Ensino de ciências e matemática III
1 Ensino de Ciências e pós-modernidade: as novas questões propostas pela Genética
1 Ensino de Ciências e pós-
modernidade: as novas questões
propostas pela Genética
Claudio Bertolli Filho 1
O progresso das ciências e das artes contribuirá para purificar ou para corromper os nossos costumes? Esta interrogação foi lançada no século XVIII pelos filósofos iluministas e atualizada por Boaventura de Sousa Santos (2001, p.7) como um dos grande dilemas da pós-modernidade. As avaliações das ciências e da tecnologia como promotoras de um presente e de um futuro mais seguro e funcional contrapõem-se a observações pessimistas que, tomando como exemplo o desenvolvimento da Física Atômica, postula que os conhecimentos científico-tecnológicos estão mais preparados para destruir do que para redimir a humanidade (Giddens, 2002, p.109-10).
Entre uma e outra perspectiva, percebe-se na pós-modernidade a busca por um diálogo que realça as dúvidas, receios e dilemas éticos gerados pelas ciências e pelos produtos tecnológicos. Esse movimento ensejou a constituição da “modernização reflexiva”, a qual se empenha em colocar em discussão pública os pilares das instituições e saberes vigentes, detendo-se nas possíveis consequências éticas e utilitárias para o presente e para o porvir da adoção das ideias legitimadas pelas ciências e dos produtos tecnológicos (Beck, 1997, p.167).
Nesse sentido, a sociedade pós-moderna também pode ser avaliada como uma sociedade que busca a lógica de controle das situações e, especialmente, das inovações tecnológicas (Beck, 2002, p.214). Os atores sociais empenham-se, com isto, em não só se inteirarem das mais recentes produções científicas, mas também em avaliá-las, utilizando para tanto as “opiniões” não só dos cientistas, já que estes são tendencialmente colocados sob suspeita, mas também de outros personagens públicos de destaque, mesmo – e talvez sobretudo – aqueles que não estão atuando diretamente no setor científico que está sendo questionado; posição que supostamente lhes conferiria maior isenção e clareza de ideias, inclusive porque se servem de um vocabulário mais afeito ao público leigo.
Refletindo as condicionantes culturais da pós-modernidade, os professores tendem a, no período de formação acadêmica, pouco entrarem em contato com as questões éticas e possíveis riscos na adoção de ideias científicas e produtos tecnológicos que, de regra, são mostrados como necessários e eficientes para a fluidez da vida cotidiana. Assim, se a formação dos docentes tem sido tradicionalmente realizada a partir de um modelo de “racionalidade técnica”, começou-se a propor a substituição desse modelo pelo de “racionalidade prática”, na qual o professor é entendido, segundo Piconez (1991, p.110), como um profissional autônomo que deve refletir, questionar e tomar decisões sobre os conteúdos que ensina, não se descurando de confidenciar aos alunos as dúvidas, incertezas e conflitos de valores que perpassam a aplicação dos conhecimentos científicos e suas ramificações tecnológicas.
Esta última postura situa o ensino de ciências como uma prática que objetiva ser bem mais do que a transmissão de conhecimentos, somando a isto uma postura criativa porque crítica. Para tanto, os conhecimentos científicos e pedagógicos ganham sentido mais abrangente a partir do momento em que são articulados com uma multiplicidade de questões socioculturais, econômicas, políticas e éticas (Marandino, 2003, p.175). Fala-se, pois, em um “neo-humanismo educacional” que, em uma de suas pontas, busca promover uma série de valores que inclui o empenho docente em apresentar-se como pessoa e instigar os alunos a assumir o mesmo papel, isto é, posicionar-se como seres reflexivos, portadores de um conhecimento que supera os limites da técnica para alcançar o patamar do social, avaliando em termos amplos o conhecimento e seus produtos tecnológicos (Carvalho, 1992).
Tal procedimento encontra, porém, um obstáculo: a falta de acesso relativamente fácil e claro a informações ou posicionamentos éticos sobre as novidades científicas. Pesquisas como a de Almeida (1993), assim como conversas informais com professores atuantes no ensino fundamental e médio, deixam claro que os manuais didáticos apresentam as aquisições científicas recentes e posicionamentos críticos de forma superficial, enquanto os artigos especializados, além de acesso mais difícil, mostram-se na sua maioria pouco compreensíveis para a maior parte dos docentes. Assim, tanto para o professor quanto para a sociedade abrangente, o caminho mais viável para a inteiração sobre as recentes descobertas científicas encontra-se nos produtos gerados nos meios massivos de comunicação, especialmente os jornais diários e os programas de televisão.
