Ensino de ciências e matemática III
7 Concepções de professores de Biologia a respeito da diversidade dos seres vivos: uma análise, considerando o desenvolvimento histórico das ideias evolucionistas
7 Concepções de professores de
Biologia a respeito da diversidade dos
seres vivos: uma análise,
considerando o desenvolvimento
histórico das ideias evolucionistas
Paloma Rodrigues da Silva1; Mariana A. Bologna Soares de
Andrade 2 3 ; Ana Maria de Andrade Caldeira
Introdução
A Biologia caracteriza-se como uma ciência que tem como componente fundamental o estudo da diversidade dos organismos vivos. Essa diversidade, segundo Goedert (2004), sempre gerou questionamentos entre as culturas humanas, que buscavam explicações plausíveis sobre os processos responsáveis pelas semelhanças e diferenças entre os grupos de organismos. Alguns desses questionamentos são presentes no Ensino de Biologia, e acredita-se que essas perguntas são impossíveis de ser respondidas sem que haja um enfoque evolutivo (Goedert, 2004). A evolução biológica, por abranger todas as áreas da Biologia, é considerada o conceito central e unificador, capaz de explicar tanto a diversidade quanto a semelhança presente entre os seres vivos.
Gould (1997) considera que, de todos os conceitos existentes nas Ciências Biológicas, a evolução é o mais importante e o mais mal compreendido. Dessa forma, surgem questionamentos sobre a abordagem desse tema em sala de aula, pois é importante que o papel do professor seja o de possibilitar a aprendizagem de conceitos científicos, não obstante a existência de conhecimentos não aceitos pela ciência atual.
De acordo com análises de materiais didáticos realizadas por Pacheco & Oliveira (1997), percebe-se que na maioria dos livros há uma abordagem confusa sobre o tema evolução. Esses autores relatam que em grande parte desses materiais foi possível detectar equívocos históricos, como a apresentação de ideias do passado e do presente de forma confusa, deturpando fatos importantes. Discussões acerca do ensino de evolução também foram realizadas por Bizzo (1991). Em seu trabalho, que buscou avaliar as concepções acerca desse tema em um grupo de estudantes, o autor observou que, para os alunos, a evolução era entendida como um processo de aperfeiçoamento, melhora e aumento de tamanho, sendo que, para eles, “progresso” poderia ser considerado um sinônimo de evolução.
Constatações semelhantes também podem ser observadas no trabalho de Greene (1990), que analisou as concepções evolutivas de um grupo de estudantes de um curso de Ciências Biológicas. Em seu trabalho, o autor verificou que apenas 3% dos alunos pesquisados possuíam uma compreensão consistente com a concepção científica, e 43% entendiam parcialmente a evolução. O autor destaca, também, que é possível verificar similaridades entre as ideias dos estudantes e concepções presentes em discursos de antigos pensadores.
De acordo com Rosa et al. (2002), dados de estudos como os mencionados anteriormente demonstram a necessidade de se trabalhar a evolução biológica de forma clara e precisa nas escolas. Além disso, os autores apontam a importância de se identificar as concepções que os professores têm a respeito desse tema, uma vez que a falta de clareza do assunto por parte dos docentes pode vir a favorecer noções equivocadas entre os estudantes.
Entendendo a importância de uma compreensão clara do conceito de evolução na formação de professores, procuramos identificar, em um grupo de docentes da escola básica, como ocorre esse entendimento. Buscamos também verificar se o pensar desses professores sobre evolução biológica é estruturado em bases científicas ou mesclado com outras concepções, quer de base religiosa quer do senso comum. Essa questão é um ponto significativo em Ensino de Ciências, pois tais discussões estão relacionadas com a Biologia, e isso pode ser um obstáculo que os professores dos mais diversos níveis de ensino têm que enfrentar.
Para melhor compreendermos esse processo, realizamos uma breve análise das concepções mais destacadas que aparecem ao longo da história, uma vez que há uma grande quantidade de teorias que discutem a diversidade dos seres vivos, desde as mais amplas, religiosas, até as científicas, que datam de séculos mais recentes. Essas discussões acerca da origem da diversidade biológica foram comparadas com as respostas do grupo de professores participantes da pesquisa.
