Ensino de ciências e matemática III
5 Os indicadores de alfabetização científica nos anos iniciais do ensino fundamental e o uso da história em quadrinhos como recurso didático em Ciências
5 Os indicadores de alfabetização
científica nos anos iniciais do ensino
fundamental e o uso da história em
quadrinhos como recurso didático em
Ciências
Mariana Vaitiekunas Pizarro 1 2 ; Jair Lopes Junior
Introdução
As reflexões ora apresentadas expressam os principais resultados de uma pesquisa que objetivou verificar se práticas de ensino e de avaliação fundamentadas em preceitos da análise do comportamento (Baum, 1999; Skinner, 1968, 1975, 1991; Zanotto, 2000) e pautadas na utilização de histórias em quadrinhos (HQ) como recurso didático constituiriam condições adequadas para a aquisição e o desenvolvimento de indicadores da alfabetização científica por alunos dos anos iniciais do ensino fundamental.
Em concordância com diretrizes oficiais que preconizam a inserção de textos ficcionais e não literários nas atividades em sala de aula como recursos didáticos, a literatura acusa consensos em admitir contribuições das histórias em quadrinhos.
As propostas de Vergueiro (2004) para a elaboração de metodologias de trabalho com histórias em quadrinhos em sala de aula apresentam diversos exemplos do como incorporar esse material às práticas docentes tendo em vista ensinar conteúdos de forma atraente e motivadora. Contudo, a ausência de propostas desse tipo voltadas para conteúdos em ciências naturais abre uma lacuna interessante de ser explorada por pesquisadores e professores.
Muito embora as histórias em quadrinhos sejam objeto de estudo acadêmico por parte dos profissionais da comunicação há muito tempo, o uso desse material no campo educacional sugeriu a necessidade de pesquisas por parte de educadores não apenas para analisar ou criticar esse material, mas principalmente para demarcar suas contribuições como recurso didático para práticas de ensino e de avaliação de aprendizagens.
Assim como as demais áreas, o Ensino de Ciências também começa a buscar espaço nessas pesquisas. Alguns trabalhos acerca do uso de quadrinhos como recurso para o Ensino de Ciências em forma de artigos (por exemplo, Worner & Romero, 1998; González-Espada, 2003; Caruso & Cols, 2005; Gonçalves & Machado, 2005; Vílchez-González & Perales-Palácios, 2006; Carvalho & Martins, 2009) ou dissertações (Testoni, 2004; Soares, 2004; Kamel, 2006; Pizarro, 2009) relatam pesquisas direcionadas à análise desse material como recurso didático.
Nota-se através das reflexões propostas pelos estudos supracitados que não só é possível a realização de pesquisas acadêmicas com histórias em quadrinhos como também é fundamental que essas pesquisas apresentem dados que apontem sugestões na elaboração de metodologias que utilizem a HQ, bem como outros materiais, de forma a priorizar a reflexão em Ciências e elevar a percepção dos alunos para além do humor e do entretenimento.
Importa destacar que boa parte dos estudos acadêmicos na área de Educação e na área de Ensino de Ciências reconhece o uso de HQs como recurso didático relevante para as aulas de Ciências em todos os níveis. E esses estudos destacam ainda o indiscutível papel do professor no trabalho de análise, triagem e uso desse material para que as informações por ele veiculadas não passem despercebidas pelos olhos atentos dos alunos e não tornem a sua visão da ciência estereotipada e equivocada.
Mesmo no ambiente formal de sala de aula, onde os alunos têm a oportunidade de entrar em contato com conhecimentos cientificamente aceitos, orientados pela prática do professor, não se pode ignorar a presença e influência dos mais diversos meios de divulgação da ciência. A história em quadrinhos é mais um desses instrumentos a serviço de práticas motivadoras no Ensino de Ciências, as quais devem ser planejadas com o intuito de promover em seus leitores repertórios consistentes com os objetivos da Educação em Ciências, a partir das informações recebidas não só pelos quadrinhos, mas por qualquer outro meio de divulgação científica que seja passível de análise e equívoco.
