por meio de palavras, gestos e encontros no universo cotidiano” (Dotta, 2006, p.18).

Para Moscovici, estamos inseridos em uma sociedade pensante, na qual os homens são pensadores ativos que comunicam e produzem suas representações através do processo de interação social.

Na perspectiva psicossociológica de uma sociedade pensante,

os indivíduos não são apenas processadores de informações,

nem meros “portadores” de ideologias ou crenças coletivas,

mas pensadores ativos que, mediante inumeráveis episódios

cotidianos de interação social produzem e comunicam

incessantemente suas próprias representações e soluções

específicas para as questões que se colocam a si mesmos.

(Moscovici, 1978, p.28)

Desse modo, as representações sociais podem ser compreendidas como fenômenos essencialmente sociais que, mesmo acessados a partir de seu conteúdo cognitivo, devem ser entendidos em seu contexto de produção, ou seja, com base nas funções simbólicas e ideológicas a que servem e nas formas de comunicação em que circulam.

A pesquisa na abordagem das representações sociais é necessariamente uma pesquisa qualitativa. Os estudos empíricos sobre as representações sociais podem ocorrer mediante o estudo de situações complexas (instituições, comunidades e eventos), aproximando-se das etnografias ou da pesquisa participante, ou focalizando sujeitos, agentes e atores socialmente definidos.

Segundo Dotta (2006, p.41), a teoria das representações sociais constitui-se em um referencial teórico-metodológico, ou seja, configura-se como uma teoria que traz em seu bojo um método. Ao discutir a questão metodológica refere-se a Robert Farr (2000) e Sá (1998). Para o primeiro autor, não há evidências de que haja um método especial a ser empregado nas pesquisas em representação social. O segundo autor chama a atenção para a dificuldade de especificação dos métodos de pesquisa nas representações sociais, o que não significa que todos os métodos possam ser empregados nessa abordagem, destacando os métodos qualitativos, os tratamentos estatísticos correlacionais e o método experimental.

As estratégias metodológicas para a abordagem do conceito de representações sociais são variadas, dentre elas: entrevistas abertas, semiestruturada, questionários abertos e fechados, escalas como as de diferencial semântico, desenhos e representações gráficas. Pesquisas empíricas apontam o predomínio da presença do método conhecido como análise de conteúdo para o tratamento de dados.

Dotta (2006, p.50) destaca a importância de os sujeitos expressarem-se espontaneamente durante as entrevistas, considerando que a conversação é que molda e anima as representações sociais.

A partir desse aporte teórico-metodológico iniciamos a construção da pesquisa empírica.

 

O universo e os instrumentais da pesquisa

As creches pesquisadas localizam-se na cidade de Franca, situada na região nordeste do Estado de São Paulo, aproximadamente a 400 km da capital. É sede da 14 a Região Administrativa do estado, constituída por 23 municípios, e faz fronteira com as cidades paulistas Batatais, Cristais Paulista e Patrocínio Paulista, e com as cidades mineiras de Ibiraci e Claraval.

A população, conforme estimativas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2007, é de 319.094 habitantes. A população economicamente ativa é de aproximadamente 184.000 habitantes, totalizando perto de 64% da população. Franca destaca-se como centro de uma das mais importantes regiões produtoras de café, bem como é a maior produtora de calçados do país, para os mercados interno e internacional.

A educação infantil no município é oferecida em creches e pré-

escolas. Dados2 referentes às instituições municipais e conveniadas demonstram em 2008 o atendimento a 6.650 crianças de 0 a 5 anos e 11 meses. As pré-escolas municipais, no total de 49 instituições, atendem a 3.961 crianças, na faixa etária de 4 a 5 anos e 11 meses, enquanto as creches conveniadas e municipais, no total de 34 instituições, atendem a 3.021 crianças de 0 a 5 anos e 11 meses.