Metodologia
Esta pesquisa apresenta um caráter qualitativo, buscando inferências específicas (Bardin, 1977) sobre a visão de professores em relação ao conceito de evolução. Participaram do presente estudo vinte professores de Biologia do ensino médio de escolas públicas da região de Bauru (SP). Os dados foram coletados por meio de entrevistas semiestruturadas feitas com os professores, as quais permitem que o entrevistador faça as alterações e adaptações que julgue necessárias para cada momento (Lüdke & André, 1986). As entrevistas abordaram assuntos como vida artificial, surgimento da vida no planeta Terra, crenças religiosas e discussões sobre o tema em sala de aula.
Os dados coletados nas entrevistas foram analisados e organizados em categorias, as quais consistem em “classificar elementos constitutivos de um conjunto por diferenciação e, seguidamente, por reagrupamento segundo o gênero, com critérios previamente definidos” (Bardin, 1977, p.117). Mais especificamente, as concepções dos professores foram agrupadas de acordo com as categorias encontradas na revisão histórica mencionada anteriormente.
É válido destacar que este trabalho não teve como objetivo se aprofundar na revisão histórica, mas utilizá-la como forma de verificar a dualidade e diversidade de concepções presentes nas respostas dos professores.
Apresentação dos dados
A realização da revisão histórica permitiu-nos o estabelecimento de 19 categorias de análise, as quais são apresentadas a seguir. Exemplos de falas dos professores foram colocadas em itálico, e as expressões mais significantes destacadas em negrito. Para melhor compreensão de como o diálogo foi construído entre entrevistadora e professores, designamos a primeira pela letra E, e os professores pela letra P.
Vale destacar que, ao categorizar os discursos dos professores, é necessário ir além das evidências aparentes, buscando contradições e dualidades, ou seja, características inerentes ao pensamento humano (Bardin, 1977). Sendo assim, é admissível que a fala de um professor seja classificada simultaneamente em duas ou mais categorias.
Categoria A – Fixismo
Desde a Antiguidade até o século XIX, verificamos que entre as principais concepções sobre a diversidade era constante a ideia do fixismo. De acordo com os fixistas, os seres vivos, após serem criados, não sofrem modificações. Segundo Freire-Maia (1997), até o início do século XIX o fixismo era o grande paradigma dentro das Ciências Naturais, sendo substituído apenas após o advento da teoria evolutiva. Desse modo, “a visão de mundo predominante era que vivemos em um planeta estável povoado por espécies imutáveis” (Meglhioratti, 2004, p.42).
Analisando as respostas dos professores percebemos que a concepção fixista apareceu na fala de dois docentes entrevistados. Categoria C – Essencialismo
P3:[...] acredito que Deus criou todas as espécies... umas
permaneceram, né, e outras desapareceram [...]
Nesse exemplo, o professor entrevistado deixa claro que, para ele, desde o surgimento das espécies até os dias atuais os seres vivos não sofreram nenhuma modificação. É possível verificar, também, a presença de ideias criacionistas, que serão discutidas posteriormente, na categoria E.
Categoria B – Finalismo
Outra ideia presente nas concepções evolutivas desse período é o finalismo, que se baseia no pressuposto de que as mudanças que ocorrem nos seres vivos apresentam um propósito. Essa concepção pode ser observada nas ideias de Platão e na teleologia de Aristóteles, que é uma doutrina que estuda os fins últimos da sociedade, humanidade e natureza. Conforme lembra Vlastos (1987), Platão propõe a existência de um Deus que molda a matéria de acordo com um modelo ideal, criando assim o Universo. Já para Aristóteles, todos os eventos que ocorrem na natureza servem a um propósito (Ross, 1987). Mora (2001) afirma que a teleologia de Aristóteles apoia-se na pergunta “onde para tudo isto?”,ou seja, busca responder o “para quê” de todas as coisas.
A concepção finalista apareceu no discurso de dois professores.
E: Muitas pessoas acreditam que a vida foi criada ou é um dom
de Deus. Qual a sua opinião sobre esse assunto?
P20: É... o evolucionismo é incontestável. Agora, a evolução
tende a matar o criacionismo. É... como as coisas ocorrem sem
uma força maior? A vida na Terra precisa de um regente. Há um
regente, alguém ditando pra onde vão as coisas[...]