Os quadrinhos como recurso didático em
Ciências: suas contribuições
Muitas são as sugestões apresentadas pelas pesquisas sobre o uso de quadrinhos como recurso didático em Ciências. Levando em consideração essas discussões, podemos destacar que, assim como qualquer outro material de divulgação científica, as HQs enquanto veículo de comunicação e entretenimento que também pode contribuir para que a prática pedagógica em ciências esteja mais próxima do interesse dos alunos e, ao mesmo tempo, permitir o estímulo a uma leitura mais apurada dos diversos textos que tratam de temáticas em Ciências, ainda que não sejam puramente científicos, como panfletos entregues durante visitas em espaços informais de educação científica (museus, estações de tratamento de água), artigos em revista voltadas para o público infantil que envolvam curiosidades sobre temas científicos, entre outros.
Contudo, importa tratarmos de uma questão que faz com que muitos professores evitem o uso dos quadrinhos em sala de aula: a possibilidade de que contribuam para a disseminação de ideias inadequadas do ponto de vista científico. É sabido que as histórias em quadrinhos caracterizam-se por ser narrativas que trabalham com o imaginário e o humor do leitor e que muitas vezes fazem uso de diversos conceitos ou “pseudoconceitos” (especialmente os científicos) para enriquecer seu enredo. Sem a intenção de ser um “material didático”, essas histórias transitam livremente entre informações reais e fictícias e muitas vezes essa acaba sendo a justificativa para excluir esse material de aulas mais elaboradas e relegá-lo para sempre ao “cantinho da leitura”, esquecendo-se das contribuições que ele pode trazer justamente por ser uma arte próxima dos interesses dos alunos. No sentido dessa reflexão, Kamel & La Rocque (2006) destacam que os “erros conceituais” em histórias em quadrinhos não devem desmerecer a contribuição desse material para o ensino de Ciências, mas subsidiar a proposição de práticas que estimulem procedimentos de identificação e de descrição de ideias inadequadas, bem como de discussões sobre os conhecimentos cientificamente válidos e suas respectivas formas de produção.
Alfabetização científica: em busca de indicadores
Segundo os Parâmetros Curriculares Nacionais/Ciências Naturais (Brasil, 1997), o uso de diversas fontes de informação nas aulas de Ciências deve figurar como uma preocupação por parte dos professores, uma vez que muito do que o aluno conhece está vinculado à aquisição de informações no ambiente em que vive. E, por vezes, esse conhecimento pode ter sido construído com informações equivocadas e que necessitam do apoio do professor.
Em relação à demarcação conceitual, Sasseron & Carvalho (2008) propuseram eixos estruturantes da alfabetização científica. Segundo as autoras, esses eixos cumpririam a relevante função de apoiar a idealização, o planejamento e a análise de propostas de ensino que objetivem a alfabetização científica em diferentes contextos. O primeiro eixo estruturante é definido pela compreensão básica da terminologia, dos conhecimentos e dos conceitos científicos fundamentais de uma determinada área. O segundo eixo concentra ênfase na compreensão da natureza da ciência e dos fatores éticos e políticos que envolvem a prática científica. Por seu turno, o terceiro eixo abrange a compreensão das relações existentes entre a ciência, a tecnologia, a sociedade e o ambiente.
Admite-se consenso em reconhecer a alfabetização científica como um processo que impõe às propostas de ensino de Ciências compromissos que superam o contato com noções e conceitos científicos, viabilizando a compreensão da dimensão pública da ciência a partir do acesso às informações, mas, em especial, fomentando repertórios de discussão, de reflexão e de posicionamentos críticos em relação aos temas que envolvem o trabalho da ciência, seus produtos, a utilização dos mesmos e os aspectos humanos, sociais e ambientais que circunscrevem tais trabalhos, seus produtos e a sua utilização.