 

A seleção do universo de pesquisa

Para selecionarmos o universo desta pesquisa, estabelecemos o primeiro contato com a Secretaria Municipal de Educação de Franca, em junho de 2008, para o levantamento das creches existentes na cidade. A maioria das creches é conveniada com o poder público municipal, porém a sua gestão fica sob

responsabilidade de entidades filantrópicas,3 quase sempre ligadas a grupos religiosos, fato que remete aos primórdios do histórico dessas instituições, caracterizando a fase do atendimento assistencialista marcada pela filantropia.

O quadro na época totalizava 31 instituições; destas, duas eram municipais, 27 conveniadas, uma particular, com convênio diferenciado com a Prefeitura, e uma pública, porém não conveniada com o poder público municipal.

Embora a LDB defina creche como instituição destinada ao atendimento das crianças de 0 a 3 anos, no município de Franca essa nomenclatura é utilizada para todas as instituições que atendem a faixa etária de 0 a 6 anos, o que deverá ser modificado a partir de 2010, quando o convênio será estabelecido exclusivamente para a faixa etária de 0 a 3 anos. Esse dado é reflexo das reformas nas políticas educacionais brasileiras, que, dentre tantas mudanças, trouxe o ingresso das crianças a partir de seis anos no ensino fundamental.

Assim, a pré-escola passa a atender a faixa etária de 4 aos 5 anos e 11 meses em período parcial, e as creches mantêm o atendimento em período integral.

Para delimitação do universo da pesquisa selecionamos as instituições conveniadas que atendessem em seu quadro crianças

na faixa etária de 0 a 3 anos e 11 meses de idade,4 o que

representou 13 instituições, conforme demonstrado no Quadro 1.

Quadro 1 — Universo da pesquisa

No mesmo ano iniciamos a nossa participação nas reuniões mensais da Secretaria de Educação para formação continuada dos coordenadores de creches. Além da pesquisa, nosso interesse também foi em razão de exercermos a função de coordenação em uma creche, embora não conveniada com o poder público municipal, e, portanto, não participante do universo desta pesquisa. A participação neste projeto de formação continuada permitiu uma proximidade com a realidade a ser investigada, e a possibilidade de construção de conhecimentos acerca da educação infantil e troca de experiências profissionais.

Para iniciarmos a pesquisa, aplicamos um questionário com questões abertas às educadoras das creches. O emprego desse instrumental, nessa etapa da pesquisa, justificou-se pela possibilidade de permitir o acesso a um número maior de sujeitos (Gil, 1999, p.128), além de ser um importante instrumento utilizado nas representações sociais e nas pesquisas qualitativas. A entrega dos questionários às coordenadoras das creches foi realizada em uma das reuniões de formação no segundo semestre do ano de 2008, sendo solicitado que fossem preenchidos pelas educadoras das instituições. Posteriormente, agendamos por telefone o recolhimento dos questionários e pessoalmente fomos recolhê-los nas creches. Dos 72 questionários obtivemos o retorno de 53. Somente uma das instituições não participou da pesquisa, pois a coordenadora não repassou o questionário às educadoras e nas três vezes que retornamos à instituição não a encontramos.

Depois de tabularmos os dados dos questionários, percebemos a necessidade de aprofundarmos algumas categorias de análise e optamos pela realização da entrevista semiestruturada.

A técnica de entrevista semiestruturada permite ao entrevistado contribuir no processo de investigação com liberdade e espontaneidade, sem perder a objetividade.

No entender de Triviños (1987, p.146), a entrevista semiestruturada é

[...] aquela que parte de certos conhecimentos básicos

apoiados em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e

que, em seguida oferecem amplo campo de interrogativas, fruto

de novas hipóteses que vão surgindo à medida que se recebem

as respostas do informante. Desta forma, o informante seguindo

espontaneamente a linha de seu pensamento e de suas

experiências dentro do foco principal colocado pelo

investigador, começa a participar do conteúdo de pesquisa.