Percebe-se que, para esse professor, as mudanças que ocorrem nos seres vivos servem a um propósito divino, ou seja, os rumos da evolução possuem um objetivo final, e são guiados por um ser superior.
O essencialismo também é uma ideia bastante presente nas concepções dos séculos passados. Os autores essencialistas defendem a existência de uma “essência” que diferencia uma espécie de outras, ou, ainda, que as espécies contêm um “molde interno” que delimita sua forma. De acordo com Meglhioratti et al. (2003, p.2), as ideias essencialistas estão presentes na teleologia cristã, segundo a qual “Deus criou os seres em uma escala percebida na gradação entre matéria inanimada, passando pelas plantas, animais inferiores, humanos, até os anjos e seres superiores”. Sendo assim, as Ciências Naturais, em certo período, davam destaque à catalogação de animais e plantas, visando aproximar-se do plano de Deus (Futuyma, 1992). Essas ideias predominaram até o final do século XVIII e início do século XIX, quando novas discussões sobre a origem das espécies começaram a aparecer.
A concepção essencialista não apareceu explicitamente na resposta de nenhum professor.
Categoria D – Tipologia
A tipologia foi uma característica encontrada em algumas concepções evolutivas, e baseia-se na ideia de que existiu um número limitado de tipos básicos, que deram origem a subtipos. Essa concepção aparece na Antiguidade, com Aristóteles e Platão, e permaneceu até o século XVIII, nas ideias de Buffon e de De Maillet. Ross (1987) afirma que nas ideias aristotélicas há um tipo ideal para cada espécie de acordo com um fim específico, e as variações observadas dentro de uma mesma espécie podem ser explicadas pelas imperfeições da matéria utilizada e não pela causa final da natureza. No século XVIII, a tipologia aparece nas ideias de Buffon, ao exemplificar sua teoria propondo a existência de uma espécie de gato ancestral que, após o contato com distintos ambientes, teria originado outros felinos, como tigres, leões, leopardos, pumas e gatos domésticos (Meyer & El-Hani, 2005), e nas ideias de De Maillet, ao propor a existência de sementes que originariam os seres vivos marinhos, que formariam todas as outras espécies (Martins, 2001).
Essa concepção apareceu na fala de três professores entrevistados.
E: Você acha que Deus criou o homem e todos os outros seres
vivos?
P2: Sim, a partir de ancestrais comuns, dentro da própria
espécie, por exemplo, Ele pode ter criado um cão, e ter variado
em cima disso. Um homem ter variado em cima daquilo, que
nem o homem foi criado um único, e surgiu várias raças, assim
como o cão.
É possível verificar na fala desse e dos outros professores que compõem essa categoria a presença do criacionismo, além da tipologia. As concepções criacionistas são apresentadas na Categoria E.
Categoria E – Criacionismo
Outra concepção bastante frequente na revisão histórica foi o criacionismo, que se baseia no pressuposto de que todos os seres vivos foram criados por um ser superior. Essa ideia aparece nas concepções de Aristóteles e Platão, nas quais há um Deus comparável a um artista e que é responsável pela criação (Vlastos, 1987). Conforme lembra Meglhioratti (2004), o criacionismo foi uma concepção aceita pela comunidade científica até o início do século XIX, quando novas teorias foram propostas.
Esse conceito compõe a categoria com o maior número de representantes – seis – entre os vinte professores entrevistados.
E: Como você acha que surgiu a vida na Terra?
P2: Apesar de ser biólogo, por criação.
Como é possível perceber, na fala desse professor fica bastante evidenciada a ideia de que os seres vivos surgiram devido à intervenção de um ser superior.
Categoria F – Geração espontânea
O conceito de geração espontânea também foi encontrado na revisão histórica e baseia-se na ideia de que os seres vivos surgem da matéria inanimada. Essa concepção apareceu durante a Antiguidade e persistiu até o século XIX. Um dos defensores da geração espontânea foi Buffon, cuja teoria foi assim resumida por Meyer & El-Hani (2005, p.19): “a geração espontânea origina um conjunto de seres vivos e estes, sob a influência do ambiente, dão origem a novas formas, aumentando a diversidade de formas vivas”.
Analisando as falas dos professores percebemos que nenhuma das respostas obtidas pôde ser classificada nesta categoria.