Lorenzetti & Delizoicov (2001) propõem que a alfabetização científica seja
compreendida como processo pelo qual a linguagem das
Ciências Naturais adquire significados, constituindo-se um meio
para o indivíduo ampliar o seu universo de conhecimento, a sua
cultura, como cidadão inserido na sociedade. (Lorenzetti &
Delizoicov, 2001, p.8-9)
Ainda segundo os autores, a escola em si, enquanto espaço formal de ensino, não consegue dar conta de alfabetizar cientificamente seus alunos. Contudo, ainda que ela não consiga oferecer de forma adequada e plena as informações e os conhecimentos científicos que os indivíduos necessitam para a sua formação, deve proporcionar condições para tornar o aprendiz cada vez mais autônomo na busca e na análise de diferentes informações e conhecimentos. Assim, proporcionar aos alunos o contato com diversas fontes de informação e com diferentes estruturas de argumentação, para além do livro didático, é uma forma de auxiliar na complexa tarefa de possibilitar e ampliar os repertórios com os quais os alunos se posicionarão diante dos temas sociocientíficos que marcam a nossa vida em sociedade.
Nesses termos, a história em quadrinhos, como veículo de comunicação que faz parte do universo infantil, também pode ser considerada contribuinte na promoção da alfabetização científica. Portanto, ainda destacando a importância da alfabetização científica nos anos iniciais, Sasseron & Carvalho (2008) apontaram que, a partir da proposição de consensos na demarcação conceitual de tal expressão, cumpre identificar possíveis indicadores desse processo, a saber, descrever e investigar medidas comportamentais que fundamentariam inferências sobre a manifestação da alfabetização científica, viabilizando intervenções e aprimoramentos constantes na mesma.
Segundo Sasseron & Carvalho (2008), o processo de alfabetização científica nos anos iniciais do ensino fundamental reveste-se de relevância inconteste considerando-se a necessidade do desenvolvimento e da construção de conhecimentos e de argumentações sobre temas científicos no contexto da escolarização básica. Assim, tais autoras propuseram como indicadores da alfabetização científica competências que, em uma interpretação analítico-comportamental (Hübner & Marinotti, 2004), seriam consistentes com a noção de que o aluno dos anos iniciais mantenha contato com classes de respostas (repertórios comportamentais) que definem o fazer ciência. Destarte, colocam-se aqui, como indicadores da alfabetização científica, efetuar a seriação de informações, organizar informações, classificar informações, raciocinar logicamente, raciocinar de modo proporcional e propor hipóteses sobre possíveis relações de causalidade.
Metodologia
Esta pesquisa investigou, com uma turma de 5º ano do ensino fundamental, condições que poderiam favorecer a caracterização das histórias em quadrinhos como recurso didático para o ensino de indicadores da alfabetização científica. De modo mais específico, este estudo verificou, com utilização de histórias em quadrinhos comerciais, possíveis contribuições de estratégias de ensino e de avaliação de aprendizagem de repertórios comportamentais consistentes com objetivos preconizados para o ensino de Ciências nos anos iniciais do ensino fundamental, admitindo que tais repertórios se constituiriam em medida de indicadores mais genéricos do processo de alfabetização científica para esse período da educação básica.
A coleta de dados foi realizada em uma escola pública de ensino fundamental de uma cidade localizada no interior do Estado de São Paulo. Participaram, inicialmente, 28 alunos regularmente matriculados em determinada turma. Os aspectos éticos relacionados com a execução da pesquisa em ambiente institucional foram submetidos e aprovados pelo Comitê de Ética em Pesquisa da instituição dos pesquisadores.
Foram utilizados, como recursos materiais, uma filmadora digital portátil, aplicativos para gravação e edição de dados digitais, quatro histórias em quadrinhos publicadas em gibis comerciais de periodicidade mensal e roteiros digitados, com fotocópias para cada aluno e descrição das atividades previstas com cada história.
Os procedimentos adotados por parte da pesquisadora para a realização da coleta de dados visaram à obtenção de alguns dos objetivos propostos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais de Ciências Naturais para o 2º ciclo do ensino fundamental (3ª e 4ª séries). Os objetivos selecionados foram explicitados no planejamento de cada uma das quatro aulas ministradas. As atividades efetuadas em sala de aula foram planejadas de modo a favorecer a aquisição e o desenvolvimento de medidas comportamentais consistentes com os objetivos selecionados. Foram utilizadas as seguintes histórias em quadrinhos como instrumento didático-pedagógico: Papa Capim em: Vara de pescar (Sousa, 2007); Chico Bento em: Arroz, feijão e ovo frito (Sousa, 1993); Chico Bento em: Bicho homem (Sousa, 2004); Papa Capim em: Tribunal da selva (Sousa, 2006).