Os sujeitos entrevistados foram escolhidos pelo critério de tempo de exercício profissional, representando 10% do total dos participantes do questionário. Assim, selecionamos cinco educadoras, sendo três com experiências entre um a três anos na educação infantil e outras duas acima de três anos.

Para aplicação das entrevistas, selecionamos três instituições, e o critério de escolha foi a localização em áreas diferentes da cidade. A escolha da educadora a ser entrevistada foi feita pela coordenadora da instituição, desde que correspondesse ao tempo de experiência profissional acima descrito.

Para análise dos dados também foi empregada a técnica de análise de conteúdo, que, segundo Bardin (2000, p.28), “aparece como um conjunto de técnicas de análise das comunicações que utiliza procedimentos sistemáticos e objectivos de descrição do conteúdo das mensagens”.

Minayo (2000b, p.74-5), destaca as funções da técnica de análise de conteúdo nas pesquisas quantitativas e qualitativas referentes à verificação das hipóteses ou questões da pesquisa e quanto à descoberta do que está por trás dos conteúdos manifestados pelos sujeitos da pesquisa. Segundo a autora, a análise de conteúdo abrange as fases de pré-análise, exploração do material e o tratamento e interpretação dos resultados obtidos.

No intuito de compreendermos melhor algumas questões manifestadas nas entrevistas, assim como a política de atendimento que rege as instituições pesquisadas, realizamos entrevistas com duas profissionais da Secretaria Municipal de Educação que fazem parte da equipe de gestão das creches.

Consideramos pertinente a discussão de alguns dados das entrevistas porque possibilitam maior visibilidade do universo da pesquisa.

O primeiro ponto diz respeito ao percentual do atendimento das

creches, que aumentou 5 significativamente após o ano de 2007,

como podemos confirmar no Quadro 2. Esse período coincide com as mudanças na Política de Educação Infantil propagadas pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC), e pela aprovação do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e

Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb),6 que estabeleceu, dentre tantas medidas, o repasse de verbas para os municípios destinadas à educação infantil.

Quadro 2 – Número de crianças atendidas nas creches conveniadas

e municipais de 2004 a 2008

Fonte: Secretaria Municipal de Educação da Prefeitura Municipal de

Franca.

Dados complementares fornecidos pela profissional da equipe da

gestão das creches:

*Aumento do número de vagas.

# Diminuição do número de vagas.

Novas vagas: 2005: 185; 2006: 129; 2007: 132 e 2008: 1.668.

No ano de 2008 foram atendidas 3.021 crianças nas creches.

Observação: as creches presentes nos item 33 a 41 iniciarão o

atendimento a partir do segundo semestre de 2009, totalizando 940

novas vagas e o atendimento total será de 3.961crianças.

Conforme os dados disponibilizados no Quadro 2, temos registrado o aumento de dezessete instituições conveniadas construídas pelo poder público municipal, além de sete creches ampliadas e duas reformadas, a partir de 2007, na cidade de Franca.

A Secretaria Municipal de Educação assumiu a gestão das creches a partir de 1998, após dois anos da promulgação da LDB que, ao reconhecer as creches como instituições de educação infantil, estabeleceu que as mesmas deveriam passar do âmbito da Assistência Social para a Educação.

O trabalho da equipe de gestão de creches da Secretaria Municipal de Franca implica a administração do convênio da Prefeitura com as creches, como ainda a formação continuada dos profissionais das instituições, envolvendo desde a diretoria ao pessoal de apoio. Para esse trabalho, a Secretaria de Educação mantém uma equipe de profissionais formada por 22 pedagogas, uma fonoaudióloga e três assistentes sociais. Do total das pedagogas, 21 têm atuação direta nas creches, com carga horária de 40 horas semanais, sendo que cada uma fica responsável, em média, por duas creches.