Categoria G – Adaptação ao meio
A adaptação ao meio também é uma ideia encontrada na revisão histórica. A influência do meio na modificação dos órgãos dos animais é uma das quatro leis que embasam a teoria de Lamarck, constituindo, portanto, um dos pressupostos fundamentais de sua teoria. Segundo Gould (1989, p.67-9), a adaptação ao meio consiste na ideia “de que os organismos respondem às mudanças ambientais, desenvolvendo uma forma, função, ou comportamento mais adequado às novas circunstâncias”, ou seja, “um organismo dá-se conta da mudança ambiental, responde a ela da maneira correta”.
Analisando-se as respostas dos professores, pudemos perceber que dois dos vinte entrevistados emitiram respostas que puderam ser classificadas nesta categoria.
E: [...] pra você o que difere um ser vivo de um não vivo?
P16: O que eu acho? Eu acho que a capacidade deles de se
modificar e evoluir, se adaptando ao ambiente.
Nota-se na fala desse professor a ideia de que os seres vivos sofrem modificações para se adaptar ao ambiente em que vivem.
Categoria H – Verticalidade
A verticalidade também foi uma concepção presente no século XIX, na teoria de Lamarck. Para ele, as modificações dos seres vivos levam a um aumento da complexidade orgânica, ou seja, os organismos se tornavam mais perfeitos à medida que evoluíam. Segundo Martins (1993, p.167), “Lamarck acredita ser inerente à vida um poder que tende para o aumento de complexidade, sendo tanto o crescimento como o desenvolvimento de um corpo o resultado desse poder”.
Essa concepção pode ser encontrada nas respostas de dois professores entrevistados.
E: Como você acha que surgiu a vida na Terra?
P7:[...] Ela (a Terra) vem de longe... primeiro dos seus micro-
organismos que foram se desenvolvendo em outros seres até ir
formando os seres maiores e chegar naquilo que nós somos
hoje, por evolução ao longo de todos esses anos.
É possível perceber no final da fala desse professor que, para ele, a evolução leva a um aumento de tamanho, ou seja, um aumento da complexidade.
Categoria I – Uso e desuso
O uso e desuso também estão entre os pressupostos fundamentais da teoria de Lamarck, no século XIX. Para Lamarck, o uso ou desuso de um órgão acarretaria o desenvolvimento ou não dessa estrutura. Conforme lembra Meglhioratti (2004), para Lamarck, uma modificação ambiental acarretaria mudanças nas necessidades dos organismos e em seus comportamentos, conduzindo a um maior uso ou desuso de certos órgãos. Sendo assim, “os organismos não são alterados de forma passiva” (Meglhioratti, 2004, p.47).
Analisando as respostas dos professores, percebemos que nenhuma pode ser classificada nesta categoria.
Categoria J – Herança dos caracteres adquiridos
A herança dos caracteres adquiridos também foi uma concepção encontrada na revisão histórica, constituindo outro pressuposto da teoria de Lamarck. Martins (1993, p.173) afirma que, de acordo com essa concepção, “cada mudança adquirida em um órgão por um hábito suficiente para tê-la operado, conserva-se pela geração, se é comum aos indivíduos que na fecundação concorrem juntos para a reprodução de sua espécie”. Essa ideia também está presente nas explicações de Darwin (2004, p.27), como pode ser verificado no trecho de sua obra A origem das espécies:
A mudança dos hábitos produz efeitos hereditários; poderíamos
citar, por exemplo, a época da floração das plantas
transportadas de um clima para outro. Nos animais, o uso ou
desuso das partes tem uma influência mais considerável ainda.
Assim como ocorreu anteriormente, nenhuma resposta apresentada pelos professores foi classificada nesta categoria.
Categoria K – Transformismo
Após o século XIX surgiram algumas concepções que são aceitas atualmente pela comunidade científica, como o transformismo. De acordo com Chaves (1993), durante o século XIX ainda perduravam as polêmicas entre fixismo e transformismo. O transformismo é uma corrente evolucionária que propõe que as espécies se transformam com o passar do tempo, e se opõe ao fixismo vigente durante a Antiguidade e o século XVIII.
Três professores emitiram respostas que foram classificadas nesta categoria.
P15:[...] as linhas de evolução não são únicas, elas apontam
para todas as direções, a situação que dá mais certo no
momento... ela é contextual.