Tomando-se como exemplo os novos conhecimentos gerados no âmbito da Biologia Celular e da Biologia Molecular, ouviu-se em pesquisa ainda em fase de realização (Bertolli Filho, 2009) cerca de meia centena de leigos de diferentes formações, inclusive professores de diversas disciplinas, sobre o que conheciam acerca do que se convencionou considerar a área da Genética. Todos eles tinham o que dizer, asseverando que “sabiam” algo sobre o tema mediante o consumo de produtos midiáticos ou ainda devido a conversas com outras pessoas (familiares, amigos ou alunos) que, por sua vez, afirmaram ter entrado em contato com o assunto através dos meios de comunicação. É significativo também ressaltar que, a partir dos mesmos diálogos, soube-se que tais informações eram invocadas em sala de aula por aqueles que eram docentes, buscando com isto não só atualizar os conteúdos programáticos, mas também estimular o espírito crítico dos alunos.
Essa indicação, em um primeiro momento, sugeriria que os textos produzidos no campo do jornalismo científico seriam o caminho mais óbvio para a atualização de todos aqueles interessados em se inteirar dos novos conhecimentos científicos e da Genética em particular. Isto, porém, não parece o caminho correto a ser trilhado. A produção do jornalismo científico brasileiro, se comparada com a dos Estados Unidos, parece bem mais voltada para a exposição das “conquistas” científicas recentes, enfatizando o lado positivo dos novos conhecimentos e relegando a um opaco segundo plano, ou simplesmente omitindo, um olhar mais crítico, enquanto os jornalistas norte-americanos primam por ressaltar em seus textos as dimensões políticas e éticas do que é proposto pelos cientistas, estendendo-se no enfoque das possíveis consequências sociais da adoção das novas tecnologias e, nesse sentido, resistem à noção de uma “verdade científica” inquestionável (Reis, 2008).
A escassez de posturas críticas no âmbito do jornalismo científico não significa que, em especial os jornais impressos, não busquem refletir sobre o que as ciências propõem como novidades. Tomando-se como objeto de estudo o jornal paulistano Folha de S. Paulo, uma pesquisa buscou analisar como um diário enfocou o assunto referente à decifração do genoma humano, avaliando-se os textos publicados no período de 1994 a 2005 (Bertolli Filho, 2010). A opção pelo estudo desse jornal deveu-se à circunstância de ele servir já há mais de duas décadas como um modelo midiático imitado por grande número de impressos diários nacionais, inclusive na operação que limita as páginas destinadas exclusivamente ao jornalismo científico para noticiar o que está acontecendo, e deslocando as possíveis críticas favoráveis ou contrárias às novidades científicas para outros cadernos.
Este artigo enfoca a seguir o conteúdo de algumas matérias opinativas referentes aos conhecimentos gerados no âmbito do que se convencionou denominar de “Nova Genética”. Alguns desses artigos foram assinados pelos repórteres que trabalhavam no jornal analisado, mas a maior parte dos textos foi gerada por representantes das mais diferentes instituições nacionais e internacionais, sendo que todos eles não atuavam no campo da Genética, mas sim em outros setores, como as Ciências Sociais e Filosofia ou então ocupavam posições na burocracia política ou no comando de empresas. Acrescenta-se ainda que, na pesquisa anteriormente mencionada (Bertolli Filho, 2009), vários depoentes informaram que leram tais artigos e inclusive os utilizavam em suas falas públicas, alguns deles em sala de aula.
Os textos opinativos
A importância conferida aos temas científicos e seus desdobramentos sociais ensejou que, no decorrer de entrevistas motivadas pelos mais diversos assuntos, os jornalistas alterassem momentaneamente o rumo da conversa para questionar o entrevistado sobre como ele se posicionava acerca dos novos conhecimentos científicos, tendo-se como exemplo o que corriqueiramente ocorreu com os depoimentos registrados na seção “Entrevista de 2ª”, constante no caderno Mundo. Com esse recurso, o jornal favoreceu o contato com uma multiplicidade de posturas individuais sobre questões que tempos antes eram exclusivas da órbita dos pesquisadores científicos.