O trabalho de formação continuada é realizado mensalmente 7 e coordenado por uma pedagoga e pelas assistentes sociais. As reuniões com as educadoras e equipe de apoio acontecem nas instituições, com a coordenação da pedagoga responsável pela instituição. A coordenação e os dirigentes recebem a formação continuada na Secretaria Municipal, onde os temas abordados dizem respeito à infância e à educação infantil. A contribuição do trabalho de formação continuada desenvolvido por essa equipe técnica foi muito citado pelas educadoras durante as entrevistas, sendo destacado como aspecto facilitador do trabalho e sistematizador da organização das práticas pedagógicas nas instituições.

O convênio das instituições com o poder público é administrado pelas assistentes sociais da equipe de gestão. Refere-se ao re-passe de subvenção para a folha de pagamento de pessoal e encargos e aquisição de materiais didáticos e pedagógicos. Além desses recursos, a Prefeitura repassa, mensalmente, a doação de gêneros alimentícios não perecíveis e, semanalmente, verduras, leite, pães e carnes. As despesas de utilidade pública (luz e água) são custeadas pelo poder público. Segundo informações de uma das profissionais entrevistadas, desde 2007, as creches são entregues com toda a infraestrutura – mobiliários e equipamentos necessários para a realização de suas atividades.

 

Os sujeitos da pesquisa

Os sujeitos de nossa pesquisa foram as educadoras das creches da cidade de Franca. Embora a LDB estabeleça a nomenclatura de professores de educação infantil para os profissionais que atuam na educação infantil, quer seja nas creches ou pré-escolas, esses profissionais são designados como educadores nas creches de Franca.

A trajetória histórica dos profissionais da infância revela que seu papel social, nas creches e pré-escolas, sempre esteve atrelado ao projeto institucional dessas instituições. Várias denominações já foram empregadas para identificar o papel desses profissionais, dentreelas:babá,pajem,berçarista,recreacionista,auxiliardedesenvolv imento infantil, monitor e, atualmente, professor de educação infantil.

Segundo entrevista concedida por uma das profissionais da equipe de formação continuada das creches da Secretaria Municipal de Educação, o emprego do termo educadora responde a uma questão

legal e sindical.8 Há presença majoritária das mulheres ocupando a função de educadoras nas creches, confirmando a ideia historicamente construída de que a educação e cuidados das crianças pequenas é responsabilidade da mulher.

A realidade de grande parte das instituições de atendimento às crianças de 0 a 6 anos em nosso país revela um quadro de profissionais leigos, sem formação adequada para o desempenho da função, com mínima formação escolar e em condições precárias de trabalho, no que se refere a remuneração, formação em serviço e plano de carreira profissional.

A LDB, no artigo 62, dispõe que a formação do profissional de educação infantil se faça em nível superior ou médio:

A formação de docentes para atuar na educação básica, far-se-

á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação

plena, em universidades e institutos superiores de educação

admitida como formação mínima para o exercício do magistério

na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino

fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade

Normal.

A realidade da formação das educadoras é bastante satisfatória, visto que dezesseis educadoras, representando o percentual de 30% das entrevistadas, têm o nível superior completo; a mesma proporção, ou seja, 30%, está cursando o nível superior; dezoito concluíram o nível médio, ou seja, 34% das entrevistadas e, dentre estas, dezesseis cursaram o Magistério. Apenas 1,8%, o que representa uma educadora, tem somente o ensino fundamental e, em contrapartida, duas, no total de 3,7%, concluíram a pós-graduação.

Na Tabela 1 podemos caracterizar a escolaridade dos sujeitos da pesquisa.

Tabela 1 – Escolaridade das educadoras

 

Podemos verificar que a formação em nível superior é majoritariamente no curso de Pedagogia, o que responde a uma exigência da LDB para a docência na educação infantil.

Segundo informações da profissional da equipe de gestão das creches, a formação no Magistério (nível médio) ou na Pedagogia (nível superior) é uma das exigências para a contratação dessas profissionais pelas instituições.