Na fala desse professor e dos outros que compõem esta categoria, percebe-se a ideia de que o ambiente sofre modificações e, consequentemente, há uma seleção dos indivíduos, modificando, assim, as espécies existentes. Dois professores que compõem essa categoria também fazem parte da categoria L, seleção natural, que será apresentada a seguir.
Categoria L – Seleção natural
Influenciado por ideias transformistas, Charles Darwin publicou, em 1859, A origem das espécies, propondo a ideia de seleção natural. O que caracteriza a concepção de Darwin sobre as modificações dos seres vivos é que as espécies evoluiriam por um processo de seleção efetuado sobre uma variação biológica abundante.
Na seção intitulada “Circunstâncias favoráveis à seleção natural”, Darwin (2002, p.109) afirma:
Um alto grau de variabilidade hereditária e diversificada é
favorável a atuação da seleção natural [...]. Um grande número
de indivíduos, propiciando maior probabilidade para o
surgimento de variações proveitosas num determinado espaço
de tempo, compensará um menor grau de variabilidade
individual, construindo, segundo meu modo de pensar, um fator
extremamente importante para o sucesso dessa atuação. [...] se
alguma espécie não se tornar modificada e não alcançar um
grau de aperfeiçoamento correspondente ao dos seus
competidores, ela logo será exterminada.
Conforme lembram Meglhioratti et al. (2003), a publicação de A origem das espécies gerou numerosas discussões, sendo grande parte delas motivadas pelo fato de a seleção natural ser vista como a causa das extinções, mas não capaz de promover o surgimento de novas espécies. Além disso, a teoria não explicava o mecanismo genético das modificações (Meglhioratti et al., 2003). Essa explicação somente foi elaborada posteriormente, com a teoria sintética da evolução.
Entre as respostas apresentadas pelos professores entrevistados, duas puderam ser classificadas nesta categoria.
P10:[...] apesar de existirem os organismos eucarióticos e
procarióticos não dá pra não achar que houve uma... uma...
como é que fala? Uma evolução da complexidade da célula
eucariótica, mas tanto a célula eucariótica quanto a procariótica
são tão evoluídas quanto, pois todas existem hoje no planeta
Terra, então procarionte e eucarionte são produtos da evolução,
no entanto sobreviveram os procarióticos também porque estão
bem adaptados até hoje [...].
O discurso desse professor deixa clara a ideia de seleção natural. Apesar de a sua fala não estar completamente organizada, uma vez que a espontaneidade é algo presente nas entrevistas, percebe-se um conhecimento claro e preciso das bases da teoria da evolução aceita atualmente. Esse é um dado significativo, uma vez que essa teoria constitui um dos paradigmas da Biologia Moderna.
Categoria M – Gradualismo
O gradualismo, que aparece nas teorias propostas no final do século XIX, é bastante aceito atualmente, e propõe que as modificações evolutivas são progressivas. Conforme lembra Mayr (1991), é possível verificar na obra de Charles Darwin concepções gradualistas, ou seja, a ideia de que as modificações dos seres vivos não ocorrem de maneira repentina.
Respostas gradualistas puderam ser verificadas nas falas de cinco professores.
E: Como você acha que surgiu a vida na Terra?
P15: [...] eu acredito que a vida veio de uma organização única,
primordial, uma organização química que foi se unindo aos
poucos e formou as primeiras células, aí vieram os núcleos
celulares, aí vieram as células procariontes e eucariontes, então
essa questão que é colocada na Biologia.
Neste exemplo percebe-se que o surgimento das novas espécies não ocorre de maneira súbita, abrupta, e sim gradualmente.
Categoria N – Ancestralidade comum
No final do século XIX verificamos ser crescente o número de adeptos da teoria da ancestralidade comum, cuja proposta é a de que todos os seres vivos possuem um mesmo ancestral. Conforme lembra Mayr (1991), essa teoria também está presente na obra de Charles Darwin.
Essa concepção pode ser encontrada nas respostas de quatro professores entrevistados.
E: E como você acha que surgiu a vida na Terra?
P16: Eu acredito na hipótese desde a história do Big Bang,
depois dos coacervados, que uma forma de vida primitiva tenha
conseguido evoluir e ter se transformado em vários tipos de
seres vivos, é isso que eu acredito, até que provem o contrário.