Nessas oportunidades, foi grande o número de referências aos termos mais conhecidos da Biologia. As menções ao DNA, aos genes e ao genoma humano pareciam ser uma estratégia adotada pelos articulistas, jornalistas e entrevistados para criar a sensação de cooptação com os valores da pós-modernidade e sua produção científica, tornando-se uma espécie de regra constitutiva da cultura genetocêntrica, inclusive em momentos que certamente causavam estranhamento ao leitor.
Acima de tudo, tal como propunha o diário paulistano em termos idealísticos, era necessário conhecer e debater os trabalhos executados pelos cientistas, porque o que estava sendo arquitetado nos laboratórios também estava promovendo uma ruptura sem precedentes nos quadros da história e da cultura. No mesmo dia em que se noticiou a identificação de mais dois genes “determinantes” da ocorrência do câncer, uma dupla de psicanalistas assinou um artigo, sintomaticamente intitulado “Era uma vez... já não é mais”, sobre a questão da paternidade e a nova posição do agrupamento familiar no rol das relações sociais contemporâneas; no texto, os autores fizeram uma rápida, porém incisiva, referência à Genética: “na atualidade, a última palavra pertence ao DNA”, relegando tal declaração a um plano incerto, deixando ao leitor decidir se eles estavam se referindo à problemática da paternidade ou à existência humana em geral (Jerusalinski & Tavares, 1994).
Desde que as questões nutridas pelo genoma humano e pelo essencialismo biológico tornaram-se referências praticamente obrigatórias nas entrevistas e nos artigos de tendência opinativa, foram frequentes as menções que admitiam o fato de “nós sermos nosso genoma”, ou, como sugeriu burlescamente David Zingg (1999), o comportamento humano “pode bem estar codificado no nosso genoma, dada a forma automática com que ocorre”. No mesmo sentido, o jornalista Luís Nassif, além de enfatizar que a biotecnologia estava dando origem a uma “nova economia”, recheou muitos de seus artigos com referências ao DNA e ao genoma, ensinando, dentre outras coisas, que as grandes endemias que historicamente têm abatido o Brasil poderiam ser extintas mediante o sequenciamento genômico de seus agentes biológicos causais e que a “medicina genética”, a um só tempo, elevaria o tempo médio de vida e faria cair pela metade o número de cirurgias. Isto porque, segundo ele, os clínicos iriam atuar sobre “o gene causador de doença” mediante a “transformação ou substituição quando ele [o gene] for defeituoso, inclusão em caso de ausência” (Nassif, 1998 e 2003).
Convocado para entrevista para discorrer sobre o processo democrático nacional, o jurista Goffredo Telles Júnior, após ter declarado seu “encanto com a descoberta do DNA pelos biólogos”, foi questionado por um jornalista com a pergunta: “O sr. teme algum desastre provocado pela manipulação da engenharia genética?”. Em resposta, o advogado mostrou-se cauteloso:
Preocupo-me muito com isso. A humanidade precisa tomar
cuidado. Esse capítulo da ciência moderna exige uma
manipulação cheia de sabedoria. Descobriu-se que o que se
considera consciência livre do ser humano depende em parte
de uma predisposição do patrimônio genético. (Natali, 1999) Fascinação pelo novo e também receio pelo que as ciências e a tecnologia poderiam causar tornaram-se elementos centrais de várias matérias que, de regra, recitavam os presumíveis benefícios e declaravam os possíveis riscos de um saber que tendia a reduzir total ou parcialmente o homem aos seus atributos genéticos. Certamente por isso, tornou-se corriqueiro nas páginas da Folha o leitor deparar-se com textos que buscavam encontrar um eixo equilibrado entre as seguranças prometidas e os perigos potenciais que as ciências apresentavam. O advogado Gerardo de Mello Mourão (1998) escreveu que os “cientistas sabe-tudo”, alusão que englobava os geneticistas deterministas, eram tão “reacionários” quanto aqueles que negavam as recentes descobertas da genômica, ressaltando os riscos de aceitação acrítica de uma ciência dogmática. O psicanalista Contardo Calligaris (1996), por sua vez, asseverou que, se o cérebro estava sendo analisado pela perspectiva da bioquímica, isto não poderia implicar a redução das emoções humanas ao nível do exclusivamente biológico.