O tempo de exercício profissional, como podemos constatar na

Tabela 2, para a maioria das entrevistadas é de um ano, totalizando 34% das educadoras. Em entrevista, a profissional da equipe de formação continuada da Secretaria Municipal de Educação revelou ser grande a rotatividade desses profissionais nas instituições, em

virtude, especialmente, das condições salariais. 9

Tabela 2 – Tempo de exercício profissional na educação infantil

 

Em relação à experiência profissional, conforme os dados da Tabela

3, podemos constatar que 56,6% dos sujeitos da pesquisa, ou seja, trinta educadoras, tinham experiências anteriores na educação infantil. Doze, ou seja, 22,6% das educadoras vinham de experiências na área do comércio; oito, totalizando 15,1%, não tinham nenhuma experiência profissional. As demais apresentaram experiências em outros níveis de ensino, ou seja, duas, no total de 3,8%, atuavam no ensino fundamental, e uma, representando 1,9%, atuava na educação de adultos.

Tabela 3 – Experiência profissional

 

Conforme os dados apresentados, constatamos que o quadro atual das educadoras das creches é satisfatório no que se refere a formação acadêmica e experiência profissional. Pesquisa realizada nos estados de Ceará, Pernambuco, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, de acordo com a Consulta sobre a Qualidade na Educação Infantil (2006), demonstrou o baixo nível de escolaridade dos profissionais dessa área, sendo que apenas 21% dos entrevistados possuíam curso superior e 10% apresentavam apenas o ensino fundamental incompleto.

 

1 Anotações das aulas do prof. dr. Guilhermo Arias Beatón, na disciplina Construcción del Conocimiento: una metodología desde el materialismo dialéctico e histórico, ministrada no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da Unesp de Franca, no primeiro semestre de 2006.

2 Os dados foram informados por profissionais da Secretaria Municipal de Educação em junho de 2009.

3 Segundo Izumi (2005), a primeira creche em Franca foi fundada em 1945. No período de 1956 a 1987 foi lenta a expansão do atendimento e após 1988, com a Constituição Federal e com o reconhecimento legal da creche como direito da criança, são fundadas 50% das instituições existentes no município. Cabe ressaltar que em 1989, data em que realizamos a nossa primeira pesquisa nas creches de Franca, o quadro era de 18 instituições. Considerando o número existente em 2008, podemos afirmar que houve um aumento de quase 70% em duas décadas.

4 A delimitação da faixa etária justifica-se em razão de a LDB estabelecer como creche a instituição destinada ao atendimento educacional de crianças de 0 a 3 anos e 11 meses.

5 Segundo informações de uma das profissionais da Secretaria de Educação do Município, a meta do atual governo municipal é a de ampliar para 50 o número de creches na cidade até 2012.

6 O Fundeb, regulamentado pela Lei n. 11.494/2007, constitui-se em um fundo de natureza contábil destinado ao financiamento da educação básica. O re-passe dos recursos financeiros tem como base o número de alunos matriculados em cada nível de ensino, conforme dados do censo escolar.

7 Para a realização da formação continuada, as creches são fechadas todas as primeiras terças-feiras do mês em período integral. A formação dos coordenadores e dirigentes realizada na Secretaria Municipal acontece em período parcial e no outro período os trabalhos de formação prosseguem nas instituições com toda a equipe.

8 As educadoras das creches são filiadas ao Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio e Conservação, Empregados e Edifícios e Condôminos e Empregados em Turismo e Hospitalidade de Franca e Região.

9 Conforme informações de uma coordenadora de creche, o salário das educadoras, contratadas em regime de CLT por 40 horas semanais, é de RS 700,00. O piso estabelecido pelo Sindicato da categoria é de R$548,00, porém, com o aumento da subvenção municipal, em 2009, foi realizado o reajuste dos salários das educadoras em todas as creches.