Nas falas dos quatro professores que compõem essa categoria fica evidenciada a ideia de ancestralidade comum, concepção bastante aceita nas teorias atuais.
Categoria O – Variações gênicas
Com o desenvolvimento da Genética no início do século XX, as teorias evolucionistas começaram a ser diretamente relacionadas ao conhecimento genético. A síntese evolutiva, ou a chamada teoria sintética da evolução, foi formulada entre 1936 e 1950 (Mayr, 1988).
Segundo Futuyma (2002), a síntese evolucionista apoia-se em quatro princípios fundamentais, sendo eles: 1) existem variações gênicas nas populações, surgidas por meio de mutações ao acaso e recombinações; 2) a evolução ocorre nas populações devido a modificações nas frequências gênicas decorrentes da deriva genética aleatória, do fluxo gênico e da seleção natural; 3) a maioria das variantes genéticas adaptativas apresenta pequenos efeitos fenotípicos individuais; e 4) a diversificação ocorre por meio da especiação.
Assim, a Biologia Evolutiva neodarwinista baseia-se na capacidade dos seres vivos de produzirem cópias de si mesmos, mantendo suas características genéticas básicas através das gerações e, concomitantemente, sofrerem mudanças em seu material genético devido a processos de mutações e recombinações, possibilitando a evolução dos indivíduos com o passar do tempo (Tavares, 2000).
Analisando as respostas dos professores, verificamos que nenhuma pode ser classificada nesta categoria.
Categoria P – Pontualismo
A teoria do equilíbrio pontuado, também chamada de pontualismo, saltacionismo, ou teoria dos equilíbrios intermitentes, foi formulada originalmente em 1972 por Stephen Jay Gould e Niles Eldredge, devido à observação de registros fósseis (Meglhioratti, 2004). Essa teoria sugere que as espécies evoluem seguindo um padrão de grandes períodos de equilíbrio estático, sem grandes variações, e períodos em que há altas taxas de modificações, quando ocorreria um acúmulo de mutações genéticas (Gould, 2001). Essa teoria, assim como a do gene egoísta e do neutralismo, não divergem da teoria sintética da evolução, apenas propõem novos argumentos que explicam seus mecanismos causais.
Assim como ocorreu no caso anterior, nenhuma resposta emitida pelos professores foi classificada nesta categoria.
Categoria Q –Gene egoísta
Segundo a teoria do gene egoísta, o gene é que seria a unidade fundamental da evolução, enquanto os indivíduos seriam apenas “máquinas de guerra”, máquinas de sobrevivência dos genes (Dawkins, 2001). Dessa forma, como afirma Meglhioratti (2004, p.73), “a seleção natural atuaria ao longo de milhões de anos selecionando os genes com maior capacidade de replicação”.
Analisando as respostas, percebemos que um professor pode ser enquadrado nesta categoria.
P14: [...]hoje existem pesquisadores que chamam os seres
vivos como máquinas de guerra, máquinas de guerras
comandadas por genes, tem aí o gene egoísta que nós
seríamos então meros instrumentos da “vontade” dos genes,
dessas moléculas que têm esse desejo de se replicar[...]
Nota-se na fala de P14 um conhecimento explícito da ideia de gene egoísta. Esse é um dado significativo, uma vez que a ideia é bastante recente e atualmente muito discutida no meio acadêmico.
Categoria R – Neutralismo
O neutralismo é uma teoria científica evolutiva proposta pelo geneticista japonês Motoo Kimura, em 1968. De acordo com Futuyma (2002), para os defensores do neutralismo, as variações que ocorrem ao longo das gerações são muito rápidas e, portanto, não podem ser explicadas pela seleção natural. Assim, a maioria das modificações observadas são seletivamente neutras, uma vez que, para Kimura, a maioria das substituições e polimorfismos advém da fixação de variantes seletivamente neutras por meio de deriva genética (Futuyma, 2002).
De acordo com Futuyma (2002), atualmente a maioria dos cientistas aceita a existência tanto de variantes neutras quanto de valor adaptativo, ou seja, diferentemente do que ocorria entre as décadas de 1970 e 1990, em que se observavam grandes discussões entre os selecionistas e os neutralistas, hoje essas discussões não persistem, e os cientistas não apresentam pontos de vista tão extremados.