A coleta de dados realizada nesta pesquisa envolveu registros em vídeo de quatro aulas consecutivas, e a coleta da produção escrita de 28 alunos que interagiram com as atividades executadas nas quatro aulas. As filmagens foram efetuadas por uma graduanda da área de Artes Gráficas com adequada ambientação prévia com o grupo.
Foram estabelecidos os seguintes critérios para seleção dos dados: alunos faltosos e com recorrentes atividades em branco foram excluídos. Assim, com um total de 14 alunos presentes nos quatro dias de coleta e com todas as atividades preenchidas e/ou realizadas, foi efetuada a classificação das respostas desses alunos em subgrupos semanticamente relacionados, ou seja, com respostas que apresentavam características semânticas
equivalentes considerando os indicadores selecionados (Quadro 1).
Quadro 1 – Histórias em quadrinhos utilizadas em cada aula ministrada, com os respectivos indicadores priorizados pelas
atividades executadas considerando os temas das aulas
* Nas modalidades silenciosa e oral.
** Nas modalidades oral e escrita.
Para a turma de 5º ano participante foram ministradas cinco aulas consecutivas por um dos pesquisadores. O Quadro 1 informa, para cada uma das quatro aulas iniciais, a história em quadrinhos utilizada, bem como os respectivos objetivos, expressos sob a designação de possíveis indicadores para o processo de alfabetização científica no final de ciclo (5º ano) do ensino fundamental.
Na primeira aula foi utilizada a história em quadrinhos Vara de pescar (Sousa, 2007). O enredo da história trata da poluição em um rio. As imagens ilustram a responsabilidade do homem com a condição poluída do rio. O índio Papa Capim encontra uma vara de pescar e decide abandonar a sua lança para testar a ferramenta do “caraíba” (humano). Recorrentemente, o índio “pesca” objetos diferentes de um peixe: garrafas, panelas, pneus, latas, etc. Ao terminar a tarefa de limpeza do rio, compartilha com seu amigo Cafuné a descoberta: na realidade, os caraíbas usam a ferramenta vara para a limpeza do rio, o que se trata de uma grande invenção. Mas a verdadeira pesca seria realizada mais adequadamente com a sua lança.
Na segunda aula, a história Arroz, feijão e ovo frito (Sousa, 1993) apresenta o personagem Chico Bento, que vive na zona rural e encontra-se saturado da comida cotidiana e repetitiva desse local. Chico Bento se mostra animado com o convite de passar uma semana na zona urbana com o primo, com acesso a diferentes cardápios. Na cidade grande, as ilustrações sugerem o desgaste de Chico Bento com as comidas diferentes, mas não saudáveis, que caracterizam, de modo estereotipado, a alimentação em tal ambiente. No seu retorno à zona rural, a mãe logo anuncia a manutenção do mesmo cardápio da semana anterior. Desta feita, as ilustrações expressam a satisfação de Chico Bento com a alimentação simples da zona rural.
A história Bicho homem (Sousa, 2004) foi utilizada na terceira aula. Chico Bento, na escola, faz a leitura de uma redação na qual tenta explicar “a lei do mais forte” (Sousa, 2004) através de uma cadeia alimentar. Utiliza esse argumento para criticar o homem como único ser vivo capaz de matar por interesses e não para a subsistência. Ao notar a decepção dos colegas e da professora com os argumentos pessimistas expressos na redação sobre as relações entre o homem e a natureza, Chico Bento finaliza a leitura expondo atitudes do homem que o tornariam um protetor da natureza e esse desfecho agrada aos colegas da sala de aula.