As apregoações antideterministas mesclavamse com projeções sobre o porvir, variando entre observações que, numa ponta, vislumbravam o alcance de grau máximo da perfectibilidade corporal e espiritual humana e, em outra, um cenário de catástrofes que poderia colocar a existência da espécie humana no caminho da sua própria extinção. Nesse ritmo, vários intelectuais comunicaram suas projeções – ou fantasias –, que, a partir das novidades geradas pelas ciências, expunham estruturas culturais fomentadas ao longo da história e que reapareceram em sua plenitude, atualizadas pelas questões suscitadas pela Genética.
Durante uma entrevista, o filósofo Jacques Derrida pontificou que a cultura, a língua, o simbólico e “nem mesmo a morte” estavam inscritos no genoma (Nascimento, 2001), ao passo que, em um artigo, o também filósofo Francis Fukuyama alertou para o fato de a recorrência aos novos suportes biotecnológicos incorrer no “risco de desencadear consequências imprevistas” que poderiam “solapar a própria base dos direitos democráticos iguais” (Fukuyama, 2002). O teórico da cultura Paul Virilio, por sua vez, também no curso de uma entrevista, anunciou que, no contexto de seguidas guerras, “está a caminho” a produção de uma “bomba genética [...] capaz de modificar o genoma e operar mudanças na raça humana” (Não há mais..., 2003).
Se muitos dos articulistas ou entrevistados mostraram-se favoráveis a uma postura que combinava o genético, o social e o individual na explicação da “natureza humana”, outros empenharam-se em denunciar a ocorrência de uma “colonização genética”, que, ao reduzir a existência humana aos seus limites biológicos, realimentava e atualizava as bases de uma cultura anti-humanista. Aventou-se então, em termos weberianos, a ocorrência de um “segundo desencantamento do mundo”, que, ao rejeitar as experiências sensíveis, estava alimentando um novo “irracionalismo” sob a égide das ciências e da tecnologia.
Nesse sentido, os autores de uma série de artigos mostraram-se perplexos diante da hipótese da existência de um gene responsável pela fala e dos anúncios sobre a identificação de um gene da homossexualidade e outro da melancolia. O cientista social alemão Robert Kurz (1996), em um longo artigo, lembrou os horrores praticados em nome da eugenia e de seu uso pelo nazismo, buscando explicações para o posicionamento reducionista adotado por muitos dos cientistas:
Tais estudiosos são muitas vezes ingênuos sob a óptica social e
assim talvez não percebam como suas pesquisas “puramente
objetivas” sofrem a influência de correntes ideológicas que
solapam a sociedade. Escusado observar que a redução da
cultura e sociabilidade humanas ao padrão da biologia
molecular confere argumentos à legitimação de um barbarismo
renovado. [...] O neoliberalismo, com sua pseudofísica
ideológica das leis de mercado, soltou as peias de todos os
demônios do barbarismo moderno e, assim, remontou à
irracionalidade do “cientificismo social” do século XIX. (Kurz,
1996)
A “politização” dos debates tornou-se uma estratégia recorrente para o combate da “biologização” da vida social; em vários artigos, os geneticistas foram seguidamente tachados de “fascistas”, “neoliberais, “alienados” e, intencionalmente ou não, “coniventes com os interesses dos poderosos”, ou ainda simplesmente “ingênuos” a ponto de colocarem seus conhecimentos a serviço da legitimação de uma ordem social perversa.
As referências acerca de uma linhagem científica reducionista da complexidade humana multiplicaram-se nas páginas da Folha. Alertou-se com insistência para o fato de ser necessário promover os debates públicos sobre a questão, inclusive por se detectar um cenário no qual já se anunciava a superação do humano pelo pós-humano, marca fundamental de um tempo em que o homem estava deixando de ser “a medida de todas as coisas”.