Analisando as respostas obtidas, verificamos que nenhum professor pode ser enquadrado nesta categoria.
Categoria S – Não respondeu à pergunta
Dentre os vinte professores entrevistados, um, ao ser questionado sobre a origem dos seres vivos, alegou não saber como responder.
Discussão e conclusões
Da análise das entrevistas realizadas podemos destacar algumas conclusões a respeito de como os professores de Biologia entrevistados compreendem e explicam a evolução biológica.
Ao avaliarmos as concepções evolutivas desses professores, percebemos que uma quantidade significativa de respostas analisadas (15) mostrou concepções aceitas atualmente pela ciência, como o transformismo (K), a seleção natural (L), o gradualismo (M), a ancestralidade comum (N) e o gene egoísta (Q). No entanto, dentre esses professores, alguns demonstraram dualidades em suas falas, ou seja, exprimiram respostas que mesclam ideias científicas e não científicas, como concepções fixistas (A), finalistas (B) e verticalidade (H).
Por outro lado, a maioria das respostas analisadas (18) demonstrou concepções que não são aceitas atualmente no campo científico. Entre elas, destaca-se o criacionismo (E), que apresentou o maior número de respostas (6). Nesse ponto, ressalta-se que este trabalho não está analisando as crenças pessoais dos professores – que devem ser respeitadas, inclusive em função dos direitos legais de escolha religiosa. Ao contrário, o que se busca aqui é refletir sobre o conhecimento do professor devido às necessidades do ensino escolar de evolução.
Pudemos perceber que algumas categorias, como variações gênicas (O), pontualismo (P) e neutralismo (R) não aparecem em nenhuma das respostas. Esse fato pode ser explicado por dois motivos – primeiro, porque inicialmente a entrevista buscou trabalhar questões referentes ao conceito de “vida” desses professores, ou seja, as perguntas realizadas não permitiram que os entrevistados se aprofundassem nesse tema. Além disso, o pontualismo e o neutralismo são duas teorias bastante recentes e é possível que os professores entrevistados não as conheçam. Entretanto, é válido destacar que um professor emitiu uma resposta que pode ser classificada na categoria gene egoísta (Q), que é uma ideia bastante recente e atualmente muito discutida no meio acadêmico.
O fato de aparecer uma parcela significativa (15) de respostas que demonstram concepções evolutivas baseadas em conceitos científicos atuais é bastante positivo, pois demonstra que discussões atuais sobre evolução fazem parte dos conhecimentos desses professores. No entanto, percebemos que muitas dessas concepções aparecem mescladas com ideias presentes durante a Antiguidade e em séculos passados, as quais não são aceitas atualmente no campo científico. Pode-se perguntar, assim, se a dualidade constatada tende a se refletir em aula e gerar confusões ou problemas de aprendizagem entre os alunos.
Considera-se importante que os docentes compreendam os mecanismos da evolução biológica. Se essa compreensão estiver afetada por dificuldades epistemológicas ou conceituais poderá refletir-se em problemas no ensino desse tema.
Cabe lembrar que a evolução biológica, por abranger todas as áreas da Biologia, é considerada o conceito central e unificador, e o trabalho desse tema de forma adequada pode servir para tornar essa ciência menos fragmentada. Em outras palavras, a evolução biológica constitui um paradigma da Biologia contemporânea, e pensa-se que pode contribuir para uma aprendizagem condizente com o caráter complexo dos sistemas naturais.
Faz-se necessário, portanto, um estudo aprofundado por parte dos professores de Biologia de questões que envolvam esse tema. Trabalhar uma concepção evolutiva em sala de aula ancorando-se em noções contrárias ao conhecimento científico, de forma intencional ou não, não é desejável, uma vez que os professores de Biologia são os intermediários entre o conhecimento biológico produzido e os alunos, e é no interior do processo de argumentação e construção do pensamento biológico que essas compreensões inconsistentes se revelam e contribuem para distorções conceituais nos alunos.
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1 . Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência – UNESP/Campus de Bauru. Bolsista Capes. e-mail:
paloma.bio@hotmail.com.
2 . Docente do Departamento de Biologia Geral – UEL. e-mail:
marianabologna@yahoo.com.br.
3 . Docente do Departamento de Educação – UNESP/Campus de
Bauru. e-mail: anacaldeira@fc.unesp.br.