Na quarta aula foi utilizada a história Tribunal da selva (Sousa, 2006). Há a discussão entre o índio Papa Capim e um menino da cidade sobre a natureza valorativa mais adequada para a relação de predação na alimentação dos animais derivada da caça de outros animais. O índio tenta demonstrar os vínculos entre a caça e a subsistência, enquanto o menino insiste no argumento de que se trata de um exemplo de maldade dos animais. Os argumentos do índio não alteram as ideias do menino da cidade. Ao final, o índio define como injusta a aplicação de qualificações como maldade para julgar as condições de subsistência dos animais, afirmando que tais julgamentos parecem expressar o desconhecimento das regras da natureza. Importa destacar aqui que as quatro histórias selecionadas permitiriam a abordagem de vários aspectos: motivação, dimensões afetivas dos alunos quanto ao enredo das histórias e até mesmo conteúdos atitudinais diante de algumas questões suscitadas por elas, mas, em razão das delimitações de nosso estudo, optou-se por não aprofundar essas questões.
O Quadro 2 descreve, de modo sucinto, as estratégias adotadas nas quatro aulas iniciais.
Quadro 2 – Descrição das estratégias adotadas com utilização das
histórias em quadrinhos
* Tabela com questões literais (identificação de características
indicadas na história) e inferenciais (respostas que exigiam
interpretações sobre possíveis significados das expressões).
Na quinta e última aula, a professora solicitou dos alunos, oralmente e por escrito, a produção de uma história em quadrinhos que, na avaliação deles, cumpriria a função de ensinar alguns dos conceitos estudados através das histórias utilizadas nas aulas anteriores. Assim, os alunos deveriam escolher conceitos científicos estudados nas quatro aulas anteriores e produzir, numa folha previamente preparada, com espaço limitado de duas páginas de um gibi, uma história que pudesse ensinar os conceitos selecionados para futuros leitores.
Analisando os dados em busca de indicadores
Os principais resultados obtidos sustentaram algumas características recorrentes durante as quatro aulas iniciais ministradas. Constatou-se que a leitura silenciosa inicial pelos alunos apresentou-se como condição relativamente satisfatória para a produção das respostas previstas para as perguntas literais da tabela de análise da HQ. Contudo, esse mesmo indicador não foi condição suficiente para a produção das respostas corretas no caso das perguntas inferenciais, mesmo após o esclarecimento oral de vocabulário, ortografia e gramática, o que indica claramente a importância do professor no auxílio à leitura e interpretação das histórias.
Após a correção coletiva das respostas fornecidas para as tabelas de análise relativas a cada HQ, no âmbito de cada aula ministrada, a professora forneceu novas informações e atividades que exigiam diferentes níveis de interpretações, classificações, exemplificações e proposição de hipóteses. As estratégias adotadas após o trabalho com as tabelas de análise exigiam respostas literal e inferencial com base em materiais distintos, mas ainda assim relacionados com os conteúdos expressos nas respectivas HQ.
No contexto de cada aula ministrada, de acordo com os principais resultados de um subgrupo de alunos, os desempenhos nitidamente evidenciaram que a correção oral e coletiva das respostas fornecidas para as questões da tabela de análise da HQ constituiu-se em condição crítica para a manifestação dos indicadores previstos em todas as demais atividades da aula. Todavia, no âmbito das restrições metodológicas da pesquisa, em especial a coleta em cinco aulas consecutivas num espaço de uma semana, constatou-se que as intervenções orais da professora na correção das respostas da tabela de análise não sustentaram efeitos cumulativos evidentes de uma aula para a subsequente. Em outros termos, os efeitos favoráveis de tais correções se mostraram concentrados na aula em questão. Quando da passagem para a aula subsequente, com uma nova história, novo tema e novas atividades, mostrou-se saliente a necessidade das intervenções sob a forma de correção das respostas para as questões inferenciais como condição para o aprimoramento dos indicadores.
Para um segundo subgrupo de alunos, alterações importantes em características dos indicadores foram constatadas somente nas interações finais, em atividades de discussão coletiva propostas pela professora, mediante o contato do aluno com exemplos específicos da ocorrência do indicador sob dadas circunstâncias. Nessas situações, a professora cumpriu a relevante tarefa de diferenciar entre a produção mecânica da resposta prevista e o desenvolvimento e a manifestação dos indicadores desejados.