Quem afirmou isto foi o sociólogo Laymert Garcia dos Santos, em entrevista concedida à jornalista Juliana Monachesi (2003). Após explicitar as vinculações existentes entre as produções científicas e os interesses econômicos, o docente da Universidade de Campinas afirmou com veemência que, na pós-modernidade, a medicina teria que obrigatoriamente renovar suas concepções, substituindo a noção de corpo como uma entidade anatômica pela de “uma série de agenciamentos de informações” de caráter genético. E prosseguiu:
a medicina pós-humana vai trabalhar com as possibilidades que
se abrem pelas novas tecnologias, de fazer intervenções e
modificações nesse corpo, que na verdade não cabem dentro
da concepção de medicina moderna. Já é outra medicina. Essa
dissolução que ocorre na passagem para uma perspectiva
micro, molecular, essa dissolução é que está sendo chamada
de o pós-moderno. Esse “pós” designa uma passagem para
outra coisa. (Santos, apud Monachesi, 2003)
Questionado sobre o que seria essa “outra coisa”, o entrevistado ofereceu uma resposta que, pelo menos por enquanto, ruma em direção à bioficção:
Aí começam as diferenciações dentro do pós-humano sobre o
que seria, digamos assim, a “superação” desse corpo. De um
lado existe uma corrente que vai começar a trabalhar a
“obsolescência” do corpo, [...] falar em ser humano 2.0,
pensando essa superação como uma transcendência desse
corpo sendo concebida da seguinte maneira: “E se o corpo
fosse apenas um suporte que pode ser, digamos, abstraído, e a
gente pudesse pensar a mente humana como algo que
pudesse ter uma continuidade, a gente poderia fazer o humano
existir para além desse suporte?”. Essa linhagem vai trabalhar
isso via inteligência artificial e robótica.
A outra linha é a da biogenética, que é a transformação do
próprio humano. A transformação do humano, de certo modo,
abre perspectivas de uma segunda linha de evolução, que não
é mais uma evolução natural. E a grande discussão hoje em dia
é qual é o sentido dessa transformação que pode levar a uma
outra natureza humana e quem vai entrar nessa outra natureza
humana. Aí você tem toda a questão, por exemplo, das novas
formulações da eugenia, todo o medo da volta das doutrinas
dos anos 30, inclusive do nazismo, etc., sobre melhoramento
não mais da raça, mas de patrimônio genético. (Santos, apud
Monachesi, 2003)
Em praticamente todas essas matérias, a sociedade foi implícita ou explicitamente situada como potencial vítima da confluência da insanidade ou voracidade dos cientistas em expandir as fronteiras do conhecimento e da volúpia empresarial em lucrar e criar novos dispositivos disciplinadores para serem impostos a todos.
Mesmo que predominante nos espaços da Folha não dedicados exclusivamente ao noticiário científico, essa tendência interpretativa contou com inúmeras exceções. Uma delas deveu-se a outro sociólogo, o francês Lucien Sfez (A grande saúde, 1996), em uma longa entrevista, buscou explicar os motivos que, apesar de todos os receios e alertas, garantiam a tendência coletiva de aceitação entusiasmada das novas propostas – e das promessas – emanadas da Genética e da biotecnologia por ela fomentada.
Segundo esse intelectual, em um momento em que as mediações tradicionais, como as oferecidas pela política e pela religião mostravam-se desgastadas, as ciências despontavam como a “nova religião”, sendo incorporadas como as melhores “solucionadoras” dos dilemas, não só do corpo como também da vida social. Antes de tal admissão, as sociedades ocidentais tentaram outros caminhos, inclusive a busca do “natural”, isto é, a rejeição dos produtos e dos comportamentos avaliados como modernos, migrando para territórios afastados do agito metropolitano e consumindo dietas baseadas em produtos que não usassem agrotóxicos. Com isso, pouco foi resolvido, persistindo os mesmos problemas contemporâneos, do câncer à proliferação dos atos criminosos.
Sem deixar de se reportar à Genética como elemento instrutor de uma nova dimensão do biopoder e de relacioná-la com as intenções de incremento dos lucros empresariais, Sfez centrou sua argumentação na experiência cultural das últimas décadas, afirmando que os partícipes da pós-modernidade haviam assumido que “o inimigo está em nós”, isto é, em nosso corpo e em nossa mente e era contra ambos que todos se debatiam. Para o entrevistado, tal constatação teria instigado a “busca pela saúde perfeita”, a primeira das utopias construídas coletivamente nesse novo período da história. E essa utopia já tinha articulado seu primeiro projeto: o sequenciamento do genoma humano. Explicou o sociólogo o que deveria ser entendido por “grande saúde”:
É o projeto de purificação genética por meio do mapeamento
dos genes e doenças genéticas, o de purificação do planeta, o
da criação de uma vida perfeitamente pura, a vida artificial. [...]
O termo se aplica a este homem novo, que estaria além da
nossa infeliz existência humana, que atingiria a imortalidade,
que não precisa em nada de Deus, moral e metafísica. (Sfez,
apud A grande saúde, 1996)
Negando-se a colocar em campos opostos a utopia e a realidade, dissertou para os leitores sobre a fluência de uma “tecnociência onipresente”, geradora de utopias que, para ele, estavam fadadas a ser concretizadas:
O sonho derivado do Projeto Genoma é a busca da perfeição,
da reconciliação do homem com sua natureza original pura, a
nostalgia de ser perfeito, busca fetichizada pela mídia, pelos
laboratórios, pela qual se interessam as seguradoras, que não
querem garantir mais seres imperfeitos, quando se pode saber
quem são essas figuras de alto risco. [...] Os narradores
onipotentes [da nova utopia] são os cientistas com seu discurso
em si mesmo incontestável. (Sfez, apud A grande saúde, 1996)
Afirmou também que o imaginário tecnológico dispensava comentários porque soberano, e justificou o empenho do público em consumir os novos conhecimentos, produtos e serviços como estratégia de uma busca irrefreável e nada inocente ou ignorante pela purificação suprema: “O retorno à origem é o reencontro de Adão antes da queda, uma espécie de Adão perfeito, o Adão do paraíso terrestre, geneticamente purificado”.
Fugindo uma vez mais à tendência predominante nas páginas do jornal focado, o sociólogo francês mostrou-se plenamente crente em relação às promessas científicas, deslocando a pecha de irracional para os que estavam rejeitando as amplas possibilidades de redefinição do homem e do seu corpo pela Genética:
Por que as pessoas pretendem fazer uma defesa humanista,
contra a pressão avassaladora e até totalitária da ciência, se
recorrem a argumentos um pouco etnológicos, antropológicos?
Defende-se então um tipo de irracionalismo, esse tipo de coisa,
você sabe muito bem que existe, não vou citar nomes, pois não
é meu papel atacar pessoas. [...] Tome nota. Vai haver a
medicina desse corpo total, psicossomático, e haverá a
medicina dos ricos [com embasamento na genética], que
sabem muito bem o que fazer nesse caso. Nas clínicas mais
importantes de São Paulo e do Rio, eles vão ter à disposição as
terapias gênicas e lhe asseguro que eles acorrerão em massa a
essas clínicas, e eles serão curados. (Sfez, apud A grande
saúde, 1996)
Em linha próxima à de Sfez, alguns outros personagens mostraram-se convictos da positividade de tudo o que estava acontecendo nos setores das ciências e da tecnologia, dentre eles Bill Gates (1996), presidente da empresa Microsoft. Em seu texto reiterou a importância estratégica da informática para o desenvolvimento dos estudos moleculares sobre os seres vivos, acrescentando que, se não trabalhasse com computadores, certamente estaria atuando no setor biotecnológico. Isto porque:
Prevejo avanços de tirar o fôlego na medicina nas próximas
duas décadas, e os pesquisadores e as companhias de
biotecnologia estão no centro desse progresso. [...] Os
pesquisadores estão expandindo nossos conhecimentos sobre
o funcionamento do corpo no nível mais fundamental, e esse
conhecimento nos está propiciando uma compreensão mais
profunda das doenças e de como tratá-las. (Gates, 1996)
Outras matérias mostraram-se tão ou ainda mais entusiasmadas do que o texto de autoria de Gates, declarando que o século XXI seria o tempo de domínio da biotecnologia. O jornalista Walter Isaacson (1999) convocou seus leitores a darem adeus ao “século da Física, da divisão do átomo e da transformação do silício em força motriz dos computadores”, pois estava para se iniciar o “século da biotecnologia”. E prosseguiu:
A medicina moderna pouco fez para alterar o tempo de vida
natural dos seres humanos. A próxima revolução científica
mudará esse equilíbrio, porque a engenharia genética tem o
potencial de vencer o câncer, fazer com que novos vasos
sanguíneos cresçam no coração, bloquear o crescimento de
vasos em tumores, criar novos órgãos a partir de células
indiferenciadas e, talvez, encontrar um novo ajuste para o
código genético antigo que causa o envelhecimento das
células. Em 5 milhões de anos, desde que os hominídeos