As histórias produzidas na última aula exibiram diversidade de temas selecionados. Dentre esses temas, cabe destacar, em razão da qualidade das histórias produzidas, a cadeia alimentar, o parasitismo, o desmatamento, o comensalismo e o mutualismo, a preservação e a alimentação dos seres vivos. A análise das histórias produzidas pelos alunos concentrou-se em caracterizar a manifestação dos indicadores sob condições distintas daquelas nos quais os mesmos foram ensinados nas quatro aulas anteriores.
Diante da tarefa de produzir uma HQ, por exemplo, muitos alunos poderiam replicar as histórias, os diálogos, os exemplos previamente estudados, acusando, assim, restrições na manifestação dos indicadores sob condições distintas daquelas que definiram as suas aprendizagens.
Contudo, a produção dos alunos sugere a manifestação de características favoráveis dos indicadores selecionados. Alguns alunos expressaram propriedades que definem a natureza de determinadas relações em histórias distintas daquelas utilizadas. Além disso, em algumas histórias ocorreram críticas em relação a comportamentos vinculados com a poluição e o desmatamento a partir de elementos de argumentação ausentes na HQ original, mas presentes nas discussões em sala posteriormente.
Considerações finais
O principal objetivo deste estudo consistiu em verificar, com a utilização de histórias em quadrinhos comerciais, possíveis contribuições de estratégias de ensino e de avaliação de aprendizagem de determinados repertórios consistentes com objetivos preconizados para o ensino de Ciências nos anos iniciais, admitindo que tais repertórios se constituem em medidas de indicadores mais genéricos do processo de alfabetização científica.
Em síntese, os resultados salientaram uma replicação sistemática de evidências dispostas e discutidas na literatura científica sobre indicadores da alfabetização científica nos anos iniciais do ensino fundamental, bem como viabilizaram demonstrações empíricas de argumentos cotejados no âmbito das discussões sobre a utilização das histórias em quadrinhos como recurso didático no ensino de Ciências.
Nesta pesquisa, as estratégias utilizadas objetivaram proporcionar condições para a expressão inicial dos indicadores selecionados e convergiram em propor atividades que permitissem a manifestação progressiva, dialogada e orientada dos indicadores, com tentativas constantes de manutenção de vínculos com indicadores e conteúdos já trabalhados. Desse modo, a replicação ora discutida fortalece o argumento de que a proposição e a identificação de indicadores encontram-se condicionadas ao planejamento de atividades de ensino que estimulem expressões, ações dos alunos sobre o conteúdo discutido, considerando que tais expressões e ações congregam variados repertórios comportamentais com níveis distintos de complexidade em relação aos aspectos motores, cognitivos, algorítmicos e heurísticos envolvidos (Sasseron & Carvalho, 2008; Tytler & Peterson, 2003).
Por fim, quanto à literatura que advoga méritos para as histórias em quadrinhos como recurso didático, a utilização de tal recurso no contexto da investigação de indicadores do processo de alfabetização científica salientou um aspecto crítico a ser devidamente salientado: seguramente, os méritos das histórias em quadrinhos como recurso didático no ensino de Ciências encontra-se, de modo decisivo, vinculado às características das atividades de mediação conduzidas pelo professor. Muito embora essa argumentação encontre-se devidamente presente em literatura pertinente, os dados desta pesquisa evidenciaram contribuições das histórias em quadrinhos como recurso didático. Igualmente, salientaram que a promoção de alterações qualitativas significativas nos indicadores investigados não prescinde de estratégias de ensino e de avaliação devidamente planejadas e orientadas para a produção das medidas comportamentais que definem tais indicadores.
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1 . Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência (Área de Concentração: Ensino de Ciências) – Faculdade de Ciências UNESP/Campus de Bauru e professora efetiva da rede estadual de ensino (Secretaria da Educação do Estado de São
Paulo). e-mail: marianavpz@gmail.com.
2 . Docente do Departamento de Psicologia, Faculdade de Ciências, UNESP/Campus de Bauru e do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência (Área de Concentração: Ensino de Ciências), Faculdade de Ciências, UNESP/Campus de Bauru. e-
mail: jlopesjr@fc.unesp.br.