seguiram um caminho evolutivo diferente dos chimpanzés, o
DNA humano modificou-se em apenas 2%. Mas, no século que
vem, seremos capazes de alterá-lo radicalmente, codificando
nossas qualidades e planejando novas formas de vida. Nossos
filhos poderão escolher o sexo e a cor dos olhos de seus filhos,
talvez até aperfeiçoar seu quociente de inteligência, sua
personalidade e sua habilidade esportiva. Poderão criar clones
de si mesmos, de seus filhos, ou talvez até clones de nós
mesmos depois de mortos. (Isaacson, 1999)
Não satisfeito o suficiente com suas projeções fantasiosas, o autor foi mais longe ainda; suas apregoações deixaram o campo das ciências para enveredar pela bioficção, confidenciando as esperanças depositadas no futuro:
Num futuro não muito distante [...] estaremos prontos para o
avanço que poderá vir no fim do próximo século, algo
comparável ao mapeamento dos nossos genes: o mapeamento
de cerca de 10 bilhões de neurônios do cérebro humano. De
posse dessa informação, poderemos criar inteligência artificial,
com poder de raciocínio e dotada de consciência, igual ao
cérebro humano. Por fim, poderemos reproduzir nossa mente
numa máquina, para que possamos viver livres das
imperfeições inerentes a nosso corpo e nosso cérebro
biológicos. (Isaacson, 1999)
Mais sobriamente, mas com o mesmo afinco ufanista, Bill Clinton (2001) marcou presença nas páginas da Folha para colocar em evidência a importância do sequenciamento genômico e, mais do que isso, confidenciar sua crença em um futuro melhor porque sob a égide da Genética. Ao se reportar a quais seriam os fatores dominantes da “alma do século XXI”, o ex-presidente norte-americano referiu-se às novas contribuições científicas para o entendimento dos seres humanos, repetindo o que já havia sido pontificado por inúmeros cientistas e políticos, e inclusive por ele próprio, quando instado a justificar oficialmente o montante de verbas públicas empenhado no Projeto Genoma Humano:
O sequenciamento do genoma humano abriu novas
perspectivas para a saúde, a medicina e a longevidade. Em
pouco tempo, vamos poder gerar perfis genéticos de bebês
antes mesmo de eles saírem da maternidade. Cientistas estão
trabalhando para criar chips que repliquem os nervos da coluna
vertebral e que, algum dia, talvez possam permitir que pessoas
que sofreram danos à espinha levantem de suas cadeiras de
rodas e voltem a andar. (Clinton, 2001)
Considerações finais
As matérias invocadas neste texto são apenas exemplos de um grande número de artigos que repetiram os mesmos argumentos e recitaram as mesmas fantasias sobre o futuro da Genética. A reiteração contínua das mesmas perspectivas, não importando se baseadas em constatações científicas ou no imaginário, tenderam a fazer que os conteúdos midiáticos fossem assumidos pelos leitores, inclusive pelos docentes com quem se dialogou. Para a maior parte destes, a leitura de matérias como as mencionadas não diminuíram suas dúvidas sobre o que pode acontecer no futuro; ao invés disto, ampliaram-nas. Em apenas um caso a pessoa com quem se dialogou mostrou-se destituída de dúvidas; um professor da área de ciências informou taxativamente que o futuro sob a égide da Genética constitui-se numa “verdade inquestionável”, prenunciando que, não a sua geração, mas a dos seus filhos, vislumbraria um mundo mais harmônico, inclusive com a ausência das doenças e da dor e, ainda mais, que poderia aspirar à vida eterna.
Nesse contexto, jornalistas, personalidades entrevistadas e os leitores da Folha de S. Paulo mostram-se partícipes da pós-modernidade, dando sentido a um “contrato comunicacional” que, ao buscar argumentos para antever um futuro menos adverso, confrontam-se também com seus medos mais profundos. E tal movimento reflete-se igualmente em sala de aula, fazendo frutificar novos desafios para o ensino de ciências.
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1 . Universidade Estadual Paulista – Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação/Campus de Bauru. Docente do Departamento de Ciências Humanas e do Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência. Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências. e-mail:
cbertolli@uol.com.br.